Seguindo Máximas marxianas (parte 2 ver aqui), os extratos selecionados por mim, do livro "Karl Marx: uma biografia" de José Paulo Netto.
III - Bruxelas: a relação
orgânica com a classe operária (1845-1848)
É durante o exílio belga
(1845-1848) que a inflexão intelectual e teórica iniciada por Marx em Paris se
conclui: o deslizamento da filosofia para a crítica da economia política
completa-se em Bruxelas, e também é na capital Belga que se estabelece a relação
orgânica de Marx com a classe e o movimento operários. Nesses anos, o jovem
filósofo afirma-se como intelectual e dirigente revolucionário, numa vinculação
teórico-prática que terá a sua primeira prova no processo da Revolução de 19481.
[Netto, José Paulo, Karl Marx: uma biografia, pp. 141, Boitempo, 2020.]
As Teses sobre Feurbach
(ver Annexus, abaixo) e a viagem à Inglaterra
(...) No tocante à interação dos
homens, à sociedade - e, logo, à política e à história - as limitações do
pensamento de Feuerbach (para os quais
Marx já apontara em carta a Ruge de 13 de março de 1843, que citamos no
capítulo I) tornam-se agora decisivas e patentes na crítica marxiana. Ignorada
inteiramente por Feuerbach a práxis (e obviamente ignorado o trabalho), essas
limitações evidenciam-se em dois níveis interligados. O primeiro, mais
evidente, diz respeito à educação, que, no fundo, põe os dilemas da autotransformação
dos homens. É na tese 3 que Marx o destaca:
A doutrina materialista sobre a
modificação das circunstâncias e da educação esquece que as circunstâncias são
modificadas pelos homens e que o próprio educador tem que ser educado. Ele tem,
por isso, que dividir a sociedade em duas partes - a primeira das quais está
colocada acima da sociedade. A coincidência entre a altera[ção] das
circunstâncias e a atividade ou automodificação humanas só pode ser apreendida
e racionalmente entendida como prática revolucionária.
Também aqui, a crítica marxiana
não tem por objetivo só o pensamento de Feuerbach; dirige-se igualmente à
tradição iluminista (Helvétius, d'Holbach),
cujos procedimentos Feuerbach reproduz. Tanto este como aquela supõem um
educando passivo diante de um educador misteriosamente iluminado, ou seja, dois
lados: "Em cima a teoria [...], em baixo, a prática ou os indivíduos
presos às supertições e às desigualdades" (Labica, 1990, p. 83)24.
Numa apreciação que talvez não seja a mais precisa, um biógrafo dos mais
qualificados força a mão e chega a afirmar que a divisão da sociedade em duas
categorias de indivíduos (a aristocracia dos educadores e a massa dos
indivíduos a educar) "é indiretamente a justificação da divisão da
sociedade em classes antagônicas" (Cornu, 1976, v. IV, p. 195).
Assinale-se, por outra parte, que um pouco antes e um pouco depois da redação
das Teses, a relação homens/circunstâncias foi tema de digressões de
Marx25.
(...) O novo materialismo e a sua
perspectiva sócio-histórica (o seu "ponto de vista") ainda não estão
constituídos, embora ambos já estejam em processo de fundação. E a derradeira
das Teses, a de número 11 afirma o ponto da partida para tal: "Os
filósofos apenas interpretaram o mundo de diferentes maneiras; o que importa é
transforma-lo". Tese tornada célebre, que não pode tomada como indicativa
de que Marx contrapõe a atividade política-transformadora à compreensão
teórica. De fato, a 11a tese "absolutamente não opõe a
transformação do mundo à sua inteligência teórica" (Sève, em Marx, 2011, p.
25); ao contrário, supõe-na visceralmente articulada à inteligência teórica que
o novo materialismo, com a sua própria (e nova) perspectiva sócio-histórica,
permite elaborar. [Netto, José Paulo, Karl Marx: uma biografia,
pp. 147, 148 e 150, Boitempo, 2020.]
Notas
1
Acerca do período que Marx viveu em Bruxela, ver
Cornu, ( 1975-1976). Carlos
Marx. Frederico Engels. v. IV, p. 170 e seg. Havana. Editorial de Ciências Sociales, 4 v.
Wheen, Francis (2001), Karl
Marx. p. 91 e seg., Rio de Janeiro, Record.
Buey, Francisco Fernándes (2004).
Marx (sem ismos). p. 123-7. Rio de Janeiro. Editora UFRJ.
Cottret, Bernard (2010). Karl
Marx. Une vie entre romantisme et révolution. p. 100 e seg. Paris, Perrin.
Gabriel, Mary (2013). Amor e
capital. A saga familiar de Karl Marx e a história de uma revolução. p.
112-68. Rio de Janeiro, Zahar.
Mehring, Franz (2013). Karl
Marx. A história da sua vida. p. 121-59. São Paulo, Sundermann.
Sperber, Jonathan (2014). Karl
Marx. Uma vida do século XIX. p. 160-218. Barueri, Amarilyz.
Jones, Gareth Stedman (2017). Karl
Marx. Grandeza e ilusão. p. 191 e seg. São Paulo, Companhia das Letras.
Ver, ainda, Somerhausen, Luc
(1946). L'Humanisme agissant de Karl Marx. Paris, Richard-Masse.;
Andreas, Bert (1978). Marx 'Verhaftung und Ausweisung Brussel Februar/Marz
1948. Trier, Schriften aus dem Karl Marx -Hauss.; Maesschalck, Edward de
(2005). Marx in Brussel (1845-1848). Leuven, Davidsfond.
24 As páginas que Labica (1990, p.
81-96) dedica a essa tese 3 são exemplares tanto do ponto de vista analítico
quanto do histórico.
25 Ver em a Sagrada família os
comentários sobre Helvétius (Marx - Engels, 2003, p. 151-2) e, em A ideologia
alemã, o passo em que Marx-Engels escrevem que "as circunstâncias
fazem os homens, assim como os homens fazem as circunstâncias"
(Marx-Engels, 2007,p. 43) - ou, ainda, que "na atividade revolucionária, o
transformar-se a si mesmo coincide com o transformar as circunstâncias"
(ibidem, p. 209). Essas indicações fortalecem a ideia de Cornu (ver Cornu,1976,
v. IV, p. 187) sobre as Teses como "elo" entre os textos
imediatamente anterior e posterior a elas, ideia subscrita em tempos recentes
por outro analista: "As Teses constituem [...] um momento peculiar
numa trajetória que, muito em breve, haveria de conduzir ao grosso manuscrito
de A ideologia alemã" (Barata-Moura, 2018, p. 37).
Referências
Barata-Moura, José (2018). As
teses da "Teses". Para um exercício de leitura. Lisboa, Avante!
Cornu, ( 1975-1976). Carlos
Marx. Frederico Engels. Havana. Editorial
de Ciências Sociales, 4 v.
Labica, Georges (1990) As
teses sobre Feuerbach de Karl Marx, Rio de Janeiro, Jorge Zahar.
Marx, Karl. Écrits
philosophiques. Org. Luicien Sève. Paris, Flammarion.
Marx-Engels, 2003. A sagrada
família ou A crítica da Crítica crítica. Contra Bruno Bauer e consortes (1845).
Trad. Marcelo Backes. São Paulo, Boitempo.
Marx - Engels, 2007. A ideologia
alemã (1845-1846). Trad. Luciano Cavini Martorano, Nélio Schneider e Rubens
Enderle. São Paulo, Boitempo
Annexus
Teses sobre Feuerbach, Karl Marx,
1845
1
A principal insuficiência de todo
o materialismo até aos nossos dias — o de Feuerbach incluído — é que as coisas
[der Gegenstand], a realidade, o mundo sensível são tomados apenas sobre a
forma do objeto [des Objekts] ou da contemplação [Anschauung]; mas não como
atividade sensível humana, práxis, não subjetivamente. Por isso aconteceu que
o lado ativo foi desenvolvido, em oposição ao materialismo, pelo idealismo —
mas apenas abstratamente, pois que o idealismo naturalmente não conhece a
actividade sensível, real, como tal. Feuerbach quer objetos [Objekte]
sensíveis realmente distintos dos objetos do pensamento; mas não toma a
própria actividade humana como atividade objetiva [gegenständliche Tätigkeit].
Ele considera, por isso, na Essência do Cristianismo, apenas a atitude teórica
como a genuinamente humana, ao passo que a práxis é tomada e fixada apenas na
sua forma de manifestação sórdida e judaica. Não compreende, por isso, o
significado da actividade “revolucionária”, de crítica prática.
2
A questão de saber se ao
pensamento humano pertence a verdade objectiva não é uma questão da teoria, mas
uma questão prática. É na práxis que o ser humano tem de comprovar a verdade,
isto é, a realidade e o poder, o carácter terreno do seu pensamento. A disputa
sobre a realidade ou não realidade de um pensamento que se isola da práxis é
uma questão puramente escolástica.
3
A doutrina materialista de que os
seres humanos são produtos das circunstâncias e da educação, [de que] seres
humanos transformados são, portanto, produtos de outras circunstâncias e de uma
educação mudada, esquece que as circunstâncias são transformadas precisamente
pelos seres humanos e que o educador tem ele próprio de ser educado. Ela acaba,
por isso, necessariamente, por separar a sociedade em duas partes, uma das
quais fica elevada acima da sociedade (por exemplo, em Robert Owen).
A coincidência do mudar das
circunstâncias e da atividade humana só pode ser tomada e racionalmente
entendida como práxis revolucionante.
4
Feuerbach parte do fato da
auto-alienação religiosa, da duplicação do mundo no mundo religioso,
representado, e num real. O seu trabalho consiste em resolver o mundo religioso
na sua base mundana. Ele perde de vista que depois de completado este trabalho
ainda fica por fazer o principal. É que o fato de esta base mundana se destacar
de si própria e se fixar, um reino autônomo, nas nuvens, só se pode explicar
precisamente pela autodivisão e pelo contradizer-se a si mesma desta base
mundana. É esta mesma, portanto, que tem de ser primeiramente entendida na sua
contradição e depois praticamente revolucionada por meio da eliminação da
contradição. Portanto, depois de, por exemplo a família terrena estar
descoberta como o segredo da sagrada família, é a primeira que tem, então, de
ser ela mesma teoricamente criticada e praticamente revolucionada.
6
Feuerbach resolve a essência
religiosa na essência humana. Mas, a essência humana não é uma abstração
inerente a cada indivíduo. Na sua realidade ela é o conjunto das relações
sociais.
Feuerbach, que não entra na
crítica desta essência real, é, por isso, obrigado: 1. a abstrair do processo
histórico e fixar o sentimento [Gemüt] religioso por si e a pressupor um
indivíduo abstratamente — isoladamente — humano; 2. nele, por isso, a essência
humana só pode ser tomada como “espécie”, como generalidade interior, muda, que
liga apenas naturalmente os muitos indivíduos.
7
Feuerbach não vê, por isso, que o
próprio “sentimento religioso” é um produto social e que o indivíduo abstrato
que analisa pertence na realidade a uma determinada forma de sociedade.
8
A vida social é essencialmente
prática. Todos os mistérios que seduzem a teoria para o misticismo encontram a
sua solução racional na práxis humana e no compreender desta práxis.
9
O máximo que o materialismo
contemplativo [der anschauende Materialismus] consegue, isto é, o materialismo
que não compreende o mundo sensível como atividade prática, é a visão
[Anschauung] dos indivíduos isolados na “sociedade civil”.
10
O ponto de vista do antigo
materialismo é a sociedade “civil”; o ponto de vista do novo [materialismo é] a
sociedade humana, ou a humanidade socializada.
11
Os filósofos têm apenas
interpretado o mundo de maneiras diferentes; a questão, porém, é transformá-lo.
_________________________
Escrito: primavera de 1845.
Primeira publicação: por Engels, em 1888, como apêndice à edição em livro da
sua obra Ludwig Feuerbach e o Fim da Filosofia Alemã Clássica, Estugarda 1888,
pp. 69-72. Publicado segundo a versão de Engels de 1888, em cotejo com a
redação original de Marx. Tradução: Álvaro Pina, do alemão. HTML: Jørn Andersen
para o Arquivo Marxista na Internet, em 25 de julho de 2000.
Direitos autorais: © Direitos de
tradução em língua portuguesa reservados por Editorial "Avante!" -
Edições Progresso Lisboa - Moscovo, 1982.

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