O livro citado por Xi Jinping como alerta para Trump tem mais de 2400 anos, mas contém lições que continuam atuais e que nenhum dos dois cumpre. Dirigente chinês referiu-se à questão de Taiwan e à possibilidade de as tensões gerarem uma guerra entre China e EUA.
Mafalda Anjos - Jornalista, comentarista de TV e radialista em Portugal, é formada em direito e autora de livros como 'Carta a um Jovem Decente'
fsp, 17.05.2026
No encontro entre Trump e Xi Jinping, o dirigente chinês podia ter escolhido um dos muitos nomes da cultura milenar oriental para usar no seu discurso. Mas ele, com uma subtileza notável, optou por dar a Trump uma lição de geoestratégia através de um dos maiores pensadores clássicos ocidentais.
Mafalda Anjos: O que os políticos deviam aprender com Tucídides - vídeo
É provável que a Trump – que, como se sabe, não é propriamente um estudioso da cultura clássica – o nome Tucídides tenha soado apenas a remédio para a tosse, mas ele foi um grandioso historiador e general ateniense, que viveu no século 5 a.C.. E é o autor da História da Guerra do Peloponeso, um livro que é considerado uma espécie de bíblia do pensamento estratégico e político.
Ao contar os contornos do conflito que opôs Atenas a Esparta, Tucídides falou das causas das guerras, da estratégia militar, mas também de filosofia, de moral e até da natureza humana.
Xi Jinping citou a famosa armadilha de Tucídides, a tese que conclui que a guerra é provável ou mesmo inevitável quando uma potência estabelecida se sente ameaçada por outra em grande ascensão. Referia-se à questão de Taiwan e à possibilidade de, mal geridas as tensões, poder abrir-se uma guerra entre China e EUA.
Mas a melhor parte deste livro de Tucídides é mesmo o famoso discurso de Péricles, aqui citado e que é, quanto a mim, a súmula a mais antiga e mais bem feita sobre as vantagens da democracia. Estava tudo – cidadania, liberdade, solidariedade –neste pequeno texto que foi uma oração fúnebre. E o que é mesmo incrível é que, 2455 anos depois, continua a manter a atualidade e relevância.
Explica, por exemplo, que o governo deve reger-se pela maioria do povo e não por uma restrita minoria. Diz que as leias conferem a todos justiça, respeitando as diferenças, e que a progressão na vida pública deve depender do mérito. Sublinha que a liberdade é um bem maior e que é de evitar ostentação de riqueza. E a melhor parte, nota que "a verdadeira desonra não está em não reconhecer a existência da pobreza, mas sim em nada fazer para a combater".
Isto é lindo! — e devia ser leitura obrigatória para todos os líderes políticos do mundo, a começar por aqueles dois. É que, na verdade, nenhum deles aplica na íntegra estes princípios...
Trump visita Xi Jinping na China - fotos

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