sábado, 19 de novembro de 2022

Transamazônica 1: Amazônia: a nova Minamata?

"Só se fala da Amazônia quando há uma tragédia"

João Pedro Soares, 17/02/2017 

Em entrevista à DW, cineasta fala sobre seu novo documentário, que foca a preocupante contaminação por mercúrio na Amazônia, e afirma que a sociedade brasileira fecha os olhos para o que acontece na floresta.

O cineasta Jorge Bodanzky foi um dos primeiros diretores a filmar na Amazônia. Produzido em 1975, durante a ditadura militar, Iracema: uma transa amazônica é um marco do cinema brasileiro até hoje. A floresta seguiu inspirando a obra do documentarista de 78 anos, que agora finaliza seu novo filme. Em Amazônia: a nova Minamata?, ele lança o olhar para um perigo invisível: o envenenamento pelo mercúrio utilizado no garimpo.

Para revelar a dimensão do problema, o cineasta acompanhou o trabalho de um neurocirurgião de Santarém, Erik Jennings, e uma equipe da Fiocruz que monitora os níveis de contaminação nas populações locais, indígenas e ribeirinhas. O maior perigo está no consumo de peixe, principal alimento da região, mas o ar também tem rastros de contágio. Uma vez ingerido, o mercúrio fica no corpo definitivamente, e as consequências a longo prazo são trágicas.

No filme, Bodanzky recorre a imagens do Desastre de Minamata, no Japão, para mostrar o que pode estar no horizonte. A contaminação de uma baía cercada por vilarejos de pescadores, em 1956, deixou um rastro de mortes e sequelas neurológicas permanentes. Equipes acompanhadas pelo cineasta já registram casos desse tipo no Brasil e alertam para a tendência de agravamento da situação nas próximas décadas.

"Está se criando na Amazônia uma cidadania de segunda classe. São pessoas que já entram prejudicadas, crianças que já nascem sem as condições de inteligência e mobilidade de uma criança normal, e irão se tornar adultos deficientes", constata Bodanzky.

O documentário está em fase de finalização e deve ser lançado no segundo semestre deste ano. Em entrevista à DW Brasil, o cineasta fala sobre a concepção do novo filme, as diferenças entre a Amazônia dos anos 1970 e a dos dias de hoje, e a ofensiva do governo Jair Bolsonaro contra o setor audiovisual.

PALESTRA DE ENCERRAMENTO: AMAZÔNIA, A NOVA MINAMATA? vídeo 

DW Brasil: Como surgiu a ideia deste novo filme?

Jorge Bodanzky: Foi há cerca de dois anos, quando eu estava filmando uma série de seis capítulos para a HBO na região da Transamazônica. Na terra dos índios Munduruku, havia uma grande reunião de caciques para festejar a vitória de barrar temporariamente o projeto de uma hidrelétrica.

Estava lá o procurador federal Camões Boaventura, que deu suporte jurídico a essa ação. Ele estava acompanhado por um médico. Em um primeiro momento, não entendi o que um médico estava fazendo ali, já que a temática era política. Conversando com ele, o doutor Erik [Jennings], soube que estava pesquisando a questão do envenenamento por mercúrio. Foi então que tive uma primeira ideia da dimensão desse problema. Comecei a pesquisar o tema, que, em seguida, foi transformado em um documentário longa-metragem.

Mesmo conhecendo a Amazônia há quase 50 anos, trabalhando em fotografias, reportagens e filmes, eu não fazia ideia da dimensão do problema como está hoje. Como o Erik fala, o mercúrio é a ponta do iceberg, pois a partir dele chega-se a todos os problemas da Amazônia. O primeiro é a questão jurídico-política, da posse da terra, de como o governo está cuidando das questões amazônicas, passando pelas queimadas, hidrelétricas, ocupação do solo, pecuária, soja, além da questão indígena e da saúde. Tudo desemboca no mercúrio. É um termômetro perfeito para se analisar esses problemas todos.

Por que a escolha da comparação com a tragédia de Minamata, no Japão?

Esse episódio ocorreu há 40 anos, quando uma indústria química derramou metil-mercúrio na baía de Minamata, rodeada por vilarejos de pescadores. Eles comeram o peixe contaminado e, naquela época, não se tinha conhecimento desse dano. Como o Japão sofreu isso de forma muito violenta, eles têm um conhecimento acumulado muito grande. São 40 anos de pesquisas sobre isso.

No filme, pretendemos mostrar que os sintomas vistos agora na Amazônia indicam o mesmo que ocorreu em Minamata. Então, é possível prever o que será daqui a dez, 20, 30 anos na Amazônia, a partir do que houve no Japão. Os danos do mercúrio são neurológicos e irreversíveis. Uma vez estabelecido no corpo, não há o que curar.

Como o Erik fala, está se criando na Amazônia uma cidadania de segunda classe. São pessoas que já entram prejudicadas, crianças que já nascem sem as condições de inteligência e mobilidade de uma criança normal, e irão se tornar adultos deficientes.

A dimensão do problema parece ser ainda subestimada no Brasil.

Sem dúvidas, inclusive pelas pessoas que estão lá. É uma questão interessante, porque não se pode alarmar a população. Se não pode comer peixe, vai comer o que? É o alimento principal deles, não tem alternativa. Não se pode gerar um pânico, dizendo que está tudo contaminado. Mas é possível alertar aos poucos, para se ter uma noção. Eles já fazem isso. As lideranças indígenas que encontramos sabem perfeitamente o que está acontecendo.

Uma coisa que também me preocupa muito é o que se pode fazer para mitigar o impacto da contaminação do mercúrio. O Erik enfatiza a importância de fazer isso com eles, pois são quem têm um conhecimento maior. A ciência, por sua vez, pode dizer que determinados peixes estão menos contaminados. De toda forma, a solução não existe.

A gente foi junto com a Fiocruz à cidade de Santarém, cuja população come o peixe, e também estivemos com comunidades de pescadores no entorno que já têm evidências claras do envenenamento por mercúrio. A substância não vem só pelo peixe, mas também pelo ar, quando evapora. As concentrações no ar da Amazônia são acima do tolerável.

Esse problema é ainda mais grave no Peru, Colômbia e Venezuela. Os rios que vêm desses países desembocam, todos, na bacia do Rio Amazonas. Mesmo que, por um milagre, conseguíssemos resolver o problema no Brasil, a água já entra aqui contaminada. É preciso um trabalho panamazônico, em conjunto com esses países todos. O filme mostra, inclusive, que a contaminação não é só por mercúrio, mas vários metais pesados que estão na água e também são transportados pelo peixe.

Quais são as principais diferenças e permanências entre a Amazônia que você conheceu ao filmar Iracema e a que está registrando agora?

A diferença é muito pequena. Todos os problemas de hoje já existiam naquela época. Simplesmente aumentaram em escala. A segunda distinção é uma maior organização da sociedade civil. Durante a ditadura civil-militar, não havia a possibilidade de uma organização civil, era impossível. Depois de 45 anos, os indígenas têm uma representatividade e maior consciência dos problemas que eles precisam enfrentar. O mesmo acontece com os ribeirinhos e toda a população do interior da Amazônia.

Em qualquer lugar, há uma comunidade organizada, com representação. Isso não existia, e é um dado muito importante, porque não dá para esperar qualquer coisa do governo. Do atual, muito menos, mas dos anteriores também. Só essa pressão da sociedade civil poderá pôr um limite ao que está acontecendo e propor novos parâmetros para a Amazônia. Não estou dizendo que é a solução, mas é o que observo e está acontecendo de diferente do que acontecia há 30 anos.

É mais hostil filmar na região hoje do que durante a ditadura militar?

Quando a gente filmou Iracema, estávamos em uma área de segurança nacional, e havia o medo de ser preso por estar sem autorização. Hoje é muito parecido, porque não dão mais autorização para entrar em áreas indígenas. A Funai não está operacional, então, teoricamente, não se pode entrar. No nosso caso, a gente conseguiu ir porque, oficialmente, fomos acompanhar a equipe da Fiocruz. Nem mesmo para o Erik entrar conosco deram licença. Só foi possível porque uma procuradora de Santarém entrou com um mandado de segurança.

Está se repetindo uma situação de querer isolar a região, o que é um absurdo, pois os bandidos entram sem o menor problema, mas não deixam entrar o pesquisador ou o jornalista. A hostilidade existe, dependendo de que lado você está. Fizemos nossa base em Itaituba para ir até a área do Tapajós, e a cidade é totalmente garimpeira. Se você falar lá que está fazendo um filme crítico ao garimpo, eles não permitem. O piloto do avião que alugamos disse: "Se for para falar mal de garimpo, não levo vocês."

Você acredita que a exploração econômica da floresta pode ser conciliada com a preservação da biodiversidade e das culturas locais?

Sim, desde que de forma articulada, com a aplicação de conhecimento e tecnologia que permitam a sobrevivência dessa biodiversidade, ao mesmo tempo que se extrai dela ativos econômicos. O cientista Carlos Nobre sempre lembra o exemplo do açaí, mas existem mil outras coisas que os cientistas acreditam ser possível explorar, só que ainda não foram pesquisadas. Tem que haver um investimento em cima disso. Agora, achar que se pode colocar uma cerca e ninguém vai fazer nada é ingênuo.

Fala-se muito que os índios são os guardiões da floresta, porque a protegem em suas terras, e de fato, são. Mas parte dos índios, hoje, está cooptada pelos madeireiros e o garimpo. Tem lideranças indígenas que são absolutamente a favor do garimpo, porque ganham dinheiro com isso e querem viver de outra forma. Achar que o índio é uma coisa só, e que todo índio tem que viver da caça e da pesca representa uma visão ingênua. A juventude está lá, quer o telefone celular, tem informação. Não se pode obrigá-los a viver de determinada forma e, de preferência, andar nu, para termos a certeza de que está tudo preservado.

Existem muitos modelos que preservam a cultura e dão a chance para que eles tenham participação na nossa cultura. É perfeitamente possível fazer isso, desde que eles tenham isso organizado e tenham acesso a participar desse desenvolvimento e essas tecnologias.

O que ocorre na Amazônia, insistentemente, é uma visão imposta de fora para dentro – venha do governo, do setor privado ou do exterior. Todo mundo conhece e tem uma solução para a Amazônia. Depois, querem que os habitantes da floresta acompanhem essa visão e essas regras. Eles nunca são consultados, e são quem têm o conhecimento. Eles vivem lá e sabem exatamente o que fazer lá.

Por que não fazer eles participarem da pesquisa, do desenvolvimento da proposta econômica? Esse Conselho [da Amazônia] presidido pelo general [Hamilton] Mourão não tem ninguém da sociedade amazonense. As ideias vêm da cabeça deles e, de novo, serão impostas de fora para dentro. Isso não funciona.

Apesar da comoção despertada pelas queimadas do ano passado, a sociedade brasileira fecha os olhos para o que acontece na floresta?

Bastante. Só se fala da Amazônia quando há uma tragédia, e geralmente é apontado do exterior para cá. O Brasil enxerga a Amazônia como um grande celeiro. É a nova área da soja, da madeira etc. O olhar sobre a região sempre foi extrativista, sem levar em consideração as culturas locais, seja dos indígenas ou ribeirinhos. Apenas se cria um alarme aqui dentro quando o alerta acende primeiro lá fora.

As queimadas sempre existiram em maior ou menor intensidade. A partir dos anos 1990, o trabalho do Ibama e do ICMBio tinha mais condições de combater isso, mas elas não pararam, só reduziram em escala. E voltaram a crescer porque o governo incentiva isso, à medida que se isenta de multar e desaparelha os órgãos de fiscalização.

A porteira foi aberta, com a seguinte mensagem: podem ir, que nada vai acontecer com vocês. Exemplo disso é o "Dia do Fogo". Isso vale para o desmatamento, o garimpo, a soja, tudo. Não que não houvesse antes, mas está tendo mais. Acho muito ingênuo da nossa parte achar que isso vai mudar. Apesar da pressão externa, inclusive em Davos, a situação não muda a médio prazo, porque é uma posição profunda desse governo. O Conselho da Amazônia, criado recentemente para dar uma resposta a essa pressão, não tem projeto. O objetivo é apenas dar a aparência de que o governo tem alguma preocupação com isso.

Como você avalia o momento atual do cinema brasileiro, em meio à ofensiva do governo contra o setor?

A gente está passando por uma virada violenta. Eu diria, até que repetindo um pouco o que aconteceu com o desmonte da Embrafilme, no governo Collor. O cinema brasileiro se apoiou muito nessa agência, que dominou o financiamento e a distribuição dos filmes por um longo tempo. Quando ela acabou, de um dia para o outro, houve um baque. Estamos repetindo um pouco isso. O cinema brasileiro estava muito dependente dos editais, que são positivos. Não tenho nada contra esse modelo, mas mudou o governo, e fecharam os editais.

Paralelamente a isso, tem um fenômeno muito interessante, que são as empresas de streaming: Netflix, Amazon, HBO. Estão todas concorrendo e são plataformas de documentário também. Então, acho que o documentário nunca teve tanta possibilidade de financiamento e exibição como agora. É preciso estar atento a essas formas de produção bem diferentes. São empresas fortes, que podem impor com muita força uma estrutura de produção, dependendo de como você negocia e se posiciona em relação a isso.

É exagerada, portanto, a reação do setor às medidas do governo Bolsonaro?

É evidente que se trata de uma questão dramática, porque muita gente está sem trabalho, sem dinheiro. As produtoras estão com as mãos na cabeça. Meu ponto é: a vida é muito dinâmica. Não se pode ficar lamentando uma situação prevista até certo ponto. Você não pode falar mal do governo e querer fazer isso com dinheiro dele, não existe. Se quer ser crítico, tem que ser independente.

Mas eu acho que o cinema brasileiro está muito forte, muito dinâmico. Então, vai passar por esse baque, mas pode até sair fortalecido, porque vão se encontrar formas mais atuais de produzir. A produção toda focada no incentivo limita muito, porque o filme tem dificuldades de se colocar no mercado por não ter coprodutores. Se você olhar o letreiro dos filmes europeus, vai ver que quase todos são coproduções de vários países, de várias instituições, e o mesmo se observa nos Estados Unidos. A gente ficou muito fechado, como se fosse uma reserva de mercado, que de repente acabou.

Todas as mudanças tecnológicas profundas, como as que vivemos hoje, têm vários lados. A adaptação vai ter que ser permanente. Hoje, temos o streaming. Daqui a cinco, seis anos, haverá outra coisa. Essa plataforma pode ser uma ponte, mas não resolve o problema de ninguém. O mais importante no audiovisual hoje é expressar o conteúdo. Se a história for bem contada, vai naturalmente encontrar seu produtor e seu exibidor.


sexta-feira, 18 de novembro de 2022

A miséria da educação superior

Faculdade de longe e sem financiamento 

Eduardo Chaves, Luigi Mazza e Renata Buono, piaui, 14/11/2022

Com a expansão do mercado de educação privada, cresce ano a ano o número de brasileiros formados por ensino a distância. Hoje, quatro em cada dez universitários estudam de casa – uma proporção que dobrou de 2016 para cá. Um dos reflexos disso é que o país está formando uma geração de professores sem contato com a sala de aula: 61% dos estudantes de cursos de licenciatura fazem a graduação a distância. Cinco anos atrás, eram 42%.

Os dados constam no Censo da Educação Superior, publicado esta semana pelo Inep e que serve de base para este = igualdades. O censo também mostra como o financiamento universitário está numa baixa histórica. Nas faculdades privadas, a proporção de matrículas com algum tipo de financiamento é a menor desde 2013.

O mercado de universidades privadas se expandiu nos últimos anos. Para cada vaga ofertada na rede pública, há outras 26 no ensino superior particular. A graduação a distância disparou junto: 4 em cada 10 estudantes brasileiros do ensino superior aprendem nesta modalidade. Em 2016, apenas 2 a cada 10 graduandos estudavam a distância.

Em 2021, as instituições de ensino superior no Brasil registraram 4 milhões de novas matrículas em cursos de graduação. Desses estudantes, 2,5 milhões – o equivalente a dois terços (63%) – aprendem na modalidade a distância . Por outro lado, 1,5 milhão ingressaram no ensino presencial – e correspondem a 37% do total no ano passado.

No Brasil, o ensino superior ainda é acessível para poucos: só um quinto dos jovens de 18 a 24 anos estão cursando faculdade. Segundo o IBGE, a maioria dos jovens dessa idade (42%) concluiu o ensino médio, mas não seguiu os estudos. Os que não frequentam a universidade nem concluíram o ensino médio são 19%.
O Brasil está formando uma geração de professores que não tem contato com a sala de aula. Em 2016, 42% dos estudantes em cursos de licenciatura tinham aulas a distância. Essa proporção aumentou ano a ano. Em 2021, chegou a 61%.
O percentual de docentes com doutorado nas universidades públicas é o dobro das privadas. Nas universidades públicas (considerando aqui federais, estaduais e municipais), 7 em cada 10 professores têm doutorado no currículo. Na rede privada, a proporção cai para 3 em cada 10 docentes.

Há nove anos, 37% dos estudantes de graduação em instituições privadas recebiam financiamento ou bolsa para pagar o curso. O auge dos financiamentos se deu em 2018, quando 47% dos estudantes recebiam apoio. Durante o governo Bolsonaro, os números foram caindo até chegar a apenas 38% em 2021 – e atingir a menor proporção desde 2013.

A pandemia fez com que milhares de universitários se afastassem da faculdade. O trancamento de matrículas praticamente dobrou entre 2019 e 2020: de 186 mil, passou para 345 mil o número de alunos que interromperam os estudos.

Fontes: Censo da Educação Superior (Inep); Pnad (IBGE)

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quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Isabel

Isabel foi uma revolução. Uma vida maior

Lúcio de Castro Publicado em 16/11/2022 - Sportlight

Morreu ontem Maria Isabel Barroso Salgado, a Isabel do Vôlei, 62 anos (2 de agosto de 1960).

O enterro será no Crematório e Cemitério do Caju. Velório 11h, Capela Histórica.  E cremação agendada para amanhã, às 14h.

Amanhã será dia de lembrar e celebrar essa carioca, brasileira, que amou a vida e foi feliz. Quando a gente celebra, segue viva a existência. E Isabel vai seguir entre nós. Como foi. Ninguém amou uma cidade tanto com Isabel. E nenhuma cidade amou alguém como o Rio amou Isabel.

Se tava complicado, era bola pra Isabel. Nas quadras. Na vida também.

Nunca houve uma mulher como Isabel. Nas quadras de vôlei, na vida. E era tão simples entender: o que Isabel foi na quadra de vôlei, era também na vida. A intensidade e o destemor que ninguém tinha visto antes. A mulher à frente do seu tempo, de suas lutas. Fim dos anos 70, ditadura militar, o esporte brasileiro, uma contrafação dos regimes autoritários, muitas vezes os mesmos personagens em um e outro. E aquela carioca, nascida em 2 de agosto de 1960, com 16, 18 anos, liderando o Flamengo pra ser campeão brasileiro. Era muito mais do que isso. Ninguém falava em igualdade de gênero para salários e premiações naqueles dias. Mas Isabel já falava.  As mulheres tinham que ganhar o mesmo. Estamos falando de anos 70. E a atacante de 1,80m desafiava os cartolas exigindo sua parte, igualdade. Se não pagassem direitos de arena tampava a marca do patrocinador. Pagou todos os preços por isso. Deu de ombro, fez seu caminho. Era grande demais pra se enquadrar por títeres infames que queriam delimitar seu espaço. Isabel não podia existir enquadrada. Foi a luta. Carregando 4 filhos no colo, sozinha, Itália, Japão…

O primeiro choque pra quem via aquela mulher libertária, a carioca do Posto Nove dos fins de tarde, era constatar a rigidez da criação que dava aos filhos. Quem não conhecia se surpreendia, estranhava. Quem conhecia, sabia que o pacote Isabel era aquilo: intensa na vida, mãe mais ainda. Deu certo, se orgulhava de ver traços tão caros a ela nos quatro. Dignidade, luta, mas talvez o mais marcante, aquele que fazia dela o que era sem que talvez jamais te se dado conta: uma revolucionária. Porque nunca deixou de se indignar com qualquer injustiça.

Era tenso estar com Isabel algumas vezes. A qualquer hora, podia entrar um sudoeste, o vento que traz tempestade pra praia e Isabel virar. Alguém vítima de preconceito na rua, ver uma cena de racismo… E ela desafiava a polícia toda, o sujeito de qualquer tamanho…Em seu “Ela é Carioca”, Rui Castro conta do morador de rua em Ipanema que tava sendo maltratado por um PM. O fim da história foi o batalhão todo querendo levar o morador de rua e, a essa altura, também Isabel. Foi ela contra o batalhão e suas metralhadoras todas. Isabel ganhou. Ninguém tocou no morador.

Sempre tinha uma dessas. 

Contrariou tudo o que tava estabelecido até aqui conciliando maternidade e esporte ao mesmo tempo. A foto histórica, grávida de seis meses em quadra, Leila Diniz viva.

Isabel foi Leila, foi Asdrúbal, foi Circo Voador no Arpoador, foi o Flamengo, a seleção brasileira, foi festa pagã e religiosa juntas e misturadas, a Ipanema que amou como ninguém e viu cada fim de tarde.

Viu muito nova o povo saindo das dunas de Gal já indo para o Posto 9, onde seria estrela, a marca de um tempo e de uma cidade. A atleta que tava louvando o sol junto com os artistas da cidade, com o povo da praia, com todos. Praticava a diversidade antes de falarem, viveu o Rio dos 70, 80, 90 como os ares da redemocratização pediam: com tudo. Diretas já na Presidente Vargas entre um treino e outro, Chico na vitrola e um monte de amigos pra celebrar a vida, se não fosse assim não tinha graça.

 Sempre com Pilar, Maria Clara, Pedro e Carol a tiracolo. Com eles viveu os verões que vieram depois. E ainda no auge, conjugou ser avó, mãe, seguir sua luta. E depois que tinha chegado a hora de descansar, os 4 filhos feitos, independentes, resolveu adotar um menino. Escutou falar que tinha um menino num abrigo de Campinas que ia estourar a idade de 12 anos e ter que ir pra rua. Pegou o avião pra entender. Todo mundo falou pra ela que era loucura, pra sossegar, agora que ia viver…Naquele momento, todo mundo que conhece sabia que ela já era a nova mãe de Alison. Hoje com 20 anos, filho de Isabel. Um filho preto, Isabel se reinventou pra entender o que era ser mãe de um menino preto, os sobressaltos do filho sair de noite na espreita do racismo de todo dia.  Levou na primeira escola que escolheu pra matricular. Arrumou briga, continuou fazendo o que sempre fez: defendeu a cria. Tava feliz demais com o Alisson.

Ninguém tava tão feliz como ela nos últimos tempos. Foram 4 anos de angústia. Aquela vida em abundancia contida em quatro paredes de pandemia, sem praia, sem a luta. Sem celebrar. O exercício que amava do debate. Acalorado, chegando a parecer sem volta com o oponente em alguns momentos. Só tinha graça assim. Um almoço dos Salgados era um reality show. Na cabeceira, Isabel comandava. Saia-se de cinema pra política, pra música, pra arte, pro Rio, pra falar mal dos outros.

 Isabel era também a festa. A festa de São Sebastião toda numa pessoa só. No dia 30 último, quis ver sozinha o segundo turno. Mas quando o Brasil começou a ficar de pé de novo, quando o nordeste virou, não aguentou e saiu pra rua. Queria beijar os seus, celebrar.

A alegria era maior que tudo. Tinha sido chamada pra participar do grupo de transição do esporte no governo do Lula. Tava tão feliz com isso. Ia meter a mão na massa, interferir. Na vida, no Brasil. Ser Isabel.  Voltou pros bancos escolares, estudar tudo pro projeto. Não queria chegar lá pra contar suas experiências. Queria falar de projeto de Brasil, de botar preto e pobre pra dentro do jogo. Tava feliz como nunca. No fim de semana, o filho Pedro de volta ao pódio depois de 5 anos. Carol também. Era alegria demais.

É tão injusto isso agora. Ela sonhou tanto com o Brasil dela de volta, o Rio que é dela. Logo agora, com a certeza de que esses tempos ficarão para traz, desse Brasil de genocidas, de louvação à tortura, de generais fora da sua praia, de homofóbicos, misóginos, racistas, capitães do mato. Era tudo tão anti-Isabel ali… Sobreviveu a isso. Ela tava tão feliz. Era água nova brotando e todo mundo se amando sem parar. A vida voltando. Isabel por inteiro. Intensa, Da única forma que ela concebia a vida.

A Isabel que desdenhou quando começou a moda de botarem chuveiro na praia. Mesmo se fosse almoçar, e adorava os almoços pós-praia, ria de quem tirava o sal pra sair da praia. É um gesto tão simples. Mas diz tanto de Isabel. Ela saia com sal. Gostava de ir com sal. Aquilo era pra se cuidar só quando chegasse em casa. Era ela, todo o sal da terra numa mulher só.

Nesse auge, na plenitude de tudo, dos seus, da vida, da fome de beleza da vida que tinha, de uma alegria imensa por um Brasil que renascia e ela já era parte dessa reconstrução, sentiu uma gripe, passou mal… e nos deixou ontem.

Sua fome de viver, de estar com os seus, sua forma de viver, sem limites, da gente se encontrar na luta, nos faz ter certeza de que é dela que Gabo falava aqui ao explicar o que é vida: “É a vida, mais do que a morte, que não tem limites”. Por isso que Isabel vai seguir. Uma vida maior. Que não tem limites e vai seguir em todos nós. 

Como Isabel nos ensinou que a vida não tem contrário

 Milly Lacombe, UOL, 16/11/2022

Ver Isabel saltar era um evento em si. Observar com ela corria para bater os pés no chão, tomar impulso e pular. Ainda no chão, braços para trás. Voo tomado, braços começando a subir. Uma vez no ar, puro êxtase.

Eventualmente, nesse voo, seu braço direito acabava se encontrando com a bola num tipo de contato que produzia fogo de tão forte que era a forma como ela cravava a bola no chão. Era lindo e emocionante, mas me importa aqui falar do voo.

Na areia, seu salto impressionava. Mas era em quadra que tínhamos a sensação de que estávamos diante de uma beleza feita da mesma força que acendeu as estrelas. Isabel era imensa. Nas areias das praias cariocas e na vida.

Nas palavras de meu colega Lucio de Castro, "Isabel foi Leila, foi Asdrúbal, foi Circo Voador no Arpoador, foi o Flamengo, a seleção brasileira, foi festa pagã e religiosa juntas e misturadas, a Ipanema que amou como ninguém e viu cada fim de tarde". O texto completo de Lucio sobre Isabel você pode ler aqui. Está tudo nele porque Lucio é outra imensidão.

O que a gente pode dizer quando alguém como Isabel parte tão precocemente, saindo de uma festa que nem começou e que ela trabalhou tanto para fazer acontecer? Agradecer. 

Apenas agradecer. 

Agradecer tanta beleza e luta. Tanta inspiração e entrega.

Como uma vez escreveu o português João Tordo: engraçado quando dizem que a morte é o contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrário. 

Para alguns, não tem mesmo.

Quem estava prestando atenção escutava o que Isabel falava enquanto se erguia, imensa, contra injustiças e desonestidades. É por isso que as pessoas como ela não desaparecem jamais: algumas vidas não conseguem ser interrompidas nem mesmo pela morte. 

Isabel vai, mas seus voos ficam.

O velho não quer trepar

Homens também podem ser felizes sem sexo

Por que tantos homens e mulheres estão se libertando do modelo machista de sexualidade? 

Mirian Goldenberg, FSP, 16/11/1022

Na semana passada, o ator Stepan Nercessian, de 68 anos, revelou que não faz mais sexo com a esposa, de 61, com quem é casado há 35 anos: "Dá muito trabalho, tem que tomar banho, se preparar. Parei com isso já faz tempo. Um quer, outro não quer, dá briga... Um dos motivos que o casal se separa é por não querer mais fazer sexo. Estou nessa fase há muito tempo. Não tem mais."

Casado há 35 anos, o ator Stepan Nercessian revelou que não faz mais sexo com sua mulher - Reprodução/YouTube

Sei que vou provocar algum desconforto ao contar que boa parte das mulheres que tenho pesquisado —e também dos homens — não tem tanto prazer e interesse no sexo. Muitos me revelaram que o sexo deixou de ser uma prioridade em seus casamentos e que descobriram novos prazeres na maturidade. Mais velhos, eles se sentem mais livres para escolher como usar o tempo com atividades e projetos que consideram mais significativos e gratificantes.

Há uma inversão interessante, como mostrei no livro "A Invenção de uma Bela Velhice". Para alguns homens, um novo prazer é ser "dono de casa", principalmente para aqueles que passaram grande parte da vida mergulhados no mundo do trabalho. Quando se aposentam, querem ter mais tempo com a esposa, filhos e netos. Desejam desfrutar do mundo da família e da casa de que não puderam usufruir antes, pois se dedicaram quase que exclusivamente ao trabalho.

Já as mulheres querem ter mais tempo para sair com as amigas, fazer cursos, ir ao cinema e teatro, viajar, passear, rir e conversar. Querem ter mais tempo para cuidar de si mesmas, pois passaram a vida inteira cuidando dos outros. Preferem saborear o mundo da liberdade e da amizade que não puderam aproveitar quando mais jovens, já que se dedicaram prioritariamente ao mundo da família e da casa.

Para uma arquiteta de 56 anos, a aposentadoria sexual veio junto com a menopausa:

"Eu tive uma vida sexual gostosa até a menopausa. Mas, infelizmente, o tesão acabou. Amo meu marido, temos um casamento maravilhoso, mas não tenho mais vontade de transar com ninguém, nem com ele, nem com o Chico Buarque, nem com o George Clooney. Sou cobrada pelas minhas amigas por ter me aposentado do sexo. Elas vivem me atormentando dizendo que meu marido vai me trair com alguma periguete, mas não sabem que ele também se aposentou do sexo. Como disse minha musa Rita Lee: ‘velho não quer trepar!’". 

"Homens também podem ser felizes sem sexo", declarou enfaticamente seu marido, um professor de 69 anos:

"Até a menopausa da minha mulher, nós transávamos duas ou três vezes por semana. Quando a menopausa chegou, nos aposentamos do sexo. Somos muito felizes juntos, somos amigos e companheiros, cuidamos um do outro, respeitamos o tempo e o espaço de cada um, namoramos, dançamos, vemos filmes e séries, viajamos, caminhamos na areia da praia de mãos dadas, fazemos massagem, brincamos e damos muita risada. A verdade é que o sexo não faz tanta falta. Por que não podemos gozar com os outros prazeres e alegrias da vida?"

Rita Lee: 'Velho não quer trepar e usar drogas, quer ser dono de casa' 

É possível viver sem vergonha? | Mini Saia | Saia Justa 

"O machismo é uma prisão massacrante também para os homens", afirmou:

"Os preconceitos e as pressões sociais são tão massacrantes que os homens não assumem que se aposentaram do sexo com medo de não corresponderem ao modelo machista de sexualidade. Somos obrigados a ter uma performance sexual potente e frequente, inclusive em momentos de doença, crise, depressão, exaustão e estresse. Diferentemente das mulheres, nós sofremos calados por vergonha e medo do estigma de não ser um ‘homem de verdade’. Um homem de verdade não pode chorar, não pode brochar e não pode se aposentar do sexo. Daí enche a cara, toma Viagra e antidepressivo, porque o homem de verdade não existe, é só um mito machista."

Apesar de reconhecer alguns avanços dos comportamentos masculinos, o professor admitiu que o machismo não morreu: "Meus amigos me xingam de velho brocha, cagão, corno, viado e boiola. Eles não entendem por que não tomo Viagra. Estão tão brochas quanto eu, mas são machistas e têm vergonha de assumir. Não tenho vergonha de admitir: homens também podem ser felizes sem sexo. É uma grande libertação."

Parece que agora até os homens estão perdendo a vergonha de assumir que "velho não quer trepar". Ou, ao menos, que nem todos querem. É (ou não é) uma grande libertação?


segunda-feira, 14 de novembro de 2022

Lula e os talking heads

Lula, a fome e o mercado

Não há razão para o pânico da semana passada, reverberado pelos bonecos de ventríloquo na mídia

Cristina Serra, FSP, 14/11/2022

O mercado toma café, almoça e janta, mas ficou todo arrepiado e histérico quando Lula repetiu o que vem falando há décadas: que o combate à fome é sua prioridade. E que é preciso discutir, sim, o que é gasto, o que é investimento, regra de ouro e outros parâmetros que acabam deixando pouco espaço para incluir o pobre no orçamento público.

Lula tem legitimidade para pautar esse debate. Não é um doidivanas. Tem histórico de responsabilidade fiscal em seus dois mandatos anteriores. A equipe de transição (com Alckmin no comando e a presença de Pérsio Arida e Lara Resende entre seus economistas) também aponta para o equilíbrio entre o controle das contas e as urgências sociais neste terceiro mandato, como os 33 milhões de brasileiros de barriga vazia.

Não há razão para o pânico da semana passada, reverberado pelos bonecos de ventríloquo do mercado na mídia. "O mercado está tenso", "o mercado está nervoso", repetiram talking heads, como num jogral. Já vimos esse filme.

Em 2002, o mercado também pressionou para o anúncio do ministro da Fazenda, num quadro de muitas fragilidades e dúvidas sobre o que seria a política econômica petista. Lula anunciou Palocci em dezembro. Não há por que fazer diferente agora, submetendo-se à chantagem de quem apostou (aposta?) contra ele.

Lula terá que compor seu governo num cenário interno muito mais complexo que o de 20 anos atrás. Sua base de apoio parte de um extenso (e contraditório) arco de alianças políticas. No Congresso, partidos semelhantes a facções criminosas estão fortalecidos. Bolsonaro deixou terra arrasada.

Lá fora, há uma guerra de desfecho imprevisível como parte de uma disputa por hegemonia mundial. E a crise climática impõe a transição para uma economia de baixo carbono que exigirá imensa capacidade de articulação com o setor produtivo. Ao mercado e seus porta-vozes, deixo uma dica para acalmar os nervos: chá de camomila ou cidreira. É tiro e queda.

Lula, o mercado e as elites econômicas

20 anos depois

Lula, o mercado e as elites econômicas devem considerar que tudo mudou 

Luiz Carlos Bresser-Pereira, FSP, 13/11/2022

Em dezembro de 2002, o então presidente eleito, Luiz Inácio Lula da Silva (PT), escolheu os ministros para o seu governo. Vinte anos depois, fará o mesmo: definirá o gabinete que o ajudará a governar o Brasil.

O mercado financeiro e a centro-direita esperam que ele adote os mesmos critérios e escolha dirigentes na área econômica simpáticos a eles. Não há razão para Lula escolher uma equipe econômica que conflite com o mercado financeiro e as elites econômicas, mas tanto o presidente quanto essas elites deverão considerar que tudo mudou nestes 20 anos.

Em primeiro lugar, mudou o norte global —ou mundo rico. Em 2002, estávamos no auge do neoliberalismo, e as únicas políticas legítimas eram as políticas da ortodoxia liberal. O desenvolvimentismo era considerado mero "populismo".

O neoliberalismo, porém, começou a entrar em crise em 2008, com a grande crise bancária que se desencadeou nos Estados Unidos. Entrou em crise política em 2016, com a eleição de Donald Trump e o referendo favorável ao brexit. Mostrou seu caráter equivocado em 2020, com a pandemia de Covid-19, durante a qual o papel econômico do Estado em minorar seus efeitos negativos foi muito grande. E, em 2021, o neoliberalismo entrou em colapso com a nova política decididamente desenvolvimentista de Joe Biden, trazendo o Estado de volta —e seguida de perto pelos principais dirigentes europeus.

O neoliberalismo e a ortodoxia liberal, dominantes entre 1980 e 2020, fracassaram porque os resultados que produziram foram decepcionantes. As taxas de crescimento baixaram, a instabilidade financeira aumentou e os salários dos trabalhadores e da baixa classe média estagnaram.

O Brasil também mudou muito nestes 20 anos. O neoliberalismo fracassou aqui ainda mais radicalmente que no norte global. A economia brasileira está quase estagnada desde 1980. Só houve um momento melhor no governo Lula. As elites econômicas, porém, não perceberam que esse fracasso aconteceu tanto aqui quanto lá fora e continuam mergulhadas no seu neoliberalismo dependente.

A centro-esquerda e os desenvolvimentistas mudaram nestes 20 anos. Muitos já não acreditam que, para ser desenvolvimentista e retomar o crescimento com estabilidade e gradual alcançamento, basta a política industrial — uma política microeconômica.

E o populismo econômico de alguns deles, que pensavam que além disso o Estado devia gastar mais, aumentar os salários e o consumo para ser bem-sucedido, perdeu muito de sua força em razão dos repetidos fracassos dessa política. Agora muitos desenvolvimentistas de centro-esquerda sabem que, para promover o desenvolvimento, além de política industrial e de responsabilidade fiscal, é fundamental uma política macroeconômica desenvolvimentista voltada para manter a conta corrente do país (externa) equilibrada, e a taxa de câmbio, competitiva.

Não é o caso aqui discutir quais as políticas intermediárias necessárias para que a conta corrente seja equilibrada e a taxa de câmbio compatível com a reindustrialização. É certo, porém, que a retomada do desenvolvimento não será viável no médio prazo se esses dois objetivos não forem assegurados.

Com a vitória de Lula, o risco da barbárie foi evitado, mas nada assegura a retomada do desenvolvimento econômico. E, sem ele, não será possível diminuir a pobreza e a desigualdade, voltar a financiar o SUS e realizar os investimentos necessários para que os objetivos da mudança do clima sejam atingidos.

Existe agora uma oportunidade para a retomada do desenvolvimento, que foi aberta com a mudança ocorrida no norte global. Este não será mais tão agressivo em se opor a políticas desenvolvimentistas bem pensadas e que se impõem.

Lula e aqueles que o apoiam, assim como a centro-direita que o vê com reservas, deverão considerar essas mudanças, que foram profundas. Ao escolher seus ministros da área econômica, o futuro presidente estará também decidindo se o Brasil sairá da quase estagnação secular ou não.

Luiz Carlos Bresser-Pereira

Professor emérito da Fundação Getulio Vargas, ex-ministro da Fazenda (1987, governo Sarney), da Administração e da Reforma do Estado e da Ciência e Tecnologia (1995-1998 e 1999, governo FHC)



Docentes negros e negras no ensino superior

Inclusão de professores negros no ensino superior pouco avança em dez anos

Proporção foi de 19,3% em 2010 para 23,6% em 2019; leis sobre o tema estão perto de expirar 

Sabine Righetti, Estêvão Gamba, FSP, 21/11/2021

Quem forma médicos, advogados, engenheiros e outros profissionais no ensino superior do Brasil são, sobretudo, pessoas brancas — e o cenário praticamente não mudou nos últimos anos. Os dados oficiais são do Censo da Educação Superior do Inep-MEC (de 2019). As informações são baseadas em autodeclarações dos professores em exercício nas instituições de ensino superior públicas e privadas.

Por exemplo, pelo retrato, a USP — melhor universidade do país, de acordo com rankings nacionais e internacionais — não chega a ter 4% de docentes negros

Algumas universidades brasileiras são totalmente — ou quase — brancas no seu corpo docente. Caso da Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) e das privadas do Contestado, Feevale, de Caxias do Sul e Católica de Pelotas. Todas essas instituições ficam no Sul do país. É lá que está a menor participação de negros no corpo docente: apenas 6% de quem dá aula nas instituições de ensino superior sulistas se declara preto ou pardo. A taxa sobe um pouco no Sudeste (13%) e no Centro-Oeste (31%). No Norte e no Nordeste do país, pouco mais da metade dos professores que declararam cor/raça é negra.

Considerando todas as instituições de ensino superior, 23,6% dos docentes em exercício são pretos ou pardos. O avanço foi pequeno: em 2010, a taxa de pretos e pardos era de 19,3%.

Os dados mostram que as políticas voltadas para inclusão racial têm observado resultados tímidos nas universidades brasileiras. E, pior, algumas dessas políticas estão próximas de expirar.

Caso da lei 12.990, de 2014, que determina reserva de 20% das vagas dos concursos públicos — incluindo para docentes nas universidades federais — até 2024, quando termina sua vigência.

No ano de implementação dessa lei, o percentual de docentes negros especificamente nas universidades federais era de 24,4%. Agora, está em 28% — pouco acima da média nacional (de 23,6%), mas ainda bem abaixo da expectativa. "O cenário quase não mudou", avalia Delton Felipe, historiador da Universidade Estadual de Maringá (UEM) e diretor de Relações Institucionais da ABPN (Associação Brasileira de Pesquisadores Negros).

Felipe tem se dedicado a avaliar o impacto das leis de inclusão racial na educação — como a 12.990 que, para ele, tem de ser prorrogada. O problema é que muitas universidades têm feito uma leitura de que a reserva legal de 20% deve se dar em vagas para uma mesma área. Ou seja: se uma instituição, por exemplo, abrisse cinco vagas para docentes na área específica de "sistemas e materiais estruturais", então uma delas seria para um candidato negro. Só que isso nunca acontece.

E como resolver isso?

"É preciso considerar o total de vagas abertas para concurso docente em toda a universidade." Isso significa que se uma instituição abrir cinco vagas em diferentes áreas do conhecimento, pelo menos uma delas tem de aprovar um candidato negro.

Além da reserva de vagas, Felipe destaca também a importância da diversidade racial nas bancas de seleção dos concursos para docentes das universidades — pauta também do movimento feminista. São as bancas, afinal, que escolhem os candidatos aprovados.

"É preciso fazer valer as legislações e é necessário ir além", diz Alan Alves Brito, astrofísico da UFRGS. Para ele, ações afirmativas devem visar também a manutenção dos estudantes negros que ingressam no ensino superior. "Existe um efeito tesoura dos corpos negros, que vão desaparecendo ao longo da carreira."

A falta de diversidade de pretos e pardos no ensino superior brasileiro é velha conhecida do movimento negro do país. Ganhou força com a chamada Lei de Cotas, de 2012, que determina que 50% das vagas das instituições federais de ensino devem ser preenchidas por autodeclarados pretos, pardos, indígenas e por pessoas com deficiência.

"Nessa época, começa a integração de alunos negros no ensino superior, mas esses estudantes não tinham em quem se projetar", diz Felipe. "Era preciso aumentar o número de pessoas negras no serviço público. constatou-se que a universidade brasileira era extremamente branca."

No ano que vem, a Lei de Cotas completa uma década e será revisada — o que foi definido em legislação complementar, de 2016. Há receios de que perca força sem bons resultados.

Hoje, a proporção de alunos pretos e pardos nas instituições de ensino superior brasileiras é maior do que a de docentes, mas também é desigual: não chega a 39% dos matriculados no Sudeste e nem a 17% no Sul.

Na pós-graduação, como a Folha já mostrou, só 1 em cada 4 matriculados em programas de mestrado e de doutorado no Brasil é negro. em áreas como medicina e odonto, a participação dos negros cai para 1 em cada 10 cientistas em formação.

O diagnóstico sobre raça no ensino superior brasileiro é incompleto porque faltam informações. No Censo da Educação Superior, há dados declarados de cor/raça sobre pouco mais de dois terços dos professores de todas as instituições de ensino superior públicas e privadas do país.

Cerca de um terço dos professores preferiu não informar cor/raça (taxa que sobe para quase metade especificamente no caso das universidades federais). Em algumas universidades, a maioria dos docentes não declara informação sobre cor/raça, caso das federais do Amazonas, Rural do Rio de Janeiro, do Oeste do Pará e de Pelotas.

Nesse levantamento, a Folha se baseou nos dados declarados do Censo —e só menciona, no texto, universidades específicas que tiveram pelo menos dois terços do seu corpo docente com respostas declaradas para cor/raça (o que corresponde à média nacional).

Mais sobre

Na USP, apenas 2,1% dos mais de 5.000 educadores são pretos ou pardos https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/12/na-usp-apenas-21-dos-mais-de-5000-educadores-sao-pretos-ou-pardo.shtml

Brasil pode atingir equilíbrio racial no ensino superior na próxima década 

https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2021/06/brasil-pode-atingir-equilibrio-racial-no-ensino-superior-na-proxima-decada.shtml

Cotas fizeram negros saírem das páginas policiais e virarem colunistas, diz reitor da Zumbi dos Palmares 

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/10/cotas-fizeram-negros-sairem-das-paginas-policiais-e-viraram-colunistas-diz-reitor-da-zumbi-dos-palmares.shtml

Presença de negros avança pouco em cursos de ponta das universidades

https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2019/07/presenca-de-negros-avanca-pouco-em-cursos-de-ponta-das-universidades.shtml

Cota não é esmola. Revisão da lei, em 2022, representará momento oportuno para aperfeiçoar política 

https://www1.folha.uol.com.br/colunas/michael-franca/2021/06/cota-nao-e-esmola.shtml

Negros são minoria no serviço público federal e ocupam apenas 15% de cargos mais altos https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2020/12/negros-sao-minoria-no-servico-publico-federal-e-ocupam-apenas-15-de-cargos-mais-altos.shtml

Lei de cotas depende de ajustes para democratizar mais a universidade https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2021/08/lei-de-cotas-depende-de-ajustes-para-democratizar-mais-a-universidade.shtml

Sudeste freia queda da desigualdade racial no ensino superior do país em 2020, mostra Ifer https://www1.folha.uol.com.br/educacao/2021/11/sudeste-freia-queda-da-desigualdade-racial-no-ensino-superior-do-pais-em-2020-mostra-ifer.shtml

Só 1 em cada 4 matriculados em programas de mestrado e de doutorado no Brasil é negro https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/11/so-1-em-cada-4-matriculados-em-programas-de-mestrado-e-de-doutorado-no-brasil-e-negro.shtml?origin=folha 

CONCURSOS PÚBLICOS FEDERAIS PARA DOCENTES E AÇÕES AFIRMATIVAS PARA CANDIDATOS NEGROS 

LEI Nº 12.990, DE 9 DE JUNHO DE 2014 

Censo da educação superior 2019 Inep