sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

Violência no Espirito Santo. Até quando?


Jornal ES HOJE
Vitória 15 de dezembro de 2011, nº 362 

Editorial

Espírito Santo vice-líder em violência

O Espírito Santo só perde para Alagoas no “quesito” maior taxa de homicídios. De acordo com o Mapa da Violência 2012, divulgado esta semana, pelo Instituto Sangari, o Estado possui 50,1 homicídios por 100 mil habitantes. Em Alagoas essa taxa é de 66,8 assassinatos por 100 mil. O Brasil,
em 30 anos, a taxa de homicídios passou de 11,7 em cada grupo de 100 mil habitantes em 1980 para 26,2 em 2010. Vitória é a terceira capital mais violenta, com 67,1 assassinatos por cada 100 mil habitantes.

Cinco municípios do Estado fazem parte da lista dos 50 mais violentos do país:

Serra (16º lugar / 99,9 homicídios por cada 100 mil habitantes); Cariacica (26º /

80,8); Pedro Canário (32º / 76,4); Linhares (36º / 74,2); e São Mateus (46º / 72,5).

O Estado teve uma queda de 8,2% no número de homicídios de janeiro a novembro
(1.557), comparado com o mesmo período de 2010 (1.696). Mas, essa
redução não pode ser comemorada, principalmente, porque diz respeito a vidas que continuam
sendo perdidas, todos os dias.

No primeiro ano do governo Casagrande, o programa “Estado Presente” tem sido uma tentativa brecar esses números que permanecem alarmantes, integrando a ação de várias secretarias. A falta de policiais é uma queixa recorrente da população. O interior do Espírito Santo deixou de ser um local pacato faz tempo. As notícias de prisão e o crescimento de tráfico de drogas são problemas que merecem atenção.

Enquanto isso, menos da metade das delegacias do interior têm plantão no final de semana. Linhares e São Mateus se destacam como pólos regionais, que recebem investimentos que nascem com a cadeia de petróleo e gás, que se fortalece a cada dia no Estado. O destaque na violência seria o preço pago pelo progresso que chega sem uma política pública para reduzir de forma mais eficaz, as desigualdades sociais?

E Pedro Canário, o que explica tanta violência? O Espírito Santo tem municípios
que atualmente convivem com o tráfico na porta das pequenas casas, casas
que antes não sabiam o que era uma grade ou um muro.

Outro dado muito grave é que, no Espírito Santo, a cada 100 mil mulheres, 9,4 são
vítimas de homicídio – colocando o Estado na desagradável 1ª colocação de assassinatos de mulheres. Alagoas aparece em segundo, com 8,3 e, em terceiro, o Paraná com 6,3. O tráfico de drogas, mais uma vez, é apontado como principal causa.

É claro que a situação não pode ser mudada “da noite para o dia”. Mas, o
capixaba quer e precisa de uma resposta mais rápida. A população precisa de
mais. Pode parecer piegas, de tão óbvio, mas violência se “cura” com educação,
investimentos em saúde e qualidade devida e dignidade para a população. E
punição rigorosa para os crimes. Justiça mais célere. Presídios que façam de presos
cidadãos recuperados – e não pessoas mais violentas, ainda.

O que falta: policiais, políticas públicas mais eficientes e uma ação mais
ostensiva contra a violência e o tráfico? Ou todas essas alternativas juntas? Falta
lembrar que outros Estados, com população muito maior que a do Espírito Santo
têm taxa de violência muito menor – como é o caso de São Paulo, que possui
9,8/100 mil. Logo, a extensão territorial e o contingente populacional não podem
ser usados para explicar os resultados. O que não se pode dizer é que esse furacão não mexe com o telhado de ninguém – ou com o telhado só de um. O próximo ano será de eleições. Mais que promessas, a população precisa de resultados.

É uma rua que precisa ser iluminada, construção de creches, unidades de
saúde. Enfim, uma série de ações que são atribuições da municipalidade. Mas, a segurança pública não pode ser pensada de forma isolada. Não é problema de um só prefeito, de vereadores, ou, somente do Estado. É problema de todos – inclusive, dos eleitores. O povo capixaba quer e precisa ver o Espírito Santo liderar boas expectativas e ganhar da violência – e não perder a vida.

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Educação e telemática

As tecnologias advindas do computador e da telemática (internet) modificaram nossa visão do ensino aprendizagem a partir das últimas décadas do século XX. Aprendemos com sites de busca como Google e Wikipedia. Aprendemos com e-mail, MSN, Orkut, chat, Facebook, twitter, jogos e ambientes virtuais da aprendizagem. São ferramentas telemáticas que ajudam a educação formal e a educação não formal.  São ferramentas que complementam os recursos computacionais tais como edição de texto, tabelas, gráficos e recursos de simulação. E porque estes recursos da telemática ajudam na aprendizagem? Porque tem na interatividade a base de suas aplicacações.
Aprendemos quando agimos e quando interagimos com o objeto do conhecimento e com as pessoas.
Segundo Piaget, tanto na vida social quanto na vida individual o pensamento procede da ação e uma sociedade é essencialmente um sistema de atividades, cujas interações elementares consistem, no sentido próprio, em ações se modificando umas às outras, segundo certas leis de organização ou equilíbrio (Piaget, 1972).
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O galês Cameron Thompson tem 14 anos e está estudando Matemática Aplicada na Open University. Em depoimento à BBC, ele fala sobre as dificuldades que enfrenta por ser um adolescente superdotado. Aos 10 anos, ele participou de um concurso de matemática na internet. "Eu fiz 140 pontos em um teste com pontuação máxima de 140. Quebrei o sistema, acho que me saí bem", conta. Mas ser um gênio da matemática tornou-se a identidade completa de Cameron e participar da vida escol ar e fazer amigos acabaram sendo relegados ao segundo plano. "Tenho a sociabilidade de uma batata falante", ele admite. "A maioria das pessoas da minha idade me despreza. É assim há anos. Estou acostumado a ser ignorado". (Terra, 08/11/2011).
Cameron não interage com pessoas. Interage com os objetos do conhecimento. Em minha experiência, como docente, convivi com estudantes que tinham a sociabilidade de uma batata e tiveram desempenho excelente durante o curso. Em particular acompanhei a vida profissional de dois deles.  Quatro anos depois de formados estavam literalmente desajustados no mercado de trabalho.

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O paradigma de ensino baseado somente no modelo transmissão recepção de informações não é mais sustentável. Os novos modelos devem considerar o aprender a processar as informações em lugar de armazená-las, trabalhar na construção do conhecimento e não na sua simples reprodução.
A insistência nos métodos tradicionais faz com que a telemática, em geral, vire apenas uma nova mídia, que poderá ter o mesmo destino de outros artefatos já experimentados, como o projetor de slides, a televisão e o CD/DVD. Faz-se necessário aproveitar melhor seu potencial, modificando as formas de aprender, reforçando ainda mais o papel do aluno como agente de sua aprendizagem. Este potencial é, sem dúvida alguma, melhor entendido a partir da capacidade interativa das redes de computadores e suas possibilidades de fornecer respostas diferenciadas de acordo com os rumos das experiências individuais, além de aproximar e integrar os diferentes sujeitos. (Menezes, 2003)
As formas de uso destas tecnologias, apesar de diversificadas, se concentram em dois grandes grupos: ferramentas de apoio à interação com objetos do conhecimento (simulação, por exemplo) e as ferramentas de apoio à interação social, imprescindível para a construção do conhecimento individual e coletivo (fórum, e-mail, chat etc). Entende-se por interação social do ponto de vista educacional, as interações que um indivíduo realiza com os vários parceiros de uma comunidade de aprendizagem (professores, colegas de classes, colegas mais adiantados, monitores, colegas de projetos, pessoas da comunidade), que tenham por objetivo o esclarecimento e o exercício da crítica, atividades fundamentais na aprendizagem.
Das ferramentas de apoio à interação social podemos destacar aquelas que permitem o aprendizado assíncrono (fórum, p.ex.). Estas têm como base o princípio do aprender em qualquer lugar e a qualquer momento. As redes de aprendizagem assíncronas apresentam vantagens tais como: (i) educação remota sem a fixação de tempo e espaço e (ii) estímulo à integração e cooperação entre os alunos de um curso. O fórum dá oportunidade aos estudantes de discussões interativas sobre tópicos que serão desenvolvidos em classe, além de permitir o aprendizado cooperativo entre os próprios estudantes e eliminar redundâncias facilitando o trabalho do professor.
Hoje mesmo sem o uso muito difundido da telemática na educação, estudantes já se apropriaram de seus recursos em seu dia a dia.
Em pesquisa com estudantes de engenharia na UFES (Cardoso, 2007) tivemos alguns resultados relevantes como:
1.    Usam a internet (90%), em média, 17 horas semanais em casa ou 2,5 horas por dia. Todos têm computador em suas residências.
2.    Usam o computador e a internet, frequentemente, para resolução de problemas particulares, em comunicação social para além do curso e lazer.Usam sistematicamente o computador e internet como apoio às atividades de estudante.
3.    Quanto ao trabalho em grupo, a maioria optou por afirmar que as dificuldades
que os colegas encontram ajudam a refletir melhor sobre os problemas a resolver. Constantemente fazem contatos com colegas para resolver dúvidas, na forma presencial. Após o uso de um ambiente de aprendizagem houve um aumento dos que optaram por resolver dúvidas com colegas via internet. Estudantes aprendem mais entre si do que na relação com professores ou professoras.

Então porque não usar estes recursos, comuns entre os estudantes, no interior da prática pedagógica da escola? Uma resposta possível está na abordagem ensino aprendizagem utilizada.

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Já que a escola não dá bola para a telemática na aprendizagem os jovens dão. Está no youtube (http://www.youtube.com/watch?v=ib3n8-CGRDk). Cinco jovens fizeram um cover de November rain do Guns n´Roses. Ferdinando Terada (guitarra), Breno Monteiro (piano), Fernando Campos (vocal), Laura Anderson (baixo) e Ian Koeller (bateria), cada um em lugares diferentes do mundo tocaram sua parte na música. Depois um deles fez a edição e a mixagem do vídeo e som. O título do vídeo: United Countries Cover Collaboration.
Como aprenderam? Interagindo.

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Ligo meu computador e já acesso a internet. Entro no endereço da minha universidade no mundo virtual. Uma tela se abre diante dos meus olhos. Identifico-me, utilizando minha webcam e minha senha de acesso. No mesmo instante, sou transportada para o ambiente tridimensional interativo em que estudo. Uma tela me pergunta qual será a identidade que irei utilizar. Escolho o nome, o sexo e a figura que irá me representar na tela, o meu avatar. Comando os seus ângulos de visão, suas emoções e a forma como vou fazer o controle de suas ações, por comando de voz, pelo mouse ou pelo teclado. Encarnada na figura que me representa no mundo virtual, passo pela avenida principal e subo as escadas para entrar no laboratório de projetos. Deixo para traz os sons dos carros e o barulho dos pássaros virtuais.
Dentro do ambiente, ouço as vozes das outras alunas que fazem parte de meu trabalho (Cinthya, do Canadá, Vichy, da França, Mayte, da Venezuela e Shizlan, da Finlândia) que me cumprimentam. Converso com elas sobre o que temos de fazer hoje. Logo chegam Lioness, o professor dinamarquês e Marita, a assistente espanhola. Convencionamos usar o inglês operacional da rede, já padronizado e com múltiplas formas de expressão (oral, escrita, gráfica etc.), para atender a todos da equipe, principalmente Vichy, que não escuta.
A nossa atividade nesse momento é terminar a construção do espaço virtual para apresentação de nossas pesquisas sobre educação e tecnologias.
(...) Antes que imaginem que tudo o que descrevi é ficção científica, é bom saber que experiências como essa e outras mais incríveis ainda ocorrem diariamente nos espaços educacionais existentes nos mundos virtuais. São aulas que podem ser realizadas na Lua, em Marte, em laboratórios de medicina, veterinária ou educação. Disciplinas em que os alunos exploram os ambientes do fundo do mar ou de regiões de difícil acesso, como um deserto ou o Everest. Tudo isso sem sair da frente da telinha do computador.
Centenas de universidades e colégios do mundo inteiro já possuem seus espaços de estudos virtuais tridimensionais. Não se trata de simples projetos de educação a distância, mas de novas concepções de educação, em que são utilizadas as mais atuais tecnologias digitais, para se aprender mais e melhor.


Este relato está no livro da professora da USP, Vani Moreira Kenski, Educação e tecnologias: o novo ritmo da informação, Papirus, 2007. Disponível em http://books.google.com.br/books

A prática pedagógica deve apontar para o uso apropriado das tecnologias que, sozinhas, não educam ninguém. Mudar a educação significa mudar a ação docente, mas a escola precisa mudar. As tecnologias podem auxiliar na reformulação da aprendizagem, mas não garantem a ruptura com a visão tradicional de ensino. As práticas pedagógicas baseadas no pensamento crítico e na construção cooperativa do conhecimento podem e devem acontecer com ou sem o uso das tecnologias (Kenski, 2000).


Referências
Kenski, V.M. Novas tecnologias, desafio para a escola, Jornal do Brasil. Caderno
Educação e trabalho. Rio de Janeiro, 12 nov 2000.
Menezes, C.S. et al, Formação de recursos humanos em telemática para
educação: uma experiência com educação a distância usando a internet.
Proceedings of the First Latin American Web Congress - IEEE, nov 2003. Santiago, Chile.
Piaget, J. Psicologia e pedagogia, 2ª ed., Rio de Janeiro: Forense, 1972.
Cardoso, E. P., Projetos de aprendizagem mediados por ambientes virtuais no ensino de Engenharia Elétrica, tese de doutoramento, PPGEE, UFES, 2007.

Texto apresentado durante a mesa redonda: "Inclusão Digital e Impactos da Tecnologia em Comunidades de Baixa Renda e Menor Poder Aquisitivo", organizada pelo PET (Programa de Educação Tutorial) Engenharia Elétrica. UFES, Auditório do CT I, 21 de novembro de 2011.

Edson Pereira Cardoso, novembro de 2011.

sábado, 19 de novembro de 2011

Marcos não reclama da vida

Marcos é um rapaz bonito de 30 anos que mora em Vila Velha, Espírito Santo. Tem um filho, de 10, que mora com a mãe em Belo Horizonte. Todo o dia 10, Marcos manda a mesada (1 salário mínimo) para o filho.

Tenho uma vida agitada, mas gosto do que faço. Moro com minha mãe e tenho muito carinho por ela, diz Marcos. A mãe, dona Manuela, tem personalidade forte e sabe como defender o filho. Não mexe com meu filho, senão viro bicho, diz sempre.

O filho da Manuela é um cara animado e falante. Fala pelos quatro cantos. Estudou até o ensino médio e tem uma cultura respeitável. Conversa bem sobre literatura, cinema e psicanálise. Filosofar? É com ele mesmo. Gosta de moda e por sinal se veste muito bem.

Relato a seguir uma semana na vida agitada de Marcos.

Segunda: durante o dia é divulgador em uma loja de um shopping na Praia da Costa. A partir das 18 horas é apoio/segurança em um jantar no Cerimonial Orla Camburi em Jardim Camburi em Vitória. Volta depois da meia noite para Vila Velha. Para isto toma dois ônibus (o popular bacurau). Chega em casa às duas horas da madrugada.

Terça: Acorda às 6 horas e vai para a loja Aquarius na Glória, em Vila Velha. Lá trabalha como apoio e divulgador. À noite, a partir das 19 horas é garçom na boite Octopus em Itaparica, Vila Velha. Sai a 1 hora e chega em casa às 2 da madrugada. 

Quarta: Às 8 horas está no shopping da Praia da Costa. As 13 se manda para a Glória para o serviço na loja Aquarius. A noite volta para a Octopus. Esta em casa às 2 da madrugada.

Quinta: a partir das 8 é apoio e divulgador na loja Veneza Modas na Glória. À noite, a partir das 20, é apoio no show do Exaltasamba no Parque de Exposição de Carapina, no município da Serra. Fica por lá até 1 hora da madrugada. Para voltar mais dois ônibus (bacurau) e depois de duas horas está em casa.

Sexta: durante o dia, é Papai Noel de uma loja no shopping na Praia da Costa. A noite é garçom no Bar do Luiz em Itapoã, Vila Velha.  

Sábado: de novo é Papai Noel no shopping. À noite garçom no Bar do Luiz.

Domingo: é dia de descanso. E como ninguém é de ferro se encontra com o namorado Alcides.

Em tempo: Marcos é soropositivo (HIV), epiléptico e cardiopata.

Para Marcos não há tempo ruim.  Não reclama da vida.

Edson Cardoso, novembro de 2011.

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Terra inacabada

Cayahuari Yacu, the jungle Indians call this country, the land where God did not finish Creation. They believe only after man has disappeared will He return to finish His work. (do filme Fitzcarraldo)

 O cineasta Werner Herzog conheceu a região amazônica quando esteve por lá durante as filmagens de Aguirre, der zorn gottes (Aguirre, a cólera dos deuses) em 1972 e Fitzcarraldo em 1982. Suas impressões sobre as filmagens de Fitzcarraldo e a convivência com a selva amazônica estão no documentário Burden of dreams (Aflição dos sonhos) dirigido por Les Blank  em 1982. Werzog, um alemão urbano, relata que esta região “é uma terra que Deus, se ele existir, criou com raiva. É a única terra onde a criação está inacabada ainda.”
As filmagens de Fitzgarraldo, realizadas em Iquitos  (na margem do rio Amazonas), no Peru, e a 2 mil kilômetros ao sul, próximo à fronteira com o Acre, foram conturbadas devido à navegação em rios com corredeiras e cachoeiras. Além disso, as chuvas e a convivência com os índios da região dificultaram os trabalhos da equipe de filmagens. Fitzcarraldo é a estória do visionário Brian Sweeney Fitzgerald (interpretado Klaus Kinski, um ator cheio de maluquices), que sonhava em construir na selva um teatro de ópera. Para levantar o dinheiro para a empreitada, decide entrar no lucrativo ramo de exploração da borracha. Consegue um navio e ruma ao impossível: em determinado momento do percurso dos rios com suas margens perigosas, repletas de índios violentos, haverá a necessidade "corriqueira" de arrastar, montanha acima, o navio a vapor. É a metáfora do filme. As adversidades das filmagens, a convivência complicada com Kinski (1) e os enfrentamentos com a natureza fizeram de Werzog  um homem pessimista e, em parte, explica o desabafo de que Deus criou aquela terra com raiva.
Fitzcarraldo se passa no auge do ciclo da borracha em fins do século XIX e início do século XX. Nesta época a região amazônica foi protagonista de um descalabro histórico: a estrada de ferro Madeira-Mamoré. Fitzcarraldo foi delírio.  Madeira-Mamoré, uma insensatez.
A saga começou em 1879, comandada pelo coronel estadunidense George Church e terminou com apenas 7,5 km construídos de estrada. O tratado de Petrópolis, assinado a 17 de novembro de 1903, com a Bolívia abriu as portas para a reativação do projeto Madeira- Mamoré, que permitiria que a borracha (e outras riquezas da floresta) descesse o Rio Madeira de trem, transpondo suas dezenove cachoeiras, e seguisse pelo rio Amazonas em navios a vapor até o Atlântico e, dali para a Europa e os Estados Unidos. O governo Afonso Pena, em 1907, assinou uma concessão para que outro estadunidense, Percival Farquhar, construísse a ferrovia em quatro anos. Farquahar era um negociador astuto e controlava ferrovias e outros negócios em diversos países. Com a borracha em seu apogeu, ele jogou duro com o governo e garantiu uma concessão de 69 anos que incluía a ferrovia e grandes seringais ao longo do rio Madeira (2).
A minissérie Mad Maria, da rede Globo (2005), baseada no livro homônimo de Márcio de Souza, descreve Percival como um crápula, além dos atributos acima. Tem sentido, já que a história do Brasil é recheada de falcatruas impostas pelos ditos (ou mal-ditos) países dominadores.
Os trabalhadores da construção da estrada formavam uma verdadeira babel: tinha brasileiros, alemães, estadunidenses (os gerentes e engenheiros), espanhóis, gregos, indianos etc. Dos EUA vieram os confederados, perdedores da guerra da secessão naquele país. Resultado da insensata aventura: para construir a estrada (com 336 km), em quatro anos, ligando Porto Velho a Guarajá-Mirim, mais de 30 mil trabalhadores foram hospitalizados e destes, 10 mil morreram infectados por malária, beribéri etc.
Com o fim do ciclo da borracha Madeira Mamoré ficou inútil poucos anos após sua inauguração em 1912.
E hoje, em 2011, o que acontece por lá?
Cito dois exemplos: o complexo hidrelétrico do rio Madeira, Santo Antônio – Jirau, e a estrada sobre o território indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis) na Bolívia.

TIPNIS

A construção de uma rodovia na Bolívia, com financiamento do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), colocou líderes indígenas bolivianos em pé de guerra com o presidente Evo Morales e com a construtora brasileira OAS. A estrada, que ligará os Departamentos (províncias) de Cochabamba e Santa Cruz, terá 306 km e começou a ser aberta no último dia 3 de junho. A obra está estimada em US$ 415 milhões, dos quais US$ 322 milhões vêem de financiamento do banco brasileiro. O foco da tensão é o trecho 2 da estrada, com 177 km de extensão e que atravessa o Território Indígena Parque Nacional Isiboro Sécure (Tipnis), uma reserva de 1,091 milhão de hectares onde vivem entre 10 mil e 12 mil nativos dos povos moxeño, yurakaré e chimane (Valor Econômico, em 09/08/ 2011).
Uma pergunta pertinente: neste caso o conglomerado OAS/BNDES hoje faz o papel de Percival Farquhar da estrada de ferro Madeira Mamoré?
Em setembro de 2011, depois de muita luta dos movimentos sociais bolivianos e muita violência policial contra os manifestantes, o presidente Evo Morales suspendeu as obras da rodovia prometendo um referendo popular sobre a continuidade do empreendimento. Junto com rodovia viriam sérios transtornos sócio-ambientais na  amazônia boliviana porque lá como aqui os ecossistemas são vilipendiados pela ganância produtivista.

Complexo hidrelétrico do rio Madeira

O complexo hidrelétrico do rio Madeira é formado pela Usina Hidrelétrica de Santo Antônio, a primeira das duas usinas hidrelétricas a serem construídas no Rio Madeira. Esta usina será localizada a 7 km de Porto Velho. A outra usina do complexo do Madeira (hidrelétrica de Jirau) ficará a 136 km da cidade de Porto Velho. Juntas, as duas usinas terão capacidade instalada de 6.450 MW, tornando-se o 3º maior pólo de geração de energia hidrelelétrica do Brasil, atrás apenas de Itaipu (14.000 MW) e Tucuruí (8.340 MW). Está previsto para 2013 o início de operação da hidrelétrica de Jirau. Na versão oficial, para a construção destas duas usinas, serão inundados 300 km2 de terra nas margens do rio Madeira.
Estes dois mega projetos foram aprovado durante o governo Lula com pressões de todo tipo contra IBAMA para a aprovação de licenciamentos ambientais. E contra a posição de várias entidades ligadas às questões ambientais. Num manifesto de 2006, em carta ao presidente, diziam mais de vinte entidades assinantes:
Os impactos sociais, ambientais e econômicos serão observados desde o alto Madeira até sua foz e também no rio Amazonas. A experiência da hidrelétrica de Tucurui, no  Pará, mostra que os impactos a jusante das grandes barragens amazônicas são tão sérios quanto os da área inundada. A retenção de sedimentos prejudica a fertilidade da várzea, afetando famílias de agricultores. A inviabilidade econômica do empreendimento e evidenciada pela previsão de gastos superiores a 18 bilhões de reais na construção e outros 10 nas linhas de transmissão. A insistência no modelo de construção de mega-hidrelétricas na Amazônia condena o pais a insegurança energética, pois se prevê que mais da metade da nova capacidade de geração venha das obras do Madeira e de Belo Monte, no rio Xingu – também esta uma obra sem comprovada viabilidade.
Nada evitou o ímpeto governamental / empresarial. E no futuro, como sempre ocorre com grandes projetos no Brasil, Porto Velho terá uma grande periferia pobre, desassistida e miserável formada por ex tra balhadores das hidrelétricas.

Deus ainda não voltou à Amazônia para terminar seu trabalho.
Os homens continuam lá. Eles ainda não saíram.

(1)    Herzog dirigiu, em 1999, o documentário Mein liebster feind – Klaus Kinsk (Meu melhor inimigo) em que relata sua relação tempestuosa e afetiva com Klaus Kinsk.
(2)    Rose Neeleman e Gary Neeleman, Trilhos na selva: o dia a dia dos trabalhadores da ferrovia Madeira-Mamoré, BEI Comunicação, 2011.

 Edson Pereira Cardoso, novembro 2011

domingo, 23 de outubro de 2011

Assédio sexual em metrô

Deu na Folha de São Paulo em 23 de outubro de 2011.

LAURA CAPRIGLIONE
DE SÃO PAULO
OLÍVIA FLORÊNCIA
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA

X. nunca conseguiu dar risada de um quadro do humorístico "Zorra Total" (TV Globo) que se passa num vagão do metrô. "Sempre achei um desrespeito", diz a jovem de 21 anos, aparência de 15.
Mas, agora, X. não pode nem sequer ver as personagens "Valéria" e "Janete". Ela acusa um advogado de 46 anos de tê-la atacado sexualmente em um trem no metrô, às 18h40 do último dia 14.
"A gente que trabalha sabe o empurra-empurra que é pegar o metrô na ida e na volta, e ainda por cima no horário de pico. Aí, eles põem essa brincadeira ridícula. Só quem já sentiu na pele a humilhação de ter um sujeito se esfregando contra o seu corpo sabe a tristeza que é. Tem gente que acha engraçado, mas eu, se eu pudesse, tirava [o quadro] do ar", disse X.
Baixinha (1,59 metro) e magricela, resultado da dieta sem carne que segue desde criança, quando assistiu a um documentário sobre matadouros, X. saía do trabalho no centro de São Paulo, depois de uma jornada de nove horas, rumo à sua casa, em Itaquera (zona leste). Trajava calça jeans e blusa de mangas compridas.
Nesse trajeto, a chamada Linha Vermelha do metrô apresenta densidade máxima (10,9 pessoas por metro quadrado no horário de pico). É a mais congestionada do sistema paulistano.

"ELE VINHA"
Segundo X., o assédio iniciou-se tão logo ela entrou no vagão lotado, o advogado encostando-se em seu corpo:
"Eu cheguei a pensar que fossem outras pessoas que estivessem empurrando. Eu tentava me esquivar e ele vinha. Eu saía e ele vinha. Toda hora. Eu tinha ainda a preocupação com a bolsa, para não roubarem. Então, uma hora, não tive mais para onde ir, porque ele colocou as mãos nos ferros de cima e me apertou com o corpo."
Um rapaz de 24 anos, comerciário, que estava no mesmo vagão, flagrou o instante em que X. desmaiou: "Ao olhar para trás, ela viu o pênis do advogado fora da braguilha da calça do terno".

GRITOS NA ESTAÇÃO
"Eu fiquei travada, eu parei, eu não tive reação. Sei lá o que estava passando pela minha cabeça." Assim a moça descreveu a espécie de blecaute que sofreu.
Foi o jovem comerciário quem segurou as portas do vagão na estação Belém, para que X. fosse retirada, e que, aos gritos, chamou a segurança do metrô, que impediu o advogado de seguir viagem tranquilamente.
"O homem alto e engravatado saiu do trem ainda com tudo para fora, o cinto solto e a braguilha aberta", disse o rapaz na Delpom -Delegacia de Polícia do Metrô.
X., que pretende tornar-se psicóloga, só chorava. "Por ele ter saído do jeito que saiu e por mim, porque eu sou mulher. Eu nunca imaginei que fosse acontecer isso comigo, um monte de gente perto. Muita vergonha, nossa."

INADEQUADO
No final de 2004, o Metrô realizou uma pesquisa com usuários, que entre outros quesitos, avaliou as ações da companhia para prevenir o assédio sexual nos trens.
Para 21%, nada era feito -serviço considerado inaceitável-; 45% disseram que a companhia só agia quando a vítima conseguia informar um funcionário -nível considerado inadequado.
Sete anos depois, o Metrô diz não dispor de dados atualizados sobre níveis de satisfação (ou insatisfação) em relação à prevenção de assédio.
Em nota, afirma que, de janeiro a setembro de 2011, foram registradas na Delpom dez casos de ato obsceno e 43 casos de importunação. "No mesmo período, o Metrô transportou 807 milhões de passageiros."
Para Marisa Mendes, 53, do sindicato dos metroviários, o que há é uma "imensa subnotificação, porque as mulheres molestadas se sentem humilhadas e desassistidas demais". Segundo a sindicalista, os ataques decorrem da superlotação dos trens e da falta de investimento em segurança, que poderia intimidar os assediadores.
Marisa responsabiliza também o que chama de "banalização do assédio, propiciada por um tipo de humorismo que faz graça com a dor das mulheres". Refere-se ao quadro do "Zorra Total".
X. continua pegando o metrô para ir e voltar para o trabalho. Não mais do mesmo jeito, contudo: "Nossa, eu estou parecendo louca. Fico olhando para trás o tempo todo. Tenho cisma de alguém atrás de mim. Se tem um homem atrás de mim, eu saio. Eu não consigo evitar". X. vai marcar uma consulta com a psicóloga da empresa em que trabalha.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Beatrix

Deu na imprensa

Após pedir a suspensão de um comercial de lingerie com a modelo Gisele Bundchen por considerar a propaganda agressiva à mulher, a ministra da Secretaria de Políticas para as Mulheres, Iriny Lopes (PT), se envolveu em mais duas polêmicas. Ela enviou um ofício à TV Globo sugerindo que uma personagem violentada pelo marido na novela "Fina Estampa" procure o Serviço de Atendimento à Mulher (180), e que o agressor seja encaminhado aos centros de educação e de reabilitação para agressores, previstos na Lei Maria da Penha. Na quarta-feira, a pasta de Iriny enviou um ofício à emissora e ao autor da novela, Aguinaldo Silva, mostrando preocupação com o personagem Baltazar. Na trama, ele humilha e bate na mulher, Celeste. Em ofício enviado à emissora, a ministra Iriny Lopes sugere que Celeste, que resiste em denunciar o parceiro dizendo que o ama, procure a Rede de Atendimento à Mulher, por meio do telefone 180. Segundo a ministra, o alerta na telenovela, como em outras que já trataram do tema da violência à mulher, se faz importante em um país com um índice de quatro mulheres agredidas a cada dois minutos - 1,051milhão por ano (grifo do autor).



Em 2007, Beatrix era casada com Bento. Ela era uma mulher muito bonita e ele um ciumento doentio. Com um problema: ele era alcoólatra. Morava em Estrela Dalva, um dos 289 bairros de Cariacica, Espírito Santo. Ela era cabeleireira e ele pedreiro.

Durante a semana Bento era um anjo. Mas a partir da sexta o diabo entrava no corpo com força. Saía do serviço e começava beber todas. Onze da noite chegava em casa e reclamava de tudo. Da comida, da cama, da roupa. Beatrix vinha do serviço as dez e tinha que ouvir. Queria que ela ficasse em casa cuidando da casa e da filha Perla. Mas como não trabalhar fora? Só com o que ele ganhava não dava. E quando ela reclamava da situação o pau comia. Bento batia em Beatrix até cansar.

No sábado e domingo o drama para Beatrix se repetia. Sábado ela ficava no salão de beleza até às sete da noite. Bento chegava bravo e na presença de Perla o show se repetia. E toma surra de novo.

De uma amiga de Beatrix:

Amiga: porque você não denuncia teu marido na delegacia de defesa da mulher. Vai lá menina. Aqui perto, em Campo Grande, tem uma. É a lei Maria da Penha. 

Beatrix: sei não, amiga, fico sem coragem.  E depois? Aí que ele me arrebenta.

Amiga: e tem mais, além de te espancar sabia que sustenta outra com casa e tudo aqui no bairro?

Beatrix: filha da puta! Agora tá explicado.

A lei Maria da Penha, de que trata das punições das agressões contra a mulher, foi sancionada pelo Presidente da República em agosto de 2006.

Beatrix criou coragem para denunciar o marido. Numa sexta entrou num ônibus e foi até Campo Grande, e conversou com a delegada. Feito o registro a delegada disse que iria até Estrela Dalva intimar o marido.

Nem foi preciso a intimação. O destino reservou uma tragédia para Beatrix.

Bento apareceu furioso no sábado à noite. E bêbado, como sempre, disse:

Bento: olha aqui sua puta, hoje te vi conversando com um homem em frente ao salão. Cê tá pensando que sou trouxa?

Beatrix estava conversando sim, mas era com um amigo. O Escobar.

Beatrix: era um amigo, ô babaca. E você? Todo mundo sabe aqui no bairro que você sustenta uma vagabunda. Com casa e tudo. Você surra ela também?

Aí o diabo tomou conta de Bento. Primeiro golpe: um murro no nariz da mulher. Segundo golpe: um chute no estômago. Beatrix quase desmoronou com o chute. Com o nariz ensanguentado criou forças e já curvada viu um vergalhão de aço encostado na pia da cozinha. Criou coragem e numa fúria canina lascou o vergalhão na cabeça do marido. Bento desmoronou no chão já desmaiado. A fúria, agora sanguinária, aumentou. Beatrix pegou uma faca que estava na pia abaixou a calça do homem e decepou testículos e pênis de uma só vez. Ato contínuo jogou a tralha toda pela janela. Bento estrebuchou, mas Beatrix não satisfeita enterrou a faca no peito do moribundo. Duas vezes, até comprovar que estava morto. Um banho de sangue. E Beatrix, como uma besta, urrou de vingança e ciúmes. A filha, Perla, não presenciou a tragédia, felizmente. Foi passar a noite na casa de uma amiguinha.

Após o ocorrido, Beatrix desapareceu na escuridão da noite. Apresentou-se à polícia uma semana depois.

Foi a julgamento e condenada a 10 anos de prisão.

Na penitenciária Beatrix sempre teve o apoio do Escobar. Tornaram-se namorados e já com um ano de convívio ela se engravidou de Ezequiel.

Após quatro anos de prisão e bom comportamento, Beatrix está livre sob condicional.

Hoje, a família Beatrix, Escobar, Perla e Ezequiel vivem em Campo Grande, outro bairro de Cariacica. Ela tem um salão de beleza e ele é sargento da Polícia Militar.

Vivem bem, em harmonia e felizes como deve ser.



Edson Pereira Cardoso, outubro de 2011








quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Desvinculação amorosa

Alba Lívia é filha de Alma. Alma é esposa de Tobias. Juntos tiveram quatro filhos bem criados e educados. Não diria que Alma seja uma matriarca, mas o matriarcado sempre rondou pela sua família. A mãe de pulso forte, a mulher que não tem muitas dúvidas e sabe aonde quer chegar.

Alba hoje tem uma vida estável. Claro, circunscrita às fronteiras freudianas do que seja estável. Trabalha muito, mas penso que já nasceu agitada. Não diria com o diabo no corpo. Diria o corpo a serviço da cabecinha endiabrada. Alfredo que o diga.

Alfredo é o namorado de Alba. Gosta muito dela e a compreende. Ele pensa assim: se eu não entender a cabeça desta mulher e não aceitar 90% do que ela pensa não consigo ficar com ela. É um caso de amor destrambelhado. Um condenado.

A relação Alba-Alfredo estava em crise. Já não estavam se entendo. Será que era a desvinculação amorosa? Este palavrão é o que intelectuais respondem por separação. O sonho acabou. A casa caiu, mas Alfredo não desistiu.

Pediu socorro para Alma. Quem sabe a mãe ajudaria. Foi lá na casa de Alma e foi recebido por Tobias. Na sala o pai esta tomando uma cachaça.

- Vem cá, Alfredo, toma umazinha comigo. Esta é da boa.

E emendou

- Alma está tomando banho. Por isso que estou com este copo. Se me pega assim ela vai chutar o balde. Mas toma aí.

Quando Alma deu sinal de aparecer na sala Tobias correu para esconder a cachaça que tomava.

- Olá Alfredo, que surpresa! disse Alma.

- Sabe o que é Dona Alma, vim pedir ajuda, respondeu Alfredo.

- Minha relação com Alba não está nada agradável. Ultimamente ela anda muito agitada e mal humorada. Não sei se é o trabalho dela ou se tem a ver com nossa relação.

Conversaram mais um tempo até combinarem uma conversa a três na casa de Alba. No dia combinado Alfredo buscou Alma. Já no carro ela disse assim:

- Sabe Alfredo, quando mais nova eu resolveria este caso de outra forma. Alba sempre foi deste jeito: de uma teimosia difusa e calada. Às vezes eu resolvia com o chicote mesmo. Gosto muito dela, mas tem hora que me tira do sério.

Na casa de Alba a conversa se deu assim:

Alma: minha filha, o Alfredo me disse do que vocês dois estão passando. A versão dele. Agora gostaria de ouvir a tua.

Alba: gosto muito dele, mamãe. No início foi muito bom, mas com o tempo descobri diferenças entre nós.
 
Alfredo:diferenças, Alba? Você já refletiu no que se tornou nossa relação? Nem nos fins de semana está disponível. É só trabalho, trabalho e trabalho.

Alba: olha aqui, Alfredo, posso até concordar com você sobre isto, mas não vem dar uma de santo não.

Alfredo: como assim?

Alba (nervosa): cê tá pensando que não percebo quando toca o teu celular. Você se afasta de mim para conversar. E mais, já vi as chamadas recebidas. Diga-me quem são: Clara, Ana Elisa e Elizângela? No teu trabalho não conheço ninguém com estes nomes. De anjo você não tem nada, ô cafajeste!

E tempo esquentou. Alma no meio do tiroteio pensou: briga de casal e eu aqui fazendo o que, meu Deus?

Alma: meninos será que não dá para discutirem com menos baixaria? Alba tenha paciência com o Alfredo. Você sabe como são os homens.
 
Alba: sei como são os homens, mamãe, mas não sou besta não. E ademais tenho mais o que fazer na vida.

Alma saiu da reunião pessimista. Não foi a primeira separação da filha. Com um pouco de desapontamento deixou o caso para Deus resolver. Não tinha mais o poder de alterar o destino da filha.

Alba e Alfredo ficaram juntos por mais um mês. Um dia ela o traiu com outro rapaz que conhecia já de algum tempo. Arrependeu-se. A partir daí resolveu pela separação. Alfredo continua sem entender nada do que significa o sexo em sua vida.

Alba desvinculou aos poucos: foi retirando sua energia libidinal da relação que vivia com Alfredo e, com o passar do tempo, desistiu do objeto, declarando-o morto e oferecendo ao ego o incentivo de continuar vivendo (Ingrid Luiza F. Viégas).


Edson Pereira Cardoso, outubro de 2011