quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Máximas marxianas - parte 3

Seguindo Máximas marxianas (parte 2 ver aqui), os extratos selecionados por mim, do livro "Karl Marx: uma biografia" de José Paulo Netto.

III - Bruxelas: a relação orgânica com a classe operária (1845-1848)


É durante o exílio belga (1845-1848) que a inflexão intelectual e teórica iniciada por Marx em Paris se conclui: o deslizamento da filosofia para a crítica da economia política completa-se em Bruxelas, e também é na capital Belga que se estabelece a relação orgânica de Marx com a classe e o movimento operários. Nesses anos, o jovem filósofo afirma-se como intelectual e dirigente revolucionário, numa vinculação teórico-prática que terá a sua primeira prova no processo da Revolução de 19481. [Netto, José Paulo, Karl Marx: uma biografia, pp. 141, Boitempo, 2020.]

As Teses sobre Feurbach (ver Annexus, abaixo) e a viagem à Inglaterra

(...) No tocante à interação dos homens, à sociedade - e, logo, à política e à história - as limitações do pensamento de Feuerbach (para os quais  Marx já apontara em carta a Ruge de 13 de março de 1843, que citamos no capítulo I) tornam-se agora decisivas e patentes na crítica marxiana. Ignorada inteiramente por Feuerbach a práxis (e obviamente ignorado o trabalho), essas limitações evidenciam-se em dois níveis interligados. O primeiro, mais evidente, diz respeito à educação, que, no fundo, põe os dilemas da autotransformação dos homens. É na tese 3 que Marx o destaca:

A doutrina materialista sobre a modificação das circunstâncias e da educação esquece que as circunstâncias são modificadas pelos homens e que o próprio educador tem que ser educado. Ele tem, por isso, que dividir a sociedade em duas partes - a primeira das quais está colocada acima da sociedade. A coincidência entre a altera[ção] das circunstâncias e a atividade ou automodificação humanas só pode ser apreendida e racionalmente entendida como prática revolucionária.

Também aqui, a crítica marxiana não tem por objetivo só o pensamento de Feuerbach; dirige-se igualmente à tradição iluminista (Helvétius, d'Holbach), cujos procedimentos Feuerbach reproduz. Tanto este como aquela supõem um educando passivo diante de um educador misteriosamente iluminado, ou seja, dois lados: "Em cima a teoria [...], em baixo, a prática ou os indivíduos presos às supertições e às desigualdades" (Labica, 1990, p. 83)24. Numa apreciação que talvez não seja a mais precisa, um biógrafo dos mais qualificados força a mão e chega a afirmar que a divisão da sociedade em duas categorias de indivíduos (a aristocracia dos educadores e a massa dos indivíduos a educar) "é indiretamente a justificação da divisão da sociedade em classes antagônicas" (Cornu, 1976, v. IV, p. 195). Assinale-se, por outra parte, que um pouco antes e um pouco depois da redação das Teses, a relação homens/circunstâncias foi tema de digressões de Marx25.

(...) O novo materialismo e a sua perspectiva sócio-histórica (o seu "ponto de vista") ainda não estão constituídos, embora ambos já estejam em processo de fundação. E a derradeira das Teses, a de número 11 afirma o ponto da partida para tal: "Os filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é transforma-lo". Tese tornada célebre, que não pode tomada como indicativa de que Marx contrapõe a atividade política-transformadora à compreensão teórica. De fato, a 11a tese "absolutamente não opõe a transformação do mundo à sua inteligência teórica" (Sève, em Marx, 2011, p. 25); ao contrário, supõe-na visceralmente articulada à inteligência teórica que o novo materialismo, com a sua própria (e nova) perspectiva sócio-histórica, permite elaborar. [Netto, José Paulo, Karl Marx: uma biografia, pp. 147, 148 e 150, Boitempo, 2020.]

Notas

1 Acerca do período que Marx viveu em Bruxela, ver

Cornu, ( 1975-1976). Carlos Marx. Frederico Engels. v. IV, p. 170 e seg. Havana. Editorial  de Ciências Sociales, 4 v.

Wheen, Francis (2001), Karl Marx. p. 91 e seg., Rio de Janeiro, Record.

Buey, Francisco Fernándes (2004). Marx (sem ismos). p. 123-7. Rio de Janeiro. Editora UFRJ.

Cottret, Bernard (2010). Karl Marx. Une vie entre romantisme et révolution. p. 100 e seg. Paris, Perrin.

Gabriel, Mary (2013). Amor e capital. A saga familiar de Karl Marx e a história de uma revolução. p. 112-68. Rio de Janeiro, Zahar.

Mehring, Franz (2013). Karl Marx. A história da sua vida. p. 121-59. São Paulo, Sundermann.

Sperber, Jonathan (2014). Karl Marx. Uma vida do século XIX. p. 160-218. Barueri, Amarilyz.

Jones, Gareth Stedman (2017). Karl Marx. Grandeza e ilusão. p. 191 e seg. São Paulo, Companhia das Letras.

Ver, ainda, Somerhausen, Luc (1946). L'Humanisme agissant de Karl Marx. Paris, Richard-Masse.; Andreas, Bert (1978). Marx 'Verhaftung und Ausweisung Brussel Februar/Marz 1948. Trier, Schriften aus dem Karl Marx -Hauss.; Maesschalck, Edward de (2005). Marx in Brussel (1845-1848). Leuven, Davidsfond.

24 As páginas que Labica (1990, p. 81-96) dedica a essa tese 3 são exemplares tanto do ponto de vista analítico quanto do histórico.

25 Ver em a Sagrada família os comentários sobre Helvétius (Marx - Engels, 2003, p. 151-2) e, em A ideologia alemã, o passo em que Marx-Engels escrevem que "as circunstâncias fazem os homens, assim como os homens fazem as circunstâncias" (Marx-Engels, 2007,p. 43) - ou, ainda, que "na atividade revolucionária, o transformar-se a si mesmo coincide com o transformar as circunstâncias" (ibidem, p. 209). Essas indicações fortalecem a ideia de Cornu (ver Cornu,1976, v. IV, p. 187) sobre as Teses como "elo" entre os textos imediatamente anterior e posterior a elas, ideia subscrita em tempos recentes por outro analista: "As Teses constituem [...] um momento peculiar numa trajetória que, muito em breve, haveria de conduzir ao grosso manuscrito de A ideologia alemã" (Barata-Moura, 2018, p. 37).

Referências

Barata-Moura, José (2018). As teses da "Teses". Para um exercício de leitura. Lisboa, Avante!

Cornu, ( 1975-1976). Carlos Marx. Frederico Engels. Havana. Editorial  de Ciências Sociales, 4 v.

Labica, Georges (1990) As teses sobre Feuerbach de Karl Marx, Rio de Janeiro, Jorge Zahar.

Marx, Karl. Écrits philosophiques. Org. Luicien Sève. Paris, Flammarion.

Marx-Engels, 2003. A sagrada família ou A crítica da Crítica crítica. Contra Bruno Bauer e consortes (1845). Trad. Marcelo Backes. São Paulo, Boitempo.

Marx - Engels, 2007. A ideologia alemã (1845-1846). Trad. Luciano Cavini Martorano, Nélio Schneider e Rubens Enderle. São Paulo, Boitempo


Annexus

Teses sobre Feuerbach, Karl Marx, 1845 

1

A principal insuficiência de todo o materialismo até aos nossos dias — o de Feuerbach incluído — é que as coisas [der Gegenstand], a realidade, o mundo sensível são tomados apenas sobre a forma do objeto [des Objekts] ou da contemplação [Anschauung]; mas não como atividade sensível humana, práxis, não subjetivamente. Por isso aconteceu que o lado ativo foi desenvolvido, em oposição ao materialismo, pelo idealismo — mas apenas abstratamente, pois que o idealismo naturalmente não conhece a actividade sensível, real, como tal. Feuerbach quer objetos [Objekte] sensíveis realmente distintos dos objetos do pensamento; mas não toma a própria actividade humana como atividade objetiva [gegenständliche Tätigkeit]. Ele considera, por isso, na Essência do Cristianismo, apenas a atitude teórica como a genuinamente humana, ao passo que a práxis é tomada e fixada apenas na sua forma de manifestação sórdida e judaica. Não compreende, por isso, o significado da actividade “revolucionária”, de crítica prática.

2

A questão de saber se ao pensamento humano pertence a verdade objectiva não é uma questão da teoria, mas uma questão prática. É na práxis que o ser humano tem de comprovar a verdade, isto é, a realidade e o poder, o carácter terreno do seu pensamento. A disputa sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis é uma questão puramente escolástica.

3

A doutrina materialista de que os seres humanos são produtos das circunstâncias e da educação, [de que] seres humanos transformados são, portanto, produtos de outras circunstâncias e de uma educação mudada, esquece que as circunstâncias são transformadas precisamente pelos seres humanos e que o educador tem ele próprio de ser educado. Ela acaba, por isso, necessariamente, por separar a sociedade em duas partes, uma das quais fica elevada acima da sociedade (por exemplo, em Robert Owen).

A coincidência do mudar das circunstâncias e da atividade humana só pode ser tomada e racionalmente entendida como práxis revolucionante.

4

Feuerbach parte do fato da auto-alienação religiosa, da duplicação do mundo no mundo religioso, representado, e num real. O seu trabalho consiste em resolver o mundo religioso na sua base mundana. Ele perde de vista que depois de completado este trabalho ainda fica por fazer o principal. É que o fato de esta base mundana se destacar de si própria e se fixar, um reino autônomo, nas nuvens, só se pode explicar precisamente pela autodivisão e pelo contradizer-se a si mesma desta base mundana. É esta mesma, portanto, que tem de ser primeiramente entendida na sua contradição e depois praticamente revolucionada por meio da eliminação da contradição. Portanto, depois de, por exemplo a família terrena estar descoberta como o segredo da sagrada família, é a primeira que tem, então, de ser ela mesma teoricamente criticada e praticamente revolucionada.

6

Feuerbach resolve a essência religiosa na essência humana. Mas, a essência humana não é uma abstração inerente a cada indivíduo. Na sua realidade ela é o conjunto das relações sociais.

Feuerbach, que não entra na crítica desta essência real, é, por isso, obrigado: 1. a abstrair do processo histórico e fixar o sentimento [Gemüt] religioso por si e a pressupor um indivíduo abstratamente — isoladamente — humano; 2. nele, por isso, a essência humana só pode ser tomada como “espécie”, como generalidade interior, muda, que liga apenas naturalmente os muitos indivíduos.

7

Feuerbach não vê, por isso, que o próprio “sentimento religioso” é um produto social e que o indivíduo abstrato que analisa pertence na realidade a uma determinada forma de sociedade.

8

A vida social é essencialmente prática. Todos os mistérios que seduzem a teoria para o misticismo encontram a sua solução racional na práxis humana e no compreender desta práxis.

9

O máximo que o materialismo contemplativo [der anschauende Materialismus] consegue, isto é, o materialismo que não compreende o mundo sensível como atividade prática, é a visão [Anschauung] dos indivíduos isolados na “sociedade civil”.

10

O ponto de vista do antigo materialismo é a sociedade “civil”; o ponto de vista do novo [materialismo é] a sociedade humana, ou a humanidade socializada.

11

Os filósofos têm apenas interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.

_________________________

Escrito: primavera de 1845. Primeira publicação: por Engels, em 1888, como apêndice à edição em livro da sua obra Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Alemã Clássica, Estugarda 1888, pp. 69-72. Publicado segundo a versão de Engels de 1888, em cotejo com a redação original de Marx. Tradução: Álvaro Pina, do alemão. HTML: Jørn Andersen para o Arquivo Marxista na Internet, em 25 de julho de 2000.

Direitos autorais: © Direitos de tradução em língua portuguesa reservados por Editorial "Avante!" - Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982.

 



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