domingo, 7 de julho de 2019

Serra Pelada e o desastre ambiental

SEBASTIÃO SALGADO NA AMAZÔNIA
Serra Pelada: Em 1979, a descoberta de ouro no interior do Pará arrastou multidões de sonhadores para aquela que foi a maior mina a céu aberto do globo; da saga resultaram um buraco na terra arrasada, a mineração clandestina em área indígena e este documento visual que comoveu o mundo
40 anos depois de Serra Pelada, garimpo é fonte de conflito e devastação

'Formiga', trabalhador cuja função é carregar saco de até 40 kg, 
chega ao alto da mina via escada batizada de 'adeus, mamãe', em imagem de 1986 na Serra Pelada


Leão Serva, Folha de São Paulo, 07/07/2019

SÃO PAULO - Tudo aconteceu há 40 anos. Uma criança encontrou uma pedrinha dourada na beira de um riacho, em uma fazenda no interior do Pará. O pai levou o achado ao dono da terra, que enviou a pedra à cidade de Marabá para ver se o que reluzia era mesmo ouro.
Garimpeiros dizem que nada é mais rápido do que fofoca de ouro. Era o final de 1979. Junto com a confirmação da pepita descoberta à flor da terra, na região de Carajás, já chegaram de Marabá alguns garimpeiros. Em poucos dias, muitos outros.
O dono da terra tentou controlar o processo atribuindo a alguns homens a exclusividade da exploração e cobrando 10% do ouro extraído. Mas, em dias, eram milhares de garimpeiros, em meses, dezenas de milhares, e, em um ano, pelo menos 50 mil.
Por dez anos, Serra Pelada foi a maior mina a céu aberto do mundo. Quando a febre terminou, em 1990, houve migração de homens para Roraima, na terra yanomami. Lá, hoje, a mineração ilegal é foco de instabilidade e devastação e reúne cerca de 20 mil garimpeiros, segundo lideranças indígenas.
Duas semanas atrás, um soldado perdeu parte da mão em um confronto com garimpeiros. A Funai anuncia a abertura de postos fixos de vigilância na próxima quinzena. Garimpo e devastação andam juntos: o surgimento de Serra Pelada coincidiu com a intensificação do desmatamento no Pará, que desde os anos 1980 perdeu uma área de floresta equivalente ao estado do Ceará.
Desde o começo, os pioneiros do ouro de Carajás dividiram entre si a área sobre uma colina de 150 metros e a desmataram para cavar. Cada lote tinha 2 x 3 metros. Surgiu assim o nome que se tornaria conhecido em todo o planeta: Serra Pelada.
Ao longo dos anos, a colina foi dando lugar a um buraco com 200 m de profundidade e 200 m de diâmetro. Levantamentos do governo no início dos anos 1970 já apontavam aquela como uma região mineral rica. Tudo estava reservado para a então estatal Companhia Vale do Rio Doce. Quando a empresa quis retomar o controle, percebeu que seria impossível fazê-lo sem o uso de forças de segurança.
O governo do general João Figueiredo (1979-1985) enviou então ao local, como interventor, o major Curió, apelido de Sebastião Rodrigues de Moura, que tinha participado da repressão à Guerrilha do Araguaia. O militar chegou no início de 1980. Prometeu aos garimpeiros que a Vale não os expulsaria e extinguiu o dízimo cobrado pelo fazendeiro. Virou herói. Em contrapartida, delimitou uma grande área em torno da mina em que proibiu o porte de armas, a presença de mulheres e o consumo de álcool. Também obrigou que todo o ouro fosse vendido ao posto local da Caixa Econômica, que pagava à vista, mas abaixo do preço de mercado.
A repressão no centro de garimpo fez surgir a 30 quilômetros de distância a Vila Trinta, às margens da rodovia PA-175. O que Curió proibia na mina era livre ali. “De dia é 30, de noite é 38”, era a referência aos constantes tiroteios na vila. Bebidas e prostituição seguiam preços praticados em boates de luxo no Rio e em São Paulo. Em meados de 1980, Curió decidiu organizar a Vila Trinta também, assumindo a função de “prefeito”.
O governo militar fez passar no Congresso uma indenização de cerca de US$ 55 milhões para a Vale do Rio Doce, que estava pressionada por acionistas minoritários. Com isso, os direitos de mineração ficaram com a cooperativa dos garimpeiros. Em dez anos, uma quantidade impressionante de ouro saiu da mina - os cálculos chegam a mais de 100 toneladas, sem contar o contrabando. O Brasil, que fora o maior produtor do metal entre 1750 e 1850, voltou ao ranking graças à Serra Pelada.
Na segunda metade dos anos 1980, porém, a produtividade começou a cair. Em 1989, foram só 13 quilos, insuficientes para sustentar milhares de homens e manter equipamentos, como bombas que drenavam água no fundo da cratera. Em 1992, o então presidente Fernando Collor decidiu cancelar a concessão aos garimpeiros e fechar o local. Serra Pelada virou o alvo de disputas judiciais entre garimpeiros e mineradoras.
Com as bombas desligadas, o lençol freático inundou o buraco, formando um reservatório com mais de 600 mil metros cúbicos de água, algo como 250 piscinas olímpicas. Devido à poluição por mercúrio, no entanto, o lago não pode ser aproveitado nem para a criação de peixes.
Sebastião Salgado fotografou Serra Pelada em 1986, ao iniciar a documentação sobre o fim do trabalho manual, no seu projeto “Trabalhadores”. As imagens que captou, publicadas na Europa no final daquele ano, causaram grande repercussão. Cerca de 30 fotos foram editadas, e os demais negativos, arquivados.
Agora, aos 40 anos da descoberta do ouro, Salgado e a mulher, a curadora Lélia Wanick, reeditaram os originais. A nova seleção será exposta a partir de 17 de julho no Sesc Paulista, em São Paulo, onde também vai ser lançado o livro “Gold”, impresso em diferentes línguas para distribuição mundial pela editora Taschen.

Detalhe da subida de trabalhadores pela encosta da mina de ouro de Serra Pelada, no interior do Pará


Mina de ouro parecia formigueiro caótico, mas era um sistema bem organizado

A impressão que se tem ao olhar as fotos de Serra Pelada é de um formigueiro de gente em uma confusão absoluta. Mas no caos aparente havia uma ordem minuciosa. “Logo aprendi que aquilo que à primeira vista parecia um movimento desordenado era, na verdade, um sistema muito sofisticado, no qual cada um dos mais de 50 mil trabalhadores sabia que papel havia escolhido desempenhar”, explica o fotógrafo Sebastião Salgado.
Para começar, é possível observar que as paredes da cratera não eram completamente verticais nem lisas. Elas mais pareciam uma composição geométrica, semelhante às gravuras do artista holandês Maurits Escher (1898-1972), com escadas subindo e descendo de pequenos espaços de terra de 2 m x 3 m, do tamanho de uma vaga de automóvel, que se projetavam como se estivessem pendurados na parede. Esses lotes, chamados de “barrancos”, pertenciam aos pioneiros, os garimpeiros que chegaram nas primeiras semanas logo após a descoberta do ouro na região. Eles formaram uma cooperativa, lotearam a mina e sortearam em 1979 e 1980 quem ficaria com qual dos mais de 200 “barrancos”.
Os donos dos lotes contratavam cinco tipos de trabalhadores. O primeiro era o “meia praça”, que definia quem iria escavar um certo local e que recebia 5% sobre o ouro encontrado no lote. Sua roupa estava sempre mais limpa que a dos outros, e ele não portava ferramentas. Todos os demais eram assalariados: o “cavador” era quem rompia o solo com picaretas; o “formiga” levava para fora da cratera os sacos de terra que pesavam cerca de 40 quilos, subindo as escadas apelidadas de “adeus, mamãe”.
Esses trabalhadores eram monitorados pelo “apontador”, que contava quantos sacos subiam e que podia ser visto, com a camisa mais limpa, segurando um caderno de anotações. Fora da cratera, os sacos eram entregues ao “apurador”, que lavava a terra, usando a bateia (bandeja redonda e funda), e depois fazia a separação do ouro usando mercúrio. Por último, era feita a queima do mercúrio, para purificar o metal.
O ouro encontrado era fundido em barras ou pepitas e vendido ao posto da Caixa Econômica Federal a um preço 15% menor do que o praticado no mercado internacional. Quando um barranco produzia ouro, o garimpeiro-empresário ia bem, pagava as contas de seus empregados e embolsava o lucro. Quando passava algum tempo sem conseguir extrair, acabava por tomar empréstimos ou vender participação em seu barranco.
Quem fazia esse papel de banqueiro eram os pioneiros bem-sucedidos ou gente de fora que financiava os donos de lotes em troca de participações nos resultados do trabalho.
Muitos garimpeiros que trabalharam em Serra Pelada repetem ainda hoje uma lenda segundo a qual há, sob a antiga mina, uma laje de 50 toneladas de ouro puro. É um mito. Segundo Felipe Tavares, geólogo que estudou a serra de Carajás em seu doutorado, ali existe mesmo um depósito de ouro, mas está disperso em pequenos traços de rocha. “Tem muito minério, mas não há um modelo de exploração que permita extraí-lo de forma economicamente viável”, diz Tavares, que é chefe da divisão de geologia econômica da Companhia de Pesquisa de Recursos Minerais.
Segundo pesquisadores, há mesmo 50 toneladas de ouro na rocha profunda de Serra Pelada. Mas seria preciso triturar toneladas de pedras e submetê-las a processos químicos para obter alguns gramas do metal. Tavares conta que a Colossus, uma empresa canadense, investiu muito dinheiro em túneis para tentar acessar a rocha sob o lago, e percebeu que precisaria de muito mais para conseguir voltar a extrair algum ouro de Serra Pelada. A empresa acabou falindo em 2014.
O que explica a existência de reservas de ouro tão ricas em alguns lugares do Brasil, como o Pará, é a antiguidade do terreno. “Toda a serra de Carajás, que inclui Serra Pelada, foi formada no período arqueano, entre 2,7 bilhões e 3 bilhões de anos atrás”, diz o geólogo. Nesses lugares, movimentos geológicos podem fazer com que um veio mais antigo aflore e fique exposto. Em Serra Pelada, o ouro aflorou há “apenas” 40 milhões de anos. “Já no final dos anos 1960, os estudiosos sabiam que ali seria uma região rica porque foi encontrada a grande reserva de ferro de Carajás, em 1967. E onde há muito ferro, tende a ter outros minérios também, como ouro”, diz o geólogo.
Embora Serra Pelada tenha se tornado um símbolo, ela não é a maior mina do Brasil. “Na Amazônia, a reserva de Salobo, em Marabá, que vem sendo explorada pela Vale, é muito maior do que Serra Pelada. Ali, o ouro é secundário, o cobre é o principal”, afirma.
Se em Serra Pelada, como em Minas Gerais, o ouro aparece em depósitos subterrâneos profundos, em outros lugares da Amazônia ele está quase na superfície, como na areia das margens dos rios que atravessam a terra dos yanomamis, em Roraima, ou dos mundurukus, no Pará, na bacia do rio Tapajós.
É dessas áreas demarcadas que sai hoje boa parte da produção de ouro do país, extraído de maneira ilegal.

BRASIL FOI O PAÍS QUE MAIS PRODUZIU OURO NO MUNDO ENTRE 1750 E 1850


O Brasil há muito deixou a posição de maior produtor mundial, que ocupou entre 1750 e 1850. No fim do período colonial, com produção de 16 toneladas ao ano, o país extraiu o ouro que financiaria a Revolução Industrial, na Inglaterra.
Com o esgotamento do garimpo de Minas Gerais, perdeu relevância no mercado internacional. A produção nacional só voltaria a crescer depois da descoberta de Serra Pelada, em 1979: em 1980, foram extraídas 40 toneladas; em 1985, 62 toneladas (4,1% do total mundial). A queda da produção em Serra Pelada, na segunda metade dos anos 1980, foi compensada pelo garimpo na área yanomami, o que elevou o total para 80 toneladas em 1990.
O fechamento de Serra Pelada e a expulsão dos garimpeiros ilegais de Roraima, a partir de 1992, derrubaram o volume produzido, que chegou a 38 toneladas em 2005. Com a crise de 2008, o preço do ouro subiu e gerou um novo ciclo de garimpo em vários pontos da Amazônia, como nas áreas dos yanomamis e dos mundurukus.
Essa extração ilegal se refletiu na produção, que foi para 58 toneladas em 2010 e 70 toneladas em 2012, último dado do Instituto Brasileiro de Mineração. Segundo o Conselho Mundial do Ouro, em 2018 foram produzidas 97 toneladas, mais que todo o período de Serra Pelada.

Vaivém na área de apuração, onde era feita a separação de terra e ouro


MULHER SE DISFARÇOU DE HOMEM PARA TRABALHAR EM SERRA PELADA


Marina Cantão é miúda, morena e franzina. No pescoço, leva pendurada uma pequena pepita de ouro. É a memória dos tempos de garimpo, que há muito ficaram para trás. Seu restaurante em Boa Vista, capital de Roraima, o Marina Meu Caso, é apontado na internet como um dos melhores da cidade. Serve quase um só prato e uma bebida: peixe com baião de dois e cerveja. O que falta em variedade gastronômica ela preenche com o principal tempero da casa: suas histórias.
Os casos preferidos são os que ela vivenciou em Serra Pelada. Como uma mulher pequenina conseguiu driblar a proibição imposta pelo poderoso major Curió, apelido de Sebastião Rodrigues de Moura, militar que, ao assumir o controle do garimpo no início de 1980, proibiu mulheres na área? Sua resposta é semelhante à de outras mulheres que furaram o cerco: fazendo-se passar por homem.
Nascida na Ilha de Marajó (Pará), Marina chegou a Serra Pelada para trabalhar em um restaurante. Como milhares de brasileiros, sonhava garimpar e ficar rica. Um dia, morreu um travesti de Goiás, que também trabalhava em um restaurante da região. Marina falsificou a identidade do morto e se pôs a trabalhar no garimpo disfarçada de homem. Logo constatou o que as histórias das corridas do ouro revelam: pouquíssimos ficam ricos e muitos não encontram nada. Quem se dá bem são os fornecedores de serviços essenciais aos trabalhadores.
Marina abriu um restaurante na violenta Vila Trinta, formada a 30 quilômetros do garimpo, e mantinha sempre à mão o revólver que lhe rendeu o apelido de “Goiana do 38” (ela seguia usando a identidade do morto, passando-se por travesti). Quando o ouro de Serra Pelada começou a secar, em 1987, ela partiu em busca do novo Eldorado: as florestas de Roraima.
Com algum dinheiro, voltou ao garimpo, desta vez como empresária, operando na área chamada Paapiú. Controlava uma balsa com vários empregados e equipamentos necessários para o trabalho na margem de rios -bombas para jatear as barrancas, motor para dragar a lama e esteiras para apurar o ouro.
Os ventos viraram quando Collor reconheceu a Terra Indígena Yanomami e expulsou os garimpeiros, em 1992. Marina foi então para a Venezuela -ela diz que não se deu conta de que estava além da fronteira. Em seguida à ação do governo brasileiro, o país vizinho realizou uma série de ações repressivas para impedir a ocupação de suas terras por garimpeiros ilegais. A aventureira perdeu sua balsa em uma blitz e ficou perambulando vários dias pela floresta, até encontrar um outro grupo de garimpeiros, com quem chegou a Boa Vista.
Ao se instalar na capital de Roraima, decidiu com o marido, Boboco, parar com as aventuras e voltar a se dedicar à culinária. Seu primeiro restaurante funcionou em um barco no porto da cidade. Depois, instalou-o em um terreno às margens do rio Branco, onde está até hoje.

O centro do buraco cavado em Serra Pelada, que hoje virou um lago contaminado


Cresce em um ano a mineração ilegal na terra dos yanomamis

BOA VISTA (RR) - Nos últimos meses, a Terra Indígena Yanomami, em Roraima, sofreu uma verdadeira explosão no número de garimpeiros. O total deles passou de cerca de 3.000 a 5.000, no início de 2018, para 15 mil a 20 mil hoje, segundo a Hutukara, entidade que representa os indígenas, e agentes da Funai ouvidos pela Folha.
Desde o início dos anos 1990, quando a terra indígena foi criada e cerca de 40 mil garimpeiros foram expulsos, é a primeira vez que o número de mineradores chega à casa de dois dígitos de milhares. Há hoje na região quase um garimpeiro para cada yanomami brasileiro.
A Funai anunciou que, na segunda quinzena deste mês de julho, iniciará a reinstalação de bases de vigilância permanentes para o combate ao garimpo na terra indígena. A primeira delas será no rio Uraricoera, principal rota de entrada e abastecimento para os garimpos.
No segundo semestre de 2018, o Exército realizou uma operação de combate ao garimpo, implantando bases fixas nos rios Uraricoera e Mucajaí, os mesmos onde a Funai pretende atuar a partir de agora. Após a medida, cerca de 2.000 homens deixaram a área por falta de abastecimento para suas atividades.
A decisão de suspender a operação militar, em dezembro passado, e a eleição de Jair Bolsonaro, que fez da crítica às reservas indígenas uma das plataformas de campanha, foram um sinal verde para os garimpeiros. Desde a posse do novo governo federal, aproximadamente 10 mil novos garimpeiros chegaram à região, segundo os líderes indígenas.
O clima de tensão na área se acirrou no final de junho, quando uma embarcação de garimpeiros resistiu à ordem de parada dada por uma patrulha e arremeteu contra o barco do Exército. No incidente, um militar foi ferido e perdeu parte da mão. Um garimpeiro foi preso.

 'Formigas' com camisas listradas, usadas para que o 'apontador' identificasse o grupo 
que achava um filão de ouro em determinado lote

A nova ação da Funai atende a uma decisão judicial que definia o mês de junho como prazo para o restabelecimento das bases implantadas no início da década e suspensas em 2015 devido a cortes no orçamento. No ano passado, decisão da Primeira Vara da Justiça Federal em Boa Vista, em ação iniciada pelo Ministério Público Federal, determinou que a Funai, a União e o governo de Roraima implantem e mantenham as bases, garantindo o orçamento necessário para seu funcionamento.
Além de um posto na calha do Uraricoera, devem ser implantados em seguida dois outros, um no rio Mucajaí e o terceiro na serra da Estrutura, próximo a um local habitado por um grupo yanomami isolado, chamado “moxihatetea” em língua yanomami. Em julho do ano passado, houve um conflito entre garimpeiros e membros desse grupo.
Os garimpos ilegais têm provocado grande impacto ambiental na área. A concentração de mercúrio no corpo dos moradores se tornou excessiva, e as aldeias localizadas próximas de rios estão sendo levadas a perfurar poços artesianos para evitar o consumo da água poluída. Além disso, os índios têm sido obrigados a evitar o consumo de peixes.
Um estudo publicado pela Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) em 2016 apontou níveis alarmantes do metal na população indígena da Terra Indígena Yanomami. Em algumas aldeias, o excesso do metal no corpo atinge 92% dos indivíduos. O garimpo em Roraima é todo clandestino. Não há uma mina ou lavra oficializada em todo o estado, dentro ou fora de áreas indígenas.
Ao longo dos últimos cinco anos, esse garimpo se tornou mais intenso, profissional e organizado. E, mais recentemente, a atividade se internacionalizou: o órgão do governo federal que acompanha as exportações (Comex) aponta que Roraima exportou 200 quilos de ouro para a Índia desde setembro de 2018, mesmo sem ter minas registradas.
Os sinais de aumento da mineração ilegal são evidentes pelo tamanho da devastação e pelos equipamentos utilizados, como o repórter constatou ao visitar a Terra Indígena Yanomami nos anos de 2014, 2015, 2018 e 2019. Além de causar todos esses problemas, o garimpo também favorece a expansão da malária. A doença ainda está presente em toda a Amazônia, especialmente na periferia das cidades e nas pequenas vilas ribeirinhas. A sua incidência é potencializada com o desmatamento.
Quando se corta a floresta, a população de mosquitos cresce, porque desaparecem seus predadores. Somem também os animais que os mosquitos atacam. Os garimpeiros e os índios, portanto, se tornam os seus alvos. E, ao picar mineradores contaminados, os mosquitos transmitem a doença a outras pessoas.
Quando a malária se espalha, os garimpeiros procuram os postos da Secretaria de Saúde Indígena das aldeias próximas, consumindo os kits de testes e remédios. O órgão que deve cuidar da saúde dos índios acaba, assim, destinando parte de seu orçamento para tratar invasores brancos que levam doença para a área indígena.

 'Formigas' sobem as escadas

SUCESSO DE MAJOR CURIÓ NO PARÁ INSPIROU OCUPAÇÃO EM RORAIMA

Foi tamanha a popularidade do major Curió, o interventor enviado pelo governo à Serra Pelada quando ali explodiu o garimpo, que ele acabou atuando como “prefeito” da Vila Trinta, bairro que os garimpeiros passaram a chamar de Curionópolis. Em 2002, quando a vila se transformou em município -e foi batizada mesmo com o nome de Curionópolis–, o major foi eleito de fato como seu primeiro prefeito.
Segundo a Folha apurou na época, o sucesso em fazer dos garimpeiros uma força popular de apoio ao regime militar entusiasmou generais que, anos depois, quiseram ocupar a chamada Calha Norte da Amazônia. A ideia era afastar o fantasma das invasões estrangeiras e reduzir a porosidade das fronteiras. Muitos militares entenderam que, se o Exército não conseguisse ocupar as fronteiras, os garimpeiros poderiam servir de tropa.

 'Formigas' carregam sacos com terra para fora da mina

Logo no início do governo de José Sarney (1985-89), militares ligados ao gabinete da Presidência decidiram fomentar o garimpo de ouro em Roraima. Baseada em estudos do projeto Radam (Radar da Amazônia), realizado na década de 1970, uma conciliação entre militares, políticos, empresários e garimpeiros desenhou um plano cuja eclosão coincidiu com a decadência de Serra Pelada. Milhares de garimpeiros rumaram, então, para Roraima.
Quando a produção em Serra Pelada atingia o fundo do poço, em 1989, os garimpos no que hoje é a Terra Indígena Yanomami somavam 40 mil pessoas -quase três vezes a população indígena da área. Depoimentos de garimpeiros com 50 anos ou mais contemplam sempre esses dois momentos: a busca do ouro em Serra Pelada, no Pará, e, posteriormente, a corrida para a área dos índios, no estado de Roraima.

TÉCNICA DE ENFERMAGEM GANHA R$ 9.000 POR MÊS COMO COZINHEIRA NO GARIMPO ILEGAL

Antônia, 43, é técnica de enfermagem, mas no garimpo é cozinheira. A experiência em tratar doentes fez tocar rápido seu alarme quando sentiu os primeiros sintomas de malária. Preocupada em fazer o teste para saber que tipo da doença havia contraído -falciparum, mais grave, ou vivax, mais simples–, buscou atendimento no posto médico da Secretaria Especial de Saúde indígena (Sesai), na comunidade Ye’kwana de Waikás, na Terra Indígena Yanomami (Roraima). Ela não quis revelar seu sobrenome.
Nascida em Caititu, no Maranhão, diz que já “rodou a Amazônia inteira”. Na Prefeitura de Marajá do Sena (também Maranhão), ela é concursada e recebia um salário mínimo como enfermeira, mais um adicional por ocupar cargo de confiança. Em 2016, com a mudança do prefeito, perdeu o adicional, e decidiu tentar reforçar o caixa com o bico no garimpo ilegal.
Depois de uma experiência no Suriname, com uma amiga que ganha a vida viajando de barco e vendendo mercadorias aos garimpeiros, Antônia pediu licença no trabalho. Deixou os três filhos -de 24, 21 e 8 anos– no Maranhão e foi para o Tatuzão do Mutum (ou Mutum), onde cozinha para uma equipe de 11 pessoas. Dorme pouco, trabalha muito, mas faz um bom dinheiro, diz. Prepara o café da manhã, almoço, jantar e merenda para os trabalhadores, e só descansa das 22h as 4h. Em seis meses, calcula, deverá ganhar o correspondente a quase seis anos de trabalho na Prefeitura.
Ela recebe R$ 9 mil por mês em gramas de ouro ao preço menor. O salário é líquido: não paga para comer e nem para dormir. “Eu tenho meu rabo-de-jacu lá e durmo”, diz, referindo-se à tenda onde pendura a rede. Recebe assim, a cada mês, cerca de 70 gramas de ouro. Quando consegue que a amiga, que passa oferecendo suas mercadorias no Mutum, leve seu ouro para vender em Boa Vista, aumenta a receita em cerca de R$ 1,3 mil. Isso porque, no garimpo, o ouro vale cerca de 15% menos do que na capital.
Quem paga seu salário é o “chefão”, mas ele fica em Boa Vista, não vai até o Mutum. No garimpo não tem pista de pouso. Os aviões pousam na pista da comunidade indígena, que usam com uma anuência forçada dos índios. “No Mutum, pousa helicóptero. De vez em quando ele baixa lá, para buscar o ouro e deixar dinheiro”.
Agora a malária ameaçava atrapalhar seus planos. Diz que pegou a doença no esconderijo, na selva, onde todos ficaram entocados durante vários dias para fugir a uma das ações policiais de combate ao garimpo clandestino. Conta que nessas oportunidades, levam comida suficiente para 10 a 15 dias, período que conseguem esticar com a caça. Mas todos ficam ainda mais expostos aos mosquitos e, por isso, à malária. “Passamos 12 dias no esconderijo, um total de 15 pessoas, e ninguém nos achou. A gente aguenta o tempo que a polícia ficar na corrutela (a vila) do garimpo, 7, 9, 10 dias”. Enquanto conta a história, mostra a foto de um bicho que fez no celular quando estava escondida na floresta. Uma espécie de gafanhoto que mimetiza direitinho o galho da madeira onde está escondido, ninguém consegue vê-lo. Ela se compara ao inseto.
A malária havia aparecido semanas antes. Sem receita médica, tomou por alguns dias comprimidos comprados na própria vila do garimpo. Sarou, mas a febre voltou e ela não sabia se era a mesma malária, que havia sido mascarada pelos remédios, ou uma nova. Por isso procurou atendimento médico.
Depois de fazer o exame na Sesai, Antônia foi embora. De canoa a remo, levaria cerca de uma hora e meia para chegar ao Mutum, e depois ainda teria que caminhar 15 minutos. Levou uma cartela de remédios para a malária detectada: a vivax, menos agressiva.

A cratera de Serra Pelada dividida em lotes marcados pelas cordas; 
à direita, os lotes pendurados nas paredes de terra, e, à esquerda, os ‘formigas’


Extração de ouro destrói floresta com mercúrio e desmatamento

O garimpo e o desmatamento caminham lado a lado na destruição da floresta amazônica, como fenômenos que se reforçam. A degradação que a mineração desordenada provoca jamais é revertida. Os trabalhadores dessas explorações geram uma demanda por alimentos e por serviços que levam à ocupação e ao desmatamento das regiões do entorno das minas.
Próximo à Serra Pelada, na então vila de Curionópolis, que vivia do dinheiro dos garimpeiros, a população tinha o dobro do total de pessoas envolvidas diretamente na mineração.
O garimpo na área yanomami, em Roraima, que atraiu à região cerca de 40 mil trabalhadores no fim dos anos 1980, provocou à época um crescimento semelhante na população da capital, Boa Vista.
Hoje, muito tempo após o auge do ouro em Serra Pelada, quando 100 mil pessoas trabalhavam direta ou indiretamente na extração do metal, os municípios de Curionópolis e Eldorado dos Carajás têm somados 50 mil habitantes. Parauapebas tem 200 mil.
Os mapas também apontam que a intensificação do desmatamento no Pará coincide com o ciclo do ouro dos anos 1980. Desde aquela época, o Pará perdeu 148,3 mil km² de floresta, segundo o Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o equivalente à área do estado do Ceará.
O final do garimpo em Serra Pelada espalhou homens por outras áreas de mineração na Amazônia. Desde então, Redenção (Pará), as reservas dos índios yanomamis e mundurukus (Roraima e Pará) e a área de Lourenço (Amapá) frequentam o noticiário por conta de problemas causados pelo garimpo, entre eles a ocorrência de trabalho em condições análogas à escravidão. “O garimpo e a devastação andam juntos em toda a bacia amazônica, não só no Brasil. A mineração ilegal é um fenômeno presente em todos os países, o que gera sérios impactos ambientais nesse ecossistema, bem como impactos econômicos e sociais, configurando um cenário de violação tanto dos direitos ambientais das populações que dependem diretamente destes ecossistemas para sua subsistência como dos direitos de todos os habitantes da região que são afetados pela destruição desse patrimônio”, diz Beto Ricardo, coordenador da RAISG (Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada), que reúne cientistas e entidades de vários países da região. Em dezembro passado, a entidade lançou um estudo inédito sobre o que denominou “epidemia de garimpo ilegal” na Amazônia, não só no Brasil mas também nos outros países da bacia.
Em dezembro do ano passado, a entidade lançou um estudo inédito sobre o que denominou “epidemia de garimpo ilegal” na Amazônia, não apenas no Brasil mas nos demais países da bacia amazônica. Os garimpos na calha do rio Tapajós atraíram nos últimos anos milhares de pessoas. Em torno do município de Itaituba, no Pará, por exemplo, existem garimpos há cerca de 50 anos. Mas a mineração ilegal atingiu escala industrial com a elevação dos preços do ouro no mercado internacional, no início desta década.

A CADA ANO, RIO TAPAJÓS RECEBE 7 MILHÕES DE TONELADAS DE DETRITOS

Em 2018, como parte da Operação Levigação, de combate ao garimpo ilegal, a Polícia Federal promoveu um estudo sobre a quantidade de detritos que a atividade vem jogando no rio Tapajós. Segundo o laudo do perito Gustavo Geiser, publicado em setembro, são jogadas nas águas do rio a cada ano cerca de 7 milhões de toneladas de sedimentos com alto índice de mercúrio.
Essa lama tóxica corresponde a mais da metade do que foi despejado na região de Brumadinho, em Minas Gerais, com o rompimento da barragem no início deste ano. Significa que, sozinho, o garimpo na área do rio Tapajós produz uma tragédia como aquela a cada dois anos.
O garimpo clandestino causa essa grande quantidade de dejetos porque é um fenômeno muito raro aparecer uma pepita grande. O normal é que sejam encontrados pequenos traços de ouro em grandes toneladas de pedra ou de terra.
Uma mina industrial, por exemplo, pode ser rentável se obtiver dois gramas de ouro por tonelada de pedra triturada. O mesmo acontece com garimpos nas barrancas dos rios: toneladas de terra são transformadas em lama e jogadas na água para um resultado de alguns gramas de ouro.
Usando bombas, os garimpeiros lançam jatos de água nas barrancas, que se desfazem em represas de lama; em seguida, outras bombas sugam e peneiram a lama em busca das pequenas pedrinhas que poderão conter ouro. Além dessa destruição, os garimpeiros usam mercúrio, um metal pesado, tóxico para os seres vivos e que pode provocar problemas neurológicos e má-formação fetal (a chamada doença de Minamata).
Quando em contato com o ouro, o mercúrio se junta a ele, formando um amálgama. É essa propriedade que o faz útil aos garimpeiros. O processo consiste em separar da terra o cascalho com ouro e passá-lo em uma esteira forrada de mercúrio. O ouro vai grudar no mercúrio, separando-se do cascalho. Depois, o amálgama é colocado em uma placa sobre o fogo. Os dois metais reagem de forma diferente à alta temperatura. Quando o mercúrio atinge 357 ºC, ele se transforma em um gás escuro. Já o ouro nem chega a derreter (seu ponto de fusão é aos 1.064 ºC). Livre do mercúrio que a separou das impurezas, surge uma bela pepita dourada.
O mercúrio que tinha virado fumaça vai condensar e se tornar líquido novamente. Mas, fora do ambiente de laboratório, como nos garimpos, aquela fumaça que se afastou do local vai pingar como mercúrio mais adiante, no mais das vezes no rio ou na água usada para lavar o ouro.

Serra Pelada em 1986


Imagens da febre do ouro chocam o mundo e reabilitam o preto e branco

O fotógrafo brasileiro Sebastião Salgado, que estava exilado na França durante a ditadura militar, só obteve autorização para registrar o que ocorria em Serra Pelada em 1986.
Na época, a cena na fotografia era desfavorável ao preto e branco. Se antes a foto colorida era associada a publicidade e álbuns de família, ela ganhou status depois de 1976, quando o prestigiado fotógrafo norte-americano William Eggleston -antes ele próprio fiel ao preto e branco– fez a primeira grande exposição de imagens coloridas da história do MoMA, o Museu de Arte Moderna de Nova York. Além disso, o mercado editorial se rendia mais e mais à cor, posto que jornais e revistas já podiam ser impressos em cores com mais velocidade e precisão.
O preto e branco parecia destinado ao esquecimento quando, em março de 1987, Neil Burgess, então diretor do escritório de Londres da agência de imagens Magnum, recebeu as fotos de Serra Pelada feitas por Salgado. Imediatamente, ele as levou ao diretor de arte da revista do Sunday Times, referência no jornalismo britânico. A publicação daquelas fotos causou grande impacto não apenas na Europa, mas no mundo.
Vieram outras reportagens que comporiam “Trabalhadores”, o primeiro dos projetos de longo curso que o fotógrafo produziu nas últimas décadas, sempre em preto e branco.
Salgado conta que, ao chegar a Serra Pelada, procurou um conterrâneo de seu pai, um empresário de garimpo e nascido, também, no vale do Rio Doce, em Minas Gerais. A coincidência fez correr entre os garimpeiros o boato de que um estranho “da Vale do Rio Doce” estava ali para espionar, expulsar garimpeiros e recuperar a mina para a estatal.
Ao entrar na cratera, diz que sentiu ódio emanando de 100 mil olhos. Os escavadores bateram suas ferramentas para fazer um barulho de protesto. Nas primeiras horas de trabalho, tomou empurrões e esbarrões que o ameaçavam e tentavam fazê-lo tropeçar e cair no buraco.
Quando já estava sujo de lama como os trabalhadores, Salgado foi detido por um policial, que o julgou um estrangeiro contrabandista. Foi solto ao provar ser brasileiro. Ao mesmo tempo, os garimpeiros souberam que era repórter e também mudaram o sentimento. Na volta à cratera, foi aplaudido: havia sido aceito. “O ouro é um amante imprevisível. Enquanto alguns partiram de Serra Pelada com dinheiro e nunca se sentiram traídos, outros perderam tudo. O amigo de meu pai achou 97 quilos, reinvestiu em mais lotes e equipes adicionais de peões para deixar a mina de mãos vazias”, conta.
Com a mulher, Lélia Wanick Salgado, o fotógrafo decidiu revisitar todos os originais de Serra Pelada, com um olhar diferente daquele de décadas atrás. Ao final do trabalho, tinha um conjunto novo de imagens que se somou às que haviam sido mostradas nos anos 1980.
Coincidindo com os 40 anos da descoberta do ouro em Serra Pelada, essa nova seleção de imagens foi editada para o livro “Gold” e para a exposição que será aberta em São Paulo em 17 de julho, no Sesc Paulista.
Livro e exposição têm estreia internacional no Brasil e seguem depois para Estocolmo, em setembro; Madri, em novembro; Talin (Estônia), em dezembro; Milão, em abril, e Londres, em maio de 2020.
O fotógrafo se dedica atualmente a “Amazônia”, projeto que a reportagem da Folha tem acompanhado e que vai resultar também em um livro e uma exposição em 2021. Parte do conteúdo tem sido antecipada em especiais como este.


https://arte.folha.uol.com.br/ilustrada/2017/sebastiao-salgado/serra-pelada/imagens-da-febre-do-ouro-chocam-o-mundo-e-reabilitam-o-preto-e-branco/  07/07/2019

sexta-feira, 5 de julho de 2019

Moro, o justiceiro vingador e o PT

Desmoralização de Moro não inocenta o PT, diz Ruy Fausto

Ruy Fausto, Folha de São Paulo, 5 de julho de 2019

Autor argumenta que Sergio Moro repete história de Freud e tenta se defender com lógica insustentável, incapaz de livrá-lo das evidências de que a Lava Jato atropelou a lei. Tal constatação, contudo, não inocenta e não corrige os erros do PT.

Em duas de suas obras, Freud conta uma história deliciosa para ilustrar o quanto e como a contradição habita o inconsciente. Um cidadão se queixa de que emprestou um caldeirão ao vizinho, que o devolveu furado. Investigado e inquirido, o vizinho respondeu: 1) ele não me emprestou caldeirão algum; 2) eu o devolvi intacto; 3) o caldeirão já veio furado.

As respostas do ex-juiz e ministro da Justiça, Sergio Moro, aos que criticam a atuação dele e do procurador Deltan Dallagnol, postas à luz pelas revelações do site The Intercept Brasil, são de um teor comparável. Moro respondeu: 1) as informações podem ter sido adulteradas; 2) elas não contêm nada demais. E acrescenta que a eventual adulteração talvez tenha sido parcial.
Sem dúvida, os defensores do midiático ex-juiz dirão que a comparação não procede. No caso do personagem de Freud, as respostas se contradizem. Se não houve nenhum empréstimo, o caldeirão não poderia ter sido devolvido, nem o vizinho saberia que ele já veio furado. E se ele já veio furado, não poderia ter sido devolvido intacto.

Já no caso de Moro, diriam: as informações podem ser eventualmente falsas (em parte ou na totalidade) e, além disso, não conter nada de escandaloso.
Respondo: em termos da lógica, entendida no sentido teórico mais estrito, é assim mesmo. As respostas de Moro são compatíveis. Porém no registro de uma lógica pragmática, elas são contraditórias, e esse registro é essencial, tanto mais em se tratando de questões políticas.
A diferença entre a lógica teórica, em sentido estrito, e a pragmática não é difícil de exemplificar. Se digo que não sou capaz de improvisar um discurso em chinês, essa frase, em termos estritamente lógicos, é verdadeira. Mas em termos pragmáticos, ela é falsa. Por quê? Porque se, de fato, eu não sou capaz de improvisar um discurso em chinês, também não sou capaz de fazer menos do que isso em chinês, como ler um discurso ou mesmo entender algumas palavras.
Ora, a frase sugere o contrário. Faz supor que, embora eu não possa improvisar um discurso em chinês, eu seria capaz de fazer alguma coisa mais modesta, sem dúvida, no registro daquela língua.
Existe aí um “halo lógico-pragmático”, que é inseparável da frase. Como ele enfoca uma afirmação não verdadeira, a frase é pragmaticamente falsa. Com o discurso do ex-magistrado, acontece coisa análoga.

Nos dois casos, temos o efeito dos “halos lógico-pragmáticos”. Só que, em um deles, o halo recobre uma afirmação falsa e, no outro caso, o halo é de negações que induzem a falsidade pragmática do conjunto dos enunciados. Porém, em ambos, existe um campo mal iluminado de frases implícitas, que produzem um efeito de ilusão.

Como já disse, em sentido estritamente lógico, as respostas de Moro podem ser todas verdadeiras. O material divulgado pelo Intercept teria sido eventualmente adulterado (total ou parcialmente) e, ao mesmo tempo, não traria nada de mais. Em termos pragmáticos, entretanto, um dos enunciados põe em xeque o outro, o que significa que eles acabam se falseando mutualmente.
De fato, se as gravações são eventualmente falsas, por que dizer que nelas não há nada de chocante ou escandaloso? Verdadeira ou não, essa segunda afirmação, que pretende funcionar como um reforço da primeira tira, na realidade, a força dessa e, no limite, a anula. Inversamente, se não há nada de mais nas revelações, por que dizer que são eventualmente falsas?

Verdadeiro ou não, o segundo enunciado cria, de novo, um problema. A imputação da eventual falsidade das gravações retira a força da afirmação de que não há lá motivo de escândalo e, no limite, a anula. Restaria talvez a sub-hipótese de que elas sejam “em parte“ eventualmente falsas, em parte verdadeiras. Essa sub-resposta é a “colagem” das duas principais, a tentativa de conciliar afirmações pragmaticamente incompatíveis. Ela seria aceitável?

Observe-se, primeiro, que essa solução —que constitui, na realidade, uma terceira resposta— não é a última das teses propostas. Moro disse ainda que houve “descuido“ ao transmitir informalmente o que teria de ser objeto de uma transmissão formal. E mais: afirmou também e principalmente que “não se lembra”. Ó santa amnésia, mãe dos mentirosos.

Vê-se que não se pode acusar Moro de não nos ter dado uma resposta —são pelo menos cinco. A tese mais complexa, a de que as revelações sejam em parte verdadeiras, em parte eventualmente falsas, o obrigaria a dizer o que há lá de verdadeiro e o que há de eventualmente falso.
Ele deveria ter dito, por exemplo: “Eu jamais instruí o procurador Dallagnol a não enviar supostas revelações sobre certo político que poderia ser um aliado precioso”. Ou: “Eu jamais sugeri que se ouvisse certa testemunha”.
Ora, Moro não disse precisamente isso. O que sugeriu é um axioma de ordem geral: lá onde as gravações revelam procedimentos juridicamente ilegítimos, é que se trata de passagens eventualmente falsificadas; lá onde as conversas não contêm nada de legalmente ou moralmente imputável, elas são autênticas.

Com esse algoritmo sofístico, ele ganha sempre a partida. Use o procedimento 1 se for possível. Se não for, use o 2. Se não der o 2, tem o 3. O caldeirão nunca foi emprestado. Voltou intacto. Já estava furado. Esse jogo de respostas é uma confissão de culpa. Moro sofisma e mente como respira. Ele ganha sempre nos dados porque os dados estão viciados.

Moro é um justiceiro que teve o destino de todos os justiceiros. Desandou. Em nome da “justiça”, definida pelo seu ilibado senso moral, ele e seu bando praticaram toda a sorte de irregularidades e ilegalidades: interceptação ilícita de conversas telefônicas, interferência no trabalho dos procuradores (para usar um eufemismo), deposição “sob vara” lá onde a lei não pedia, decretação de prisões preventivas sem justificativa (uma delas resultou em suicídio de um professor universitário).
Diz-se, com razão, que Moro e os seus seguem o velho e mortífero adágio de que os fins justificam os meios. Mas é preciso se debruçar sobre o sentido específico do caso. Digamos que Moro e seus amigos teriam partido de uma causa justa: combater a corrupção, doença endêmica —mas não a única— da política brasileira (hoje já não se tem certeza de que o ponto de partida do herói tenha sido esse, mas pode ter sido). O bravo juiz se dispôs a utilizar todos os meios, legais e ilegais, para atingir os seus objetivos.

Houve uma corrida de obstáculos em direção ao reino da “justiça”. Observe-se que os obstáculos, no caso, são nada menos do que as leis do país, que os justiceiros-velocistas aprenderam a pular. Como resultado, Moro ajudou a eleger um governo —do qual logo se transformou, sem a menor vergonha, em ministro da Justiça— que não apenas herdou o hábito da corrupção que sempre caracterizou a política brasileira (ou se deve supor que o desvio de salários de representantes eleitos é coisa sem importância?), mas que também acumula com isso ligações “estranhas” com as milícias e que pratica a política mais retrógrada, mais medíocre, mais intolerante que já se viu no país. Pior do que isso, trata-se de um governo autocrático, para dizer o menos, já que seu objetivo, suficientemente explícito, é acabar com os poderes “intermediários”, isto é, o Congresso, a mídia independente, e também a universidade.

Essa foi a contribuição que o justiceiro deu ao seu país. Ele passará para a história como um dos parteiros desse monstro político que é o governo Bolsonaro, um governo que nomeia ministros a partir dos sábios conselhos de uma estrela do norte que brilha na Virgínia. Uma estrela que tem como troféu a escolha dos que foram, provavelmente, os três piores ministros que o Brasil já teve em toda a história, a qualidade dos indicados, diga-se de passagem, ilustrando bem a daquele que os indicou.
Do balanço das façanhas de Moro, o Vingador, resulta que os governos petistas foram inocentes (prefiro formular desse modo geral a questão)?

Se a irregularidade e a ilegalidade de Moro e seus pastores (e pastoras) são evidentes e escandalosas, isso significa que devemos inocentar absolutamente o PT nas suas práticas de governo?
Estou convencido de que não. A violência feita ao Código de Processo Penal e outros códigos oficiais não implica, em princípio, inocentar ou culpar ninguém, implica sim a exigência de começar de novo, procedendo dentro da lei.

Há, entretanto, sérios indícios, e mais do que indícios, de que houve promiscuidade entre parte do poder econômico e os governos petistas. De resto, entre os editoriais ou textos análogos publicados nos últimos tempos pelo site que revelou os “diálogos secretos“ —fonte insuspeita, portanto— há passagens que dão força a essa hipótese. Houve, desde há muito tempo no Brasil, uma espécie de duplo “potlatch”, espécie de doação infinita de favores, por parte de certas firmas e por parte do governo.

O PT, partido crítico por excelência nos seus primeiros tempos, acabou entrando nesse jogo. Nesse sentido, qualquer que seja a anormalidade jurídica da conduta de Moro e seus colegas (pelas razões indicadas, a irregularidade dessa conduta está, a meu ver, suficientemente estabelecida), isso não deve nos levar à crença de que a tese, defendida por vários críticos, de que o PT errou, e errou muito, seria equivocada.

Nesse mesmo sentido, continua sendo válida a exigência de uma autocrítica por parte do PT, que não ocorreu de fato até agora, em que pese o que seus porta-vozes disseram aqui e ali. Apesar das aparências, uma autocrítica séria e responsável só reforçaria a percepção do que houve de positivo (apesar de tudo, houve bastante coisa positiva) no que aquele partido legou ao país.
Na ausência dela, tudo fica mais difícil. Não só ficam provavelmente comprometidas eventuais vitórias da esquerda no futuro, mas, ainda apesar das aparências, a própria libertação de Lula se torna, em termos práticos, mais problemática. Se o PT tivesse feito uma verdadeira autocrítica, muito mais gente teria se empenhado na campanha pela liberdade de Lula.

A ideia de que o melhor para a esquerda seria dizer amém à narrativa do PT é enganosa. O futuro da esquerda brasileira só estará assegurado se ela for capaz de pensar ao mesmo tempo estas duas verdades: 1) o ex-partido hegemônico da esquerda se permitiu embarcar na canoa furada das administrações laxistas; 2) aproveitando-se disto, a direita e a extrema direita montaram julgamentos exóticos, em que, por meio de “atos de ofício” inexistentes, PowerPoints imaginários etc., condenaram e prenderam de forma abusiva e assimétrica.

O futuro da esquerda só estará assegurado se ela for capaz de encarar a fresta que se abre entre essas duas asserções. Em tempo: não se trata de assumir uma posição de tipo centrista. Essa imputação confunde a tomada de consciência da complexidade do objeto —o bom raciocínio político é quase sempre complicado porque o real é complicado— com um movimento de recuo de uma posição de esquerda para outra, de centro.
Ao contrário: a perspectiva crítica e, a seu modo, radical que eu e outros defendemos é, a meu ver, a  única que serve realmente à causa da esquerda, causa que é também a da democracia e do país.
O PT deve também às esquerdas e ao país revisão das suas posições em política internacional. O apoio a Chávez e, pior ainda, a Maduro foi um tiro no pé não só do PT, mas também (mesmo se injustamente) do conjunto da esquerda brasileira.

De que jeito a esquerda poderá levar adiante a luta política se, num exemplo extremo, mas real, há membros importantes do ex-partido hegemônico que ainda acreditam na legitimidade do regime dominante na Coreia do Norte?
Voltando ao caso Moro, à lei e à legalidade. Uma jurista e professora de direito da melhor universidade do país declara que não há nada de grave no episódio. Para ela, são  simples conversas via WhatsApp. Onde estamos? Uma especialista em leis e professora universitária acredita que acertos notoriamente ilegais visando legitimar, aos olhos da opinião pública, a condenação de um réu a nove anos de prisão não constituem evento de importância.

Um ex-presidente disse, por sua vez, que se trata de “tempestade em copo d‘água”. Poupado pelos juízes — depois de considerarem a possibilidade contrária, para dar a "impressão de imparcialidade com vistas ao reforço das hostes justiceiras", ele vem a público saudar o super magistrado pelo seu desempenho no Senado.
Mesmo se o ex-presidente se permite dar, de vez em quando, alguma estocada em Bolsonaro, o apoio a Moro  — que, como ele deve saber, é  peça chave do sistema Bolsonaro, e como tal  inseparável deste — revela (como também  outras das suas atitudes e intervenções) que, para ele, não há nada de muito anormal não só no percurso de Moro, mas no conjunto da situação criada pelo resultado das eleições de 2018. Ignorância, ingenuidade, cinismo?

Na mesma direção, alguns cientistas políticos —cada vez menos numerosos, felizmente— julgam que se trata da famosa “alternância”. Muito democraticamente, haveria que "suportá-lo" e "respeitá-lo".
Isso poderia ser verdade se tivesse chegado ao comando do Estado algum partido da direita republicana. Não se trata disso. Por um conjunto de circunstâncias (incluindo práticas notoriamente fraudulentas), instalou-se na cúpula do Estado um governo extremista destrutivo.
Relações exteriores, universidade, imprensa, ecologia, populações indígenas, Judiciário, costumes... Nada escapa à sua sanha. E principalmente: esse governo é visivelmente alérgico à democracia. Só não destruirá a democracia no Brasil se a resistência for suficientemente vigorosa. De resto, não há que discutir se o golpe bolsonarista virá ou não. Ele já está em curso.

É que o golpe dos Bolsonaros, Orbáns, Kaczynskis e tutti quanti não funciona na base de tanques na rua, mas da caneta. E não liquida por bala, embora os milicianos, tão apreciados pelos homens do poder, tenham feito muitas vítimas por bala, a começar por Marielle e Anderson.
A exemplo da jiboia, o golpe moderno mata por constrição. Vai asfixiando aos poucos sua vítima. O abraço da jiboia já se iniciou com o corte de verbas nas universidades e também com o projeto da Escola sem Partido, embora tal lei (ainda?) não tenha passado. Pois o mal já está feito.

Os professores do ensino médio trabalham sob tensão. Basta, por exemplo, que algum deles chame durante uma aula de golpe de Estado o que foi, de fato, um golpe de Estado, e não uma parada militar ou uma revolução popular, para que  possa ser denunciado — e denunciado (heil Hitler!) pelos seus próprios alunos.

Pobre país. Se, por desgraça, os salvadores da Pátria conseguirem realizar plenamente os seus objetivos, o que não é impossível, o Brasil se transformará numa grande Hungria, com imprensa controlada, universidade asfixiada, Judiciário dócil, obscurantismo à solta.
Caso não tenham força para chegar lá, a hipótese menos má nas circunstâncias atuais é a de que sairemos vivos, mas com ferimentos tão graves que exigirão muitos anos de tratamento e convalescença.
Nesse intervalo, e para que o pior não aconteça, a ordem é tentar segurar por todos os meios (digo, menos a violência) o “bateau ivre” em que navega o núcleo autoritário.
Se o arbítrio de uma parte do Poder Judiciário, de conluio com o Executivo, não for sustado, cada um de nós continuará vivendo sob a ameaça constante de cair sob o fogo de acusações infundadas ou imaginárias, proferidas por uma Justiça (com J maiúsculo) que tem campo livre para levar à prisão quem ela quiser.

À luz da evidente politização dos processos da Lava Jato (na linha “rezemos para que o Haddad não seja eleito”), não há como continuar admitindo que o destino político do país seja regido pelas decisões de juízes transfigurados em justiceiros (ou vice-versa), espíritos brilhantes que sabem melhor do que nós todos qual o destino que convém ao Brasil.
Se assim for, é inútil refletir antes de dar o seu voto, inútil se debruçar sobre os clássicos da filosofia política ou sobre a história do Brasil para tentar entender o que se passa. Nada disso tem importância.

Certos juízes ou juízas, certos procuradores ou procuradoras sabem melhor do que a massa ignara (o povo descontente mais os intelectuais críticos) que tipo de governança nós merecemos.
Nesse sentido, se podemos dizer que Moro e sua equipe se valeram, no início, do princípio de que os fins justificam os meios (ao interpretar as coisas desse modo, supõe-se, em tese, que meios condenáveis teriam  comprometido fins, em si mesmos, justificáveis), é preciso convir que, a partir de certo ponto, não houve mais comprometimento dos fins pelos meios nem, em geral, oposição entre fins e meios: os fins já não tinham mais nada que prestasse.

Tratava-se acima de tudo, e explicitamente, de derrotar Haddad e dar a vitória a Bolsonaro. A partir desse momento, justificavam-se meios  indefensáveis através de fins igualmente indefensáveis. O espaço do negativo veio a ser homogêneo. Violaram-se leis não para salvar o país, mas para levar ao poder o mais obscurantista e autoritário de todos os governos eleitos da República —os militares não foram eleitos, e o Getúlio Vargas do pós-novembro de 1937 governou pela graça de um golpe.

(Com agradecimentos a Arthur H. Bernardo e a Marcelo Coelho. Sem responsabilidade).

Ruy Fausto é professor emérito do Departamento de Filosofia da USP e autor de “Caminhos da Esquerda” (Companhia das Letras).

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/07/desmoralizacao-de-moro-nao-inocenta-o-pt-diz-ruy-fausto.shtml  05/07/2019

domingo, 9 de junho de 2019

Canudos

Destruída duas vezes, Canudos sobrevive em meio a escombros e miséria

Jornalista narra viagem a cidade imortalizada em 'Os Sertões' pelo homenageado da Flip, Euclides da Cunha

Marcos Vinícius Almeida, Folha de São Paulo, 09/06/2019

[RESUMO] Destruída pelo Exército e alagada por açude, Canudos sobrevive em meio a escombros e miséria. Jornalista narra viagem pela mítica cidade baiana, símbolo de um dos conflitos mais violentos da história do país, imortalizado pelo homenageado da Flip deste ano, Euclides da Cunha, no clássico “Os Sertões”.

Uma Rural Willys, motor a gasolina, seis cilindros, atravessou a BR-116, no nordeste da Bahia, transportando uma equipe de filmagem em 1962. Dentro do veículo, que partiu de Salvador, a sensação térmica devia estar próxima dos 40 graus.

Carlos Gaspar —repórter, diretor e produtor da série documental “A Grande Jornada”— conferia o mapa rodoviário. Signos cartográficos se fundiam às manchas de suor impressas por seus próprios dedos. No banco traseiro, o cinegrafista alemão Heinz Forthmann cochilava. “É na próxima”, disse Gaspar, “à direita”. O motorista conferiu o retrovisor. Reduziu a marcha. Dobrou à direita, na BR-235. O carro avançou por um caminho de terra ainda mais estreito. Surgiu uma placa: “Canudos, 12 km”.

'400 Jagunços Prisioneiros' 
fotografia de Flavio de Barros que retrata o final da Guerra de Canudos Flavio de Barros - 2.out.1897 
Instituto Moreira Salles


Gaspar e sua equipe fizeram um valioso registro cinematográfico antes que o açude do Cocorobó, idealizado por Getúlio Vargas, alagasse o povoado. Assistiram a uma missa, ao lado de parentes dos que sobreviveram à Guerra de Canudos, diante do cruzeiro erguido por Antônio Conselheiro em 1893, cujas fissuras de bala podem ser vistas até hoje.

Quase seis décadas depois, estamos numa segunda-feira, 7 de janeiro de 2019. Quando o ônibus da Falcão Real, laterais amassadas, para-choque raspado, estaciona na rodoviária de Salvador, por volta das 15h, tenho um mau pressentimento. Faltam ainda mais de 400 km até o destino final. Qualquer pessoa que dá sinal à beira da estrada tem acesso ao ônibus, sem um mínimo controle de identificação. Como a BR-116 não é duplicada, o risco de acidentes nas ultrapassagens é constante. O motorista não parece preocupado. Paramos numa lanchonete de beira de estrada, já por volta das 20h. “Tomem cuidado ao descer”, diz o motorista, “não tenho controle sobre o ônibus”. Talvez falasse do fluxo de passageiros. Enquanto fumava meu cigarro, ele arrastava uma pedra, um resto de construção, e a colocava na frente de uma das rodas.


Eu não ficaria preocupado se estivesse sozinho. Mas como Joaquim, meu filho de cinco anos, e Raquel, minha companheira —que passou toda a viagem com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida nas mãos—, também estavam no ônibus, chegar vivo a Canudos seria um alívio.
“Alguém vem buscar vocês?”, pergunta o motorista, já na cidade, por volta das 23h. Não há rodoviária. “Acho que sim”, respondo. Dona Joselina mandaria um táxi. Olho ao redor, mas não vejo ninguém. Enquanto seguro Joaquim e as malas, Raquel tenta ligar para a pousada. Um velho Gol se aproxima. “Vocês que são hóspedes da dona Joselina?”, diz um homem de óculos. “Eu vim pegá-los.”

Quem assiste a “Um Sino Dobra em Canudos” (1962), documentário dirigido por Carlos Gaspar, percebe algo fora do lugar. Seu valor é inquestionável, mas ele exige certo esforço do espectador para superar a espessa névoa retórica: a narração do filme.

https://www.youtube.com/watch?v=LVXyyw3GRn0&fbclid=IwAR3zuenGGT0y7sH5LHJjTBKoBSkD8XkTIvHfoCNX2HCfrOOwTfLiLHx4J0w

Gaspar solta frases hiperbólicas: “É o progresso escrevendo o derradeiro capítulo, os últimos dias de Canudos”, “quartel-general dos temíveis jagunços”. Conversando com uma funcionária do Museu da República, nos estúdios, Gaspar apresenta as “relíquias da guerra”. O tom é enviesado.
O primeiro objeto que ele ergue é a corneta que ordenou a ofensiva contra a população. Depois empunha um facão, arma dos ditos jagunços: “eram gente de uma incrível atrocidade [...], capaz de degolar de um só golpe.” O equivocado retrato de Antônio Conselheiro como um louco também está presente.

O professor Roberto Ventura apontou equívocos dessas teses em textos publicados na Folha em setembro de 1997, nos cem anos da morte de Conselheiro. A leitura dos sermões escritos pelo próprio líder de Canudos não corrobora a imagem de um religioso fanático construída por Euclides da Cunha em seu clássico livro “Os Sertões” (1902).

E em matéria de violência, nada superou o Exército brasileiro, rancoroso das três derrotas sofridas para os homens de Conselheiro.

A quarta expedição foi a desforra dos militares. “Mais de 5.000 casas foram arrasadas uma a uma”, diz o texto de uma cartilha distribuída pela prefeitura de Canudos, em 1990, “para não deixar rastro”. Milhares de cadáveres insepultos foram consumidos pelo fogo.


A Canudos de hoje é a terceira da história. A primeira, criada no século 18, foi destruída pelo Exército em 1897, no fim da guerra. A segunda surgiu por volta de 1910, construída sobre as ruínas da anterior. Os primeiros habitantes eram sobreviventes do conflito.
Em 1950, com o início das obras da barragem que inundaria o local, os moradores começaram a sair, formando um novo vilarejo a uma distância de cerca de 20 quilômetros. A segunda Canudos desapareceu sob as águas do açude de Cocorobó, em 1969. O vilarejo tornou-se, em 1985, a terceira Canudos.

A Pousada Pôr do Sol fica na parte mais alta da cidade, com uma visão privilegiada para o açude Cocorobó. De frente para ela e de costas para o açude, há uma escultura de Conselheiro, de madeira, erguendo uma Bíblia e um crucifixo. Com acomodações simples e aconchegantes, o lugar recebe muitos pesquisadores e funcionários do campus da Uneb (Universidade do Estado da Bahia) instalado na cidade.

Joselina Oliveira Rabelo, 73, que coordena o local, é descendente de sobreviventes. Nasceu na segunda Canudos, aquela retratada no filme de Carlos Gaspar. Dona Joselina, como é conhecida, fala de sua história com orgulho. Avó e bisavó paternas estiveram na guerra. Foram capturadas e levadas para Salvador. A história do conflito lhe foi passada por seu pai, João Guerra, e seu avô, Joaquim Valério de Oliveira. Olhando para a estátua de madeira no jardim, dona Joselina diz que a primeira Canudos foi um exemplo de resistência e organização.
Contesta a ideia de Conselheiro como louco e de seus seguidores como fanáticos. “Ele foi muito perseguido nessas andanças dele. Construía igreja, consertava cemitério. Tem gente que fala que foi Conselheiro que começou com isso de comunismo”, ela diz, um tanto incrédula, sentada numa cadeira de balanço na varanda da pousada.
Receber pessoas interessadas na memória do lugar a deixa feliz. Lembra-se de uma hóspede, professora de história em São Paulo, que lhe pediu uma bandeira. “Ela me disse que quando abre aquela bandeira de Canudos na sala, não tem um aluno que não preste atenção. Fica tudo de olho arregalado.” Seus olhos, por trás dos óculos, também brilham. “Ariano Suassuna quem disse: ‘Quem não conhece a história de Canudos não conhece o Brasil’. E é verdade”.

No fim da tarde, o sol cáustico perde força e a temperatura arrefece. É comum ver cadeiras nas calçadas, onde grupos de pessoas conversam. Dona Joselina arma redes nas duas grandes árvores do jardim. “Os hóspedes adoram ficar aqui, nesse sossego.”
Com um ar reflexivo, diz que o potencial histórico e turístico precisa ser mais bem explorado. Lembra-se então de um episódio. Quando o escritor peruano Mario Vargas Llosa foi a Canudos, em 1979, como parte do trabalho de pesquisa para o livro “A Guerra do Fim do Mundo”, ficou hospedado na casa do pai dela.

Depois que Vargas Llosa venceu o Nobel de Literatura, em 2010, dona Joselina pensou em convidá-lo para voltar e participar de algum evento na cidade. Desistiu da ideia ao saber que o escritor é crítico do governo petista. “Talvez ele não aceitasse um convite para vir até o país, porque o Lula ainda era presidente”, diz. “E ele não gostava do Lula, né?”.

O Memorial Antônio Conselheiro, criado em 2002, tem por missão, segundo um cartaz afixado na parede, “preservar e difundir a memória da Guerra de Canudos”.
Lá há um jardim com plantas típicas do cenário da guerra, descritas em “Os Sertões”: favela, palmatória-do-diabo, cabeça-de-frade, mandacaru e o canudo-de-pito. Com seu caule oco, o canudo era usado como piteira de cachimbos. Foi essa planta que deu nome a uma antiga fazenda e depois à comunidade conselheirista.
No centro do jardim há uma escultura do beato. Sua superfície e traços são poligonais, algo que lembra os corpos das primeiras personagens 3D dos videogames. Numa placa na base do monumento, um tanto gasta, pode-se ler: “Aos heróis de Canudos”. E mais abaixo: “Os vencidos também merecem um lugar na história. Não devem ficar no anonimato”, assinada por José Calasans, folclorista e historiador, pioneiro no resgate da memória oral dos sobreviventes da guerra.
Há algumas peças arqueológicas no memorial: cartuchos, pentes de balas, cacos de utensílios e restos da igreja. Espantoso é o tamanho dos estilhaços de granadas lançadas contra o povo pelo canhão inglês Whitworth 32. Com mais de uma tonelada, essa monstruosa peça de artilharia foi apelidada pelos conselheiristas de “a matadeira”. Um único tiro era capaz de arrasar e incendiar as frágeis moradias de taipa e todos aqueles que estavam dentro.

Graciliano Ramos, em um breve texto anedótico, disse que Antônio Conselheiro vagava pelo sertão pregando ideias subversivas e o fim do mundo em 1900: “Antes do fim do mundo, porém, veio a República”.

“Penetrando pelos tetos e pelas paredes”, anotou Euclides em seu diário em 1º de outubro de 1987, “as granadas explodiam nos quartos minúsculos despedaçando homens, mulheres e crianças sobre as quais descia, às vezes, o pesado teto de argila, pesadamente, como a laje de um túmulo”.
A Canudos de hoje é um lugar cheio de contrastes. O sinal do wifi é onipresente nos poucos restaurantes, mas não há agência bancária ou caixas eletrônicos. Gangues estouraram inúmeras vezes os antigos bancos da cidade.
Motos de pequeno porte substituíram o cavalo e o jegue. Transformaram-se no transporta das famílias. Não poucas vezes vi pai, mãe e filho dependurados todos numa única moto. Diante de uma UBS, vi uma mulher sentar na garupa do marido, com um bebê de poucos meses no colo, e seguir rua afora, sem receio.
Antenas de operadoras de TV por assinatura são comuns nos telhados. No final de semana, paredões de som, tocando funk e hits do sertanejo universitário, animam bailes. Vejo um cartaz: “Canudos Fest, Pablo, a voz romântica”.

Mesmo com o campus da Uneb —que oferece atividades de extensão, como minicursos e palestras—, a maioria dos jovens, quando termina o ensino médio, precisa se deslocar até cidades vizinhas para cursar uma faculdade. Os desafios da cidade são muitos. De acordo com dados de 2010 do IBGE, o Índice de Desenvolvimento Humano de Canudos teve relativa melhora —saltou de 0,379, em 2000, para 0,562, em 2010—, mas ainda indica um quadro de gravíssimos problemas relacionados à renda e à educação. Entre os 5.565 municípios brasileiros daquela época, Canudos situava-se na 5.002ª posição do ranking de desenvolvimento humano, o mais recente divulgado.
Dados de 2018 apontam que, dos 16.752 habitantes da cidade, um total de 12.168 estão inscritos no programa Bolsa Família, o que evidencia um contexto de grande vulnerabilidade social.
Luiz Paulo Neiva, diretor do campus avançado da Uneb em Canudos, conta que a grande guerra de hoje é contra a pobreza. Ele escreveu o livro “Canudos – Uma Nova Batalha” (Eduneb, 2017), síntese do trabalho da universidade no município. Entre as propostas apresentas, além do melhor aproveitamento das águas do açude, está a construção de uma cidade cenográfica, réplica reduzida da Canudos original conselheirista. Estima-se que o projeto necessitaria de um investimento de R$ 6 milhões.

Diante do solo da caatinga, pergunto, um tanto perplexo: “Esse terreno é assim mesmo ou foi mexido?”. “É assim mesmo”, diz Jamilson, guia turístico que nos conduz pela estrada rumo ao Parque Estadual de Canudos.

Encontramos o telefone de Jamilson num cartaz na pizzaria Doce Mel. Além dos serviços de guia, é fotógrafo e anunciava a venda de um livro, um ensaio documental de profissionais e amadores. O título: “Canudos – Essa História Não Pode Morrer!”.
Ativo no Instagram, ele se apresenta como bisneto de sobreviventes. Já guiou figuras famosas, como a atriz Mariana Ximenes. “Semana que vem”, diz, depois de receber uma mensagem no WhatsApp, “vem para cá uma amiga italiana”. Como a atividade turística não garante o sustento, trabalha ainda de motorista. Dirige um micro-ônibus de universitários que estudam numa cidade vizinha.
Na entrada do Parque Estadual de Canudos, há um portal cuja forma lembra o arco da igreja da Canudos submersa. O percurso é feito de carro, por vias de terra sinalizadas com placas. Criado pelo governo do estado da Bahia em 1986, o museu a céu aberto tem área de 1.321 hectares. É o que restou do cenário da guerra.
“Quando o parque não existia”, conta Jamilson, “as pessoas andavam por aí e enchiam sacolas de restos de cartucho de bala”. A terra é de um vermelho-fogo. O ar, seco e parado. Começamos o roteiro de visitação pelo Vale da Morte, como é chamada uma espécie de cemitério da campanha dos militares. “Tá cheio de esqueleto aqui embaixo”, diz Jamilson.

Como o terreno é duro demais, as valas coletivas, onde os corpos foram despejados, são rasas. Não há qualquer vestígio de cruzes ou marcação na superfície. Um esqueleto inteiro e dois crânios foram extraídos do local nas escavações feitas em 1997. Mais adiante, há uma placa indicando o sítio arqueológico, no qual é possível ver nitidamente três ossos de costelas expostos ao sol.
Ouvindo nossa conversa, Joaquim começa a escavar a terra. Levanta um pedacinho de pedra. “Olha papai”, ele diz. “Achei um esqueleto.”
Em 1987, o arqueólogo paulistano Paulo Zanettini, então com 28 anos, viajou até Canudos para realizar os primeiros trabalhos no parque. Além das escavações iniciais, fez uma série de mergulhos no açude Cocorobó. “Munidos de uma tosca embarcação batizada de Colapso (em homenagem ao Calypso do Jacques Cousteau), seguimos as orientações de filhos da cidade inundada”, conta o arqueólogo, por email. “Nascia, assim, a ‘arqueologia subaquática na caatinga’.”

No centenário do início da Guerra de Canudos, em 1996, o açude Cocorobó baixou ao mínimo. Ressurgiram as ruínas da cidade. Em 23 de junho daquele ano, uma foto de Zanettini, caminhando sobre os destroços do portal do velho cemitério, foi publicada na primeira página da Folha. “Jamais poderíamos imaginar”, escreve Zanettini no relatório final do trabalho de salvamento arqueológico, “que nos veríamos caminhando já sobre o solo de Canudos, pisando o lodo seco e rachado na tentativa de identificar o ponto exato onde havíamos mergulhado”.

O estudo do arqueólogo também contesta teses populares do trabalho de Euclides da Cunha. O escritor afirma que Antônio Conselheiro ocupou um local ermo, mas vestígios apontam que a presença humana no território era mais intensa e muito mais antiga do que se imaginava. “Identificamos um sem número de áreas de ocorrência de sítios pré-históricos plenos de lascas e utensílios de pedra lascada que começam a ser estudados pela equipe e indicam que a região foi propícia à ocupação humana milênios antes da chegada do Conselheiro”, defendeu o arqueólogo em artigo.

Quando chegamos ao Alto da Favela, de onde Euclides avistou Canudos pela primeira vez, avistamos o açude. Suas águas são turvas e calmas. Como acontece em outras áreas do parque, há um totem de vidro de Conselheiro, retratado de cabelos longos e barba, de perfil, segurando um cajado. Parece um fantasma.
Sabe-se pelos registros históricos, inclusive de Euclides da Cunha, que o líder religioso já havia morrido, de causas nunca conhecidas, quando Canudos caiu. Seu corpo estava enterrado, mas foi exumado pelos soldados e fotografado. Não satisfeitos, degolaram o cadáver, sob a justificativa de submeter a cabeça a pesquisas científicas. Presos aos equívocos da época, esperavam encontrar nas ranhuras do cérebro sinais que atestassem sua loucura. Nada foi provado.
Mais adiante no parque, a intervenção mais poderosa são as ampliações dos rostos das mulheres capturadas pelo Exército, extraídas do registro do fotógrafo Flávio de Barros. Presas em 3 de outubro de 1897, dois dias antes de Canudos ser incendiada, muitas foram estupradas e degoladas.

Os melhores registros de “Um Sino Dobra em Canudos” vêm no final. “Batidas por três vezes sucessivas”, diz o narrador, “as tropas do governo parecem ter adotado, em relação a Canudos, a mesma solução final que Hitler no gueto de Varsóvia. Não ficou ninguém para contar a história”. Nesse momento o filme mostra José Ciríaco, Tizé, com cerca de 90 anos, apresentando como único sobrevivente da guerra.
Num pequeno museu, Tizé guarda objetos da época, como punhais, espingardas, e estilhaços de granada do canhão. “Isso é um pedaço da bala do canhão”, diz ele. “Essa bala é dos canhões que derrubaram a igreja aqui e mataram muita gente. Foi devido a esses canhões que acabou Canudos. Foi devido a esses canhões que acabaram com todo o pessoal, com as obras, as igrejas, casa, tudo.” Erguendo seu cajado, Tizé diz: “E quem nunca viu, como vocês, se admira de ver o que essa bala faz”.

Em outra cena de destaque, dona Hermenegilda caminha para a missa. Não se lembra do próprio sobrenome. Pai, filhos e marido estão mortos. Pede a Deus que a deixe morrer na cidade, mas não ouvimos sua voz. É Carlos Gaspar, lendo transcrições da entrevista, que fala no lugar dela.
A cena, reforçada pelo ruído de ventos artificiais, mostra uma mulher caminhando para a morte. No portal do cemitério, o branco caiado contrasta com suas vestes negras. Enquanto caminha entre os túmulos, onde estão enterrados os familiares e os heróis da Guerra, o narrador lê uma derradeira fala: “Até meus mortos vão se afogar. Não rezarei mais na sua sepultura. Não vou descansar ao lado dos meus.”
Das margens do açude, avisto a ponta das ruínas da igreja, despontando sobre as águas. O sol do meio-dia castiga a pele. Lembro-me das últimas páginas de “Os Sertões”, onde a fria pena científica de Euclides sucumbe, recua e então emperra diante do horror inenarrável.
Jamilson conta que, quando da montagem do Teatro Oficina na cidade, Mariana Ximenes resolveu nadar no açude e quase se afogou. “Isso aqui é um abismo”, ele diz e aponta para a beira da água.
Olho para trás. Joaquim e Raquel se afastam, caminhando na direção do carro. Pergunto ao guia se há histórias de assombrações por ali. “Uma vez um turista pediu para dormir no parque. Tem uma área de camping ali. Quando cheguei aqui no dia seguinte, o cara estava apavorado. Disse que escutou uns barulhos durante a madrugada. Criança chorando, ferro batendo, tiro, gritos. Coisa terrível”, conta ele. Estranho seria se não houvesse essas histórias, penso.

Antes de voltar para o carro e deixar o parque, resolvo levar uma lasca de pedra. Quando me agacho, outra coisa chama a atenção. Uma lasquinha de árvore, pedacinho de galho seco, esculpido ao acaso pelo tempo. Enfio no bolso. Contemplo uma última vez a ruína da igreja. E vou embora.
“Olha o que eu encontrei.” “Nossa!”, Raquel diz. “É um crucifixo perfeito.”

Euclides da Cunha será homenageado  na Flip

A festa literária terá como tema o escritor e jornalista. O evento em Paraty ocorrerá de 10 a 14 de julho. Ingressos ainda podem ser adquiridos pelo site flip.byinti.com, ao custo de R$ 55. Também haverá vendas durante o evento. Mais informações em flip.org.br
Principais mesas* sobre o autor de ‘Os Sertões’

Quarta (10/7), às 19h
Na abertura da Flip, a crítica literária Walnice Nogueira Galvão comentará a trajetória intelectual de Euclides da Cunha e o impacto da viagem a Canudos em sua vida e obra
Sexta (12/7), às 15h30
O historiador José Murilo de Carvalho vai analisar o conflito entre seguidores de Antônio Conselheiro e o Exército, em Canudos
Sábado (13/7), às 12h
O cineasta português Miguel Gomes, que prepara uma adaptação de “Os Sertões” para o cinema, conversa com o crítico Ismail Xavier
*Todas com ingressos esgotados, mas debates serão transmitidos também em um telão, gratuitamente
Marcos Vinícius Almeida, escritor e jornalista, é autor de “Paisagem Interior” (Penalux, 2017).

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/06/destruida-duas-vezes-canudos-sobrevive-em-meio-a-escombros-e-miseria.shtml  09/06/2019

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Um Brasil Mad Max

Estradas sem lei, armas liberadas: Bolsonaro quer um Brasil igual a Mad Max

Leonardo Sakamoto, 04/06/2019

Premiar motoristas que cometem infrações de trânsito, dobrando a pontuação máxima permitida na carteira de habilitação, e defender a retirada de radares, transformando as estradas em pistas de corrida.

Facilitar o porte de armas e possibilitar a compra de milhares de cartuchos de munição por pessoa, colocando em risco milhares de vidas e ajudando na formação e legalização de milícias urbanas e rurais.

Dificultar a fiscalização ambiental e liberar agrotóxicos em série, fomentando o desmatamento, a pesca e a caça em área de preservação ambiental e a queda na qualidade da saúde pública.
Bloquear a concessão de novas bolsas de pesquisa, reduzindo a produção de ciência e tecnologia nacionais (e, consequentemente, a produtividade e a competitividade), enquanto cresce o obscurantismo.

A um observador desatento, o governo Bolsonaro parece travar uma cruzada a fim de minar toda política construída, ao longo de décadas, com o objetivo de estabelecer regras para a vida em sociedade. Afinal, pode-se interpretar seu comportamento como o de alguém que deseja substituir o respeito à lei – em que nós aceitamos abrir mão de parte de nossa liberdade em nome da coletividade – pela lei do mais forte, e o seu cada um por si e Deus acima de todos.
Ou que ele adota medidas para ganhar a simpatia de uma fatia do seu eleitorado em um momento em que a insatisfação com seu governo cresce.

Mas não é bem isso. Pois caso ele tenha sucesso em seu intento, o país que vai sobrar não é o sonho ultraliberal de um lugar em que o Estado não se "intromete" na vida das pessoas. Se fosse assim, o presidente estaria defendendo a ampliação do direito ao aborto ao lado do livre mercado e não ficaria (pretensamente) horrorizado com golden showers. O que ele quer, na verdade, é uma sociedade à sua imagem e semelhança.

Uma sociedade sem regras nas estradas, sem limites para o acesso às armas, sem regras para o meio ambiente e na qual o conhecimento é desprezado. O Brasil de Bolsonaro se parece – e muito – com o mundo pós-apocalíptico de Mad Max.

"Você torce contra o governo" – me acusaram hoje, pela enésima vez. Óbvio que todos queremos que o desemprego caia rapidamente e o país volte a crescer, pois a manutenção do quadro atual torna a vida insustentável por aqui. A questão é que o presidente se desloca até o Congresso Nacional para propor o aumento de pontos na carteira e a possibilidade de não ser multado por trafegar na estrada com o farol apagado, quando deveria estar indo para apresentar uma política nacional para a geração de emprego e renda.

Qualquer pessoa que tenha o mínimo de apreço pela civilização não pode torcer pelo naco medieval da agenda do presidente da República. E não estamos falando de Reforma da Previdência ou mesmo das privatizações de empresas em setores estratégicos.

Até porque apenas quem acredita em Coelho da Páscoa e Papai Noel também caiu no conto da promessa da conversão liberal do capitão reformado do Exército. Até agora, o presidente conseguiu confirmar as expectativas de que é a pessoa mais despreparada a assumir o comando do Poder Executivo em muito, muito tempo. E olha que a concorrência é dura. Se ele contasse com um projeto para construir um país, esse despreparo talvez o inviabilizasse. Mas como o objetivo passa por desconstruir a sociedade como conhecemos, ele ainda tem chances de realizar seu objetivo com sucesso. Destruir é mais fácil que criar.

O Palácio do Planalto deveria tocar "We Don't Need Another Hero", interpretado pela Tina Turner, nas cerimônias. Ia ornar.

https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/  05/06/2019













sexta-feira, 10 de maio de 2019

Caravaggio Imortal

Maledetti
Trafitti dalla passione,
l’Amore ci sopravvive
e l’Arte ci rende immortal

Com esta poética de Goethe termina a minissérie, de 2007, Caravaggio que acabei de ver. A arte nos torna imortais; Caravaggio que o diga.

Dirigida por Angelo Longoni, esta minissérie tem um diferencial: a cinematografia é de Vittorio Storaro. Uma referência de fotografia no cinema contemporâneo. Uma escolha por demais pertinente.

A seguir uma análise recomendável do trabalho, publicada  (GAUCHAZH) em 27/12/2012

A primeira versão para o cinema da vida do pintor lombardo Caravaggio (1571 - 1610), realizada em 1941 por Goffredo Alessandrini, denunciava as intenções do diretor logo no título: Caravaggio, il Pittore Maledetto (Caravaggio, o Pintor Maldito). Duas versões seriam ainda feitas (uma em 1967, por Silverio Blasi, e outra em 1986, pelo inglês Derek Jarman) antes que as contradições e ambivalência do pintor barroco fossem tratadas de forma menos estereotipada na minissérie Caravaggio, produção da RAI (2007) dirigida por Angelo Longoni, que a Versátil lança em DVD.

Sem a obsessão formalista de Jarman - que, ainda assim, fez um belo filme cheio de anacronismos e com um ator excepcional (Nigel Terry) -, o realizador Longoni preferiu ser mais convencional e explorar o conflito contínuo entre luz e sombra na obra de Caravaggio - reforçando a representação metafórica da salvação e danação. Afinal, justifica Longoni, 'Foi um pintor que ousou retratar santos e mártires com marcas terrenas, contestando as regras rígidas da Contrarreforma para representar a espiritualidade".

Para dar forma a esse confronto entre luz e sombra, Longoni chamou o veterano diretor de fotografia Vittorio Storaro (Apocalypse Now), que justamente decidiu se tornar fotógrafo de cinema, nos anos 1960, após descobrir, aos 20 anos, uma pintura que mudou sua vida, na Capela Contarelli (no interior da Igreja São Luís dos Franceses, em Roma). Era A Vocação de São Mateus (1599 - 1660), óleo com mais de 3 metros de altura por outro tanto de largura, que retrata uma passagem do Evangelho de Mateus. Nela, Cristo vê um homem (Mateus) sentado na coletoria e pede que o siga (é o único que o enxerga, enquanto os demais personagens continuam contando dinheiro).
Storaro ficou tão tocado pela pintura que a usa para emocionar também o espectador da minissérie na sequência mais elaborada de Caravaggio. Nela, o assombroso efeito de luz de A Vocação de São Mateus - um raio transcendental que vem da direita e incide sobre o santo - é sugerido pelo sol da manhã que desperta Caravaggio, doente e cansado. Esse raio de luz que entra pela janela, cortando a tela na transversal, corresponde simbolicamente a uma manifestação teofânica, segundo a concepção do pintor. Storaro reforça a descoberta em outras sequências que tentam reconstituir a origem de conhecidas pinturas do artista, entre elas Judite e Holofernes, tela igualmente de inspiração bíblica realizada no mesmo ano (1599) - e que retrata a decapitação do general assírio, embriagado e morto pela bela viúva judia para salvar seu povo.

A tentação de representar a cena como um fotograma é forte. Justificável: Caravaggio, ainda segundo Storaro, três vezes ganhador do Oscar de fotografia, foi cineasta antes mesmo de o cinema ter sido inventado, respondendo pela composição das cenas, a posição das figuras, os figurinos e, especialmente, o desenho da iluminação, feita com luz natural (como em A Vocação de São Mateus) e artificial (O Martírio de São Mateus, por meio de tochas).

Coube ao diretor Longoni deixar Storaro livre para explorar a passagem da luz natural para a artificial nessas duas telas que se completam. No entanto, para evitar comparações com a cinebiografia realizada por Derek Jarman - que leva ao paroxismo essa reconstrução formal -, o realizador italiano preferiu ser menos ousado e seguir as regras do melodrama, localizando Caravaggio em sua época, marcada pelo cinismo dos nobres e o absolutismo do poder eclesiástico. Longoni mostra o pintor como um inimigo da Inquisição, defensor de ideias progressistas e um homem detestado por seu espírito inovador, mas visto com desconfiança por ser protegido de cardeais e andar pelas ruas sempre seguido de capangas, pronto a usar sua espada.

Sem exatamente recusar o mito do "pintor assassino" consagrado pelo romantismo, Longoni tenta equilibrar sua cinebiografia entre a interpretação pessoal e os estudos de sua vida por acadêmicos - notadamente Roberto Longhi, responsável pela monografia mais respeitada sobre o artista, escrita em 1968 e publicada, aqui, pela Cosac Naify. Embora evite o estereótipo que a literatura artística solidificou, o diretor esbarra na simplificação da personalidade de um homem obcecado pela refiguração, pela reprodução mimética da realidade, a ponto de usar mendigos, prostitutas e marginais como modelos de santos.

Longoni faz do bissexual Caravaggio um garanhão, que rouba uma prostituta de um outro tipo de proscrito, o rufião Ranuccio Tomassoni, assassinado pela espada de Caravaggio em 1606. Na versão de Jarman, os três se tornam amantes e o ciúme corrói a relação, culminando em tragédia. Na minissérie italiana, o pintor mata Ranuccio por maus-tratos à amante dos dois, Fillide Melandroni. Segundo a versão oficial mais recente, o crime não aconteceu numa partida de tênis - apenas pretexto para um duelo. Caravaggio castrou seu adversário para defender a honra de Fillide, num arroubo de fúria heterossexual.

Seja como for, o diretor contou com o ator Alessio Boni na defesa do rebelde inconformista que mudou a história da pintura com sua habilidade em reproduzir o real. E, além de tudo, sua semelhança física com Caravaggio impressiona.

Caravaggio, A Vocação de São Mateus (1599 - 1660)

Caravaggio, Judite e Holofernes

Em tempo

Caravaggio já foi assunto neste blog em 2012

Lá fizemos referência ao filme Caravaggio de Derek Jarman (1942 – 1994) de 1986.

“Retrata uma biografia do pintor com suas nuances conhecidas: a relação com a igreja, suas brigas, seu exílio, sua bissexualidade e seus métodos de trabalho.
Em algumas cenas deste filme há uma mistura de figurinos do século XX com os do século XVII, como na figura mostrada acima. Algo me diz que Jarman quis mostrar o Caravaggio atemporal. Caravaggio atual. A rebeldia, a insatisfação com a realidade em que vive e a manifesta tradução de sua personalidade em sua obra são as marcas desta grande personagem.”


A minissérie de Angelo Longoni vai por outros caminhos. Apresenta o Caravaggio e seus conflitos (além daqueles pessoais) com a sua produção artística. E uma diferença significante: Vittorio Storaro.

Em nenhuma das publicações ou filmes apresentados mencionamos uma das telas mais relevantes e discutidas de Caravaggio: “Amor Vincit Omnia.”

Com a palavra Rodrigo Henrique Araújo da Costa da Universidade Federal da Paraíba (UFPB):

Em Amor Vitorioso, um anjo cupido desvencilha-se dos símbolos terrenos, pisando-os. Tais símbolos representam as forças religiosas e políticas do mundo, forças sobre as quais triunfa. A tela foi requerida ao pintor italiano Caravaggio, no início do século XVII, por um mecenas privado da alta sociedade romana chamado Vicenzo Giustiniani, e seria inspirada na famosa frase de Virgílio “O amor tudo vence; também nós cedamos ao amor” (Écloga X, 69). O pênis do cupido foi retratado pelo artista no centro da tela e no foco do observador. Nada camufla ou reprime o corpo deste púbere, nada disciplina sua vontade em estar livre, aberto e feliz. O Amor Vitorioso é exemplo do que almejara seu encomendador, mas é reflexo do que Caravaggio expressava subjetivamente, e, em amplidão, é reflexo da Idade Moderna. Caravaggio faz uma mudança de abordagem abrupta, de uma configuração cristã para outra pré-cristã ou pagã. Amor Vitorioso é um amor profano, foge do religioso e das convenções. Ademais, o sexo do cupido está completamente exposto como temática, trazendo muitas outras questões e debates como a Reforma, o prazer, a dor, o Barroco, o drama, a estética, o homem entre os séculos XVI e XVII. Trataremos isso perante o Indiciarismo, a Iconologia, a Cultura Artística e os conceitos de mito e desmitologizamento.

Reproduzi aqui o resumo do artigo AMOR VITORIOSO (1601-1602) DE CARAVAGGIO: DISCUSSÕES SOBRE SIGNOS, MITO E DESMITOLOGIZAMENTO publicado em 2012 nos Anais do III Congresso Internacional de História da UFG/ Jataí: História e Diversidade Cultural.


Caravaggio, Amor Vincit Omnia