domingo, 4 de maio de 2014

Sou escorpião, minha filha

"Mulher é a mãe, o resto é puta". Foi a última frase dita em vida por um sujeito chamado Tomé. Levou dois tiros na cabeça e morreu instantaneamente. Segundo a polícia as balas foram de uma pistola semiautomática, calibre 9 mm.

Antônio, conhecido como Tonho, terminou sua vida de matador assassinando o Édipo de nome Tomé. "Ora, quem diz tamanha besteira tem que morrer, né" disse mais tarde o matador.

Hoje, Tonho se encontra preso numa penitenciária no interior do estado de São Paulo. A uma jornalista que o entrevistou disse que seus crimes foram motivados pela raiva, pela ira.

Tonho foi criado no meio rural com as árvores, os passarinhos, répteis e feras, cada um conforme a sua espécie como diz a bíblia (Gênesis). Sempre entrou e saiu pela porta dos fundos, nunca pela porta principal. Sua mãe foi (e é até hoje) empregada doméstica. O pai trabalhador na roça. Roça dos outros. Empregado de patrão sovina.

Quando garoto Tonho teve contato com sua primeira arma: o estilingue. Mas o uso desta arma era para defesa contra outros garotos. Tonho nunca matou passarinho ou qualquer outro bicho. E nunca sofreu bullyng na escola. Sempre era visto com o estilingue na cintura e algumas pedras no bolso.

Quando jovem se deparou com a primeira arma de fogo. Uma 38 de um tio. Ficou vislumbrado e pensou: ah! xá comigo, um dia terei uma.

Não demorou. No Natal seguinte o tio presenteou Tonho com o vislumbre mortal.

Aos 18 anos Tonho saiu da roça e se mandou para uma cidade do interior paulista. Auxiliar de pedreiro foi seu primeiro emprego. Dava para as pingas. Nos dias de folga passava nos botecos e com as mulheres da zona. Lá conheceu Zirma, uma ruiva bonita e fogosa. Ficou encantado com a pistoleira, mas com um grilo na cabeça. "Zirma? De onde veio o teu nome, mulher?". Ela respondeu: "sei lá, meu pai era um maluco. Dizia que na época em que nasci estava lendo as aventuras de Marco Polo".

Zirma gostava de rodeio. E lá foram na festa do peão da cidade. Foi a primeira vez que Tonho assistiu uma montaria com boi bravo. Ficou chocado com a violência contra o animal. "Porra, além da corda na virilha o peão sangra o bicho na espora" pensou Tonho. Lembrou-se da avó, descendente de índio e benzedeira. Índio não maltrata bicho. Não deu outra. Antes dos 8 segundos de guerra entre os dois, peão e boi, o primeiro leva um tombo e caiu de cabeça na cerca de aço da arena. Venceu o boi. Tonho presenciou o peão todo encoberto de sangue. Morreu antes de chegar ao hospital.

Num sábado chuvoso de verão Tonho passeava pela cidade. Viu um sujeito com uma serra elétrica cortando um ipê-roxo. Ele conhecia árvore. "Ei, porque está cortando este ipê?" perguntou Tonho. "Sei não, pergunte ao meu chefe ali na frente". Resposta do chefe: "os vizinhos aqui da região reclamam que os passarinhos fazem bagunça nesta árvore logo cedo a partir das 6 horas da manhã". Tonho: "isto é um absurdo! Árvore é para isto mesmo, abrigar passarinho. Estes caras estão loucos!". Chefe: "olha aqui ô mané, quem é você para impedir meu serviço? Sai fora. E já". O sangue ferveu na cabeça de Tonho. Infelizmente portava na cintura uma 9 mm, 7+1. Aí foi um sapeca-iaiá. Em 10 segundos o corpo do chefe jazia morto no chão com uma bala na cabeça e outra no tórax.

Tonho se escafedeu. Abandonou a cidade, abandonou Zirma . Mandou-se para o interior de Minas Gerais.

Nesta cidade foi gari, servente de pedreiro e no final trabalhou numa padaria. Virou padeiro. Apesar de clandestino tinha vida tranquila. Ficou um tempão sem qualquer sapeca-iaiá.

Até um dia em que a ira de Tonho voltou.

Numa fila de banco a sua frente um sujeito barrigudo, camisa semiaberta, corrente Grumet dourada no pescoço e pulseira combinando no pulso, além de óculos Ray-ban. Conversava alto no celular. Ambiente fechado e fila interminável. Tonho conhecia o cara. Um chato de galocha. Depois de 20 minutos, a paciência foi pro espaço. Tonho se fez o porta-voz de todos e todas da fila. E disse ao sujeito: "ô meu, manera aí, tá todo mundo de saco cheio com esta merda de fila e você falando nessa altura! Conversa lá fora que eu guardo teu lugar na fila". A resposta, depois de o sujeito desligar o celular: "olha aqui, ô padeirinho de merda, quem é você pra me dizer o que tenho que fazer? Vá te catar, vai a merda!" E voltou a ligar o telefone. O sangue ferveu em Tonho. Ato contínuo tomou o aparelho da mão do cara, colocou no chão e pisou em cima destroçando todo. A turma da fila ficou estupefata. E o tempo fechou. Teve de tudo: rabo de arraia, gancho de direita, pé na moleira, joelhadas... No final o sujeito conseguiu, em cima de Tonho, esgana-lo. Aí não teve jeito. Tonho sacou da 9 mm. Tá lá o corpo do mastodonte estendido no chão ensanguentado com um tiro no olho e dois no peito.

Tonho se escafedeu de novo. Abandonou a cidade.

O assassinato do mastodonte foi o penúltimo cometido por Tonho. O último foi o do Édipo de nome Tomé. Neste não teve como escapar. Foi preso e se encontra num penitenciária do interior paulista.

A jornalista que o entrevistou quis saber mais. "Antônio, os crimes cometidos pelo senhor, que temos notícia, me parece que têm coisas em comum. Clareando: árvore e o passarinho, falta de educação no caso do celular e o machismo de "mulher é mãe o resto é puta". O que o senhor pensa disto?".

Tonho pensou 30 segundos e respondeu: "hoje estou beirando os 55 anos e já fiz muita besteira na vida. Porque matei? Sei não, mas você conhece a estória do escorpião e o sapo?" Após a negativa da jornalista, Tonho contou a estória.

Um escorpião aproximou-se de um sapo que estava na beira de um rio e lhe fez um pedido: "Amigo sapo, você poderia me carregar até a outra margem deste rio tão largo". O sapo respondeu: "Só se eu fosse louco! Você vai me picar e eu vou ficar paralisado e afundar". Disse o escorpião: "Isso é ridículo! Não tem lógica. Se eu o picasse, ambos afundaríamos e nos afogaríamos". Confiando na lógica do escorpião, o sapo concordou e levou o escorpião nas costas, nadando para atravessar o rio. Quando chegaram ao meio do rio, o escorpião cravou seu ferrão no sapo. Atingido pelo veneno, e já começando a afundar, o sapo voltou-se para o escorpião e perguntou: "Por que você fez isto? Agora nós dois vamos morrer. Que lógica é esta?" E o escorpião respondeu: "Eu sei, não tem lógica nenhuma. Sou um escorpião e esta é a minha natureza.".
 
 

E Tonho finalizou à jornalista: "Sou escorpião, minha filha".

segunda-feira, 28 de abril de 2014

Lição de Anchieta


Está é de Elio Gaspari, Folha de São Paulo, em 27/04/2014.
Coincidindo milagrosamente com o feriadão, o presidente do Senado, Renan Calheiros, e seu colega Ricardo Ferraço foram a Roma para assistir à cerimônia de canonização do padre José de Anchieta.

A gentileza dos senadores custou à Viúva R$ 9.000 em diárias, noves fora as passagens. Essa conta não saiu por menos de R$ 30 mil. Não é muito dinheiro, mas é mais que do que Anchieta teve em toda a vida, andando pelos matos brasileiros.

O santo escreveu um poema louvando o governador Mem de Sá. Num verso, referindo-se aos índios que ele combateu, Anchieta ensinou:

“Para este gênero de gente não há melhor pregação do que a espada e a vara de ferro”

 “Vitória do Espírito Santo”, 28 de abril de 2014.

Dia de Nossa Senhora da Penha

segunda-feira, 21 de abril de 2014

A erva generosa

Os impostos da maconha no Colorado

por CLAUDIA ANTUNES

Revista PIAUI – abril 2014
 


 No dia 20 de fevereiro, quando o estado americano do Colorado começou a arrecadar os impostos do comércio relativos a janeiro, dezenas de lojistas não puderam assinar um cheque nominal ao governo. Foi preciso pagar em cash, mas ninguém pensou em sonegação. Em 11 de março, a conta fechou: foram recolhidos 2,01 milhões de dólares (cerca de 4,6 milhões de reais) em impostos sobre a venda de maconha para fins recreativos.

A soma superou a expectativa. A previsão era de que 1,4 milhão de dólares seria arrecadado no primeiro mês de vigência da Emenda Constitucional 64, que legalizou tanto a produção quanto a venda da erva no chamado "Estado Alto" (o apodo, que agora veio a calhar, é uma referência às Montanhas Rochosas que o atravessam). A experiência é inédita no mundo. Antes, o cultivo e o comércio da maconha só eram permitidos no Colorado – assim como em outros dezenove estados americanos – para uso médico. Países como Portugal e Holanda descriminalizaram o consumo e parcialmente a venda, mas não a produção.

Os empresários da marijuana foram obrigados a recolher em dinheiro vivo porque não podem trabalhar com os bancos. O sistema financeiro é submetido à legislação federal americana, que mantém na ilegalidade a droga receitada no século XIX para as cólicas da rainha Vitória.

Bem que os comerciantes tentam driblar o problema. Elan Nelson, uma jovem de louros cabelos cacheados que é consultora da Medicine Man, o maior estabelecimento do ramo no Colorado, não quis falar da operação financeira da empresa. Contou, entretanto, que alguns lojistas conseguiram manter suas contas bancárias, omitindo que trabalham com maconha. Outros terceirizaram a contabilidade. "Na maioria dos casos, porém, o banco não abre ou fecha a conta se souber a origem do dinheiro."

 No final de março, o site da Medicine Man anunciava vinte tipos de maconha, além de pílulas, óleos e refrigerantes. A empresa tem 2 quilômetros de estufas e planeja dobrar a produção. "Quando só vendíamos para uso medicinal, tínhamos 100 clientes num dia excepcional. Agora são 300 num dia normal", calculou Elan. Aprovada por referendo em 2012, a Emenda 64 estabelece que o consumidor deve ter mais de 21 anos e pode possuir e portar – e, portanto, comprar – no máximo 1 onça, ou pouco mais de 28 gramas, o bastante para 28 baseados grandes, do tamanho de um cigarro de tabaco. O comprador de fora do estado pode adquirir 7 gramas. Não cabe ao comércio fiscalizar quanto o usuário possui: se quiser ir a outra loja e comprar mais 1 onça, a responsabilidade é dele.

Como todo empresário que se preza, Elan se queixou do peso dos impostos. Hoje, disse, eles respondem por 36% do preço da Cannabis para fins recreativos (contra 7,6% no produto vendido com receita médica para dores, enjoos, insônia e outros males). O preço final – que varia de 6 a 9 dólares o grama – ainda é cerca do dobro do praticado no mercado negro. "Por enquanto a gente pode competir em segurança, comprovação da origem e variedade do produto."

Parte do encarecimento da mercadoria decorre da oferta limitada, ponderou Elan. Quando a venda para fins recreativos começou, no dia 1º de janeiro, apenas as empresas que já produziam para uso medicinal puderam operar. Na véspera, elas precisaram alocar uma fração de seu estoque para a nova finalidade. "Se o sujeito calculou errado, em pouco tempo não tinha mais nada. Então o preço disparou de uma hora para a outra."

No início do ano, 25 lojas ofereciam a erva no Colorado. O número subiu para 60 no final de janeiro, chegou a 100 em março e passará de 150 em abril. O ritmo deve aumentar a partir de outubro, quando cultivo e varejo serão licenciados separadamente – atualmente, só a empresa que produz pode vender ao consumidor. "A indústria da marijuana recreativa vai crescer e se tornar mais flexível", previu Art Way, gerente no Colorado da ONG pró-legalização Drug Policy Alliance. Os cofres estaduais podem esperar mais.

A possibilidade de arrecadar dinheiro com um negócio antes ilegal foi um dos apelos da Emenda 64. Ela estabeleceu um imposto de 15% sobre a transferência da erva do produtor para o varejista, mesmo quando se trata da mesma empresa. A ele são acrescentados os 2,9% cobrados no estado de toda venda ao consumidor, e mais um imposto sobre supérfluos de 10%. Além disso, cada cidade cobra sua própria taxa da maconha.

"Precisamos vender mais erva!", comemorou Cal Hamler, secretário de Finanças de Pueblo County, 160 mil habitantes, depois de entesourar 100 mil dólares pagos pelos dois estabelecimentos de maconha na cidade em um mês – ele esperava 400 mil no ano inteiro. Em todo o estado, estima-se que o valor em impostos obtido com a marijuana recreativa logo supere o recolhido com bebidas alcoólicas – 3,3 milhões de dólares por mês em média.

O destino da verba extra está em discussão. A Emenda 64 determinou que os primeiros 40 milhões de dólares recolhidos anualmente em impostos sejam destinados a um fundo para a construção de escolas. O governador John Hickenlooper, do Partido Democrata, propôs usar parte do restante no tratamento de viciados e em campanhas de prevenção ao uso de drogas e de advertência aos motoristas: se der um tapa, não dirija. A polícia quer mais dinheiro para reprimir o tráfico.

 O professor da Universidade da Califórnia Mark Kleiman apoia a legalização, com base na evidência de que a proibição causa violência, corrupção e superlotação das prisões. Kleiman, no entanto, tem sido um estraga-prazeres dos ativistas excessivamente entusiasmados com a nova tendência (além do estado de Washington, onde a maconha legal estará à venda em junho, Oregon, Arkansas e Alasca preparam referendos sobre o tema). O resultado ideal da experiência, segundo ele, é não haver uma disparada do número de usuários pesados ou menores de idade.

O especialista defende os impostos altos e a regulação estrita da atividade, mas teme que essas políticas sejam combatidas pela indústria da maconha quando ela estiver a pleno vapor. Há ainda o receio de que o negócio venha a ser monopolizado por grandes corporações, como as do cigarro. "Até que o governo federal mude suas leis, não vemos esse risco. Mas, para começar nessa indústria, já é preciso dispor de um capital de quase 3 milhões de dólares", disse Art Way.

É sobre dilemas desse tipo que o Uruguai se debruça. O país anunciará neste mês a regulamentação da produção e do comércio do produto, legalizados no ano passado. O governo pretende tabelar a marijuana a 1 dólar por grama, o preço do mercado negro. Haverá um cadastro de usuários e um limite de compra mensal. Indivíduos e clubes de até 45 sócios poderão plantar quantidades limitadaspara consumo próprio, e já há interessados na produção comercial. O cultivo poderá ser feito em terrenos do Exército, que assim protegerá a erva legal dos traficantes, seus concorrentes. Dificilmente haverá mercadoria disponível antes de dezembro ou janeiro.

Enquanto isso, o Colorado promete baixar seus preços. Nos próximos meses, o calor no Hemisfério Norte impulsionará o crescimento das extremidades floridas da Cannabis – a maconha propriamente dita. "No verão, a oferta já estará equilibrada", previu lan Nelson, que não riu frouxo nenhuma vez.

http://revistapiaui.estadao.com.br/edicao-91/chegada/erva-generosa 21/04/2014

sábado, 15 de março de 2014

Terra inacabada 3

Em 7 de novembro de 2011, escrevi neste blog um texto com o título "Terra inacabada" http://librinas.blogspot.com.br/2011/11/terra-inacabada.html. Era sobre a questão da Amazônia e as intervenções e interações com os humanos. Dentre outras coisas disse sobre o complexo hidrelétrico do rio Madeira. Voltei ao assunto em "Terra inacabada 2"
http://librinas.blogspot.com.br/2012_03_01_archive.html

No texto de 2011 termino com a frase "Deus ainda não voltou à Amazônia para terminar seu trabalho. Os homens continuam lá, eles ainda não saíram."

Em 2014 está assim.
 

Hidrelétricas do Madeira subestimaram hidrografia e mudanças climáticas

POR TELMA MONTEIRO

A "oferta" foi feita por um diretor de Meio Ambiente de uma empreiteira, em 20 de janeiro de 2009, durante uma reunião em Porto Velho (RO): "Serão R$ 60 milhões à disposição das organizações não governamentais". O dinheiro, segundo ele, seria referente à compensação ambiental da usina Santo Antônio, no Rio Madeira, que poderia ir diretamente para as ONGs. A lei determina o recolhimento, pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), da compensação ambiental de até 0,5% sobre o custo das obras físicas de empreendimentos. O consórcio, informou o diretor, estava negociando com o MMA a ideia de destinar o recurso para projetos com ONGs e associações da região. Claro que, com isso, pretendia-se reduzir as resistências que o empreendimento provocava.

Estou expondo apenas um exemplo dos inúmeros artifícios usados e que ilustram a necessidade visceral do governo Lula e das empresas Furnas e Odebrecht de construir duas mega-hidrelétricas no Madeira, o maior afluente do Rio Amazonas. As usinas Santo Antônio e Jirau foram impostas à sociedade e viabilizadas com tantas irregularidades, ilegalidades, escamoteamento de informações, desinformações e subterfúgios que o resultado catastrófico acabou por ficar visível muito antes do que se previa.

Creio que não há mais dúvidas, hoje, de que a hecatombe que acontece em Rondônia, Acre e Bolívia tem, sim, relação com a construção das hidrelétricas no Rio Madeira. Basta consultar a história do processo de licenciamento das usinas no Ibama ou as mais de 20 ações civis públicas ajuizadas pelos Ministérios Públicos Federal e do Estado de Rondônia e por organizações não governamentais, para constatar que tudo estava previsto.

Nesta semana uma nova ação ajuizada por instituições de RO obteve a liminar que obriga os consórcios ESBR de Jirau e SAE de Santo Antônio a indenizar as vítimas da enchente e a refazer os estudos ambientais. A Justiça Federal, portanto, confirmou a responsabilidade das usinas e do Ibama no agravamento dos impactos da cheia do rio Madeira em Rondônia e no Acre.

A opção pelas turbinas tipo bulbo foi a justificativa principal para que a licença prévia das duas hidrelétricas fosse concedida. O argumento de que com elas o reservatório seria menor e com isso os impactos ambientais reduzidos, foi uma falácia. A única pessoa com poder para acatar o parecer dos técnicos do Ibama, sobre a inviabilidade ambiental das usinas e a extensão dos impactos não dimensionados no Estudo de Impacto Ambiental (EIA) e respectivo Relatório de Impacto Ambiental (RIMA), era a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva. Mas ela se rendeu às pressões. Aceitou como verdade que as turbinas resolveriam as questões ambientais e tapou olhos e ouvidos para o que diziam os experts da sociedade.

Prova disso é o último parágrafo da conclusão dos técnicos do Ibama, no famoso parecer 014/2007, de 21 de março de 2007, que tem que ser lembrado, enquadrado e estampado em jornais, portais e revistas. É apenas um parágrafo de oito linhas (no original), mas que traduz, em toda a sua amplitude e consequências, os impactos que estão acontecendo agora com a cheia histórica do Rio Madeira. Vejamos:

"Dado o elevado grau de incerteza envolvido no processo; a identificação de áreas afetadas não contempladas no Estudo; o não dimensionamento de vários impactos como ausência de medidas mitigadoras e de controle ambiental necessárias à garantia do bem-estar das populações e uso sustentável dos recursos naturais; e a necessária observância do Princípio da Precaução, a equipe técnica concluiu não ser possível atestar a viabilidade ambiental dos aproveitamentos Hidrelétricos Santo Antônio e Jirau, sendo imperiosa a realização de novo Estudo de Impacto Ambiental, mais abrangente, tanto no território nacional como em territórios transfronteiriços [Bolívia], incluindo a realização de novas audiências públicas. Portanto, recomenda-se a não emissão da Licença Prévia."

Não é preciso dizer que depois desse parecer alguma coisa de muito grave aconteceu, pois as fatídicas usinas estão aí. E os problemas apontados no parecer se materializaram. O que mudou no processo que fez com que a licença fosse concedida apenas três meses depois e sem o novo EIA/RIMA recomendado? Foi a alteração nos projetos? Foi a revisão dos impactos? Foi a mudança da equipe técnica? Nada disso.

Os problemas apontados no parecer eram de tal gravidade, veja-se as consequências hoje, que foi necessária a recomendação de um novo Estudo de Impacto Ambiental, pois a fase de complementações já se esgotara em 2006. Ou seja, tecnicamente, deveria haver um novo processo de licenciamento, com outro EIA/RIMA.

Será que mostrar tudo o que foi tramado de sórdido desde o início da campanha do governo Lula para impor as usinas hidrelétricas do Rio Madeira poderá ajudar agora os desabrigados de Rondônia, Acre e Bolívia? Poderá ajudar a recompor as perdas de pequenos comerciantes, agricultores, trabalhadores? Poderá trazer de volta as 100 mil cabeças de gado perdidas nas águas que invadiram a Bolívia? Poderá reverter os casos de doenças que virão depois que a enchente baixar? Poderá recuperar a qualidade das águas, agora contaminadas por lixo e esgoto? Poderá fazer com que os alunos recuperem as aulas perdidas nesse período? Poderá pagar o prejuízo causado pelo isolamento do Acre?

Porque o que levou a isso, na verdade, foi a concepção de dois projetos hidrelétricos eivados de falhas técnicas, que subestimou o Rio Madeira, que desconsiderou a bacia hidrográfica como um todo e a influência das mudanças climáticas no seu regime de cheias no Brasil e no país vizinho, a Bolívia. Junte-se a isso a minimização dos impactos, a falta proposital de exatidão nas informações. Tudo junto só poderia trazer o resultado que estamos assistindo na região há mais de um mês.

É preciso dar um "cala boca" definitivo nesses representantes atuais dos dois consórcios, autoridades do MME e do Ibama, que vêm a público para dar explicações técnicas indecifráveis para a sociedade leiga, tentando convencer que o agravamento da enchente em Rondônia, Acre e Bolívia não é consequência das hidrelétricas Santo Antônio e Jirau. O jargão utilizado por esses "próceres" do setor elétrico lobista não nos convence mais, pois a verdade está estampada nas imagens e nas vozes da população afetada.

Há disponíveis dezenas de relatórios e documentos produzidos por especialistas brasileiros e bolivianos, por pesquisadores de renome, doutores, cientistas, engenheiros internacionais, que alertaram, desde o início, sobre os impactos, esses mesmos que estão aí e outros que ainda virão, que as duas hidrelétricas produziriam. Caso isso não baste, no primeiro Estudo de Viabilidade Técnica e Econômica (EVTE) das usinas, patrocinado por Furnas e Odebrecht, os técnicos apontaram os problemas dos impactos dos efeitos de remanso tanto no Brasil como na Bolívia e alertaram para o nível de assoreamento do reservatório, entre outros.

Os efeitos de remanso já foram descritos por vários especialistas em relação às usinas do Madeira. A explicação é que, apesar da cota máxima prevista no projeto, o nível do rio poderá subir mais do que isso a montante (acima), em situação de eventos extremos, e a água vai se espalhar pela planície sulcada por igarapés e pequenos rios, antes de chegar à barragem. É isso que está acontecendo ao longo do Rio Madeira, desde a Bolívia.

Outro problema que pode agravar a situação, no futuro, é o aporte de sedimentos do rio Madeira. O Ministério de Minas e Energia (MME) chegou a contratar um especialista internacional para dar um parecer sobre os sedimentos das águas do Madeira. A interpretação divulgada do parecer, não só minimizou o problema, como ainda desconsiderou os alertas do consultor e a sugestão de um arranjo mais eficiente e mais barato para Santo Antônio.

Infelizmente, listar aqui todos os problemas descritos no processo e que podem afetar duramente as populações das áreas de influência das hidrelétricas Santo Antônio e Jirau, exigiria um espaço de um livro em vários volumes. Já temos amostras demais, como os efeitos das águas dos vertedouros de Santo Antônio que estão "comendo" a margem direita e já desalojaram dezenas de famílias do bairro Triângulo, em Porto Velho. Seria esse mais um efeito da mudança não aprovada do layout das estruturas da usina de Santo Antônio?

O reverso da medalha está aí. As usinas do Madeira foram impostas à sociedade com o argumento de que estaríamos a beira do apagão se elas não fossem construídas. Hoje, quase concluídas e com muitas turbinas em operação, elas não estão servindo para gerar energia. As turbinas de Santo Antônio foram desligadas por ordem do Operador Nacional do Sistema (ONS) devido à cheia. As linhas de transmissão de 2.450 quilômetros não estão transportando nenhum Mwh. E a previsão é que as cheias da bacia do Rio Madeira devem avançar para todo o mês de março.

Na mesma toada vão as obras de Jirau, com algumas poucas turbinas em operação, com custos que já dobraram. Subsidiados pelo BNDES dos governos de Lula e Dilma Rousseff, estão ameaçadas de colapso pela enchente histórica. Do outro lado da fronteira, as autoridades bolivianas alegam que tinham a garantia das autoridades brasileiras de que as usinas não afetariam seu território. Balela. Tanto os bolivianos como os brasileiros sabiam direitinho que a Bolívia sofreria com as hidrelétricas. Até os estudos de viabilidade confirmavam isso. Estudos que os próprios empreendedores fizeram e que a Aneel aceitou.

Em 11 de março de 2009, fui convidada para uma reunião num hotel em Brasília, com o staff do governo boliviano que estava preocupado com os efeitos negativos da usinas em seu território. O grupo estava no Brasil para assinar um acordo proposto pelo governo brasileiro ao governo boliviano, que dizia respeito às hidrelétricas. Os participantes não estavam satisfeitos com a minuta do acordo e fui convidada para esclarecer alguns pontos sobre os impactos ambientais e sociais das usinas.

A minuta do acordo não refletia o entendimento técnico havido entre a Bolívia e o Brasil em uma reunião em La Paz, em 2008. Os bolivianos não estavam dispostos a assinar o acordo, pois tinham tido notícias do grave episódio da mortandade de toneladas de peixes em época do defeso (quando sobem até a cabeceira para a desova e reprodução), durante a construção das ensecadeiras da usina de Santo Antônio. Queriam detalhes sobre se isso poderia vir a afetar futuramente a atividade pesqueira dos ribeirinhos bolivianos. Eu havia escrito um artigo alertando para o desastre; partiu daí, então, o interesse deles por mim e o convite.

Em contrapartida, o governo brasileiro estava interessado em construir mais duas hidrelétricas no Rio Madeira Cachoeira Esperança, na divisa com a Bolívia e El Bala, no rio Beni. Prometeu aos bolivianos que manteria um monitoramento permanente da qualidade da água e dos sedimentos a jusante, para prevenir possíveis impactos em seu território. Os bolivianos também informaram que a proposta do Brasil era bancar a construção das hidrelétricas e comprar toda a energia produzida por elas.

Nada melhor para calar uns e outros, que promessas de dinheiro e mega obras para políticos corruptos e empreiteiras sequiosas por empreendimentos que consomem muito concreto e aço e que precisam remover milhares de metros cúbicos de rochas. Na época, as duas hidrelétricas foram acertadas, e então ficou o dito pelo não dito. Os impactos das usinas do Madeira em terras bolivianas ficaram em segundo plano.

No Brasil, para conceber e construir projetos como os do Rio Madeira ou Belo Monte, não é preciso ter conhecimento técnico apenas, tem que saber enganar bem, fornecer dados inconsistentes. Saber manipular informações, números, valores, desconstruir laudos de especialistas internacionais, estatísticas, convencer autoridades e, principalmente, bancar muitas campanhas eleitorais. Se fosse possível conceder um prêmio de manipulação ele seria dividido entre os idealizadores do projeto Madeira e o governo Lula.


Telma Monteiro é ativista ambiental, pesquisadora independente, especializada em análises de processos de licenciamento ambiental de hidrelétricas na Amazônia


Blog da Amazônia / Altino Machado


http://terramagazine.terra.com.br/blogdaamazonia/blog/2014/03/13/hidreletricas-do-madeira-subestimaram-hidrografia-e-mudancas-climaticas/ 15/03/2014


 

sábado, 1 de março de 2014

A Copa do Cu do Mundo

José Miguel Wisnik
http://oglobo.globo.com/cultura/a-copa-do-cu-do-mundo-11753269

01/03/2014

A Copa do Cu do Mundo

Linchamento é um simulacro perverso e inaceitável de julgamento sumário

Quando escrevi, no sábado passado, o artigo "O touro à unha", falando sobre as camadas de Brasil real que a perspectiva da realização da Copa do Mundo trouxe inesperadamente à tona, com tudo o que o país tem de difícil, eu não esperava que Caetano Veloso escrevesse no domingo um artigo, intitulado "O cu do mundo", em que falava das entranhas expostas de uma nação onde emergem sinais inquietantes da prática e da admissão pública de linchamentos. Nos dois textos estava em jogo a violência brasileira, ancestral, crônica, sintomática, e seu recrudescimento neste momento conturbado em que ela parece se voltar sobre si para obscurecer mas também para revelar, talvez, sentidos. Naquele mesmo domingo, à noite, um fato sinistro confirmava a junção dos dois temas: um grupo de torcedores do São Paulo trucidava um torcedor solitário do Santos que estava num ponto de ônibus qualquer da cidade. Enquanto isso, como num estranho alinhamento de planetas maléficos e benéficos, eu me deparava, num espetáculo do Teatro Oficina, com uma formulação iluminante do problema aquela que dá nome a este artigo.


Imagens ligadas à execução do torcedor foram mostradas segunda-feira no "Jornal Nacional". Uma câmera de prédio capta, à distância, o movimento de dois carros parando próximos a uma esquina, dos quais descem dois grupos evidentemente aliados e armados de instrumentos contundentes. Sorrateiros e ostensivos como quem compartilha um segredo público, covardes conscientes, fingindo mal, entre si, de valentes, dobram a esquina e desaparecem da vista para retornar minutos depois e fugir nos dois carros. Pode-se considerar banalizado, diante da repetição de brigas de torcidas e casos de mortes em estádio e seus entornos, sem falar nos assaltos cotidianos, o assassinato inominável que está fora da cena, e que acontece quase cinematograficamente nos minutos de ausência.

Mais que isso, no entanto, as imagens expõem o grau de gratuidade sórdida a que chega a violência ali documentada (não sei até que ponto as imagens estão permitindo agora a localização e o enquadramento do grupo infame). Não se trata propriamente, aqui, de linchamento: linchamento é um simulacro perverso e inaceitável de julgamento sumário. Briga de torcidas, por sua vez, se faz a quente, na base do corpo a corpo, na panela de pressão do estádio ou da rua. Aqui temos a predação fria, em estado quimicamente puro, digamos assim, que parasita o jogo de futebol para buscar através deste a imagem regressiva de um outro a liquidar. Existe nisso o próprio modelo de uma faccionalização da vida que pode ser reconhecido em muitos campos, e que supõe a massa podre de um enorme ressentimento acumulado.

Ninguém como Zé Celso Martinez Correa, por sua vez, tem assumido ao longo das décadas o princípio vivificante do teatro como aquela experiência em ato que dá voz e corpo à doença social, tocando nela. O espetáculo em questão é o quarto da série das "Cacildas!", que tem como mote o estado de coma de Cacilda Becker, que antecedeu sua morte, em 1969, tomado como um imenso fluxo onírico, à maneira do "Vestido de noiva" de Nelson Rodrigues, através do qual se vai repassando e transfigurando toda a carreira da atriz, e com ela a história do teatro brasileiro. Desigual e fulgurante como sempre, nas suas seis horas de duração, a peça tem passagens sublimes como nunca, sem deixar de ter como alvo de seu mergulho no passado as urgências do presente.

Numa sequência ao mesmo tempo divertida e contundente, na base do programa de auditório, joga-se com a iminência da realização, no Brasil, desse maior espetáculo da Terra que é chamado nada mais nada menos do que a Copa do Cu do Mundo. Todo o sentido crítico que se possa, toda a virada pelo avesso do padrão Fifa, exibido pela culatra, toda a remissão às misérias, às derrisões e aos terrores da doença brasileira, tudo está aí, nesse nome. Mas também, no reconhecimento disso, a capacidade de afirmar a potência da cultura (com trocadilho), de rir das máscaras canastronas, de exercer o apetite de viver e, por incrível que pudesse ser e é, de marcar um lugar original no planeta. É claro que isso só pode ser afirmado em vista da grandeza artística do todo, e no modo como o espetáculo vai fundo na experiência social e vital do país.

A discutida camiseta da Adidas para a Copa, onde se estampa "I love Brazil" na forma de um coração-bunda, é uma versão limitada, mercadológica pitoresca e não assumida do fato de que se olha difusamente a Copa no Brasil como uma espécie de Copa do Cu do Mundo. O espetáculo de Zé Celso eleva esse conteúdo a uma outra potência: não o quarto mundo, não o cu do mundo, mas a quarta dimensão do cu do mundo.

terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Aberrações da Humanidade


28 de dezembro de 2013 | 2h 07 
Marcelo Rubens Paiva - O Estado de S.Paulo 

Sachê

Você sabe muito bem do que estou falando. Onde estão aqueles recipientes com mostarda e ketchup com que estávamos habituados, e aprendemos a espremer antes de escrever? E o saleiro, o açucareiro, a maionese no pratinho, com uma espátula apropriada? É mais raro encontrá-los do que guardanapos de linho. A Vigilância Sanitária, o lucro insano das corporações e o capitalismo selvagem nos obrigam a conviver com desagradáveis e minúsculos sacos plásticos não biodegradáveis que, dizem, contêm o condimento necessário para a nossa refeição. Como abrir? Com unhas? Dentes? Dentadas e unhadas? Imaginam que andamos com canivete suíço no bolso? Como abrir sem escorrer a metade do condimento? Como abrir sem espalhar pela mesa ou pelo colo ou, pior, espirrar no rosto do garçom, um saco que não fora planejado para ser aberto, mas para apenas armazenar uma porção que alguém arbitrariamente julgou a necessária. Bem, minhas fritas precisam de dezenas daqueles saquinhos. E tiveram a cara de pau de inventar sachê com azeite, vinagre e até shoyu. Queria que o inventor dessa barbaridade almoçasse numa cantina tradiça com a minha família italiana e tentasse temperar a salada, entre as polêmicas e discussões de sempre de domingo. Sem usar os dentes.

Protocolo de Atendimento

Outra aberração da humanidade. Já tive quatro protocolos de atendimento numa reclamação para o SAC de uma telefônica num telefonema de 30 minutos. Média: um protocolo a cada sete minutos e meio. No quarto, me perguntei o que foi feito com o coitado do primeiro, perdido, esquecido solitário no buraco negro que eles nomearam "sistema". E se precisamos de quatro, por que nos soletram três antes. Nossa vingança é quando fingimos que anotamos o protocolo de atendimento. "Senhor, por favor, anotar o protocolo de atendimento." Claro, querida, pode falar, estou anotando no meu álbum de protocolos de atendimento, que coleciono desde quando inventaram o protocolo de atendimento, meses depois de inventarem o atendimento. E repetimos em voz alta um número infindável, enquanto checamos e-mails, postagens nas redes sociais, confirmamos presença em eventos em que não daremos as caras... Se tivessem a mesma eficiência nos atendimentos que no exercício de dar protocolos de atendimento, o mundo seria com bem menos protocolos. E os consumidores ligariam bem menos para o atendimento.

Controle Remoto

Foi uma bela invenção. Que piorou a saúde da humanidade, aumentou o sedentarismo e nos deixou mais atordoados. Invenção que, com o tempo e o avanço tecnológico, piorou, como o relógio digital que está até em eletrodomésticos de linha branca, piscando teimosamente no 00:00, já que não sabemos programá-lo. Tá. Não bastam os botões de ligar, desligar, volume e canal. Existem dezenas deles, com números que não são parte de uma calculadora e símbolos que não fazem sentido, indicações e termos que só conseguem ser lidos com a ajuda de um microscópio. O controle da minha TV, comprada no Brasil, tem as opções power, source, ch, pre-ch, mute, ch.list, w.link, tools, return, info, exit, cc, mts, p.mode, e.mode, p.size, fav/ch, números e flechas... E, claro, um enter que, cuidado, se você apertar, a TV não funcionará por sete dias, até seu sobrinho geek fazer uma visita. Como se não bastasse, precisamos de três deles, às vezes mais, para assistir àquele filminho água com açúcar com a família. E sincronizar operações, como abaixar o volume da TV, aumentar o do Blu-Ray e mudar para modo HDTM3. Muitas vezes, quando acertamos e, milagre, o volume está OK e a legenda sincronizada, parte da família ronca ao lado. Mais fácil pilotar um caça sueco. Quer uma dica quando der pau? Uso aqui em casa: tira da tomada, conta até 15 e coloca novamente. Geralmente dá certo.

Renovação do Passaporte

Na Europa é de 15 em 15 anos. Nos EUA, de dez em dez. No Brasil, de cinco em cinco anos. Gênio. E lá vamos nós, com fotos, DARFs pagas, digitais, enfrentar filas para pegar senhas que nos levam a outras filas. E rezarmos para o sistema, aquele labirinto obscuro de informações, o entorpecente do burocrata descontente, não cair. O que costuma acontecer justamente nas vésperas das férias. Quando a categoria não entra em operação tartaruga ou greve. Por que não uma renovação de 20 em 20 anos? Aí, sim, os policiais federais poderiam trocar o cabo de um carimbo pelo de um revólver e ocupar o tempo com operações contra o crime organizado. Sem se preocuparem em organizar filas de turistas, sacoleiros, crianças ansiosas pela Disney, gente do bem sem antecedentes criminais.

Insulfilm 

Serve para ocultar aquele barbeiro que nos fecha ou buzina sem parar. Protegido pelo anonimato, nos intimida. Caso contrário, xingaríamos quatro gerações da sua família. Se tivéssemos certeza de que dentro daquele carro popular com insulfilm não está a seleção brasileira de jiu-jítsu. O insulfilm aumenta a anarquia no trânsito. Incentiva a má-educação, a imprudência e o hábito tão cordialmente brasileiro de "não dar passagem". Tenho certeza de que, por trás daquele vidro escuro, está um fracote que desconta seu complexo de inferioridade no trânsito. Caso contrário, por que precisaria de um insulfilm? Pode apostar: no dia em que o proibirem, o buzinaço em todas as esquinas diminuirá.

Radiador

Aquilo que sempre esquecemos de checar se está completo. Como uma máquina tão evoluída, com computador de bordo, injeção eletrônica, radar traseiro, câmeras, que faz a baliza sozinha, GPS, MP3, freios ABS, airbag, precisa ser resfriada por um punhado de água engradada? A mesma água que esfriou as engrenagens de catapultas romanas e apaga as churrasqueiras do tiozinho do churrasco. Engradado que, a cada três anos, fura, e nos leva à loucura, aquecendo a máquina e nos deixando na mão e a pé. Tem mais computador num carro hoje em dia do que na Apolo 11, que levou o homem à Lua. Mas se ele aquecer... Houston, we have a big problem.

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

Contra o silício


Deu em O Globo de 04/01/2014.

A revolta contra o silício


Gentrificação em São Francisco e colaboração com a NSA tornam empresas de tecnologia alvo de protestos nos Estados Unidos

Rennan Setti (Email)

Publicado:4/01/14 - 12h00

Em novembro, manifestantes protestaram em frente à sede do Twitter, em São Francisco, EUA: contra despejos e incentivos fiscais a firmas de tecnologia David Paul Morris / Bloomberg

RIO - Os Estados Unidos pós-crise elegeram a plutocracia como alvo de um ódio comungado por todos, dos homeless à classe média hipotecada. Jovens armaram barracas em Wall Street em protesto contra o 1% de endinheirados com a ajuda de smartphones, Twitters e Facebooks. Nenhuma contradição no fato de essa parafernália ser responsável por uma inédita concentração de milionários no outro lado do país, uma vez que ela tornou possível o recente levante árabe. O Vale do Silício seguia blindado da fúria contra o capital. Mas a combinação de ofertas de ação extravagantes, arrogância, esbanjamento e um escândalo de espionagem começa a cobrar seu preço aos geeks.

O desconforto virou notícia no início de novembro de 2013, quando 150 pessoas protestaram em frente à sede do Twitter, em São Francisco. Naquele dia, a rede social estreava na Bolsa levantando US$ 2,1 bilhões e dando à luz 1,6 mil milionários. Por causa de empresas como aquela, denunciavam os manifestantes, a cidade que já foi morada de hippies e artistas tem hoje o metro quadrado mais caro do país. Apenas 10% dos imóveis cabem no orçamento de quem ganha o salário médio, e despejos se tornaram uma constante.

- Nem mesmo a Corrida do Ouro, no século XIX, produziu tanto lucro na região - lembra Kevin Starr, professor da University of Southern California. - Nenhuma economia do planeta suporta os efeitos negativos desse tsunami de riqueza instantânea. Para o bem ou para o mal, São Francisco desbrava um paradigma econômico nos EUA que refletirá em outros países em seu descasamento de salários e na diminuição da prosperidade da classe trabalhadora.

Nada simboliza tanto o conflito quanto os ônibus da Google, que levam funcionários de São Francisco à sede da empresa, em Mountain View, com direito a wi-fi e ar-condicionado. Há algumas semanas, um dos veículos foi bloqueado durante meia hora por manifestantes que acusavam a frota de usar indevidamente os pontos da cidade e de privar o sistema de transportes de receita importante.

Em fevereiro, Rebecca Solnit escreveu no “London Review of Books” que os ônibus são a prova de que, “diferentemente de mega-empregadores em outros tempos e lugares, as corporações do Vale não estão muito interessadas em melhorar o transporte público.”

Essa é uma face do dogma libertário que reina no Vale, aquele que, segundo críticos, está no cerne de uma ideologia corrompida. Para Evgeny Morozov, que deu aulas em Stanford, o que ele chama de “solucionismo” faz start-ups acreditarem que seus apps e gadgets, não governos, podem resolver os problemas do mundo.

“Eles pensam que tudo o que ajuda a contornar instituições lhes dá, por definição, poder e liberdade. Você pode não conseguir pagar seu plano de saúde, mas se um app alerta para o fato de que você precisa de exercícios, eles acham que estão resolvendo um problema”, contou Morozov à revista “New Yorker”.

Em novembro, Morozov publicou o ensaio “Por que temos permissão para odiar o Vale do Silício”, em que advoga a necessidade de combater a “linguagem banal mas eficiente” de empresas como Google e Facebook e reexaminar sua “história furada”.

Ele argumenta que é urgente “reinjetar política e economia no debate”, pois sua ausência permite às corporações refutar como luditas e retrógrados todos os que se opõem aos rumos da “tecnologia” e da “internet”. O próprio vernáculo “digital” esvaziaria a discussão escondendo os reais interesses em jogo: seduzir nossas ansiedade e privacidade com produtos “gratuitos”, engendrados agora em um modelo de negócios monolítico baseado em anúncios.

“Por que tudo o que pode ‘destruir a internet’ também arrisca quebrar a Google? Coincidência?”, escreveu. “Permitir à Google organizar toda a informação do mundo faz tanto sentido quanto deixar a petrolífera Halliburton organizar todo o petróleo do mundo.”

Morozov é um crítico contumaz, mas mesmo a liberal “The Economist” previu que 2014 será o ano em que “a elite tecnológica se juntará a banqueiros e petroleiros na demonologia pública.” Um dos motivos é a colaboração de gigantes da tecnologia com a Agência de Segurança Nacional (NSA) na espionagem de internautas. Outro está nas manobras de firmas como Apple para deixar de pagar bilhões em impostos nos EUA. Há ainda o esbanjamento de milhões em ocasiões como o casamento de Sean Parker, ex-Facebook, que contratou a figurinista de “O Senhor dos Anéis” e Sting.

“Os geeks se transformaram nos capitalistas mais impiedosos. A nova economia já foi uma fronteira aberta. Hoje ela é dominada por um punhado restrito de oligopólios”, observou a revista.

O gosto pelo controle se manifesta em muitas formas. O maior investidor da Exxon Mobil controla 0,04% das ações, mas 29,3% do Facebook estão nas mãos de Mark Zuckerberg. Apps, considerados jardins murados por tecnólogos, estão substituindo a web aberta. Coincidência ou não, as principais empresas do setor estão entre as mais secretas que já existiram: a Apple organiza eventos para a imprensa onde é proibido fazer perguntas.

Para Alex Soojung-Kim Pang, consultor na Strategic Business Insights, a transição de uma economia baseada em fabricação de hardware para outra de negócios de internet acelerou a acumulação de riquezas a uma velocidade inédita, alterando o DNA do Vale:

- Testemunhei a mudança quando ensinei em Stanford, em 2000. Os alunos desenvolviam atitude do tipo “Por que tenho que ler suas baboseiras se ganharei US$ 50 milhões no ano que vem?”.

Para Pang, o Vale se tornou um culto à “disrupção”, cuja meta não é apenas o sucesso, mas a destruição de modelos estabelecidos:

- O sofrimento de velhos modelos se tornou a métrica do sucesso. Quanto mais os outros perderem, mais eu ganho. Se desenvolvo software de educação, não é o bastante chegar às crianças na África. Preciso que professores sejam demitidos nos EUA.