1. Leilão de baterias: quem paga a conta?
2. Guimarães Rosa mora lá em casa
3. Helena Ignez
4. Trapaça digital: para onde vai a música
5. Corte emergencial por excesso de energia elétrica?
6. Como perder um homem em dez passos
7. Grande Sertão: Veredas
8. O momento em que ex-bailarina com Alzheimer lembra seus movimentos em 'Lago dos Cisnes'
9. Legados ao vento, Ruy Castro
10. O motivo para a vergonha de ser brasileiro
11. Héctor G. Oesterheld & Hugo Pratt: Sargento Kirk (HQ)
12. Oração para desaparecer
13. Dez documentários brasileiros premiados para assistir no streaming
14. Moacir Santos
15. Prêmio Grande Otelo 2026 - Academia Brasileira de Cinema
16. Metade dos brasileiros das classes D e E não conviveu com pai
17. Medicina moderna e eutanásia
18. Entre utopia e distopia
19. Das cinzas para a vida: Vik Muniz & Museu Nacional
20. Marilda Sotomayor e a teoria dos jogos
21. Aglaja Veteranyi
22. Invasão da Venezuela em 03.01.2026
23. O berro do boi: a queda e a ascenção dos imãos Joesley e Wesley Batista
24. Hélio Oiticica
25. Cinismo judicial: STF e Olga Benário
26. Jornalista desafia mitos da MPB em trilogia sobre Gil, Caetano e Chico Buarque
27. A captura de um neonazista latino
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1. Leilão de baterias: quem paga a conta?
Leilão de baterias vive indefinição sobre quem paga a conta, e parte do setor vê adiamento como certo. Lei prevê que sistemas de armazenamento sejam custeados só pelos geradores. Associações tentam derrubar dispositivo e dividir custos com consumidores.
Thiago Bethônico, fsp, 28.08.2026
Aguardado há anos pelo setor elétrico e mesmo com interesse recorde de grupos privados, o primeiro leilão de baterias do Brasil já nasceu ameaçado. Previsto para dezembro deste ano, o certame está hoje na fase de consulta pública do edital, mas já há quem dê o adiamento do processo como certo.
A incerteza é fruto do que vem sendo tratado por integrantes do setor como uma espécie de "pecado original": a determinação de que as baterias serão custeadas só pelos geradores de energia, não pelo sistema geral. Nesse último caso, o custo seria repassado aos consumidores via encargos na tarifa.
A regra foi incluída em lei sancionada em 2025. No entanto, a Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) ainda não definiu como será o rateio desse encargo, ou seja, quais geradores vão dividir essa conta e quanto cada um deverá pagar. É essa indefinição, somada à insatisfação de parte do setor elétrico com a medida, que pressiona o leilão contra o calendário.
O argumento dos representantes dos setores de baterias e de geradores de energia eólica e solar é que o certame será na modalidade de reserva de capacidade — contratação de potência extra para garantir abastecimento em caso de necessidade e que isso é um requisito do sistema como um todo, não só de alguns atores. Por isso, dizem, a regra deveria ser a mesma de outros leilões do tipo, nos quais o custo é compartilhado por todos.
Nesse modelo, o consumidor acaba pagando parte do preço via conta de luz. O valor da contratação entra na soma de encargos do setor elétrico e é incorporado à tarifa. O cliente arca proporcionalmente ao consumo. Por outro lado, defensores da regra atual dizem que ela foi pensada para atribuir os encargos a quem fez um leilão de baterias ser necessário: os próprios geradores.
Pessoas do setor afirmam que, mesmo se esse desenho regulatório prevalecer, os consumidores também pagarão por isso de forma indireta. Primeiro porque esse encargo acaba sendo repassado no preço da energia contratada, já que os geradores não vão simplesmente absorver um custo maior.
Além disso, o preço será embutido na oferta das empresas no leilão, cobrando mais caro para viabilizar os projeto; o que encarece o custo do sistema também.
O objetivo do certame é ampliar o leque de recursos de segurança energética e ajudar a resolver outros problema do setor, como os cortes impostos a geradores de energia solar e eólica (o "curtailment") devido ao desencontro entre oferta e demanda.
As baterias vão poder armazenar o excesso de energia renovável para disponibilizá-la em momentos de necessidade.
A contar pelo volume de iniciativas cadastradas para participar do leilão, há interesse de sobra do setor privado. Foram mais de 6.000 https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/08/leilao-de-baterias-do-brasil-tem-recorde-de-cadastros.shtmlprojetos registrados, que somam quase 300 GW em potência —mais do que toda a capacidade instalada do sistema elétrico brasileiro hoje.
A perspectiva é de que a competitividade está garantida. A dúvida é se o leilão também. Especialistas e associações do setor elétrico ouvidos pela Folha consideram significativo o risco de o leilão ser atrasado ou judicializado. Alguns já dizem acreditar que a data precisará ser alterada.
A própria diretoria da Aneel reconheceu que o debate sobre o rateio dos encargos ainda gera insegurança jurídica e é a principal controvérsia em disputa. No entanto, o diretor-geral da agência, Sandoval Feitosa, disse que pretende concluir a regulamentação sobre o tema antes do leilão.
Na segunda-feira (24), a área técnica da agência propôs que todos os geradores, incluindo hidrelétricas e térmicas, participem do rateio. Representantes das termelétricas criticaram a proposta e já falam em judicialização antes mesmo do leilão.
Entidades que representam empresas de baterias, como Absae (Associação Brasileira de Soluções de Armazenamento de Energia) e a Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica), argumentam que a regra atual — que deixa os custos para os geradores— é anti-isonômica e fere a neutralidade tecnológica.
Para elas, a medida penaliza uma tecnologia específica que presta o mesmo serviço sistêmico que as outras. "A gente teme que essa regra crie uma judicialização do leilão e coloque em risco a implantação dos projetos", diz Fabio Lima, diretor-executivo da Absae.
"Talvez o maior risco não esteja nem na chance de o leilão não acontecer, mas em um tratamento complexo desse tema. Isso prejudica a assinatura dos contratos; aí a implantação atrasa e o sistema fica crítico", acrescenta.
Marcello Cabral, diretor de novos negócios da Abeeólica (Associação Brasileira de Energia Eólica), afirma que há risco até de suspensão do leilão caso a regra atual seja mantida. "Essa judicialização pode comprometer a previsibilidade do certame e, no limite, inviabilizar a realização. Por isso, é fundamental resolver o tema antes da publicação definitiva do edital. Mas a Aneel também está de 'mãos atadas', pois foi a lei que atribuiu essa regra descabida."
A solução defendida por algumas associações é a aprovação de um projeto do deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania-SP) que revoga o trecho da lei que obriga só os geradores a pagarem pelas baterias. Com isso, o armazenamento seria tratado como as demais soluções de capacidade, com custo dividido por todos.
Fabio Lima argumenta que a revogação do dispositivo não aumentará o custo da conta de luz para o consumidor final. Segundo ele, a entrada das baterias no sistema tende a gerar um efeito líquido negativo na tarifa (ou seja, baratear) devido ao ganho de eficiência. "Cada gigawatt de bateria instalado no sistema é menos 1 gigawatt de térmica que precisa operar na ponta", afirma.
A diretoria da Aneel, contudo, se posiciona de forma contrária.
Avaliação semelhante é feita por Paulo Pedrosa, presidente da Abrace (Associação Brasileira de Grandes Consumidores Industriais de Energia e de Consumidores Livres). Segundo ele, os consumidores lutaram muito para não pagar os custos dos cortes que os geradores sofrem em função da falta de mercado. Por isso, não é justo que os consumidores paguem um sistema que vai reduzir o prejuízo desse setor. "As baterias, diferentemente das térmicas, reduzem o curtailment quando carregam. Portanto, reduzem as perdas dos geradores pela falta de mercado. É justo que eles paguem na proporção do benefício que recebem."
No setor elétrico há também quem se preocupe com outro efeito do projeto de lei: a inclusão de jabutis (dispositivos sem relação direta com o tema principal). Para algumas pessoas, se o PL ganhar cara de "necessário" para viabilizar o leilão, isso pode ser um prato cheio para criação de mais subsídios e benesses no Congresso.
ENTENDA O IMBRÓGLIO NO LEILÃO DE BATERIAS
O que está em debate?
Lei aprovada em 2025 determinou que os custos da contratação de baterias em leilão de reserva de capacidade serão bancados só pelos geradores de energia
Por que isso é questionado?
Entidades que representam empresas de baterias e companhias do setor de geração afirmam que essa regra é anti-isonômica e fere a neutralidade tecnológica, já que outros leilões de reserva de capacidade repassam esse custo ao sistema geral
Qual argumento de quem é a favor da regra atual?
Especialistas e associações que representam consumidores defendem manter a regra atual. Um dos argumentos é que não é justo dividir esse custo com os consumidores, já que o leilão também resolve um problema criado pelos próprios geradores, o excesso de energia
Como os consumidores são afetados?
Se a regra atual for derrubada e o custo do leilão de baterias for repassado ao sistema geral, o consumidor acaba pagando parte dessa conta via tarifa. O mecanismo é o mesmo de outros leilões do tipo: o valor entra na soma de encargos do setor elétrico e é incorporado à conta de luz. Mas pessoas do setor afirmam que, mesmo se o encargo ficar só com os geradores, os consumidores também pagarão, ainda que de forma indireta
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2. Guimarães Rosa mora lá em casa
Nina Horta, fsp, 20.07.2006
Como podia querer dela o que não tinha? Não é alemã nem russa, é deste Brasil de fronteiras difíceis de cruzar.
NO COMEÇO , pensei que ela fosse surda ou boba, ou surda e boba ao mesmo tempo. Não respondia e, de repente, aparecia do meu lado sem fazer barulho, que nem índio. Uma cabeleira de crente sem ser crente, muito limpa. Às cinco horas, banho tomado, cabelo preto rebrilhando. Não me entendia e me entende pouco até hoje. Fui aguentando...
"A senhora quer auga?" Gente, a mulher que não sabia de nada me oferecendo alga como um sushiman? Eu também não entendia nada, pior que ela. Se queria maracujá com cabronato, tijolo feito com mandioca, ou uma farofa de feijão de arranca.
Afinal eu percebi, ela já percebera há muito tempo, que éramos de tribos ou shoppings diferentes. Fui ficando meio sem graça, como podia querer dela o que não tinha, o que nunca havia visto? Afinal, não é alemã nem russa, é deste Brasil mesmo de fronteiras difíceis de cruzar. Por que essa coisa de querer prender as pessoas num mundo pequeno? Há que se arranjar um jeito de vivermos juntas. Ela, pior que eu, incrédula com meus usares.
"De manhã é assim. Um pratinho maior, um pires e uma xícara." (E como me deu sede, eu peguei meu copo de corno lavrado, que não quebra nunca, e fomos apanhar água num poço...)
Pedi que fosse ao supermercado e comprasse umas lasanhas e pizzas prontas, um estrogonofe. Eu iria comer no trabalho, ela não precisava cozinhar, era só esquentar no microondas. Não foi comprar. Quando alguém trouxe, não comeu (... Tinha uma venda de roça, no começo do cerradão. Vendiam licor de banana e de pequi, muito forte, geléia de mocotó, fumo bom, marmelada, toucinho... A tanto, mesmo sem fome, providenciei para mim uma jacuba, no come-calado... A saudade minha maior era uma comidinha guisada: um frango com quiabo e abóbora-d'água e caldo, um refogado de caruru com ofa de angu... De feijão, carne-seca, arroz, Maria-Gomes e angu...)
"Mas você chegou a esta idade sem saber arrumar uma cama? Primeiro, este lençol com elástico é para forrar o colchão, depois este, que é para forrar o lençol que forra o colchão, e depois este outro, que é para cobrir a gente." Ela ria baixinho, me olhando bem no olho e eu não percebia que a ridícula era eu. "- E como você dormia?"
"Numa cama de vara de vaqueta, colchão de junco que a gente mesmo fazia, a roupa de cama de argodão, feita por minha mãe mesmo na carrentilha, depois começou uns cobertorzinho marrom, drombém..."
"Drombém? Mas isto é marca? Ou é nome de lã?"
"Sei não. Acho que no frio o argodão não dava conta e com os cobertor a gente drombém" (dorme bem, entendi.)
Não é lá um Guimarães Rosa, não leva jeito de Diadorim, mas... (Pessoa limpa pensa limpo. Eu acho.) Vê muita Coca-Cola e água-de-coco de caixinha, mas não chega perto. (Acinte bebi água de dentro dum gravatá em flor.)
Ela, o marido e os filhos estão aqui para trabalhar e ganhar dinheiro e voltar para o sertão. De vez em quando, ele falta 15 dias no serviço e vai correndo dar uma empurrada na casa que está fazendo. (... Me descansei, comi uma coalhada muito fria. Comi bolo com cidrão. Bebi bom café...) "E como anda a casa?"
Fica de olho parado e até eu enxergo (O comum: essas garças, enfileirantes, de toda brancura; o jaburu; o pato verde, o pato preto, topetudo; marrequinhos dançantes; martim-pescador; mergulhão; e até uns urubus, com aquele triste preto que mancha...)
Temos que inventar um jeito de convivência, alargar os mundos estreitos. (Amigos somos, nonada... Existe é homem humano. Travessia.)
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3. Helena Ignez
Helena Ignez e o corpo em estado de atuação vídeo
Helena Ignez e o legado de uma artista contemporânea
Helena Ignez: muito além da musa
Helena Ignez e a arte de dirigir
Helena Ignez: Belair e o sonho de reinventar o cinema brasileiro
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4. Trapaça digital: para onde vai a música
"A Grande Trapaça Digital": saiba como as big techs estão acabando com a música!
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5. Corte emergencial por excesso de energia elétrica?
ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) determina corte emergencial por excesso de energia pela segunda vez em 2026
Mecanismo aprovado pela Aneel em 2025 busca evitar a sobrecarga do sistema e o risco de apagão. Distribuidoras foram comunicadas no sábado de que precisarão interromper carga por 3 horas e meia.
Fernanda Brigatti & Thiago Bethônico, fsp, 23.08.2026
O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) determinou o corte na geração distribuída de energia neste domingo (23) para evitar a sobrecarga da rede. É a segunda vez que o órgão aciona o mecanismo neste ano para equilibrar a carga de energia no sistema.
O sistema elétrico precisa manter equilíbrio permanente entre a energia produzida e a consumida. Quando a geração fica muito acima da demanda, aumenta o risco de desligamento automático de equipamentos.
O plano emergencial atinge usinas de geração distribuída do tipo 3. Essa categoria inclui pequenas centrais hidrelétricas, usinas a biomassa e fontes eólicas e solares de menor porte ligadas às distribuidoras. Geralmente, esses empreendimentos atuam como agentes de geração e comercialização.
As distribuidoras de energia foram informadas no sábado (22) de que seria necessário acionar o plano de gestão de excedentes. O ONS não tem controle sobre essas fontes e, por isso, precisa acionar as companhias locais. Segundo o pedido, os cortes deveriam começar às 11h e seguir até as 13h30.
O corte deste domingo não envolveu a chamada MMGD (micro e minigeração distribuída), que é a modalidade em que o próprio consumidor residencial ou empresarial produz sua energia e pode vender o excedente para o sistema. No Brasil, o tipo mais comum é com painéis fotovoltaicos nos telhados. No entanto, o acionamento do plano emergencial está diretamente ligado a esses projetos. O aumento no volume dessas instalações domésticas ou de pequeno porte tem sobrecarregado a rede de distribuição. "O recurso é indicado para manter o equilíbrio do sistema frente à geração da micro e minigeração distribuída, combinada a uma carga menor por causa do fim de semana", disse o ONS em comunicado.
A MMGD vive uma expansão acelerada no Brasil, saltando de menos de 1 GW em 2018 para mais de 50 GW agora. Em função desse crescimento, a modalidade passou a ser responsabilizada por agravar problemas do sistema elétrico, como o "curtailment" (o corte em fontes renováveis).
O ONS não divulgou quais fatores provocaram o acionamento do plano emergencial. Uma das hipóteses tem a ver com o clima e o dia. O domingo foi ensolarado em muitos locais e com temperatura amena. Isso aumenta a produção de energia solar sem que a demanda acompanhe. Por ser inverno, o uso de ar-condicionado é menor. Por ser domingo, o consumo é baixo.
A Abradee (Associação Brasileira de Distribuidores de Energia Elétrica) disse em nota que é "urgente e necessário o aprofundamento de políticas públicas que possam reorganizar o sistema e solucionar os gargalos existentes para evitar apagões".
O mecanismo acionado para este domingo faz parte de um plano emergencial de cortes implementado pelo operador após aprovação pela Aneel (Agência Nacional de Energia Elétrica) em 2025. O operador já realiza cortes de geração há anos, em eólicas e em grandes usinas solares, prática chamada de curtailment. Em 2025, o Brasil deixou de usar cerca de 20% de toda a energia solar e eólica que poderia ter sido produzida por suas usinas, e os cortes são o principal motivo.
Essas grandes produtoras são integradas ao sistema e, por isso, o ONS consegue manejar a carga. Com o aumento da geração distribuída nos últimos anos, foi necessário estender a regulação para esses produtores de menor escala, que são ligados à rede por meio das distribuidoras.
O ONS prevê começar a testar ainda neste ano cortes automáticos de geração distribuída solar remota para proteger o sistema. O piloto deve afetar a geração por fazendas solares, aquelas que produzem energia elétrica em um lugar e depois vendem essa produção por meio do crédito a consumidores.
CORTE ALERTA SOBRE O SISTEMA ESTAR NO LIMITE
O episódio deste domingo é considerado relevante por especialistas, porque indica que foi preciso acionar as últimas ferramentas à disposição para garantir a segurança do sistema elétrico nacional.
Barbara Rubim, presidente do conselho da Absolar (Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica), lembra que existem dois níveis de corte hoje. O primeiro envolve a redução na geração das usinas centralizadas, empreendimentos sobre os quais o ONS exerce controle. São usinas solares e eólicas de maior porte ligadas à rede de transmissão e que estão no centro das discussões sobre o curtailment.
O segundo nível é cortar a geração via distribuidoras, como no plano acionado neste domingo. Esse procedimento atinge usinas ligadas à rede de distribuição.
"O terceiro nível é o apagão. É como se tivéssemos três camadas, e acionamos duas. O risco é continuar tendo cada vez mais geração e chegar um momento em que os cortes passíveis de serem realizados não são suficientes para igualar a energia ofertada com a energia demandada. Se isso acontecer, vamos ter um apagão no país", diz Barbara.
Segundo ela, o corte emergencial deste domingo acende um alerta e é sintomático da necessidade de olhar para o planejamento do setor de maneira conjunta. "Se já tivéssemos realizado um leilão de baterias, feito um trabalho transversal entre vários ministérios para atrair carga — seja via data centers, seja industrialização —, ou tomado medidas estruturantes para estimular a adoção de baterias pelos consumidores, sem dúvida alguma não estaríamos passando por essa necessidade de corte."
A ABGD (Associação Brasileira de Geração Distribuída) também diz que o episódio reforça a necessidade de o sistema elétrico brasileiro avançar em planejamento, flexibilidade, armazenamento e gestão da demanda. "Restrições emergenciais podem ser necessárias para garantir a segurança da operação, mas não podem se transformar em solução estrutural nem devem servir para atribuir à geração distribuída, de forma generalizada, a responsabilidade pelos desequilíbrios do sistema", afirma Christino Áureo, vice-presidente de Relações Governamentais e Institucionais da entidade.
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6. Como perder um homem em dez passos (de sucesso)
Tati Bernardi, 20.08.2026
Toda vez que a minha filha precisa se despedir da avó paterna, que mora no Rio de Janeiro, passa alguns dias tristíssima e pede para dormir abraçada comigo.
Também resmunga chorosa quando a minha mãe vai embora, mas sabe que pode revê-la logo, pois moramos perto. No último domingo, ainda com saudades da avó carioca, disse o seguinte: "Pede pro papai demorar um pouco, quando eu fico assim eu preciso de mulher".
Achei a frase "eu preciso de mulher" curiosa, um tanto deslumbrante, e quis explorar mais sentidos possíveis. Então ela explicou que adora estar com o pai, os meninos da escola, os avôs, mas que estar entre mulheres, fosse eu, as avós, a madrasta ou as amiguinhas da mesma idade, dava a ela uma sensação mais parecida com "descansar no sofá, tomando leite com chocolate e ganhando massagem no pé".
Sempre me senti mais radiante e aconchegada na presença de mulheres, e a maturidade ainda me mostrou como seria inviável atravessar demissões, divórcios e lutos sem estar cercada por elas. Pensando nisso, topei participar de um evento criado por e para mulheres. Diante de uma plateia formada por jovens meninas iniciando suas carreiras, eu e outras colegas, com profissões variadas, precisávamos contar um pouco sobre nossas experiências profissionais.
O problema é que, de saída, já estava tudo errado: éramos cinco brancas, sudestinas e nascidas em famílias classe média. Claro que passei por perrengues, machismos, preconceitos e assédios, mas não orientar nosso discurso a partir de um recorte de classe e de cor seria vexatório. Briguei pelo tema, porém ele foi derrubado de imediato.
A mais loira de todas selou nosso destino rumo ao ridículo naquela manhã. Ela resolveu falar como só chegou aonde chegou porque os homens poderosos a ajudaram muito. E deu uma dica memorável para as espectadoras: "Não compita com eles, não confronte. Use seu jeitinho, seu charme, para ficar amiga deles, e assim você terá tudo!". Poderia estar no manual da boa moça para casamento do século 19.
Sendo o mundo como ele é, não dá para dizer que ela estava errada como estrategista, mas aquilo me desceu tão mal que me lancei como uma onça faminta ao microfone. Então, enquanto estava lá tentando argumentar, me dei conta de algo interessante. Em minha trajetória como escritora e roteirista, de fato alguns homens foram importantes. No entanto, com absolutamente todos eles o desfecho foi o mesmo: passaram a me ignorar, e até maldizer, quando conquistei reconhecimento.
Adoravam "me descobrir", me apresentar, conseguir um freela, uma publicação, uma oportunidade. Ser os mestres, os guias e os salvadores da menininha desconhecida. Mas assim que ganhei algum público e status (e idade), se tornaram ocupadíssimos ou inimigos. Concluí que há décadas falo deles na análise, me perguntando o que fiz para que a amizade acabasse. Me culpando, muitas vezes. E o insight finalmente chegou: bem, eu fiquei do tamanho deles, ou, vai ver, até maior. E isso não interessa a muitos homens — à maioria deles.
Não consegui falar isso na hora para aquelas jovens cheias de talento e desejos. Então estou escrevendo agora.
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7. Grande Sertão: Veredas
‘Grande Sertão: Veredas’ NUNCA envelhece | Com Conceição Evaristo, Cármen Lúcia e Mírian Leitão vídeo
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8. O momento em que ex-bailarina com Alzheimer lembra seus movimentos em 'Lago dos Cisnes'
BBC, 12 novembro 2020
Ex-bailarina com Alzheimer emociona a internet ao recordar "O Lago dos Cisnes" - vídeo
A bailarina Marta Gonzalez, que tem Alzheimer e vivia em uma casa de repouso na Espanha, relembrou a coreografia que fazia para 'O Lago dos Cisnes', do compositor russo Tchaikóvski, ao ouvir a música.
Divulgada pela instituição de caridade espanhola Associação Música para Despertar, a emocionante cena viralizou e despertou curiosidade sobre a trajetória da bailarina.
Inicialmente, foi divulgado que a bailarina havia integrado o New York Ballet na década de 1960. Agora, a instituição informou que, na verdade, Marta era uma bailarina que estudou em Cuba e se apresentou em Nova York em 1960 com sua própria companhia. Ela era conhecida como Marta Cinta.
Marta foi filmada em uma casa de repouso na Espanha e morreu pouco tempo depois, em 2019.
Crédito: Vídeo cedido pela Asociacón Musica para Despertar
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9. Legados ao vento
Ruy Castro, fsp, 20.08.2026
No Brasil, é um erro morrer; assim que encerram o velório, o artista começa a ser esquecido. Tom Jobim, Cazuza, Cartola, Drummond, Guimarães Rosa e Clarice são das poucas exceções.
Todo dia morre um artista ou intelectual –jovem ou velho, famoso ou quase, de qualquer ramo. Consternado, vou à internet, às TVs e às reportagens e ouço ou leio a infalível declaração: "Perdemos Fulano, mas seu legado jamais será esquecido". Será? Antes cêsse, mas não ésse, penso eu. Será esquecido, sim, e esse esquecimento começará assim que encerrarem o velório, e o jornal com seu obituário for forrar a gaiola do papagaio. No Brasil, é um erro morrer.
E não importa o tamanho do morto. Exemplo? De 1930 a 1960, ninguém mais presente, poderoso e influente na música popular do que Ary Barroso (1903-1964). E dava razões para isso: fora o primeiro sambista a ficar famoso, o principal abastecedor de Carmen Miranda e Francisco Alves e fixador de gêneros como o samba dolente ("Faceira", 1931), o samba-canção ("Maria", 1934), o samba de Carnaval ("Foi Ela", 1935), o samba dramático ("Na Batucada da Vida", 1935), o samba baiano ("Na Baixa do Sapateiro", 1938), o samba-exaltação ("Aquarela do Brasil", 1939) e muitas outras variantes. Como compositor de piano, tinha uma orquestra nos dedos.
Não só. Foi também o primeiro compositor brasileiro a ser chamado por Hollywood; o mais ouvido locutor esportivo de seu tempo; sinônimo do Flamengo, do qual foi cartola secreto; descobridor de talentos em seu programa de auditório; inspirador da bossa nova (Tom Jobim e João Gilberto o adoravam); e, embora provocasse ciúmes até em Villa-Lobos, dizia-se, com orgulho, um sambista. Pois, com tudo isso, Ary está esquecido.
Estou falando de Ary Barroso, mas poderia citar outros compositores, cantores, atores, escritores, pintores ou bailarinos de calibre equivalente, no masculino ou feminino, cujo "legado" – a obra que deixaram-- está há muito fora dos palcos, das telas, das prateleiras, das páginas dos livros e da memória do Brasil. Você poderá citar outros.
Em compensação, Tom Jobim, Cartola, Cazuza, Carlos Drummond, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Tarsila do Amaral nunca morreram. Por enquanto.
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10. O motivo para a vergonha de ser brasileiro
Marcelo Rubens Paiva, fsp, 19.08.2026
Atraso educacional do Brasil expõe herança de elite antiescola. País ficou para trás em comparação aos vizinhos hispânicos.
Harvard, a primeira instituição de ensino superior das colônias que dariam origem aos Estados Unidos, foi criada em 1636. Depois vieram Yale, em 1701, a Universidade da Pensilvânia, em 1740, e Princeton, em 1746.
Em 1647, em Massachusetts, foi aprovado o ato que obrigava condados com um certo número de famílias a manterem escolas públicas. O educador abolicionista Horace Mann transformou o país a partir de 1837, garantindo escolas não sectárias, gratuitas e financiadas pelo Estado.
É o pai da reforma educacional laica, que se espalhou pelos Estados Unidos. Quer passar vergonha de ser brasileiro? Quando o Brasil declarou a sua independência em 1822, a América espanhola já tinha 22 universidades.
Em 1538, foi fundada a Universidade de Santo Tomás de Aquino, na atual República Dominicana. Em 1551, surgiram a Universidade Nacional Maior de San Marcos, no Peru, e a Universidade Real e Pontifícia do México. A de Bogotá foi fundada em 1580. A de Sucre, na atual Bolívia, em 1624. A Universidade de San Carlos, na Guatemala, em 1676.
A primeira universidade da Argentina foi a de Córdoba, de 1613. A notória Universidade de Buenos Aires é de 1821. O general Manuel Belgrano, um dos líderes da independência argentina, derrotou forças monárquicas, recebeu indenização e destinou o dinheiro à construção de escolas.
A grande transformação do sistema educacional argentino se deu com Domingo Faustino Sarmiento: a Lei 1.420, de 1884, estabeleceu educação primária obrigatória, gratuita, acessível a meninos e meninas.
No Brasil, a primeira universidade foi fundada apenas em 1920, a Universidade do Rio de Janeiro, hoje a UFRJ. Apesar de São Paulo ter sido fundada em torno de um colégio, a Universidade de São Paulo, a USP, é de 1934. O país ficou para trás. O sistema educacional público foi organizado depois de 1930.
Veja imagens da USP, primeira colocada no Ranking Universitário Folha 2025
Educação nunca foi prioridade para a elite que nos governou. O Brasil pode não ser melhor ou pior do que outros, mas seria melhor do que nos transformaram.
Depois de se assistir à série "The American Experiment", disponível na Netflix, pode-se considerar a independência de lá uma reviravolta na história das nações. Foi inventada a democracia moderna, sem modelo anterior a seguir, numa convenção em 1787 na Filadélfia.
Eram 55 delegados representando 12 estados. O que se tinha anteriormente como exemplo era uma suposta democracia na Grécia antiga e a república do Império Romano, experiências que fracassaram.
O general George Washington, herói da guerra contra os ingleses, presidia as sessões. Precisavam decidir sobre impostos, moeda, o dinheiro que deviam à Espanha, à França, aos Países Baixos e ao Exército, que quase se desfez sem soldos, e educação.
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11. Héctor G. Oesterheld & Hugo Pratt: Sargento Kirk e Eternautas (hq)
O faroeste dos criadores de Eternauta e Corto Maltese: SARGENTO KIRK - vídeo
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12. Oração para desaparecer
Sou pássaro do Senhor e abro as asas do milagre
Sou Peixe do Senhor e singro o mar em tempestade
Sou Passo em terra santa que nunca anda em descaminho
Sou Semente que renasce vestida em flor sem espinho
Sou Grão de Areia que Deus vê, sopra e liberta
Sou Coração que louva a Deus na hora aberta
Sou Criatura Divina e oferto o corpo à Salvação
Sou Pensamento que firma meu nome na escuridão
Sou Olho do Infinito que vê o tempo estremecer
Sou Boca que reza nove vezes a Oração para Desaparecer
Sou Corpo que envulta em nome da Glória de São Jorge
Sou Alma Livre que desenvulta em terra nova e boa sorte
Sou Voz que canta toda canção da alegria
Sou Luz que acende a fé de todo o dia
Socorro Acioli, 'Oração para desaparecer', 1ª edição, p. 201, Companhia Das Letras, 2023.
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13. Dez documentários brasileiros premiados para assistir no streaming
Gama seleciona dez filmes sobre política, religião e cultura feitos na última década para celebrar o Dia do Documentário Brasileiro
Mariana Pontes, 07 de Agosto de 2026
Na última década, o cinema nacional contou com diversas produções que nos revelam mais sobre o país em que vivemos. Nas áreas de política, religião, cultura e outras, muitos dos documentários que compartilham reflexões e olhares críticos sobre diferentes realidades foram premiados e estão disponíveis em streamings.
A Gama selecionou dez deles para celebrar o Dia Nacional do Documentário Brasileiro (7/8), data que homenageia o cineasta Olney São Paulo (1936–1978). Nascido na Bahia, foi pioneiro e grande defensor do documentário nacional, perseguido na ditadura militar. Dirigiu “Grito da Terra” (1964) e “Manhã Cinzenta” (1969), além de integrar o Ciclo Baiano de Cinema, movimento de efervescência da produção audiovisual.
“Cinema Novo” (2016), de Eryk Rocha: Premiado no Festival de Cannes
Um ensaio poético e íntimo sobre o movimento da década de 1960 que marcou a entrada do Brasil no cinema mundial. Composto por entrevistas e fragmentos de filmes de nomes como Glauber Rocha, Nelson Pereira dos Santos, Ruy Guerra e Cacá Diegues, o filme narra o fenômeno que fez o cinema romper com seu viés comercial e se aproximar de temas políticos e sociais. Disponível: Prime Vídeo
“O Processo” (2018), de Maria Augusta Ramos: Premiado no Festival de Berlim
Sob acusações de crimes de responsabilidade fiscal, a ex-presidenta Dilma Rousseff sofreu impeachment em agosto de 2016. Os bastidores políticos e jurídicos dos 273 dias, assim como os momentos mais emblemáticos, são apresentados no longa-metragem. O filme é montado a partir da observação sem intervenções diretas e tem ênfase na defesa, pois foi quem permitiu o acesso da diretora às reuniões e discussões. Disponível no Disponível: Prime Vídeo
“Ex-Pajé” (2018), de Luiz Bolognesi: Premiado no Festival de Berlim, no Grande Prêmio do Cinema Brasileiro e no Festival É Tudo Verdade
Bolognesi se deparou com Perpera, o “ex-pajé” do povo Paiter Suruí, vestido de terno e atuando como zelador de uma igreja evangélica. A aldeia, localizada na Rondônia, havia permanecido isolada até 1969, ano em que teve o primeiro contato com o homem branco. Aos 20 anos, o protagonista, poderoso pajé da aldeia na época, sofreu acusações de ter uma religião demoníaca e foi coagido a renunciar à sua fé ancestral e a seu cargo. Equilibrando-se na linha tênue entre documentário e ficção, o longa explora a ameaça que o processo de evangelização do pastor sofre quando a morte se aproxima da comunidade e a relação do personagem com as entidades da floresta. Disponível no Planet https://planetdoc.org/documentario/ex-paje/
“Babenco – Alguém tem que ouvir o coração e dizer: parou” (2019), de Bárbara Paz: Premiado no Festival de Veneza
“Já vivi minha morte e agora só falta fazer um filme sobre isso.” Héctor Babenco disse isso à sua esposa, diretora do documentário, ao encarar o pouco tempo de vida que lhe restava. O longa, primeiro trabalho de Paz, relembra os momentos finais do cineasta, aclamado por sucessos como “Pixote — A lei do mais fraco” (1980), “Brincando nos Campos do Senhor” (1991) e “Carandiru” (2003). Com relatos de memórias e reflexões, aborda o estado de saúde fragilizado e a paixão pela sétima arte como motor da vida do argentino. Disponível no Globoplay
“A Última Floresta” (2021), de Luiz Bolognesi: Premiado no Festival de Berlim
O documentário faz uma investigação sobre as ameaças que o garimpo ilegal traz para os territórios indígenas, entre doenças, morte e desmatamento. Os jovens ficam encantados com os bens que os brancos trazem, mas, em contraste, Kopenawa se esforça para manter os espíritos da floresta vivos. Com cenas documentais e encenadas sobre suas tradições, o filme apresenta o modo de vida do povo Yanomami e a sua luta para preservá-lo em meio à devastação que enfrentam. Disponível no Planet
“Quando Falta o Ar” (2022), de Anna Petta e Helena Petta: Premiado no Festival É Tudo Verdade
Um retrato humano dos protagonistas que atuaram na linha de frente no combate à pandemia de covid-19: os profissionais do SUS. As irmãs cineastas buscavam registrar a atuação das mulheres no cuidado da saúde durante um dos períodos sanitários mais críticos da história. Nesse processo, captaram o encontro da situação com a religiosidade, a desigualdade social e o racismo enraizados no país. A luta coletiva realizada em defesa da vida foi contada por entrevistas com médicos, enfermeiros e agentes comunitários. Disponível no Planet
“Retratos Fantasmas” (2023), de Kleber Mendonça Filho: Premiado no Festival de Gramado e na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
Com base em imagens de arquivo e memórias pessoais do diretor, o filme conta a história do centro de Recife a partir de suas salas de cinema no século 20. Na relação entre o passado e o presente, o filme trata desses lugares como ambientes de convívio inseridos na rotina da população e como observadores críticos do rápido desenvolvimento urbano. O diretor percorre os grandes cinemas da cidade e outros espaços vitais da imaginação popular local. Disponível na Netlix
“Elis & Tom, Só Tinha de Ser com Você” (2023), de Roberto de Oliveira e Jom Tom Azulay: Premiado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo
O longa reúne registros inéditos da célebre e turbulenta dupla, em Los Angeles, durante a produção do álbum que se tornaria uma das maiores referências da música brasileira. Com os nomes Elis Regina e Antônio Carlos Jobim, era certo o sucesso da produção musical, mas vinda de um processo repleto de altos e baixos, que, no fim, alimentou a sinergia do duo. Disponível no Globoplay
“Apocalipse nos Trópicos” (2024), de Petra Costa: Premiado no Prêmio Grande Otelo do Cinema Brasileiro
No documentário, o encontro entre política e religião fica em evidência. O longa analisa a influência da crescente fé evangélica na política e na sociedade brasileira, assim como as inevitáveis consequências para a democracia. Os bastidores do poder apresentam preocupações de uma teocracia em um Estado laico, principalmente na polarização atual, com personagens como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-presidente Jair Bolsonaro e o pastor Silas Malafaia. Disponível na Netlix
“3 Obás de Xangô” (2025), de Sérgio Machado: Premiado na Mostra de Cinema de Tiradentes e no Prêmio Grande Otelo do Cinema Brasileiro
A amizade bem-vivida entre o escritor Jorge Amado, o músico Dorival Caymmi e o artista plástico Caribé é o foco do filme. A relação do trio, bem como suas obras, teve grandes impactos no imaginário da Bahia e do Brasil, que persiste até hoje e continua influenciando outros artistas. Em seus trabalhos, ainda que mantenham estilos pessoais, vemos pontos em comum nas temáticas do Candomblé, do poder feminino e do mar onipresente. Disponível no Globoplay
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14. Moacir Santos
Moacir Santos: quem foi o autor de 'Coisas', clássico esquecido da música brasileira vídeo
Moacir Santos - Ouro Negro (DVD Completo)
Show histórico em homenagem ao lendário maestro e compositor Moacir Santos, gravado ao vivo no Sesc Pinheiros, em São Paulo no ano de 2001. Produzido por Mário Adnet, este DVD traz a apresentação da "Banda Ouro Negro" formada por grades nomes da música brasileira como Ricardo Silveira, Zeca Assumpção, Cistóvão Bastos, Armando Marçal, Jurim Moreira, Teco Cardoso, Jessé Sadoc, entre outros. Além das participações especiais de DJAVAN, ED MOTTA e JOÃO BOSCO, além do próprio Moacir Santos!
Tracklist: 1. Coisa nº2 2. Coisa nº5 (nanã) 3. Coisa nº4 4. Bluishmen 5. Amalgamation 6. Coisa nº10 7. Odudua (What's My Name) 8. Mãe Iracema 9. Coisa nº8 (navegação) 10. Jequié 11. Lamento Astral (astral whine) 12. Orfeu (quiet carnival) 13. Amphibious 14. Coisa nº9 (senzala) 15. Suk Cha 16. Coisa nº1 17. Sou Eu (luanne) 18. Bodas de Prata Dourada 19. Coisa nº6
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15. Prêmio Grande Otelo 2026 - Academia Brasileira de Cinema
‘O Agente Secreto’ e ‘Manas’ empatam no Prêmio Grande Otelo 2026; veja a lista de vencedores
Apesar de liderar as indicações, com 18 nomeações, O Agente Secreto terminou a noite com quatro estatuetas, enquanto Manas levou cinco, incluindo Melhor Direção
Angelo Cordeiro (@angelocordeirosilva), 5 de agosto de 2026
A Academia Brasileira de Cinema celebrou os 25 anos do Prêmio Grande Otelo na noite desta terça-feira (4), no Theatro Municipal do Rio de Janeiro, e consagrou O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho, e Manas, de Marianna Brennand, como os grandes vencedores da categoria de Melhor Filme de Ficção, em um empate inédito.
Apesar de liderar as indicações, com 18 nomeações, O Agente Secreto terminou a noite com quatro estatuetas, enquanto Manas levou cinco, incluindo Melhor Direção. A produção mais premiada da cerimônia foi Homem Com H, cinebiografia de Ney Matogrosso dirigida por Esmir Filho, que conquistou seis troféus, entre eles Melhor Ator para Jesuíta Barbosa e o Prêmio do Público.
A abertura da premiação contou com uma apresentação de Ney Matogrosso interpretando “O Tempo Não Para“, de Cazuza, enquanto Marieta Severo e Silvia Buarque comandaram o evento. A presidente da Academia, Renata Almeida Magalhães, dedicou a edição ao produtor Luiz Carlos Barreto, morto no fim de julho. Confira a lista completa de vencedores a seguir:
Melhor filme de ficção
Homem com H, de Esmir Filho
Manas, de Marianna Brennand — VENCEDOR (EMPATE)
O Agente Secreto, de Kleber Mendonça Filho — VENCEDOR (EMPATE)
O Filho de Mil Homens, de Daniel Rezende
O Último Azul, de Gabriel Mascaro
Melhor filme de comédia
Agentes Muito Especiais, de Pedro Antonio
C.I.C – Central de Inteligência Cearense, de Halder Gomes
Sexa, de Gloria Pires
Sonhar com os Leões, de Paolo Marinou-Blanco
Uma Mulher Sem Filtro, de Arthur Fontes
Velhos Bandidos, de Claudio Torres — VENCEDOR
Melhor documentário
A Queda do Céu, de Eryk Rocha e Gabriela Carneiro da Cunha
Apocalipse nos Trópicos, de Petra Costa — VENCEDOR
Hora do Recreio, de Lucia Murat
Mambembe, de Fabio Meira
Ritas, de Oswaldo Santana e Karen Harley
Melhor filme infantil
Narciso, de Jeferson De
O Diário de Pilar na Amazônia, de Eduardo Vaisman e Rodrigo Van Der Put — VENCEDOR
O Último Episódio, de Maurilio Martins
Os Dragões, de Gustavo Spolidoro
Thiago e Ísis e os Biomas do Brasil, de João Amorim
Melhor animação
Authentic Games no Império Desconectado, de Bruno Murtinho
Eu e Meu Avô Nihonjin, de Celia Catunda
Nosso Louco Amor, de Nelson Botter Jr.
Tainá e os Guardiões da Amazônia – Em Busca da Flecha Azul, de Alê Camargo e Jordan Nugem — VENCEDOR
Melhor filme ibero-americano
Belén (Argentina) — VENCEDOR (EMPATE)
O Olhar Misterioso do Flamingo (Chile)
O Riso e a Faca (Portugal) — VENCEDOR (EMPATE)
Pepe (República Dominicana)
Um Poeta (Colômbia)
Melhor direção
Daniel Rezende — O Filho de Mil Homens
Esmir Filho — Homem com H
Gabriel Mascaro — O Último Azul
Kleber Mendonça Filho — O Agente Secreto
Marianna Brennand — Manas — VENCEDORA
Melhor primeira direção de longa-metragem
Douglas Soares — Papagaios
Gloria Pires — Sexa
Júlia Jordão — Perfeitos Desconhecidos
Márcia Faria — A Procura de Martina
Rafaela Camelo — A Natureza das Coisas Invisíveis — VENCEDORA
Melhor atriz de longa-metragem
Camila Pitanga — Malês
Carolina Dieckmann — (Des)controle
Denise Weinberg — O Último Azul — VENCEDORA
Jamilli Correa — Manas
Tânia Maria — O Agente Secreto
Melhor ator de longa-metragem
Antonio Pitanga — Malês
Ary Fontoura — Velhos Bandidos
Irandhir Santos — Os Enforcados
Jesuíta Barbosa — Homem com H — VENCEDOR
Rodrigo Santoro — O Filho de Mil Homens
Wagner Moura — O Agente Secreto
Melhor atriz coadjuvante de longa-metragem
Alice Carvalho — O Agente Secreto
Camila Márdila — A Natureza das Coisas Invisíveis
Dira Paes — Manas — VENCEDORA
Grace Passô — O Filho de Mil Homens
Hermila Guedes — O Agente Secreto
Melhor ator coadjuvante de longa-metragem
Adanilo — O Último Azul
Alejandro Claveaux — Ruas da Glória
Augusto Madeira — Os Enforcados
Carlos Francisco — O Agente Secreto
Gabriel Leone — O Agente Secreto
Robério Diogenes — O Agente Secreto
Rodrigo Santoro — O Último Azul — VENCEDOR
Rômulo Braga — Manas
Melhor roteiro original
A Melhor Mãe do Mundo
Homem com H
Manas — VENCEDOR
O Último Azul
O Agente Secreto
A Natureza das Coisas Invisíveis
Melhor roteiro adaptado
Barba Ensopada de Sangue
Cinco Tipos de Medo
O Filho de Mil Homens — VENCEDOR
A Queda do Céu
Enterre Seus Mortos
O Advogado de Deus
Melhor direção de fotografia
Azul Serra, ABC — Homem com H
Azul Serra, ABC — O Filho de Mil Homens
Evgenia Alexandrova — O Agente Secreto — VENCEDORA
Guillermo Garza — O Último Azul
Pierre de Kerchove — Manas
Melhor direção de arte
Dayse Barreto — O Último Azul
Dina Salem Levy — Um Lobo Entre os Cisnes
Marcos Pedroso — Manas
Thales Junqueira — Homem com H
Thales Junqueira — O Agente Secreto — VENCEDOR
Melhor figurino
Gabriella Marra — Homem com H — VENCEDORA
Gabriella Marra — O Último Azul
Kika Lopes — Manas
Manuela Mello — O Filho de Mil Homens
Rita Azevedo — O Agente Secreto
Rô Nascimento — Malês
Melhor maquiagem
Andrea Tristão — Barba Ensopada de Sangue
Juliana Bolze — O Último Azul
Marisa Amenta — O Agente Secreto
Martín Macías Trujillo — Homem com H — VENCEDOR
Martín Macías Trujillo — O Filho de Mil Homens
Melhor montagem de ficção
Bruno Bini — Cinco Tipos de Medo
Eduardo Serrano e Matheus Farias — O Agente Secreto
Germano de Oliveira, EDT — Homem com H
Isabela Monteiro de Castro — Manas — VENCEDORA
Marcelo Junqueira, AMC — O Filho de Mil Homens
Melhor montagem de documentário
André Felipe Silva e João Wainer — Zico – O Samurai de Quintino
Cristina Amaral — Ecos do Teatro Experimental do Negro
David Barker, Tina Baz, Nels Bangerter, Jordana Berg, Victor Miaciro e Eduardo Gripa — Apocalipse nos Trópicos — VENCEDOR
Fabio Meira, Juliano Castro e Affonso Uchôa — Mambembe
Jordana Berg — Cazuza, Boas Novas
Oswaldo Santana, AMC — Ritas
Melhor efeito visual
Alexandre Boiron, Luuk Meijer e David van Heeswijk — O Agente Secreto — VENCEDOR
Claudio Peralta — O Diário de Pilar na Amazônia
Eduardo Kurt, Magdalena Maia, Sofia Sussekind, Beatriz Paixão e Vandré Huppes — O Último Azul
Juliano Storchi — O Filho de Mil Homens
Massao Asaga — Homem com H
Melhor som
Ana Luiza Penna, Martín Grignaschi e Armando Torres Jr., ABC — Homem com H — VENCEDOR
Lia Camargo, ABC, Toco Cerqueira e Alan Zilli, MPSE — O Filho de Mil Homens
Liliana Villaseñor, Heverson Batista, María Alejandra Rojas, Arturo Salazar RB e Vincent Sinceretti — O Último Azul
Pedro Moreira, Moabe Filho, Tijn Hazen e Cyril Holtz — O Agente Secreto
Valéria Ferro, Miriam Biderman, ABC, Ricardo Reis, ABC e Armando Torres Jr., ABC — Manas
Melhor trilha sonora
André Abujamra e George Nahssen — A Melhor Mãe do Mundo
Antonio Pinto e Barulhista — Malês
Fabio Góes — O Filho de Mil Homens
Guilherme Amabis, Mariana Amabis e Rica Amabis — Homem com H — VENCEDOR
Tomaz Alves Souza e Mateus Alves — O Agente Secreto
Melhor série
Ângela Diniz: Assassinada e Condenada
Beleza Fatal
Cangaço Novo (2ª temporada)
Emergência Radioativa
Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente — VENCEDOR
Melhor atriz em série
Adriana Esteves — Os Outros
Alice Carvalho — Cangaço Novo — VENCEDORA
Bruna Linzmeyer — Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente
Camila Pitanga — Beleza Fatal
Marjorie Estiano — Ângela Diniz: Assassinada e Condenada
Thainá Duarte — Cangaço Novo
Melhor ator em série
Allan Souza Lima — Cangaço Novo
Chico Díaz — Os Donos do Jogo
Johnny Massaro — Máscaras de Oxigênio Não Cairão Automaticamente — VENCEDOR
Johnny Massaro — Emergência Radioativa
Ravel Andrade — Raul Seixas – Eu Sou
Melhor série de documentário
A Mulher da Casa Abandonada
Caçador de Marajás — VENCEDOR
Cazuza: Além da Música
Chico Anysio – Um Homem à Procura de um Personagem
Congonhas: Tragédia Anunciada
O Testamento: O Segredo de Anita Harley
Melhor série de animação
As Aventuras de Tita
Esquadrão do Mar Azul (2ª temporada)
Esse É o Bicho! (2ª temporada)
Gnaks!
O Mundo Sem Filtro de Any Malu
Osmar, a Primeira Fatia do Pão de Forma (3ª temporada) — VENCEDOR
Senninha na Pista Maluca (3ª temporada)
Melhor curta de ficção
Amarela, de André Hayato Saito — VENCEDOR
Arame Farpado, de Gustavo de Carvalho
Boiuna, de Adriana de Faria
Klaustrofobia, de João Londres
Peixe Morto, de João Fontenele
Presépio, de Felipe Bibian
Melhor curta de documentário
Cartas pela Paz, de Mariana Reade, Thays Acaiabe e Patrick Zeiger
Conselho, de Alice Riff
Filme sem Querer, de Lincoln Péricles
Replika, de Piratá Waurá e Heloisa Passos
Sebastiana, de Pedro de Alencar — VENCEDOR
Melhor curta de animação
A Tragédia do Lobo-Guará, de Kimberly Palermo — VENCEDOR
Como Nasce um Rio, de Luma Flôres
Mãe da Manhã, de Clara Trevisan
Safo, de Rosana Urbes
Seu Vô e a Baleia, de Mariana Elisabetsky
Uma Menina, Um Rio, de Renata Martins Alvarez
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16. Metade dos brasileiros das classes D e E não conviveu com pai, diz pesquisa
Fabíola Perez,UOL, 09/08/2026
Metade dos brasileiros não conviveu com a figura paterna durante toda a infância e a adolescência. O dado faz parte da pesquisa "Amor e Cuidado: Dia dos Pais", realizada pelo Instituto Locomotiva e obtida com exclusividade pelo UOL. O estudo mostra que quanto menor a renda, menor a proporção de pessoas que tiveram o pai presente durante a infância.
O que aconteceu
Levantamento mostra que 61% dos brasileiros dizem ter convivido com a figura paterna durante toda a infância e adolescência. Nas classes D e E essa proporção é de 51%, mais da metade dos brasileiros. "É uma informação difícil de ser mensurada de outra forma, por isso, perguntamos para as pessoas do que elas se lembram desse período", diz João Paulo de Resende Cunha, diretor do Instituto Locomotiva. "A composição de domicílios do IBGE não mostra essa composição subjetiva".
Entre as classes com maior poder aquisitivo, 67% conviveu com pai ou figura paterna, diz o estudo. Já entre a classe C, 60% conviveu com o pai durante esse período. Isso significa que quatro em cada dez brasileiros não conviveram com a figura paterna nas etapas citadas na pesquisa. "Conviver com a figura paterna presente é quase um privilégio para uma grande parte dos brasileiros", diz Cunha.
Maioria dos brasileiros diz associar a figura paterna a atividades como "pagar contas". A pesquisa questionou ainda entre aqueles que tiveram a figura paterna presente quais as atividades que os filhos mais associam aos pais e 64% responderam "pagar despesas, como roupas, comidas e remédios". Três em casa dez brasileiros disseram que os pais cuidavam deles quando eram "recém-nascidos" executando tarefas como "trocar fraldas e dar banho".
"Figuras paternas ausentes", diz o diretor do instituto. Segundo Cunhas, do ponto de vista socioeconômico, a ausência dos pais faz com que essas famílias tenham menos oportunidades de uma uma renda maior. "Essa cadeia de transmissão vai perdurando no tempo, é mais provável que pessoas que passaram por situações como essas na infância permaneçam nos extratos mais pobres da população", afirma.
Pesquisa ouviu 1.030 pessoas, entre homens e mulheres com 18 anos ou mais. A margem de erro do levantamento é de 3,1 pontos percentuais. O estudo foi realizado em junho de 2026 por meio de entrevistas digitais por autopreenchimento em todo o país.
'Encontrei meu pai uma ou duas vezes quando criança'
Elisa*, 40, faz parte do 33% dos brasileiros de classe A e B que não conviveram com a figura paterna. "Na infância, encontrei meu pai uma ou duas vezes. Depois, dos 7 aos 13 anos, não encontrei mais meu pai", diz. "Tínhamos um contato por telefone, aos 13 anos fui visitá-lo, mas nunca criamos um vínculo real."
Ela conta que a mãe engravidou aos 17 anos e com essa idade foi obrigada pela família a se casar com o pai. "O preconceito era muito grande na cidade em que minha mãe vivia no interior de Minas Gerais. Meus avós acreditaram que o casamento era a melhor solução", diz. "Eles não tinham nada a ver e foram obrigados a se casar muito novos".
Do interior de Minas Gerais, o casal se mudou com a bebê para uma cidade do Nordeste. "Acredito que se mudaram porque meu pai recebeu uma proposta de emprego", diz Elisa. Mas, dois anos depois, eles se divorciaram, a mãe de Elisa voltou para Minas Gerais para cuidar sozinha da bebê. "Minhas lembranças são de me encontrar com ele em algum momento e ganhar uma boneca", diz. "Foram poucos momentos acompanhados de um presente e não de um vínculo real".
Outra memória de Elisa é a sobrecarga da mãe. "A sobrecarga vem e vem com a ausência da pessoa sobrecarregada", diz. "Minha mãe tinha que me sustentar, trabalhar o dia inteiro e estudar a noite. Ela só me colocava para dormir". Depois de um tempo, Elisa conta que as duas passaram a morar com a avó e o padrasto.
"Hoje não tenho mais nenhum contato com meu pai, ele nunca foi uma pessoa presente. Tenho uma filha de 8 anos e tinha muito claro que não queria que ela passasse pelo que eu passei: nem a ausência, nem a sobrecarga." Elisa, filha que conviveu com a ausência do pai.
Distanciamento e abandono
Brasileiros afirmam que atividades como participar de reuniões na escola, conversar sobre sentimentos, ajudar com tarefas escolares são realizadas por dois em cada dez pais. Para 41% dos entrevistados, pais nunca participaram de reuniões escolares, para 38% nunca conversou sobre preocupações e 39% nunca ajudou com tarefas escolares.
Estudo mostra que para 37% dos entrevistados os pais nunca dialogaram sobre temas difíceis como relacionamentos, drogas ou saúde mental. "Mesmo entre os que tiveram pai 'presente', a figura paterna não se envolveu com a tarefa do cuidado", diz Cunha. "A única atividade que a maioria dos pais se envolveu com frequência é o pagamento de contas", afirma. "Demonstrar carinho e afeto é algo que pode ser considerado básico, mas 63% dos entrevistados afirmou que os pais fizeram algumas vezes ou nunca fez".
Pesquisa mostra necessidade de discutir não somente a presença dos pais como também os papéis da maternidade, ressalta diretor do Locomotiva. Uma consequência direta dessa desigualdade na divisão de tarefas com os filhos provoca, segundo ele, a sobrecarga feminina. "Vale destacar que isso não está sendo relatado pelos filhos, está sendo dito pelos filhos", afirma. "Quase sempre as tarefas não executadas pela figura paterna sobram para as mulheres, e as consequências disso são desde a exaustão até o tempo reduzido para a mulher exercer atividades remuneradas".
Mudança de percepção
Pesquisa mostrou também que maioria dos brasileiros acredita que pais e mães deveriam ser igualmente responsáveis pelo cuidado, acolhimento e formação emocional dos filhos. "Quando perguntamos aos brasileiros de quem são determinadas responsabilidades em relação aos filhos percentuais elevados dizem que deveria ser dos dois", diz o diretor.
Para 88% dos entrevistados, demonstrar carinho e afeto deveria ser responsabilidade dos dois. Para 87%, ter momentos de lazer e diversão e saber quem são os amigos das crianças e dos adolescentes deveria ser função do pai e da mãe. O levantamento mostra também que para 80% dos entrevistados conversar sobre os sentimentos deveria ser responsabilidade de ambos e para 84% ter diálogos difíceis também deveria ser um aspecto abordado por ambos.
"Grande maioria defende responsabilidades compartilhadas entre pai e mãe", diz Cunha. Segundo o diretor do instituto, mesmo entre os que não tiveram a figura paterna, há uma percepção de que deveria ser diferente. A pesquisa mostra ainda que a grande maioria defende que acompanhar internet e redes sociais, eventos escolares, ajustar compromissos profissionais para acompanhar os filhos, ajudar em tarefas e levar em consultas médicas deveria ser tarefa de ambos para mais de 79% dos entrevistados.
Mesmo sem ter tido presença da figura paterna, há um reconhecimento de que os deveres deveriam ser compartilhados, aponta pesquisa. "Muitos brasileiros cresceram sem uma presença paterna constante ou com pais mais associados ao sustento do que ao cuidado cotidiano", afirma Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva. "Hoje, essas mesmas pessoas reconhecem que ser pai também deve envolver escuta, afeto, diálogo e participação. Essa demanda deveria abrir espaço para vínculos mais próximos, que muitos não viveram na própria infância e adolescência."
Para três em cada quatro brasileiros, confiança vale mais que autoridade, apontou pesquisa. Para 76% dos entrevistados, é mais importante que um pai seja alguém em quem os filhos confiam e para 24% é mais importante que um pai seja uma autoridade para os filhos. "Ainda temos 26% dos homens acreditando que a autoridade é mais importante do que a confiança. Esse percentual que precisamos trabalhar", afirma.
* Nome trocado a pedido da entrevistada
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17. Medicina moderna e eutanásia
Medicina moderna tirou a morte de dentro de casa e perdemos a familiaridade com ela, diz médica referência em eutanásia
Stefanie Green atuou 20 anos como obstetra e migrou para a morte assistida após o Canadá autorizar o procedimento. Canadense participará do primeiro simpósio internacional da organização brasileira Eu Decido.
Luana Lisboa, fsp, 9.8.2026
Há cem anos, a maioria das pessoas via de perto como um parente morria, em casa, cercado pela família. Hoje, segundo a médica canadense Stefanie Green, a morte foi deslocada para hospitais e cercada de máquinas —o que, para ela, tornou as pessoas menos familiarizadas com o processo e, por consequência, mais assustadas com ele.
Pioneira da assistência médica para morrer no Canadá, ela defende que essa mudança ajuda a explicar por que o tema é tão difícil de discutir abertamente, em qualquer sociedade.
Uma das primeiras médicas a oferecer o MAiD (sigla em inglês para assistência médica para morrer) no Canadá, logo após a prática ser legalizada, Green já acompanhou mais de 300 mortes assistidas no país. Ela é presidente fundadora da Camap (Associação Canadense de Avaliadores e Provedores de MAiD) e autora do livro "This Is Assisted Dying" (Isto é morte assistida, sem tradução no Brasil), sobre o primeiro ano de sua atuação na área.
Antes de migrar para o MAiD, Green passou mais de 20 anos como obstetra — uma trajetória que, segundo ela, tem mais semelhanças com seu trabalho atual do que poderia imaginar. "Não sou a pessoa mais importante na sala", diz ela sobre o papel que exerce tanto num parto quanto numa morte assistida.
Autodeclarada guia em dois dos momentos mais intensos da vida, Green diz enxergar a morte assistida como um direito humano e rebate críticas de que a prática desrespeita a inviolabilidade da vida humana. "Vejo médicos como pessoas que ajudam pessoas", diz. "Não percebo conflito entre esse trabalho e meus deveres profissionais e éticos. Eu durmo bem à noite."
A canadense participará do primeiro simpósio internacional da Eu Decido, organização brasileira dedicada a pautar o debate no país, que ainda não tem legislação nem projeto de lei em tramitação sobre o tema. O evento online será na quarta (12), das 18h às 22h, com tradução simultânea.
A senhora foi uma das primeiras médicas a oferecer o MAiD no Canadá quando foi legalizado, em 2016. Como foi aquele primeiro ano e o que mudou desde então?
Médicos como eu estávamos sendo chamados para fazer algo que nunca tínhamos feito antes. Não sabíamos como ia funcionar. Na medicina, o ensino costuma seguir a lógica "veja, faça, ensine" —você aprende fazendo e observando quem veio antes, mas isso não era possível no Canadá. Então, no começo, parecia um grande salto às cegas para muitos de nós. Aquele primeiro ano respondeu boa parte das nossas perguntas.
O que não mudou é o aspecto emocional do trabalho: o alívio que os pacientes expressam quando conseguimos ter uma conversa honesta sobre as opções de fim de vida —uma conversa que a maioria nunca teve antes—, a gratidão que expressam por eu estar disponível para isso. O que mudou foi como as pessoas falam sobre o tema, os números, os dados, e, inclusive, a organização dos que se opõem.
Na maioria dos países que regulamentaram a morte assistida, foi o Parlamento quem aprovou a lei diretamente. Mas o Canadá é uma exceção — veio de uma decisão da Suprema Corte, que deu ao Parlamento um prazo de 12 meses para legislar. Como isso entrou em pauta no país? Havia apoio popular à morte assistida antes da legalização?
É importante entender que isso não aconteceu porque eleitores exigiram, nem porque algum governo achou que era uma boa ideia. Foi porque a Suprema Corte disse que, se certas pessoas em certas situações não tivessem a capacidade de pedir e receber isso, seria uma violação de seus direitos. No Canadá, a morte assistida é uma questão de direitos humanos, e isso é muito diferente de uma pauta parlamentar de qualquer partido — opiniões políticas podem mudar com o tempo, mas uma decisão judicial baseada em direitos constitucionais é mais sólida.
Falávamos sobre morte assistida desde os anos 1990, com o caso de Sue Rodriguez [ativista canadense pelo direito de morrer que tinha esclerose lateral amiotrófica], que não teve sucesso, mas iniciou uma conversa nacional. Pesquisas nacionais, antes e depois da decisão da Corte, mostram consistentemente forte apoio popular —números na casa dos 80% e acima. Depois da decisão, o prazo de 12 meses foi adiado por atrasos políticos, mas em junho de 2016 a primeira legislação foi aprovada e recebeu sanção real. A legislação inicial era mais restritiva que a decisão original da Corte, e há debate sobre essa lei desde então.
Esse é o melhor caminho para maior segurança jurídica sobre o tema?
Acredito que, quando vem pelos tribunais, é uma base muito forte para depois desenvolver legislação. Isso não quer dizer que fazer isso legislativamente desde o início seja uma má ideia —é um método eficaz, vemos isso ao redor do mundo. Mas ventos políticos podem mudar, e se a base for puramente legislativa, sem apoio de uma decisão judicial, é mais provável que fique instável ao longo do tempo. Sou a favor de como aconteceu no Canadá.
No Brasil, especialistas dizem que debates envolvendo autodeterminação tendem a ser especialmente difíceis. Agora, pela primeira vez, mais pessoas estão falando sobre a morte assistida. O que acha que explica essa aparente falta de interesse?
Acho que existem pressões culturais e religiosas em certos lugares que têm uma voz muito forte na população, historicamente e ainda hoje. Eu imagino que, no Brasil, com uma população historicamente religiosa e forte presença da Igreja, isso seja um fator significativo.
Outro fator que teve impacto em todo lugar, não só no Brasil, é que, cem anos atrás, como alguém morria e como era cuidado nesse processo era completamente diferente de hoje. A medicina moderna tirou a morte da comunidade, das famílias —onde ela costumava acontecer o tempo todo—, e a levou para dentro de hospitais. Isso fez coisas tremendamente boas: salvou vidas, curou doenças. Mas, ao mesmo tempo, isso nos deixou muito menos familiarizados com a morte, porque não a vemos mais em casa como antes.
Tradições e rituais em torno da morte mudaram. Essa ignorância sobre o próprio evento nos deixa com medo — um medo muito maior de como podemos morrer, porque não sabemos mais como é morrer. Cem anos atrás, as pessoas sabiam, porque viam o avô sendo cuidado em casa. Hoje acontece num prédio cheio de máquinas, atrás de portas fechadas, e não sabemos bem o que é aquilo.
O Canadá é um dos poucos países que permitem tanto o suicídio assistido quanto a eutanásia. Por que o país escolheu esse caminho mais amplo?
Parece muito claro que o motivo é que aprendemos com quem veio antes —observamos o que aconteceu na Holanda, nos Estados Unidos. Nos EUA, é tudo autoadministrado, e muitos países copiaram esse modelo. Mas isso limita quem pode receber o cuidado, porque, para autoadministrar, você precisa conseguir segurar o copo, engolir, digerir. Muita gente perto do fim da vida, especialmente com câncer, tem algo que bloqueia esse sistema, mesmo cumprindo todos os outros critérios.
Muita gente no Canadá achou isso claramente discriminatório. Vemos esse aprendizado acontecer também na Austrália e na Nova Zelândia, que emendaram seus modelos depois. O modelo canadense se baseia fortemente no holandês, que tem as duas opções.
Por que a maioria dos pacientes no Canadá, mesmo tendo as duas opções, pede a administração médica?
As pessoas se acostumaram a uma prática que funciona muito bem, 100% controlada e eficaz. Mesmo quando você explica os riscos e benefícios de cada método, os pacientes simplesmente escolhem o que é mais rápido e garantido. Dito isso, há um punhado de pessoas que querem muito ter controle — querem segurar o copo, beber.
Como a maioria dos países que permitem a prática, o Canadá exige que o paciente seja elegível para serviços de saúde financiados pelo governo —na prática, uma exigência de residência. Outros países exigem que o médico já acompanhe o paciente há tempo. A senhora concorda com esse tipo de restrição?
Não é meu papel definir a lei ou decidir se residentes ou não residentes deveriam ter acesso. Entendo por que o governo canadense fez isso —para impedir que gente do mundo todo venha ao Canadá fazer isso— e acho que faz sentido quando você está começando um programa novo.
Sobre a ideia de que o paciente precise ter uma relação prévia com o médico, seria ideal, mas no Canadá não temos médicos suficientes fazendo esse trabalho, e não é justo penalizar alguém que cumpre todos os critérios, mas cujo médico decidiu objetar. Eu mesma não tenho mais uma prática médica geral, então todos os meus pacientes são novos para mim. Construímos uma relação ao longo do processo, e funciona bem. Então não acho essencial, não. Acho lindo, seria maravilhoso, mas não essencial.
Críticos da morte assistida argumentam que a prática desrespeita a inviolabilidade da vida humana e corrompe o papel do médico como protetor da saúde. O que pensa disso?
Essa é uma pergunta que muitos médicos se fazem antes mesmo de decidir se querem fazer esse trabalho. O conceito de inviolabilidade da vida é mais uma questão moral, pessoal. Mas, do ponto de vista profissional, vejo médicos como pessoas que ajudam pessoas. Muitas vezes não há mais nada a fazer por certos pacientes, e nosso papel, nesse momento, é permanecer presente, não os abandonar.
O trabalho em torno da morte assistida é exatamente isso: ouvimos as histórias das pessoas, exploramos todas as opções disponíveis, e buscamos capacitá-las a tomar a melhor decisão. No Canadá, consideramos a morte assistida como parte da saúde. Não percebo conflito entre esse trabalho e meus deveres profissionais e éticos. Eu durmo bem à noite.
O MAiD é coberto pelo sistema público de saúde, diferentemente de países como Suíça, que cobra milhares de dólares pelo serviço. Ainda assim, há uma cobertura sobre casos de pacientes que recorreram ao MAiD citando falta de acesso à moradia ou suporte social adequado, não apenas doença. A gratuidade do procedimento resolve a desigualdade do acesso?
Só porque uma manchete de mídia diz "homem prefere o MAiD a ficar sem-teto" não significa que esse homem seja elegível ou vá receber o MAiD por esse motivo. Viver na pobreza ou não ter moradia não torna a pessoa elegível, simples assim. Há muita gente distorcendo propositalmente narrativas usadas por opositores. Depois de dez anos, temos dados: todo pedido de MAiD precisa ser reportado federalmente, e temos um relatório anual detalhado.
O que sabemos é que as pessoas que recebem o MAiD no Canadá são menos marginalizadas do que as que não recebem —são as pessoas socioeconomicamente privilegiadas, de longe. Há bons estudos mostrando que, considerando todos os fatores de risco possíveis, são as pessoas privilegiadas que estão recebendo o MAiD.
Isso não significa que não temos um problema no Canadá —temos um problema de alocação de recursos, não há recursos comunitários suficientes para pessoas com deficiência ou que precisam de cuidados paliativos. Mas as pessoas que de fato recebem o MAiD não são essa população. Algumas pessoas diriam até que os vulneráveis na nossa sociedade não sabem sobre o MAiD, ou não conseguem acessá-lo por causa da saúde precária em suas comunidades.
Por que a morte assistida ainda é mais procurada por quem tem mais recursos?
Acho que é uma questão de conhecimento e acesso. Pessoas mais ricas conseguem se defender melhor, têm acesso a recursos que outros lutam para acessar — inclui saúde, educação, encontrar um médico especializado. É a infeliz verdade. Primeiro você precisa saber sobre a possibilidade, depois precisa conseguir acessá-la.
A senhora passou mais de 20 anos como obstetra antes de migrar para o MAiD em 2016. Há alguma semelhança entre os dois trabalhos?
Há muitas semelhanças. Eu amava meu trabalho como obstetra. As pessoas vinham até mim como uma guia informada de um processo essencialmente natural. Para fazer bem esse trabalho, preciso reconhecer que não sou a pessoa mais importante na sala: são a mãe, o bebê e a família. É assim que vejo meu papel: guia.
Isso é igualmente verdadeiro numa morte assistida —cabe a mim ajudá-los nesse evento, facilitá-lo, e depois me retirar respeitosamente para deixá-los ter seu tempo. É essencialmente o mesmo conjunto de habilidades. No meu livro, percebi que comecei a usar a mesma palavra que uso para os partos ["delivery", em inglês] também para as mortes assistidas. Digo ao meu marido que vou fazer um "delivery", e ele sabe o que quero dizer, porque não faço mais partos de bebês.
Depois de mais de 300 mortes e mais de uma década de trabalho, há algo que gostaria que as pessoas entendessem sobre estar presente na morte de alguém?
Existe um paradoxo real: quando a vida de alguém está terminando, é sempre triste. Mas, para conversar com alguém sobre por que ela pode querer uma morte assistida, estou conversando sobre como ela quer viver — o que é significativo para ela, o que traz alegria, o que ela perdeu, o que ainda tem. O evento em si, de encerrar a vida de alguém com medicação, não é a parte difícil do que faço. As conversas, a avaliação de elegibilidade, a exploração das opções, isso é a essência do trabalho. É tudo sobre vida e como viver.
No meio de momentos extremamente tristes, testemunhei alguns dos momentos mais extraordinariamente bonitos: expressões de amor, despedidas, um filho agradecendo ao pai por estar presente, um cônjuge de 50 anos dizendo que ama o outro. Quero que as pessoas entendam que a morte assistida é menos sobre morte e mais sobre vida e como viver.
Você optaria pelo MAiD para si mesma, se um dia precisasse?
Não sei. Sinto muita gratidão por viver num país onde a opção existe. Nessa fase da minha vida, tenho tudo pelo que viver —um marido maravilhoso, dois filhos construindo suas vidas. Quero viver o máximo possível. A última coisa que eu quero é encerrar minha vida. Mas já vi gente suficiente em situações de sofrimento tão intolerável que, se fosse eu, ia querer a opção. Não sei se escolheria até estar naquela posição, mas sou especialmente grata por saber que tenho essa opção.
Diria que seu trabalho mudou a forma como você vê tanto a vida quanto a morte?
O que o trabalho mudou foi como vejo os relacionamentos na minha vida. É impossível fazer esse trabalho sem me projetar. Se estou testemunhando alguém morrendo, é impossível não pensar: quem eu gostaria que estivesse ao meu lado? Essa pessoa sabe que é importante para mim? De quem eu gostaria de segurar a mão, e por quê? Vou ligar para minha melhor amiga porque faz três semanas que não falo com ela, e preciso ouvir a voz dela.
Temos essas pessoas essenciais em nossas vidas e frequentemente não damos a elas o devido valor. Esse trabalho me fez entender que esses relacionamentos não têm preço, e preciso alimentá-los, ser explícita sobre isso. Essa é a maior mudança que esse trabalho me trouxe. Não é tanto sobre a vida em si, mas, principalmente, sobre relacionamentos.
Raio-X | Stefanie Green, 57
Médica canadense formada pela Universidade McGill, em Montreal. Atuou por mais de vinte anos como obstetra antes de migrar, em 2016, para a assistência médica para morrer (MAiD), logo após a prática ser legalizada no Canadá. É presidente fundadora da Camap (Associação Canadense de Avaliadores e Provedores de MAiD) e autora do livro "This Is Assisted Dying: A Doctor's Story of Empowering Patients at the End of Life" (2022), sobre o primeiro ano de sua atuação na área. É consultora médica da Unidade de Supervisão do MAiD do Ministério da Saúde da Colúmbia Britânica e já prestou depoimento como especialista à Câmara dos Comuns e ao Senado do Canadá. É corpo docente clínico das universidades de British Columbia e de Victoria.
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18. Entre utopia e distopia
As classes dominantes operam no modo Luís XV e pensam: "Depois de nós, o dilúvio". É preciso um projeto revolucionário para enfrentá-las.
Luis Felipe Miguel, 06.08.2026
Na semana passada, estive na Reunião da SBPC, em Niterói, para participar da mesa “Entre utopia e distopia”, organizada por Renato Janine Ribeiro e que contou também com a participação de Luis Nassif. Esta foi minha fala.
Pensando sobre o tema da mesa de hoje, me veio à mente o dístico de Romain Rolland, que Gramsci gostava de citar: precisamos tanto do pessimismo da razão quanto do otimismo da vontade. Para ser sincero, nos tempos que correm o trabalho da razão anda muito fácil do que o trabalho da vontade. Existem todos os motivos para o pessimismo, esfregados na nossa cara dia após dia. A verdade é que parece que não temos saída: que estamos sendo empurrados inexoravelmente para uma catástrofe. É preciso um esforço permanente para lembrar que esse sentimento de inevitabilidade e de impotência coletiva é, também ele, uma armadilha ideológica.
Achar que não temos saída, que o futuro já está determinado, que os poderosos não podem ser vencidos, é o caminho para abrir mão da resistência, para a capitulação ou mesmo, para quem tem essa chance, para a cooptação.
É preciso evitar essa armadilha, lembrar que a história não pára e somos nós, coletivamente, que determinamos seus curso. Sem, com isso, negligenciar ou diminuir a gravidade da situação que estamos vivendo.
Temos, em primeiro lugar, as ameaças existenciais a toda a humanidade, que se acumulam de uma maneira inédita em nossa história como espécie. A maior delas talvez seja o colapso climático, cujo enfrentamento exige mudanças profundas na maneira como nos relacionamos com o mundo natural. Em particular, exige o rompimento com a lógica da acumulação capitalista e o redirecionamento da economia, do valor de troca para o valor de uso. Justamente por isso, é tão difícil encaminhar soluções – é mais fácil negar o que está acontecendo ou esperar por uma resolução mágica que a tecnologia traria. Mas os custos ambientais da “transição energética” muitas vezes são minimizados por aqueles que esperam lucrar com ela.
Para dar um exemplo: um estudo recente mostrou que o impacto ambiental da produção de um veículo elétrico é tão maior que o da produção de um automóvel a combustão que, muitas vezes, toda a vida útil dele não compensa a diferença. Sem falar em toda a infraestrutura, nas cidades tomadas por pistas de rolagem e estacionamentos.
A conclusão é clara. Não é possível manter a primazia do automóvel particular. É necessário enfrentar os interesses econômicos e a cultura que eles incentivaram.
É difícil. As montadoras são poderosas e, embora empresas chinesas, estadunidenses, coreanas, japonesas e europeias briguem entre si por fatias maiores do mercado, todas concorrem para a promoção da ideologia do consumo – neste caso específico, a ideologia do automóvel particular como símbolo de conforto, liberdade e status.
Mas, de maneira mais geral, pensando não só no caso do automóvel, os custos do consumismo, da obsolescência programada e do individualismo se mostram altos demais. E isso exige uma solução coletiva, não se soluciona pelo voluntarismo de cada um. É preciso de equipamentos coletivos que permitam superar o transporte privado, a fim de que esta transição seja factível para uma grande quantidade de pessoas.
O poder político parece impotente para regular a situação. Temos, de um lado, negacionistas no poder, como o Donald Trump, que não apenas não endossam, mas se esforçam para destruir quaisquer políticas de combate ao colapso climático. De outro lado, estão governantes e também empresas que afirmam compromissos com a chamada “sustentabilidade”, mas que sempre estão prontos a recuar quando os lucros parecem ameaçados ou a pressão aumenta. Mesmo na China, a fusão de interesses entre a ditadura e os grandes conglomerados leva a resultado similar.
Ao lado do aquecimento global, temos os riscos de uma nova pandemia, também causada pelo desequilíbrio na nossa relação com o meio ambiente. Pior, a situação é agravada pela saída dos Estados Unidos da Organização Mundial da Saúde e a suspensão do financiamento estadunidense para ações sanitárias. Por incrível que pareça, menos de uma década depois da Covid-19, estamos em posição pior, como planeta, para enfrentar uma crise semelhante.
Temos também o nosso velho conhecido, o apocalipse nuclear. A agressividade das grandes potências está ampliada, num mundo que parece ter perdido a esperança de regrar as relações internacionais de qualquer forma que não seja pela lei do mais forte. A invasão da Ucrânia pela Rússia, os ataques dos Estados Unidos ao Irã, bem como sua cumplicidade ativa com o genocídio levado a cabo por Israel na Palestina, são todas indicações de um cenário internacional que não nos permite alentar muitas esperanças.
Para completar esse breve quadro, temos o avanço acelerado e descontrolado da inteligência artificial, um cenário de ficção científica, sobre qual é difícil fazer previsões, mas que não poucos especialistas veem também como uma possível ameaça à humanidade.
Marx já dizia que a máxima atribuída a Luis XV ilustra o espírito destrutivo do capitalismo: “après moi, le déluge”. Depois de mim, o dilúvio. Isto é, vamos extrair o máximo de vantagens agora, porque quando as consequências vierem não estaremos mais aqui para sofrê-las. Esta observação é mais apropriada hoje do que nunca.
Mesmo sem um cenário de extinção ou quase-extinção da humanidade, a distopia parece estar a alcance da mão. O poder das grandes empresas de tecnologia, destruindo as redes de sociabilidade que são fundamentais para a nossa vida e desmoralizando a ideia de verdade, está à nossa vista. E elas não têm pudor de usar todo seu poder para evitar qualquer forma de regulação pela sociedade.
Existe um projeto deles, que alguns enunciam de forma radical. Peter Thiel, o criador do PayPal e dono da Palantir, o bilionário que é uma espécie de mentor intelectual ou de guru da nova extrema-direita, influente no governo Trump, adota um discurso messiânico, de luta contra o que chama de “Anticristo”. Esse anticristo seria uma combinação de regulação internacional, ambientalismo e promoção da igualdade. Sua encarnação – e ele fala sério – seria a Greta Thunberg. A derrota do Anticristo, na sua narrativa, viria com o poder ilimitado dos bilionários, que apresenta como uma forma de meritocracia: o fato de serem bilionários provaria que eles são superiores. Para o resto da humanidade, cujo emprego seria cada vez mais desnecessário, estaria uma vida no limite da subsistência, com os prazeres sendo vividos de forma delegada nas redes sociais, nos stories dos ricos e famosos ou da IA. Um pouco de emoção viria das apostas online. É assustador que um projeto como esse seja não apenas pensado, mas enunciado publicamente e levado a sério em círculos de poder.
No Brasil, como em grande parte do resto do mundo, estamos presos na cilada de uma conjuntura política marcada pela força da extrema-direita. Claro que temos que nos felicitar pelo fato de que ela não está mais no poder – e esperamos que as eleições de outubro confirmem essa situação. Mas isso não quer dizer que muitos seus efeitos nocivos não se façam sentir. A naturalização da violência como forma de solução de conflitos, o apelo às piores facetas da nossa humanidade, o desprezo pela verdade, a degradação permanente do debate público: toda a política é deslocada pela presença de uma força extremista. As discussões importantes têm que ser adiadas, porque a energia é drenada para reafirmar o básico. Quem diria que, quarenta anos depois do fim da ditadura, estaríamos tendo que explicar que a tortura não é correta, que as pessoas não devem ser punidas por causa de suas ideias, que mulheres, negros ou homossexuais não são inferiores, que a sociedade bem ordenada tem que garantir a igualdade entre seus cidadãos.
Voltar a discutir o voto feminino: quando Margaret Atwood escreveu O conto da aia, faz mais de quarenta anos, levou sua imaginação de escritora ao mais extremo. Era uma hipérbole, um exagero para iluminar algumas tendências regressivas. Hoje, para muitos, está na ordem do dia.
Nosso experimento democrático, iniciado com a volta dos civis ao poder e cristalizado na Constituição de 1988, sempre enfrentou limitações. Nossas classes dominantes nunca tiveram grande identificação com o povo brasileiro, muito menos apreço pelas regras democráticas.
Os governos petistas mostram isso. Apesar do compromisso inequívoco com a redução da vulnerabilidade dos mais pobres, foram necessárias inúmeras concessões para garantir que avanços fossem possíveis. Concessões para nossa elite política predatória, para nossa burguesia atrasada, para comerciantes da fé picaretas, para controladores de meios de comunicação carente de ética. Nos dois primeiros mandatos, Lula governou buscando brechas permitissem alguma mudança, mas sabia que não era possível um projeto de transformação mais amplo.
Quando Dilma tentou dar uns passos nessa direção, demitindo alguns corruptos e esboçando, ainda que de forma muito incipiente, um projeto de desenvolvimento, com restrição ao império do capital especulativo, foi derrubada.
Depois do golpe de 2016 e do avanço do extremismo reacionário, encarnado na figura de Jair Bolsonaro, a situação piorou muito. No terceiro mandato de Lula, a extrema-direita continuou na ofensiva. Colocamos alguns golpistas na cadeia, é verdade, mas não conseguimos sequer reafirmar o compromisso nominal da elite com as regras do jogo eleitoral. Quiseram anistia, apoiam extremistas, está aí o Flávio insinuando de novo que tentará um golpe caso perca a eleição.
Vou repetir o que escrevi há alguns meses, quando se completaram dez anos da deposição da presidente Dilma: o terceiro governo de Lula não conseguiu avançar o que era necessário na recomposição da ordem que o golpe e o bolsonarismo devastaram. É como se uma casa tivesse sido atingida por um furacão e uma enchente. O governo Lula tomou conta, tirou um pouco da lama, trocou umas lâmpadas. Mas as janelas continuam quebradas, as paredes rachadas. As fissuras que o golpe de 2016 fez em nossa institucionalidade democrática, que sempre foi meio capenga, continuam aí.
Não estou culpando o governo. Sinceramente, não sei como teria sido possível fazer muito mais. Estou descrevendo uma situação.
Contra isso, é necessário encontrar caminhos para sair da defensiva e apresentar ao país algo além da nostalgia pela ordem que foi destruída. É preciso construir um projeto de desenvolvimento que conjugue pelo menos quatro eixos principais:
(1) combate às desigualdades, promovendo a melhoria das condições e das perspectivas de vida da maioria da população;
(2) aprofundamento da democracia, tornando a menos vulnerável a ataques e mais responsiva a uma população mais qualificada politicamente;
(3) garantia de uma inserção soberana no cenário internacional, sem ser satélite nem dos Estados Unidos, nem da China, nem de ninguém; e
(4) respeito ao meio ambiente, com manejo responsável e equilibrado dos recursos naturais.
Alguém vai dizer que nada disso é fácil. Não é mesmo. É preciso enfrentamento – contra os interesses internacionais que desejam nos tutelar e contra nossas elites, tanto econômica quanto política, que hoje romperam qualquer tipo de solidariedade com o povo, mesmo nominalmente, e ostentam um comportamento claramente predatório. Não se importam em adotar uma política de terra arrasada; parece que seu projeto é pilhar o que for possível para ir morar em Miami.
É necessária radicalidade política para construir esse projeto. Mas é uma tarefa da qual não podemos capitular. Creio que o grande diferencial da esquerda, como agente político, é a sua convicção de que, apesar de todas as circunstâncias, apesar de todas as formas de manipulação das mentalidades, é possível que as pessoas se conectem com sua própria experiência no mundo e aprendam a partir dela. Os inimigos detém os meios de difusão, controlam as big techs, dispõem de -todos os meios para promover a alienação, o conformismo, a estupidez, a desesperança. Mas, por outro lado, existe a realidade da vida vivida. E existe um enorme fluxo de indignação e de vontade de mudança atravessando a nossa sociedade.
A extrema-direita foi competente ao capitalizar estes sentimentos em seu favor. De uma maneira perversa, faz com que o descontentamento com o mundo em que vivemos seja dirigido não contra as estruturas que o produzem, mas contra as brechas que os dominados foram capazes de introduzir nestas estruturas – contra as políticas de promoção de igualdade, as transferências de renda, as ações afirmativas. À esquerda, cabe largar de sua posição de guardiã do que restou de uma ordem em decomposição, que nunca representou os seus sonhos, e se colocar como portadora do projeto de uma sociedade renovada. Assim, ela terá condições de disputar para transformação de que precisamos.
É impossível, aqui, não lembrar do alerta de Walter Benjamin, de que era necessário um freio de emergência para impedir o colapso da sociedade humana. A revolução, para ele, não era o anúncio de uma nova era, mas, em primeiro lugar, o impedimento do desastre. Ele escrevia no momento da ascensão do nazismo. Nossa conjuntura não é menos dramática.
A revolução de que precisamos não passa necessariamente pela tomada de uma Bastilha ou de um Palácio de Inverno. Passa pelo realinhamento de nossas prioridades como sociedade e pela redistribuição do poder dentro dela. É o que precisamos construir coletivamente.
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19. Das cinzas para a vida: Vik Muniz & Museu Nacional
Vik Muniz reproduz peças do Museu Nacional com as cinzas do incêndio que quase o destruiu. A exposição 'Rescaldo das Memórias' é uma resposta à pergunta se há limite para a criatividade
Ruy Castro, fsp, 5.8.2026
O artista plástico Vik Muniz parece capaz de — e não é um clichê — extrair leite de pedra. Basta querer um dia usá-lo como elemento de suas obras. Lixo, chocolate, macarrão, algodão, flores, gelatina, clipes, palitos, arame, confete, cabelo, Muniz já empregou tudo isso em sua carreira, sempre nos fazendo pensar se há limite para a criatividade. Com os instrumentos que, às vezes, são as suas ferramentas (pinças, conta-gotas, alfinetes), ele ultrapassa esse limite.
No dia 2 de setembro de 2018, em Zundert, na Holanda, ao inaugurar uma instalação de 65 mil dálias na casa onde nascera o pintor Van Gogh, Muniz soube do monstruoso incêndio do Museu Nacional, no Rio, provocado por um curto-circuito. Era a destruição de um patrimônio mundial da antropologia e das ciências naturais. "Passei a noite sem dormir", ele disse. "Foi como se um buraco se abrisse na minha cabeça, pensar que aquele lugar tinha deixado de existir. Não senti raiva. Senti vergonha". O Museu Nacional pagava pelo abandono que o governo federal sempre dedicou a tudo que deixou no Rio na mudança da capital para Brasília.
De volta ao Brasil, Muniz recolheu literalmente cinzas do chão do museu e, usando-as como matéria-prima, reproduziu em esculturas ou quadros 20 peças que fizeram a glória do acervo. Foi ajudado pela equipe de restauração e pelos cientistas da PUC-Rio, e o resultado é a exposição "Rescaldo das Memórias", na sala em que começou o incêndio e onde ainda se podem ver as vigas retorcidas pelo fogo.
Ali estão, com cada grão de cinza em primeiro plano e quase palpável, o crânio de Luzia, o fóssil humano mais antigo das Américas, com resíduos da própria Luzia, exemplares da fauna pré-histórica brasileira, a múmia de um gato egípcio, o sarcófago da sacerdotisa Sha-Amun-En-Su e a imagem da fachada do museu — fachada que, pelas dimensões da tragédia, temia-se que nunca mais ficasse de pé.
Fui à exposição no fim de semana e entrei por esta mesma fachada, também magicamente recuperada. Das cinzas, pode renascer a vida.
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Artigo: Vik Muniz faz Museu Nacional ressurgir das próprias cinzas
Não recuperar o edifício a um único momento histórico e integrar diferentes temporalidades com coerência e critério é decisão polêmica, incomum e acertadíssima dos responsáveis pelo restauro.
Por Miguel Pinto Guimarães especial para O GLOBO, 30/06/2026
Foi uma tarde de grande emoção voltar ao Museu Nacional para a abertura da exposição “Rescaldo das memórias”, de Vik Muniz. Tenho, assim como tantos outros cariocas, uma relação íntima com este prédio e seu acervo. Aprendi a desenhar copiando os seus fósseis, habilidade transferida ao meu filho que a exercitava nos mesmos salões. Conhecia cada detalhe daquela construção... capitéis, balaustradas e entalhes. De tanto frequentar aqueles espaços, me arrisco a dizer que até suas manchas de mofo e de infiltrações me eram familiares. Marcas que não só contam, mas contêm o rico passado deste palácio, que já foi morada de reis e imperadores.
Portanto, me recordo também, sempre com muita dor, da terrível sensação de avistar labaredas de fogo subindo alto naquele final de tarde de setembro, há oito anos, quando voltava de Petrópolis pela Linha Vermelha e intuí, imediatamente, que queimava o museu que eu tanto amava. Pois essa dor também ardeu no Vik, uma das mentes mais brilhantes e inquietas deste país. Paulista de nascimento, cidadão do mundo e carioca por adoção, que através do seu trabalho abriu as portas das mais importantes instituições do planeta, também tinha especial carinho por esta, o primeiro museu que conheceu, aos 8 anos, quando trazido ao Rio por seu pai.
Quem o conhece sabe que Vik não se emociona fácil, mas a destruição deste símbolo o sensibilizou. Passado o período forense, deu um jeito de se juntar às equipes de resgate e colocou a sua arte a serviço da memória. Resolveu criar uma série, cuja doação do resultado de suas vendas ajudou no custeio de parte significativa dos trabalhos de recuperação arqueológica do acervo, não coberto pelo seguro. É curioso imaginar o cenário de emergência encontrado pelo artista naquele trimestre final do ano de 2018... pesquisadores e arqueólogos garimpando resquícios dos mesmos objetos obtidos por arqueólogos de outrora, no interior do próprio edifício destinado justamente a exibir tal arqueologia. Pura metalinguagem. Curioso descobrir também que o incêndio revelou desconhecidas camadas históricas do prédio, hoje reveladas ao público em um primoroso trabalho de reconstrução e restauro liderado pelos escritórios H+F Arquitetos e Atelier de Arquitetura e Desenho Urbano, com coordenação de Lucia Basto, do Projeto Museu Nacional Vive.
Pois durante os últimos anos, Vik recriou imageticamente parte do acervo perdido de múmias, dinossauros, até mesmo o crânio de Luzia — um dos indivíduos mais antigos das Américas — com cinzas e fragmentos das próprias peças, muitos deles recuperados ainda em brasas. Tudo voltou agora, ressignificado, ao mesmo museu, em síntese de sua própria obra, conhecida por usar a arte como interface entre a matéria e a memória.
Não por coincidência, a mostra ocupa a Sala das Vigas, local de origem do incêndio, que foi mantida com suas paredes chamuscadas e vigas retorcidas, como que a evocar as dores nunca esquecidas. Não recuperar o edifício a um único momento histórico e integrar diferentes temporalidades com coerência e critério é decisão polêmica, incomum e acertadíssima dos responsáveis pelo restauro.
Essa é uma das poucas exposições em que Vik mistura fotografias e objetos tridimensionais. São destaques as peças impressas em 3D, usando um amálgama de polímero com as próprias cinzas do objeto queimado que recriam, por exemplo, o gato mumificado, que fazia parte da coleção de egiptologia adquirida por D. Pedro I em 1826. Por sorte, grande parte do acervo já havia sido submetida a scanners e tomografias, o que os fez sobreviver em modelos digitais, graças à dedicação pivotal de profissionais como Sergio Azevedo, pesquisador da UFRJ, Jorge Lopes e Gerson Ribeiro, responsáveis pelo laboratório de Biodesign na PUC.
Estão lá também, ressuscitados, o estauricossauro e o pterossauro, icônicos representantes da paleofauna brasileira. É interessante raciocinar que, se muitos dos fósseis existentes exibidos nos principais museus de paleontologia do mundo são réplicas ou modelos em resina, podemos dizer então que aqueles recriados pelo artista são, talvez, ainda mais autênticos, por terem sido impressos por material que contém DNA original.
Raciocinemos novamente, desta vez com abstração... A mostra em cartaz é, portanto, puro rearranjo de átomos. Objetos que já foram, após séculos, reorganizados e reconstituídos no que hoje são, obedecendo às leis basilares que regem a química, a física e a biologia desde os primórdios. Vik Muniz, mais uma vez, bagunça a cabeça de todo mundo. Sempre foi mestre nisso...
Imbuído do poder de fênix que a arte lhe confere, Vik fez o impossível. Fez o importante acervo do Museu Nacional ressurgir das próprias cinzas. Para surpresa e admiração de todos nós.
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Vik Muniz expõe no Museu Nacional obras feitas de materiais recuperados do incêndio: 'Catarse incrível'
Em 'Rescaldo das memórias', artista reúne 11 fotografias e nove esculturas representando itens perdidos do acervo, na Sala das Vigas, onde o fogo teve início, em 2018
Por Nelson Gobbi, 30/06/2026
Quando era criança, Vik Muniz veio de São Paulo com o pai visitar um tio no Rio, e conheceu alguns pontos turísticos da cidade, como o Pão de Açúcar e o Cristo Redentor. Mas o que o artista, que completa 65 anos em dezembro, se lembra de fato foi a ida ao Museu Nacional, em São Cristóvão, Zona Norte da cidade. Com obras integrando o acervo de instituições como o Guggenheim e o Whitney, de Nova York; a Tate Gallery, em Londres; o Centre Georges Pompidou, em Paris; e o Reina Sofía, em Madri, Vik recorda a ida ao antigo Palácio Imperial na Quinta da Boa Vista como a primeira vez em que pisou num museu, uma das razões pela qual o incêndio que atingiu o prédio em 2018 o impactou tão fortemente.
Ao ver as imagens do incêndio quando estava trabalhando em Zundert (cidade natal de Van Gogh, na Holanda), Vik procurou o museu para entender de que forma poderia colaborar para sua reconstrução. Daí nasceu a série “Museu de cinzas” (2019/2026), com obras criadas a partir dos restos da queima da estrutura e de itens do acervo, mostrada pela primeira vez em 2019 na galeria Sikkema Jenkins, em Nova York. Em maio, ele apresentou três obras na panorâmica “A olho nu” no CCBB do Rio, duas imagens reproduzindo a antiga fachada e o crânio de Luzia, o fóssil humano mais antigo já encontrado no Brasil, além da inédita “Tropeognathus mesembrinus” (2026), escultura que reproduz em tamanho real o fóssil de um pterossauro, instalada na rotunda. E, no dia 21, o artista finalmente apresentou as obras no próprio museu, com a inauguração da mostra “Rescaldo das memórias”, que reúne 11 fotografias e nove esculturas reproduzindo peças emblemáticas do acervo local na Sala das Vigas, onde o incêndio teve início, com o projeto de restauro optando por manter algumas das evidências da tragédia.
Trabalhando com as equipes do museu, Vik teve acesso a resíduos do incêndio, usados como elementos gráficos nas fotos e em material para as esculturas produzidas em impressoras 3D em parceria com pesquisadores do Laboratório de Processamento de Imagem Digital (Lapid/UFRJ).
— Quando criança, fiquei fascinado com o Museu Nacional, aquela coisa meio gabinete de curiosidades do acervo, algo de que sempre gostei. E museu é aquele lugar de onde você não sai com nada além das memórias. Parece que existe um fio que te conecta, você sabe que ele estará lá quando quiser voltar. Depois entendi por que o incêndio me pegou tão forte, por sentir que não poderia voltar àquele lugar da memória da infância — diz Vik. — Poder voltar ao museu com essa exposição foi uma catarse incrível. Foi bom poder ter as duas mostras, ali e no CCBB, em cartaz ao mesmo tempo, acho que são complementares.
'Bastidores da ciência'
Além de “Rescaldo das memórias”, o Museu Nacional inaugurou no dia 21 “Bastidores da ciência”, que aborda tanto os processos usados na recuperação dos acervos atingidos pelo incêndio quanto técnicas e práticas comuns ao dia a dia da instituição, a exemplo da modelagem digital, a taxidermia e as ilustrações científicas. Celebrando os 208 anos da instituição (completados no dia 6), as mostras, em cartaz até 30 de agosto, abriram a programação de exposições temporárias de 2026.
Rescaldo das Memórias': Vik Muniz transforma cinzas do Museu Nacional em arte
Para a museóloga Thaís Mayumi Pinheiro, coordenadora das Novas Exposições para Reconstrução do Museu Nacional/UFRJ, é importante que o público frequente o museu mesmo antes da reabertura total, prevista para 2029, para acompanhar os processos de restauro e de recomposição das coleções, compreendendo a complexidade de cada etapa, e a razão da duração de cada uma delas.
— Só na abertura, passaram 3.500 visitantes pelo museu. É fundamental as pessoas verem que, mesmo quando estava sob escombros, o trabalho nunca parou. E que ele não termina com as exposições, como em outras instituições. Há toda uma produção científica realizada em paralelo à reconstrução — comenta Thaís. — Tivemos algumas dezenas de milhares de itens e lotes que foram recuperados, dependendo, claro, de sua materialidade. E apresentamos também as doações que vieram de outras coleções e instituições.
Na entrada da mostra “Rescaldo das memórias”, são exibidos tubos de vidro com alguns dos materiais recolhidos do incêndio, utilizados por Vik Muniz nas obras, com etiquetas indicando “Fósseis”, “Egito” ou “Luzia”. A identificação só foi possível, conta Thaís, servidora do Museu Nacional há 11 anos, com o envolvimento de toda a equipe.
— O trabalho foi liderado pelos arqueólogos e paleontólogos da casa, que são professores aqui. Todo mundo que conhecia o prédio ajudou a fazer o mapeamento do que estaria nos escombros, onde ficavam os fósseis, os arquivos de papel — detalha a museóloga. — Foi um processo doloroso, tive que lembrar do que estava na área de exposições, na minha sala. Tenho memórias do público aqui antes do incêndio, olho para uma parede chamuscada e sei o que estava ali. Mas é um sentimento agridoce, já que estamos retomando esse contato com os visitantes. Dá muita esperança, é simbólico ter as obras do Vik ocupando este espaço.
O tema do incêndio há muito habita o pensamento de Vik. O artista conta que a abertura no Rio o fez reler os originais de um livro que vem escrevendo há mais de 20 anos, inspirado no dia em que foi visitar a mãe, telefonista da antiga Companhia Telefônica Brasileira, e acabou testemunhando uma das maiores tragédias da cidade de São Paulo.
— Minha mãe trabalhava na sede da CTB na Sete de Abril (rua do Centro de São Paulo) e, ao sair, vimos o incêndio do Edifício Andraus (em 24 de fevereiro de 1972) — conta Vik, explicando o critério na escolha do que seria reproduzido. — Quando comecei a série, não queria fazer obras que não tivessem sido perdidas. Por isso não fiz o (meteorito) Bendegó, um dos meus itens preferidos da coleção, junto da múmia do gato e da Luzia. Como elas foram destruídas, fizemos as esculturas. E a exposição ficou num bom tamanho, com um bom número de trabalhos. A mostra não é sobre a série, é também sobre aquele espaço, com as marcas do que aconteceu.
O artista diz que os trabalhos levam-no a refletir sobre como um resíduo material assume a forma simbólica daquilo que já foi o objeto na íntegra. E como algumas obras trazem, em sua composição, mais elementos originais do que o que estava anteriormente exposto, a exemplo do crânio de Luzia — por questões até de ordem ética, já que se tratava dos restos mortais de um ser humano, o museu exibia ao público uma réplica do fóssil, embora este também tenha se perdido no incêndio:
— A escultura tem as cinzas do crânio, é curioso pensar que um pouco da Luzia está, de fato, ali. É importante trazer essa materialidade de volta, ou vestígios dessa materialidade. O museu é o espaço de se reconectar com essa experiência física, presencial. Acho que existe um sentimento renovado disso entre as pessoas, essa vontade de ir além do digital.
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20. Marilda Sotomayor e a teoria dos jogos
'Jamais vou ganhar o Nobel': Quem é Marilda Sotomayor, brasileira referência em teoria dos jogos
Rafael Cariello & Laura Karpuska, fsp, 01.08.2026
[RESUMO] Três prêmios Nobel de Economia vieram ao Brasil para participar de congresso sobre teoria dos jogos que começou no último fim de semana na USP, sinal inequívoco do prestígio internacional da organizadora do evento, Marilda Sotomayor, 82. A matemática, que pensava em ser professora primária na juventude, se tornou coautora de pesquisadores renomados dos EUA no início da carreira e se consolidou como um dos grandes nomes em sua área de pesquisa, trajetória que desperta debate sobre se deveria ter sido lembrada pela academia sueca.
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Alvin Roth, 74, ganhador do Prêmio Nobel de Economia em 2012,t faz lembrar o escritor e neurologista Oliver Sacks: além da barba grisalha, da calva e dos óculos, ele também tem a fala rápida e inteligente do autor de "Tempo de Despertar". Roth é um senhor simpático — prolixo e sorridente — que, ao que tudo indica, não gosta de perder tempo.
Pelo menos uma testemunha da época em que Roth dava aulas na Universidade de Pittsburgh, nos anos 1980, relata que o pesquisador aproveitava o caminho entre a sua casa e o Departamento de Economia para fazer exercícios. Atrelava dois pesos aos tornozelos e levava outros dois nas mãos enquanto caminhava em ritmo acelerado até o campus.
No fim de junho, Roth deu entrevista à Folha por vídeo, segurando o celular a um braço de distância do rosto. Enquanto respondia às perguntas, percorria a passos largos um circuito ao ar livre —em intervalos regulares, uma mesma árvore e uma construção em madeira passavam pela tela, ao fundo.
A teoria que rendeu a Roth a maior láurea da sua profissão busca compreender transações que, por muito tempo, estiveram fora do escopo da ciência econômica. A pesquisa de Roth tem como objeto mercados sem preço, ou seja, mecanismos de alocação de recursos que prescindem da intermediação do dinheiro —justamente daquilo que, para a maioria das pessoas, caracteriza a economia moderna.
Roth queria saber como funcionavam "trocas" em que um valor monetário não era bem-vindo ou não tinha muita utilidade: como se ajustavam as preferências de homens e mulheres entre si, nos casamentos, por exemplo; ou se era possível "casar" de maneira satisfatória e eficaz hospitais e residentes de medicina, empresas e candidatos a empregos; ou como fazer chegar, aos pacientes adequados, os rins dos doadores em potencial.
O ramo da economia que ele ajudou a fundar, que explica e promove a melhor alocação mútua entre as partes interessadas, ganhou o nome de teoria do matching — palavra que significa pareamento, ou seja, um método para formar pares.
Ao explicar e promover o melhor emparelhamento possível entre doadores e transplantados, por exemplo, Alvin Roth não apenas contribuiu para uma melhor compreensão da realidade, mas, talvez mais diretamente do que outros vencedores do Nobel de Economia, efetivamente fez o mundo funcionar um pouquinho melhor.
Vencedores do Nobel de Economia desde 2021 - fotos
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Marilda Sotomayor é uma senhora elegante, de cabelos grisalhos. Aos 82 anos, a professora emérita da FEA-USP é esguia e tem o porte ereto. Ao receber a reportagem da Folha em um dia frio de inverno em São Paulo, portava xale e sobretudo. Marilda fala com muita clareza e mantém a voz um pouco mais alta do que seria necessário, como se estivesse dando uma aula, mesmo em uma conversa a dois.
Nos anos 1980, quando ainda estava começando a sua carreira de economista matemática, Marilda foi pesquisadora visitante na Universidade de Pittsburgh. Ali trabalhou com Alvin Roth e o ajudou a organizar a teoria do matching. Os dois ocupavam salas próximas no Departamento de Economia.
Roth diz que Marilda sempre foi uma matemática melhor do que ele. "Conversávamos sobre os problemas, e ela os provava", descreveu, com alguma generosidade, mas sem faltar com a verdade. Tanto assim que pediu a ajuda de Marilda para escrever, em coautoria, o livro que viria a legitimar e popularizar a teoria do matching entre economistas: "Two-Sided Matching: a Study in Game-Theoretic Modeling and Analysis" (pareamento bilateral: um estudo de modelagem e análise em teoria dos jogos).
O espanhol David Pérez-Castrillo, 65, professor emérito da Escola de Economia de Barcelona, diz que a obra, publicada em 1990, é um caso raro na ciência econômica. Em geral, são os artigos que fazem a fama dos economistas e provocam guinadas teóricas na disciplina. Nesse caso, foi um livro.
"Two-Sided Matching" trouxe para o campo teórico da economia uma série de problemas antes aparentemente incompatíveis com o modo de pensar tradicional da disciplina. A obra tornou Alvin Roth e Marilda Sotomayor conhecidos, famosos até. Pelo menos entre os economistas.
Na conversa recente com a Folha, Marilda se lembrou com prazer do período, no final da década de 1980, em que, mesmo depois de ter terminado o pós-doutorado na Universidade de Pittsburgh, tomava um avião anualmente até os Estados Unidos para trabalhar na redação do livro ao lado de Roth. Enquanto desfiava recordações de quatro décadas atrás, Marilda relatou, sem muita ênfase, um diálogo que teve com o colega nessa época.
Esta é Marilda Sotomayor, brasileira referência em teoria dos jogos
Os dois estavam sentados à mesa, trabalhando juntos em algum problema, em silêncio. De repente, Roth levantou os olhos, virou-se para ela e disse: "Marilda, se um dia você ganhar o Nobel e eu não, vou ficar chateado". A professora da USP repetiu então o que o amigo teria dito, em inglês: "'I will be upset', ele disse. Ele achava que eu podia ganhar o prêmio, e eu disse: 'Não, jamais vou ganhar o Nobel'".
Alvin Roth afirma não se recordar dessa conversa e a considera improvável. "Não acho que nós pensássemos muito no Nobel naquela época", argumentou. Mas, continuou, ainda que não tivesse dito a frase de que Marilda se lembrava, a ideia de que a sua coautora pudesse receber o Nobel não era absurda.
"Suponha que eles tivessem dado o prêmio a três pessoas", comentou Roth, que, em 2012, dividiu o prêmio com o matemático Lloyd Shapley. Se o nome de Marilda tivesse sido incluído, "as pessoas não diriam que o comitê do Nobel tinha enlouquecido", afirmou. "Elas entenderiam que o comitê havia decidido premiar aquele conjunto de trabalhos" ligados à teoria do matching "e que tinham reconhecido a Marilda como parte dele".
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Marilda Sotomayor passou os últimos meses assoberbada com a organização de um congresso internacional de teoria dos jogos, o quarto do tipo que ela própria promove desde 2002. Ao todo, seis laureados com o Nobel de Economia confirmaram participação no evento, que começou no fim de semana passado na USP. Três fizeram palestras remotas, e outros três tomaram aviões para vir a São Paulo.
"Acho difícil para um leigo entender o que significa reunir seis prêmios Nobel. É um sinal muito forte do quanto a Marilda é apreciada, do quanto todo o mundo gosta dela e admira a contribuição dela para a teoria econômica", afirmou Pérez-Castrillo, coautor de Marilda.
Outras pessoas talvez se dessem por satisfeitas com a conquista de uma programação estelar para a conferência. Nos contatos com a reportagem da Folha, contudo, Marilda Sotomayor tratava a organização do evento mais como uma fonte de sofrimentos do que de alegrias. Os tormentos talvez derivem do fato de a professora da USP ser minuciosa e controladora.
Vencedores do Nobel de Economia se reúnem em São Paulo - fotos
Um antigo colaborador, que ajudou Marilda na organização de outros congressos, descreveu a obsessão detalhista dela: ela organiza até mesmo o transporte de cada participante do aeroporto ao hotel, sem permitir que peguem táxi ou Uber livremente. Escolhe a programação, o hotel, o texto dos convites, os procedimentos de confirmação, os detalhes da cerimônia de abertura e do jantar de gala.
Durante o evento, houve quem, assoberbado e estressado, jurasse nunca mais voltar a trabalhar com Marilda.
Na relação com a imprensa, a economista matemática tampouco é a pessoa mais fácil e confiante do mundo. A princípio, só queria dar entrevista por escrito e exigiu de um outro organizador do congresso, procurado pela Folha, que fizesse o mesmo. Depois, cedeu e aceitou conversar. Na entrevista, contudo, Marilda foi simpática e generosa. Falou sobre a própria vida francamente, sem enfeites, por três horas e cinquenta minutos. Daria para ouvi-la, com prazer, pelo dobro do tempo.
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Um detalhe crucial da infância de Marilda é que a sua mãe era desquitada (o divórcio ainda não era legal) e o pai, ausente. Marilda, a mãe, dois irmãos e o avô materno moravam juntos no Jardim Sulacap, um bairro de classe média da zona oeste carioca, distante do centro e da zona sul.
O avô era funcionário aposentado da Central do Brasil. Ajudava na cozinha e cuidava das crianças enquanto a mãe trabalhava como professora de matemática. Para complementar a renda, a mãe de Marilda também dava aulas particulares. À noite, costurava as roupas da família, "porque não tinha como pagar costureira".
Seguindo os passos maternos, Marilda estudou para se tornar professora. "Casamento não é emprego", Maria Antonietta, a mãe, dizia desde cedo. Marilda gostava tanto de matemática que, mesmo depois de terminar a formação para lecionar em escolas primárias, não quis parar de aprender. Lamentava ter que "parar de resolver problemas". Decidiu continuar a estudar, agora na faculdade de matemática.
Não era fácil, de toda forma, conciliar os estudos com o trabalho. Marilda dava aulas à tarde em Bangu. A faculdade era de manhã, no centro da cidade. Incluindo o tempo de deslocamento, no trânsito, os horários não batiam. Por sorte, ela diz, abriram um curso noturno de licenciatura em matemática na UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro).
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Perto de terminar a graduação, lamentou mais uma vez que fosse parar de resolver problemas matemáticos. Foi salva por uma palestra à sua turma de faculdade feita pelo então diretor do Impa (Instituto de Matemática Pura e Aplicada), centro de excelência mundial da disciplina, de que só então, prestes a se formar, ela tomava conhecimento.
Marilda foi aceita no mestrado do Impa, um feito nada desprezível. "Fui aceita como orientanda do Elon Lages Lima, que é um figurão da matemática, famoso, escreveu vários livros e faleceu há poucos anos."
Também no Impa, Marilda conheceu o seu marido da vida inteira, o matemático peruano Jorge Sotomayor, morto em 2022. O namoro foi rápido. "Um dia, ele me convidou para tomar sorvete. Eu fui. No segundo dia, ele me convidou para um jantar. Depois do jantar, sentamos em um banco de frente para a praia, no Leblon. Ficamos conversando. Eu estava animada, contando várias coisas. De repente, ele se virou para mim e disse: 'Vamos nos casar?'. Uma semana depois, ficamos noivos. No final de dois meses, casamos. Nosso casamento durou 52 anos."
No meio do mestrado, Marilda foi convidada a dar aulas na PUC-Rio. Ela não considerava ainda a possibilidade de fazer doutorado. "Eu pensava que doutorado era coisa para gênio. O meu marido era doutor, tinha feito doutorado no Impa com 22 anos. Eu o admirava demais, era um dos maiores matemáticos na área dele aqui no Brasil." Ocorre que a faculdade começou a ser pressionada para ter professores doutores e repassou a pressão para o corpo docente.
Marilda fez boa parte dos cursos do doutorado no Impa, porque a PUC mantinha uma parceria com o instituto de excelência em matemática. Quando terminou, viu que o doutorado ainda não era suficiente: queria ganhar independência científica, ser capaz de se colocar os próprios problemas. Seu orientador tinha trabalhado com David Gale, um matemático renomado que dava aulas na Universidade da Califórnia em Berkeley. Quem sabe não poderia conquistar autonomia intelectual por lá?
Marilda mandou uma carta para Gale e pediu uma bolsa de pesquisa ao governo brasileiro. No início de 1983, mudou-se com o marido para os Estados Unidos.
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Duas décadas antes, no início dos anos 1960, David Gale havia concebido o problema que criaria a teoria do matching. Na época professor na Universidade Brown, ele se fez uma pergunta que parecia simples: será que haveria solução correta para o problema de alocar estudantes em universidades?
Trata-se de um processo complicado nos Estados Unidos, em que as preferências das universidades por alunos não são óbvias nem dependem apenas das notas dos candidatos. Qual seria a solução correta, a mais satisfatória, para esse problema?
A contribuição de Gale foi estabelecer um critério geral que independe das particularidades e dos gostos de cada um dos lados. Uma alocação de X estudantes em Y universidades será defeituosa, ele pensou, se existir um par —um indivíduo e uma escola— não pareado que se prefira mutuamente à combinação que lhe foi proposta. Dito de outra maneira: um pareamento é bom se for estável, se ninguém preferir um acordo independente melhor.
Muito bem. A pergunta seguinte, típica de matemático, era: existem pareamentos estáveis ou, mais importante, é possível provar a sua existência? Gale não estava conseguindo responder. Dizem que enviou cartas para colegas com a questão, respondida afinal pelo matemático Lloyd Shapley. A solução de Shapley é muito bonita e elegante.
No problema original, a quantidade de universidades é necessariamente menor do que a de estudantes: cada uma delas recebe dezenas de alunos a cada ano. Esse desajuste entre o tamanho dos dois grupos cria complicações desnecessárias, das quais Shapley se livrou transformando o problema em um pareamento um a um entre possíveis casais. Homens de um lado, mulheres de outro.
Ele imaginou uma regrinha de "namoro", um procedimento em mais de uma etapa: cada homem faz uma proposta a uma mulher. A mulher pode aceitar temporariamente a proposta, mas, em uma segunda rodada, se gostar mais do novo proponente, está autorizada a trocar o "noivo" inicial pelo novo interessado. Após algumas rodadas, Shapley mostrou, o pareamento tende à estabilidade e ninguém mais quer trocar de parceiro. Pareamentos estáveis existem.
Assim, de maneira quase prosaica, começou a teoria do matching. No futuro, transplantes de órgãos ou o funcionamento do Sisu (Sistema de Seleção Unificada, responsável por alocar candidatos do Enem em universidades no Brasil) se tornariam possíveis.
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O encontro entre David Gale e Marilda Sotomayor, no início da década de 1980, já foi tema de mais de um relato em revistas científicas. O mais recente apareceu em 2015 em um artigo de Pérez-Castrillo e Danilo Coelho, economista e pesquisador do Ipea.
Marilda esperava dar continuidade, em Berkeley, aos estudos em economia matemática que havia desenvolvido no doutorado. No primeiro encontro com Gale, foi informada de que ele não estava mais interessado naquele assunto —fazia tempo, aliás. Em um segundo encontro, dois meses depois, Marilda tomou coragem e perguntou no que, afinal de contas, David Gale estava interessado. Qual o seu tema de estudos atual? "Teoria dos jogos", ele disse. Mais precisamente, matching.
No terceiro encontro, semanas depois, o matemático disse à brasileira que não dispunha de nenhum problema que pudesse lhe repassar, como é comum nas orientações entre matemáticos. Frustrada, Marilda estava prestes a deixar o escritório, já na porta, quando Gale lhe propôs um lema (uma etapa relativamente autônoma, uma subseção de um teorema) em que ele próprio havia tropeçado.
A proposição contida no pedaço de papel que Gale estendeu na direção de Marilda permitiria provar de maneira breve e simples, se estivesse correta, que, para quem faz as ofertas nos procedimentos de pareamento do tipo imaginado por Shapley (os homens, no algoritmo de namoro e casamento; os estudantes, no caso das universidades), a melhor coisa a fazer é falar a verdade —revelar de cara as suas preferências sem tentar manipular o sistema. A demonstração existente desse teorema ocupava cerca de 20 páginas. Com o lema, Gale calculava, sairia em três linhas.
"A ideia veio, e demonstrei em um fim de semana", afirmou a brasileira.
Na segunda-feira, ao entregar o papel a Gale, Marilda disse que o matemático hesitou. "Ele pegou aquele papel e olhou para mim meio incrédulo. Depois, entendi. Mulher, brasileira — havia um certo preconceito naquela época. Ele mesmo não tinha conseguido provar. Então, ele se virou para mim e disse: 'Demonstra aí no quadro'. Fui para a lousa e comecei a demonstrar. Quando estava quase chegando no final, ele começou literalmente a pular e bater palmas. Ele tinha 60 anos. 'Bravo, bravo, you proved it, you proved it!'"
O que é e para que serve o Enem - fotos
Marilda sairia de Berkeley, dois anos depois, com quatro artigos em coautoria com David Gale. Dali, foi para Pittsburgh trabalhar com Alvin Roth por recomendação de Gale. Além do livro-texto que se tornou referência, Roth e Marilda produziram outros dois artigos juntos nessa temporada.
Roth afirma que o trabalho de Marilda com Gale foi muito importante para a sua pesquisa em matching. O trabalho de Marilda, ele disse, "certamente foi central para a compreensão" de por que procedimentos de matching funcionam.
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Todo esse sucesso acadêmico nos Estados Unidos não teve lá grande valia quando Marilda voltou para o Departamento de Matemática da PUC-Rio, no segundo semestre de 1985.
"Quando cheguei à PUC, os meus colegas matemáticos me olhavam com o nariz torcido, porque não sabiam o que era a teoria dos jogos. Teve um que, uma vez, me perguntou se eu estava montando uma agência matrimonial" — por causa do teorema com pareamento de casais, de Gale e Shapley.
Marilda se queixa também de não ter conseguido avançar na carreira e ser promovida a professora assistente logo na sua volta. Fez o pedido, formalmente, indicando que tinha cumprido o que era exigido para o cargo. "Foi negado. Resposta: gostamos de ver o seu currículo, um dia você chega lá." Marilda insistiu, pediu cartas de recomendação a Roth e a Gale e, afinal, conseguiu a promoção e o salário que pleiteava.
A brasileira Deborah Menegotto, hoje professora da Universidade Tufts, nos Estados Unidos, fez mestrado em teoria dos jogos com Marilda na PUC-Rio na segunda metade dos anos 1980 e depois seguiu para cursar doutorado em Harvard com apoio da matemática brasileira. À Folha, Menegotto disse que era possível perceber "que alguns professores no Departamento de Matemática não consideravam a pesquisa da Marilda tão importante quanto a deles".
"A minha impressão era a de que muitos matemáticos naquele tempo no Brasil não se interessavam pela teoria dos jogos e por matching", afirmou, "talvez porque achassem essa área longe da matemática pura e mais perto da economia e das ciências aplicadas".
O economista Vinicius Carrasco, que se dedicou a uma subárea da teoria dos jogos no doutorado, disse que esse campo só veio a ser incorporado ao mainstream da teoria econômica nos anos 1980. Matching, ele observou, era ainda mais marginal.
Não à toa, Alvin Roth permaneceu como professor de Pittsburgh, em um departamento de economia de segundo pelotão, fora dos 30 melhores dos Estados Unidos, até o fim dos anos 1990, quando foi "promovido" a professor de Harvard.
Um divisor de águas na atenção que pesquisadores e departamentos deram à teoria dos jogos foi o Nobel de Economia de 1994, concedido a John Nash, John Harsanyi e Reinhard Selten, os primeiros dessa subárea da economia a merecer a distinção. Dali por diante, foi uma chuva de láureas: uma dúzia de pesquisadores da teoria dos jogos viria a ser homenageada pela Real Academia de Ciências da Suécia.
Depois que Roth se mudou para Harvard, Marilda Sotomayor também passou a ser sondada para dar aulas e fazer pesquisa nos Estados Unidos. No início deste século, a brasileira passou repetidas temporadas como professora visitante na Universidade Brown.
Em certo momento, veio o convite para que se transferisse definitivamente para a Nova Inglaterra. Marilda recusou. Preferia ficar no Brasil.
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Há um grande privilégio, para um acadêmico, em poder escrever em inglês, frequentar seminários nos Estados Unidos e dar aulas por lá, afirmou Alvin Roth. "Acho que a Marilda seria mais conhecida se ela desse aula em uma grande universidade americana."
Pérez-Castrillo se diz impressionado com o que Marilda conseguiu fazer do Brasil, sem as mesmas condições de pesquisa e a mesma qualidade de alunos e colegas. O economista disse que, mesmo a Espanha, onde dá aulas, "não é os Estados Unidos", mas a possibilidade de trocar ideias e fazer trabalho em equipe é maior do que nas universidades brasileiras.
O quanto a decisão de permanecer distante dos centros de produção e debate pode ter prejudicado a carreira de Marilda? Entre os seus pares, pelo menos, a sua contribuição continuou a ser reconhecida.
O economista Humberto Moreira, professor da Escola Brasileira de Economia e Finanças da Fundação Getulio Vargas, no Rio, lembra-se de assistir a uma apresentação feita no início dos anos 2000 por Robert Aumann, um dos fundadores da teoria dos jogos, sobre o alcance e as diversas contribuições da área. A palestra era uma espécie de inventário das conquistas da teoria dos jogos.
Veja imagens da USP, primeira colocada no Ranking Universitário Folha 2025 - galeria
Na parte sobre matching, havia entre cinco e dez nomes — mais que cinco, menos que dez, Moreira já não lembra com exatidão —, aqueles que seriam os grandes teóricos da área. Marilda Sotomayor estava lá, nesse grupo, no slide da apresentação projetada por Aumann.
O conjunto restrito do qual ela faz parte torna legítimas as discussões sobre o cabimento de um Nobel para Marilda, ainda que não se chegue a um acordo. "A Marilda é espetacular e merece todas as honrarias e homenagens", afirma Moreira, que, no entanto, não considera a sua contribuição para matching tão seminal quanto a de quem concebeu o problema (Gale e Shapley) ou lhe deu aplicação prática (Roth).
Vinicius Carrasco, que foi aluno de Humberto Moreira, tem opinião semelhante: a seu ver, o trabalho de Marilda não valeria um Nobel. Carrasco lembra, de toda forma, que a contribuição da professora da USP para a teoria econômica é gigantesca, uma das maiores já feitas por um economista brasileiro.
O espanhol Pérez-Castrillo considera perfeitamente cabível debater se Marilda deveria ou não ter recebido o Nobel. "Tenho bastante segurança de que o nome dela esteve na mesa" quando se discutiu o prêmio para matching. "Se você põe seis nomes na mesa ao falar de matching, o da Marilda está lá, com certeza."
Matheus Assaf, professor de história do pensamento econômico da USP, chama atenção para o peso do gênero na trajetória de Marilda — talvez até maior do que o da nacionalidade. "Ser mulher afetou inteiramente a carreira da Marilda", ele diz. "Primeiro, na própria formação: ela começa como normalista e, depois de cursar a universidade, continua os primeiros anos da carreira acadêmica muito mais envolvida com o ensino do que com a pesquisa. O início da carreira é crucial na pesquisa em matemática, costuma ser quando os matemáticos fazem as suas principais contribuições."
"Ela começa a carreira na Escola Normal, se preparando para dar aula para crianças, e termina resolvendo problemas para um grande matemático e um futuro Nobel de Economia", Assaf afirma. "Nessa discussão sobre se ela merecia o Nobel tanto quanto Roth ou Shapley, se pondera muito a contribuição científica, o que é natural, mas se considerarmos a 'dotação inicial' de cada um, a carreira da Marilda é muito mais impressionante. Roth começa o ensino superior em Columbia, Shapley, em Harvard, e a Marilda consegue contribuir trabalhando junto desses cientistas."
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Marilda Sotomayor afirma não ver problemas maiores em ter continuado no Brasil. Continua a ter contato com os seus pares ao ser convidada para seminários e palestras internacionais, ela diz. De resto, de tempos em tempos, reúne a nata da teoria dos jogos no Brasil, em congressos como o da USP. "Convido as pessoas, e elas aceitam na hora."
A pesquisadora justifica a sua decisão de permanecer no Brasil, recusando convites da academia americana, com os mesmos argumentos usados para explicar o seu declarado desinteresse por prêmios acadêmicos.
Tudo o que ela queria, a princípio, era poder ter um trabalho, uma profissão que lhe desse independência financeira, como a mãe lhe havia ensinado. "Queria ser professora. Fui professora de crianças. Em uma época em que essa era a única profissão aceitável para uma mulher."
Mais tarde, Marilda queria, sobretudo, "problemas para resolver".
Quando lhe ofereceram uma posição como professora na Universidade Brown, por exemplo, a economista diz ter pensado: "No Brasil, estou muito bem. Não tem nada que vocês vão me oferecer aqui que eu não tenha lá. O que eles podiam me oferecer? Só um grupo que trabalhava [com o tema], é verdade. Cientificamente, era melhor. Financeiramente, eu ganharia mais dinheiro. Mas para que queria ganhar mais dinheiro se tinha tudo o que queria? A diversão de um cientista é o computador".
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21. Aglaja Veteranyi
Aglaja Veteranyi se debruçou sobre a morte antes de tirar sua vida.
'A Estante dos Últimos Suspiros' foi interrompido por suicídio da autora em 2002. Escritora suíça-romena cresceu em família de circo e lamentava a perda da tia.
Diogo Bercito, fsp, 03.08.2026
A Estante dos Últimos Suspiros, Preço R$ 65,90 (120 págs.); Autoria Aglaja Veteranyi; Editora Relicário; Tradução: Fernando Klab
A narradora olha para as mãos da tia. As unhas ainda refletem a luz que entra pela janela do quarto. Mas, nas suas palavras, as pontas dos dedos estão escuras, "como se mergulhadas em nanquim". A tia está morrendo.
No romance autobiográfico "A Estante dos Últimos Suspiros", a escritora suíça-romena Aglaja Veteranyi https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2024/06/ninguem-aguenta-mais-ouvir-a-palavra-eu.shtml descreve a angústia de quem assiste ao fim de uma pessoa amada. Carregado de poesia, morte e luto, o livro chega ao Brasil pela Relicário, em tradução de Fernando Klabin.
Nascida em Bucareste, Veteranyi cresceu em uma família circense, com a qual percorreu o mundo. Assentou-se na Suíça e passou a escrever em alemão. Em 1999, seu romance de estreia, "Por Que a Criança Cozinha na Polenta", convenceu os críticos e a transformou em sensação literária.
Aquele primeiro livro narrava a infância — mágica e instável — de Veteranyi no circo. O livro foi publicado no Brasil em 2004 pela editora DBA e deve ser reeditado em setembro pela Relicário. A tia já aparecia, mas em segundo plano, em meio à família toda.
O adoecimento e a morte da tia inspiraram Veteranyi a escrever "A Estante dos Últimos Suspiros". Era uma espécie de sequência, desta vez enfocando o assentamento da família errante e o sofrimento da tia, de quem, o texto indica, a autora era mais próxima do que da própria mãe.
A escrita foi interrompida em 2002 com o suicídio da autora em Zurique. O livro, segundo os editores, já estava na fase final de preparação. Veteranyi tinha acabado de imprimir uma versão do texto para fazer algumas correções à mão. Os editores decidiram lançar o volume naquele mesmo ano, postumamente.
É um romance delicado e repleto de passagens poéticas, como o trecho em que a tia diz que pensa no céu como um guarda-roupa onde "as almas se vestem de gente antes de nascerem". São capítulos curtos, assim como são curtos os parágrafos e até mesmo as frases. Veteranyi prefere concentrar em poucas palavras sua teoria sobre a vida e a morte.
O livro trata das enfermidades e da degeneração do corpo da tia. Trata também da sabedoria dela, que, mesmo às portas da morte, faz questão de aconselhar a narradora. Diz, por exemplo, que precisamos ser generosos com as nossas doenças. "Quanto mais você for avara com elas, mais elas vão querer da sua carne", diz. "Presenteie-as com os fios da queda de seus cabelos, com seus dentes podres, com suas unhas cortadas" para que não tomem "conta do seu corpo para se aquecerem".
Para além da questão da morte, o livro também é uma reflexão sobre a migração e a constituição do "eu" no meio do movimento. O leitor acompanha as andanças da narradora e de sua família, reinventando-se a cada fronteira cruzada, a cada novo costume aprendido e desaprendido.
De quem ficou para trás, a família sempre recebe os mesmos cartões postais e os mesmos livros de Mihai Eminescu, https://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq1212200514.htm poeta nacional romeno. A narradora, que nem fala romeno e escreve em alemão, reflete sobre a alienação no exterior.
Curto, o livro pede para ser lido em uma sentada só. Ou duas ou três, porque às vezes a profusão de imagens inesperadas e de frases entrecortadas cansa. Veteranyi não faz muitas concessões enquanto enlaça uma descrição à outra, em um estilo que exige bastante dos olhos.
Chama a atenção o cuidado da edição, com bem-vindas notas de rodapé que contextualizam, para o leitor brasileiro, o tempo e o espaço do livro.
As menções a um tal "sapateiro", por exemplo, referem-se ao ditador Nicolae Ceaușescu, no poder de 1965 a 1989. Era assim que se referiam a ele, de forma depreciativa, devido às suas origens. As notas também explicam a cena em que a tia assiste a uma novela sul-americana — ao que parece, "A Escrava Isaura" fez sucesso na Romênia.
Romênia, terra de mistérios - galeria
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22. Invasão da Venezuela em 03.01.2026
Entrevista: Invasão da Venezuela expõe disputa por hegemonia no cenário internacional
Autor: Luis Bonilla-Molina
Publicado em 06 de Fevereiro de 2026.
Luis Bonilla-Molina
A invasão dos Estados Unidos à Venezuela, em 3 de janeiro deste ano, resultando na captura do então presidente Nicolás Maduro e de Cilia Flores, deu início a uma grave crise política e diplomática que vai além do petróleo. Nesse contexto, o professor venezuelano Luis Bonilla-Molina analisa, em entrevista à imprensa do ANDES-SN*, o papel estratégico da Venezuela na geopolítica internacional e os impactos da ofensiva dos EUA sobre a soberania nacional e regional, diante do avanço de novas potências globais. Parte da entrevista foi publicada na edição do InformANDES de fevereiro e a íntegra pode ser conferida abaixo.
Publicado em 06 de Fevereiro de 2026 às 16h36. Atualizado em 10 de Fevereiro de 2026 às 14h09
A invasão dos Estados Unidos à Venezuela, em 3 de janeiro deste ano, resultando na captura do então presidente Nicolás Maduro e de Cilia Flores, deu início a uma grave crise política e diplomática que vai além do petróleo. Nesse contexto, o professor venezuelano Luis Bonilla-Molina analisa, em entrevista à imprensa do ANDES-SN*, o papel estratégico da Venezuela na geopolítica internacional e os impactos da ofensiva dos EUA sobre a soberania nacional e regional, diante do avanço de novas potências globais. Parte da entrevista foi publicada na edição do InformANDES de fevereiro e a íntegra pode ser conferida abaixo.
Luis Bonilla-Molina em evento na sede do ANDES-SN, em Brasília (DF). Foto: Eline Luz / Imprensa ANDES-SN
InformANDES: Como a Venezuela se tornou um ponto estratégico central para os Estados Unidos na atual disputa entre grandes potências e na redefinição de zonas de influência na América Latina?
Luis Bonilla-Molina: A Venezuela ocupa uma posição geográfica estratégica do ponto de vista militar, com acesso ao Mar do Caribe e ao Oceano Atlântico, a poucos quilômetros do Canal do Panamá — que o conecta ao Pacífico —, o que a torna fundamental para as rotas comerciais e de transporte na região. Além disso, o país possui as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo, abundância de ouro, presença de terras raras e outros minerais estratégicos para a inovação tecnológica, além de reservas significativas de água e biodiversidade.
Historicamente, os Estados Unidos invocaram a Doutrina Monroe e intervieram como mediadores quando o então presidente da Venezuela, Cipriano Castro (1899–1908), em 1902, decidiu ignorar a dívida externa do país, contraída com potências imperiais europeias — Alemanha, Inglaterra e Itália —, fato que gerou um bloqueio naval na costa venezuelana, semelhante ao aplicado hoje pela Marinha dos EUA.
Aplicando o princípio de “América para os americanos”, os Estados Unidos não apenas queriam impedir que a Europa se apoderasse de territórios na região, mas também garantir que Castro não escapasse impune, pois isso seria um mau precedente para a dominação que estavam construindo. Esse episódio abriu o capítulo da relação dependente e neocolonial da Venezuela com os Estados Unidos, algo que se tornaria ainda mais tenso quando Hugo Chávez [ex-presidente da Venezuela, 1999–2013] lançou sua proclamação anti-imperialista: “Yankees de mierda, váyanse al carajo” (tradução: “Ianques de merda, vão se ferrar”).
Ao longo do século XX, para controlar a indústria petrolífera, os Estados Unidos organizaram golpes de Estado e influenciaram a formação da democracia representativa que se desenvolveu após a revolução burguês-democrática de 1958.
Com a eclosão da crise estrutural venezuelana em 1983, que é a gênese da situação atual, ficou evidenciado o colapso do modelo de acumulação rentista, do sistema multiclassista de controle social e de suas instituições de intermediação, bem como dos instrumentos políticos de representação. Esses fatores, embora não tenham rompido com a dominação dos Estados Unidos na política e economia locais, convenceram o império de que o controle à distância não era mais suficiente e de que seria necessário migrar para um controle mais direto.
A chegada de Chávez ao poder sempre foi desconfortável para eles. Por isso, colaboraram com a tentativa de golpe de Estado em 2002, que fracassou graças à ampla mobilização popular. No entanto, a Venezuela nunca deixou de ser fornecedora de petróleo para o norte imperialista durante o período chavista.
Mas o início da redefinição da ordem mundial decorrente da Segunda Guerra Mundial, com o surgimento da China como potência econômica e da Rússia como bastião militar global, fez com que a Venezuela adquirisse uma importância incomum para o norte imperialista. Barack Obama [ex-presidente dos EUA, 2009–2017], em seu segundo mandato, declarou que a terra natal de Simón Bolívar era um perigo à segurança estratégica dos Estados Unidos, criando um precedente para que Trump implementasse sanções contra o país em seu primeiro mandato [2017-2021]. Isso evidenciou a convergência entre democratas e republicanos na reconfiguração do papel da Venezuela na geopolítica dos EUA, ainda que com diferenças nas formas.
Nesse contexto, chegamos ao bloqueio naval de 2025, com o desdobramento de navios militares e armamentos de última geração, que se intensificou em 3 de janeiro de 2026 com a intervenção militar no território venezuelano e o sequestro do presidente Maduro e de sua esposa, Cilia Flores, evento que causou mais de 100 mortes.
InformANDES: Que mensagem política e simbólica os EUA buscam transmitir ao capturar um presidente em exercício e declarar que estão “no comando” de outro país?
LBM: O governo de Nicolás Maduro Moros havia iniciado, anos atrás, negociações com os Estados Unidos com a intenção de distensionar o conflito e aliviar as sanções. Essa tentativa tornou-se pública em 2021, mesmo ano em que a relação com a associação empresarial venezuelana Fedecámaras — que participou ativamente do golpe de Estado de 2002 — foi reconstruída e ampliada após a guerra na Ucrânia, o que permitiu que a Venezuela voltasse a ser um fornecedor confiável de petróleo para os EUA.
No entanto, a má gestão da indústria petrolífera e o impacto das sanções na aquisição de suprimentos e peças de reposição levaram a produção de petróleo venezuelana ao seu nível mais baixo em décadas. Os Estados Unidos queriam mais petróleo, mas isso implicava investimentos elevados, difíceis de realizar diante da crise econômica venezuelana e do receio das corporações transnacionais de investir em um país declarado ameaça à segurança dos EUA.
Delcy Rodríguez, presidenta interina da Venezuela, foi um fator decisivo na recomposição da relação com a velha burguesia, o que abriu espaço para um eventual acordo interburguês. Em 2024, o governo de Maduro vivia o melhor momento das relações com os Estados Unidos, a ponto de a então vice-presidenta Kamala Harris, na noite de 28 de julho daquele ano, ter sido excessivamente cautelosa diante dos resultados eleitorais venezuelanos, mesmo diante de questionamentos.
Então, por que essa mudança na política dos EUA? Por que passamos de uma crítica limitada ao discurso político para a maior ofensiva militar contra a América do Sul em sua história? Porque uma nova ordem mundial está emergindo e os Estados Unidos querem ser protagonistas centrais em sua construção, ampliando seu controle energético e reafirmando o “Hemisfério Ocidental” como área de influência exclusiva.
Sequestram Maduro para tentar dissolver a República e impor uma relação colonial com a Venezuela, facilitando a aplicação da Estratégia de Segurança Nacional e o relançamento da Doutrina Monroe sob o corolário Trump, que passa a tratar a região como seu quintal, estendendo as fronteiras imperiais a todo o continente. E, ainda, alcançar o controle direto das reservas de petróleo da Venezuela.
O ataque à Venezuela, o sequestro de Maduro e a tentativa de construir um protetorado no século XXI são apenas a ponta do iceberg do que pode vir para toda a região.
Nesse processo, desde agosto de 2025, foi implementada a maior operação de uso de tecnologia de ponta, voltada à coleta massiva de dados produzidos a partir das respostas da população do continente a ataques contra pequenas embarcações e a anúncios de escalada do conflito.
Essa coleta de dados permite, hoje, que os Estados Unidos possuam informações atualizadas, segmentadas e geograficamente direcionadas para planejar ações conforme a Estratégia de Segurança Nacional, identificando simpatias e focos de resistência.
Não é estranho que, duas semanas após o ataque à Venezuela e o sequestro de Maduro, os barcos que supostamente transportavam drogas tenham simplesmente desaparecido e nenhum outro ataque tenha ocorrido?
Os Estados Unidos farão o que quiserem, vão violar toda a ordem jurídica internacional e a soberania de qualquer país para manter sua hegemonia na nova ordem mundial.
InformANDES: De que forma o controle da Venezuela pode ampliar a influência dos EUA para além do petróleo, alcançando dimensões militares, diplomáticas e econômicas na região?
LBM: Os Estados Unidos levaram seu plano colonial para a Venezuela às últimas consequências. O que estamos vendo é uma transição controlada da condição de República para a de Colônia, um processo que pode incluir a instalação de bases militares estadunidenses no país, sob o pretexto de proteger a produção de petróleo.
Nos dias seguintes ao ataque militar à Venezuela e ao sequestro de Maduro e de sua esposa, os Estados Unidos declararam o confisco de cerca de 50 milhões de barris de petróleo e a intenção de vendê-los diretamente no mercado mundial. Os recursos seriam depositados em contas bancárias no Catar, para evitar ações de credores, e uma parte desses valores seria devolvida à Venezuela para que os dólares fossem leiloados por um banco privado, e não pelo Banco Central venezuelano, com o objetivo declarado de custear salários e infraestrutura.
Embora a presidenta interina Delcy Rodríguez afirme que o que está sendo retomado é a relação comercial histórica com os Estados Unidos, o que vem ocorrendo é preocupante. Há reformas aceleradas nas legislações comercial, de hidrocarbonetos e trabalhista, com o objetivo de criar condições para ampliar o investimento e a participação de transnacionais na exploração do petróleo, relegando a estatal venezuelana a um papel secundário.
Na verdade, Trump reuniu-se com gestores e proprietários das principais empresas petrolíferas transnacionais com o objetivo de criar um fundo de 100 bilhões de dólares para “recuperar” a infraestrutura petrolífera venezuelana e aumentar a produção de cerca de um milhão para mais de quatro milhões de barris diários. Esse esquema parece colocar a companhia petrolífera estatal venezuelana como coadjuvante na ofensiva petrolífera americana.
Isso é grave, pois busca legitimar o direito dos Estados Unidos de usar todo o seu poder para garantir o próprio bem-estar. Se, para isso, for necessário destruir repúblicas e transformá-las em colônias, dinamitar Estados-nação para criar protetorados, demonstrar superioridade militar e tecnológica, eliminar infraestruturas de defesa nacional ou assassinar soldados de países da região, isso acontecerá.
Trump parece afirmar que, para evitar esse destino, os países do chamado Hemisfério Ocidental devem abrir mão de sua riqueza e soberania, acostumar-se à desapropriação e se contentar com um esquema de retorno de lucros controlado, supervisionado e determinado pelo Norte imperial. O que está acontecendo na Venezuela ameaça todo o continente.
InformANDES: E quais os riscos essa ofensiva representa para países da América Latina que mantêm projetos políticos autônomos ou alianças fora do eixo de Washington?
LBM: Há tensões e contradições entre blocos capitalistas pelo controle do poder e pela acumulação mundial. Nessa dinâmica, surgem blocos como os BRICS**, nos quais a China, adversária comercial dos Estados Unidos, desempenha um papel de liderança.
A Estratégia de Segurança Nacional, publicada em novembro de 2025 pelo governo Trump, estabelece que toda a América Latina e o Caribe são sua zona de influência direta, parte do Hemisfério Ocidental que consideram o anel de segurança econômica, política e militar dos Estados Unidos. Consequentemente, esses blocos econômicos com a China tornam-se um alvo, seja para forçar os países da região a abandoná-los ou para que eles façam parte da estratégia estadunidense, tentando implodí-los internamente.
Nesse cenário, é esperado que a administração Trump busque intervir, aberta ou secretamente, nas próximas eleições de países como Brasil, Colômbia e México, ao mesmo tempo em que avança na recolonização econômica, como ocorre no Panamá, na Argentina e no Chile, ou na recolonização territorial, como nos casos de Cuba e Nicarágua.
A Venezuela é a vanguarda dessa estratégia de recolonização do Hemisfério Ocidental. É necessário encontrar formas de resistência. Isso ocorre em dois níveis: o institucional e o popular.
No institucional, os governos da região deveriam pactuar uma agenda mínima capaz de conter a ofensiva imperial. O problema é que a direita iliberal e protofascista já ocupa muitos desses governos. O outro é a mobilização popular continental para despertar e se conectar com o movimento social norte-americano para derrotar a ofensiva trumpista de recolonização. Esse caminho é mais viável e depende da capacidade de articulação entre movimentos sociais e partidos políticos não alinhados com a estratégia dos EUA. O desafio é seguir nessa direção.
InformANDES: E qual é o papel da esquerda venezuelana?
LBM: O centro da política revolucionária na região é de caráter anti-imperialista, não há dúvidas. Mas é necessário esclarecer que nem o governo Maduro nem o atual, liderado por Delcy Rodríguez, são revolucionários. Pelo contrário, Nicolás Maduro liquidou os avanços sociais conquistados durante a revolução liderada por Hugo Chávez. No entanto, não hesitamos nem por um segundo em denunciar seu sequestro e exigir sua liberdade, porque o destino do povo venezuelano deve ser decidido pelos venezuelanos, não por qualquer império.
A autêntica esquerda venezuelana está passando por uma situação muito séria. Todos os partidos de esquerda foram judicialmente intervencionados pelo governo Maduro. Atualmente, não existe na Venezuela um único partido de esquerda autônomo legalizado.
Mesmo assim, as forças da esquerda que não dependem da legalidade burguesa denunciaram o ataque imperialista e o sequestro de Maduro e defenderam a articulação de uma frente anti-imperialista internacional baseada nos interesses da classe trabalhadora.
Infelizmente, tanto os governos de Maduro e Delcy Rodríguez quanto setores da esquerda internacional seguiram o caminho de esconder a existência de uma oposição de esquerda na Venezuela, que carrega a tradição histórica da resistência anticapitalista.
O governo venezuelano bloqueia a construção de um amplo acordo nacional anti-imperialista porque isso implicaria reconhecer que há uma oposição de esquerda. Do meu ponto de vista, é urgente superar esse obstáculo por meio da construção de uma ampla frente anti-imperialista que coloque a defesa da soberania nacional em primeiro plano, sem silenciar as críticas às políticas antioperárias do madurismo, das quais integrantes do atual governo foram coautores.
Estamos comprometidos com essa tarefa de articulação ampla, especialmente a partir do chamado da plataforma global em solidariedade à Venezuela e ao anti-imperialismo, lançada em 17 de janeiro. Todos os caminhos levam à unidade na luta anti-imperialista.
*Entrevista realizada em 21 de janeiro. Eventuais mudanças na conjuntura política descrita podem ter ocorrido após essa data.
**BRICS: bloco formado por economias emergentes — Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, além de outros seis países — voltado à cooperação política, ao desenvolvimento econômico e à articulação do Sul Global
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23. O berro do boi: a queda e a ascenção dos imãos Joesley e Wesley Batista
Consuelo Dieguez apresenta o novo podcast (ver aqui) feito pela Trovão Mídia (ver aqui) em parceria com a revista piauí, 27 Jul 2026/
Por anos, o Brasil praticamente não ouvia mais falar deles. Depois de quase derrubarem um presidente da República, corromperem meio mundo político em troca de vantagens para seus negócios e terem sido presos, xingados e vaiados na rua, eles haviam se recolhido.
O silêncio era uma estratégia. Longe dos holofotes, Wesley e Joesley Batista seguiam trabalhando. Seus negócios não só sobreviveram à Lava Jato e à prisão de seus donos como triplicaram o valor de mercado.
Em 2024, eles saíram da toca. Começaram a aparecer em festas, eventos e a dar entrevistas. Fizeram até perfil no LinkedIn para falar de seus empreendimentos no Brasil e ao redor do mundo. Antes arruinados moralmente, os irmãos Batista, líderes do grupo J&F, estavam de volta, mais ricos, poderosos e influentes do que nunca, com envolvimento até em questões diplomáticas.
Para contar os bastidores dessa história, a Trovão Mídia se juntou à revista piauí no podcast O berro do Boi, um dos lançamentos que celebra os vinte anos de fundação da revista. Ao longo dos seis episódios, publicados para o público geral às terças-feiras (assinantes da piauí têm acesso um dia antes, pelo Spotify), a jornalista Consuelo Dieguez investiga como os irmãos Joesley e Wesley Batista deram a volta por cima após o escândalo de corrupção em 2017, quando entregaram a delação premiada com o nome do então presidente Michel Temer em troca de imunidade.
Em 2015, Dieguez publicou na piauí a reportagem O estouro da boiada, que conta como a Friboi virou a maior empresa de carnes do mundo. Para o podcast, ela percorreu 5 mil km de estrada, conversou com dezenas de pessoas próximas e visitou unidades de negócios da família. Entre Minas Gerais, Goiás, São Paulo e Paraná, ela conta como a dupla sumiu de maneira calculada e ressurgiu fortalecida.
Os irmãos Batista são donos da maior empresa de proteína animal do mundo, a JBS, que estreou na bolsa de valores de Nova York em 2025. Também lideram a produção de frango, os processados de couro e, na América do Sul, o processamento de ovos. Com um jeito peculiar de crescer nos negócios, ainda marcam presença no setor de energia, cosméticos, mineração, serviços financeiros e outros.
O primeiro episódio narra de que forma os desdobramentos da Operação Lava Jato afetaram a reputação dos irmãos Batista e como, anos depois, as relações íntimas com o poder seguem sendo um dos fatores para o sucesso da família.
O berro do boi foi criado e dirigido por Ana Bonomi e José Orenstein. A reportagem é de Consuelo Dieguez, com roteiro assinado em parceria com Ana e José. A consultoria de roteiro é da Luna Grimberg. A produção é de Ana Azevedo e Laila Mouallem. A edição de som, montagem e mixagem são de Pedro Pastoriz, que assina a trilha sonora original com Arthur Decloedt. A checagem é de Gilberto Porcidonio.
Pela piauí, fizeram parte do projeto o diretor de redação André Petry, o editor executivo Daniel Bergamasco e a produtora-executiva Mari Faria.
Criada em 2020, a produtora Trovão Mídia já lançou mais de quarenta podcasts, entre eles duas parcerias com a piauí: Alexandre, sobre o ministro do STF Alexandre de Moraes, em 2023, e Silenciadas, sobre a cobertura de crimes sexuais pela imprensa brasileira.
O berro do boi é o primeiro podcast apresentado por Consuelo Dieguez. Com experiência em veículos como Jornal do Brasil, O Globo, TV Globo, Veja e Exame, e autora de livros como O ovo da serpente e Bilhões e lágrimas (ambos pela Companhia das Letras), ela começou a trabalhar na piauí pouco depois da fundação da revista, em 2006. Entre suas principais coberturas está a da fraude do Banco Master, que revelou na reportagem Alta tensão, na edição de outubro de 2024, e uma série de outras.
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24. Hélio Oiticica
Inglaterra recebe primeira instalação ao ar livre de Hélio Oiticica na Europa
'Magic Square #3' é composição labiríntica de cores vívidas. Obra do brasileiro foi cedida em empréstimo de longo prazo.
Londres | AFP, fsp, 31.07.2026
A Goodwood Art Foundation, perto de Chichester, no sudeste da Inglaterra, inaugurou, nesta sexta-feira (31), a primeira instalação ao ar livre na Europa de Hélio Oiticica, o renomado artista falecido em 1980, anunciou a própria instituição.
A obra de Oiticica, intitulada "Magic Square #3", é uma composição de cores "labiríntica", segundo a fundação, com um muro de cimento pintado, tijolos, metal, coberta de vidro e fragmentos de mármore.
"Como expressão da visão radical do artista de fazer com que a arte fosse participativa e inclusiva, a obra foi concebida para ser percorrida e explorada, permitindo aos visitantes experimentar planos de cor vívidos que mudam com a luz natural", informou a fundação em nota.
A obra foi cedida em empréstimo de longo prazo sem que se tenha estabelecido uma data de finalização de sua exibição, informou a instituição.
A primeira realização da obra ocorreu em 1978 e foi reconstruída em 2026 para ser instalada na fundação.
Richard Grindy, diretor da Goodwood Art Foundation, qualificou a obra de Oiticica como "extraordinária".
"A oportunidade de realizar e apresentar na Europa a primeira instalação ao ar livre da obra de Hélio Oiticica é extraordinária e reflete nosso compromisso de aproximar obras de arte de importância internacional a West Sussex", condado no sudeste da Inglaterra onde fica a fundação, explica Grindy.
Hélio Oiticica - fotos
"Integrada em nossa paisagem, a obra permite aos visitantes experimentarem a visão radical de Oiticica em um entorno que amplifica sua vigência e vitalidade perduráveis", acrescentou, em nota, o diretor da fundação.
A fundação qualifica Oiticica, falecido em 1980 aos 42 anos, como "um dos principais artistas brasileiros do século XX e uma referência fundamental para grande parte da arte contemporânea produzida desde a década de 1960, principalmente graças a suas obras participativas, entornos criados para serem percorridos e vividos, filmes de vanguarda, pinturas abstratas e esculturas".
A Goodwood Art Foundation é um centro dedicado à arte contemporânea no Reino Unido, inaugurada em maio de 2025. Em suas galerias e ao longo de seus mais de 25 hectares de paisagem, exibem-se obras de alguns dos maiores artistas internacionais.
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25. Cinismo judicial: STF e Olga Benário
Supremo manda Olga Benário para a câmara de gás. Editado em agosto de 1936, o decreto de expulsão, com o consentimento do plenário, faz 90 anos
Submisso, o Supremo manda Olga Benário para a câmara de gás. Editado em agosto de 1936, o decreto de expulsão, com o consentimento do plenário, faz 90 anos.
Luís Francisco Carvalho Filho, fsp, 31.07.2026
Há quatro anos, a ministra Cármen Lúcia definiu a entrega de Olga Benário, mulher de Luís Carlos Prestes, grávida, para a Alemanha de Hitler, como uma "página trágica" da história do Supremo –devedor de um pedido de perdão. Mas a reparação não aconteceu.
Editado em agosto de 1936, faz 90 anos o decreto de expulsão, com o consentimento do plenário do STF (na época, Corte Suprema dos Estados Unidos do Brasil), culmina com a sua execução, depois do nascimento de Anita, em campo de concentração nazista.
No site do Supremo, o caso Olga aparece na gaveta dos "julgamentos históricos", com mais informação de natureza burocrática do que propriamente histórica. Dá acesso à íntegra do processo, mas faltam os votos dos ministros.
O acórdão é lacônico: "em casos que tais não há como invocar a garantia constitucional do habeas corpus". Submisso, o tribunal declara que Getúlio tinha legitimidade para cancelar direitos.
Olga é expulsa para a Alemanha nazista por ser considerada "indesejável" pela polícia política, por ser, no entendimento do ditador, "elemento nocivo aos interesses do país e perigoso à ordem pública".
O antissemitismo pairava na atmosfera política. Conforme informação do IBGE ("Brasil: 500 anos de povoamento"), o governo brasileiro começou a negar vistos a judeus em 1935. Dois anos depois, já no Estado Novo, circular secreta proibiria vistos a "pessoas de origem semita".
Os jornais noticiam a "luta de raças", a "prisão de israelitas" pela Gestapo e a internação de comunistas em campos de trabalhos forçados. Dois meses antes do julgamento, o Correio da Manhã publica Cartas da Europa que Gondin da Fonseca manda de Berlim sobre "o judeu e os nazis", entre outras impressões da Alemanha. O articulista revela sua opinião com cautela e simpatia: "Eu não acho que Hitler faça bem em perseguir tão desabrigadamente o judeu. Controlar os seus movimentos subversivos, vá. Castigar, porém, e punir indiscriminadamente uma raça inteira, afigura-se me anti-humano".
Olga Benario Prestes - galeria
Olga era judia e comunista. O desfecho da expulsão era previsível. Seu advogado pediu ao Supremo que ela respondesse aqui pelos crimes políticos eventualmente praticados no Brasil e que fosse protegida a gestação da criança, filha de cidadão brasileiro.
O tribunal é unânime contra a mulher. A maioria não toma conhecimento do pedido. O voto do relator Bento de Faria desapareceu. Os votos de outros ministros não estão disponíveis, mas são mencionados em artigo de Felipe Cittolin Abal.
O julgamento é uma aula magna de cinismo judicial. A lei proibia a expulsão de brasileiro ou de filho de brasileiro nascido no exterior. Para o insigne ministro Carlos Maximiliano, o feto não se encaixa nas hipóteses: ainda não nasceu. Costa Manso, de "adamantino caráter", zomba do advogado: o governo é "mais benigno", livra Olga da prisão, "concedendo-lhe a liberdade", embora além das "fronteiras". Para o notável Carvalho Mourão, "a circunstância de a gestante mudar de domicílio não põe em perigo a vida do nascituro".
Covardes, racistas, misóginos e perversos, o perfil biográfico dos ministros do STF que mandaram Olga para a câmara de gás ainda se resume ao elogio bacharelesco e à bajulação beletrista.
Anita Prestes, filha de Olga Benário e Luiz Carlos Prestes - galeria
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26. Jornalista desafia mitos da MPB em trilogia sobre Gil, Caetano e Chico Buarque
Gustavo Alonso, fsp, 31.07.2026
Tom Cardoso prova que a análise musical brasileira pode ir além da hagiografia. Formato diferenciado e apuração corajosa fazem dos ensaios leituras indispensáveis para quem busca verdades incômodas.
Na semana passada, escrevi sobre a recente produção documental musical brasileira e o tanto que esse tipo de obra busca apenas homenagear os artistas. Falta coragem a muitos cineastas brasileiros para abordar a música brasileira de forma mais provocadora.
Não há desculpa. Hoje em dia há segurança legal para a produção de obras biográficas sem o aval dos próprios artistas. Em 2015, o Supremo Tribunal Federal aprovou a "lei das biografias" (ADI 4815). Ela deu fim a processos abertos por artistas incomodados com verdades incômodas expostas em livros, peças e filmes. Muitos músicos da MPB advogavam pela "privacidade" para, na verdade, cercear a liberdade criativa e de expressão de outros artistas, escritores, teatrólogos e cineastas, que buscavam retratar nossa música popular com olhos menos endeusadores.
De 2015 para cá, poucos se aproveitaram de fato da garantia legal para produzir obras interessantes, instigantes e sem rabo preso com o agrado de artistas. Então é preciso louvar aqueles que o fazem.
Um autor que merece menção é o jornalista Tom Cardoso. Desde que a "lei das biografias" foi aprovada pelo STF, Cardoso escreveu um livro-reportagem sobre o ex-governador fluminense Sergio Cabral, e biografias de Nara Leão e Cássia Eller. Mas a obra sobre a qual quero chamar atenção aqui é a trilogia sobre a santíssima trindade da música brasileira: Gilberto Gil, Caetano Veloso e Chico Buarque.
Em 2022, Cardoso publicou "Outras Palavras: Seis Vezes Caetano". Em 2024, foi a vez de "Trocando em Miúdos: Seis Vezes Chico". Agora, neste ano, ele lançou "Nem Tanto Esotérico Assim: Seis Vezes Gil". Os subtítulos fazem referência ao formato das obras. Não são biografias, mas ensaios temáticos espinhosos sobre os gênios da MPB.
Assim, o livro sobre Gil tem capítulos sobre política, poder, censura, negritude, família e música. O livro sobre Chico Buarque aborda política, literatura, fama, polêmicas, censura (e autocensura) e futebol. O de Caetano tem capítulos temáticos sobre Santo Amaro (sua cidade natal), polêmicas, liderança, vanguardismo, amor e política.
A intensa produção de Tom Cardoso, https://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/2026/05/por-que-documentarios-e-cinebiografias-de-musicos-viraram-filao-da-industria.shtml prolífico a ponto de ter vários livros no mercado, tinha tudo para fazer a gente desconfiar da qualidade da apuração. Afinal, como pode um autor escrever biografias, além das já mencionadas, de figuras tão diferentes como o jogador Sócrates, o jornalista Tarso de Castro e o empresário Paulo Machado de Carvalho, um dos maiores dirigentes esportivos do país e fundador da TV Record?
Mas não se engane, Tom Cardoso já ganhou um prêmio Jabuti em 2012 por seu livro-reportagem "O Cofre do Dr. Rui", que narra o assalto ao político Adhemar de Barros, em 1969, realizado pela luta armada durante a ditadura.
'Ninguém Pode com Nara Leão', de Tom Cardoso - galeria
O livro de Tom Cardoso sobre Gilberto Gil, que li recentemente, começa mostrando que seu pai, o senhor José Gil Moreira, era presidente da Câmara Municipal de Vitória da Conquista e assinou a ata do dia 17 de abril de 1964, que celebrava o golpe militar.
Enquanto o filho começava a vida artística como cantor de músicas de protesto e depois seria exilado como tropicalista, seu pai, médico sanitarista, endossava a limpeza política de sua cidade. Em 1969, em pleno governo do general Médici, José Gil louvou o ditador enquanto seu filho vivia expulso do país.
No capítulo sobre a família, o autor mostra as tensões dos inúmeros filhos, netos e bisnetos, além das ex-mulheres do compositor genial, sem desrespeitar ninguém.
O capítulo sobre o poder faz um balanço cru da atuação de Gil na política, desde as rasteiras que levou, que o impediram de ser eleito para a prefeitura soteropolitana, até o descompromisso com o cargo de vereador de Salvador nos anos 1980. Naquela época, Gil preferiu continuar a carreira de artista concomitantemente à vereança. Sem tempo útil, esteve ausente de 63% das sessões da Câmara Municipal.
Chico, Gil, Caetano e outros cantam em ato contra a PEC da Blindagem em Copacabana - galeria
Não falta coragem a Tom Cardoso e, por isso, seus livros merecem atenção. Mas quem quer ler algo que incomoda, que não passa pano? Vivemos uma época em que o endeusamento de artistas antecede qualquer norma legal. Mudar a lei foi "fácil"; difícil é mudar a mentalidade de nossos produtores e evitar o lambe-lambe cultural.
O interessante das obras do Tom Cardoso é que, por meio do formato ensaístico, ele vai direto às polêmicas, vertical e corajosamente, sem perda de tempo com floreios biográficos. Não é um formato exatamente novo, mas que andava sumido da análise musical e que exacerba as qualidades do texto do autor. Diante de tanta qualidade, por que ainda há tanta gente (público, cineastas e outros autores) com tanto medo de encarar os mitos da MPB de frente?
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27. A captura de um neonazista latino
Como um jovem do interior do Paraná se tornou um extremista procurado pela Interpol – e como a polícia conseguiu encontrá-lo depois de um ano em fuga
Daniela Abade, de São Paulo, e Andrea Palladino, de Rovigo, 31.07.2026
A cidade de Pato Branco, no interior do Paraná, garante aos seus 98 mil habitantes uma vida tranquila, considerando os parâmetros brasileiros. A criminalidade é mínima. O município não é um grande polo econômico, mas oferece qualidade de vida e tem um PIB per capita superior à média nacional (63 mil reais, ante 59 mil). Com várias universidades, reúne estudantes de todo o país, muitos deles vindos de Santa Catarina, cuja fronteira está a menos de 40 km.
João Guilherme Correa nasceu nesse mar de tranquilidade em setembro de 1990, quando a cidade era ainda menor. Segundo de três filhos, cresceu numa família de condições modestas. Sua mãe, uma cristã diligente, era – e ainda é – professora de história na rede estadual. Seu pai é corretor de imóveis. João Guilherme sempre estudou em escola pública, com um desempenho oscilante. Ficou de dependência uma vez no ensino fundamental e reprovou o primeiro ano do ensino médio. Enquanto concluía os estudos, fez serviço militar obrigatório e acabou virando recruta do Exército. Aos 18, mudou-se para Curitiba, onde ficava o quartel.
Muitos anos depois, em depoimentos que prestou à polícia, seu pai diria que foi nas fileiras do Exército, na capital paranaense, que a vida de João Guilherme deu uma guinada. Mas é provável que sua transformação tenha começado antes. Nos poucos meses em que permaneceu em Curitiba, o jovem de Pato Branco deu demonstrações de que já era um convicto neonazista. Circulava em grupos que, inspirados na ideologia de Adolf Hitler, pregam a supremacia de uma inventada “raça ariana” e a eliminação de minorias sociais.
Um de seus companheiros de movimento era Ricardo Barollo, líder de um grupo neonazista que, entre outras propostas, defendia a criação de um país na Europa chamado Neuland (nova terra, em alemão) – um paraíso da supremacia branca, sem negros, gays ou judeus. Quando os dois se conheceram, Barollo já tinha um longo histórico no movimento. Pouco tempo antes, havia rompido relações com um de seus colaboradores mais próximos, Bernardo Dayrell Pedroso. Como é comum nesse tipo de organização, a rixa entre os dois evoluiu para a violência. E João Guilherme, ainda um neonazista iniciante, acabou tragado para a disputa.
Em 20 de abril de 2009, Pedroso organizou um evento em Campina Grande do Sul, cidade próxima a Curitiba, para comemorar os 120 anos do nascimento de Hitler. Tudo corria dentro do esperado, até que, a certa altura, um dos presentes pediu que Pedroso e sua namorada, Renata Waechter Ferreira, fossem até a capital comprar mais insumos para a festa. Eles aceitaram a missão. Ao voltar, foram pegos numa emboscada na estrada, perto do município de Quatro Barras, e mortos a tiros. O crime, segundo o delegado responsável pela investigação, Francisco Caricati, foi ordenado por Barollo. E quem deu o tiro na cabeça de Renata foi João Guilherme, na época com 18 anos.
O inquérito se desenrolou com rapidez. João e seus parceiros, todos novatos, não tinham experiência em esconder evidências nem tiveram a sorte de lidar com uma investigação negligente. No dia 2 de maio de 2009, a polícia anunciou à imprensa que havia prendido cinco suspeitos. Seis dias depois da conclusão da investigação, todos foram indiciados pela Polícia Civil. João Guilherme confessou ter assassinado Renata, uma estudante de 21 anos que não desempenhava nenhum papel relevante no grupo – foi morta só por ser uma testemunha. Ainda em maio, o Exército afastou João “a bem da disciplina”, termo que, entre os militares, se refere à punição por mau comportamento ou condenação criminal.
Os cinco rapazes ficaram presos até 15 de abril de 2010, quando foram beneficiados por uma decisão unânime do Tribunal de Justiça do Paraná. Para os juízes, embora os réus fizessem parte de uma organização neonazista e fossem acusados de participar do planejamento de um duplo homicídio, nenhum deles oferecia “periculosidade concreta” à população. Foram soltos, com a condição de serem monitorados. Não passaram a usar tornozeleira eletrônica porque, naquela época, o equipamento ainda era incomum no Brasil – só dali a dois meses, em junho de 2010, foi regulado por uma lei federal. Até então, o monitoramento era feito por meio de visitas surpresa da polícia ao preso (as “incertas”) e do próprio preso ao Tribunal de Justiça.
O processo estagnou. Entre 2010 e 2012, o tribunal realizou apenas uma audiência com os cinco réus. Apesar da grande repercussão do assassinato, o julgamento nunca foi pautado – e caiu em esquecimento. Os rapazes, depois de ficarem presos por um ano, foram presenteados com liberdade plena para recomeçar suas vidas e, caso quisessem, se desvencilhar do neonazismo. Mas essa não foi a escolha de João Guilherme Correa.
Grupos neonazistas se articulam internacionalmente. É comum que organizações de um país visitem as de outro, troquem informações, treinamentos, se comuniquem pela internet. E, ao contrário do que se pode pensar, brasileiros não costumam ser vistos como inferiores pelos neonazistas europeus ou americanos, mesmo sendo oriundos de um país com uma história profundamente marcada pela miscigenação. Isso se deve, em grande medida, ao advento do MMA (mixed martial arts) e a consequente popularização do jiu-jítsu brasileiro a partir dos anos 2000. Grupos neonazistas mundo afora têm o hábito de promover eventos de luta, que acabam sendo úteis como uma fonte de receita – enquanto o embate acontece, vende-se comida, bebida e souvenires para os simpatizantes da causa. O jiu-jitsu brasileiro – conhecido pela sigla BBJ, de brazilian jiu-jitsu – se destaca nesse tipo de confronto. Neonazistas de muitos países, por isso, passaram a buscar brasileiros que pudessem treiná-los nessa arte marcial. Quando um grupo conta com um integrante brasileiro, presume-se que ali há bons lutadores.
Em 2009, quando organizou a festa em homenagem a Hitler, o grupo de João Guilherme já havia despertado o interesse e a admiração de neonazistas de outras nacionalidades. Integrantes da divisão argentina do Blood & Honour, um grupo neonazista fundado no Reino Unido nos anos 1980, compareceram ao evento. Foi com uma arma argentina, de uso exclusivo da Polícia Federal daquele país, que João Guilherme assassinou Renata.
O Blood & Honour se instalou em Curitiba logo depois da festa, em 2009, por meio de um de seus subgrupos, o Combat 18. Mas a organização foi pega de surpresa pelo assassinato de Pedroso e sua namorada. Os argentinos do Blood & Honour mantinham um site na época, onde condenaram o ato, prestaram condolências às famílias dos mortos e baniram os envolvidos no assassinato de entrar para suas fileiras. Foi um revés para João Guilherme, mas a má fase durou pouco. Rejeitado pelo grupo inglês, o jovem foi recebido de braços abertos por uma organização adversária – mas igualmente neonazista – chamada Hammerskin Nation.
Hoje, os dois grupos são aliados e até promovem eventos juntos, mas na época disputavam influência. O Hammerskin Nation surgiu em Dallas, no Texas, em 1988. Seu nome original era Confederate Hammerskins. A palavra hammer – martelo, em inglês – faz referência ao filme Pink Floyd – The Wall (1982), em que um logotipo com dois martelos cruzados é usado para simbolizar o fascismo (de forma crítica, não elogiosa). O grupo tem 36 divisões – chamadas de “capítulos” – em treze países, cobra mensalidade de seus integrantes e é conhecido por submeter os novatos a um processo de formação brutal, que dura em média oito anos. Quem entra para o grupo começa na categoria supporter (apoiador). Para subir degraus na hierarquia, deve cometer crimes violentos testemunhados e filmados por integrantes da organização. O segundo degrau é o Crew 38 (equipe 38). Quem entra para essa categoria ganha uma primeira insígnia. Entre os Hammerskins, quanto mais insígnias, mais respeitado é o neonazista.
Os crimes violentos, que servem de teste para os novatos, geralmente miram grupos sociais desprezados pelos supremacistas: negros, pessoas em situação de rua, gays, lésbicas, transsexuais, imigrantes, prostitutas, judeus. Os Hammerskins têm uma regra: se um de seus integrantes for preso por um desses atos, deve sempre negar que faz parte de um coletivo. O objetivo é fazer com que a Justiça trate aquilo como um delito individual, dificultando, dessa forma, uma repressão mais sistemática ao grupo – que, em compensação, presta assistência jurídica ao preso e apoio à sua família. Por fazer apologia ao nazismo e a atos de violência extrema, os Hammerskins foram banidos do Reino Unido, Alemanha, Canadá e Espanha.
Esses rituais de iniciação raras vezes foram flagrados. Uma delas ocorreu em 1999. Travis Miskam, integrante de um capítulo dos Hammerskins no Sul da Califórnia, estava comandando uma iniciação na praia, quando Randy Bowen, um rapaz negro, se aproximou, desavisado, pensando que se tratava de um lual. Foi brutalmente espancado. Como os neonazistas filmaram a cena, a polícia desvendou o caso rapidamente. Condenado, Miskam pegou a pena mais longa da história dos Hammerskins: dezenove anos de prisão em regime fechado. O episódio foi retratado na série Gangland, de 2007. Miskam hoje está em liberdade e continua ativo.
Um dos primeiros brasileiros a se tornar full patched – como são conhecidos os integrantes de nível máximo entre os Hammerskins – foi Alexandro Carneiro, vocalista da banda Zurzir. A música é um componente importante na atração de novos simpatizantes do neonazismo, e esses grupos frequentemente organizam festivais de rock, punk e heavy metal. Carneiro, que faz parte desse cenário, mora há mais de uma década no Colorado. Não se sabe se João Guilherme foi recrutado por ele ou por Miguel Angelo Gastar Pacheco, um português nascido em Moçambique que se instalou em Santa Catarina e também faz parte do alto escalão dos Hammerskins. Mas está claro que, ao menos desde 2017, João Guilherme atua pelo grupo. No ano seguinte, viajou à Europa para estreitar relações com outros capítulos da organização.
Sua vida, desde que saíra da prisão em 2010, havia se estabilizado. Com a família, João Guilherme se mudou de Pato Branco para uma chácara nas imediações de Maringá (PR). Escolheram uma casa confortável, com 8 mil m² de área total, dois lagos e uma quadra de futebol – tudo dentro de um condomínio cercado de plantações de milho, com muros altos, dezenas de câmeras e seguranças armados. Cada vez mais à vontade no movimento, João Guilherme começou a expressar sua ideologia em tatuagens. Na perna, passou a exibir uma águia nazista e dois sóis negros estilizados. Na barriga, uma suástica nórdica, que se diferencia da suástica típica do nazismo por ter as pontas curvadas. Nos braços, uma cruz de ferro e outros símbolos.
João trabalhou como personal trainer em duas academias de Maringá, tendo permanecido em uma delas por sete anos, entre 2015 e 2022. Ouvida pela piauí, a proprietária dessa academia disse não ter conhecimento do histórico neonazista do ex-funcionário e relatou que, como ele nunca tirava a camiseta, não sabia da suástica em sua barriga. Seu relato a respeito do comportamento de João Guilherme coincide com o de funcionários e moradores do condomínio: era uma pessoa discreta, educada, econômica nas palavras. Teve alunos negros, mas não transparecia o racismo. Além do trabalho na academia, atendia alunos dentro do condomínio onde morava. Seu temperamento tímido só desaparecia quando ele estava na companhia de outros Hammerskins. Alguns vídeos obtidos pela piauí mostram o paranaense à vontade, cantando em um evento realizado em 2017 na Grande Florianópolis que reuniu integrantes do Midland Hammerskins – um capítulo americano da organização – e o Crew 38 - Brazil, grupo brasileiro que ainda não havia sido reconhecido formalmente como um capítulo.
Para ser reconhecido, um novo capítulo precisa sempre de um padrinho pertencente ao grupo original, o Confederate Hammerskins. Foi o que aconteceu, finalmente, em 2019, com a visita ao Brasil de Alan Dean. Acompanhado de Alexandro Carneiro, ele avalizou a nova agremiação, da qual João Guilherme era uma liderança em ascensão. O paranaense já havia se tornado full patched e exerceu poder sem complicações até 2022, ano em que a maré começou a virar.
Em novembro de 2022, o delegado Arthur de Oliveira Lopes, na época titular da Delegacia de Repressão ao Racismo e a Delitos de Intolerância de Santa Catarina, recebeu uma denúncia anônima. Alguém informava que, no segundo final de semana do mês, aconteceria uma celebração de skinheads em um sítio localizado em São Pedro de Alcântara – uma pequena cidade do interior, com menos de 6 mil habitantes. A polícia confirmou a informação.
Montou-se uma operação para desbaratar o evento – e foi bem-sucedida. Ao entrar no sítio, os policiais encontraram um festival de evidências incriminatórias. Havia camisetas, faixas, insígnias e livros estilizados com martelos cruzados e o lema do grupo: “HFFH – Hammerskins Forever, Forever Hammerskins.” Muitas dessas peças traziam em destaque o número 38, um tipo de código comum entre neonazistas e que faz referência às letras do alfabeto. A terceira e a oitava letra do alfabeto são o C e o H, de modo que o número 38 equivale à sigla CH, de Crossed Hammers (martelos cruzados). Os policiais, além disso, encontraram um exemplar de um livro editado pelos Hammerskins da Hungria em homenagem a integrantes do grupo que haviam morrido. Como havia sido recém-publicado, o livro acabou se tornando uma preciosa fonte de informações para pesquisadores do movimento neonazista do mundo todo.
Dos dez integrantes do capítulo brasileiro dos Hammerskins, oito estavam no sítio e foram presos – entre eles, João Guilherme. Os outros dois integrantes do grupo tinham ido embora na véspera, mas foram encontrados e presos quatro meses depois, em Caxias do Sul (RS). Todos são acusados de discriminação racial e de participar de organização criminosa neonazista.
Quando os policiais buscaram os antecedentes criminais de João Guilherme na base de dados da Polícia Civil, não encontraram nada. Estranharam que ele não tivesse qualquer passagem pela polícia, e decidiram então digitar seu nome num buscador comum da internet. Só assim, descobriram que ele estava entre os acusados pelo duplo homicídio de 2009. Não se sabe o que motivou a falha no sistema da polícia, mas o que se seguiu dali em diante foi um trabalho minucioso. O inquérito e o relatório produzidos pela delegacia catarinense são exemplares – talvez os melhores a tratar de uma organização neonazista no Brasil. Com base nesse material, a Justiça de Santa Catarina manteve a prisão de todos os envolvidos durante sete meses e dezenove dias – até que, em junho de 2023, o caso foi transferido para a Justiça Federal. A justificativa foi de que os acusados pertenciam a uma organização criminosa internacional e, portanto, o processo não poderia tramitar numa simples vara estadual.
Os réus, agora sob a batuta da 7ª Vara Federal de Florianópolis, receberam autorização para ficar em prisão domiciliar. Haviam cumprido todas as medidas cautelares e, na avaliação do tribunal, não havia indícios de que estivessem na iminência de cometer novos crimes. Laureano Toscani, gaúcho que, em 2009, forneceu a arma usada por João Guilherme, foi o único que não conseguiu ir para casa. Quando foi preso no sítio, já ostentava uma longa ficha criminal e usava tornozeleira eletrônica. Em tese, justamente por causa da tornozeleira, ele não poderia ter viajado para São Pedro de Alcântara naquele dia – mas, de alguma maneira, conseguiu fazer isso sem que a polícia do Rio Grande do Sul detectasse sua infração.
Em prisão domiciliar, João Guilherme também passou a usar tornozeleira. Depois dos oito meses detido, havia se tornado uma pessoa ainda mais reclusa. Em Maringá, passou a ser visto apenas quando treinava na academia de seu condomínio ou instruía os poucos clientes que não o abandonaram. Sua situação se complicou de vez quando, pressionada pela repercussão do caso em São Pedro de Alcântara, a Justiça decidiu desaforar – isto é, mudar de foro – o processo relativo aos homicídios de 2009. O desaforamento é feito quando se constata que a comarca responsável pelo processo está demorando demais para julgá-lo, ou que a imparcialidade do júri não é garantida, ou que os réus não estão seguros ali. Neste caso, o crime já completava catorze anos sem que ninguém tivesse sido responsabilizado. O pedido de desaforamento, justificado com base no interesse público do caso, foi protocolado em agosto de 2023. Somente em abril de 2024 foi analisado pela juíza estadual – e negado. A pressão, de todo modo, surtiu efeito, e o julgamento foi finalmente agendado para 20 de março de 2025, na mesma comarca onde já estava: o Tribunal do Júri de Campina Grande do Sul.
João Guilherme, monitorado pela Justiça Federal de Santa Catarina e com julgamento marcado na Justiça estadual do Paraná, viu o cerco se fechar. Foi quando uma emergência com um timing notável o acometeu. Dias antes do julgamento pelo duplo homicídio, seu advogado, Marcelo Jacomossi, pediu o adiamento da sessão, afirmando que seu cliente precisava passar por uma cirurgia de hérnia inguinal. O pedido foi negado pelo tribunal paranaense, já que a presença de João Guilherme durante o julgamento não era obrigatória. Mas, na Justiça Federal de Santa Catarina, onde tramitava o outro processo, João Guilherme conseguiu o que mais importava: o desligamento temporário de sua tornozeleira eletrônica. Seu advogado alegou que isso era necessário para a realização da cirurgia e para o pós-operatório. A juíza Micheli Polippo assentiu, autorizando que a tornozeleira ficasse desligada entre 19 e 31 de março.
A cirurgia foi marcada para 23 de março, no Hospital Municipal de Maringá. Quando chegou o dia, João Guilherme não compareceu. Livre da tornozeleira, simplesmente desapareceu.
Não é claro como se deu a fuga. A piauí apurou que, no dia 11 de março, João Guilherme compareceu a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA) que fica ao lado do hospital municipal. Em 18 de março, foi visto por vizinhos na academia do condomínio. Segundo eles, treinava pesado – algo incompatível com quem está prestes a ser submetido a uma cirurgia de hérnia. A partir do dia seguinte, seu paradeiro é desconhecido. Como ele não compareceu à cirurgia, o hospital remarcou o procedimento para o dia 31 de março. Depois, para 2 de abril. Em vão.
O julgamento pelo assassinato de Bernardo Pedroso e Renata Ferreira aconteceu na data prevista e se estendeu por três dias no Tribunal do Júri de Campina Grande do Sul. A defesa de João Guilherme alegou que ele só cometeu o crime porque foi coagido por Ricardo Barollo, mas a tese não foi aceita. No fim, João foi condenado a 35 anos e 2 meses de prisão em regime fechado. Jairo Maciel, o outro atirador, recebeu uma pena de 32 anos e 3 meses. Os réus Rodrigo Motta e Rosana Almeida Oliveira, acusados de dar apoio à execução do crime, foram absolvidos. Já Barollo, apontado pela polícia como o mandante do duplo homicídio, foi julgado apenas em maio e recebeu a maior pena de todos: 48 anos e 9 meses de prisão.
A Justiça do Paraná só constatou a fuga de João Guilherme quando expediu seu mandado de prisão. Já a Justiça Federal de Santa Catarina, que o livrou da tornozeleira eletrônica, demorou até agosto de 2025 para perceber isso, decretando então sua prisão preventiva e sua inclusão na lista de difusão vermelha da Interpol – um alerta emitido para localizar e prender foragidos internacionais. “Infelizmente, o réu traiu a confiança depositada pelo juízo”, disse a assessoria de comunicação do tribunal, em nota enviada à piauí. Segundo o órgão, a decisão de desligar a tornozeleira “fundamentou-se estritamente em critérios técnicos e humanitários”, considerando que João Guilherme “não se encontrava em regime de prisão, mas sim em liberdade provisória mediante o cumprimento de medidas cautelares alternativas”.
Somente em outubro de 2025, quando o mandado de prisão preventiva já completava dois meses, a Polícia Federal acionou a Interpol. Indagada pela piauí sobre essa demora, a PF respondeu que “não se manifesta sobre a existência ou não de Difusões Vermelhas”. João Guilherme, com tudo isso, não teve dificuldades para sair do Brasil: não bastassem os dias sem tornozeleira eletrônica e os meses fora do radar das autoridades internacionais, ele ainda foi beneficiado pelo fato de que a Justiça em nenhum momento confiscou seu passaporte.
O paradeiro de João Guilherme ainda era desconhecido quando a piauí se debruçou sobre a história, em abril de 2026. A apuração – que culminou na notícia de sua prisão em junho – começou por meio de um levantamento de informações sobre a namorada de João, Lilian Evelin Nunes de Melo. Algumas fontes afirmavam que ela o havia auxiliado em sua fuga, no ano anterior, e poderia ter deixado rastros. Depois de obter uma foto do rosto de Lilian, submetemos a imagem a um site de reconhecimento facial que nos revelou que ela havia se cadastrado como “babá de pets” em um site internacional especializado nesse tipo de serviço. Na página, Lilian dizia ser moradora da Costa di Rovigo, uma comuna na região do Vêneto, no Norte da Itália. O perfil havia sido criado em agosto de 2025 e ainda estava ativo. Por meio do código-fonte do site, confirmarmos que o cadastro realmente fora feito em Costa di Rovigo.
A comuna tem menos de 3 mil habitantes. É composta de algumas poucas casas, um quartel dos Carabinieri, o prédio da prefeitura, uma paróquia e uma praça central, com dois bares que funcionam como ponto de encontro dos moradores. O entorno do vilarejo é tomado por imensas plantações de milho. A piauí esteve lá três vezes, entre maio e julho. Mostramos fotos de João Guilherme e Lilian a alguns italianos que encontramos na praça. Ninguém os reconheceu. Quando dissemos que o casal era brasileiro, e depois de alguma insistência, nos apontaram uma casa onde eles haviam se hospedado. Os dois, a essa altura, já não moravam ali. Mas seus anfitriões – um casal formado por um italiano e uma brasileira – confirmaram tê-los conhecido. E demonstraram espanto ao serem informados do passado de João.
A mulher contou que é parente distante de Lilian, e que, em meados de 2025, recebeu dela uma mensagem perguntando se poderia passar uns dias em sua casa. A namorada de João disse que cogitava se mudar para a Costa di Rovigo e, por isso, gostaria de conhecer melhor a região. Foi prontamente atendida. Chegou ao vilarejo em 8 de junho daquele ano e se hospedou com o casal. Depois de alguns dias, informou que viajaria à França para encontrar amigos. Mais tarde, em julho, contou a verdade: tinha um namorado que pretendia se estabelecer junto com ela na Itália. O casal não viu problemas nisso e abriu as portas também para João, que chegou ao vilarejo em 27 de julho. Uma de suas primeiras providências, ao desembarcar, foi obter um código fiscal italiano, o equivalente ao CPF brasileiro. Para isso, apresentou à Receita italiana uma carteira de identidade espanhola com um nome falso.
Com o documento em mãos, João Guilherme passou a trabalhar na colheita de uma fazenda nas redondezas. Para se movimentar de um canto a outro, usava uma bicicleta fornecida pelo casal. Eles contam que o brasileiro era muito educado e tímido, e demonstrava fluência no italiano. Nunca tirou a camisa e, por isso, ninguém notou as tatuagens nazistas. Sua rotina era trabalhar, fazer exercícios físicos e, à noite, frequentar com Lilian um dos bares da praça, administrado por um casal de chineses. Em agosto, João Guilherme e Lilian perguntaram aos anfitriões se eles poderiam ser seus fiadores, porque queriam alugar uma casa e se estabelecer de vez na região. De novo, os anfitriões assentiram, com boa vontade. Na data combinada, o italiano acompanhou os dois até a imobiliária para assinar a papelada. Mas, nesse momento, percebeu algo estranho: o atendente, ao se dirigir a João Guilherme, o chamava de Mateo. Confuso, o italiano olhou para o documento de identidade de João e constatou que, de fato, o nome escrito ali era Mateo. Mas a pessoa na fotografia era João.
De volta à casa, o casal confrontou João e Lilian. Segundo eles, o brasileiro confessou ter um documento de identidade falso, que recebeu ao chegar na Europa, por Madri. Também admitiu ter problemas com a polícia brasileira, mas não entrou em detalhes. Como perderam a confiança dos anfitriões, os dois foram convidados a deixar a casa. O italiano e sua mulher dizem que, desde então, não tiveram notícias do casal. Apenas ouviram dizer que eles haviam retornado para a França, onde a irmã mais nova de João Guilherme vivia com o marido.
Na busca pelo seu paradeiro, obtivemos uma foto da irmã e a submetemos ao mesmo site de reconhecimento facial que havíamos usado para buscar Lilian. Descobrimos que ela e o marido tinham um perfil num site de “babás de casa” – pessoas que se oferecem para cuidar de casas e animais cujos donos viajaram. E que, de fato, moravam na França. Cruzando informações obtidas na internet e por meio de fontes, chegamos a uma rua em L'Étang-la-Ville, um município de 5 mil habitantes num subúrbio de Paris. O lugar é provinciano, residencial e fica no coração da floresta pública de Marly. A rua onde constava que a irmã de João morava é cercada de casas elegantes, de telhado inclinado, num estilo típico do interior da França. Ao visitar o local, levamos em consideração uma informação que os anfitriões de Costa di Rovigo haviam compartilhado: a irmã de João Guilherme e seu marido possuíam um motorhome.
Ao percorrer a rua, portanto, procuramos por casas onde houvesse um veículo desse tipo estacionado. Nos deparamos com um imóvel cercado de vegetação por todos os lados. Ao lado da casa, achamos a garagem. E, na garagem, um motorhome. Tocamos a campainha. O cunhado de João Guilherme, que estava no quintal acompanhado de um cachorro, apareceu. Depois de ouvir nossas perguntas, disse que não poderia respondê-las, porque o processo a que João responde está sob segredo de Justiça. Não esclareceu, com isso, se seu cunhado havia se hospedado com Lilian em sua casa. Mas a informação não demorou a vir à tona.
Em 29 de maio deste ano, agentes da Polícia Civil de Sarandi cumpriram um mandado de busca e apreensão na casa dos pais de João Guilherme e no apartamento de Lilian. Num primeiro momento, a análise do material revelou o que a piauí já havia apurado: a primeira parada do casal havia sido na Costa di Rovigo. Mas, analisando os celulares apreendidos, a polícia foi além: encontrou conversas que confirmavam que João Guilherme havia se hospedado na casa da irmã e do cunhado. Os diálogos também revelaram que os pais haviam transferido dinheiro para ajudá-lo. Assim como Lilian, eles são formalmente investigados por auxiliar na fuga de João Guilherme. Provavelmente não serão punidos, já que o Código Penal brasileiro exime de responsabilidade os pais, os cônjuges e irmãos de fugitivos que tenham prestado algum auxílio a eles – contanto, claro, que não tenham participado do crime em si.
O material obtido pela polícia não esclareceu por completo o paradeiro do casal. Nas conversas extraídas dos celulares, foi encontrada apenas uma passagem de trem em nome de Lilian, saindo de Biella para Novara, ambas cidades italianas. A piauí, por sua vez, encontrou indícios de que ela e João Guilherme haviam passado pela Holanda, já que Lilian também se cadastrou como “babá de pet” na cidade de Assen. O perfil, contudo, tinha sido desativado.
De todas as pistas, Biella parecia a mais consistente. A cidade é próxima a Milão, onde fica a sede dos Hammerskins italianos. Sabíamos, graças a um relatório da Interpol, que o passaporte de João Guilherme estava vencido – e que, portanto, dificilmente ele teria deixado a Europa. Também sabíamos que Lilian havia retornado ao Brasil em fevereiro deste ano, e que seu voo havia partido da Itália. As informações, ainda assim, eram insuficientes. Isso mudou quando, em 1° de junho, a piauí recebeu de uma pessoa ligada à investigação a foto de um local onde, possivelmente, João estava hospedado. Segundo essa fonte, o lugar ficava perto de uma cidade com cerca de 80 mil habitantes. A fotografia não revelava muito: parecia mostrar a entrada de uma chácara, com um portão de ferro preto, duas colunas de concreto beges, uma luminária preta e uma paisagem arborizada. De todo modo, era uma pista.
Passamos a pesquisar locais compatíveis com aquela imagem. Primeiro, descartamos Biella, já que a cidade tem aproximadamente 45 mil habitantes. Depois desconsideramos outras cidades menores do Norte da Itália que não tinham presença conhecida de Hammerskins. Mesmo afunilando, era um universo grande demais. Alguns dias se passaram, porém, e recebemos de uma fonte a indicação de que João Guilherme provavelmente estava em Pavia, na região da Lombardia. Fazia sentido: a cidade tem 73 mil habitantes e é próxima a Milão. Também sabíamos, por meio de nossa pesquisa, que ali viviam alguns integrantes do Hammerskins.
A dica chegou para nós na noite de 26 de junho. Mal houve tempo para reagir: no dia seguinte, pela manhã, recebemos a informação de que João Guilherme havia sido preso na região rural de Pavia. A piauí chegou ao local horas depois e noticiou a prisão. A fotografia que havíamos recebido de nossa fonte se mostrou correta. Aquele portão de ferro preto era a entrada de um country club – mais precisamente, um clube para equitação, onde também se podiam alugar quartos para pernoite. Os proprietários do clube, ainda assustados com a batida policial, nos descreveram João com palavras semelhantes às que já tínhamos ouvido: era um rapaz quieto, tímido. Costumava se exercitar fazendo corridas diárias de cerca de uma hora.
João Guilherme foi abordado pela polícia italiana quando voltava de uma dessas corridas. Apresentou o documento de identidade espanhol com o nome falso, mas foi reconhecido. Os policiais conduziram-no então até a Delegacia Central de Milão. De lá, João foi levado à prisão de San Vittore, localizada no Centro da cidade. Continua preso até hoje. Os investigadores italianos ainda tentam entender como ele obteve o documento de cidadão espanhol – que, segundo as análises preliminares, não é falso. Apenas o nome foi forjado. O fato chama atenção porque João não tem direito à cidadania espanhola e, para conseguir um documento legítimo como esse, é preciso cumprir uma longa lista de requisitos e etapas burocráticas.
O tratado de extradição firmado entre Brasil e Itália prevê que o prazo para pedir a extradição de alguém termina quarenta dias após a prisão ser comunicada ao outro país. No caso de João Guilherme, esse prazo se encerra em 8 de agosto. Até agora, porém, as autoridades italianas não receberam o pedido. A prisão do neonazista foi baseada no mandado expedido pela Justiça Federal de Santa Catarina, mas também não chegou à Itália nenhum documento tratando da condenação na Justiça do Paraná. “A Itália recebeu só a ordem de prisão, com duas páginas”, disse à piauí o advogado italiano Valter Vernetti, que representa João no processo. Se o pedido de extradição não chegar dentro do prazo, o brasileiro poderá ser solto.
A 7ª Vara Federal de Florianópolis afirmou, por meio de sua assessoria de imprensa, ter enviado no dia 13 de julho um ofício com o pedido de extradição para o Ministério da Justiça e Segurança Pública, a quem cabe fazer o contato com as autoridades italianas. Indagado pela piauí, o ministério disse que não pode comentar o caso, que está sob segredo de Justiça. O pedido de extradição, neste momento, está nas mãos do Ministério Público Federal, que está traduzindo a papelada para o italiano. A Justiça do Paraná, que demorou catorze anos para levar o caso de João Guilherme a julgamento, não respondeu a nenhuma das perguntas enviadas pela reportagem.
Vernetti disse que seu cliente não quer a extradição. A vontade do réu é levada em consideração pelas autoridades e, em caso de negativa, tende a alongar o processo. Durante a apuração desta reportagem, a piauí tentou contato com os familiares de João Guilherme por intermédio de seu advogado no Brasil, Marcelo Jacomossi. Segundo ele, o irmão mais velho de João é quem tem atuado como porta-voz da família. A piauí tentou contato com o irmão, mas não obteve resposta. Lilian de Melo também não respondeu aos contatos da revista.
Com a colaboração de Anouk Durocher.
Andrea Palladino: É um jornalista investigativo e documentarista italiano. Cobre organizações criminais e movimentos políticos de extrema direita. Viveu e trabalhou por vários anos na Amazônia brasileira
Daniela Abade: Daniela Abade é escritora e pesquisadora especializada em extremismo. Fellow de 2023 no Programa Investigathon da ICFJ (Universidade do Texas - Austin)

































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