quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Nêgo Bispo (1959-2023), tradutor de conhecimentos e semeador de palavras

Como Nêgo Bispo levou a busca do saber para muito além da academia

Poeta e escritor deixa como legado a reivindicação do conhecimento produzido por comunidades quilombolas 

Tayguara Ribeiro, FSP, 06/12/2023

Filósofo, professor, poeta, escritor, ativista político, militante social e uma das vozes do pensamento quilombola. Essas são algumas das tentativas de definir quem foi Antônio Bispo. Mas não são as únicas. Segundo escritores, historiadores, leitores e pesquisadores, elas tampouco esgotam a complexidade da obra de Nêgo Bispo, como ele era conhecido.

O semeador da palavra, outro dos nomes pelo qual ele era chamado, morreu no último domingo, vítima de parada cardíaca, aos 63 anos. Uma das características de seu trabalho foi provocar as estruturas da academia baseadas em conhecimentos eurocêntricos.

O escritor Antônio Bispo dos Santos, autor de "A Terra Dá, a Terra Quer. - Alexia Melo

Ele se tornou referência do movimento anticolonial e da luta antirracista. É autor de "Colonização, Quilombos, Modos e Significações" e "A Terra Dá, A Terra Quer", livros importantes para a consolidação do pensamento quilombola.

Justamente esse é considerado um de seus legados, debater, valorizar e reivindicar o conhecimento produzido por essas comunidades. "Ele provou que a construção do conhecimento se dá na perspectiva do envolvimento, e não do desenvolvimento. Compartilhamento com respeito. Quilombos enquanto espaços de conhecimento, como sujeito, e não objeto", diz a escritora Rosane Jovelino.

Segundo ela, Bispo combateu o racismo estrutural com diálogos e reflexões da importância dos quilombos como espaço de resistência. Ele respeitava mulheres como ventre gerador da vida e lutou por comunidades autossustentáveis. "Ele defendia a vida, porque, para Nêgo Bispo, todas as vidas e criação divina importam. Para ele, o pensamento colonial é linear, por isso tem limite."

Crítico do modo de organização da sociedade, formada a partir da colonização, Bispo escreveu que colonizar um povo é como adestrar um boi. Ambas as ações consistem na remoção da identidade, mudança de território e condenação do modo de vida alheio.

O pensador propôs o contracolonialismo, a recusa do povo à colonização, praticado há séculos por africanos, indígenas e quilombolas.

Segundo o escritor Flávio Gomes, Bispo confrontava o mundo acadêmico que insiste e acredita que ainda "descobre" os quilombos. Ele criticava a incapacidade da universidade de aprender com os quilombolas. Dizia que ela deveria ser ensinada a partir dos saberes deles. "A obra de Nêgo Bispo é original. Trouxe perspectivas epistemológicas para pensar os quilombolas para além de uma naturalizada visão de remanescentes", diz o também professor de história da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor de diversos livros sobre quilombos.

"[Os quilombolas], como outros povos, a exemplo dos maroons e palenques, são coletividades étnicas produtoras de saberes e cosmologias sobre a terra e territórios fantásticos e ainda pouco conhecidos. Nêgo Bispoescrevia, falava e vivia isso."

Nascido na comunidade Saco do Curtume, no Piauí, Bispo ganhou notoriedade em movimentos sociais nos anos 1990, quando se filiou a partidos políticos. Ele atuou ainda na Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas. Um dos pontos mais destacados pelo próprio Nêgo Bispo sobre o seu pensamento era o conceito decolonial.

A este jornal, em maio, o pensador quilombola afirmou que só pode ser decolonizado quem foi colonizado. Qualquer pessoa que se sinta colonizada pode lutar para ser decolonial.

"Seu principal legado é o reforço para a coletividade como um fator fundamental do que somos. E a partir da coletividade, trazia a relevância de bebermos em nossa ancestralidade e de como ela sempre orienta nossa caminhada",afirma Bárbara Oliveira, doutora em antropologia social pela Universidade de Brasília.

Bispo, diz, foi um grande poeta que deu voz e cor às lutas negras e quilombolas. Circulou por universidades do Brasil e do exterior, publicou livros, participou de espaços de negociação por direitos das comunidades quilombolas em instâncias governamentais e montou redes de luta por direitos com ativistas.

O projeto Quilombos do Brasil é uma parceria com a Fundação Ford

E mais

Nêgo Bispo: 'A sociedade colonialista acabou. Por isso querem ir pra Marte' 

COMEÇO, MEIO E COMEÇO 

Nego Bispo


A miséria e o petróleo na Amazonia

André Borges (textos) e Ruy Baron (imagens), Enviados especiais a Coari e Silves (AM), Uol, 06/12/2023

Na praça de Coari (AM), às margens do rio Solimões, uma pequena estrutura de ferro fundido, com suas engrenagens e a sonda pintadas de vermelho, enfeita o centro da cidade. O equipamento usado nos poços de petróleo, um ícone do progresso coariense, está chumbado próximo às costas de um Cristo de cimento.
A estátua, cercada por lixo e cheiro de urina, tem os braços abertos para os barracos de pau, um amontoado de casas que se equilibram como podem sobre a lama e a sujeira que se reviram nas margens do rio. Um bando de urubus sobrevoa a área, avaliando os restos que amolecem sob o sol incandescente. O zunido das motos anuncia mais um dia na maior província do petróleo e do gás terrestres do Brasil. 

A expectativa do surgimento de uma "Dubai amazônica" impulsionada pelo dinheiro do petróleo nunca se concretizou. A ambição financeira e as promessas de riqueza que hoje são usadas como principal argumento para extrair petróleo na foz do rio Amazonas já fazem parte do cotidiano de Coari há quase quatro décadas. Já se retira muito petróleo da Amazônia, e não é de hoje. Poços de óleo e gás são explorados na região desde a década de 1980.
Debaixo de Coari, município encravado no coração do Amazonas, encontra-se uma das maiores jazidas terrestres de petróleo do país, onde só se chega de avião ou barco, navegando pelas águas turvas do Solimões. São cerca de 450 km até chegar a Manaus.
Já se passaram 37 anos desde que o primeiro poço de petróleo "economicamente viável" jorrou sobre o solo coariense, em 12 de outubro de 1986, confirmando as pesquisas da Petrobras que indicavam haver, debaixo da maior floresta tropical do planeta, uma reserva de óleo com qualidade superior àquela encontrada em boa parte dos países árabes.

Os poços abertos dentro da mata, no entorno do rio Urucu, deram origem à formação de um complexo petrolífero, com início efetivo da exploração dois anos depois, pela Petrobras, dentro do território de Coari.

Em rede nacional, o então presidente José Sarney anunciava o começo da produção, em 1988, embalado por um discurso ufanista sobre a riqueza que "libertaria" o país. O Brasil, que se livrava da ditadura militar e ganhava uma Constituição Federal, mergulhava no petróleo amazônico para consolidar a emancipação nacional.
No meio da mata, a população de Coari, então com seus 35 mil habitantes, viu brotar do chão a promessa de uma vida melhor nos extremos da Amazônia, passados os ciclos da borracha e da castanha-do-pará. O óleo e o gás irrigariam os cofres da cidade, injetando dinheiro na máquina pública com o pagamento dos "royalties", como é conhecido o quinhão petroleiro que fica para o município. Um caminho virtuoso estava selado.

Coari, de fato, cresceu. Hoje, os campos do complexo de Urucu produzem cerca de 110 mil barris de petróleo por dia. Desde 2011, o gasoduto Urucu-Coari-Manaus, com seus 663 km de extensão, cruza a floresta para despejar o gás do município diretamente na capital do estado. Coari viu sua população dobrar de tamanho e chegar aos atuais 70,5 mil habitantes, como mostra o Censo do IBGE de 2022. O futuro e a riqueza, porém, nunca chegaram.
Em outubro, a reportagem do UOL percorreu, por terra e água, municípios da Amazônia onde a exploração de petróleo e gás já é uma realidade. A apuração se concentrou na Bacia do Solimões, região do Amazonas que é dona do maior volume terrestre destes insumos no Brasil.
O objetivo foi mostrar o dia a dia de cidades amazônicas que têm - ou pretendem ter - boa parte de suas finanças atrelada à produção petroleira. Dois municípios foram visitados: Coari, do lado oeste do estado, onde a exploração já acontece há 35 anos; e Silves, do lado leste, que deu início à sua produção de forma intensiva em 2021.

A realidade que se depreende das ruas, órgãos públicos, periferias e comunidades rurais destes municípios revela um cotidiano marcado pela falta generalizada de infraestrutura, ausência de saneamento básico, problemas graves de segurança pública e precariedade em serviços de saúde e educação. Se a razão de ser da exploração fóssil é a melhoria econômica e da qualidade de vida, não é a realidade que se vê nesta região.
Em Coari, município que recebeu R$ 136,3 milhões de royalties em 2022, a Polícia Militar conta hoje com um efetivo de 25 agentes e capacidade de circular com apenas uma viatura por dia em toda a cidade. Trata-se de uma guarnição da PM para fazer a segurança de 70 mil habitantes.


Isolada na floresta, a cidade também passou a conviver com o drama de grandes metrópoles, onde membros do CV (Comando Vermelho) e do PCC (Primeiro Comando da Capital) têm rivalizado pelo controle da rota do tráfico de drogas no Solimões (leia aqui).
Na farmácia popular do município, que distribui medicamentos gratuitos, faltam remédios básicos, como comprimidos que custam R$ 0,50. O mesmo ocorre em unidades básicas de saúde. Na zona rural, em locais como a Vila Lira, ao lado do terminal de embarque de petróleo da Petrobras, a merenda escolar só dá para a metade de cada mês (leia aqui).
"Para um município como Coari, que recebe esses recursos, o que a gente percebe é essa precariedade, sobretudo nas questões essenciais do serviço público", diz Gleides Medins de Menezes, coordenadora da Universidade Estadual do Amazonas em Coari.

Sem uma indústria além da petroleira, comenta Menezes, o município sofre. "Infelizmente, é um município com um índice de desemprego muito grande, além de carência de serviços básicos de saúde e educação. Poderia estar numa situação melhor, mas infelizmente nós não temos."
Os dados do IBGE emolduram o cenário. Em 2021, a proporção de pessoas empregadas em Coari em relação à sua população total era de apenas 8,1%, quase um terço da porcentagem de Manaus, por exemplo, com 23,7% de sua população ocupada. A média salarial também é baixa. Na capital amazônica do petróleo, 49% dos domicílios têm rendimento mensal de até meio salário mínimo por pessoa.

Geradora de óleo e gás que abastecem grandes usinas termelétricas de Manaus e da região Norte do país, Coari convive com a instabilidade no abastecimento de sua própria rede de energia elétrica. "Neste período de estiagem, a gente sofre bastante com a falta de energia", diz Gleides Medins de Menezes. "Eu destaco ainda a situação do saneamento, a falta de uma política ambiental consistente. Na verdade, o município não dispõe disso."
Na capital do petróleo amazônico, não há um programa de tratamento de resíduo sólido. A reportagem esteve no lixão a céu aberto de Coari. No meio da floresta, em uma área sem nenhum tipo de controle, montanhas de lixo de todas as origens crescem com o despejo irregular, o que acaba por contaminar o solo e o lençol freático, um dano severo ao meio ambiente, além de disseminador de doenças.
Coari está entre as cidades brasileiras que, ainda hoje, descumprem a lei federal dos aterros sanitários. A cidade já deveria ter uma área preparada para o tratamento dos resíduos, do chorume e dos gases. O que se vê na prática, porém, são nuvens brancas que encobrem parte da cidade, por causa da fumaça que escapa da queima do lixo. Até 2021, 62% dos domicílios de Coari não tinham esgotamento sanitário adequado.

Silves, a nova promessa fóssil

Do outro lado do Amazonas, uma "nova Coari" começa a nascer, a 330 quilômetros de Manaus, numa região onde afloram conflitos com povos indígenas (Leia aqui). Assim como a população coariense, que há décadas espera a transformação social e econômica que o petróleo traria, os 12 mil habitantes de Silves vivem, agora, a expectativa de terem a vida transformada pelo gás fóssil. A promessa atende pelo nome de Campo de Azulão, área produtora de gás na Bacia do Amazonas que passou a ser explorada pela empresa Eneva em 2021, após três anos de obras.

Como ocorre em todo projeto do setor energético, os números envolvidos com a extração de gás em Silves são superlativos. O complexo, que já tem uma reserva certificada de 6,3 bilhões de metros cúbicos de gás, recebeu investimentos de R$ 1,8 bilhão.
Para a população, porém, a obra de infraestrutura mais aparente que se vê fora do complexo é a estrada de 330 km que liga Silves a Manaus. O trajeto, que teve seu asfalto renovado, é usado diariamente por dezenas de carretas que transportam o gás de Silves até uma usina termelétrica de Boa Vista (RR), um percurso que soma 1.100 km. Com exceção desta estrada, o que sobra é a precariedade do município.
Uma voçoroca cresce no meio da ilha fluvial de Silves, a sede do município, cercada pelo lago de Canaçari, ao lado do rio Amazonas. O buraco gigantesco, causado pela erosão descontrolada, foi transformado em um lixão a céu aberto. Seis anos atrás, dois jovens morreram soterrados quando passavam pelo local.Nas ruas da Silves, proliferam buracos. O esgotamento sanitário é um luxo restrito a 4,8% dos domicílios e somente 36,4% das casas têm urbanização considerada adequada, com estruturas básicas de bueiro, calçada, pavimentação e meio-fio, segundo o IBGE.

Em 2021, o número de pessoas ocupadas era de apenas 796 habitantes, o equivalente a 7,1% da população total. De todos os domicílios, metade (49,1%) tinha rendimento mensal de até meio salário mínimo por pessoa. Márcia Ruth, presidente da Associação de Silves pela Preservação Ambiental e Cultural, diz que a oferta de postos de trabalho, que era uma promessa inicial, ainda não se concretizou.
"Infelizmente, ainda existem pessoas que estão muito encantadas com a ideia de que vão conseguir trabalhar", afirma ela. "Eles disseram, na audiência pública, que estão ajudando com a educação, com o hospital, com a saúde. A gente se pergunta: onde? Em quê? A cidade não consegue ver essa melhoria."
O dinheiro dos royalties já começou a pingar nos cofres de Silves. Os dados da Agência Nacional do Petróleo apontam repasses de R$ 760 mil em 2021. No ano passado, o valor subiu para R$ 1,703 milhão. Entre janeiro e outubro deste ano, chegou a R$ 1,763 milhão.

O pescador Marcos de Oliveira Costa encara qualquer nova promessa com desconfiança. Em tempos de estiagem histórica na região, com o agravamento de um cenário que já era difícil, seu ceticismo aumenta. "Quem sofre somos nós, que moramos aqui, filhos dessa terra. Não resolvem nossos problemas. Entra presidente, sai presidente, mas eles não vêm ver o que acontece aqui."

Piratas nos rios e violência nas ruas
Criminosos aterrorizam população de Coari (AM), que tem apenas uma viatura da PM 

No oásis do petróleo, falta até aspirina na farmácia popular

 A luta do povo mura contra a exploração de gás

Petrobras, União e AM dizem que royalties são atribuição de municípios
 
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E mais
Petróleo e Amazônia na mesma frase. Pode?

quarta-feira, 6 de dezembro de 2023

Prêmio Jabuti 2023 - Final

Prêmio Jabuti 2023: Ruy Castro vence Melhor Romance Literário; veja lista de ganhadores

Nomes vencedores da 65ª edição foram revelados em uma cerimônia no Teatro Municipal nesta terça-feira

Por Redação, O Estado, 05/12/2023 

Os vencedores da 65ª edição do Prêmio Jabuti foram anunciados nesta terça-feira, 5. A cerimônia aconteceu no Teatro Municipal e foi transmitida no canal da Câmara Brasileira do Livro (CBL) no YouTube

O ganhador do Livro do Ano, Fabrício Corsaletti, por Engenheiro Fantasma (Cia. Das Letras) foi premiado com R$ 70 mil e, em uma novidade nesta edição, também receberá passagens e estadia para participar da Feira do Livro de Frankfurt, na Alemanha.

Uma das mais tradicionais premiações literárias do País, com 4.245 obras inscritas (uma ligeira queda em relação ao ano passado, com 4.920 obras), ela é dividida em quatro eixos: Literatura, Não Ficção, Produção Editorial e Inovação. Abaixo, veja a lista dos vencedores (em negrito) anunciados.

Vencedores em negrito

Conto

Título: As pessoas costumam não notar quando estamos mortos | Autor(a): Malu Ferreira Alves | Editora(s): 7Letras

Título: Educação Natural: textos póstumos e inéditos | Autor(a): João Gilberto Noll | Editora(s): Record

Título: Guia anônima | Autor(a): Junia Zaidan | Editora(s): FiNA, Cousa

Título: Mulher feita e outros contos | Autor(a): Marilene Felinto | Editora(s): Fósforo

Título: Usufruto de demônios | Autor(a): Whisner Fraga Mamede | Editora(s): Ofícios Terrestres Edições

Crônica

Título: As vozes da minha cabeça | Autor(a): S. Ganeff | Editora(s): Labrador

Título: Folias de aprendiz | Autor(a): Geraldo Carneiro | Editora(s): História Real

Título: Lembremos do futuro: crônicas do tempo da morte do tempo | Autor(a): Julián Fuks | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Por quem as panelas batem | Autor(a): Antonio Prata | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Vastidão | Autor(a): Cristiana Rodrigues | Editora(s): Vasta

Histórias em Quadrinhos

Título: A batalha | Autor(a): Eloar Guazzelli, Fernanda Verissimo | Editora(s): Quadrinhos na Cia

Título: A Coisa | Autor(a): Orlandeli | Editora(s): Gambatte

Título: Franjinha: contato | Autor(a): Vitor Cafaggi | Editora(s): Panini Comics

Título: Mukanda Tiodora | Autor(a): Marcelo D’Salete | Editora(s): Veneta

Título: O fim da noite | Autor(a): Diox, Rafael Calça | Editora(s): Darkside

Infantil

Título: A espera | Autor(a): Ilan Brenman | Editora(s): Santillana Educação

Título: Desligue e abra | Autor(a): Ilan Brenman | Editora(s): Santillana Educação

Título: Doçura | Autor(a): Anna Cunha, Emília Nuñez | Editora(s): Tibi Livros

Título: O menino, o pai e a pinha | Autor(a): Yuri de Francco, Ionit Zilberman | Editora(s): Ciranda na Escola

Título: Voar na imaginação | Autor(a): Celso Vicenzi | Editora(s): Arte Editora

Juvenil

Título: A catalogadora de idosos | Autor(a): PedroTavares | Editora(s): Edições SM

Título: As coisas de que não me lembro, sou | Autor(a): Jacques Fux, Raquel Matsushita | Editora(s): Aletria

Título: Meu lugar no mundo | Autor(a): Walcyr Carrasco | Editora(s): Santillana Educação

Título: Natali e sua vontade idiota de agradar todo mundo | Autor(a): Thalita Rebouças | Editora(s): Rocco

Título: Óculos de cor: ver e não enxergar | Autor(a): Lilia Moritz Schwarcz, Suzane Lopes | Editora(s): Companhia das Letrinhas

Poesia

Título: A água é uma máquina do tempo | Autor(a): Aline Motta | Editora(s): Círculo de poemas

Título: Alma corsária | Autor(a): Claudia Roquette-Pinto | Editora(s): Editora 34

Título: Araras vermelhas | Autor(a): Cida Pedrosa | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Engenheiro fantasma | Autor(a): Fabrício Corsaletti | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Fim de verão | Autor(a): Paulo Henriques Britto | Editora(s): Companhia das Letras

Romance de Entretenimento

Título: 12321 – O amor é um palíndromo | Autor(a): Marina Kon | Editora(s): Penalux

Título: A vida e as mortes de Severino Olho de Dendê | Autor(a): Ian Fraser | Editora(s): Intrínseca

Título: Dentro do nosso silêncio | Autor(a): Karine Asth | Editora(s): Bestiário

Título: O luto da baleia | Autor(a): Solange Cianni | Editora(s): Obra Independente

Título: Selvagem | Autor(a): Marília Passos | Editora(s): Labrador

Romance Literário

Título: A vida futura | Autor(a): Sérgio Rodrigues | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Beatriz e o poeta | Autor(a): Cristovão Tezza | Editora(s): Todavia

Título: Menos que um | Autor(a): Patrícia Melo | Editora(s): Casa dos Mundos

Título: Os perigos do imperador: um romance do Segundo Reinado | Autor(a): Ruy Castro | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Via Ápia | Autor(a): Geovani Martins | Editora(s): Companhia das Letras

Eixo: Não Ficção

Artes

Título: Futuros em gestação: cidade, política e pandemia | Autor(a): Guilherme Wisnik, Tuca Vieira | Editora(s): WMF Martins Fontes, Escola da Cidade

Título: Imagens marcantes da fotografia brasileira (1840-1914) | Autor(a): Pedro Corrêa do Lago, Ruy Souza e Silva | Editora(s): Capivara

Título: O Olhar Germânico na Gênese do Brasil | Autor(a): Maurício Vicente Ferreira Júnior, Rafael Cardoso | Editora(s): Museu Imperial

Título: Tomie | Autor(a): Paulo Miyada, Priscyla Gomes (Organizadores) | Editora(s): Instituto Tomie Ohtake

Título: Walter Firmo: no verbo do silêncio a síntese do grito | Autor(a): Sérgio Burgi | Editora(s): IMS

Biografia e Reportagem

Título: A vacina sem revolta: a luta de Rodolpho Theophilo contra o poder e a peste | Autor(a): Lira Neto | Editora(s): Bella Editora

Título: Escravidão: da independência do Brasil à Lei Áurea | Autor(a): Laurentino Gomes | Editora(s): Globo Livros

Título: O negócio do Jair: a história proibida do clã Bolsonaro | Autor(a): Juliana Dal Piva | Editora(s): Zahar

Título: Poder camuflado: os militares e a política, do fim da ditadura à aliança com Bolsonaro | Autor(a): Fabio Victor | Editora(s): Companhia das Letras

Título: Rainhas da noite | Autor(a): Chico Felitti | Editora(s): Companhia das Letras

Ciências

Título: Covid-19: desafios para a organização e repercussões nos sistemas e serviços de saúde | Autor(a): Lenice Gnocchi da Costa Reis, Margareth Crisóstomo Portela, Sheyla Maria Lemos Lima | Editora(s): Fiocruz

Título: Emergência climática: o aquecimento global, o ativismo jovem e a luta por um mundo melhor | Autor(a): Matthew Shirts | Editora(s): Claro enigma

Título: Pediatria Essencial | Autor(a): Alice D’Agostini Deutsch, Carlos Augusto Cardim de Oliveira, Claudio Schvartsman, Durval Anibal Daniel Filho, Eduardo Juan Troster, Elda Maria Stafuzza Gonçalves Pires, Érica Santos, Mariana Facchini Granato, Paula Alves Gonçalves, Renata Dejtiar Waksman | Editora(s): Atheneu

Título: Psicanálise de boteco: o inconsciente na vida cotidiana | Autor(a): Alexandre Patricio de Almeida | Editora(s): Paidós

Título: Uma história das florestas brasileiras | Autor(a): Zé Pedro de Oliveira Costa | Editora(s): Autêntica

Ciências Humanas

Título: É próprio do humano: uma odisseia do autoconhecimento e da autorrealização em 12 lições | Autor(a): Dante Gallian | Editora(s): Record

Título: Humanamente Digital: inteligência artificial centrada no humano | Autor(a): Cassio Pantaleoni | Editora(s): Unità Educacional

Título: Identidades e Crise das Democracias | Autor(a): Bernardo Sorj | Editora(s): Fundação FHC

Título: O ponto a que chegamos: duzentos anos de atraso educacional e seu impacto nas políticas do presente | Autor(a): Antônio Gois | Editora(s): FGV

Título: Pontos fora da curva: por que algumas reformas educacionais no Brasil são mais efetivas do que outras e o que isso significa para o futuro da educação básica | Autor(a): Olavo Nogueira Filho | Editora(s): FGV

Ciências Sociais

Título: Limites da democracia: de junho de 2013 ao governo Bolsonaro | Autor(a): Marcos Nobre | Editora(s): Todavia

Título: Linha vermelha: a guerra da Ucrânia e as relações internacionais do século XXI | Autor(a): Felipe Loureiro (Organizador) | Editora(s): Editora da Unicamp

Título: Movimento LGBTI+: uma breve história do século XIX aos nossos dias | Autor(a): Renan Quinalha | Editora(s): Autêntica

Título: Nós do Brasil: nossa herança e nossas escolhas | Autor(a): Zeina Latif | Editora(s): Record

Título: Tecnologia do Oprimido: desigualdade e o mundano digital nas favelas do Brasil | Autor(a): David Nemer | Editora(s): Milfontes

Economia Criativa

Título: Criatividade a Sério | Autor(a): Felipe Zamana | Editora(s): Obra Independente

Título: Hospedagens Memoráveis | Autor(a): Rodrigo Galvão | Editora(s): Freitas Bastos Editora

Título: Metaverso Educacional de Bolso - Conceitos, Reflexões e Possíveis Impactos na Educação | Autor(a): Francisco Tupy, Helena Poças Leitão | Editora(s): Arco 43 Editora

Título: Patrimônio 4.0 | Autor(a): Pedro Henrique Gonçalves (Organizador) | Editora(s): Blucher

Título: Receitas do Favela Orgânica: aproveitamento integral de alimentos | Autor(a): Regina Tchelly | Editora(s): Senac Rio

Eixo: Produção Editorial

Capa

Título: Judith Lauand: desvio concreto | Capista: Paula Tinoco, Roderico Souza | Editora(s): Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp)

Título: Mensagem | Capista: Flávia Castanheira | Editora(s): Todavia

Título: Moby Dick, ou A baleia | Capista: Rafael Nobre | Editora(s): Clássicos Zahar

Título: Ubuntu: eu sou porque nós somos | Capista: Bloco Gráfico | Editora(s): ImageMagica

Título: Um defeito de cor (Edição Especial) | Capista: Leticia Quintilhano | Editora(s): Record

Ilustração

Título: A notável história do homem-listrado | Ilustrador(a): Fayga Ostrower | Editora(s): EDUFRN

Título: Minúscula | Ilustrador(a): Fran Matsumoto | Editora(s): Brinque-Book

Título: O dedão do pé do gigante | Ilustrador(a): Bruna Ximenes | Editora(s): Editora do Brasil

Título: O povo Kambeba e a gota d’água | Ilustrador(a): Cris Eich | Editora(s): Edebe Brasil

Título: Sou mais eu | Ilustrador(a): Rogério Coelho | Editora(s): DarkSide

Projeto Gráfico

Título: Atos de revolta: outros imaginários sobre independência | Responsável: Sometimes Always | Editora(s): Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro

Título: Expresso 2222 | Responsável: Ana Oliveira, Paulo Chagas | Editora(s): Iyá Omin

Título: Judith Lauand: desvio concreto | Responsável: Paula Tinoco, Roderico Souza | Editora(s): Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand (Masp)

Título: Middlemarch: um estudo da vida provinciana | Responsável: Flávia Castanheira, Igor Miranda | Editora(s): Pinard

Título: Tomie | Responsável: Felipe Carnevalli De Brot, Vitor Cesar Junior | Editora(s): Instituto Tomie Ohtake

Tradução

Título: Édipo Rei ou Édipo em Tebas | Tradutor(a): Jaa Torrano | Editora(s): Ateliê Editorial, Editora Mnêma

Título: Finnegans Rivolta | Tradutor(a): Dirce Waltrick do Amarante (Organizadora) / Coletivo Finnegans | Editora(s): Iluminuras

Título: Inana | Tradutor(a): Adriano Scandolara, Guilherme Gontijo Flores | Editora(s): Sobinfluencia Edições

Título: Linhas fundamentais da filosofia do direito | Tradutor(a): Marcos Lutz Müller | Editora(s): Editora 34

Título: Phantasus: poema-non-plus-ultra | Tradutor(a): Simone Homem de Mello | Editora(s): Perspectiva

Eixo: Inovação

Escritor(a) Estreante

Título: A tessitura da perda | Autor(a): Cristianne Lameirinha | Editora(s): Quelônio

Título: Extremo oeste | Autor(a): Paulo Fehlauer | Editora(s): Cepe

Título: O céu no meio da cara | Autor(a): Júlia Portes | Editora(s): NAU Editora

Título: Síngulas Brasilis Fantásticas | Autor(a): Valentim Biazotti | Editora(s): Penalux

Título: Sismógrafo | Autor(a): Leonardo Piana | Editora(s): Edições Macondo

Fomento à Leitura

Título: Álbum Guerreiras da Ancestralidade do Mulherio das Letras Indígenas | Responsável(eis): Evanir de Oliveira Pinheiro

Título: Calangos Leitores | Responsável(eis): Claudine Maria Diniz Duarte

Título: Mostra de Literatura Inclusiva | Responsável(eis): Andrey do Amaral

Título: Projeto Ciranda do Saber | Responsável(eis): Meire Aparecida do Nascimento

Título: São Luís sob a luz dos tambores | Responsável(eis): Foto Clube Poesia do Olhar

Livro Brasileiro Publicado no Exterior

Título: Becos da memória | Editora(s): Pallas Editora, Portugalský inštitút

Título: Caderno de rimas do João | Editora(s): Pallas Editora, Editora Trinta Zero Nove

Título: Marrom e amarelo | Editora(s): Alfaguara, And Other Stories

Título: O cabelo de Cora | Editora(s): Pallas Editora, Editora Trinta Zero Nove

Título: Setenta | Editora(s): Dublinense, Hellnation Libri

terça-feira, 5 de dezembro de 2023

Os algoritmos e a cegueira moral

Como os algoritmos hackeiam a mente humana

Pesquisador do impacto causado por plataformas digitais, o jornalista Max Fisher liga estratégias das big techs a estudos científicos sobre evolução e comportamento

Ele compartilhou com a plateia uma estratégia que aplica no Instagram: “Tem um botão que trava o aplicativo e eu não consigo acessar nada. Há aplicativos que limitam nossa capacidade de usar as redes sociais.” Também recomenda deixar a visualização de tela em preto e branco, para que o uso do celular seja menos viciante.

Pedro Tavares, 05 dez 2023

Em 2017, milhares de pessoas do povo rohingya foram assassinadas em Mianmar em meio a boatos de que essa minoria muçulmana planejava atacar a maioria budista do país. Para muitos pesquisadores, grandes plataformas digitais, em especial o Facebook, contribuíram expressivamente para o genocídio, ao não interferir na disseminação de mentiras e ódio em seus posts. O livro A Máquina do Caos: Como as Redes Sociais Reprogramaram Nossa Mente e Nosso Mundo, do jornalista Max Fisher (publicado no Brasil pela editora Todavia), narra como pessoas e entidades do país tentaram alertar funcionários da empresa de Mark Zuckerberg – inclusive pessoalmente – sobre o que se passava, sem que ações fossem tomadas.

Max Fisher, autor de "A Máquina do Caos" Foto: Marcelo Saraiva 

O caso foi um dos comentados por Fisher no Festival piauí de Jornalismo, no último fim de semana, na Cinemateca Brasileira, em São Paulo. A conversa foi mediada por Patrícia Campos Mello, repórter especial do jornal Folha de S.Paulo e autora do livro A Máquina do Ódio, e por Daniel Bergamasco, editor executivo da revista piauí. Fisher trabalhou em jornais como o Washington Post e o New York Times, a revista The Atlantic e o portal Vox. Hoje integra a equipe da multiplataforma Crooked Media, um nome irônico: quer dizer “mídia distorcida” em inglês, e é como Donald Trump costumava se referir a veículos que publicavam reportagens críticas contra ele.

“O Facebook sabia que a plataforma estava incitando violência em Mianmar”, afirma. Para Fisher, porém, reconhecer esse papel significava dizer que o algoritmo é capaz de provocar algo sério e nocivo em qualquer lugar do mundo – e assim concordar com as frequentes queixas vindas de todos os cantos. Em 2018, por exemplo, houve uma crise de refugiados na fronteira dos Estados Unidos com imigrantes vindos da América Central. Fisher lembra que uma onda de desinformação e de ódio contra os refugiados se espalhou. “Diziam que os imigrantes estavam cometendo crimes. Até o presidente [Donald Trump] compartilhou isso.”

Em seu trabalho de reportagem, Fisher ouviu ex-funcionários das big techs que relatam os constantes esforços para maximizar o tempo de permanência dos usuários. “Era explícita a intenção das big techs de criar um mecanismo que fosse tão viciante como álcool e nicotina”, explica. Conteúdos que despertam a indignação tendem a ter mais engajamento, por isso um vídeo conspiratório e falso sobre perigos secretos das vacinas naturalmente despertará mais raiva que um conteúdo correto e informativo sobre a importância de se imunizar contra uma doença. Se você tuitar conteúdo de ultraje moral (posts de ataque ou ameaças, por exemplo), o algoritmo que determina o que as pessoas veem na plataforma vai se certificar de que muitas pessoas vejam o seu tuíte, porque a plataforma promove o engajamento de conteúdo ultrajante”, ele conta. Mas o que explica esse comportamento?

“Quando comecei a pesquisar os efeitos das redes sociais no mundo, a pergunta era: como provamos cientificamente que as redes mobilizam o cérebro humano?” Em seu trabalho de apuração, Fisher buscou estudos científicos que mostram que conteúdos que despertam indignação mexem com os instintos humanos de proteção. Com o aparecimento da linguagem na evolução (para alguns cientistas, há meio milhão de anos), os seres humanos passaram a somar forças para combater ameaças – inclusive às de membros mais fortes de suas comunidades, que se impunham no grito e na violência, mesmo contra a força da maioria. Portanto, o ato de se insurgir contra algo que parece nocivo a um grupo é sentido como uma virtude social. Há estudos que mostram que reagir a um problema sob o testemunho de outras pessoas aciona com mais intensidade os mecanismos de satisfação. 

O compartilhamento e o engajamento na desinformação não têm relação com nível de instrução ou escolaridade dos usuários, segundo o repórter, mas sim em como o cérebro reage aos fatos no contexto de rede social. Ele diferencia o lado racional da mente do lado social – o segundo pode se sobrepor ao primeiro quando exposto a dados falsos que causam revolta e precisam demandar uma reação.

Fisher não vê soluções simples, mas acredita que as redes sociais devem ser encaradas pela sociedade como uma droga lícita. “[As redes] vão nos viciar e mudar o modo como nosso cérebro funciona. Precisamos criar níveis de segurança e entender como cada pessoa reage, assim como acontece com o álcool”, explica. Ele compartilhou com a plateia uma estratégia que aplica no Instagram: “Tem um botão que trava o aplicativo e eu não consigo acessar nada. Há aplicativos que limitam nossa capacidade de usar as redes sociais.” Também recomenda deixar a visualização de tela em preto e branco, para que o uso do celular seja menos viciante.

Max Fisher foi o primeiro convidado a participar duas vezes do Festival piauí de Jornalismo. Na primeira, em 2014, durante a conversa mediada pelos jornalistas Bernardo Esteves e Fernando Rodrigues, Fisher abordou a evolução do jornalismo na era digital e destacou que a proliferação de meios de comunicação oferece diferentes maneiras de alcançar os leitores. Na época era diretor da Vox Media, que tinha um conteúdo pensado em grande parte para viralizar nas redes sociais. Com o tempo, se atentou para os efeitos colaterais das plataformas.

“Minha maior preocupação em 2024 é entender o impacto do TikTok.” Ele se refere à proliferação de conteúdos feitos para parecer informativos, mas que são carregados de vícios, e que se tornam a principal fonte de conhecimento de parte dos usuários que estão em massa no aplicativo. “De maneira geral o efeito é negativo. Mesmo que seja um influencer bem-intencionado, não é igual a um veículo de notícia.” Fisher avalia que o nível de desinformação gerado no TikTok vai muito além do que já foi visto nas outras redes, e alerta para os riscos de crianças e jovens utilizarem a rede como principal fonte de informação: “Os mais jovens que leem notícias apenas no TikTok não chegam nem perto da verdade. O ódio à imprensa é muito intenso por lá e essas pessoas estão sendo ensinadas a nunca mais ler jornal ou assistir notícias.”

 Pedro Tavares

É estagiário de jornalismo na piauí

segunda-feira, 4 de dezembro de 2023

Pearl Harbor e a sinistra retaliação

Prólogo
Pearl Harbor foi um dos motivos da retaliação estadunidense que culminou com as bombas em Hiroshima e Nagazaki. A diferença sinistra foi que os alvos japoneses eram militares e os alvos estadunidenses eram civis. Em Hiroshima e Nagazaki morreram de 250 a 300 mil pessoas (crianças, velhos e velhas e adultos) em duas semanas.

Pearl Harbor e kamikazes: como foram os ataques do Japão na Segunda Guerra?

Alexandre Saconi, UOL, 03/12/2023

USS Arizona após ataque surpresa em Pearl Harbor em 1941: ofensiva japonesa marcou a entrada dos EUA na guerra Imagem: Governo dos EUA/Domínio Público

No dia 7 de dezembro de 2023, completam-se 82 anos do ataque em Pearl Harbor. Em plena Segunda Guerra Mundial, o Japão lançava uma forte ofensiva contra a frota dos Estados Unidos no Pacífico, fazendo com que o país mergulhasse de vez no conflito.
Nos anos seguintes, ganharam forma os ataques chamados de kamikazes, onde pilotos japoneses se sacrificavam lançando os próprios aviões contra os alvos inimigos, culminando com o lançamento das bombas atômicas sobre o país asiático e marcando o fim da guerra.

Histórico do conflito EUA x Japão

Durante meses, Japão e EUA negociavam sobre o futuro da região do Pacífico. Em meados de 1941, os norte-americanos acabaram cortando relações com os japoneses.
Japão se encontrava em guerra contra a China desde a década anterior. EUA apoiavam os nacionais chineses, e o corte de exportações de produtos vitais para a guerra, como ferro e petróleo, atingia profundamente o Japão.
A frota naval do Pacífico dos EUA estava na região de Pearl Harbor, no Havaí, desde 1940. No dia do ataque, grande parte dos navios estava atracada, e muitos militares estavam fora de suas posições nas embarcações.
Os países não conseguiram firmar um acordo até o dia fatal, e a operação era iminente.

O primeiro embate

Na manhã de 7 de dezembro de 1941, os japoneses iniciaram os ataques contra Pearl Harbor. Pouco mais de 350 aviões foram usados na ofensiva, que começou antes de uma declaração de guerra formal. Diversos tipos de aeronaves estavam presentes. Desde caças até bombardeiros e aviões torpedeiros.
Poucos aviões dos EUA restaram operacionais no momento. Mais de 320 aeronaves norte-americanas foram destruídas ou seriamente danificadas. Navios também sofreram baixas. Ao todo, cerca de 20 embarcações foram afundadas ou sofreram danos estruturais graves.

Milhares morreram. Ao todo, mais de 2.400 pessoas foram mortas nos ataques em Pearl Harbor. Outras 1.200 ficaram feridas, marcando a entrada definitiva dos EUA na guerra. A partir desse momento, a disputa entre os dois países resultou em uma escalada no conflito. Nos anos seguintes, ocorria a formulação de novas estratégias ofensivas, incluindo voos suicidas.

Os kamikazes

A palavra kamikaze significa "vento divino". Esse termo tem origem no século 13, quando um furacão dispersou uma tentativa de invasão mongol ao Japão, que acabou levando esse nome.
Os kamikazes eram pilotos que jogavam seus aviões deliberadamente contra alvos inimigos para destruí-los. As aeronaves eram carregadas, geralmente, com mais combustível e artefatos explosivos para aumentar o dano no impacto.

Familiares dos kamikazes mortos recebiam um diploma. Ele é considerado por muitas pessoas como um título de glória, um verdadeiro reconhecimento pelo ato tido como heroico em defesa de seu país.
O ataque a Pearl Harbor não contou com a presença explícita daqueles que passariam a se chamar kamikazes nos anos seguintes. Entretanto, uma prática de sacrificar a vida jogando o próprio avião contra os inimigos já existia. Isso acontecia quando a aeronave era atingida e não conseguiria voltar em segurança. O ato evitaria que o piloto fosse capturado e torturado, além de aumentar o dano causado aos inimigos.

As batalhas dos kamikazes


 
 Porta-aviões USS Bunker Hill após ser atingido por dois aviões kamikaze em 1945 Imagem: Governo dos EUA/Domínio Público

Os kamikazes lutaram em várias disputas na Segunda Guerra Mundial. O principal conflito envolvendo esses pilotos foi a Batalha do Golfo de Leyte, em 1944. A partir dali, seu uso organizado se tornaria mais intensivo. O conflito mais letal envolvendo kamikazes foi a batalha de Okinawa. Naquele momento em 1945, 5.000 militares dos EUA morreram após ataques japoneses, incluindo aqueles feitos por aviões kamikazes.

Estima-se que cerca de 3.900 pilotos kamikazes tenham morrido em ataques. Aliados contabilizariam um total de 6.190 mortes e 8.760 feridos nessas ofensivas.

Não dava para abortar a missão

Entre os vários tipos de aeronaves, pilotos poderiam voar em uma espécie de míssil apelidado de baka. Um era o Yokosuka MXY-7 Ohka (Flor de Cerejeira). Ele era acoplado em um avião, que o lançaria de uma altura de 7,5 km. Uma vez dentro dele, os pilotos não tinham como sair, pois os bakas ficavam presos na barriga dos aviões até o momento do ataque.

Lançamento era feito a dezenas de quilômetros de distância. Os pilotos planavam nesses mísseis suicidas a até cerca de cinco quilômetros de afastamento dos alvos, momento em que acionavam foguetes que os faziam atingir velocidades superiores a 900 km/h.
Carga explosiva no nariz da aeronave pesava mais de uma tonelada. O impacto nos alvos inimigos era garantido pela presença do piloto a bordo, que guiava a aeronave até o seu destino. Geralmente, o treinamento era rudimentar, sendo apenas o necessário para que conseguissem guiar as aeronaves até o impacto.

Outra aeronave muito utilizada nesse tipo de ataque foi o Mitsubishi A6M2 Zero. Segundo a Força Aérea dos EUA, esse modelo foi o mais utilizado nos ataques suicidas, mais que os bakas.
As disputas culminaram no lançamento das bombas atômicas em 1945. Os ataques dos EUA ao território japonês marcaram o fim da Segunda Guerra Mundial.


Fontes: Enciclopédia Britannica, National Interest, Museu da Força Aérea dos EUA, Museu Nacional da Segunda Guerra Mundial dos EUA, Museu Nacional do ar e do Espaço Smithsonian, Almanaque da Folha.
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Mais fontes

O Que Aconteceu com os Corpos Logo Após a Explosão da Bomba de Hiroshima? 

Bombas atômicas no Japão: Veja como foi o lançamento

HIROSHIMA DEPOIS DA BOMBA

Hiroshima, 1953, Hideo Sekigawa . No catálogo do streameng FILMICCA

Oppenheimer & Einstein e Hiroshima & Nagasak

Benjamin Labatut, MANIAC, Todavia, tradução de Paloma Vidal, 2023

sábado, 2 de dezembro de 2023

Música sertaneja e o racismo

'Casa-Grande e Senzala' e os mestiços da música sertaneja

Para a pauta indenitária atual, a negritude tornou-se tema central, daí a justa busca por negros entre os sertanejos. 

Gustavo Alonso, FSP, 01/12/2023

Em dezembro deste ano celebram-se 90 anos da publicação do clássico "Casa-Grande e Senzala", de Gilberto Freyre, lançado em 1933. Trata-se de um livro interessantíssimo para se pensar a miscigenação nacional e a música sertaneja, tema desta coluna.

Em recente reportagem do jornal O Globo, vários especialistas acusaram a música sertaneja de ser racista pela baixa quantidade de artistas negros. Para a pauta indenitária atual, a negritude tornou-se tema central, daí a justa busca por negros entre os sertanejos.

Retrato da dupla sertaneja Chitãozinho & Xororó, que completa 50 anos de carreira - Folhapress

A reportagem de O Globo lembrou de alguns negros sertanejos e caipiras: João Paulo (da dupla com Daniel), Rick (da dupla com Renner), Kleo Dibah, Tião Carreiro, Cascantinha & Inhana, Pena Branca & Xavantinho, João Mulato, Irmãs Barbosa e Thácio —exímio violeiro da dupla com Lucas Reis. Faltou lembrar-se de Adauto Santos, outro ícone da música rural, hoje esquecido.

Será que Freyre concordaria com o veredito de que há poucos negros na música sertaneja? O pernambucano talvez preferisse buscar mestiços em vez de negros nesse gênero musical, pois quase todos os que atualmente são chamados de negros, na verdade, são mestiços. Afinal, embora haja negros retintos e brancos azedos no espectro colorístico nacional, impera o hibridismo, especialmente nas camadas populares.

Em época de hegemonia de identitarismo birracial, o pensamento miscigenado de Freyre virou vilão. Quiçá nenhum outro livro serviu tanto de espantalho para a nossa época quanto o clássico do pernambucano. No entanto, uma releitura atenta e crítica de "Casa-Grande e Senzala" nunca se mostrou tão necessária. Desde que foi publicado, a obra conquistou rapidamente o status de clássico. Ele vinha a contento dos interesses da sociedade brasileira em metamorfose. A tese do pernambucano nos mostrava como um povo único, incrivelmente plástico diante das estruturas, relativizador das duras relações coloniais.

Freyre buscava a especificidade nacional, nossa contribuição à civilização humana. Para isso nos mostrou um passado que, apesar de toda a crueldade do encontro de raças, também nos fez únicos. Por meio de "Casa-Grande e Senzala" pudemos nos enxergar como um povo híbrido, mestiço por excelência, algo cada vez mais dissonante aos ouvidos de hoje.

Há muitos exageros e imprecisões na escrita ensaística de Freyre que devem e precisam ser apontados. Desde os anos 1950 não faltaram críticos do livro a explorar suas limitações. Apesar disso, sua tese ainda permanece importante: devemos nos compreender como um país hegemonicamente mestiço, no qual a bipolaridade negro/branco só faz sentido se matizada em muitos aspectos, ponderada em várias gradações e tonalidades e, sobretudo, contextualizada.

A realidade brasileira é, aos olhos de Freyre, muito diferente do birracialismo americano, onde impera a dicotomia branco/negro. As atuais pautas identitárias vêm tentando encaixar o Brasil neste molde americano, mas nossa realidade escapole a todo instante.

Talvez por seguir a forma americanizada de enxergar nossas relações raciais, a reportagem de O Globo tenha se esquecido de alguns mestiços brasileiros —alguns até no nome, como João Lucas & Marcelo, Pardinho (da dupla com Tião Carreiro), Zé Mulato & Cassiano e Gabriel Vittor, da dupla Us Agroboys. Mais grave, o silêncio sobre três ícones mestiços da música sertaneja chama a atenção: Zezé Di Camargo e a dupla Chitãozinho & Xororó.

Temos dificuldade de enxergar a miscigenação nestas estrelas sertanejas, viciados que estamos na lógica birracial. Se há poucos "negros" na música sertaneja, também há outro fenômeno bastante notável em nosso olhar: o apagamento de sertanejos mestiços bem-sucedidos de nosso imaginário.

Em mais de 15 anos de pesquisa sobre a música sertaneja, nunca vi ninguém se perguntar se Zezé Di Camargo é mestiço. Não seria Zezé um mulato claro? A reportagem de O Globo sequer considerou a possibilidade. Por sua vez, o movimento negro parece pouco interessado em saber se Zezé é negro. Como hoje em dia a palavra mulato foi proscrita do vocabulário identitário, restaria ao sertanejo ao menos a negritude. Zezé é negro?

E o que dizer de Chitãozinho & Xororó? Os irmãos paranaenses têm clara ascendência indígena, mas dificilmente conseguimos enxergar essa origem na dupla. Ilustrativa dessa nossa miopia é o fato de que dificilmente Chitãozinho & Xororó entrariam por cota em qualquer universidade brasileira. É comum as universidades cotistas pedirem àqueles que pleiteiam cotas indígenas, além da autodeclaração, uma carta de recomendação emitida por liderança local, normalmente uma personalidade ou um ancião reconhecido.

Também vale o Registro de Nascimento Indígena (Rani), documento emitido pela Fundação Nacional do Índio (Funai). Ou seja, tem que ser amigo do cacique, do pajé ou da burocracia estatal para ser considerado indígena em nossas universidades.

Por que é tão difícil vermos estes mestiços na música sertaneja? Em parte isso se deve ao fato de que as pautas raciais quase nunca foram importantes para os próprios artistas. Em parte se deve às cirurgias plásticas, às maquiagens e ao envelhecimento, que tendem a suavizar traços da mestiçagem, embranquecendo-os.

O enriquecimento também dificulta: estamos acostumados a ver a riqueza como sinônimo da branquitude. O fato de Chitãozinho e Zezé terem apoiado o fascista Bolsonaro tampouco coopera. Para movimentos identitários de esquerda é dificílimo reconhecer que negros e indígenas possam não ser "progressistas".

No fim das contas, a mestiçagem é apagada diante de nossos olhos. Hesitamos em aceitar o hibridismo nacional. A tese de Gilberto Freyre vive. Ainda temos dificuldade de nos ver no espelho.

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Entenda como história da música caipira e sertaneja no Brasil foi marcada por embranquecimento dos ritmos e das imagens. Como mudar esse cenário?

Por Marília Neves, g1, 17/11/2023 

João Paulo, Rick e Kleo Dibah — Foto: Reprodução/Instagram

O sertanejo domina a lista de músicas mais tocadas nos rádios e plataformas de streaming há alguns anos. Contudo, esses rankings raramente têm artistas negros.

Desde 1996, o top 10 de músicas mais tocadas do ano nas rádios não conta com um representante negro do sertanejo. Naquele ano, João Paulo e Daniel apareceram na terceira posição com "Estou apaixonado". Um ano antes, a dupla estava na sexta colocação com "Eu me amarrei".

Em 1997, João Paulo morreu em um acidente de carro. Anos depois, Daniel fez diversas revelações sobre o preconceito que assistiu de perto com João Paulo. Incluindo a constante sugestão para que o cantor trocasse de dupla antes de eles estourarem. "Sugeriram que o Daniel se juntasse ao Marcelo Aguiar -- que era cantor também, foi deputado, e hoje tá na igreja -- lá no começo porque eram dois bonitinhos branquinhos e fazia mais sentido", contou, ao g1, o jornalista André Piunti, especialista em música sertaneja.

Rick, parceiro de Renner, revelou que passou por muitas situações de racismo. "A gente viveu situações delicadas. Eu vivi, sim, situações de preconceito", disse o cantor no canal de Piunti no YouTube, citando o dia em que uma fã foi ao show da dupla e pediu uma foto para Renner. Na hora em que o cantor chamou Rick para se juntar ao clique, a mulher disse "que não gostava de negros". Renner partiu em defesa do amigo e, então, recusou o pedido da foto.

Rick ainda relembrou uma história vivida e relatada a ele por João Paulo, na qual o clube da elite de uma cidade contratou o show de João Paulo e Daniel. "O cara comprou um show, mas ele não os conhecia. Na época, não tinha tanta imagem, não divulgava tanto. E quando João Paulo e Daniel chegaram, o cara falou que se tivessem falado que tinha um negro na dupla, ele não teria comprado."

Rick é um dos poucos nomes negros na música sertaneja atual ao lado de outros como Kleo Dibah e Thácio (dupla de Lucas Reis). Ao longo da história da música caipira e sertaneja, outros artistas aumentaram essa lista: Tião Carreiro, Cascatinha & Inhana, Pena Branca & Xavantinho, João Mulato e as Irmãs Barbosa. "Ainda que existam representantes negros, a proporção é pequena dentro um cenário majoritariamente branco. Mas por que essa lista é tão pequena? Sempre foi assim ou algo mudou ao longo dos anos?"

Em um artigo sobre "a música sertaneja e o enigma racial brasileiro", Marcos Queiroz levantou a hipótese de que o sertanejo teve que "embranquecer" para se nacionalizar. Marcos é professor do Instituto Brasiliense de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP) e membro do Centro de Estudos em Desigualdade e Discriminação — CEDD/UnB, do Maré.

O g1 conversou com especialistas que falaram de outros motivos que explicam a minoria negra na música sertaneja brasileira:

o apagamento das raízes negras da música sertaneja;

o embranquecimento gerado pela modernização da música sertaneja;

a falta de representatividade – sem estrelas negras, os mais jovens não têm em quem se espelhar e não se reconhecem no ritmo.

1) Apagamento das raízes negras

João Mulato, Tião Carreiro, Irmãs Barbosa, Pena Branca e Xavantinho e Cascatinha e Inhana — Foto: Reprodução

"Para Luiz Antonio Guerra, doutor em Sociologia pela Universidade de São Paulo, a ausência de nomes negros na música sertaneja é reflexo do apagamento das raízes negras da música caipira. E esse cenário não é atual."

"Isso vem lá de trás. Vem lá da música caipira, na verdade, que sempre foi marcada por um esquema de modernização. Desde 1929, com Cornélio Pires, ela está entre esses polos do caipira, da tradição e da modernização", afirma o professor. Em sua tese de doutorado, ele analisou o desenvolvimento histórico e social da viola e cultura caipira.

Luiz explica que, nesse processo de modernização e de segmentação dos gêneros da música popular brasileira, a música caipira começou a receber apoio da intelectualidade paulista na década de 1930. A partir daí, ritmos que faziam parte de sua história e que são heranças africanas (como o lundu, o moçambique, a congada, o jongo e o samba) foram sendo apagados, deixando os traços da moda de viola, do cururu e o cateretê.

"Antes, tudo era música regional, música sertaneja. E esse processo de segmentação vai falando: 'ah, isso aqui é da música caipira, isso aqui é samba, isso aqui é nordestino'. Vai dividindo. No começo da fonografia caipira, estava tudo misturado ainda. Essas expressões musicais negras acabam ficando como se fosse do samba carioca ou da música nordestina em toda sua variedade."

"Essa musicalidade que estava presente nas comunidades caipiras não foram capazes, dentro desse processo de mediação da indústria fonográfica, de se tornar subgêneros da música caipira e, depois, da música sertaneja."

Segundo Luiz, essa segmentação musical se torna um obstáculo para as pessoas negras. "É mais difícil elas alcançarem a fama, vamos dizer assim. Conforme vai se tornando uma música sertaneja mais modernizada, mais nacionalizada, mais prestigiada, mais rica, como tudo na sociedade brasileira, vai se colocando obstáculos para essa população negra acessar esses espaços."

André Piunti reforça a tese do professor: "Se você for buscar lá a origem da música caipira, dos ritmos que a formaram, eram batidas influenciadas por portugueses, por indígenas e por negros africanos que vinham para cá. E aí no começo da música como música caipira, eles vão sendo tirados à medida que a música vai ficando pop."

"A indústria vai trazendo a música sertaneja para dentro e vai colocando a imagem do negro de fora. Alguns apareceram, mas a proporção é bizarra."

2) Obstáculos na indústria fonográfica

Discos da carreira de Tião Carreiro — Foto: Reprodução/TV TEM

Para Piunti, a modernização e a indústria fonográfica estão entre as culpadas pelo embranquecimento do sertanejo. "Quando a música passa a fazer parte da indústria que coloca o LP na gôndola da loja, que leva o artista para as televisões, ou que faz a dupla rodar fisicamente para conhecer os locais, as gravadoras e alguns executivos já cortavam por serem negros."

O jornalista ainda contou a história que ouviu de um artista, que prefere não ser identificado, relatando que "a moça da gravadora falou que 'não dava', assim nesses termos mesmo, para colocar dois 'neguinhos' na capa de um disco e vender numa loja."

Um caso interessante é o da dupla Cascatinha & Inhana. Na década de 1950, o som era mais importante do que a imagem. "Com certeza, muita gente que consumiu 'Índia' e 'Meu Primeiro Amor', em 1952, ouviu muito sem saber a cara deles."

Doutor em Sociologia pela Universidade Federal de São Carlos e professor da Universidade Estadual de Mato Grosso do Sul, Rogério da Palma também fala sobre as mudanças geradas ao longo do processo de modernização e profissionalização da música.

"É importante pensar como a modernização da indústria musical, na qual a imagem do cantor é cada vez mais explorada, abriu novos caminhos para a reprodução das desigualdades raciais. O racismo possui uma dimensão estética", analisa Rogério, que é autor do livro "Racismo e Liberdade: relações inter-raciais e a construção da (sub)cidadania negra".

"Modernizar e desenvolver sempre foi, mesmo que muitas vezes de maneira implícita, sinônimo de embranquecimento", completa o professor. Dentro disso, Luiz Antonio Guerra relembra que mesmo ícones negros do início da música caipira e sertaneja, a exemplo de Tião Carreiro, passaram por um branqueamento para terem suas imagens divulgadas em capas de disco.

"Você vai ver eles, vamos dizer assim, menos negros, muito entre aspas, na imagem que é passada na capa dos discos do que na que você vê deles ao vivo. É um processo racista que já existia na indústria fonográfica há um tempo."

3) 'Sertanejo é antimilitância'

A dupla Lucas Reis e Thacio — Foto: Divulgação

Para Marcos Bernardes, o Marcão do portal Blognejo, Tião Carreiro era um dos maiores ícones da música sertaneja e não fazia nenhum discurso em defesa dos negros. "Ao contrário, ele cantava músicas que de certa forma tratavam o negro de forma pejorativa. Um dos grandes sucessos do Tião Carreiro, 'Preto de alma branca', é uma das músicas que mais fala de forma velada sobre o racismo. Só o título da música já é racista."

"Não existia um discurso antirracista no sertanejo. A maioria das músicas falavam dessa forma dos negros. Tratavam como um racismo velado. Então eu acho que os próprios negros na música sertaneja não viam a importância deles nesse ponto."

A ausência desse discurso segue até hoje. Segundo Marcão, se algum artista tentar um movimento inverso, muito provavelmente não será aceito pelo mercado do estilo: "O sertanejo é totalmente antimilitância. Qualquer tipo de militância encontra barreiras no sertanejo."

"Qualquer tipo de movimento que tenha pouco espaço no sertanejo e que exista um certo preconceito ao longo dos anos só vai se consolidar quando abandonar militância. Não adianta tentar emplacar nada de movimento, porque o sertanejo vai ver isso com péssimos olhos."

Os cantores sertanejos Junior Marques, David Henrique e Diogo Henrique — Foto: Reprodução/Instagram

Para Marcão, o que poderia mudar esse cenário é o famoso "acertar uma música", que é quando uma canção se torna um hit e estoura. "A música é sempre mais importante do que a imagem do artista. Alguns artistas não se tocam disso. A maioria dos artistas do top do Brasil não são tão presentes nas mídias em geral."

"O artista negro dentro do sertanejo, na hora que acertar o repertório, que acertar na veia, que começar a render, pode ser que dê certo. A galera esperou muito isso com Kleo Dibah. Infelizmente, não aconteceu", analisa.

"Mas aconteceu com João Paulo e Daniel, que na hora que acertou, consolidou. Aconteceu com Rick e Renner. Pena Branca e Xavantinho acabou se tornando um ícone cultural porque tiveram uma importância não só no sertanejo, mas quando eles regravaram 'Cio da Terra', por exemplo, eles foram abraçados pela MPB."

Para Piunti, a concorrência segue injusta. "Passando tempos em Goiânia, eu vejo que tem [negros tocando em bares e baladas]. Só que o problema é a proporção. Não é 10 pra 1. É 50 pra 1. Então é mais um concorrente ali. Aí fica muito cruel."

Para ele, o "sertanejo precisa da sorte de um aparecer para puxar uma fila". "Como a gente deu sorte da Marília aparecer e, aí, veio uma galera junto". A cantora, que morreu em 2021, encabeçou um time de mulheres e o movimento feminejo, após décadas de preconceito contra mulheres dentro do sertanejo.

A afirmação de Piunti levanta o ponto da representatividade, já abordado pela atriz e produtora fluminense Jeniffer Dias, quando ela interpretou a cantora sertaneja Thamyres, na série "Rensga hits!", em 2022. "A gente não está acostumada a ver sertanejo preto. Então eu não tinha muito isso de escutar sertanejo porque não me representava muito", lamentou Jennifer.

Alguns nomes de artistas negros em ascensão que estão em destaque atualmente no cenário sertanejo são os cantores Junior Marques, David Henrique e Diogo Henrique. Junior, aliás, já cantou algumas vezes ao lado de Gusttavo Lima, incluindo algumas edições do festival "Buteco".

"Tenho certeza que vindo um, vai ter muita gente interessada que está escondida", diz Piunti. "O jeito de melhorar é cair uma Ana Castela, por exemplo, do nada. E aí, eu acho que bateria no lance da representatividade e conseguiria abrir um mundo diferente, um caminho diferente para você ter negros como tem em qualquer tipo de música."




sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Repara bem no que não digo

Abel Ferreira em fase Paulo Leminski: repara bem no que não digo

Milly Lacombe, UOL, 01/12/2023

Leminski segue sendo das vozes mais lúcidas para resumir a vida em versos. "Repara bem no que não digo" é uma de suas frases mais pertinentes. Tem coisas que dizemos em silêncio. Dizemos nas pausas. Dizemos com o corpo, com as mãos, com os olhos, com suspiros.

Abel Ferreira estaria se despedindo do Palmeiras? Eu acho que sim. Acho que o treinador entendeu que encerrar esses três anos absurdamente vitoriosos com mais um título, com mais uma arrancada e com mais uma glória seria de bom tom.

Quem sai por cima no futebol? Poucos. Pouquíssimos. Abel sairá. Sairia - deixemos assim para não atrair a fúria de quem o ama e quer que ele fique. Se sair, prevejo que Abel saia chutando para os lados. A imprensa. As críticas. As avaliações injustas. O Brasil. A torcida exigente. O calendário. Os gramados. Em parte, terá razão. Em outra, não terá.

Coloquemos as coisas no lugar: Abel é craque e mudou o futebol brasileiro para sempre. Chegou com novos métodos de treinamento, de seriedade, de estudos, de colocar a ciência pra jogo. Construiu em meses um time campeão e uma força bruta raras vezes vistas no futebol. Chamo o seu Palmeiras de a terceira academia. Uma Força Bruta, assim com maiúsculas mesmo, inédita. Foi imenso esse Abel e uma estátua deve ser erguida em seu nome.

Mas Abel cansou. Cansou de ser criticado, de explicar o que julga que não temos capacidade de entender, de coletivas. E justo agora o Qatar parece chegar com um volume de dinheiro que fica até difícil entender cognitivamente de quanto se trata.

Talvez Abel saia sem ter compreendido o que é o Brasil. Nossa história, nossas cicatrizes, a origem de tanta violência, os motivos para que haja essa quantidade de jogadores que chega ao clube sem ter amadurecido, as histórias dos que são arrimo de família, a pobreza, a delinquência. Da onde vem tudo isso? Por que esse país é assim?

Mais de uma vez ele disse com orgulho que era europeu. No Brasil verdadeiro, o Brasil que acorda cedo e dorme tarde, que passa horas em transporte público, que a despeito da dureza da vida segue fazendo festa porque alegria é uma forma de resistência, ser europeu não diz nada e não é motivo de orgulho. Esse discurso tem eco nas elites brasileiras, que se julgam europeias e superiores. Nessa, Abel não fez golo nenhum.

Mas ele deixa uma herança poderosa. Um livro que precisa ser lido por muitos. Um tipo de paixão que deveria ser mais corriqueira. Trabalho, disciplina, entrega, ciência, seriedade: elementos que o futebol brasileiro tende a negligenciar.

Parece que agora Abel vai levar sua mentalidade europeia e sua equipa de trabalho para o Oriente Médio. Não ouviremos falar muito dele se esse for seu trajeto. Ninguém liga para o Qatar, muito menos para o inexistente futebol do Qatar. Mas dinheiro tem de sobra e não posso julgar quem topa passar um ano por lá e garantir o resto da vida de três ou quatro gerações de Ferreiras.

No final, já de saída e rumo ao Qatar, Abel poderia, da janelinha do jatinho que o levará a Doha e olhando para a cidade que o acolheu como um dos maiores treinadores que já vimos por essas bandas, citar outro verso de Paulo Leminski, um de nossos poetas mais geniais: "haja hoje para tanto ontem".