quinta-feira, 23 de janeiro de 2025

Lendo ‘Cem anos de solidão’

O tempo, a solidão e a morte

Cem anos de solidão, Gabriel Garcia Marquez, tradução Eric Nepomuceno, 132ªedição, Record 2024

Cem anos de solidão de Gabriel Garcia Marquez é um clássico imperdível da literatura mundial. Imperdível, assim como, Dom Casmurro de Machado de Assis e Angústia de Graciliano Ramos.

Cem anos... começa com uma utopia possível (ou sonho realizado) e termina com a destruição e desaparecimento. Neste intervalo de um século Marquez navega no tempo, na solidão, na morte e no esquecimento ao redor da cidade de Macondo. Com uma impecável linguagem poética e às vezes irônica. Marquez escreve como estivesse pintando um quadro.

Ernest Hemingway já disse que “É isso que tentamos fazer ao escrever, e isso e isso, e os bosques, e as rochas que temos que escalar” diante do quadro Rochas na floresta de Fontainebleau de Cézanne (ver Notas no final deste texto)

Não pretendo comparações Marquez versus Hemingway, mas o primeiro, em Cem anos... apresenta as imagens escritas como num quadro de pintura. E não satisfeito mistura poesia. O último capítulo do livro é poesia em prosa.

A personagem protagonista do livro é, sem dúvida, Úrsula Iguarán, a matriarca da família Buendía. Prima e esposa de José Arcadio Buendía, Úrsula é uma mulher forte e determinada. Ela é assombrada pela maldição da incestuosidade na família e é uma das poucas personagens a viver por quase toda a duração da história. Uma viajem por esta portentosa personagem: “Apesar do tempo, dos lutos superpostos e das aflições acumuladas, Úrsula resistia a envelhecer”.  “Santo Deus”, exclamou em voz baixa. “Quer dizer que isto é a morte.” “Úrsula teve de fazer um grande esforço para cumprir a promessa de morrer quando estiasse. O ânimo de seu coração invencível a orientava nas trevas”. “Na última vez em que tinham ajudado Úrsula a fazer as contas de sua idade, nos tempos da companhia bananeira, calcularam entre os cento e quinze e cento e vinte e dois anos”.

Algumas pérolas que nos deparamos quando da leitura do livro: armadilha da nostalgia / desalento da ociosidade / impermeabilidade aos afetos / resplendor lúgubre no rosto da cor de outono / não com a esperança de assim derrotar a solidão mas, para sustenta-la / na beira do princípio da incerteza / tédio do abandono/ tocada pela solenidade da morte/ lutos superpostos / resplendor seráfico / solidão compartilhada / labirinto dos mortos / não podia com a própria alma / os Buendía morriam sem doença / esmigalhou suas ilusões / viuvez de virgem / pacto honrado com a solidão / flutuava um insuportável cheiro de recordações apodrecidas / coração de cinza amassada / atocaiar amores extraviados.

 


O conteúdo do livro é dividido em dezenove capítulos, sem títulos. Durante a leitura marquei alguns trechos que percebi relevantes. Abaixo, estes trechos, nos capítulos nomeados por este que vos fala.

1. Utopia: início de sua realização, p.9; 

2. José Arcádio Buendía e Prudêncio Aguilar, p.27; 

3. Alucinada lucidez e o inútil costume de dormir, p.46; 

4. O espinho de um amor solitário, p.69; 

5. Pele triste, era quase puro osso,  p.90; 

6. Profundo silêncio com perfume de flores pisoteadas, p.114; 

7. Amaranta havia consagrada sua viuvez de virgem, p.132; 

8. O abismo da grandeza, p.172; 

9. Comia grãos de arroz que pegava com alfinete,  p.193; 

10. O trem amarelo das incertezas, alegrias, mudanças e calamidades, p. 214; 

11. Flutuava um insuportável cheiro de recordações apodrecidas p.235; 

12. Úrsula: a impenetrável solidão da decrepitude,  p.256; 

13. Compreensão sem limite com a solidão, p.279; 

14. Um anarquista na família, p.303; 

15. Invulneráveis ao tempo e ao desastre,  p.325; 

16. A morte de Úrsula, p.344; 17. Recapitulação de infortúnios, p.366; 

18. Atocaiar amores extraviados, p.387; 

19. Um passado cujo aniquilamento não se consumava, p.409


1. Utopia: início de sua realização, p.9

A circunavegação

— A terra é redonda como uma laranja.

Úrsula perdeu a paciência. “Se você é para ficar louco, pois que fique você, sozinho”, gritou. “Não trate de pregar nas crianças suas ideias de cigano.” José Arcádio Buendía, impassível, não se deixou amedrontar pelo desespero da mulher que, num explosão de cólera, estraçalhou o astrolábio no chão.

Construiu outro, reuniu no quartinho os homens da aldeia e demonstrou a eles, com teorias que para todos eram incompreensíveis, a possibilidade de regressar ao ponto de partida navegando sempre rumo ao Oriente. A aldeia inteira estava convencida de que José Arcádio Buendía tinha perdido juízo, quando Melquíades chegou para pôr as coisas em ordem.

Ele exaltou em público em público a inteligência daquele homem que através da pura especulação astronômica, havia construído uma teoria já comprovada na prática, embora até então desconhecida até então em Macondo, e como prova de sua admiração deu a ele um presente que haveria de exercer uma influência decisiva o futuro da aldeia: um laboratório de alquimia. (p.13)

 José Arcádio Buendía atreveu-se a murmurar:

- É o maior diamante do mundo

- Não – corrigiu o cigano – É gelo (25)

2. José Arcádio Buendía e Prudêncio Aguilar, p.27

Prudêncio Aguilar

Assim ficaram vários meses. Durante o dia, ele pastoreava seus galos de briga e ela bordava no bastidor da mãe. Durante a noite, se enredavam e engalfinhavam várias horas com uma ansiosa violência que já parecia um substituto do ato de amor, até que a intuição popular farejou que alguma coisa irregular estava acontecendo, e soltou o rumor de que Úrsula continuava virgem um ano depois de casada, porque seu marido era impotente. José Arcádio Buendía foi o último a ficar sabendo daquele rumor.

— Veja você, Úrsula, o que o pessoal anda dizendo — disse ele à mulher com muita calma.

— Deixe falar — respondeu ela. — Nós sabemos que não é verdade.

E assim a situação continuou tal e qual por outros seis meses, até o domingo trágico em que José Arcádio Buendía derrotou Prudêncio Aguilar numa briga de galos.

Furioso, exaltado pelo sangue do seu animal, o perdedor afastou-se de José Arcádio Buendía para que toda a arquibancada pudesse ouvir o que ia lhe dizer.

— Meus cumprimentos — gritou. — Vamos ver agora se enfim esse galo faz um favor à sua mulher.

José Arcádio Buendía, sereno, pegou o galo. “Volto já”, disse a todos. E logo, a Prudêncio Aguilar: —Vá para casa e se arme, porque eu vou matar você. Dez minutos depois voltou com a lança que tinha sido de seu avô, e que conhecia o gosto da morte. Na porta da arquibancada, onde se havia se concentrado meia aldeia, Prudêncio Aguilar esperava por ele.

Não teve tempo de se defender. A lança de José Arcádio Buendía, arrojada com a força de um touro e a mesma direção certeira com que o primeiro Aureliano Buendía tinha exterminado as onças da região, atravessou-lhe a garganta.

Naquela noite, enquanto o cadáver era velado na rinha de galos, José Arcádio Buendía entrou no quarto quando a sua mulher estava vestindo as calças de castidade. Brandindo a lança na frente dela, ordenou: “Tire isso.”

Úrsula não pôs em dúvida a decisão do marido. “Haja o que houver, a responsabilidade será sua”, murmurou. José Arcádio Buendía cravou a lança no chão de terra.

— Pois se você tiver que parir iguanas, criaremos iguanas — disse — Mas nesta aldeia não haverá mais mortos por sua culpa.

Era uma bela noite de junho, fresca e com lua, e ficaram acordados e se revolvendo na cama até o amanhecer, indiferentes ao vento que passava pelo quarto, carregado com o pranto dos parentes de Prudêncio Aguilar. (29 e 30)

......

Os homens e o medo da morte

Mas quando ela (Pilar Ternera) entrava em casa, alegre, indiferente, desaforada, ele (José Arcádio) não precisava fazer nenhum esforço para dissimular a sua tensão, porque aquela mulher, cujo riso explosivo espantava os pombas, não tinha nada a ver com o poder invisível que o ensinava a respirar para dentro e controlar as batidas do coração, e tinha permitido entender por que os homens têm medo da morte. (p.36)

......

Amaranta

Numa quinta-feira de janeiro, às duas da madrugada, nasceu Amaranta. Antes que alguém entrasse no quarto, Úrsula examinou-a minuciosamente. Era leve e úmida feito uma lagartixa, mas todas as suas partes eram humanas. Aureliano não percebeu a novidade a não ser quando sentiu a casa cheia de gente.

Protegido pela confusão, saiu à procura do irmão, que não estava na cama desde as onze, e foi uma decisão tão impulsiva que não teve tempo de se perguntar como faria para arranca-lo do quarto de Pilar Ternera.

Ficou rondando a casa por várias horas, assoviando em códigos secretos até que a proximidade do amanhecer obrigou-o a regressar. No quarto da mãe, brincando com a irmãzinha recém-nascida e com uma cara que derramava inocência, encontrou José Arcádio. (p.38)

......

Arcádio

O filho de Pilar Ternera foi levado para a casa dos avós duas semanas depois de ter nascido. Úrsula admitiu-o de má vontade, vencida mais uma vez pela teimosia do marido, que não conseguiu tolerar a ideia de que um rebento do seu sangue ficasse navegando a deriva, mas impôs a condição de que ocultassem do menino a sua verdadeira identidade. Apesar de receber o nome de José Arcadio, acabou sendo chamado simplesmente de Arcadio, para evitar confusões. Havia naquela época tanta atividade na aldeia e tanto ataranto na casa, que as crianças ficou relegado a segundo plano.

Ficaram aos cuidados de Visitación, uma índia guajira que tinha chegado à aldeia com um irmão, fugindo de uma peste de insônia que flagelava a sua tribo fazia vários anos. Ambos eram tão dóceis e serviçais que Úrsula resolveu abriga-los para que a ajudassem nas tarefas domésticas.

Foi assim que Arcadio e Amaranta falaram a língua guajira antes do castelhano, e aprenderam a tomar caldo de lagartixas e a comer ovos de aranhas, sem que Úrsula percebesse, porque andava demasiado com um negócio promissor de animaizinhos de caramelo. Macondo estava mudada. (p.46)

3. Alucinada lucidez e o inútil costume de dormir, p.46

Mas a tribo de Melquíades, pelo que os vira-mundos contaram, tinha sido varrida da terra por haver superado os limites do conhecimento humano. (47)

......

Rebeca

— Alguém vai chegar — disse. (Aureliano)

Úrsula, como sempre que ele uma previsão, tentou desalentá-lo com a sua lógica caseira. Era normal que alguém chegasse. Dezenas de forasteiros passavam todos os dias por Macondo, sem despertar inquietações nem antecipar avisos secretos. No entanto, por cima de qualquer lógica, Aureliano tinha certesa do seu presságio.

— Não sei quem é — insistiu — mas seja quem for, já vem a caminho.

No domingo, realmente, chegou Rebeca. Não tinha mais de onze anos. Havia feito a penosa viagem desde Manaure, com uns traficantes de peles que receberam a missão de entregá-la, com uma carta, na casa de José Arcádio Buendía, mas que não conseguiram explicar com precisão quem era a pessoa que lhes havia pedido o favor.

Sua bagagem inteira era composta de um bauzinho de roupa, uma pequena cadeira de balanço de madeira com florzinhas coloridas pintadas a mão e um embornal de lona que fazia um permanente ruído de cloc cloc cloc, onde trazia os ossos de seus pais.

A carta dirigida a José Arcadio Buendía estava escrita em termos muito carinhosos por alguém que continuava gostando muito dele apesar do tempo e da distância e que se sentia obrigado, por um elementar sentido humanitário, a fazer a caridade de lhe mandar esta pobre orfãzinha desamparada, que era prima de Úrsula em segundo grau e, portanto, parente também de José Arcádio Buendía, embora em grau mais afastado, porque era filha daquele inesquecível amigo que foi Nicanor Ulloa e sua mui digna esposa Rebeca Montiel, a quem Deus tenha no seu santo reino, cujos restos juntava à presente para que lhes desse sepultura cristã.

Tanto os nomes mencionados quanto a assinatura da carta eram perfeitamente legíveis, mas José Arcádio Buendía nem Úrsula se lembravam de ter parentes com esses nomes, nem conheciam ninguém que se chamasse como o remetente, e muito menos na remota povoação de Manaure.

Através da menina, foi impossível obter informação complementar. Desde o momento em que chegou, sentou-se na cadeirinha de balanço a chupar o dedo e observando a todos com os seus grandes olhos espantados, sem que desse sinal algum de entender o que lhe perguntavam. Vestia uma roupa de tecido trançado grosso tingido de negro, gasta pelo uso, botinas descascadas de verniz descascado. Tinha os cabelos presos atrás das orelhas, com laços de fitas negras.

Usava um escapulário com as imagens apagadas apagadas pelo suor e no pulso uma presa de animal carnívoro montada num suporte de cobre, como amuleto contra o mau-olhado. Sua pele verde, seu ventre redondo e tenso como um tambor revelavam uma saúde ruim e uma fome mais velhas que ela mesma, mas quando lhe deram de comer ficou com o prato nas pernas, sem provar nada. Chegaram inclusive a achar que era surda-muda, até que os índios lhe perguntaram na sua língua se queria um pouco de água e ela moveu os olhos como se os tivesse reconhecido e disse sim com a cabeça. (49 e 50)

......

[Peste da Insônia] Queria dizer que quando o doente se acostumava com seu estado de vigília, começavam a se apagar da sua memória as recordações da infância, depois o nome e a noção das coisas, e por último a identidade das pessoas a consciência do próprio ser, até afundar numa espécie de idiotice sem passado (53)

......

Nesse estado de alucinada lucidez não apenas viam as imagens de seus próprios sonhos, mas uns viam as imagens sonhadas pelos outros. (54)

......

Enquanto Macondo celebrava a reconquista das recordações, José Arcádio Buendia e Melquíades sacudiam a poeira de velha amizade. (...) Repudiado pela sua tribo, desprovido de qualquer faculdade sobrenatural como castigo por sua fidelidade à vida, decidiu refugiar-se naquele rincão do mundo ainda não descoberto pela morte, dedicado à exploração de um laboratório de daguerreotipia. (58)

daguerreotipo

4.     O espinho de um amor solitário, p.69

José Arcádio Buendia renunciava à perseguição da imagem de Deus, convencido da sua inexistência, e estripava a pianola para decifrar sua magia secreta (71)

......

Chorando de fúria (Úrsula) maldisse a hora em que teve a ideia de comprar a pianola, proibiu as aula de bordado e decretou uma espécie de luto sem morto que haveria de se prolongar até que as filhas (Amaranta e Rebeca) desistissem de suas esperanças. (78)

......

Quando enfim o identificou, (Prudêncio Aguilar) assombrado de que os mortos também envelhecem, José Arcádio Buendia sentiu-se sacudido pela nostalgia. (87)

5.  Pele triste, era quase puro osso,  p.90

Remédios

Aureliano Buendía e Remédios Moscote se casaram num domingo de março, diante do altar que o Padre Nicanor Reyna mandou construir na sala de visitas. Foi a culminação de quatro semanas de sobressaltos na casa dos Moscote, pois a pequena Remédios tinha chegado à puberdade antes de superar os hábitos da infância. Apesar de sua mãe ter dado todas as instruções sobre as mudanças da adolescência, numa tarde de fevereiro, irrompeu aos gritos na sala onde as irmãs conversavam com Aureliano, e mostrou-lhes a calcinha besuntada de uma achocolatada. A boda foi marcada para dali um mês. Mal houve tempo de ensiná-la a se lavar e se vestir sozinha, e a compreender dos assuntos elementares de um lar. Foi posta a urinar em tijolos quentes, para corrigir seu hábito de molhar a cama. Deu trabalho convencê-la da inviolabilidade do segredo conjugal, porque Remédios estava tão atarantada e ao mesmo tempo tão maravilhada com a revelação que queria comentar com todo mundo os pormenores da noite de núpcias. Foi um esforço exaustivo, mas na data prevista para a cerimônia a menina estava tão adestrada nas coisas do mundo como qualquer das suas irmãs.

O Sr. Apolinar Moscote levou-a pelo braço na rua adornada com flores e guirlandas, entre o estampido dos rojões e a música de várias bandas, e ela acenava com a mão e agradecia com um sorriso aos que lhe desejavam boa sorte das janelas. (90)

......

Morte da Remédios

Um obstáculo maior, tão insuperável como imprevisto, forçou-a a um novo e indefinido adiamento. Uma semana antes da data marcada para a boda, a pequena Remédios despertou à meia-noite, empapada num caldo quente que explodiu em suas entranhas com uma espécie de arroto dilacerante, e morreu três dias depois, envenenada pelo próprio sangue e com um par de gêmeos atravessados no ventre. (97)

......

Rebeca e José Arcádio

Uma tarde, quando todos faziam a sesta, não resistiu mais e foi ao quarto dele (José Arcádio). Encontrou-o de cuecas, acordado, estendido na rede que havia pendurado nas vigas do teto com cabos de amarrar barcos. Impressionou-se tanto com sua nudez coberta de traços e rabiscos que sentiu impulso de retroceder. “Perdão”, se desculpou. “Não sabia você estava aqui.” Mas apagou a voz para não acordar ninguém.

“Vem cá”, disse ele.

Rebeca obedeceu. Parou ao lado da rede, suando gelo, sentindo que se formavam nós em suas tripas enquanto José Arcádio acariciava seus tornozelos com a ponta dos dedos, e depois as panturrilhas em seguida as coxas, murmurando: “Ai, maninha; ai maninha.”

Ela teve de fazer um esforço sobrenatural para não morrer quando uma potência ciclônica, assombrosamente calibrada levantou-a pela cintura e despojou de sua intimidade com três movimentos de mão, e esquartejou-a como a um passarinho. Conseguiu dar graças a Deus por ter nascido, antes de perder a consciência por causa do prazer inconcebível daquela dor insuportável, chapinhando no pântano fumegante da rede que absorveu como um mata-borrão a explosão do seu sangue.

Três dias depois, se casaram na missa das cinco. José Arcádio havia ido, no dia anterior, até a loja de Pietro Crespi.

Encontrou-o dando uma aula de cítara e falou com ele ali para um particular. “Vou me casar com Rebeca”, disse. Pietro Crespi ficou pálido, entregou a citara a um dos discípulos e deu a aula por finda. Quando ficaram sozinhos no salão abarrotado de instrumentos musicais e brinquedos de corda, Pietro Crespi disse:

— Ela é sua irmã.

— Não importa — respondeu José Arcádio.

Pietro Crespi enxugou a fronte com um lenço impregnado de alfazema. (103)

......

6.  Profundo silêncio com perfume de flores pisoteadas, p.114

O Coronel Aureliano Buendía promoveu trinta e duas rebeliões armadas e perdeu todas. Teve dezessete filhos varões de dezessete mulheres diferentes, que foram exterminados um atrás do outro numa mesma noite, antes que o mais velho completasse trinta e cinco anos. Escapou de quatorze atentados, setenta e três emboscadas e de um pelotão de fuzilamento. Sobreviveu a uma dose de estricnina no café que teria sido suficiente para matar um cavalo. Recusou a Ordem do Mérito outorgada pelo presidente da república. (114)

7.  Amaranta havia consagrada sua viuvez de virgem, p.132

Na terça-feira, às cinco da madrugada, José Arcádio tinha tomado café e soltado os cachorros, quando Rebeca fechou a janela e se agarrou na cabeceira da cama para não cair. “Estão trazendo ele”, suspirou. “Como está bonito.” José Arcádio foi até a janela, e o viu, trêmulo na claridade do alvorecer, com umas calças que tinham sido dele na juventude. Já estava de costas para o muro e tinha as mãos apoiadas na cintura porque os nós ardentes das axilas o impediam de abaixar os braços. “Tanto se foder”, murmurava o Coronel Aureliano Buendía. “Tanto se foder para acabar morto por seis maricas, e sem poder fazer nada.” Repetia isso com tanta raiva que quase parecia fervor, e o Capitão Roque Carnicero se comoveu porque achou que ele estava rezando. Quando o pelotão apontou, a raiva se tinha materializado numa substância viscosa e amarga que adormeceu a língua e obrigou-o a fechar os olhos.

Então desapareceu o resplendor de alumínio do amanhecer, e tornou a ver-se a si mesmo, muito menino, com calças curtas e um laço no pescoço, e viu seu pai numa tarde esplêndida conduzindo-o até o interior da tenda, e viu o gelo.

Quando ouviu o grito, achou que era a ordem final do pelotão. Abriu os olhos com uma curiosidade de calafrio, esperando enfrentar a trajetória incandescente das balas, mas só encontrou o Capitão Roque Carnicero com as mãos para o alto, e José Arcádio atravessando a rua com uma carabina pavorosa pronta para disparar.

— Não atire — disse o capitão a José Arcádio. — O senhor vem a mandado pela Providência Divina.

Ali começou outra guerra. O Capitão Roque Carnicero e seus seis homens foram com o Coronel Aureliano Buendia libertar o general revolucionário Victorio Medina, condenado à morte em Riohacha. (139 e 140)

......

[Espelhos paralelos] Quando estava sozinho, José Arcádio Buendia se consolava com o sonho dos quartos infinitos.

Sonhava que se levantava da cama, abria a porta e passava para outro quarto igual, com a mesma cama de cabeceira de ferro batido, a mesma poltrona de vime e o mesmo quadrinho da Virgem dos Remédios na parede dos fundos.

Desse quarto passava para outro exatamente igual, cuja porta abria para passar a outro exatamente igual, e depois a outro exatamente igual, até o infinito. Gostava de ir de quarto em quarto, como numa varanda de espelhos paralelos, até que Prudencio Aguilar lhe tocava o ombro. (150 e 151)

......

O morte do rei

— Vim ao funeral do rei. (de Cataure, o irmão de Visitación)

Então entraram no quarto de José Arcádio Buendía, o sacudiram com todas as forças, gritaram em seu ouvido, puseram um espelho diante de suas narinas, mas não conseguiram despertá-lo.

Pouco depois, quando o carpinteiro tomava as medidas para o ataúde, viram através da janela que estava caindo uma garoa de minúsculas flores amarelas. Caíram a noite inteira sobre o povoado, numa tempestade silenciosa, e cobriram os telhados e tamparam as portas, e sufocaram os animais que dormiam na intempérie.

Tantas flores caíram do céu, que as ruas amanheceram atapetadas por uma colcha compacta, e foi preciso abri-las de novo com pás e ancinhos para que o cortejo pudesse passar. (151)

......

De repente, quando Úrsula e Amaranta já haviam superposto um novo luto aos anteriores, chegou uma notícia insólita. O Coronel Aureliano Buendía estava vivo, mas aparentemente havia desistido de fustigar o governo do seu país, e tinha se somado ao federalismo triunfante em outras repúblicas do Caribe. (156)

......

Apesar do tempo, dos lutos superpostos e das aflições acumuladas, Úrsula resistia a envelhecer. (158)

......

Aureliano José

Assim padeceu o exílio, buscando a maneira de matá-la (Amaranta) com a sua própria morte, até que ouviu alguém contar a velha história do homem que se casou com uma tia que, além do mais, era sua prima, e cujo filho acabou sendo avô de si mesmo.

— Então a gente pode casar com a própria tia? — perguntou, assombrado.

— Não só pode — respondeu um soldado — como estamos fazendo esta guerra contra os padres para que a gente possa se casar até com a própria mãe. (159 e 160)


8.  O abismo da grandeza, p.172

   Naquela noite, no jantar, o suposto Aureliano Segundo despedaçou o pão com a mão direita e tomou a sopa com a esquerda. Seu irmão gêmeo, o suposto José Arcádio Segundo, despedaçou o pão com a mão esquerda e tomou a sopa com a direita. Era tão precisa a coordenação dos seus movimentos que não pareciam dois irmãos sentados um em frente ao outro, mas sim um artifício de espelhos. (103)

.....

— Mataram Aureliano! — exclamou.

Olhou para o quintal, obedecendo a um costume da sua solidão, e viu José Arcadio Buendía, ensopado, triste de chuva e muito mais velho do que quando morrera.

“Mataram Aureliano à traição” - especificou Úrsula - e ninguém fez a caridade de lhe fechar os olhos dele.” (189)

9.  Comia grãos de arroz que pegava com alfinete,  p.193

“É melhor você levar estes animais daqui”, ordenou-lhe Úrsula na primeira vez em que o viu entrar com os seus finos animais de briga. “Os galos já trouxeram demasiadas amarguras a esta casa para que você agora venha você trazendo outras.” José Arcádio Segundo levou os galos sem discutir, mas continuou a criando-os na casa de Pilar Ternera, sua avó, que pôs à sua disposição tudo que fazia falta, em troca de tê-lo em casa. (198)

......

— De acordo — disse Úrsula — mas com uma condição: eu me encarrego de criá-lo (filho de Aureliano Segundo). Embora fosse centenária e estivesse a ponto de ficar cega por causa da catarata, conservava intactos o dinamismo físico, a integridade de caráter e o equilíbrio mental.

Ninguém melhor do que ela para formar o homem virtuoso que haveria de restaurar o prestígio da família, um homem que nunca houvesse ouvido falar da guerra, dos galos de briga, das mulheres de vida fácil e dos empreendimentos delirantes, quatro calamidades que, pensava Úrsula, haviam determinado a decadência de sua estirpe. “Este será padre”, prometeu solenemente. “E se Deus me der vida haverá de chegar a Papa.” (201)

Taciturno, silencioso, insensível ao novo sopro de vitalidade que estremecia a casa, o coronel Aureliano Buendía quase conseguiu compreender que o segredo de uma boa velhice não é mais que um pacto honrado com a solidão. (211)

Alguém se atreveu, certa vez, a perturbar sua solidão.

—    Como vai coronel — perguntou ao passar.

—    Aqui — respondeu ele, — Esperando meu enterro passar. (212)


10.  O trem amarelo das incertezas, alegrias, mudanças e calamidades, p. 214

Úrsula, porém, que havia sofrido um processo contrário ao de Amaranta, evocou Rebeca com uma recordação limpa de impurezas, pois a imagem da pobre criatura que dava pena e que havia sido levada para casa com embornal com os ossos dos pais prevaleceu sobre a ofensa que a tornou indigna de continuar vinculada ao tronco familiar. Aureliano Segundo resolveu que era preciso leva-la para casa e protegê-la, mas o seus boms propósitos foram frustrado pela inquebrantável intransigência de Rebeca, que tinha precisado de muitos anos de sofrimento e miséria para conquistar os privilégios da solidão e não estava disposta a renunciar a eles em troca de uma velhice perturbada pelos falsos encantos da misericórdia. (231)

......

 

Mas quando todos se restabeleceram do desconcerto dos apitos uivantes e dos gigantescos suspiros ofegantes os habitantes saíram às ruas e viram Aureliano Triste na locomotiva, acenando com a mão, e viram, enfeitiçados o trem adornado de flores que chegava com oito meses de atraso. O inocente trem amarelo que tantas incertezas e evidências, e tantas alegrias e desventuras, e tantas mudanças, calamidades e nostalgias haveria de trazer para Macondo. (233 e 234)


11. Flutuava um insuportável cheiro de recordações apodrecidas,  p.235

Para os forasteiros que chegavam sem amor, converteram a rua das carinhosas matronas da França num povoado mais extenso que o outro e, numa quarta-feira de glória, levaram um trem carregado de putas inverossímeis, fêmeas babilônicas adestradas em recursos imemoriais e providas de todo tipo de unguentos e dispositivos para estimular os inermes, avivar os tímidos, saciar os vorazes, exaltar os modestos, enquadrar os múltiplos e corrigir os solitários. (239)

......

 

Remédios, a Bela, foi a única que permaneceu imune à peste da banana. Empacou numa adolescência magnífica, cada vez mais impermeável aos formalismos, mais indiferente à malícia, e à suspicácia, feliz num mundo próprio de realidades singelas. Não entendia por que as mulheres complicavam a vida com espartilhos e anáguas de balão, e costurou para si mesma uma batina de estopa que simplesmente metia pela cabeça e resolvia sem mais delongas o problema de se vestir, sem a impressão de estar nua, o que, de acordo com o que ela entendia das coisas, era a única forma decente de ficar em casa. (241 e 242)

......

— Você está se sentindo mal? — perguntou.

Remédios, a Bela, que tinha agarrado o lençol pela outra ponta, teve um sorriso de lástima.

— Ao contrário — disse — nunca me senti melhor.

Acabou de falar e Fernanda sentiu que um delicado vento de luz lhe arrancou os lençóis de suas mãos e os estendeu em toda sua amplitude. Amaranta sentiu um tremor misterioso nas rendas das suas anáguas e tratou de se agarrar no lençol para não cair, no mesmo instante em que Remédios, a Bela, começava a se elevar. Úrsula, já quase cega, foi a única que teve serenidade para identificar a natureza daquele vento irreparável, e deixou os lençóis à mercê da luz, vendo Remédios, a Bela, que lhe dizia adeus com a mão, entre o deslumbrante bater de asas dos lençóis que subiam com ela, que abandonavam com ela o ar dos besouros e das dálias, e passavam com ela através do ar onde as quatro da tarde terminavam, e se perderam com ela para sempre nos altos ares onde não podiam alcança-la nem os mais altos pássaros da memória. (248 249)

12.  Úrsula: a impenetrável solidão da decrepitude,  p.256

Não disse nada a ninguém, pois teria sido reconhecer em público sua inutilidade. Empenhou-se num silencioso aprendizado da distância das coisas e das vozes das pessoas, para continuar vendo com a memória quando as sombras da catarata já não permitissem ver com os olhos. Mais tarde haveria de descobrir o auxílio imprevisto dos cheiros, que se definiram nas trevas com uma força muito mais convincente do que os volumes e a cor e a salvaram definitivamente da vergonha da renúncia. Na escuridão do quarto, conseguia passar a linha na agulha e arrematar uma casa de botão, e sabia quando o leite estava a ponto de ferver. Conheceu com tanta segurança o lugar onde ficava cada coisa, que ela mesma às vezes se esquecia que estava cega. (257 e 258)

.....

Quando Fernanda caiu em si era uma viúva cujo marido (Aureliano Segundo) ainda não tinha morrido e era tarde demais para que as coisas voltassem ao estado anterior. (264).

13. Compreensão sem limite com a solidão, p.279

Daria até para dizer que na cansada mansão dos Buendía havia paz e felicidade rotineira para muitotempo, se a intempestiva morte de Amaranta não tivesse promovido um novo escândalo. Foium acontecimento inesperado. Embora estivesse velha e afastada de todos, ainda mostrava firme e esguia, com a saúde de pedra que sempre teve. Ninguém soube de seus pensamentos desde a tarde em que rejeitou definitivamente o Coronel Gerineldo Márquez e se trancou para chorar. Quando saiu, tinha esgotado todas as suas lágrimas. Não foi vista chorando com a subida de Remédios, a Bela, aos céus, nem com o extermínio dos Aurelianos, nem com a morte do coronel Aureliano Buendía, que era a pessoa que mais tinha amado nesse mundo, embora só tenha podido demonstrar isso quando acharam seu cadáver debaixo da castanheira. (286)

.....

Fernanda se escandalizava com o fato de ela (Amaranta) não entender as relações do catolicismo com a vida, mas só suas relações com a morte, como se não fosse uma religião mas um prospecto de convencionalismos funerários. (286 e 287)

.....

Então Amaranta se deitou, e obrigou Úrsula a dar testemunho público da sua virgindade.

— Que ninguém se iluda — gritou, para que Fernanda ouvisse. — Amaranta Buendía vai-se embora deste mundo do mesmo jeito que veio. (292)

14. Um anarquista na família,  p.303

Meme tomou sua mão e se deixou levar. A última vez em que Fernanda a viu, tratanto de igualar seu passo ao da noviça, acabava de fechar atrás dela a tenebrosa grade de ferro da clausura. Ainda pensava em Mauricio Babilonia, em seu cheiro de óleo e no sua nuvem de borboletas andarilhas, e continuaria pensando nele todos os dias de sua vida, até a remota madrugada de outono em que morreria de velhice, com o nome trocado e sem jamais ter dito uma só palavra, num tenebroso hospital de Cracóvia. (307)

.....

Fernanda regressou a Macondo num trem protegido por guardas armados. Durante a viagem notou a tensão dos passageiros, o aparato militar nos povoados da linha e o ar rarefeito pela certeza de que alguma coisa de grave ia acontecer, mas careceu de informação até que chegaram a Macondo e lhe contaram que José Arcadio Segundo estava incitando os trabalhadores da companhia bananeira a fazerem greve. “Era só o que faltava”, disse Fernanda a si própria. “Um anarquista na família.” A greve explodiu duas semanas depois e não teve as consequências dramáticas que se temiam. (307)

.....

Foi tão tensa a atmosfera dos meses seguintes que até Úrsula percebeu-a no seu rincão de trevas e teve a impressão de estar vivendo de novo os tempos infelizes em que seu filho Aureliano carregava no bolso as pílulas homeopáticas da subversão. (308)

.....

(...) José Arcádio Segundo chegou à conclusão de que o coronel Aureliano Buendía não tinha sido mais do que um farsante ou um imbecil. Não entendia que tivesse precisado de tantas palavras para explicar o que se sentia na guerra, se uma só uma palavra bastava: medo. (323)

15. Invulneráveis ao tempo e ao desastre,  p.325

O diluvio durante quatro anos, onze meses e dois dias

[O pós diluvio] Da antiga cidade cercada só restavam os escombros. As casas de madeira, as varandas frescas onde transcorriam as serenas tardes de baralho pareciam arrasadas por uma antecipação do vento profético que anos depois haveria de apagar Macondo da face da terra. (341)

.....

A Rua dos Turcos era outra vez a de antes, a dos tempos em que os árabes de pantufas e argolas nas orelhas, que percorriam o mundo trocando araras por bugigangas, acharam em Macondo um bom remanso para descansar da sua milenar condição de andarilhos. Do outro lado da chuva, a mercadoria dos bazares estava caindo aos pedaços, os sacos de gêneros alimentícios abertos na porta estavam cobertos de musgo, os balcões carcomidos pelo cupim e as paredes carcomidas pela umidade, mas os árabes da terceira geração estavam sentados no mesmo lugar e com a mesma atitude de seus pais e avós, taciturnos, impávidos, invulneráveis ao tempo e ao desastre, tão vivos ou tão mortos como estiveram depois da peste da insônia e das trinta e duas guerras do coronel Aureliano Buendía. (341 e 342)

16. A morte de Úrsula, p.344

Úrsula teve de fazer um grande esforço para cumprir a promessa de morrer quando estiasse. (...) O ânimo de seu coração invencível a orientava nas trevas. (344)

 

— Coitada da tataravozinha — disse Amaranta Úrsula— morreu de velhice.

Úrsula se sobressaltou.

— Estou viva! — disse.

— Pois é — disse Amaranta Úrsula, reprimindo o riso — nem sequer respira mais.

— Eu estou falando! — gritou Úrsula.

— Nem fala mais — disse Aureliano. — Morreu feito um grilinho.

Úrsula então se rendeu às evidencias. “Santo Deus”, exclamou em voz baixa. “Quer dizer que isto é a morte.” (353)

 .....

Santa Sofia de la Piedad teve certeza de que a encontraria morta de um momento para o outro, porque naqueles dias observava por um certo estouvamento da natureza: as rosas cheiravam a quenopódio, deixou cair uma cuia de grãos-de-bico no chão e os grãos ficaram numa ordem geométrica perfeita, em forma de estrela-do-mar, e uma noite viu pelo no céu uma fila de luminosos discos alaranjados. Amanheceu morta na quinta-feira santa. (353 e 354)

.....

Na última vez em que tinham ajudado Úrsula a fazer as contas de sua idade, nos tempos da companhia bananeira, calcularam entre os cento e quinze e cento e vinte e dois anos. Foi enterrada numa caixinha pouco maior que a cestinha em que Aureliano tinha sido levado, e muito pouca gente assistiu ao enterro, em parte porque não eram muitos os que se lembravam dela, e em parte porque naquele meio-dia fez tanto calor que os pássaros desorientados se esfacelavam feito perdigotos contra as paredes e rompiam as telas metálicas das janelas para morrer nos quartos. (354)

17. Recapitulação de infortúnios, p.366

Seu (Fernanda) coração de cinza amassada, que tinha resistido sem fraquejar aos golpes certeiros da realidade cotidiana, desmoronou nos primeiros embates da nostalgia. A necessidade de sentir-se triste ia se transformando num vício conforme os anos a devastavam. Humanizou-se na solidão. (374 e 375)

.....

As roupas em farrapos, os sapatos rotos, a velha mochila que levava no ombro como bagagem única davam a ele o aspecto de um mendigo, mas sua conduta tinha uma dignidade que estava em franca contradição com sua aparência. Bastava vê-lo uma vez, mesmo na penumbra da sala, para perceber que a força secreta que lhe permitia viver não era instinto de conservação, mas costume do medo. Era Aureliano Amador, o único sobrevivente dos dezessete filhos do coronel Aureliano Buendía, que ia procurando trégua em sua longa e atribulada existência de fugitivo. (384 e 385)

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Identificou-se (Aureliano Amador), suplicou que lhe dessem refúgio naquela casa que em suas noites de pária havia evocado último reduto de segurança que lhe restava na vida. Mas José Arcádio e Aureliano não se lembravam dele. Acreditando que fosse um vagabundo, o puseram na rua aos empurrões. Ambos viram então, da porta, o final de um drama que havia começado antes que José Arcádio tivesse uso da razão. Dois agentes da polícia que tinham perseguido Aureliano Amador durante anos, que o tinham rastreado feito cão de caça por meio mundo, surgiram do meio das amendoeiras da calçado oposta e dispararam dois tiros de máuser que penetraram limpamente pela cruz de cinza. (385)

18. Atocaiar amores extraviados, p.387

Amaranta Úrsula voltou com os primeiros anjos de dezembro, empurrada por brisas de veleiro, trazendo o esposo amarrado pelo pescoço com um cordel de seda. Apareceu sem aviso, com um vestido cor de marfim, um fio de pérolas que lhe dava quase nos joelhos, anéis de esmeraldas e topázios, e os cabelos redondos e liso, arrematados em nas orelhas, como asas de andorinhas. O homem com quem havia se casado seis meses antes era um flamengo maduro, esbelto, com ares de navegante. Não precisou nada além de empurrar a porta da sala para compreender que a sua ausência tinha sido mais prolongada e demolidora do que ela supunha. (387)

.....

Nigromanta levou-o para o seu quarto iluminado com abajures de mentira, para a sua cama de campanha com a lona impregnada de maus amores, e para o seu corpo de cadela brava, empedernida, desalmada, que se preparou para despachá-lo como se fosse um menino assustado, e de repente se encontrou com um homem cujo tremendo poder exigiu das suas entranhas um movimento de reacomodação sísmica. Fizeram-se amantes.

Aureliano ocupava as manhãs decifrando pergaminhos e, na hora da sesta, ia até dormitório soporífero onde Nigromanta esperava por ele para lhe ensinar-lhe primeiro a fazer como fazem as minhocas, depos os caracóis e por último os caranguejos, até a hora em que precisava abandoná-lo para tocaiar amores extraviados. (396 e 397)

.....

Entretanto, ela (Amaranta Úrsula) no entanto debochou da sua suspeita, sem vislumbrar sequer a dilacerante carga de amor, de incerteza e de ciúmes que havia dentro daquilo tudo. Não tinha lhe ocorrido pensar que sucitava em Aureliano algo mais do que um afeto fraternal, até que cortou o dedo tratando de destampar uma lata de pêssegos, e ele se precipitou a chupar o sangue com uma avidez e uma devoção que a deixaram arrepiada.

— Aureliano! — disse ela, inquieta. — Você é malicioso demais para ser um bom vampiro. (404)


19. Um passado cujo aniquilamento não se consumava, p.409


Pilar Ternera morreu na cadeira de balanço, numa noite de festa, vigiando a entrada do seu paraíso. De acordo com sua última vontade, foi enterrada sem ataúde, sentada na cadeira, que oito homens baixaram com cordas num buraco enorme cavado no centro da pista de dança. As mulatas vestidas de preto, pálidas de pranto, improvisavam ofícios de trevas enquanto tiravam os brincos, os broches e os anéis, que iam jogando na tumba, antes que fosse selada com uma lápide sem nome nem datas e que pusessem em cima um promontório de camélias amazônicas. (409)

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Tendo aprendido catalão para traduzi-los, Alfonso meteu um rolo de páginas nos bolsos, que andavam sempre cheios de recortes de jornal e manuais de ofícios estranhos, e numa noite os perdeu na casa das mocinhas que se deitavam com eles por fome. Quando o avô sábio ficou sabendo, em vez de fazer o tão temido escândalo comentou, morrendo de rir, que aquele era o destino natural da literatura. (410)

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Naquela Macondo esquecido até pelos pássaros, onde a poeira e o calor tinham se tornado tão tenazes que respirar dava muito trabalho, reclusos pela solidão e pelo amor e pela solidão do amor numa casa onde era quase impossível dormir por causa do estrondo das formigas ruivas, Aureliano e Amaranta Úrsula eram os únicos seres felizes, e os mais felizes sobre a terra. (414)

 

Mas quando se viram sozinhos (Aureliano e Amaranta Úrsula) na casa sucumbiram no delírio dos amores atrasados. (...) Perderam o sentido da realidade, a noção do tempo, o ritmo dos hábitos cotidianos. (415)

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— E um verdadeiro antropófago — disse. — Vai se chamar Rodrigo.

— Não — o marido contradisse. — Vai se chamar Aureliano ganhará trinta e duas guerras.

Depois de cortar o umbigo, a parteira se pôs a limpar com um pedaço de pano o unguento azul que cobria o seu corpo, iluminada por Aureliano com uma lâmpada. Só quando o viraram de barriga para baixo perceberam que ele tinha algo mais do que o resto dos homens e se inclinaram para examiná-lo. Era um rabo de porco. (422)

.....

(...) Amaranta Úrsula era insensível a qualquer artifício que não fosse o amor. À tarde, depois de vinte e quatro horas de desespero, perceberam que ela tinha morrido (...) (422 e 423)

.....

Porém, antes de chegar ao verso final (Aureliano) já havia compreendido que não sairia jamais daquele quarto, pois estava previsto que a cidade dos espelhos (ou das miragens) seria arrasada pelo vento e desterrada da memória dos homens no instante em que Aureliano Babilônia acabasse de decifrar os pergaminhos, e que tudo que estava escrito neles era irrepetível desde sempre, e para sempre, porque as estirpes condenadas a cem anos de solidão não tinham uma segunda chance sobre a terra. (427)


Notas

1. Ernest Hemingway: “É isso que tentamos fazer ao escrever, e isso e isso, e os bosques, e as rochas que temos que escalar” explicou. “Cézanne é o meu pintor preferido, depois dos mestres primitivos. (...)”  In Sempre repórter, Lillian Ross, tradução: Jayme da Costa Pinto, p.110, Carambaia, 2024.


2. Resenha: "Cem Anos de Solidão", de Gabriel Garcia Márquez por Amanda Barreiro

3. Cem anos desolidão 19/04/2024, A terra é redonda

4. Cem anos de solidão, Revista Jornalismo & Ficção

5. Cem Anos de Solidão – série

O tempo parou e a eternidade começou. Mas o homem não nasceu para ser eterno. Nascemos para morrer. Para nos tornarmos matéria orgânica. Para nos tornarmos memória e esquecimento no coração dos homens. (S01/E04)

 

 






quinta-feira, 16 de janeiro de 2025

David Lynch (1946 - 2025)

David Lynch disse à Folha que televisão e internet virariam uma coisa só

Cineasta, morto aos 78 anos, afirmou sentir medo do futuro do cinema e comentou lançamento de seu livro de meditação 

Teté Ribeiro, fsp, 16/01/2025

Morto nesta quinta-feira (16/01/2025) aos 78 anos, o cineasta americano David Lynch previu, numa entrevista à Folha em 2008, que televisão e internet estreitariam suas relações. "A internet e a TV vão virar uma só. Vai acontecer como na música. O mundo da música está caindo aos pedaços. E isso vai acontecer com os filmes daqui a muito pouco. Já começou. É preciso resolver o problema da pirataria. Se as pessoas pararem de simplesmente pegar o que querem da internet e resolverem pagar alguma coisa pelo que baixam, seria quase perfeito. Tenho um pouco de medo do futuro dos filmes", afirmou o diretor.

O cineasta  David Lynch - fotos

Releia, a seguir, a entrevista completa, concedida por ocasião do lançamento de seu livro "Em Águas Profundas: Criatividade e Meditação". Naquele ano, Lynch faria uma visita ao Brasil para promover os benefícios da meditação transcendental.

"Você toma um café?", pergunta David Lynch quando chego à sua sala, enquanto aponta para a poltrona velha, com estofado todo puído, que posicionou à sua frente para mim. Ele se levanta para me dar a mão, então se senta de novo em uma cadeira daquelas ergonômicas de escritório. Fica atrás de uma mesa de madeira com restos de uma massinha cinza escura que usa para fazer o que me parece ser uma escultura. Veste calça bege toda respingada de café, barro ou tinta, camisa branca de manga comprida abotoada até em cima e blazer azul marinho, apesar do calor de mais de 30 graus que faz lá fora. A assistente que me leva até ele carrega um cappuccino em uma xícara preta enorme, entrega ao diretor, que em troca lhe dá uma xícara idêntica, vazia, do cappuccino que tomou antes.

O cineasta David Lynch - Leonhard Foeger/Reuters 

Apaixonado por café, o cineasta diz que chega a tomar até dez por dia, em xícaras de chá cheias até a boca, no estilo americano. Ele tem sua própria marca de pó de café. Não aceito a bebida por causa do calor e para não desperdiçar o tempo da entrevista com uma interrupção, mas depois me arrependo profundamente. No curso dos próximos quase 45 minutos, a cafeína me seria útil. E em que outra oportunidade eu tomaria um café do David Lynch com o David Lynch?

O criador de "Twin Peaks", "Veludo Azul" e "Coração Selvagem" recebeu a reportagem da Folha em seu estúdio em Los Angeles, um complexo de duas casas e algumas salas soltas, construídas em concreto aparente com detalhes de madeira clara, encrustradas no alto de um morro em Hollywood Hills, em um ruazinha pequena e toda curva.

Olhando no mapa, a Senalda Road, onde David Lynch construiu seu local de trabalho, é paralela a um trecho da Mulholland Drive, rua que já serviu de inspiração e título para um de seus filmes, no Brasil batizado de "Cidade dos Sonhos", e que revelou aos Estados Unidos a atriz britânica Naomi Watts. A Mulholland Drive é imensa e famosa, e tem Jack Nicholson como seu morador mais ilustre (depois, é claro, da morte do seu vizinho Marlon Brando). 

Escultura de David Lynch por David Černý Imagem: Reprodução redes sociais 

Paz na terra

Abrir seu próprio estúdio para um jornalista estrangeiro é coisa rara em Hollywood. Mas a entrevista, assim como a viagem ao Brasil que o diretor faz neste mês, é parte de uma peregrinação que começou mais ou menos três anos atrás e tem uma missão ousada: promover a paz no mundo por meio da meditação transcendental, que ele pratica há mais de 30 anos (volto ao assunto daqui a pouco).

O encontro, no entanto, tinha regras: não poderia acontecer antes das 10h30, seria interrompido pouco depois das 11h15 e ele passaria apenas nove minutos no final da conversa com o fotógrafo, que devia chegar lá antes para preparar a luz e se posicionar. E o assunto da entrevista seria principalmente o livro "Em Águas Profundas: Criatividade e Meditação", que acaba de sair no Brasil.

Publicado nos Estados Unidos em 2006, virou best-seller. Com 204 páginas, formato quadrado e capítulos curtos, é uma leitura rápida e divertida, cheia de informações de bastidores e a promessa de que, se você se empenhar na tal meditação transcendental, vai ser mais criativo e feliz.

As produções de  David Lynch 

Várias vezes durante a conversa tento emplacar perguntas sobre cinema, TV, seus atores preferidos e todas as vezes ele entorta o raciocínio e volta a falar dos benefícios da meditação. Este não é um homem que você dribla, enrola, confunde. Sabe exatamente o que quer e faz exatamente do jeito que prefere. Isso foi tudo o que eu consegui arrancar:

PASSADO: "Minha vida inteira foi no hemisfério norte, nunca atravessei a linha do Equador. Essa vai ser a minha primeira vez na parte de baixo do planeta. Morei um ano e meio na Cidade do México, mas imagino que o Brasil seja bem diferente, não?"

PRESENTE: "Acordo todos os dias às sete da manhã, tomo o primeiro café do dia, medito por 20 minutos e venho para o trabalho. Fico até umas sete da noite, medito de novo, vou para casa jantar e então trabalho mais um pouco ou vejo um pouco de TV. Gosto da série 'Cold Case' (que conta histórias reais de crimes não resolvidos)."

FUTURO: "A internet e a TV vão virar uma só. Vai acontecer como na música. O mundo da música está caindo aos pedaços. E isso vai acontecer com os filmes daqui a muito pouco. Já começou. É preciso resolver o problema da pirataria. Se as pessoas pararem de simplesmente pegar o que querem da internet e resolverem pagar alguma coisa pelo que baixam, seria quase perfeito. Tenho um pouco de medo do futuro dos filmes."

E só. Ele se impôs essa missão e dá a impressão de que vai falar sobre os benefícios da meditação até se decidir por outro assunto. Mas, como tudo o que faz, defende sua ideia com cores fortes e imagens marcantes. "É dinheiro no banco. Não tem erro. Meditar é como mergulhar em um cofre cheio. Cada vez que vai lá, consegue pegar umas moedas. Se for todos os dias, pega mais e mais moedas", enfatiza, com sua voz anasalada e uma cadência de quem ensina uma lição óbvia a um aluno desatento. No curso da conversa, recorre a muitas outras metáforas para tornar clara, transparente, sua mensagem. Que no final é quase uma lição de casa: "Apenas faça, depois siga com a sua vida e veja tudo melhorar".

Segundo Lynch, a receita para transcender é muito simples, só tem um ingrediente: um professor legítimo. "Ele te dá um mantra, que é um som, ou uma vibração, que significa um pensamento, e você repete aquele mantra durante todo o tempo que medita, então mergulha dentro de si mesmo e começa a chegar a níveis mais profundos de consciência."

O som OM, muito usado antes e depois de aulas de ioga, é considerado o mantra universal. Mas, para o cineasta, é melhor ter o seu próprio, entregue sob medida por um professor. "Não adianta meditar com qualquer mantra. Se você meditar usando a palavra 'creme de leite', vai acabar só pensando em laticínios", brinca.

O amor infinito

Ao contrário do que faz com seus filmes, que odeia explicar ou dizer o que significam, o americano de 62 anos, divorciado três vezes, com três filhos (um de cada casamento), não quer deixar nenhuma dúvida a respeito da meditação. "Não é religião, não é culto, é uma técnica que permite que você chegue até a felicidade infinita, a inteligência infinita, a criatividade infinita, o amor infinito", afirma.

E, antes que a noção de amor infinito e a lembrança de alguns de seus filmes como "A Estrada Perdida" entrem em choque, o cineasta volta ao seu tom professoral: "O artista não pode ser deprimido, não pode deixar a melancolia ocupar sua mente e seu tempo, isso é um desperdício de vida. Tem apenas que entender a depressão, ou o ódio, ou qualquer sentimento ruim, para poder retratá-los em seu trabalho. Se eu não estiver bem, não crio nada que preste." E promete: "As ideias são como os peixes. Se você se contentar com um peixinho magro e pequeno, pode pescar na beira do rio. Mas, se quer os peixes maiores, vai ter que jogar sua isca em águas mais profundas."

Entendeu? É assim: as idéias já existem, estão passeando por aí. David Lynch faz filmes ou séries de TV com as que captura. Van Gogh fazia quadros. John Lennon fazia músicas, ou protestos. Ah, e tem outra coisa: isso, de "capturar" as ideias, não acontece enquanto você faz meditação transcendental.

A MT (podemos estabelecer que MT é meditação transcendental?) expande a sua capacidade de capturar as ideias. E mais: quem medita seus males espanta. Ele não disse isso assim, com essas palavras. Na verdade arregala os olhos azuis e enfia os dedos das duas mãos na cabeleira grisalha, puxando o topete ainda mais para cima, enquanto afirma: "A negatividade vai embora e leva junto a depressão, a melancolia, o desejo de vingança. Você medita e, BUM!, atinge a iluminação".

Mestre Yogi

A técnica da MT foi trazida ao Ocidente pelo indiano Maharishi Mahesh Yogi, que morreu aos 91 anos, menos de um mês depois de anunciar sua aposentadoria. Desde os anos 50, Maharishi viajava pelo mundo ensinando uma técnica milenar de meditação que ele batizou de transcendental. Foi ele quem ensinou a prática aos Beatles, aos Beach Boys, ao comediante Andy Kaufman e à atriz Mia Farrow nos anos 1960 e 1970. David Lynch conheceu a prática criada por Maharishi em 1977, mesmo ano em que lançou seu primeiro filme. E dedica a ele seu último livro.

Sua peregrinação pela paz mundial começou com a inauguração da David Lynch Foundation, uma organização fundada em 2005, que pretende levar a MT para escolas do mundo inteiro e, por meio dos estudantes, professores e pais de alunos, todos devidamente "transcendidos", atingir toda a humanidade.

Para começar a promover a ideia, ele fez uma turnê por 13 universidades americanas, em que era anunciado como convidado para um bate-papo informal sobre meditação e criatividade. Os estudantes apareciam, faziam perguntas, ele respondia. As sessões foram gravadas, os melhores trechos foram reunidos e transformados no livro. "Esse livro não foi escrito, e sim falado", disse. Todo o dinheiro que ganha com as vendas é doado para a fundação. Aproveitando o lançamento do livro, ele aproveita para viajar e espalhar sua mensagem. E é isso que o traz ao Brasil pela primeira vez. A turnê vai virar um documentário, seu próximo projeto cinematográfico.

Pergunto o que vem à sua cabeça quando ouve falar do nosso país. Ele toma o último gole de seu terceiro cappuccino daquela manhã, pensa por alguns segundos, então me olha e diz, com a maior serenidade do mundo: "Nada. Quero ser surpreendido".

Os escolhidos

Sete atores que ajudaram a definir a obra do diretor:

Kyle MacLachlan

O diretor e o ator americano são muito amigos e fizeram vários trabalhos juntos, entre eles "Duna", de 1984, o primeiro filme do ator, e "Veludo Azul", em 1986. Mas o agente Cooper de "Twin Peaks" foi seu papel mais marcante sob a tutela de David Lynch. De 1990 a 1991, encarnou o agente do FBI na série televisiva e depois no longa, em 1992, que seguia os momentos finais da vida de Laura Palmer.

Laura Dern

A estrela de "Império dos Sonhos", último filme do diretor, dividiu com ele o prêmio especial de colaboração no Independent Film Award de 2007. O Oscar dos filmes independentes, que costuma acontecer na tarde anterior à entrega dos prêmios da Academia, já tinha dado a Dern o prêmio de melhor atriz em 1986 pelo papel principal de "Veludo Azul". Protagonizou, ao lado de Nicholas Cage, "Coração Selvagem", de 1990.

Jack Nance

Um dos atores preferidos do cineasta, fez seis filmes e a série "Twin Peaks". Participou dos elencos de "Duna", "Veludo Azul", "Coração Selvagem" e "Estrada Perdida", o último filme de sua carreira. O ator foi assassinado em Los Angeles em 1996, antes que o longa estreasse.

Harry Dean Stanton

Aos 82 anos, com mais de cem longas-metragens na carreira, ele já trabalhou com quase todo mundo em Hollywood. Com Lynch, fez quatro filmes: "Coração Selvagem", "Twin Peaks: Os Últimos Dias de Laura Palmer", "Uma História" e "Império dos Sonhos".

Isabela Rossellini

O namoro de David Lynch com Isabela Rossellini durou desde que trabalharam juntos pela primeira vez, em "Veludo Azul", de 1986, até o diretor vencer a Palma de Ouro no festival de Cannes, em 1990, pelo segundo longa que fizeram juntos, "Coração Selvagem". O namoro era segredo, e no livro de memórias da atriz, "Some of Me", ela conta que o único beijo que deu no diretor em público foi no palco de Cannes. Ela imaginou que o relacionamento seria assumido, mas em vez disso o diretor rompeu com ela e assumiu o namoro mais secreto ainda com sua assistente de direção, Mary Sweeney, que estava grávida.

Sherilyn Fenn

No primeiro filme com o diretor, "Coração Selvagem", sua personagem não tinha nem nome. Era apenas a "garota do acidente". Mas chamou a atenção do cineasta, que deu a ela o papel da sedutora Audrey de "Twin Peaks".

Naomi Watts

A atriz britânica criada na Austrália já tinha 25 filmes na carreira quando fez "Cidade dos Sonhos", em 2001. Esse o filme a transformou em estrela. Por isso, vive dizendo em entrevistas que faria qualquer coisa que David Lynch pedisse. Pois, no ano seguinte, ele pediu que ela participasse da série "Rabbits", em que pessoas vestidas de coelho apareciam em cenas do dia-a-dia. Depois, em "Império dos Sonhos", Lynch voltou a usar os coelhos e pediu que Naomi voltasse ao "personagem". Seu rosto não aparece no filme; ela é um dos personagens coelhos.

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Mastroianni e Marlon Brando, que fariam 100, eram gigantes diferentes

Reunidos em mostra na Cinemateca, italiano se ancorava no carisma, já americano encarnava o método Stanislavski 

Inácio Araujo, fsp, 17/04/2024


sábado, 11 de janeiro de 2025

Hollywood e o cinema

O veículo britânico Sight & Sound publicou, recentemente (2022), uma atualização da lista de melhores filmes de todos os tempos. A revista tem distribuição feita pela BFI (British Film Institute), e o ranking é definido por um grupo internacional de profissionais do cinema.

Abaixo o ranking dos 100 filmes selecionados. Destes, 34 ganharam Oscar. Os demais [Academy Awards, USA: zero] 

1.    “Jeanne Dielman” (1975) (Imdb nota 7,5) [Academy Awards, USA: zero] 

2.    “Um Corpo que Cai” (1958) (8,3) [Academy Awards, USA: zero] 

3.    “Cidadão Kane” (1941) (8,3) [Oscar Best Writing, Original Screenplay Herman J. Mankiewicz&Orson Welles] 

4.    “Era Uma Vez em Tóquio” (1953) (8,1) [Academy Awards, USA: zero] 

5.    “Amor à Flor da Pele” (2000) (8,1) [Academy Awards, USA: zero] /

6.    “2001: Uma Odisseia no Espaço” (1968) (8,3) [Oscar Best Effects, Special Visual Effects] 

7.    “Bom Trabalho” (1998) (7,3) [Academy Awards, USA: zero]  

8.    “Cidade dos Sonhos” (2001) (7,9) [Academy Awards, USA: zero]  

9.    “Um Homem com uma Câmera” (1929) (8,3) [Academy Awards, USA: zero]  

10.  “Cantando na Chuva” (1951) (8,3) [Academy Awards, USA: zero]    

11.    Aurora, “Sunrise: A Song of Two Humans” (1927) (8,1) [Vencedor Oscar Best Picture, Best Actress in a Leading Role: Janet Gaynor, Best Cinematography: Charles RosherKarl Struss] 

12.    “O Poderoso Chefão” (1972) (9,2) [Best Picture: Albert S. Ruddy, Best Actor in a Leading Role: Marlon Brando, Best Writing, Screenplay Based on Material from Another Medium: Mario Puzo&Francis Ford Coppola] 

13.    “A Regra do Jogo” (1939) (7,9) [Academy Awards, USA: zero]    

14.    “Cléo das 5 às 7” (1962) (7,8) [Academy Awards, USA: zero]    

15.    “Rastros de Ódio” (1956) (7,8) [Academy Awards, USA: zero]      

16.    “Tramas do Entardecer” (1943) (7,8) [Academy Awards, USA: zero] 

17.    “Close-up” (1989) (8,2) [Academy Awards, USA: zero]  

18.    Persona, “Quando Duas Mulheres Pecam” (1966) (8,0) [Academy Awards, USA: zero]  

19.    “Apocalypse Now” (1970) (8,4) [Best Cinematography: Vittorio Storaro, Best Sound: Walter Murch&Mark Berger&Richard Beggs&Nathan Boxer]

20.    “Os Sete Samurais” (1954) (8,6) [Academy Awards, USA: zero]  

21.    “A Paixão de Joana d’Arc” (1928) (8,1) [Academy Awards, USA: zero]    

22.    “Pai e Filha” (1949) (8,2) [Academy Awards, USA: zero]     

23.    “Playtime – Tempo de Diversão” (1967) (7,8) [Academy Awards, USA: zero]    

24.    “Faça a Coisa Certa” (1989) (7,9) [Academy Awards, USA: zero]      

25.    “A Grande Testemunha” (1966) (7,7) [Academy Awards, USA: zero] 

26.    O mensageiro do diabo, “The Night of the Hunter” (1955) (8,0) [Academy Awards, USA: zero] 

27.    “Shoah” (1985) (8,7) [Academy Awards, USA: zero]  

28.    “As Pequenas Margaridas” (1966) (7,2) [Academy Awards, USA: zero]  

29.    “Taxi Driver ” (1976) (8,2)  [Academy Awards, USA: zero]    

30.    “Retrato de Uma Jovem em Chamas” (2019) (8,1) [Academy Awards, USA: zero] 

31.    “O Espelho” (1975) (7,9) [Academy Awards, USA: zero] 

32.    “Oito e meio” (1963) (8,0) [Best Costume Design, Black-and-White: Piero Gherardi, Best Foreign Language Film] 

33.    “Psicose” (1960) (8,5) [Academy Awards, USA: zero]  

34.    “O Atalante” (1934) (7,7) [Academy Awards, USA: zero]  

35.    “Pather Panchali” (1955) (8,2) [Academy Awards, USA: zero]  

36.    “Luzes da Cidade” (1931) (8,5) [Academy Awards, USA: zero]    

37.    “M, O Vampiro de Dusseldorf” (1931) (8,3) [Academy Awards, USA: zero]    

38.    “Acossado” (1960) (7,7) [Academy Awards, USA: zero] 

39.    “Quanto Mais Quente Melhor” (1959) (8,2) [Best Costume Design, Black-and-White: Orry-Kelly] 

40.    “Janela Indiscreta” (1954) (8,5) [Academy Awards, USA: zero]  

41.    “Ladrões de Bicicleta” (1948) (8,3) [Academy Awards, USA: zero]  /

42.    “Rashomon” (1950) (8,2) [Academy Awards, USA: zero]    

43.    “Stalker” (1979) (8,0) [Academy Awards, USA: zero]    

44.    “O Matador de Ovelhas” (1977) (7,2) [Academy Awards, USA: zero]  

45.    “Intriga Internacional” (1959) (8,3) [Academy Awards, USA: zero]  

46.    “A Batalha de Argel” (1966) (8,1) [Academy Awards, USA: zero]    

47.    “Barry Lyndon” (1975) (8,1) [Best Picture, Best Director: Stanley Kubrick, Best Writing, Screenplay Adapted From Other Material: Stanley Kubrick, Best Cinematography: John Alcott, Best Art Direction-Set Decoration: Ken Adam&Roy Walker&Vernon Dixon] 

48.    “Wanda” (1970) (7,1) [Academy Awards, USA: zero]      

49.    “A Palavra” (1955) (8,2) [Academy Awards, USA: zero]    

50.    “Os Incompreendidos” (1959) (8,0) [Academy Awards, USA: zero]      

51.    “O Piano” (1922) (7,5) [Best Actress in a Leading Role: Holly Hunter, Best Actress in a Supporting Role: Anna Paquin, Best Writing, Screenplay Written Directly for the Screen: Jane Campion]  

52.    “Notícias de Casa” (1976) (7,3) [Academy Awards, USA: zero]       

53.    “O Medo Consome a Alma” (1974) (8,0) [Academy Awards, USA: zero]        

54.    “Se Meu Apartamento Falasse” (1960) (8,3) [Best Picture, Best Director: Billy Wilder, Best Writing, Story and Screenplay - Written Directly for the Screen: Billy Wilder&I.A.L. Diamond, Best Art Direction-Set Decoration, Black-and-White: Alexandre Trauner&Edward G. Boyle, Best Film Editing: Daniel Mandell]

55.    “O Encouraçado Potemkin” (1925) (7,9) [Academy Awards, USA: zero]        

56.    “Sherlock Jr.” (1924) (8,2) [Academy Awards, USA: zero]          

57.    “O Desprezo” (1963) (7,4) [Academy Awards, USA: zero]          

58.    “Blade Runner – O Caçador de Androides” (1982) (8,1) [Academy Awards, USA: zero]          

59.    “Sem Sol” (1982) (7,7) [Academy Awards, USA: zero]            

60.    “Filhas do Pó” (1991) (6,6) [Academy Awards, USA: zero]            

61.    “A Doce Vida” (1960) (8,0) [Best Costume Design, Black-and-White: Piero Gherardi] 

62.    “Moonlight: Sob a Luz do Luar” (1960) (5,8) [Academy Awards, USA: zero]            

63.    “Casablanca” (1942) (8,5) [Best Picture, Best Director: Michael Curtiz, Best Writing, Screenplay:Julius J. Epstein&Howard Koch]  

64.    “Os Bons Companheiros” (1990) (8,7) [Best Actor in a Supporting Role: Joe Pesci]

65.    “O Terceiro Homem” (1949) (8,1) [Best Cinematography, Black-and-White: Robert Krasker] 

66.    “A Viagem da Hiena” (1973) (7,0) [Academy Awards, USA: zero]             

67.    “Os catadores e eu” (2000) (7,7) [Academy Awards, USA: zero] 

68.    “Metrópolis” (1927) (8,3) [Academy Awards, USA: zero]  

69.    “Andrei Rublev” (1966) (8,0) [Academy Awards, USA: zero]   

70.    “Os Sapatinhos Vermelhos” (1948) (8,1) [Best Art Direction-Set Decoration, Color: Hein Heckroth&Arthur Lawson, Best Music, Scoring of a Dramatic or Comedy Picture: Brian Easdale] 

71.    “La Jetée” (1962) (8,2) [Academy Awards, USA: zero] 

72.    “Meu Amigo Totoro” (1988) (8,1) [Academy Awards, USA: zero]  

73.    “Romance na Itália” (1954) (7,3) [Academy Awards, USA: zero]  

74.    “A Aventura” (1960) (7,7) [Academy Awards, USA: zero]   

75.    “Imitação da Vida” (1959) (7,8) [Academy Awards, USA: zero]    

76.    “Intendente Sansho” (1954) (8,4) [Academy Awards, USA: zero]     

77.    “A Viagem de Chihiro” (2001) (8,6) [Best Animated Feature: Hayao Miyazaki] 

78.    “Um Dia Quente de Verão” (1991) (8,2) [Academy Awards, USA: zero]  

79.    “Satantango” (1994) (8,2) [Academy Awards, USA: zero]  

80.    “Céline e Julie Vão de Barco” (1974) (7,2) [Academy Awards, USA: zero]    

81.    “Tempos Modernos” (1936) (8,5) [Academy Awards, USA: zero] 

82.    “Crepúsculo dos Deuses” (1950) (8,4) [Best Writing, Story and Screenplay: Charles Brackett&Billy Wilder&D.M. Marshman Jr.,  Best Art Direction-Set Decoration, Black-and-White: Hans Dreier&John Meehan&Sam Comer&Ray Moyer, Best Music, Scoring of a Dramatic or Comedy Picture: Franz Waxman] 

83.    “Neste Mundo e no Outro” (1946) (8,0) [Academy Awards, USA: zero]  

84.    “Veludo Azul” (1986) (7,7) [Academy Awards, USA: zero]  

85.    “O Demônio das Onze Horas” (1965) (7,4) [Academy Awards, USA: zero]   

86.    “História(s) do Cinema” (1988) (6,9) [Academy Awards, USA: zero]    

87.    “O Espírito da Colmeia” (1973) (7,8) [Academy Awards, USA: zero]    

88.    “O Iluminado” (1980) (8,4) [Academy Awards, USA: zero] 

89.    “Amores Expressos” (1994) (8,0) [Academy Awards, USA: zero]  

90.    “Desejos proibidos” (1953) (7,9) [Academy Awards, USA: zero]   

91.    “The Leopard” (1962) (7,9) [Academy Awards, USA: zero]    

92.    “Contos da Lua Vaga” (1953) (8,1) [Academy Awards, USA: zero]    

93.    “Parasita” (2019) (8,5) [Best Motion Picture of the Year, Best Achievement in Directing: Bong Joon Ho, Best Original Screenplay: Bong Joon Ho&Han Jin-won, Best International Feature Film] 

94.    “Yi Yi” (1999) (8,1) [Academy Awards, USA: zero]     

95.    “Um Condenado à Morte Escapou” (1956) (8,2) [Academy Awards, USA: zero]      

96.    “A General” (1926) (8,1) [Academy Awards, USA: zero]  

97.    “Era uma Vez no Oeste” (1968) (8,5) [Academy Awards, USA: zero]    

98.    “Corra!” (2017) (7,8) [Best Original Screenplay: Jordan Peele] 

99.    “Garota Negra” (1966) (7,4) [Academy Awards, USA: zero]    

100.    “Mal dos Trópicos” (2004) (7,1) [Academy Awards, USA: zero]      

quinta-feira, 9 de janeiro de 2025

Eunice Paiva por Ailton Krenak

Ailton Krenak: ‘É impossível contar história do movimento indígena na ditadura sem falar de Eunice Paiva’

Escritor, ativista e imortal da Academia Brasileira de Letras fala sobre o legado de Eunice Paiva, advogada retratada no filme “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles.

Por Amanda Mazzei, cbn/globo, 13/11/2024 

Eunice Paiva e Ailton Krenak — Foto: Reprodução/TV Globo e Reprodução/Instagram

“Um dia cheguei na casa dela, tinha na sala um krenak, Ailton, de quem ficou muito amiga”, escreveu Marcelo Rubens Paiva sobre a mãe, Eunice Paiva, em seu livro “Ainda Estou Aqui” (2015). 

Naquele tempo, Eunice e Ailton “assumiram causas monumentais”, nas palavras de Krenak, para defender da ditadura militar indígenas de diversas partes do Brasil – segundo relatório da Comissão Nacional da Verdade, milhares foram mortos em decorrência da ação direta de agentes governamentais ou da sua omissão.

Quem leu “Ainda Estou Aqui” ou assistiu ao filme homônimo de Walter Salles, que estreou no dia 7 de novembro nos cinemas brasileiros, entrou em contato com a força de Eunice Paiva. O destaque maior em ambas as obras é para a luta por justiça pelas violências da ditadura e sua “resistência através do afeto” (como classificou a atriz Fernanda Torres). Viúva sem que soubesse a princípio, cuidou dos cinco filhos e fez de tudo para proteger a memória do marido, o ex-deputado Rubens Beyrodt Paiva, torturado, desaparecido e morto pelo governo.

Eunice se formou em Direito e passou a advogar depois da tragédia, engajada não apenas por sua causa pessoal e familiar, mas pela defesa dos direitos humanos. Integrou o movimento das Diretas Já e foi uma das primeiras críticas à Lei de Anistia, se tornando um dos símbolos da luta contra o autoritarismo, e participou da Assembleia Constituinte.

Mas uma parte importante de seu legado, relatada no livro do filho, é menos lembrada pelas mídias: ao se tornar uma das poucas especialistas em direito indígena em sua época, Eunice trabalhou junto a movimentos e lideranças indígenas e se dedicou a garantir demarcações de terras, indenizações e outras proteções a povos em vulnerabilidade desde a colonização portuguesa.

Eunice fez parte da fundação do Instituto de Antropologia e Meio Ambiente (IAMA), ONG que atuou até 2001 na defesa e autonomia dos povos indígenas. Foi voluntária da Comissão Pró-Índio. Na Constituinte, contribuiu para a criação dos artigos 231 e 232, que tratam dos direitos dos povos indígenas. Escreveu artigos e um livro. Tornou-se consultora do Banco Mundial e da ONU, participou de fóruns internacionais e debates na televisão.

“Ela foi mais que uma advogada. Considero Eunice uma verdadeira jurista”, disse Ailton Krenak em uma pré-entrevista por telefone. Depois, em conversa por videoconferência, o escritor, filósofo, ativista do movimento socioambiental e direitos indígenas e imortal da Academia Brasileira de Letras contou suas memórias de Eunice Paiva, “que agia como o Ministério Público antes de existir Ministério Público”; do trabalho com os companheiros indígenas e não-indígenas; e do momento que viveram naquela etapa final da ditadura militar e redemocratização.

Como o senhor conheceu Eunice Paiva?

Ailton Krenak: Nos anos 80, pairava ainda um clima de muita vigilância policial. A luta contra a tortura e para a soltura de presos políticos ainda estava acontecendo. E, admiravelmente, a nossa querida Eunice Paiva, no meio de todo esse enfrentamento contra a ditadura, arrumou tempo para ser voluntária da Comissão Pró-Índio, uma iniciativa de antropólogos e juristas para defender os direitos indígenas contra toda a violência institucional que estava implantada.

A nossa Comissão Pró-Índio assumiu vários enfrentamentos. Eu era um dos membros, junto com outras pessoas que lutaram, como o professor Dalmo Dallari e Carlos Frederico Marés, a professora Manuela Carneiro da Cunha, a professora Lux Vidal, com outros colegas da USP e PUC... Eram pessoas excepcionais, que arriscaram suas vidas pela defesa dos direitos humanos. Foi nesse tempo que eu tive quase que a minha formação na área dos direitos. Eu trabalhava e convivia com eles em reuniões duas a três vezes por semana.

O que é interessante é que a minha relação, a minha convivência, com a doutora Eunice foi se tornando tão gentil que eu frequentei a casa dela em São Paulo e conheci o Marcelo e as meninas. Foi um tempo muito rico de afetos, de experiências, de convivência com a cultura, e uma ampliação dos meus horizontes também como pessoa, porque eu estava exilado do meu território Krenak em Minas Gerais, onde finalmente pude voltar a viver com a minha família.

Mas eu fiquei mais de 20 anos nessa rendição política, nesse exílio político, liderando o movimento indígena, que foi resultar na Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB), que é esse movimento que tem hoje. Ele nasceu das nossas jornadas, onde a nossa querida Eunice Paiva, além dessas pessoas que eu mencionei, sempre esteve orientando a perspectiva jurídica do movimento indígena para que a gente não pisasse em bombas.

Eunice Paiva e indígenas Pataxó Hã-Hã-Hãe, em retomada de terra indígena no sul da Bahia. — Foto: Arquivo de Marcelo Rubens Paiva

Como foi o trabalho da Eunice e dos outros aliados junto ao senhor e o movimento dos povos indígenas para conseguir garantias constitucionais e proteger direitos em meio à repressão?

Ailton Krenak: Não era um pequeno comitê. Era muita gente. Além de advogados e antropólogos, tinha engenheiros, geólogos, etc. A gente se constituiu em um coletivo muito amoroso, muito integrado. Não era uma burocracia. E a gente tinha muita afinidade uns com os outros.

Em uma ocasião, depois da campanha das Diretas Já, nos debruçamos sobre produzir uma proposta de capítulo dos indígenas na Constituição. O artigo 231 e 232 saíram dessa fornalha. Juristas e constitucionalistas, que conheciam a história das Constituições brasileiras, nos instruíam como evitar armadilhas. E a gente tentou evitá-las de toda maneira. Uma dessas armadilhas que tentamos evitar, aconselhados pelo Dalmo, pela Eunice, pelo Maré, e outros juristas, era que a gente não incluísse a questão relativa à autorização da mineração em terra indígena. Conseguimos bloquear isso. No texto da Constituição, a gente não abre a possibilidade de a mineração acontecer dentro dos territórios indígenas, e deixamos isso como alguma coisa que ia ser definida no futuro. E esse futuro sempre bate à nossa porta em diferentes formatos. Um deles é o Marco Temporal, que diz: “não demarca a terra para os índios e entra com o que quiser lá dentro”.

Era um balcão de assistência jurídica, literalmente. Além dos projetos de longa duração, como a Constituinte, tinha processos contra a emancipação, ação contra outras violências muito amplas contra o povo indígena... Esse balcão atendia qualquer demanda.

As lideranças indígenas apareciam nessas agendas quando estavam sendo ameaçadas, ou quando o seu território era invadido, ou uma hidrelétrica ia cair em cima da cabeça deles. E aí eram todos, desde o Mário Juruna, que se tornou deputado e que precisava de assistência jurídica para exercer o mandato, até o Marcos Terena, que foi junto comigo uma das lideranças que ergueu esse movimento indígena, Álvaro Tukano, o Idjarruri Karajá, o Domingos Veríssimo Terena, que era um membro do conselho da Comissão Pró-Índio, os nossos parentes Kaingang do Paraná, do Rio Grande do Sul, os Guarani de São Paulo...

Foi dessas experiências que se produziu também uma literatura sobre direitos indígenas. Você vai encontrar artigos da doutora Eunice Paiva debatendo os textos da Constituição e anteriores à Constituinte de 1988, discutindo outras questões relativas aos direitos dos povos indígenas na chave de direitos humanos.

Sobre os debates em televisão, em jornal e universidades como USP e PUC, participávamos com uma frequência bem perceptível. Naquele tempo, a TV Cultura tinha um programa, que acontecia à tarde, que convidava pessoas para discutir temas importantes. Não foi apenas uma vez que participei de debates lá e também de outras discussões, onde a presença da dona Eunice era tão importante que eu só estaria naquele debate junto com ela, porque eu ia fazer afirmações políticas que precisavam de garantia jurídica.

A gente assumia causas monumentais. A doutora Eunice participava dessas pautas todas. Eu acho que ela e os colegas daquela época expressavam um tipo de compreensão dos direitos humanos e da emergência da sociedade brasileira que hoje não se vê com essa dimensão. Acho que foi um período de grande mobilização da vida política brasileira, que hoje eu olho em perspectiva e não acredito que a gente virou um povo tão medíocre.

Ailton Krenak em discurso na Assembleia Constituinte. — Foto: Reprodução

Notícia de debate com Eunice Paiva, Ailton Krenak, Dalmo Dallari, Lux Vidal. — Foto: Folha de S.Paulo/ Recuperado por Mariana Rodrigues Festucci Ferreira no artigo "Eunice Paiva: uma Antígona brasileira na defesa dos direitos humanos para além da finda-linha"

Vocês foram perseguidos pela ditadura? Marcelo Rubens Paiva conta em “Ainda Estou Aqui” que Eunice era sempre vigiada pelo regime.

Ailton Krenak: Nós vivemos muitas experiências de perseguição. Eu só fiquei sabendo quando abriram os arquivos do SNI (Sistema Nacional de Informações). Eles vigiavam até quando você pegava um ônibus na rodoviária, com quem se reunia, quando saia uma matéria em jornal, o que você estava falando. Guardavam as falas para poder usar contra nós depois.

E essa perseguição chegou, em alguns momentos, a beirar o pânico, como quando sobrevoaram com um helicóptero militar um lugar onde a gente estava reunido. Tinha todo tipo de baixaria. Eles queriam nos apavorar.

Qual o legado de Eunice Paiva para o direito indígena?

Ailton Krenak: Eunice é de uma expressão tão grande que é impossível contar a história do movimento indígena nos anos 70 e 80 sem fazer referência à contribuição dela, tanto do ponto de vista jurídico quanto do ponto de vista humanitário, de acolher, defender e encarar a ditadura para que esses povos pudessem finalmente inscrever na Constituição os seus direitos e se fazerem cidadãos. Creio que a nossa querida Eunice via a questão indígena como uma questão dos direitos humanos, não como uma coisa étnica. É assim que ela atuava.

Até a Constituição de 88, a gente não era cidadão, a gente não podia nem assinar uma ação contra o Estado. A gente tinha que ser acompanhado por juristas, como o Dalmo Dallari, como a Eunice Paiva, e outros. Eles assinaram ações contra o Estado em nosso nome, por nós. Eles assumiram o risco por nós. Eles confrontaram a arrogância do Estado brasileiro que tinha tutela exclusiva dos indígenas.

Antes de o Ministério Público existir, eles já exerciam isso que o Ministério Público veio a assumir como tarefa sua, que é a defesa dos direitos difusos e coletivos – a proteção do meio ambiente, dos indígenas e das pessoas que são consideradas juridicamente incapazes. Quando você vê alguém falando que o Ministério Público denunciou, entrou com ação, fez não sei o quê, a Eunice Paiva já fazia isso antes de o Ministério Público existir. Está bom?

Acho que ela tinha uma consciência muito grande de que existia o risco de os indígenas serem capturados por ideologias perigosas. Fosse a de ir para uma luta desigual, em que seríamos massacrados, ou mesmo que a gente fosse cooptado por um pensamento idiota de explorar as terras indígenas para ganhar dinheiro.

Fomos muito apoiados por essas pessoas boas, que ajudaram para que o movimento indígena alcançasse, em tão pouco tempo, a relevância que alcançou. Hoje a gente tem a Joenia Wapichana como presidente da Funai, a gente tem advogados e advogadas indígenas defendendo o direito do indígena no STF, admitidos em debates de alta relevância.

E temos uma ministra, a Sonia Guajajara. A gente não precisa ficar cantando muito isso, porque é uma situação precária. É um ministério que não tem todas as prerrogativas que os outros ministérios da grana têm. Ele é um ministério da minoria. Assim como as pastas dos Direitos Humanos e Meio Ambiente, são as políticas menores do Estado brasileiro. E os indígenas estão dentro dessas políticas menores do Estado brasileiro. Mas o que é importante é olhar que, dos anos 70 e 80 até agora, para quem ia desaparecer, com a ajuda de pessoas incríveis, esses indígenas conseguiram constituir um movimento que hoje tem repercussão internacional.

Eunice teve uma atuação internacional também, certo?

Ailton Krenak: Sim. Ela teve expressão nos fóruns internacionais que estavam produzindo a Declaração Universal dos Direitos dos Povos Indígenas que finalmente existe e que o Brasil é um signatário, na Convenção 169 de Genebra… Ela atuava no direito internacional com a mesma desenvoltura que discutia as questões internas no Brasil.

Eunice Paiva ao lado de Marcelo Rubens Paiva. — Foto: Reprodução/Instagram

O senhor esteve com Eunice Paiva antes de ela adoecer com Alzheimer?

Ailton Krenak: Enquanto eu convivi com ela, era lúcida e ativa. Eu só tive notícia de que Eunice estava com dificuldade de participar ativamente do convívio quando seus filhos deram notícia de que ela estava com a saúde debilitada. Mas ela já tinha vencido o bom combate dela, já tinha confrontado e condenado o Estado brasileiro. Ela é uma mulher vitoriosa. A família toda é. Também gosto muito do Marcelo e das meninas.

Eunice chegou a comentar alguma vez com o senhor como surgiu o interesse e a dedicação pelos direitos indígenas?

Ailton Krenak: Não precisava. Nós éramos uma geração de pessoas que entendia que a vida brasileira implicava luta, e nós todos estávamos na luta contra a ditadura. A família dela tinha sofrido uma violência enorme, ela não tinha que nos explicar o que estava fazendo ali. Ela era bem-vinda e pronto.

O que acha do lançamento do filme “Ainda Estou Aqui”?

Ailton Krenak: Eu acho que vão sair outros. Essas histórias nunca são completas. A gente vai conhecer cada vez mais. Eu acho muito bem-vindo, não sei por que ainda não tinham feito [risos]. Vai acontecer, ainda vai ter mais abordagens dessa história, talvez costurando ela com outras famílias, outras pessoas que também sofreram a mesma violência do Estado.

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Defendam os Pataxó

Folha de São Paulo, 18/10/1983

Artigo da antropóloga Manuela Carneiro da Cunha e da advogada Eunice Paiva remonta em detalhes todo o histórico do conflito fundiário que envolve os índios Pataxó Hã-Hã-Hãe e fazendeiros do sul da Bahia. 

Deixemos as discussões sobre a forma do discurso do deputado Mário Juruna, falemos do conteúdo. Seu tema central, esquecido durante a tormenta, era a situação dos índios Pataxó Hã-hã-hãe do sul da Bahia.

Os fatos: em 1926, é criada uma reserva de 50 léguas quadradas para os índios e pacificam-se grupos arredios da região. Em 1936, a reserva é demarcada, mas já mutilada: 36.000 ha são garantidos e o SPI leva para essa zona de refúgio remanescentes de aldeamentos extintos. A partir de 1937, o SPI arrenda parcelas da reserva a fazendeiros. Arrendatários, posseiros e grileiros, sem nenhuma fiscalização do SPI, começam a expulsar os índios, em ondas periódicas de grande violência. Na década de 60, os Postos Indígenas são desativados: os arrendamentos deixam de ser cobrados. Os índios estão abandonados. Muitos refugiam-se em Minas Gerais, junto aos Maxacalis, outros, que recusam deixar a área, resignam-se a trabalhar como empregados dos invasores. Um pequeno grupo resiste em um alqueire em torno das ruínas do Posto Indígena. Nos anos 70, o governo da Bahia começa a distribuir títulos de propriedade sobre terras da reserva.

Em abril de 82, cerca de 60 índios voltam à área, vindos de Minas Gerais. Conseguem a proteção da Funai, que restabelece o Posto Indígena, e a da Polícia Federal. Instalam-se na Fazenda São Lucas. A essas alturas, o enfrentamento com o governador Antônio Carlos Magalhães, então em plena campanha eleitoral, torna-se agudo. A Funai começa a recuar. Verdade é que em junho de 82 inicia uma ação declaratória de nulidade referente aos títulos de propriedade que o governo do Estado havia expedido sobre terras indígenas. Mas cabe perguntar se não se trata de uma saída protelatória: a forma global como foi proposta a ação, na medida em que implica na citação de cerca de 400 réus, muitos de domicílio desconhecido, acarreta em processo que pode se arrastar por mais de dez anos! Ações parciais que fossem recuperando áreas menos problemáticas seriam visivelmente mais eficazes. A sugestão já foi feita à Funai, que não se manifestou.

Em setembro de 82, a Funai encaminha ao governo do Estado da Bahia proposta segundo a qual os índios contentar-se-iam com 6.500 ha e renunciariam aos 29.500 ha restantes. Os índios negam terem sido consultados sobre tal proposta da qual declaram ter tido informações pelos jornais. De sua parte, o governo da Bahia rejeita esse acordo e propõe a transferência dos índios!

Cedendo a argumentos eleitoreiros, a Funai converte-se em agente direto do partido no governo: tenta dividir os índios, em outubro de 82 acelera uma transferência, apresentada como provisória — até as eleições de 15 de novembro — de 200 índios para a Fazenda Almada, de Itabuna, a 15 km de Ilhéus. Enquanto uns 200 índios iam cedendo, cerca de 65 resistem às pressões da Funai e permanecem na área, apesar das ameaças de retirada da proteção da Polícia Federal e do corte de alimentos. A divisão em torno da transferência gera uma cisão que viria a ter sérias consequências.

Depois das eleições, não se cumprindo a promessa de reassentamento, os índios voltam, à revelia da Funai, para a Fazenda São Lucas. Entre eles e os que haviam resistido a transferência, haviam mútuas suspeitas. A Funai promove a eleição de um cacique sem sustentação real ligado a um dos grupos. Durante uma discussão, esse infeliz biônico, acusado de compactuar com a Funai num acordo que redundaria na perda da maior parte da reserva, é morto em junho de 83 por um líder do grupo adverso. Três índios são presos e aguardam julgamento. A partir dessa tragédia, este grupo sai da Fazenda São Lucas e é abandonado pela Funai. São estes os índios que retomam, em agosto de 83, uma outra área da reserva, a Fazenda Providência. Cercados pela Polícia Militar, por sua vez cercada pelos fazendeiros em pé de guerra, sem mantimentos e sem apoio da Funai, os índios acabam sendo retirados numa madrugada de domingo, no dia 25 de setembro, e são realojados na Fazenda São Lucas. Apesar de todo o seu passivo, as duas facções conseguiram chegar nas últimas semanas a um entendimento. Mas com a tensão reinante, a situação pode tornar-se novamente explosiva.

Os Pataxós estão acuados: são mais de 750 na Fazenda São Lucas, em barracas que já apodreceram. Estão na inteira dependência da Funai para sua alimentação; a transferência para a Almada, no fim do ano passado, não permitiu o cultivo das roças; faltam ferramentas e sementes. Mais grave ainda, estão sem água potável. Esta se encontra a 1 km, mas os fazendeiros não lhe permitem o acesso.

Nesta situação, a quem recorrer? Há a Funai que, enquanto tutora, deveria encaminhar a vontade expressa dos seus tutelados, mas está substituindo sua voz à deles. Coloca-se em posição que não lhe cabe, de mediadora e até de juiz entre toda a sorte de interesses e os direitos dos índios. E sejamos claros: a Funai, supondo mesmo que quisesse cumprir seu papel, está atrelada a um sistema no qual os direitos indígenas são a última das preocupações. Que autonomia pode ter um órgão do Ministério do Interior diante de um governador ou de um ministro? A impotência da Funai tem analogias com a do Conselho de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana, órgão do Ministério da Justiça na época da repressão.

Há a Justiça que se tem manifestado favoravelmente na questão da Fazenda São Lucas e na qual estão depositadas muitas esperanças. Mas o ritmo da Justiça pode não acompanhar o ritmo dos acontecimentos, o tempo é contra os Pataxós.

Há a Comissão Parlamentar de Inquérito, recém-criada: havia planejado uma ida à área, que foi adiada. É essencial que vá, que informe os índios sobre o andamento dos processos na Justiça, que os faça sentir que não estão abandonados, que lhes infunda confiança e um pouco mais de paciência, para que se evitem catástrofes. E que também negocie com os fazendeiros o acesso à água potável.

Há enfim a opinião pública. Um grupo de índios que resiste a todas as violências conseguirá comovê-la? Defendam os Pataxós.


MANUELA CARNEIRO DA CUNHA é antropóloga, professora da Unicamp. Foi a pesquisadora responsável pelo Programa Indígena, do Idesp e faz parte da Comissão Pró-Índio de São Paulo.

EUNICE PAIVA é advogada e atualmente assessora a Comissão Pró-Índio de São Paulo.

Documento disponível no site Terras Indígenas do Brasil.

Para saber mais sobre a atuação de Eunice Paiva em apoio aos povos indígenas do Brasil, acesse esta reportagem da Agência Pública. 


sexta-feira, 3 de janeiro de 2025

Cadê Maria Gladys

Maria Gladys, avó de Mia Goth, é encontrada após filha relatar desaparecimento

Atriz de 85 anos está no Rio de Janeiro; filha pede desculpas e diz que 'entrou em pânico'

A atriz Maria Gladys - Divulgação/Globo

f5, fsp, 02/01/2025 

A atriz Maria Gladys, 85, deixou sua filha preocupada na virada do ano. Depois de não encontrar a mãe no apartamento em que estava ficando no Rio de Janeiro, Maria Thereza Mello Maron fez uma postagem no Facebook dizendo que ela estava desaparecida. Gladys, porém, foi encontrada algumas horas depois do post.

"Amigos, Maria Gladys está desaparecida desde ontem as 5 da manhã! A polícia diz que precisa esperar 24 horas. Não sei o que fazer! Socorro!", dizia o post de Maria Thereza na manhã desta quarta-feira (1º).

Cerca de duas horas depois, ela retornou à rede social para esclarecer que tinha encontrado a mãe. "Consegui achá-la. Está no Hotel Venezuela, no Flamengo. Desculpem o susto é porque ela está em um apartamento na Sá Ferreira e quando cheguei e não a encontrei, entrei em pânico", escreveu.

Imagens da atriz Maria Gladys

Gladys foi fotografada com fãs no Réveillon carioca. @mlugalli Em uma das postagens, usuária do X (ex-Twitter) publicou duas fotos com a atriz e escreveu: "eu e a avó da atriz americana Mia Goth". 

Mia Gypsy Mello da Silva Goth é protagonista dos filmes "MaXXXine", "X —A Marca da Morte" e "Pearl" e casada com o ator e diretor Shia LaBeouf.

A história que revela o parentesco com a atriz de Hollywood começa com o exílio de Gladys no Reino Unido durante o período da ditadura militar e parece seguir um roteiro de cinema.

Naquela época, de um namoro "simples, mas com liberdade", como ela disse, veio uma gravidez. Contudo, a paternidade só foi mesmo descoberta na volta da atriz ao Rio de Janeiro, quando um amigo viu que o filho do antigo namorado da atriz era bastante parecido com Raquel Goth, filha de Maria Gladys. Contato feito, amostras de DNA coletadas e pronto, caso confirmado.

Sem Frescura 2004 - Maria Gladys