sábado, 21 de fevereiro de 2026

Pílulas 40

Greta Garbo in O véu pintado,  1934


1. O morro dos ventos uivantes - filme

2. Stephanie Brito - EUA em guerra civil?

3. Ana Miranda e o bolsonarismo em Santa Catarina

4. Mozart Piano Concertos No.20,21,22,23,24,25,26,27 

5. 83 anos ? Não vá para um asilo

6. Na Berlinale, Sandra Hüller finge ser um homem em obra que tematiza a opressão

7. A minha experiência em assistir Carandiru

8. Capital da Groenlândia bate recorde de calor em janeiro

9. Carnaval de rua está sendo solapado por gigantismo dos megablocos

10. Rua convulsionada de luxúria

11. Greta Garbo - um perfil

12. Privatizações dos rios Tapajós, Tocantins e Madeira 

13. Senado do México aprova redução de jornada de trabalho para 40 horas semanais

14. A gargalhada de Agnes Shakespeare

15. Com Z, mas pela IA

16. Miles Davis - Blue moods - Full Album (1955)

17. Mozart – Sonatas – piano

18. Pepeu Gomes - Geração de Som (1978) album completo

19. Pesquisa de Harvard avalia relação entre consumo de café e risco de demência

20. O excesso de energia solar pode provocar apagão?

21.  América não é um país, mas um continente

22. O que o futebol brasileiro pode aprender com o escândalo do Master

23. Lula ensaia discurso antissistema enquanto monta chapa com Centrão 

24. Glauber Rocha, Fellini e Marx - vídeo

25. Karim Aïnouz filma patriarcado ressentido e vê tesão de cinema em 'O Agente Secreto'

26. O assassinato de um pet

27. Microsoft perde US$ 360 bilhões em valor de mercado com temor sobre gastos com IA 

28. Ombra mai fu - Handel 

29. Polícia mata 3 por dia de outubro a dezembro, no trimestre mais letal da história de SP 

30. Cotas merecem defesa, não blindagem. Por Pablo Ortellado 

31. Tardígrado é o único candidato a sobreviver a impacto de asteroide ou guerra nuclear 

32. Indicados ao Grammy 2026: veja lista das principais categorias

33. Bruce Springsteen - Streets Of Minneapolis 

34. O cinema em 2025 - Eduardo Escorel

35. ‘O agente secreto’ é equívoco político

36. Metrópolis 1927 - Fritz Lang profético

37. O Iluminismo prometeu libertar a dúvida; os progressistas a reclassificaram como ofensa, para fazê-la calar.

38. Dez Bandas brasileiras que você tem que ouvir 

39. O Oscar 2026 

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1. O morro dos ventos uivantes - filme

Assisti ao filme "O Morro dos Ventos Uivantes" (comparação com o livro)

"O morro dos ventos uivantes" e por que evitá-lo | Tatiana Feltrin

"O Morro Dos Ventos Uivantes" - Crítica: Emerald Fennell e a desconstrução de um clássico

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2. Stephanie Brito - EUA em guerra civil?

Estados Unidos irão à guerra civil? - Stephanie Brito - Programa 20 Minutos

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3. Ana Miranda e o bolsonarismo em Santa Catarina

Bolsonarismo está ferido de morte? - Amanda Miranda - Programa 20 Minutos

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4. Mozart

Mozart - Piano Concertos No.20,21,22,23,24,25,26,27 + Presentation (Century's record. : Lili Kraus)

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5. 83 anos ? Não vá pra um asilo

Tenho 83 Anos. Se você não pode morar só, vão vá pra um asilo. vídeo

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6. Na Berlinale, Sandra Hüller finge ser um homem em obra que tematiza a opressão

José Henrique Mariante, fsp, 16.2.2026

No começo do século 17, numa Alemanha essencialmente rural, protestante e conservadora, Rose é um estranho que chega a uma vila reclamando terras deixadas em herança. Dez anos de guerra estão estampados em seu rosto, desfigurado por um tiro. Rose, na verdade, é uma mulher se passando por homem, mas isso ninguém percebe.

Sandra Hüller em cena de 'Rose', de Markus Schleinzer - Divulgação

É assim que começa "Rose", filme do austríaco Markus Schleinzer, primeiro favorito a despontar no Festival de Berlim deste ano, com Sandra Hüller no complexo papel do misterioso intruso. Indicada ao Oscar por "Anatomia de uma Queda", em que interpreta uma escritora acusada de matar o marido, a atriz alemã desta vez trabalha a dúvida de outra forma. A versão homem de Rose surgiu da necessidade, foi arduamente construída e encontra fragilidades na manutenção da mentira.

Em entrevista à imprensa alemã, Hüller falou dos desafios de compor a sua personagem. Apesar de ter visto o seu próprio corpo mudar durante as filmagens, a sua dificuldade não foi se abrutalhar —para isso, fez treinamentos de força e combate e usou vestuário pesado em cena. Muito mais complicado foi transmitir a tensão provocada pela necessidade de manter a farsa. "Quem vê o que de mim, o que posso mostrar do corpo, o que não posso", diz.

Confira destaques do Festival de Berlim de 2026 - fotos

Rose faz xixi de pé, mas sua masculinidade, aos olhos da comunidade, aparece não a partir do físico ou de suas atitudes grosseiras, mas da disposição para o trabalho duro, da liderança, da coragem, como se tudo isso só fosse possível aos homens. Seu sucesso também faz diferença, pois não tarda em pôr de pé a fazenda abandonada há anos.

A ponto de surgir uma proposta de casamento e, é claro, os problemas. Schleinzer, responsável também pelo roteiro, inspirado em relatos verídicos de julgamentos, mas não em uma única história, declarou-se "um fã obcecado" de Hüller ao explicar a seleção da artistas para o papel. "Assisti aos seus filmes diversas vezes."

Se escolher a protagonista foi fácil, sua companheira de cena, a austríaca Caro Braun, consumiu 800 audições de teste. É a especialidade de Schleinzer, que está em seu terceiro filme como autor, mas tem uma longa carreira com direção de elenco. Trabalhou, entre outros, com Michael Haneke.

Veja fotos da atriz Sandra Huller

Não parece coincidência que "Rose", filmado em preto e branco, tenha uma estética que faz lembrar "A Fita Branca", que rendeu a Palma de Ouro em Cannes a Haneke, em 2009. Estão lá também a opressão e o moralismo protestante, que corroem o tecido social da comunidade, três séculos mais tarde, e abrem bastante espaço para ideias fascistas.

História que se repete também agora, declarou Hüller, logo após a exibição do filme para a imprensa, em Berlim. "Cada vez mais pessoas que estavam no caminho de serem mais livres e integradas na sociedade, respeitadas e aceitas, estão ameaçadas atualmente. Mais uma vez", disse a atriz, que também é professora de uma universidade alemã. (...)

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7. A minha experiência em assistir Carandiru

Assisti ao filme Carandiru , por duas vezes, num cinema de shopping, em Vila Velha ES. Na primeira fiquei incomodado com a reação da plateia quando da cena do casamento de Lady Di (Rodrigo Santoro) e Sem Chance (Gero Camilo). Burburinho, gritos de escárnio e revolta. (Rodrigo Santoro, em entrevista, disse que no Rio de Janeiro presenciou algumas pessoas saindo do cinema durante esta cena. Bom lembrar, que na época, ele era galã da Globo). Pensei em sair da sala de cinema, não pela cena, mas pela balbúrdia da plateia. Até que veio a cena da visita das famílias dos presos no domingo. Silêncio aterrador. Aí que percebi que na plateia tinha muito povão. E deduzi que o pessoal se via no ambiente da visita. Tinham parentes com experiência prisional. O filme sensibilizou, e muito, a plateia. Até hoje não tenho explicação do porque Carandiru bateu recordes da bilheteria na época. Em tempo, nas duas sessões que fui, a sala de cinema estava lotada.

O filme termina com a implosão da penitenciária onde foram assassinadas, cruelmente, 112 pessoas sem motivos aparentes. Na época, Geraldo Alckmin era o governador do Estado de São Paulo. As elites dominantes, responsáveis pelo horror, tentaram o esconder por debaixo do tapete. Não conseguiram e este filme é uma prova disso.

Carandiru filme completo 

Carandiru - Making of - Arte 

Massacre do Carandiru: o que aconteceu horas antes da rebelião 

Carandiru Centenário: o massacre, o Estado e o crime organizado 

Sobrevivente de massacre relembra pânico no Carandiru: "50 cadáveres" 

Drauzio comenta sobre o Carandiru e o dia do massacre 

Dráuzio Varella e Sabotage na construção do filme "Carandiru" 

Caio Blat e Luiz Carvalho falam como foi filmar dentro do Carandiru 

CARANDIRU! CENAS EXCLUSIVAS DA CADEIA MAIS FAMOSA DO MUNDO! 

RELATO IMPRESSIONANTE SOBRE O PRESÍDIO DO CARANDIRU 

COMO FOI O MASSACRE DO CARANDIRU 

O TRABALHO DE DRAUZIO EM CARANDIRU 

Sabotage - Matéria Domingo Espetacular Record 

SABOTAGE NO FILME “CARANDIRU” 

RODRIGO SANTORO EM CARANDIRU 

Carandiru - Making Of - Preparação de Atores

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8. Capital da Groenlândia bate recorde de calor em janeiro

Temperaturas em Nuuk superaram marca histórica de mais de cem anos atrás. Termômetros ficaram 7,8°C acima da média para o mês de janeiro das últimas três décadas.

AFP, 16.2.2026

A capital da Groenlândia, Nuuk, registrou este ano o mês de janeiro mais quente de sua história e superou um recorde de mais de um século, informou nesta segunda-feira (16) o Instituto Meteorológico da Dinamarca.

Enquanto a Europa e a América do Norte sofriam uma onda de frio em janeiro, Nuuk teve uma temperatura média mensal de 0,1°C, ou seja, 7,8°C acima da média para o mês de janeiro das últimas três décadas.

Esse registro supera em 1,4°C o recorde anterior de Nuuk, que datava de 1917, há 109 anos.

No dia mais quente de janeiro em Nuuk, os termômetros chegaram a 11,3°C.

Casas em Nuuk, capital da Groenlândia, em janeiro - Ina Fassbender - 29.jan.26 /AFP. Conjunto de casas coloridas iluminadas pela luz dourada do entardecer, com mar e montanha ao fundo sob céu alaranjado.

Do extremo sul da Groenlândia até a costa oeste, em uma distância de mais de 2.000 km, a temperatura em janeiro estabeleceu recordes, indicou também o instituto de meteorologia.

Em Ilulissat, na baía de Disko, a média de janeiro foi de -1,6°C, isto é, 1,3°C a mais que o recorde anterior, de 1929, e 11°C mais quente que o normal para janeiro, apontou o instituto.

Ocasionalmente, o ar mais quente se espalha pela Groenlândia e traz temperaturas mais amenas durante um ou dois dias, mas um recorde de calor tão prolongado em uma área tão extensa é "uma clara indicação de que algo está mudando", disse o pesquisador climático Martin Olesen.

"Sabemos e podemos ver claramente que o aquecimento global está em pleno curso, o que, como era de se esperar, leva a mais recordes no extremo quente da escala de temperaturas e gradualmente a menos recordes no extremo frio", afirmou.

A região ártica está na linha de frente do aquecimento global: ela tem esquentado quatro vezes mais rápido que o resto do planeta desde 1979, segundo um estudo de 2022 publicado na revista científica Nature.

O derretimento da Groenlândia tem motivado uma disputa geopolítica. As reservas de recursos naturais do território, que podem ser acessadas à medida que o gelo derreta, são citadas pelo presidente dos EUA, Donald Trump, como estratégicas.

A história da Groelândia - webstories

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9. Carnaval de rua está sendo solapado por gigantismo dos megablocos, diz Luiz Antonio Simas

Carnaval de rua está sendo solapado por gigantismo dos megablocos, diz Luiz Antonio Simas. Para historiador, folia tem uma dimensão econômica, mas não deve se submeter a essa lógica. Especialista na festa, ele considera que disputa de prefeitos pelo 'maior Carnaval do mundo' é sinal de financeirização das manifestações populares

Isabela Palhares, fsp, 15.2.2026

O Carnaval é o Brasil que deu errado. A provocação foi feita pelo compositor, escritor e historiador Luiz Antonio Simas em 2020. Agora, seis anos depois, ela ganha novos contornos com a profusão de megablocos pelo país e a dificuldade que agremiações tradicionais têm enfrentado para continuar saindo às ruas.

A afirmação de Simas parte de uma reflexão de que o país foi projetado para segregar, desarticular todo grupo que não pertence à classe dominante e eliminar as culturas não brancas. É no Carnaval que esse projeto dá errado, quando esses excluídos encontram um sentido coletivo de vida, quando espontaneamente quebram o ordenamento imposto, segundo o historiador. 

Em entrevista à Folha, Simas diz que o Carnaval sempre foi muito mais uma festa do conflito do que do consenso. O historiador, no entanto, diz ter preocupação com os rumos do Carnaval de rua no país, já que vê uma captura da festa para a lógica da "cultura do evento".

Para ele, a ânsia de prefeitos em ter o "maior Carnaval do mundo" ou a disputa pelo bloco que reúne mais foliões são reflexos de um fenômeno maior, a financeirização da vida.

Em várias cidades do Brasil, há críticas e tensões em torno da organização do Carnaval. As disputas pela festa estão se acirrando?

Se tem algo que marca o Carnaval desde o seu surgimento é a pluralidade. Qualquer tentativa de entendê-lo a partir de uma ideia de festa homogênea não resiste a nenhuma análise. O Carnaval sempre foi muito mais uma festa do conflito do que do consenso.

No caso do Brasil, nós temos um Carnaval que chega com a colonização portuguesa e vai sendo fortemente impactado e redefinido pela brasilidade, com a presença dos povos africanos e originários. O Carnaval foi moldado com muita tensão e conflito.

No século 19 e no século 20, por exemplo, os Carnavais sempre foram marcados pela disputa pela rua, o direito à cidade, as tensões advindas do racismo religioso. Tudo que continua presente até hoje. Por isso, esse é um conjunto de festas muito significativo para a gente tentar entender o Brasil.

O que tensiona o Carnaval atualmente?

Me parece que o Carnaval é impactado muito fortemente por três dimensões. O primeiro é o conflito entre a ordem pública e o direito à rua, à cidade. De um lado, está o poder público que tenta ordenar o que acontece na rua. E de outro lado, você tem uma festa caracterizada por uma certa espontaneidade e que historicamente questiona esse ordenamento. Esse talvez seja o embate mais tradicional do Carnaval e ele continua muito forte.

Uma segunda dimensão é vinculada a um certo imaginário que liga o Carnaval ao pecado. Isso ocorre pelo avanço, nos últimos 30 anos, de algumas designações pentecostais — não todas, mas algumas — que elaboram um discurso de desqualificação dos saberes afro-brasileiros e das culturas de festa do Brasil. É uma disputa do mercado religioso e isso tensiona alguns prefeitos, como vimos há alguns anos com o [Marcelo] Crivella, no Rio.

A terceira dimensão é a que considero mais crucial nesse momento: o mercado. O mercado é um elemento disciplinador das sociedades contemporâneas e ele também tem interesse em disciplinar o Carnaval, a ordem pública. É isso o que vejo acontecendo em São Paulo e no Rio com os megablocos.

Veja fotos dos blocos deste sábado (14) pelo Brasil - galeria

Porque há esse conflito entre os megablocos com artistas e os mais tradicionais?

O Carnaval vive hoje um dilema, porque há uma tensão entre o que é um evento da cultura e aquilo que é a cultura do evento. Parece só um jogo de palavras, mas não é. O evento da cultura é orgânico. Podemos citar, por exemplo, um cortejo de maracatu, o desfile de uma escola de samba tradicional ou um Carnaval de rua com marchinhas, como acontece em São Luiz do Paraitinga [no interior de São Paulo]. Esses são efetivamente eventos da cultura.

O problema é que a gente vive num mundo cada vez mais marcado pelo imediatismo da cultura do evento, tudo tem que ser um grande evento, tem que ser mostrado e visto como exclusivo. O mercado, então, entende o Carnaval como mais uma possibilidade de lucro se for disciplinado aos seus interesses. É o que está acontecendo em algumas cidades.

No Rio e em São Paulo, por exemplo, tem se usado muito a expressão dos megablocos. Se partirmos do ponto de vista da tradição do Carnaval, eles não são blocos. São, na verdade, um show que acontece no período carnavalesco.

Eles não têm a característica que é a essência do Carnaval de rua, que é a espontaneidade, o caráter transgressor. Essa essência está indo para as cucuias com os megablocos.

Samba, suor, e muito calor - fotos

Como os megablocos podem prejudicar o Carnaval de rua?

Os blocos que fazem o Carnaval como um evento da cultura estão cada vez mais perdendo espaço para os shows. Isso é especialmente complicado porque não temos políticas públicas no Brasil para salvaguardar as tradições carnavalescas.

Tudo está sendo engolido pela financeirização da rua, da cidade, da vida. O mercado que abocanha tudo, hoje, está em cima do cangote do Carnaval. Talvez a gente ainda não tenha se dado conta da dimensão dessa captura pela lógica da cultura do evento.

O Carnaval de rua está sendo tragado e perdendo a sua dimensão existencial, de construção de vida, de encontrar uma identidade coletiva e reconstruir um encanto pelo mundo.

Tudo isso está sendo solapado por essa gana pelo gigantismo dos megaeventos. O mercado investe no que potencialmente irá trazer mais lucro, ainda que não tenha nenhuma relação com a tradição do Carnaval.

Tradição não é algo estático. A rigor, tradição é aquilo que é contemporâneo, mas dialoga com o passado. Um DJ escocês [Calvin Harris fez apresentação no pré-Carnaval de São Paulo] será que dialoga com a nossa tradição de Carnaval? Pode ser que sim. Eu não sou um purista, mas me soa estranho porque há uma ecologia sonora muito forte que marca a história dessa festa e que não está sendo preservada, apoiada, incentivada.

Prensados, foliões derrubam barreiras em blocos superlotados na rua da Consolação - galeria

Como o senhor vê essa disputa entre prefeitos para ter 'o maior Carnaval do mundo', o maior público?

É a financeirização em sua forma mais explícita. Buscam o maior Carnaval do mundo não porque as pessoas se divertem mais lá ou cá, mas para entrar no Guinness, para angariar mais dinheiro.

É evidente que o Carnaval tem uma dimensão econômica, mas é complicado quando você submete o Carnaval a essa lógica. É uma inversão que coloca em risco a própria festa. Porque o Carnaval fica submisso à marca que o patrocina, que está estampada na camisa do bloco, na bebida que o folião pode ou não beber. O que estão fazendo é colocar o Carnaval a serviço das marcas.

Ninguém está propondo que a gente volte ao carnaval de 1920. Mas precisamos refletir sobre como tudo isso está engolindo o Carnaval, tentando discipliná-lo à lógica dos grandes eventos. O conflito que está acontecendo é um sintoma poderoso do mundo em que a gente vive. Mas coloca em risco uma questão existencial do Carnaval.

Obviamente, o Carnaval mobiliza a economia, gera circulação de capital. Mas, se algum dia ele deixar de mobilizar e gerar lucro, vai ter algum maluco que vai pro meio da rua tocar "Jardineira" e vai ser acompanhado por outros caras. O Carnaval sobreviveu todos esses anos e a todas as tentativas de ordená-lo porque ele tem uma dimensão única de reconstrução coletiva do sentido da vida.

Em diversos momentos da história do Brasil houve tentativas de cercear o Carnaval, como ocorreu na ditadura. O senhor fala em um disciplinamento do Carnaval pelo mercado. Existe um paralelo entre o que aconteceu lá atrás e o que acontece agora?

Acho que são questões diferentes, mas há um paralelo ligado à ideia de você disciplinar a rua. E aí, podemos ir muito mais para trás do que a ditadura.

Por exemplo, o famoso episódio de 1912, quando o governo do presidente Hermes da Fonseca (1855-1923) quis transferir o Carnaval para outra data por causa da morte do Barão do Rio Branco (1845-1912). E o pau comeu. É o famoso ano em que tivemos dois carnavais, porque a turma ignorou a ordem do presidente e foi para rua fazer Carnaval. O couro comeu, mas o Carnaval existiu.

Depois com o Estado Novo, com Getúlio Vargas (1882-1954), que o tempo todo tentou disciplinar a rua, a festa. Ele tentou disciplinar não com a proibição, mas em uma lógica de cooptação.

O Carnaval, de certa maneira, sempre sobreviveu a essas tentativas de cerceamento. Eu sou um pessimista na maioria das coisas em relação à minha vida, mas, curiosamente, sou muito otimista em relação ao Carnaval. A história do Carnaval é um banho de otimismo.

O Carnaval tem essa incrível capacidade de se meter nas maiores encrencas e encontrar brechas pelas frestas para se reinventar. Isso é notável. Mas eu seria muito cauteloso em comparar as tentativas passadas de disciplinar o Carnaval com o que acontece hoje.

Hoje, o que está engolindo o Carnaval é o mercado. Existem tensionamentos políticos, mas a grande ameaça hoje é a financeirização da festa. O conflito travado pelos blocos de rua está em carne viva e é muito preocupante.


Raio-X | Luiz Antonio Simas, 58

1967, Rio de Janeiro. É carioca, escritor, professor, historiador e compositor. Autor de vários livros sobre cultura brasileira, história social, filosofia popular e religiosidades. Em 2023, foi homenageado pela Acadêmicos da Abolição, escola de samba da zona norte do Rio, na época na série Prata do Carnaval carioca, com o enredo "Bato Tambor, Logo Existo - Luiz Antonio Simas: a Essência e Resistência da Rua".

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10. Rua convulsionada de luxúria

Crônica de João do Rio em 1908 já descrevia o Carnaval carioca como um pandemônio. 'Atrás de nós', disse ele, 'um grupo de futuras glórias nacionais berrava as cantigas do dia'

Ruy Castro, fsp, 15.2.2026

"Era em plena rua do Ouvidor. Não se podia andar. A multidão apertava-se. Havia sujeitos congestos, mulheres afogueadas, crianças a gritar, tipos que berravam pilhérias. A pletora de alegria punha desvarios em todas as faces. Era provável que, do largo de São Francisco à rua Direita, dançassem vinte cordões e quarenta grupos, rufassem duzentos tambores, zabumbassem cem bombos, gritassem cinquenta mil pessoas.

"A rua convulsionava-se, como se fosse rebentar de luxúria e de barulho. A atmosfera pesava como chumbo. No alto, arcos de gás besuntavam de uma luz de açafrão as fachadas dos prédios. Nos estabelecimentos comerciais, nas redações dos jornais, as lâmpadas elétricas despejavam sobre a multidão uma luz ácida e galvânica, que envilidecia e parecia convulsionar os movimentos da turba, sob o panejamento multicor das bandeiras que adejavam e sob o esfarelar constante dos confetes, que, como um irisamento do ar, caíam, voavam, rodopiavam.

"Essa iluminação violenta era ainda aquecida pelas vermelhidões de incêndio e as súbitas explosões azuis e verdes de fogos-de-bengala; era como que arrepiada pela corrida diabólica e incessante dos archotes e das pequenas lâmpadas portáteis. Serpentinas riscavam o ar; homens passavam empapados d’água; mulheres de chapéu de papel curvavam as nucas à etila dos lança-perfumes; frases rugiam cabeludas, entre gargalhadas, risos, berros, uivos, guinchos.

"A rua personalizava-se, tornava-se única, e parecia, toda ela policromada de serpentinas e confete, arlequinar o pincho da loucura e do deboche. Nós íamos indo, eu e o meu amigo, nesse pandemônio. Atrás de nós, sem colarinho, um grupo de rapazes acadêmicos, futuros diplomatas e futuras glórias nacionais, berrava furioso a cantiga do dia, essas cantigas que só aparecem no Carnaval."

O que você acabou de ler foi um trecho de "Cordões", crônica de João do Rio na Gazeta de Notícias, reproduzida em seu livro "A Alma Encantadora das Ruas", de 1908. Eu também gostaria de ter vivido aquele Carnaval.

'Carnaval', de J. Carlos, publicado na Primeira página de O Jornal, em 3 de março de 1935 - Reprodução

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11. Greta Garbo - um perfil

Sobre os Estados Unidos: É amargo pensar que os melhores anos de uma pessoa desaparecem neste país rude.

Greta wiki 

Nascida em 18 de setembro de 1905 · Estocolmo, Estocolmo, Suécia

Falecida em 15 de abril de 1990 · Nova Iorque, Nova Iorque, EUA (pneumonia)

Nome de nascimento Greta Lovisa Gustafsson

Apelidos The Face, The Swedish Sphinx, GarboLa Divina

Altura 1,68 m

Greta Garbo nasceu o 18 de setembro de 1905 em Estocolmo, Stockholms län, Suécia. Era atriz e foi conhecida pelo seu trabalho em Ninotchka (1939), Anna Karenina (1935) e Grande Hotel (1932). Morreu o 15 de abril de 1990 em Nova Iorque, Nova Iorque, EUA.

Marcas [tradução livre]: Personalidade enigmática. Elegância fria. Traços do norte da Europa. Voz profunda e sedutora com sotaque sueco.

Curiosidades

Deixou John Gilbert esperando no altar em 1927, quando desistiu de se casar com ele.

Ela não gostava de Clark Gable, um sentimento que era mútuo. Ela achava que a atuação dele era sem graça, enquanto ele a considerava esnobe.

Ela era propensa à depressão crônica e passou muitos anos tentando “curá-la” por meio da filosofia oriental e de uma dieta saudável. No entanto, ela nunca abandonou o cigarro e os coquetéis.

Ela foi criticada por não ajudar os Aliados durante a Segunda Guerra Mundial, mas mais tarde foi revelado que ela havia ajudado a Grã-Bretanha identificando simpatizantes nazistas influentes em Estocolmo e fornecendo apresentações e levando mensagens para agentes britânicos.

Tornou-se cidadã americana em 1951.

Durante as filmagens, sempre que acontecia algo que não era do seu agrado, ela simplesmente dizia: “Acho que vou voltar para a Suécia!”, o que assustava tanto os chefes do estúdio que eles cedia a todos os seus caprichos.

Embora se acreditasse que ela vivia como uma inválida em sua carreira pós-Hollywood, isso é incorreto. Ela era uma verdadeira jet setter, viajando com magnatas internacionais e socialites. Na década de 1970, ela viajou menos e se tornou cada vez mais excêntrica, embora ainda fizesse caminhadas diárias pelo Central Park com amigos próximos e acompanhantes. No final da década de 1980, sua saúde debilitada diminuiu sua mobilidade. Em seu último ano de vida, foi sua família que cuidou dela, incluindo levá-la para tratamentos de diálise. Ela morreu com eles ao seu lado.

Nunca se casou, investiu sabiamente e era conhecida por sua extrema frugalidade.

O diretor Clarence Brown disse sobre ela: “Trabalhar [com ela] era fácil porque ela confiava em mim. Eu nunca a dirigi em nada além de um sussurro. Ela era muito tímida, então discutíamos as mudanças que eu queria em um sussurro baixo, num canto, sem deixar que os outros soubessem o que eu estava dizendo a ela. Aprendi com a experiência que Garbo tinha algo nos olhos que contava toda a história que eu não conseguia ver da minha distância. Às vezes, eu ficava insatisfeito com uma tomada, mas mesmo assim decidia usá-la. Na tela, Garbo multiplicava o efeito da cena que eu havia filmado. Era algo que ninguém mais tinha”.

Seu filme favorito entre todos os que fez foi A Dama das Camélias (1936).

Seu mentor/diretor volátil Mauritz Stiller, que a trouxe para Hollywood, foi demitido abruptamente da direção de seu segundo filme da MGM, Terra de Todos (1926), após repetidas discussões com os executivos do estúdio. Incapaz de manter um emprego em Hollywood, ele voltou para a Suécia em 1928 e morreu pouco depois, aos 45 anos. Garbo ficou devastada.

Gary Cooper era, segundo consta, um dos seus atores favoritos. Ela o convidou para vários dos seus filmes, mas nada se concretizou.

Primeira atriz sueca a ser indicada ao Oscar. As outras são Ingrid Bergman, Lena Olin, Ann-Margret e Alicia Vikander, que ganhou o Oscar. O único ator sueco a ser indicado é Max von Sydow.

Uma fotografia dela, provavelmente recortada de uma revista de cinema, era uma das várias imagens de estrelas de cinema, membros da realeza, obras de arte e familiares usadas como decoração por Anne Frank na parede de seu quarto no “Anexo Secreto” em Amsterdã, onde ela e sua família se esconderam de julho de 1942 até serem capturados pelos nazistas em agosto de 1944.

Ela estará na nota sueca de 50 coroas em 2015.

Seus pais eram Karl e Anna Gustafson, e ela também tinha uma irmã e um irmão mais velhos, Alva Garbo e Sven Garbo. Seu pai morreu de nefrite quando ela tinha 14 anos e, aos 21, sua irmã morreu de câncer linfático.

Popularizou trench coats e boinas na década de 1930.

Seus sets eram fechados a todos os visitantes e, às vezes, até mesmo ao diretor. Quando questionada sobre o motivo, ela disse: “Durante essas cenas, só permito que o cinegrafista e o iluminador estejam no set. O diretor sai para tomar um café ou um milkshake. Quando as pessoas estão assistindo, sou apenas uma mulher fazendo caretas para a câmera. Isso destrói a ilusão. Se estou sozinha, meu rosto faz coisas que eu não conseguiria fazer de outra forma.”

Na verdade, ela esperava voltar ao cinema após a guerra, mas, por alguma razão, nenhum projeto se concretizou.

Ela foi eleita a 8ª maior estrela de cinema de todos os tempos pela revista “Premiere Magazine”.

Ela apareceu em um selo postal comemorativo de 37 centavos dos EUA, emitido em 23 de setembro de 2005, cinco dias após seu centésimo aniversário. No mesmo dia, a Suécia emitiu um selo de 10 coroas com o mesmo desenho. A imagem nos selos foi baseada em uma fotografia tirada durante as filmagens de Como me Queres (1932).

Exceto no início de sua carreira, ela não concedeu entrevistas, não deu autógrafos, não compareceu a estreias e não respondeu cartas de fãs.

As cartas e correspondência entre ela e a poeta/socialite/lésbica notória Mercedes de Acosta foram abertas em 15 de abril de 2000, exatamente dez anos após a morte de Garbo (conforme instruções de De Acosta). As cartas não revelaram nenhum caso amoroso entre as duas, como havia sido especulado.

Seu diretor americano favorito era Ernst Lubitsch, embora Clarence Brown a tenha dirigido em seis filmes, incluindo os clássicos A Carne e o Diabo (1926), Mulher de Brio (1928), Anna Christie (1930) e Anna Karenina (1935).

Em meados da década de 1950, ela comprou um apartamento de sete quartos na cidade de Nova York (450 East 52nd St.) e morou lá até sua morte.

No final de 1934, após Rainha Christina (1933) e O Véu Pintado (1934), que foram grandes sucessos na Europa (arrecadando o dobro do seu orçamento só no Reino Unido), mas tiveram um sucesso abaixo do esperado nos EUA, ela assinou um contrato com a MGM afirmando que só faria filmes sob a direção de David O. Selznick e Irving Thalberg. Seus dois filmes seguintes, Anna Karenina (1935) e A Dama das Camélias (1936), foram grandes sucessos de bilheteria nos Estados Unidos e produzidos por Selznick e Thalberg, respectivamente. Em 1937, seu contrato teve que ser revisado, pois Selznick deixou o estúdio em 1935 e Thalberg faleceu. Ela fez apenas três filmes depois de “Camille”.

Ela era tão reservada sobre seus parentes quanto sobre si mesma e, após sua morte, os nomes de seus sobreviventes não puderam ser determinados imediatamente.

O diretor Jacques Feyder relembrou o trabalho com ela: “Às 9 horas da manhã, o trabalho pode começar. ‘Diga à Sra. Garbo que estamos prontos’, diz o diretor. ‘Estou aqui’, responde uma voz baixa, e ela aparece, perfeitamente vestida e penteada, conforme a cena exige. Ninguém sabia dizer por qual porta ela havia entrado, mas lá estava ela. E às 18 horas, mesmo que a filmagem pudesse ser concluída em cinco minutos, ela apontava para o relógio e ia embora, com um sorriso de desculpas. Ela é muito rigorosa consigo mesma e dificilmente fica satisfeita com seu trabalho. Ela nunca assiste às filmagens nem vai às estreias, mas alguns dias depois, no início da tarde, entra sozinha em um cinema nos arredores, senta-se em um lugar barato e só sai quando a projeção termina, mascarada com seus óculos escuros.

Já morou no famoso hotel Chateau Marmont, em Los Angeles (8221 Sunset Boulevard).

Foi eleita a 25ª maior estrela de cinema de todos os tempos pela revista Entertainment Weekly.

Ela foi originalmente escolhida para os papéis principais em Agonia de Amor (1947), Eu Te Matarei, Querida! (1952) e “The Wicked Dutchess”. Ela recusou esses papéis, com exceção de “The Wicked Dutchess”, que nunca foi filmado devido a problemas financeiros.

Sua maior confidente era Salka Viertel, uma amiga alemã que a conhecia desde a Suécia. Viertel provou ser muito manipuladora com ela, incluindo relacionamentos (principalmente com Mercedes de Acosta), escolhas de filmes e vida em geral. Foi Viertel, na verdade, quem a convenceu a não voltar ao cinema. Ironicamente, Viertel era amiga de Marlene Dietrich, inimiga de Garbo, que Salka conhecia desde o período da República de Weimar na Alemanha, e ela sabia muitos segredos obscuros e passados de Dietrich. As escolhas cinematográficas de Garbo eram em grande parte determinadas pela persuasão de Salka; elas coestrelaram a versão alemã de Anna Christie (1930) e, pouco depois disso, Garbo insistiu que Salka fosse contratada pela MGM como roteirista de seus filmes.

Recebeu a oferta para interpretar Norma Desmond em Crepúsculo dos Deuses (1950), mas recusou. Gloria Swanson foi escalada para o papel e recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz por sua atuação.

Quando soube que David O. Selznick, que havia produzido seu sucesso Anna Karenina (1935), estava deixando a MGM em 1935 para abrir seu próprio estúdio, ela implorou para que ele ficasse, prometendo que ele poderia supervisionar pessoalmente todos os seus filmes com exclusividade. Ele disse que seria uma grande honra, mas que tinha outros planos. Ironicamente, o normalmente muito exigente Irving Thalberg, outro produtor favorito de Garbo, foi a primeira pessoa a dar dinheiro a Selznick para abrir sua empresa (US$ 200.000).

Antes de fazer sucesso, ela trabalhou na Suécia como ensaboadora em uma barbearia.

Eleita pelo Guinness Book of World Records como a mulher mais bonita que já existiu.

Enterrada no cemitério Skogskyrkogården, em Estocolmo, na Suécia.

De acordo com uma entrevista de Michael Parkinson com Orson Welles em 1974, Garbo fez dois comerciais de pão para uso teatral antes de mudar de nome. Os filmes existiam em um arquivo em Estocolmo naquela época.

O diretor Albert Lewin, ao escalar o papel principal em O Retrato de Dorian Gray (1945): “Um dia, recebi uma mensagem de Cedric Gibbons, que queria me ver com urgência e sigilo. Gibby era o único amigo íntimo de Greta Garbo no estúdio e foi encarregado de me dizer que Garbo queria interpretar Dorian. Na verdade, era o único papel pelo qual ela voltaria às telas. É claro que movi céus e terras para concretizar isso. Mas todos entraram em pânico: o problema da censura, que já era formidável, teria se tornado insuperável com uma mulher”.

De acordo com seu amigo, o produtor William Frye, ele ofereceu a Garbo US$ 1 milhão para estrelar como a Madre Superiora em seu filme Anjos Rebeldes (1966). Quando ela recusou, ele escalou Rosalind Russell para o papel — por um salário muito menor.

Sua primeira aparição no cinema foi em um curta-metragem publicitário exibido em cinemas locais em Estocolmo.

Na Escola Sueca de Teatro, onde estudou entre 1921 e 1924, tornou-se amiga íntima de Vera Schmiterlöw, com quem manteve uma amizade ao longo de toda a vida. A correspondência íntima entre as duas está guardada nos Arquivos Nacionais da Suécia. Em 2005, três dessas cartas foram roubadas dos arquivos e ainda não foram encontradas.

Ela era a atriz favorita de Adolf Hitler.

Recebeu a oferta do papel de Mama Hanson em A Vida de um Sonho (1948), mas recusou. Irene Dunne foi escalada para o papel e recebeu uma indicação ao Oscar de Melhor Atriz por sua atuação.

Em 2006, a revista “Premiere Magazine” classificou sua atuação como Ninotchka em Ninotchka (1939) como a 25ª melhor atuação de todos os tempos em sua lista das 100 Melhores Atuações de Todos os Tempos.

Viveu os últimos anos de sua vida em reclusão absoluta.

Seu primeiro filme falado foi Anna Christie (1930).

Foi nomeada a quinta melhor atriz na lista das 50 maiores lendas do cinema do American Film Institute.

Ela foi a última pessoa sobrevivente mencionada na canção “You're the Top”, apresentada no musical de Cole Porter de 1934, Anything Goes.

Ao longo de sua carreira na MGM, ela insistiu que William H. Daniels fosse o diretor de fotografia de seus filmes. Isso pode não ter sido pura superstição, já que os dois filmes notáveis que ela fez sem ele — O Romance de Madame Walewska (1937) e Duas Vezes Meu (1941) — foram seus únicos fracassos notáveis.

O escultor espanhol Pablo Gargallo criou três peças baseadas nela: “Masque de Greta Garbo à la mèche”, “Tête de Greta Garbo avec chapeau” e “Masque de Greta Garbo aux cils”.

Seu primeiro filme falado foi Anna Christie (1930).

Foi nomeada a quinta melhor atriz na lista das 50 maiores lendas do cinema do American Film Institute.

Ela foi a última pessoa sobrevivente mencionada na canção “You're the Top”, apresentada no musical de Cole Porter de 1934, Anything Goes.

Ao longo de sua carreira na MGM, ela insistiu que William H. Daniels fosse o diretor de fotografia de seus filmes. Isso pode não ter sido pura superstição, já que os dois filmes notáveis que ela fez sem ele — O Romance de Madame Walewska (1937) e Duas Vezes Meu (1941) — foram seus únicos fracassos notáveis.

O escultor espanhol Pablo Gargallo criou três peças baseadas nela: “Masque de Greta Garbo à la mèche”, “Tête de Greta Garbo avec chapeau” e “Masque de Greta Garbo aux cils”.

A Norwegian Air Shuttle tem um retrato dela na cauda de um de seus Boeing 737. É um dos seus “Tail Fin Heroes” (heróis da cauda do avião).

Relacionada com Anna Sundstrand, do grupo pop sueco Play.

É interpretada por Kristina Wayborn em The Silent Lovers (1980)

Ela apareceu em três filmes que foram selecionados para o Registro Nacional de Filmes pela Biblioteca do Congresso como sendo “culturalmente, historicamente ou esteticamente” significativos: A Carne e o Diabo (1926), Grande Hotel (1932) e Ninotchka (1939).

Mencionada na canção “Bette Davis Eyes”, de Kim Carnes.

Em 1924, Mauritz Stiller planejou filmar um filme na Turquia intitulado “The Odalisque from Smyrna” e contratou Conrad Veidt e Einar Hanson como estrelas. Stiller, junto com Hansen e sua protegida Garbo, partiu para Istambul, mas o financiamento prometido desapareceu. Stiller teria voltado a Berlim para levantar fundos, mas não conseguiu. Garbo permaneceu na Turquia de mau humor, sem sequer se comunicar com seu compatriota sueco Hanson. Por fim, ela voltou para Berlim.

Para seu último papel como Siobhan O'Dea em Wearing of the Green (1988), Jean Peters modelou sua personagem com base em Garbo, já que interpretava uma atriz estrangeira reclusa que se isolou após a morte de seu amante no auge de sua carreira.

É uma das muitas estrelas de cinema mencionadas na música “Vogue”, de Madonna.

Mencionada na música “She Keeps On Coming”, dos Bee Gees.

Robert De Niro Sr., pai artista do ator Robert De Niro, pintou um quadro chamado “Greta Garbo como Anna Christie”, que agora se encontra no Weatherspoon Art Museum, na Carolina do Norte.

A famosa colunista e repórter de televisão Barbara Walters afirmou em várias ocasiões que se aposentaria da carreira se conseguisse uma entrevista com Greta Garbo. Isso aconteceu no auge da carreira de Walters (na década de 1980). Fiel à sua natureza, Garbo nunca aceitou o convite.

Em outubro de 1997, ela ficou em 38º lugar na lista das “100 maiores estrelas de cinema de todos os tempos” da revista britânica Empire.

À medida que a popularidade da personagem de desenho animado Betty Boop, da Max Fleischer Studios, crescia no início da década de 1930, o estúdio publicou um anúncio em jornais especializados da indústria cinematográfica em outubro de 1931, afirmando que Betty Boop combinava a simplicidade de Mary Brian, a sutileza de Norma Shearer, o fogo de (Greta) Garbo, a doçura de Joan Bennett e o charme de (Marlene) Dietrich.

Seu último filme foi uma aparição não creditada e não informada em um filme adulto para o público gay de 1974 chamado Adam And Yves. Ela foi filmada sem saber ao sair de seu apartamento e caminhar por várias ruas de Nova York. Essa filmagem foi incorporada ao filme com uma narração ilustrando o fascínio de longa data do personagem principal pela famosa estrela reclusa. Não está claro se Garbo chegou a saber desse assunto.

Irmã de Sven e Alva.

Mencionada em Sunset Boulevard (1950).

Em abril de 2019, foi homenageada como Estrela do Mês pela Turner Classic Movies.

Mencionada na canção “Celluloid Heroes” dos The Kinks.

De acordo com uma biografia sua de 2012, Greta Garbo: A Divine Star, escrita por David Bret, Garbo, sem seu conhecimento, fez sua última aparição no cinema no filme pornográfico gay Adam & Yves (1974). O operador de câmera desse filme pornográfico, Jack Deveau, era obcecado por Garbo e recentemente a filmou através de uma lente teleobjetiva na First Avenue, em Nova York, vestindo um sobretudo e chapéu, parando por um breve momento para conversar com um transeunte e depois atravessando a rua. Isso foi então incorporado à história como um flashback de um dos personagens principais, relatando ao outro como esse foi o momento mais emocionante de sua vida: conhecer Greta Garbo pessoalmente.

Na Itália, seus primeiros filmes (como Mata Hari (1931) e Grande Hotel (1932)) foram dublados por Francesca Braggiotti. Como Braggiotti morava nos Estados Unidos há muitos anos e tinha um leve sotaque americano, o público italiano não aceitou muito bem sua voz, então a italiana Tina Lattanzi foi escolhida como a dubladora oficial de Garbo (ela até redublou Mata Hari (1931)). Em seus dois últimos filmes, Ninotchka (1939) e Duas Vezes Meu (1941), ela foi dublada por Andreina Pagnani. Quando alguns dos filmes de Garbo foram relançados na Itália na década de 1960, eles foram redublados mais uma vez. Foi assim que a atriz de teatro Anna Proclemer emprestou sua voz à divina Garbo.

Mencionada em “The Ballad of Michael Valentine”, dos The Killers.

Ela mantinha a pele perfeita esfregando-a diariamente com sabão e uma escova dura. Odiava o seu cabelo, que era demasiado fino e crespo, razão pela qual provavelmente o usava penteado para trás ou escondido debaixo de uma boina.

Tia-avó de Derek Reisfield e Scott Reisfield, filhos de Gray Reisfield e Donald Reisfield.

Biografia em: “The Scribner Encyclopedia of American Lives”. Volume Dois, 1986-1990, páginas 316-319. Nova Iorque: Charles Scribner's Sons, 1999.

Tia de Gray Reisfield (filha de Sven Gustafson).

Mencionada na canção “Perfect Skin” de Lloyd Cole & The Commotions.

Ao receber a notícia no set de “Camille” (1936) de que John Gilbert havia falecido, ela teria começado a chorar imediatamente, sem hesitar, e enquanto era acompanhada até seu camarim por Laura Hope Crews para receber apoio emocional, ela proclamou enquanto atravessava o estúdio que o maior erro que cometeu na vida foi quando perdeu a oportunidade de se casar com ele.

A síndrome de Greta Garbo, segundo os psicólogos, é um termo usado para descrever quando celebridades ou pessoas em geral se afastam da vida social e perdem o sentido de suas vidas.

Faleceu no mesmo dia em que Emma Watson nasceu.

Em 1949, Walter Wanger convenceu Garbo a posar para fotos em vídeo, filmadas por William Daniels, para um possível retorno ao cinema, mas a produção nunca aconteceu.

Ela faleceu no domingo de Páscoa.

Ela tinha sido uma conhecida, amante e correspondente notável de Sydney Guilaroff.

Em 2022, o coquetel Greta Garbo foi criado pelo YouTuber Truffles on the Rocks. É um daiquiri que consiste em rum, limão e açúcar, e adiciona interesse com absinto e um toque de licor maraschino doce e terroso.

Ela é mencionada na letra da música “I Can't Get Started”, de Bunny Berigan.

No conto “Whispers of the Willows”, escrito por Joshua Rumage em sua novela “Whispers of the Willows and Other Stories of Suspense”, publicada digitalmente em 28 de fevereiro de 2025, a personagem principal Angeline Oquist é baseada na própria Garbo.

Ela apareceu em dois filmes que foram indicados ao Oscar de Melhor Filme: Grande Hotel (1932) e Ninotchka (1939). O primeiro ganhou na categoria.

Foi uma das inspirações para a Rainha Má em “Branca de Neve e os Sete Anões” (1937).

Citações

Não há ninguém que me queira — eu não sei cozinhar.

Ser uma estrela de cinema, e isso se aplica a todas elas, significa ser observada de todas as direções possíveis. Você nunca tem paz, é apenas um alvo fácil.

Você não precisa ser casada para ter um bom amigo como parceiro para a vida toda.

Eu gostaria de ter uma força sobrenatural para poder consertar tudo o que está errado.

A vida seria tão maravilhosa se soubéssemos o que fazer com ela.

Qualquer pessoa que tenha um sorriso contínuo no rosto esconde uma dureza que é quase assustadora.

[sobre sua famosa citação em Grande Hotel (1932)] Eu nunca disse: “Quero ficar sozinha”. Eu apenas disse: “Quero ser deixada em paz”. Há uma enorme diferença entre as duas coisas.

Não quero ser uma sedutora tola. Não vejo sentido em me vestir bem e não fazer nada além de seduzir homens nas fotos.

A história da minha vida é sobre entradas dos fundos, portas laterais, elevadores secretos e outras maneiras de entrar e sair de lugares para que as pessoas não me incomodem.

Se ao menos aqueles que sonham com Hollywood soubessem como tudo isso é difícil.

Suas alegrias e tristezas. Você nunca pode contar a eles. Você se rebaixa se fizer isso.

Há quem queira se casar e outros que não. Nunca tive vontade de subir ao altar. Sou uma pessoa difícil de liderar.

[perguntada em seus últimos anos por um fã se ela era Greta Garbo] EU ERA Greta Garbo.

Se você vai morrer na tela, precisa ser forte e ter boa saúde.

Há muitas coisas em seu coração que você nunca pode contar a outra pessoa. Elas são você, suas alegrias e tristezas particulares, e você nunca pode contá-las. Você se rebaixa, o seu interior, quando as conta.

Eu vivo como um monge: com uma escova de dentes, um sabonete e um pote de creme.

[sobre segredos] Cada um de nós vive sua vida apenas uma vez; se formos honestos, viver uma vez é suficiente.

[1926, sobre Hollywood] Aqui é entediante, incrivelmente entediante, tão entediante que não consigo acreditar que seja verdade.

[1932, sobre suas preferências recreativas] Se eu precisava de recreação, gostava de estar ao ar livre: caminhar com um casaco e sapatos masculinos; andar a cavalo, jogar dados com os rapazes do estábulo ou assistir ao pôr do sol em uma explosão de glória sobre o Oceano Pacífico. Veja bem, ainda sou um pouco moleca. A maioria das anfitriãs desaprova essa atitude masculina em relação à vida, então não as incomodo com isso.

[1932, sobre outro fator que contribuiu para sua decisão de evitar a publicidade] Ainda estou um pouco nervosa, um pouco constrangida com meu inglês. Não consigo me expressar bem em festas. Falo com hesitação. Sinto-me desajeitada, tímida, com medo. Em Hollywood, onde todas as mesas estão repletas de colunistas de fofocas, o que eu digo pode ser mal interpretado. Por isso, sou silenciosa como um túmulo sobre meus assuntos particulares. Os rumores voam. Eu fico calada. Meus assuntos particulares são estritamente particulares.

[1932, sobre o diretor Mauritz Stiller, a natureza de seu relacionamento com ele e o papel que isso desempenhou em cultivar sua preferência, amplamente divulgada, pela privacidade em detrimento da publicidade] A morte de Stiller foi um grande golpe para mim. Por muito tempo, eu fui sua satélite. Naquela época, toda a Europa considerava Stiller a figura mais importante do mundo do cinema. Os diretores corriam para as salas de projeção onde seus filmes eram exibidos. Levavam consigo suas secretárias e, no silêncio sombrio, ditavam comentários ofegantes sobre a amplitude de sua magnífica técnica. Stiller me descobriu, uma artista obscura na Suécia, e me trouxe para os Estados Unidos. Eu o idolatrava. É claro que há quem diga que foi uma história de amor. Foi mais do que isso. Foi uma devoção total que só os muito jovens podem conhecer — a adoração de uma aluna por seu professor, de uma garota tímida por um gênio. Em seu estúdio, Stiller me ensinou a fazer tudo: como comer, como virar a cabeça, como expressar amor — e ódio. Fora das telas, eu estudava cada capricho, desejo e exigência dele. Eu vivia minha vida de acordo com os planos que ele traçava. Ele dizia o que dizer e o que fazer. Quando Stiller morreu, eu me senti como um navio sem leme. Eu estava confusa — perdida — e muito solitária. Recusei-me terminantemente a falar com repórteres porque não sabia o que dizer. Aos poucos, saí da agitação social de Hollywood. Retirei-me para minha concha. Construí uma parede de repressão ao redor do meu verdadeiro eu e vivi — e ainda vivo — atrás dela.

Meus talentos têm limites definidos. Não sou uma atriz tão versátil quanto alguns pensam.

Existe algo melhor do que desejar algo, quando você sabe que está ao seu alcance?

Se você é abençoado, você é abençoado, seja casado ou solteiro.

Há quem queira se casar e outros que não. Nunca tive vontade de subir ao altar. Sou uma pessoa difícil de liderar.

Fumo o tempo todo, um cigarro atrás do outro.

Tenho lido outras histórias de vida. Algumas pessoas nasceram em casas de tijolos vermelhos, outras em casas simples de tábuas brancas. Qual é a diferença? Todos nós nascemos em casas. Não vou deixar que publiquem que nasci nesta ou naquela casa; que minha mãe era assim ou meu pai era assado. Eles eram minha mãe e meu pai, assim como os seus eram sua mãe e seu pai. Para mim, isso é o que importa. Por que o mundo deveria falar sobre eles? Não quero que o mundo fale sobre minha mãe e meu pai.

[sobre sua infância] Eu tinha altos e baixos. Feliz em um momento. No momento seguinte, não restava nada para mim.

Parece haver uma lei que rege todas as nossas ações, então eu nunca faço planos.

Estou cansada e nervosa e estou nos Estados Unidos. Aqui, você não sabe que está viva.

[sobre os Estados Unidos] É amargo pensar que os melhores anos de uma pessoa desaparecem neste país rude.

[entrevista de 1927] Não vamos falar de mim! É véspera de Ano Novo. Na Suécia, isso significa muito, muito mesmo. Lá, vamos à igreja, comemos, bebemos e vemos todos que conhecemos. Estive triste o dia todo. Em casa, em Estocolmo, eles estão esquiando, patinando e jogando bolas de neve uns nos outros. As bochechas estão vermelhas — oh, por favor, não vamos falar de mim.

[1927] Eu nasci, cresci e vivi como qualquer outra pessoa. Por que as pessoas precisam falar sobre mim? Todos fazemos as mesmas coisas, apenas de maneiras um pouco diferentes. Vamos à escola, aprendemos, às vezes somos maus, outras vezes somos bons. Encontramos o trabalho da nossa vida e o fazemos. É isso que há na história de vida de qualquer pessoa, não é?

O artista criativo deve ser um espírito raro e solitário. Meu trabalho me absorve. Não tenho tempo para mais nada.

Não tenho orgulho de ser uma estrela de cinema. Não tenho motivos para isso. Comparado com outras profissões, o que faço é tão insignificante.

[sobre sedução] Quem foi seduzido queria ser seduzido.

[sobre beijos] Não os desperdice. Mas não os conte.

[sobre sexo] Nos Estados Unidos, uma obsessão. Em outras partes do mundo, um fato.

Salários

Duas Vezes Meu (1942) - $150,000

Ninotchka (1939) - $125,000

O Romance de Madame Walewska (1937) - $500,000

A Dama das Camélias (1937) - $500,000

Anna Karenina (1935) - $275,000

O Véu Pintado (1934) - $250,000

Rainha Christina (1934) - $250,000

Grande Hotel (1932) - $7,000 /week

Mata Hari (1931) - $7,000 /week

Susan Lenox (1931) - $250,000

Inspiração (1931) - $250,000

Anna Christie (1930) - $250,000

Anna Karenina (1928) - $2,000 /week

Anna Karenina (1928) - $5,000 /week

A Carne e o Diabo (1926) - $600 /week

Laranjais em Flor (1926) - $400 /week

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12. Privatizações dos rios Tapajós, Tocantins e Madeira - vídeo

Privatização dos rios Tapajós (+ entrevista com Walter e Lucius)

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13. Senado do México aprova redução de jornada de trabalho para 40 horas semanais

Projeto diminui jornada de 48 horas para 40 horas; medida será gradual e deve beneficiar 13,4 milhões. Texto ainda precisa ser aprovado pela Câmara dos Deputados do país

Diego Oré, fsp, 12.2.2026

O Senado do México aprovou nessa quarta-feira (11) uma proposta presidencial que reduz a semana de trabalho legal de 48 para 40 horas, superando a resistência dos sindicatos e da oposição com uma versão reformulada de uma proposta anterior.

A iniciativa foi aprovada por unanimidade com 121 votos e agora segue para a Câmara dos Deputados para um debate final.

Após anos de discussões entre o Congresso e o setor privado, a presidente do país, Claudia Sheinbaum, apresentou formalmente em dezembro um projeto de lei para implementar gradualmente a semana de trabalho de 40 horas. A proposta visa reduzir a semana de trabalho em duas horas por ano até 2030 para cerca de 13,4 milhões de trabalhadores.

Parlamentares da oposição e líderes sindicais consideraram a proposta enfraquecida, argumentando que ela deixa brechas que não resultarão em redução substancial da carga horária semanal.

Se aprovada, a reforma trabalhista entra em vigor em 1º de maio, com a primeira redução de duas horas a ser implementada em janeiro de 2027.

O México lidera o ranking da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico) em horas de trabalho mais longas, com 2.226 horas por pessoa anualmente. O país também tem a menor produtividade laboral e os salários mais baixos entre os 38 Estados-membros.

É possível reduzir a jornada de trabalho no Brasil

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14. A gargalhada de Agnes Shakespeare

'Hamnet' explodiu o tempo lógico e silenciou toda a vida que eu levo quando não estou em um encontro absoluto com o cinema. Eu me senti ali tão inteira quanto foram as atuações, a direção, o roteiro, a fotografia, a trilha.

Tati Bernardi, fsp,  12.2.2026

"Hamnet" é um dos melhores filmes que já vi na vida. Antes de seguir, aviso que darei fortíssimos spoilers durante a crônica.

Chorar com histórias de mães que perdem filhos ou com percalços infinitos que resultam em finais triunfantes é uma constante na vida de cinéfilos. Mas chorar porque, além de estarmos assolados por cenas tão fortes e belas e tristíssimas, estamos embasbacados com a grandiosidade de uma obra, é uma experiência rara e memorável.

Eu chorei de alagar o peito, de passar vergonha, de ressuscitar rinites, de seguir chorando por um tempo até chegar em casa. Eu chorei porque, no dia em que tinha lido com mais detalhe sobre os arquivos Epstein (e senti um medo e um nojo que ultrapassam a minha capacidade e a minha experiência), fui salva pela arte de uma forma excepcional e irrevogável. Este filme é exatamente o oposto de tudo o que é podre e horrível e masculinista e está nos jornais e encalacrado em nossas vidas.

Para começar, é um filme que tem a ousadia de retratar um fragmento importantíssimo da história do magnífico William Shakespeare e, numa sacada genial, a gente só escuta o seu nome no final do segundo ato, quando Agnes, curiosa sobre a nova peça do marido, vai atrás dele em Londres.

Will estava ali meio angustiadão, escrevendo uns garranchos nuns pedaços de papel, dando soquinhos na mesa, quando sua mulher decide: vai lá tentar ser artista, então, e deixa que eu seguro as pontas aqui com as crianças. Nessa hora, tenho certeza de que mulheres do mundo inteiro pensam: era para ser a história do Shakespeare, mas será que a diretora Chloé Zhao está falando de mim?

A trama é toda sobre a dor excruciante da mãe que ficou em casa com as crianças e perdeu uma delas para a peste bubônica. Da mulher que entende não só de florestas, bruxarias, remédios, partos, crianças, relações, psique humana, como ainda é interpretada por Jessie Buckley —e, neste momento, não consigo pensar em nenhuma outra atriz que alcance tamanha entrega e sofisticação dramática.

Somos seres estragados por pequenas telas e seus picos de dopamina. "Hamnet" explodiu o tempo lógico, anestesiou meu corpo, silenciou toda a vida que eu levo quando não estou em um encontro absoluto com o cinema. Eu me senti ali tão inteira quanto foram as atuações, a direção, o roteiro, a fotografia, a trilha. "Hamnet" é um filme escandalosamente maduro e comprometido, e assim fui convocada a me portar.

A arte que nasce de um luto insuportável, de um último recurso diante do precipício e da decisão de "não ser" bastaria como enredo, mas essa arte que apazigua a maior das dores e faz Agnes Shakespeare soltar uma gargalhada diante do palco (diante do filho prestes a morrer encarnado no palco) é a resposta mais audaz e deslumbrante perante a finitude. E nessa cena, nessa gargalhada infantil da mãe enlutada e envelhecida, na montanha de mãos de espectadores sobre a mão do ator, a gente conclui que a arte vai ainda mais longe: ela não só provoca, chama para a batalha, mas também vence a morte. Em uma das cenas mais tristes do filme, a mãe de Shakespeare diz para Agnes que ninguém vence a morte. Ela estava errada.

E o conforto, a beleza, o tamanho disso! Está tudo ali. Na gargalhada da mãe e da atriz. Que filme, amigos!

E fica uma pergunta em nossos corações: Shakespeare seria só mais um esquerdomacho se não tivesse se tornado Shakespeare? (Melhorem, rapazes do século 21!)

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15. Com Z, mas pela IA

Ruy Castro, fsp, 12.2.2026

Liza Minnelli (láiza, não lissa, e minnelli com dois nn e dois ll, como ela fazia questão de frisar) está a um mês dos 80 anos e já passou por tudo na vida: grandes papéis, péssimos papéis, discos, filmes, prêmios (todos: Oscar, Grammy, Tony, Emmy e Globo de Ouro), casamentos fadados ao fracasso, doenças, dependências, internações, longos sumiços, voltas triunfais. É natural — imagine ser filha de Judy Garland e do cineasta Vincente Minnelli, da realeza de Hollywood nos anos 40 e ambos geniais, mas mais do que complicados. Mas foi o que fez Liza se tornar Liza Minnelli, e não há outra igual.

Na Fontana di Trevi, em Roma, em 2008 - Christophe Simon - 2.out.08/AFP

Outro dia, dei-me ao prazer de listar alguns nomes com quem ela dividiu palcos, câmeras e microfones: Gene Kelly (aos 14 anos), sua mãe (aos 18), Frank Sinatra, Sammy Davis Jr., Mel Tormé, Danny Kaye, Chita Rivera, Charles Aznavour, Barishnikov, Pavarotti e muitos mais, até Lady Gaga. Nada demais nisso sabendo-se que, ainda de fita no cabelo, Liza estudou canto com Kay Thompson, diretora musical de Judy, dança com Martha Graham e representação com a brechtiana Uta Hagen.

Seus principais filmes, "Cabaret" (1972) e "New York, New York" (1977), e o especial de TV "Liza with a ‘Z’" (1972) tiveram música original por John Kander e Fred Ebb e direção musical de Ralph Burns, sendo que em "With a ‘Z’" a orquestra era regida por Marvin (futuro "A Chorus Line") Hamlish. Em "New York, New York", o sax-tenor dublado por Robert De Niro era Georgie Auld, lenda das big bands. E foi desse filme que saiu a canção-título, de Kander e Ebb, lançada por Liza e só dois anos depois, em 1979, reconsagrada por Sinatra.

Todos os nomes citados são ou foram do primeiro time nos EUA. Com seu currículo e poder, Liza não faria por menos.

Mas o mundo mudou. Liza acaba de gravar um single, "Kids, Wait Till You Hear This", em que tudo —produção, música, letra, arranjo, orquestra, solistas, técnicos de gravação— saiu da IA. Ninguém ao vivo. Espero que, pelo menos, a voz seja a dela. Bem que eu disse que Liza já passou por tudo na vida.

Liza Minnelli em 'Cabaret', filme de 1972 de Bob Fosse

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16. Miles Davis - Blue moods - Full Album (1955)

1. “Nature Boy” Eden Ahbez; 2. “Alone Together” Arthur Schwartz & Howard Dietz; 3. “There’s No You” Hal Hopper & Tom Adair; 4. “Easy Living” Ralph Rainger & Leo Robin.

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17. Mozart – Sonatas – piano

Mozart’s piano sonatas date from 1773 until 1788 – a period in which his style matured at a truly remarkable rate. The earliest sonatas are very much in the galant style of W.F and CPE Bach, and in places Scarlatti’s influence can be detected. However, the late sonatas, such as K457 are full of surprises, and here the influence of Haydn is to the fore – even predicting Beethoven in passages. The years from 1773 to the late 80s saw the rapid development of the piano from a novelty and experimental instrument, to the stage where it’s power and range provided composers with a hitherto undreamed palate of colours and expression. Mozart exploited the new instruments to maximum effect in his concertos and his sonatas.

Composer: Wolfgang Amadeus Mozart

Artist: Klara Würtz (piano)

00:00:00 Piano Sonata No.1 in C, K279: I. Allegro

00:04:56 Piano Sonata No.1 in C, K279: II. Andante

00:10:09 Piano Sonata No.1 in C, K279: III. Allegro

00:13:31 Piano Sonata No.2 in F, K280: I. Allegro assai

00:18:02 Piano Sonata No.2 in F, K280: II. Adagio

00:24:04 Piano Sonata No.2 in F, K280: III. Presto

00:26:59 Piano Sonata No.3 in B flat, K281: I. Allegro

00:33:47 Piano Sonata No.3 in B flat, K281: II. Andante amoroso

00:39:19 Piano Sonata No.3 in B flat, K281: III. Rondeau: Allegro

00:43:56 Piano Sonata No.4 in E flat, K282: I. Adagio

00:50:57 Piano Sonata No.4 in E flat, K282: II. Menuetto

00:55:02 Piano Sonata No.4 in E flat, K282: III. Allegro

00:58:06 Piano Sonata No.5 in G, K283: I. Allegro

01:03:32 Piano Sonata No.5 in G, K283: II. Andante

01:09:14 Piano Sonata No.5 in G, K283: III. Presto

01:13:02 Piano Sonata No.6 in D, K284: I. Allegro

01:18:32 Piano Sonata No.6 in D, K284: II. Rondeau en polonaise: Andante

01:22:38 Piano Sonata No.6 in D, K284: III. Andante (Tema con variazioni)

01:38:15 Piano Sonata No.7 in C, K309: I. Allegro con spirito

01:44:13 Piano Sonata No.7 in C, K309: II. Andante un poco adagio

01:49:21 Piano Sonata No.7 in C, K309: III. Rondeau: Allegretto grazioso

01:55:23 Piano Sonata No.8 in A Minor, K310: I. Allegro maestoso

02:01:24 Piano Sonata No.8 in A Minor, K310: II. Andante cantabile con espressione

02:08:31 Piano Sonata No.8 in A Minor, K310: III. Presto

02:11:14 Piano Sonata No.9 In D, K311: I. Allegro con spirito

02:15:41 Piano Sonata No.9 In D, K311: II. Andante con espressione

02:20:33 Piano Sonata No.9 In D, K311: III. Rondeau: Allegro

02:26:39 Piano Sonata No.10 In C, KV330: I. Allegro moderato

02:33:20 Piano Sonata No.10 In C, KV330: II. Andante cantabile

02:39:53 Piano Sonata No.10 In C, KV330: III. Allegretto

02:45:36 Piano Sonata No.11 In A, K331: I. Andante grazioso

02:58:30 Piano Sonata No.11 In A, K331: II. Menuetto

03:04:25 Piano Sonata No.11 In A, K331: III. Alla Turca: Allegretto

03:07:50 Piano Sonata No.12 in F, K332: I. Allegro

03:14:24 Piano Sonata No.12 in F, K332: II. Adagio

03:19:07 Piano Sonata No.12 in F, K332:III. Allegro assai

03:25:58 Piano Sonata No.13 in B flat, K333: I. Allegro

03:33:20 Piano Sonata No.13 in B flat, K333: II. Andante cantabile

03:38:53 Piano Sonata No.13 in B flat, K333: III. Allegretto grazioso

03:45:30 Piano Sonata No.14 in C Minor, K457: I. Allegro molto

03:50:59 Piano Sonata No.14 in C Minor, K457: II. Adagio

03:58:42 Piano Sonata No.14 in C Minor, K457: III. Allegro assai

04:03:02 Piano Sonata No.15 in F, K533: Allegro

04:10:39 Piano Sonata No.15 in F, K533: Andante

04:17:14 Piano Sonata No.15 in F, K533: Rondeau: Allegretto

04:23:42 Piano Sonata No.16 in C, K545: I. Allegro

04:27:02 Piano Sonata No.16 in C, K545: II. Andante

04:31:12 Piano Sonata No.16 in C, K545: III. Rondo

04:32:58 Piano Sonata No.17 in B flat, K570: I. Allegro

04:38:32 Piano Sonata No.17 in B flat, K570: II. Adagio

04:46:07 Piano Sonata No.17 in B flat, K570: III. Allegretto

04:49:38 Piano Sonata No.18 in D, K576: I. Allegro

04:54:50 Piano Sonata No.18 in D, K576: II. Adagio

05:00:23 Piano Sonata No.18 in D, K576: III. Allegretto

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18. Pepeu Gomes - Geração de Som (1978) album completo

Pepeu Gomes - Documentário sobre o ' Geração de som ' 

Pepeu Gomes - Didilhando

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19. Pesquisa de Harvard avalia relação entre consumo de café e risco de demência; confira as descobertas

Estudo analisou os dados de 130 mil pessoas acompanhadas ao longo de quase 40 anos.

Gabriel Damasceno, O Estado, 10/02/2026 

O café pode reduzir o risco de demência e atuar como aliado do envelhecimento saudável, aponta um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Harvard e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e publicado nesta segunda-feira, 9, na revista JAMA

A pesquisa analisou os dados de 130 mil pessoas acompanhadas ao longo de quase 40 anos. Nesse período, 11.033 participantes desenvolveram demência. Os resultados indicam que quem estava no grupo de maior consumo de café — duas ou três xícaras de 237 ml por dia — apresentou um risco 18% menor do quadro em comparação ao grupo de menor consumo.

Os resultados também foram positivos para o consumo diário de uma a duas xícaras de chá, ligado a um risco 14% menor de demência.

O consumo das bebidas também foi associado a uma menor prevalência de declínio cognitivo subjetivo, que é a percepção da própria perda de memória. Além disso, em testes objetivos de desempenho cognitivo, o consumo dessas bebidas foi associado a pontuações ligeiramente melhores em memória verbal e atenção.

Apesar dos achados, Daniel Wang, professor da Escola de Medicina de Harvard e autor sênior do estudo, ressalta que eles não substituem outras formas de prevenção à demência.

Em comunicado à imprensa, ele afirma que, embora os resultados sejam encorajadores, “é importante lembrar que o tamanho do efeito é pequeno e que existem muitas formas importantes de proteger a função cognitiva à medida que envelhecemos”.

“Nosso estudo sugere que o consumo de café ou chá com cafeína pode ser uma peça desse quebra-cabeça”, acrescenta.

Café descafeinado

Os efeitos positivos observados no estudo apareceram apenas entre os participantes que consumiam café com cafeína e, em alguns casos, o alto consumo da versão descafeinada esteve associado a uma maior percepção de declínio cognitivo.

A pesquisa, no entanto, destaca que essa relação não indica necessariamente um efeito negativo do café descafeinado. Os autores pontuam que as pessoas optam pelo tipo descafeinado por condições de saúde pré-existentes, como problemas de sono, ansiedade ou questões cardíacas, que por si só podem estar associadas a alterações cognitivas.

Hipóteses

A cafeína pode exercer efeitos positivos na saúde cerebral. Segundo a pesquisa, ao bloquear os receptores de adenosina A1 e A2A no cérebro, ela ajuda a manter a comunicação entre os neurônios e a reduzir o acúmulo de proteína beta-amiloide, associada ao Alzheimer.

Pesquisas experimentais citadas no estudo também indicam que o consumo regular de cafeína pode interferir em processos ligados ao desenvolvimento da doença, ao inibir a atividade das enzimas β-secretase e γ-secretase, responsáveis pela produção da beta-amiloide, e melhorar o funcionamento das células nervosas. Os efeitos disso vão desde o aumento da plasticidade cerebral até o estímulo de mecanismos que ajudam as células a se manterem saudáveis por mais tempo.

O estudo também pontua que a cafeína tem um papel anti-inflamatório no cérebro, ao reduzir substâncias associadas à inflamação. Além disso, ela tem sido associada à melhora da sensibilidade à insulina e à redução do risco de diabetes tipo 2, considerada um fator de risco importante para a demência.

Não é só a cafeína

A cafeína não é o único composto envolvido. Luiz Antônio Machado César, médico cardiologista do Instituto do Coração (InCor) da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), observa que os efeitos positivos estão ligados ao café como um todo. Segundo ele, a bebida contém inúmeros compostos fenólicos com ação protetora e antioxidante que também podem estimular o cérebro.

“Não é a cafeína isoladamente. Não adianta sair tomando cápsulas de cafeína, isso é crucial de entender. Provavelmente é um efeito do café que, associado à cafeína, se torna mais intenso para o cérebro.”

O café contém polifenóis e ácido clorogênico, enquanto o chá é rico em catequinas, epigalocatequina-3-galato (EGCG) e L-teanina. Eles oferecem benefícios antioxidantes e vasculares ao reduzir o estresse oxidativo e melhorar a função cerebrovascular. Os componentes do chá, como o EGCG e a L-teanina, podem fornecer benefícios adicionais ao melhorar o relaxamento e oferecer neuroproteção direta.

Machado chama atenção ainda para a relação entre o café e a sirtuína, proteína associada à proteção contra a morte celular. Ligada aos radicais fenólicos presentes na bebida, a substância apresenta efeitos positivos tanto no sistema cardiovascular quanto no sistema nervoso, embora seus impactos específicos no cérebro careçam de estudos mais aprofundados.

Metodologia

Para a neurologista Elisa de Paula França Resende, coordenadora do Departamento Científico de Neurologia Cognitiva e do Envelhecimento da Academia Brasileira de Neurologia (ABN), a quantidade de participantes é o principal destaque do estudo. Outras pesquisas já apontavam a associação, mas não tinham a mesma consistência.

O novo estudo acompanhou 131.821 pessoas que não tinham demência, câncer ou Parkinson no início do acompanhamento, a partir de duas bases de dados: o Nurses’ Health Study (com mulheres) e o Health Professionals Follow-up Study (com homens). Todos os participantes eram profissionais da saúde. A maior parte era mulheres (65,7%) e pessoas brancas.

O consumo de café com cafeína, café descafeinado e chá foi acompanhado por meio de questionários aplicados a cada 2 a 4 anos.

Os diagnósticos de demência foram identificados por registros de óbito e relatos de diagnóstico médico confirmados por revisão clínica. O declínio cognitivo subjetivo foi analisado por meio de questionários de autorrelato.

Também foram realizadas análises estatísticas para controlar fatores que poderiam causar confusão — como idade, escolaridade, tabagismo, atividade física, dieta, doenças prévias e fatores genéticos — para isolar a associação entre o consumo das bebidas e a saúde cognitiva.

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20. O excesso de energia solar pode provocar apagão? - vídeo

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21.  América não é um país, mas um continente

Bad Bunny e a masculinidade que queremos

Joanna Moura, fsp, 10.2.2026

Eu poderia tranquilamente passar a semana toda exaltando o que foi o show no intervalo do Super Bowl. Quero homens conectados com suas emoções, corajosos o suficiente para serem vulneráveis.

Sinto muito, mas serei obrigada a seguir falando sobre Bad Bunny. É que pelo segundo domingo consecutivo, o artista porto-riquenho, fez história. Depois de subir ao palco da cerimônia de premiação do Grammy na semana passada e se tornar o primeiro artista latino a conquistar o prêmio de Álbum do Ano, Benito Antonio Martinez Ocasio, fez história novamente ao se apresentar no halftime do Super Bowl.

Durante os 13 minutos de sua apresentação repleta de simbolismos, Bad Bunny fez inúmeras referências à cultura de seu país, recebeu no palco Lady Gaga e Ricky Martin, mostrou o gingado do "perreo" com dezenas de dançarinos de origem latina, celebrou um casamento real de um casal porto-riquenho, interagiu com ícones do cotidiano latino em cidades americanas —como Toñita, dona de um bar no Brooklyn, conhecido como Caribbean Social Club— e teceu críticas ao desamparo governamental ao fazer referência à crise elétrica que o país enfrenta. Mas, talvez mais importante que tudo isso, Benito lembrou ao mundo que América não é um país, mas um continente.

Porém, se você esteve online nos últimos dias, provavelmente já sabe de tudo isso — ou será que foi só a minha timeline que foi totalmente abduzida pelo "Benito Bowl"?

Bad Bunny durante o show no intervalo do Super Bowl - Mike Blake - 8.fev.26/Reuters

Eu poderia tranquilamente passar a semana toda exaltando o que foi o halftime mais assistido de todos os tempos e sua importância num contexto de repressão violenta à imigrantes por parte do governo Trump. Mas não quero chover no molhado, então seguirei tratando sobre o assunto —sobre o qual estou levemente obcecada— a partir de um outro ângulo.

A câmera mostra Bad Bunny e Ricky Martin confraternizando após o show. Os dois ainda trajavam os figurinos com os quais haviam se apresentado quando se juntaram para tirar uma foto. Ricky olha para frente e sorri para a câmera, Benito, em pé ao seu lado, com o braço por cima de seu ombro, se emociona e se curva nos braços do ídolo que embalou as noites de sua infância e abriu caminho para seus sonhos. Com o rosto encostado no peito de Ricky, Benito dá tapinhas de agradecimento em suas costas. Ricky o conforta, lhe retornando o abraço. Benito então se afasta e lhe olha nos olhos, com as mãos unidas sobre a boca em respeito, em admiração, em gratidão.

A cena me levou às lágrimas. Em tempos de red pills e incels de um lado e esquerdomachos autoproclamados aliados mas que se sentem à vontade para criticar o feminismo, ver uma interação tão honesta e vulnerável entre homens, especialmente entre um homem heterossexual e alguém que diverge da heteronormatividade me fez ter esperança de que uma nova masculinidade já é possível.

Veja como foi o show de Bad Bunny no Super Bowl - galeria

Como se não bastasse, Benito seguiu para cumprimentar Lady Gaga, a ídola que se tornou sua amiga. Uma mulher que Benito admira, cujo trabalho ele respeita, cuja amizade ele valoriza.

Essa é a masculinidade que eu quero ver estampada na mídia, ensinada em casa, reforçada na escola, viralizada nas redes sociais, exercida nas ruas. Quero homens conectados com suas emoções, corajosos o suficiente para serem vulneráveis. Quero homens que abracem homens que amam outros homens. Quero homens que lutem por igualdade de gênero e pela defesa de minorias. Quero homens que admiram outras mulheres além daquela que os pariu, que sejam amigos de mulheres, que leiam e ouçam mulheres.

Queremos uma masculinidade que se pareça mais com a humanidade.

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22. O que o futebol brasileiro pode aprender com o escândalo do Master

Luís Curro, fsp, 09.2.2026

Desde o final de 2025, só se fala do Banco Master. Os meios de comunicação brasileiros têm priorizado esse caso, devido às amplas vertentes políticas e econômicas e aos desdobramentos extensos.

Assunto relevante (e maçante), e a esta coluna o que interessa é saber duas coisas: 1) o escândalo do Master afetou em que dimensão o futebol? e 2) o que o futebol pode aprender com isso?

Houve respingos no Corinthians e no Palmeiras. O entendimento, contudo, é que não foi algo que de cara afetou, e não tende a afetar, o dia a dia dos dois times.

No clube alvinegro, a problemática não envolve jogadores, comissão técnica ou o restante do estafe, e sim o estádio Itaquerão. O fundo que gerencia os recursos financeiros relacionados à arena parou de operar depois que sua gestora (Reag, envolvida com irregularidades no Master) teve a liquidação decretada pelo Banco Central.

Assim, fornecedores (que atuam em segurança e limpeza, por exemplo, da arena) deixaram de ser pagos com o montante que estava no fundo agora travado, tendo o Corinthians de recorrer a outras fontes para quitar essas obrigações.

Temporariamente, acomete-se o fluxo de caixa do clube. Recursos precisam ser remanejados até que haja um destravamento, com a nomeação pela CVM (Comissão de Valores Mobiliários) de um novo gestor para administrar o fundo. Até agora, o time corintiano continua a jogar lá normalmente, com o tradicional apoio da Fiel, sem qualquer impacto conhecido.

No clube alviverde, houve a perda de patrocinador relevante, com a rescisão contratual com o Fictor, devido, segundo o clube, ao "inadimplemento contratual" e ao "pedido de recuperação judicial realizado pelo grupo".

O Fictor, conglomerado que conta com empresas em vários ramos de atuação (alimentação, imobiliário, energia, agronegócio, serviços financeiros), chegou a anunciar em novembro a compra do Master, porém o negócio não prosperou porque o Banco Central determinou a liquidação extrajudicial do banco.

A notícia gerou uma crise reputação no Fictor, com fuga em massa de investidores, ocasionando uma outra crise, de liquidez, que culminou em pedido de recuperação judicial neste mês.

Resultado: R$ 25 milhões a R$ 30 milhões a menos por ano para o Palmeiras oriundos dessa fonte, o que reflete diretamente no planejamento orçamentário. O clube terá de ir ao mercado atrás de um substituto.

São arranhões monetários nos times de maior rivalidade em São Paulo, protagonistas do Derby. Não levam a cuidados de UTI, mas devem servir para que seus dirigentes tomem precauções que venham a evitar feridas profundas.

É sabido que os clubes brasileiros não têm a preocupação devida com governança, compliance e due diligence (diligência prévia), termos estranhos ao noticiário esportivo. Resumindo: implementar medidas e práticas preventivas que possam mitigar os riscos, tomando o caso Master como um alerta.

No atual sistema do futebol brasileiro, os clubes vão se tornando cada vez mais dependentes de fundos e de patrocinadores para tocar o futebol. Se o fundo ou o patrocinador dá problema, há reflexos que podem ser graves.

Há como se prevenir? Não se pode prever o futuro, mas é possível executar análise de risco de maior profundidade. Na ânsia de fazer caixa para ampliar sua competitividade (mais dinheiro significa mais e melhores reforços), clubes aceitam contratos sem uma checagem jurídica minuciosa e sem planejar auditorias regulares e contínuas de seus "parceiros".

Em tempos em que a maioria esmagadora das agremiações se vê dependente de verba que vem de empresas de apostas esportivas (bets) – regulamentadas faz pouco tempo no Brasil, operando sob um modelo de negócio volátil, algumas recém-criadas–, é um cenário de segurança para lá de duvidosa.

Exemplo é uma comissão no Senado ter aprovado dias atrás projeto que proíbe o patrocínio de bets a clubes.

Diversificar as fontes de receitas, com maior equilíbrio entre elas, e estabelecer cláusulas contratuais de proteção (risco de contraparte) são movimentos recomendados que podem significar a diferença entre a consistência econômica e a hecatombe financeira.

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25. Karim Aïnouz filma patriarcado ressentido e vê tesão de cinema em 'O Agente Secreto'

Diretor nascido em Fortaleza está na mostra do festival alemão com produção estrangeira. Ele diz que cineastas fora do eixo, como brasileiros, oxigenam a indústria cinematográfica.

Thiago Stivaletti, fsp, 07.2.2026

[RESUMO] Prestes a lançar seu segundo longa em inglês, selecionado para a disputa pelo Urso de Ouro no Festival de Berlim, Karim Aïnouz fala sobre o momento de glória do cinema brasileiro, elogia a temperatura de "O Agente Secreto", relembra sua campanha ao Oscar e reflete se o público ainda quer ver sexo no cinema.

Muitos apontam o lançamento de "Ainda Estou Aqui", em 2024, como o início da atual onda de interesse internacional pelo cinema brasileiro. Talvez seja mais certo voltar a pouco antes da pandemia, em 2019, quando "A Vida Invisível", de Karim Aïnouz, venceu a mostra "Un Certain Regard", a segunda mais importante do Festival de Cannes, tornando-se o filme escolhido pelo Brasil para tentar uma vaga no Oscar de 2020, o que acabou não ocorrendo. Naquele mesmo ano, no festival francês, "Bacurau", de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, venceu o Prêmio do Júri da competição principal.

Nascido em Fortaleza e radicado em Berlim há 18 anos, Karim tem uma das trajetórias mais interessantes do cinema brasileiro desde que seu primeiro longa, "Madame Satã" (2002), foi aclamado pela crítica e projetou Lázaro Ramos como um dos maiores atores do país.

No mês passado, o cineasta comemorou seu aniversário de 60 anos com uma excelente notícia: seu mais recente longa, "Rosebush Pruning" (poda de roseiras, em tradução livre), rodado em inglês com elenco internacional, foi selecionado para a competição pelo Urso de Ouro no Festival de Berlim, que ocorrerá de 12 a 22 de fevereiro.

"Rosebush Pruning" é uma releitura com total liberdade de um filme italiano cultuado pelos cinéfilos: "De Punhos Cerrados" (1965), primeiro longa de Marco Bellocchio. Conta a história de uma rica família americana que mora isolada numa mansão na Espanha, comandada pelo pai, um homem cego e autoritário.

Jack, o filho mais velho, anuncia que vai deixar a mansão para morar com a namorada, Martha. A partir dessa notícia, a família se coloca em rota de colisão emocional, e um dos irmãos começa a descobrir a verdade por trás da misteriosa morte da mãe.

Karim é o primeiro a admitir que não se trata de um filme para todos os gostos. "Pela primeira vez faço um filme em que o público não vai empatizar com meus personagens logo de cara. Talvez não empatize até o final do filme", brinca. O roteiro é do grego Efthimis Filippou, colaborador do cineasta Yorgos Lanthimos em longas como "O Lagosta" e "Tipos de Gentileza". O novo trabalho ainda não tem previsão de estreia nos cinemas — no streaming será lançado pela Mubi.

O diretor prefere falar em releitura, e não remake, porque o tom de seu filme é diferente do italiano: no lugar de um drama em chave mais trágica, ele construiu uma sátira salpicada de momentos absurdos e humor sinistro.

"Depois do ‘Vida Invisível’, fiquei interessado em fazer uma autópsia de figuras masculinas venenosas. Sem perceber, acabei fazendo uma trilogia de homens perigosos, quase monstros. No caso do ‘Rosebush’, ainda tem a ver com o nosso atual momento do mundo, com esse patriarcado ressentido com o qual estamos convivendo", reflete, sem mencionar diretamente figuras como Trump ou Bolsonaro.

Essas figuras masculinas incluem o rei Henrique 8º (Jude Law), que retorna da guerra paranoico com uma de suas esposas em "O Jogo da Rainha" (2023), primeiro longa de Karim rodado em inglês; e Elias (Fábio Assunção), o ex-miliciano temperamental e abusivo de "Motel Destino" (2024). Os dois filmes foram selecionados para a competição de Cannes.

Os bastidores de 'Motel Destino', pela lente de Karim Aïnouz - galeria

"Rosebush Pruning" parece distante da pandemia, mas nasceu dela. Confinado em sua casa em Berlim, Karim começou a buscar algum projeto que não precisasse escrever do zero e pudesse ser filmado num cenário simples —no filme, a mansão da família. Depois de muito procurar uma boa locação até nas Ilhas Canárias, foi na pequena cidade de Castelltersol, uma região montanhosa a uma hora e meia de Barcelona, que ele e sua equipe encontraram a casa ideal.

O projeto lançou um desafio para a escalação do elenco. Se no Brasil é comum conseguir quatro a cinco semanas de ensaio antes das filmagens, no exterior as agendas apertadas dos atores permitiram apenas duas semanas de preparação.

Duas estrelas internacionais que embarcaram nos planos logo no início tiveram que sair por estarem comprometidas com outros trabalhos: a americana Kristen Stewart (a Bella da franquia "Crepúsculo) e o britânico Josh O’Connor (o jovem príncipe Charles da série "The Crown").

No lugar de Kristen, entrou uma amiga pessoal da atriz, Riley Keough (da série "Daisy Jones & The Six"). O papel de Josh ficou com Callum Turner, da série "Mestres do Ar". No elenco jovem estão ainda Elle Fanning (indicada ao Oscar de atriz coadjuvante por "Valor Sentimental"), Jamie Bell ("Billy Eliott"), Elena Anaya ("A Pele que Habito") e Lukas Gage ("Euphoria" e "The White Lotus").

FOTORosebush Da esq. para a dir., Elle Fanning, Jamie Bell, Callum Turner, Lukas Gage (em pé), Riley Keough e Tracy Letts (sentados) formam o elenco de 'Rosebush Pruning', de Karim Aïnouz - Felix Dickinson/Divulgação

Pamela Anderson ("A Última Showgirl") vive a mãe que nunca é nomeada no filme, enquanto o papel do pai ficou com Tracy Letts, que além de ator é roteirista de "Álbum de Família" e de dois dos últimos longas de William Friedkin para o cinema, "Possuídos" (2006) e "Killer Joe – Matador de Aluguel" (2011).

Karim percebe, nos últimos anos, um maior apetite de atores de língua inglesa em trabalhar com diretores de fora dos EUA e do Reino Unido. "A gente oxigena uma indústria que é muito rígida, por conta de agentes, dinheiro, projeções de lucro e outros fatores", analisa. "Costumo dizer que sou um diretor de teatro frustrado. Trato meu elenco e minha equipe como se fossem uma trupe. Sinto que os atores estrangeiros gostam desse tempo raro da preparação que eu proponho."

Um amor de cidade

Já são 30 anos de estrada no cinema e 12 longas que assina como diretor, fora os curtas e projetos em que colaborou como roteirista, casos de "Abril Despedaçado" (2001), de Walter Salles, e "Cinema, Aspirinas e Urubus" (2005), do amigo Marcelo Gomes.

O que mudou em todo esse tempo? "Acho que me tornei mais tolerante. O primeiro longa como diretor ["Madame Satã"] foi como um grito. Levei oito anos para fazer, tinha muito a provar. Como o meu personagem, eu era habitado por uma espécie de raiva, estava atrás de um certo confronto com o mundo. Eu também era mais ortodoxo, tinha uma rigidez em mim. Hoje, sinto que me tornei mais poroso às muitas possibilidades do cinema."

É um velho clichê, mas a expressão "cidadão do mundo" se aplica a Karim como a poucas pessoas. Ele saiu de Fortaleza aos 17 anos para estudar arquitetura em Brasília. Aos 18 partiu para a França, onde morou em Grenoble e depois Paris —período em que conheceu o pai distante, tema de seu documentário "O Marinheiro das Montanhas" (2021).

Confira cenas de 'Marinheiro das Montanhas', de Karim Aïnouz

Depois de mais um período em Brasília, morou em Nova York por 15 anos, quando trabalhou como assistente de Todd Haynes, o grande diretor de "Carol" (2015) e "Longe do Paraíso" (2002). No meio tempo, houve curtos períodos de residência em Amsterdã, Londres, Rio e São Paulo.

Em 1985, aos 22 anos, uma paixão veio para ficar em sua vida. À época um militante comunista, ele visitou Berlim, interessado em conhecer a cidade em que o capitalismo e o socialismo se defrontavam antes da queda do Muro. Ficou com uma forte memória de Kreuzberg, bairro vibrante e multicultural, povoado por artistas, e de marcada influência turca. "Me parecia o bairro do futuro, um território tão livre, com algo de resistência."

Quase 20 anos depois, ele voltou a Berlim com uma bolsa para desenvolver o roteiro de seu segundo longa, "O Céu de Suely" (2006). Em 2007, ao visitar a cidade por um único dia, começou a chorar em plena rua. Entendeu então que era ali que deveria morar definitivamente. Mudou-se em 2008 e está lá até hoje.

Cor, suor e calor

Foi na capital alemã, em novembro, que viu "O Agente Secreto", filme de Kleber Mendonça Filho indicado a quatro Oscars, como melhor ator para Wagner Moura. Uma década atrás, Karim dirigiu Wagner no drama "Praia do Futuro" (2014), ambientado entre Fortaleza e a Berlim que adotou —foi seu primeiro longa a concorrer no festival alemão.

"Trabalhar com Wagner é uma espécie de sonho. Ele é um ator não só completamente disponível, mas também com uma personalidade muito forte. A mistura dessas duas coisas o torna um ator muito especial. Ele se entrega, mas não se apaga. Tem sempre algo de novo, de vital. Eu acho que a palavra que define Wagner, meu Wagnerzinho, é vital. Ele encarna os personagens de forma muito irrestrita, incondicional. Ele não tem nada a perder e ao mesmo tempo tudo a dizer."

Ouvi-lo falar do filme de Kleber é valioso por sua visão de cineasta do Nordeste, e extrapola os comentários que a crítica internacional publica desde a estreia em Cannes no ano passado.

"É um filme que tem tesão de cinema. Uma explosão de luz, cor e ritmo. Uma comida boa, temperada, com todos os ingredientes que eu gosto. Fala de algo relevante [a ditadura militar], mas isso não está em primeiro plano. A história com H maiúsculo está lá, mas sempre a serviço da história com h minúsculo", analisa. "O cinema tradicional costuma ter uma voltagem de 110 volts; ‘O Agente’ tem 500."

Mais do que tudo, a história do professor perseguido pela ditadura nos anos 70 lhe chamou a atenção por um elemento específico com que ele também lidou em "Motel Destino". "É muito difícil filmar o suor. O cinema não traduz muito bem o calor. Você tem que borrifar os atores o tempo todo. O Kleber conseguiu fazer isso sem ser estetizante, trouxe temperatura ao filme. A gente se sente no calor do Recife. É bem diferente, por exemplo, de quando a gente vê ‘Profissão: Repórter’ do Antonioni, um filme rodado no deserto, mas você não sente o calor ali."

Karim acompanha de longe, com conhecimento de causa, a campanha de "O Agente Secreto" ao Oscar. Quando "A Vida Invisível" foi escolhido pela comissão do Ministério da Cultura para concorrer a uma vaga na categoria de filme internacional em 2020, ele passou mais de três meses em campanha, viajando entre Los Angeles, Nova York e Londres, dando dezenas de entrevistas e participando de debates após sessões para membros da Academia e votantes de outras premiações.

A campanha não deu o resultado esperado, e o filme não entrou na primeira lista de dez obras elegíveis na categoria. "Foi um choque não ficar entre os dez. Nunca entendi exatamente o motivo", lamenta.

Desde 2016, ele é membro votante da Academia na qualidade de roteirista, e por isso costuma receber os roteiros impressos dos longas que buscam uma vaga nessa área. Dos indicados deste ano —tirando, claro, o representante brasileiro—, gostou mais de "Hamnet – A Vida Antes de Hamlet", de Chloé Zhao, do que de "Uma Batalha após a Outra", de Paul Thomas Anderson.

A alma do roteiro

Para além dos méritos visuais de "O Agente Secreto", Karim enxerga em outro elemento o pulo do gato que o cinema brasileiro deu no mundo nos últimos anos, com o reconhecimento nos festivais, no Oscar e em outras premiações.

"O Brasil sempre teve a simpatia mundial por causa da música, da culinária, do modo como organizamos e desorganizamos este país. O que melhorou imensamente foram os roteiros. Nossos filmes tinham questões sérias de compreensão por parte do público. Fomos afiando e aprendendo os instrumentos de contar histórias. É como me disse o Walter Salles uma vez: um filme comercial é antes de tudo um filme que a gente entende", diz. Ambos já trabalharam com o mesmo roteirista Murilo Hauser, responsável pela escrita de "A Vida Invisível" e "Ainda Estou Aqui" (2024), cujo roteiro foi premiado em Veneza.

Karim, que se considera melhor diretor do que roteirista, foi um dos responsáveis diretos por esse salto criativo. Em 2013, ele e os amigos Marcelo Gomes e Sérgio Machado fundaram o Lab Cena 15, laboratório de formação de roteiristas que é parte do projeto Porto Iracema das Artes, financiado pelo governo do Ceará.

A cada chamada, são selecionadas seis duplas, que desenvolvem seus roteiros de longa-metragem num período de sete meses com o acompanhamento de tutores. Em 2022, o laboratório também passou a abrir turmas para séries de ficção. Por ser uma iniciativa estadual, o projeto não foi paralisado durante o governo Bolsonaro, que cortou boa parte da verba da cultura.

Dois filmes selecionados neste ano para o Festival de Berlim, "Feito Pipa" e "Fiz Um Foguete Imaginando que Você Vinha", saíram dali.

É essa mesma busca pela maturação dos projetos que o faz defender a aprovação do PL do streaming, que destina de 3% a 4% do faturamento das plataformas ao audiovisual brasileiro. O projeto foi aprovado pela Câmara no final do ano passado e aguarda votação no Senado.

"Para os streamings é importante ter o produto local. É o nosso produto que chama a atenção do mundo hoje, não é Hollywood, que está em crise. E catálogo de streaming é como culinária: tem que ter diversidade, senão fica pouco apetitoso", compara.

Ensaio sobre a cegueira

O destino reserva ironias insondáveis. Se Karim se tornou cineasta, uma parte importante disso se deve a um problema ocular que descobriu aos 18 anos. É o ceratocone, doença que provoca o afinamento e a distorção da córnea, tendo como um dos sintomas a visão borrada ou distorcida. Um acidente de carro por conta da visão comprometida o alertou ainda mais. Um médico chegou a indicar transplante das córneas, mas o medo o impediu.

Conheça os longas de Karim Aïnouz - galeria

"Por muitos anos, eu achei que ia perder completamente a visão. Por isso comecei a guardar as imagens. No meu inconsciente, eu estava certo de que logo eu não poderia mais ver", relembra. Foi nesse período que ele começou a filmar em Super-8 e a rodar um curta sobre sua avó, num esforço de retê-la na memória.

Sua maior dificuldade, além da visão reduzida, é o foco. No início da carreira, no set de filmagem, percebeu que não podia ser assistente de câmera por não conseguir ajustar o foco das imagens. Felizmente, há anos, o problema é resolvido com lentes de contato especiais. "Quando estou sem lente, é tudo meio leitoso, especialmente de manhã. Os objetos não têm contorno, são puras formas."

Com esse modo especial de ver o mundo, nasceram duas obsessões que aparecem em muitos de seus longas: a busca por cores saturadas, que dão contorno mais nítido às pessoas e aos objetos; e, no extremo oposto, a criação de cenas rodadas propositalmente fora de foco, próximas do seu modo natural de ver as coisas.

Foi na época da descoberta do ceratocone que Karim se aproximou de sua outra paixão, a fotografia. Deixada de lado por muitos anos, o hábito voltou com força ao se mudar para Berlim em 2008.

Em suas fotos, ele mantém uma espécie de diário da sua vida: quartos de hotel em que se hospeda, aeroportos por onde passa, as ruas das cidades que visita, os rostos dos amigos e momentos de intimidade.

Em 2023, ele abriu as muitas caixas de fotos que guarda em seu apartamento e fez uma seleção que integrou uma exposição coletiva em Berlim. Fiel por anos às fotos em cores, tem se encantado pelo preto e branco nos últimos anos.

O lado sexy da vida

Tanto nas fotos quanto nos filmes, um de seus traços como artista é evidente para quem o acompanha: um olhar original e sem pudores sobre a sexualidade. Em todos os seus filmes de ficção, o sexo aparece como elemento chave que define a relação entre os personagens.

Outra paixão são as cenas de dança, em que o corpo se expressa sem palavras. "É engraçado. Não gosto de ir a shows, ficar vendo alguém cantando no palco. Eu gosto mesmo é de boate, de dançar, me esfregar. Quando você cresce num país como o Brasil, em que o espaço público é homofóbico, o único espaço de liberdade e utopia é a boate", define.

Em "A Vida Invisível", a cena em que Eurídice (Carol Duarte) tem sua primeira noite de sexo, desajeitada e frustrante, com o marido (Gregório Duvivier) foi construída a partir das entrevistas que ele fez com mulheres com mais de 80 anos que contaram como foi sua noite de núpcias.

"A gente não deve ter medo da intimidade no cinema. Por que a violência é tão permitida nos filmes, e a vitalidade, não?", reflete. "Por outro lado, às vezes penso que o público não quer mais ver sexo no cinema. E não acho que é porque as pessoas ficaram caretas. Talvez hoje elas só queiram ver o sexo em outro lugar, como a internet."

O cineasta Karim Aïnouz - Tom Maelsa/Divulgação

Desde "O Jogo da Rainha", que ele filmou em 2022, Karim trabalha com uma coordenadora de intimidade no set nas cenas que envolvem nudez e sexo. A presença dessa profissional envolveu uma certa quebra de preconceitos.

"Quando ela chegou, eu estranhei. Pensava: ‘quem é essa pessoa que vai se colocar entre mim e os meus atores?’. Hoje eu adoro. Primeiro, porque é importante que existam testemunhas nessas cenas. Depois, porque as cenas de sexo são como uma coreografia. Não é só "faz aí", entende? A coordenadora é como uma coreógrafa, ajuda a pensar dramaturgicamente a cena."

Hoje, ele entende o set de cinema como um terreno de extremidades emocionais que envolve cuidados. "Estamos pagando um pedágio de erros que os meus colegas homens cometeram nos últimos cem anos."

Karim evita falar de próximos projetos no cinema porque ainda não estão 100% confirmados. Mas revela que tem conversado com Julius Tennon, marido de Viola Davis e produtor de filmes recentes da atriz, como "G20" e "A Mulher Rei".

Ainda não reconhece no espelho o homem que completou 60 anos. "Sinto um descompasso entre esse número e a minha energia. Eu brinco que me sinto um ‘sexygenário’, com energia de 30. A única coisa chata é essa contagem regressiva, porque eu queria fazer mais 20 filmes se pudesse. Sou inimigo do fim."

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26. O assassinato de um pet

Muniz Sodré, 07.2.2026

Desumanidade seria apodo controverso: não se trata de algo desumano, mas do humano confortável na lógica fascista. Guardada a distância literária, morte do cão Orelha é tão impactante quanto a morte da cadela Baleia em 'Vidas Secas'.

A morte barbárica do cão Orelha chocou o país. Guardada a distância literária, é tão impactante quanto a morte ficcional da cadela Baleia em "Vidas Secas". Animal é pensamento. Quer dizer, campo de conhecimento onde cada dia se experimenta a afirmação contrastiva da identidade humana. Talvez por isso a tendência ascendente de cuidar de um "pet" (cachorro, gato), hoje em dia, seja o modo mais simples de confirmar para si mesmo a humanidade que se esvai na vida social regida pelas máquinas.

Manifestantes realizam protesto na avenida Paulista contra a morte do cão Orelha - Alexandre Meneghini - 1º.fev.26/Reuters

É clichê conhecido: o ser humano aprende a amar ao longo de sua existência, o cachorro já nasce como amor em quatro patas. Orelha amava a comunidade, animal comunitário, diz-se, dócil e receptivo a carinho. Mas jovens cavaleiros do apocalipse entregaram-se a agressões ainda pouco claras, que oscilam nos relatos entre empalar, bater pregos na cabeça, tentar afogar e finalizar com pauladas. No mesmo dia, matou-se atrozmente outro cão, Caramelo. Isso acontece regularmente, há sites de adolescentes especializados em atrocidades com animais. "Schadenfreude" é o nome alemão para o prazer de ver sofrer. "Desumanidade" seria um apodo controverso: não se trata do desumano, mas do humano confortável na lógica do fascismo.

Relatos dessa natureza frequentaram as denúncias de torturas durante o regime militar. Jamais causaram algazarra pública, seja por medo, por conveniência ou porque as vítimas eram comprometidas com uma causa política da qual se quisesse distância. Mas a torpe flagelação de um pet provoca choque imediato por dificultar a distinção, no amplo escopo do conceito de animal, entre o humano e a besta. E faz aflorar a evidência de que homem é o único animal capaz de assassinar, matar por matar. Os outros matam por fome ou por território.

Há uma larga dose de ignorância ou de hipocrisia nesse choque moral quando se deixa de perceber "tudo que a natureza faz em nós, sem nós" (H. Amiel em "Diário Íntimo"). Ou tudo que o meio-ambiente faz despercebido. A morte ficcional de Baleia tem a ver com a secura das vidas sertanejas, na escrita de Graciliano. A morte real de Orelha tem a ver com a aridez de um contexto existencial doentio, imunitário à solidariedade de ações afirmativas, por se vangloriarem elites e dirigentes políticos de que seus habitantes de pele branca são numericamente superiores a qualquer outro estado do país. Também sabem, embora não alardeiem, que é o estado com maior número de células neonazistas.

Veja imagens do cão Orelha - fotos

Para inglês ver, governador e autoridades vociferaram toda a indignação desse mundo, cuidando ao mesmo tempo de proteger as identidades dos perpetradores, filhos de famílias abastadas. Insinuou-se timidamente falha educacional. Mas o catecismo da santimônia não consegue ocultar que todos compartilham a perversa pedagogia pública de ódio (racial e outros) institucionalizado. Não são apenas "menores" que, não conseguindo amar a inocência de um cão, dificilmente amarão a complexidade de um ser humano próximo, mas também seus "maiores", que odeiam a visão de qualquer diversidade no espelho. Toda essa gente matou Orelha.

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27. Microsoft perde US$ 360 bilhões em valor de mercado com temor sobre gastos com IA 

Alta de 66% nos custos de data centers assusta investidores e derruba ações da empresa. Mercado passa a diferenciar vencedores e perdedores na corrida bilionária pela tecnologia.

 Financial Times, fsp, 29.01.2026

A Microsoft perdeu US$ 360 bilhões em valor de mercado após divulgar um forte aumento nos gastos com data centers, reacendendo temores em Wall Street sobre o volume de investimentos do Vale do Silício em infraestrutura de inteligência artificial.

As ações da empresa caíram 10% nesta quinta-feira (29), o pior desempenho diário desde o auge da pandemia de coronavírus, em 2020, reduzindo o valor de mercado da Microsoft para US$ 3,2 trilhões.

A queda ocorreu após a companhia informar um aumento de 66% nos gastos com data centers em relação ao ano anterior, elevando seu investimento em capital (capex) para US$ 37,5 bilhões nos três meses encerrados em dezembro. A Microsoft também divulgou crescimento da área de computação em nuvem abaixo do esperado, embora o lucro líquido ajustado e a receita tenham superado as previsões dos analistas.

A venda das ações mostra como investidores seguem apreensivos com os gastos elevados das big techs para fornecer o poder computacional necessário ao treinamento e à operação de grandes modelos de IA.

Embora Wall Street esteja entusiasmada com o potencial da inteligência artificial para transformar diversos setores, ainda não está claro quanto tempo levará para que esses custos tragam retorno. "O volume de gastos é tão alto que há um foco quase cirúrgico em como isso será monetizado", afirmou Venu Krishna, chefe de estratégia de ações nos EUA do Barclays.

O movimento negativo se espalhou pelo mercado nesta quinta, acompanhando a queda das ações da Microsoft. O Nasdaq Composite, com forte peso de empresas de tecnologia, chegou a recuar 2,6% pela manhã, antes de reduzir as perdas para 1,3% no início da tarde. O S&P 500, mais amplo, caía 0,6%.

Investidores também demonstraram preocupação com a dependência excessiva da Microsoft em relação à OpenAI. Os resultados divulgados nesta quarta-feira (28) mostraram que 45% dos contratos futuros de nuvem da empresa, avaliado em US$ 625 bilhões, vêm da dona do ChatGPT. "O mercado está atento ao grau de exposição da Microsoft à OpenAI", disse Manish Kabra, chefe de estratégia de ações nos EUA do Société Générale.

O Financial Times informou nesta quarta que a OpenAI está em negociações para levantar cerca de US$ 40 bilhões em uma nova rodada de financiamento, com participação de Nvidia, Microsoft e Amazon —três de seus maiores provedores de infraestrutura.

A notícia reacendeu receios sobre financiamento circular no setor de IA. A Oracle, que firmou um acordo de US$ 300 bilhões em data centers com a OpenAI, caiu 4,5% nesta quinta-feira, enquanto a Nvidia recuou 0,8%.

A Meta seguiu na direção oposta e avançou 10,2% após divulgar resultados acima das expectativas, evidenciando uma crescente diferenciação entre as grandes empresas de tecnologia. "As correlações entre as ações das big techs atingiram mínimas históricas", disse Krishna, do Barclays.

"Entramos em uma nova fase da narrativa da IA", acrescentou. "O mercado deixou a ideia de que todos se beneficiariam igualmente e passou a distinguir vencedores e perdedores, tentando avaliar qual modelo de negócios tem mais vantagem."

Os preços do petróleo subiram nesta quinta, com investidores reagindo ao aumento das ameaças do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Irã.

Os metais preciosos, que haviam subido fortemente pela manhã, inverteram o movimento após a abertura de Nova York. Alguns analistas sugerem que investidores podem estar vendendo esses ativos para cobrir chamadas de margem relacionadas a ações de tecnologia.

O sentimento negativo também foi reforçado por dados que esfriaram as expectativas de forte crescimento da economia americana no quarto trimestre de 2025.

A projeção do Federal Reserve de Atlanta para o crescimento no período, medida pelo indicador GDPNow, caiu de uma taxa anualizada de 5,4% para 4,2% após um relatório comercial mostrar aumento das importações e queda das exportações em novembro, elevando o déficit para US$ 57 bilhões depois de meses de retração.

O governo Trump vinha apontando o crescimento acelerado da economia no segundo semestre de 2025 como prova do sucesso de sua política fiscal. Dados divulgados neste mês indicaram expansão de 4,4% no terceiro trimestre de 2025, levando o presidente dos EUA, Donald Trump, a descrever o país como "o mais quente do mundo".

Quanta energia se gasta para uma pergunta para a IA? - webstories

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28. Ombra mai fu - Handel 

Ombra mai fu (aria) - SERSES (Handel) - Mairin Srygley, mezzo-soprano - March 2013

Ombra Mai Fu Cécilia Bartoli 

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29. Polícia mata 3 por dia de outubro a dezembro, no trimestre mais letal da história de SP 

No 4º trimestre de 2025, número de mortes provocadas por agentes foi o maior de toda a série iniciada em 1996. Ouvidor das Polícias pede mais transparência na corporação e investimento em armas não letais para a tropa.

Tulio Kruse, fsp, 30.01.2026

Policiais civis e militares de São Paulo deixaram um total de 834 mortos ao longo de 2025, mostram dados publicados pelo governo estadual nesta sexta-feira (30). Trata-se do terceiro aumento consecutivo da letalidade policial, uma tendência que se inverteu a partir do primeiro ano de mandato de Tarcísio de Freitas (Republicanos) como governador.

A quantidade de mortes no último trimestre do ano passado foi a maior registrada em 25 anos. Policiais militares em serviço mataram 242 pessoas de outubro a dezembro, algo inédito para qualquer trimestre desde 1996.

Isso se refletiu na letalidade total, que considera também os casos com policiais civis e nos quais agentes de segurança estavam de folga. Nesse caso, foram 276 mortos no trimestre —a maior quantidade desde 2015, quando o estado passou a computar as mortes provocadas por policiais de folga com a mesma metodologia utilizada hoje. O número é equivalente a três vítimas por dia.

Com isso, o estado chega ao maior índice de mortes provocadas pela polícia desde 2019. Naquele ano, o primeiro da gestão João Doria (ex-PSDB) no Palácio dos Bandeirantes, policiais provocaram 867 mortes. Os números consideram casos em que os agentes de segurança estavam tanto em serviço como de folga.

Questionada, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) informou que, somando-se os três anos de gestão Tarcísio, o número de mortos está abaixo do que foi registrado no governo anterior. "Houve redução de aproximadamente 5% nos números de mortes decorrentes de confrontos com policiais, nos três primeiros anos desta gestão, em comparação aos primeiros anos da gestão anterior", diz nota oficial enviada pela pasta.

O aumento na letalidade no ano passado ocorreu mesmo sem uma megaoperação nos moldes da Escudo e da Verão, em 2023 e 2024, que juntas deixaram um saldo oficial de 84 mortos na Baixada Santista. Nos dois casos tropas especializadas da PM enviadas ao litoral em resposta a mortes de soldados da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, tropa de elite conhecida pelas ocorrências com mortos).

Mesmo assim, o ano foi marcado por casos de grande repercussão em que policiais atiraram contra pessoas desarmadas e que não ofereciam risco. Câmeras corporais gravaram as mortes de um morador de rua em junho, de um suspeito que estava com as mãos na cabeça em Paraisópolis, em julho, e de um assaltante rendido numa casa em Moema, em dezembro.

A letalidade policial em 2025 é a maior desde a expansão do programa Olho Vivo, que implementou as câmeras corporais na Polícia Militar. O programa teve várias fases preliminares de estudos e testas a partir de 2014, mas a implantação em massa dos equipamentos começou em 2020, com a compra de 3.000 câmeras.

Naquele ano houve queda de 6% nas mortes provocadas por ações policiais, sendo que as câmeras ainda eram usadas por poucas unidades da polícia. Entre 2019 e 2022, se considerados apenas os batalhões da PM que haviam implementado o sistema, a queda chegou a 87%.

O investimento no programa de câmeras corporais ocorreu em conjunto com outras políticas que visavam ao controle da força policial, como a criação de Comissões de Mitigação de Riscos —grupos formados por oficiais da PM que analisavam os detalhes de cada ocorrência com morte no estado.

As mortes de policiais em serviço também aumentaram durante a gestão Tarcísio. No ano passado, um total de 16 policiais (dos quais 13 eram PMs) foram assassinados durante seus turnos de trabalho —em 2024, as polícias estaduais sofreram 14 baixas.

O menor patamar de mortes de agentes de segurança em serviço ocorreu em 2022, com sete casos. Em 2021, durante a expansão do programa Olho Vivo, foram oito mortes em serviço. Estudos da FGV e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública já apontaram correlações entre o uso das câmeras corporais e diminuições nos ataques contra policiais.

Em 2025, policiais militares em serviço mataram 700 pessoas no estado, o que corresponde a 84% das mortes registradas.

O ouvidor das polícia de São Paulo, Mauro Caseri, classificou o aumento da letalidade como "assustador" e afirmou deveria haver mais transparência sobre as circunstâncias das ocorrências policiais que envolvem mortes, principalmente a proporção de casos em que há uso da câmera corporal.

Ele diz que o número de equipamentos em uso divulgado pelo governo é irreal. Hoje há 15 mil câmeras corporais contratadas pela PM. "Dessas 15 mil câmeras corporais, na verdade, somente 7,5 mil câmeras são utilizadas por turno. Porque as outras 7,5 mil ficam na case recarregando", ele afirma.

Com um efetivo de 60 mil PMs diariamente nas ruas, em média, considerando a parte da tropa que fica de folga, há câmeras suficientes para cerca de 12,5% dos policiais, nas contas do ouvidor. Ele diz que o ideal seria uma cobertura de dois terços da tropa com o equipamento. Além disso, defende investimento em armas não letais, como pistolas de eletrochoque em baixa corrente (ou tasers).

"Letalidade não é sinônimo de eficiência. Uma polícia eficiente faz o combate à criminalidade, faz a prisão daquele que merece, leva para a delegacia, cria o boletim de ocorrência, instrui o processo, o juiz julga e o criminoso cumpre a pena", diz Caseri.

Para o pesquisador Leonardo Silva, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, declarações contrárias às câmeras corporais do governador no início do mandato podem ter passado à tropa a mensagem de que excessos em ocorrências policiais seriam tolerados.

"Vários discursos do governador e do secretário [Guilherme Derrite] batiam de frente com as políticas de mitigação do uso da força. Os policiais entenderam que houve uma mudança de postura institucional, e agiram em cima disso", diz Silva, que também chama atenção para a responsabilidade de outros órgãos no controle da violência policial, como o Ministério Público e o sistema de Justiça.

"Esse aumento da letalidade indica não só uma necessidade de repactuação das ações do Executivo, mas que alguma coisa precisa ser feita no campo do controle externo da atividade policial", conclui.

A SSP afirmou, em nota, que todas as ocorrências com mortes decorrentes de intervenção policial "são rigorosamente investigadas pelas Polícias Civil e Militar, com acompanhamento das respectivas corregedorias, do Ministério Público e do Poder Judiciário". Informou, ainda que "desde 2023, mais de 1,2 mil agentes foram presos, demitidos ou expulsos das corporações por desvios de conduta, evidenciando o fortalecimento dos mecanismos de controle, fiscalização e responsabilização".

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30. Cotas merecem defesa, não blindagem.

Pablo Ortellado, O Globo, 30.01.2026 

O debate não se esgotou com o consenso no final dos anos 2000, nem deve ser interditado por desqualificações morais

Nos últimos dez anos, muitos livros tentaram explicar a onda populista. “O povo contra a democracia”, de Yascha Mounk (Companhia das Letras), foi um dos primeiros e continua entre os mais importantes. O diagnóstico que apresenta nos ajuda a entender o debate político em torno da lei catarinense que proibiu as cotas raciais no estado.

Mounk argumenta que vivemos hoje tensão e crescente separação dos dois componentes que constituem a democracia liberal. De um lado, populistas defendendo uma “democracia sem direitos”, criticando cortes constitucionais e o sistema de freios e contrapesos como limitação a uma vontade popular não mediada. De outro, um “liberalismo sem democracia”, em que bancos centrais, agências reguladoras, cortes constitucionais e organismos internacionais — enfim, tecnocratas não eleitos — tomam decisões cada vez mais importantes descoladas do controle popular, criando um sistema que respeita procedimentos e direitos, mas esvazia a capacidade do povo de influenciar as políticas públicas. A sobrevivência da democracia liberal, para Mounk, exige não apenas resistir ao populismo, mas também reformar o liberalismo antidemocrático, reconectando as instituições à vontade popular.

Vemos a tensão apontada por Mounk na aprovação da lei que proíbe cotas raciais no estado de Santa Catarina e na reação a elas por meio de uma série de Ações Diretas de Inconstitucionalidade, protocoladas por PT, PSOL, UNE, Educafro, Coalizão Negra por Direitos e OAB no Supremo.

As ações buscam, por diferentes estratégias jurídicas, blindar as cotas raciais, proibidas por lei aprovada na Assembleia Legislativa de Santa Catarina por ampla maioria (40 votos a 7). Primeiro, invocam precedentes do Supremo que declararam as cotas constitucionais como jurisprudência vinculante, sugerindo que o tema está encerrado e não caberia mais discussão legislativa. Também acionam o princípio do não retrocesso social, segundo o qual políticas sociais, uma vez implementadas, não podem ser revertidas. Argumentam que a Convenção Interamericana contra o Racismo possui status de Emenda Constitucional, o que impede a revogação das cotas raciais. Por fim, invocam uma interpretação sistemática da Constituição segundo a qual ela consagrou um programa permanente de combate às desigualdades raciais, tornando as cotas não apenas permitidas, mas constitucionalmente exigidas.

Todas essas estratégias convergem para o mesmo objetivo: retirar as cotas da arena de deliberação e torná-las imunes à contestação legislativa, transformando uma questão de política pública em direito constitucional intocável.

Essa estratégia pode garantir a permanência das cotas, mas contribui para enfraquecer a legitimidade democrática de nosso sistema de direitos — justamente quando está sob ataque populista. A melhor maneira de defender a política de cotas raciais não é retirá-la da alçada legislativa, mas ampliar sua base de apoio. Hoje as cotas sociais (reservas de vagas para estudantes das escolas públicas) têm grande apoio (83% segundo o Datafolha), mas as cotas raciais têm apenas apoio de 42% (56% se opõem a ela).

É verdade que as cotas raciais forjaram um consenso amplo entre especialistas, comunidade universitária e juristas, mas o contraste entre o nível de apoio ilustrado e o nível de apoio popular é um problema democrático a enfrentar. O debate não se esgotou com o consenso no final dos anos 2000, nem deve ser interditado por desqualificações morais que tomam toda dúvida e todo questionamento como racismo.

Defender as cotas exige mais que autoridade técnica e indignação moral. Para defender as cotas, precisamos responder às críticas de que são injustas, de que brancos pobres são prejudicados, de que as bancas de heteroindentificação excluem os pardos e de que o sistema mina o princípio meritocrático que rege a universidade. Precisamos também mostrar como o ambiente universitário se tornou mais diverso, como a excelência acadêmica não foi comprometida e como faz bem à sociedade brasileira ter mais negras e negros em posições de comando.

Cotas raciais precisam ser defendidas com convicção democrática — não blindadas contra deliberação legislativa.

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31. Tardígrado é o único candidato a sobreviver a impacto de asteroide ou guerra nuclear 

Microanimais, ursos-d'água demonstraram resiliência que desafia toda a lógica biológica. Eles podem ficar sem comida ou água por períodos extremamente longos.

DW, 31.01.2026

A vida na Terra se caracteriza não tanto por sua fragilidade, mas por sua capacidade de persistir. Ao longo de bilhões de anos, ela sobreviveu a eventos aparentemente definitivos –de erupções vulcânicas em grande escala a impactos de asteroides e extinções em massa– e, ainda assim, conseguiu continuar. Os registros mais antigos datam sua origem há pelo menos 3,7 bilhões de anos, um período durante o qual sobreviveu a crises que dizimaram mais de três quartos de todas as espécies existentes.

A maior dessas crises ocorreu há cerca de 250 milhões de anos, durante a extinção do Permiano, quando aproximadamente 90% das espécies desapareceram. Contudo, após apenas alguns milhões de anos, a vida se reorganizou e continuou. Essa resiliência surpreendente levou muitos cientistas a uma conclusão incômoda para nossa espécie: mesmo que os humanos desapareçam, a vida provavelmente não desaparecerá. Isso levanta a questão: qual criatura seria a última a sobreviver?

Enquanto a humanidade enfrenta ameaças que vão desde as mudanças climáticas a um potencial conflito nuclear, existe um pequeno animal que provavelmente sobreviverá. Não são baratas nem escorpiões. Trata-se de um organismo humilde, com oito patas, que se destaca dos demais quando se trata de extrema resiliência: o tardígrado

Também conhecidos como ursos-d'água, tardígrados mal chegam a 1,2 milímetro de comprimento - Rukanoga/Adobe Stock. Tardígrado ampliado em imagem de microscópio eletrônico, mostrando corpo segmentado e oito patas com garras. Fundo escuro destaca detalhes da superfície do corpo.

Resiliência que desafia a lógica

Esses microanimais, também conhecidos como ursos-d'água, mal chegam a 1,2 milímetro de comprimento, mas demonstraram uma resiliência que desafia toda a lógica biológica. Conforme relatado pela publicação especializada IFL Science, eles podem sobreviver sem comida ou água por períodos extremamente longos –até 30 anos em condições experimentais–, suportar temperaturas extremas –de condições criogênicas próximas do zero absoluto até cerca de 150 °C em laboratório– e resistir a pressões esmagadoras e doses letais de radiação, e até mesmo permanecer expostos ao vácuo do espaço sem se abalarem.

O segredo dessa sobrevivência extrema reside em um processo conhecido como criptobiose. De acordo com a publicação científica, quando as condições se tornam hostis, os tardígrados expelem mais de 95% da água de seus corpos e se contraem em uma espécie de cápsula desidratada. Nesse estado de animação suspensa, eles podem permanecer por décadas, até que o ambiente se torne favorável novamente.

Ameaças cósmicas

Mas, além de seus aparentes superpoderes biológicos, o que é realmente interessante é o que eles representam: a prova tangível de que a vida, uma vez estabelecida, pode ser extraordinariamente difícil de erradicar. Um estudo de 2017 realizado por físicos das universidades de Oxford e Harvard, divulgado por veículos como IFL Science e Vice, analisou três dos piores cenários astrofísicos imagináveis: impactos de asteroides gigantes, explosões de supernovas próximas e explosões de raios gama. Todos esses eventos seriam devastadores para a humanidade e para a maioria das espécies do planeta. Os tardígrados, no entanto, provavelmente sobreviveriam.

Para que um impacto de asteroide os exterminasse, explicam os pesquisadores, o evento teria que ser capaz de alterar drasticamente o equilíbrio térmico do planeta, elevando as temperaturas globais a níveis incompatíveis com a existência de oceanos líquidos. Dos corpos conhecidos no sistema solar, apenas uma dúzia de asteroides e planetas anões atingem esse limite de massa –incluindo Plutão–, e não é esperado que nenhum deles intercepte a órbita da Terra.


No caso de uma supernova, a explosão teria que ocorrer a menos de 0,14 ano-luz de distância para evaporar os oceanos do planeta. O problema é óbvio: a estrela mais próxima do Sol está a mais de quatro anos-luz de distância.

Algo semelhante acontece com as explosões de raios gama, os eventos mais energéticos do Universo. Para causar um aquecimento global capaz de ferver os mares, elas teriam que se originar a menos de 40 anos-luz da Terra, uma possibilidade considerada mínima antes que o próprio Sol chegue ao fim de sua vida.

Nesse sentido, os pesquisadores concluem que, a menos que ocorra um evento capaz de literalmente ferver todos os oceanos do planeta, os tardígrados ainda estarão aqui, indiferentes ao nosso fim.

"Os tardígrados são os seres mais próximos da indestrutibilidade que existem na Terra", afirma o físico brasileiro Rafael Alves Batista, em um texto divulgado pela Universidade de Oxford , no Reino Unido. "Sem nossa tecnologia para nos proteger, os seres humanos são uma espécie extremamente sensível. Mudanças sutis em nosso ambiente podem nos afetar drasticamente."

Tardígrado do gênero Echiniscus, fotografado por microscopia eletrônica de varredura - André Garraffoni

Guerra nuclear

Paradoxalmente, além dos cenários extremos delineados pelos cientistas, uma das ameaças mais imediatas à vida complexa pode não vir do espaço, mas de nós mesmos. As armas nucleares representam um risco real e iminente, cujos efeitos se estenderiam muito além da destruição imediata da Terra.

Um estudo publicado na AGU Advances e citado em maio de 2023 pela Universidade do Colorado em Boulder, nos EUA, modelou vários cenários de guerra nuclear e concluiu que a fuligem gerada pelas explosões bloquearia a luz solar por aproximadamente uma década, causando um resfriamento global abrupto.

Em um conflito em larga escala entre os Estados Unidos e a Rússia, por exemplo, as temperaturas médias globais poderiam cair cerca de 10 °C nos três anos seguintes.

Os oceanos, que cobrem mais de 70% do planeta, esfriariam rapidamente e desenvolveriam extensas camadas de gelo marinho. A fotossíntese do fitoplâncton –a base da cadeia alimentar marinha seria severamente afetada, desencadeando uma grave reação em cadeia nos ecossistemas oceânicos.

"Se as algas desaparecerem, tudo o mais desaparece também", afirmou Nicole Lovenduski, coautora do estudo, em um comunicado da Universidade do Colorado em Boulder.

Mesmo conflitos nucleares regionais mais limitados produziriam efeitos globais duradouros, de acordo com as simulações. E, diferentemente dos tardígrados, os humanos dependem de sistemas agrícolas, cadeias de suprimentos e condições climáticas extremamente sensíveis.

Mesmo assim, nem a guerra nuclear nem os asteroides marcarão o fim definitivo da vida na Terra. Esse destino está reservado para o Sol.

Daqui a cerca de 5 bilhões de anos, quando o Sol esgotar seu hidrogênio e se transformar em uma gigante vermelha, ele se expandirá a ponto de engolfar Mercúrio e Vênus e, provavelmente, a Terra também. Muito antes de o Sol atingir esse estágio final, o aumento progressivo de sua luminosidade transformará irreversivelmente o ambiente da Terra.

A intensificação da radiação alterará a estabilidade climática do planeta, causará a perda gradual de sua atmosfera e, eventualmente, eliminará a água superficial que torna a vida possível hoje. O resultado será uma Terra transformada em um mundo seco e inóspito, incapaz de sustentar até mesmo os organismos mais resistentes.

Esse será o ponto final até mesmo para os tardígrados, pelo menos em escala planetária. Algumas bactérias extremófilas podem sobreviver por um tempo, mas a vida como a conhecemos chegará ao fim.

Até lá, a lição é clara: a Terra não precisa dos humanos para sobreviver. Nós, por outro lado, precisamos de um planeta estável para sobreviver. E nesse delicado equilíbrio, os tardígrados têm uma vantagem de milhões de anos.

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32. Indicados ao Grammy 2026: veja lista das principais categorias

Splash, em São Paulo, 01/02/2026

(...)

NB: links ocultos

Melhor Performance de Jazz

Noble Rise - Lakecia Benjamin Featuring Immanuel Wilkins & Mark Whitfield 

Windows - Live - Chick Corea, Christian McBride & Brian Blade 

Peace Of Mind / Dreams Come True - Samara Joy 

Four - Michael Mayo 

All Stars Lead To You - Live - Nicole Zuraitis, Dan Pugach, Tom Scott, Idan Morim, Keyon Harrold & Rachel Eckroth 


Melhor Álbum de Jazz Vocal

Elemental - Dee Dee Bridgewater & Bill Charlap 

We Insist 2025! - Terri Lyne Carrington & Christie Dashiell 

Portrait - Samara Joy 

Fly - Michael Mayo 

Live at Vic's Las Vegas - Nicole Zuraitis, Dan Pugach, Tom Scott, Idan Morim, Keyon Harrold & Rachel Eckroth 


Melhor Álbum de Jazz Instrumental

Trilogy 3 (Live) - Chick Corea, Christian McBride & Brian Blade 

Southern Nights - Sullivan Fortner Featuring Peter Washington & Marcus Gilmore 

Belonging - Branford Marsalis Quartet 

Spirit Fall - John Patitucci Featuring Chris Potter & Brian Blade 

Fasten Up - Yellowjackets 


Melhor Álbum para Grande Conjunto de Jazz

Orchestrator Emulator - The 8-Bit Big Band 

Without Further Ado, Vol 1 - Christian McBride Big Band 

Lumen - Danilo Pérez & Bohuslän Big Band 

Basie Rocks! - Deborah Silver & The Count Basie Orchestra 

Lights on a Satellite - Sun Ra Arkestra 

Some Days Are Better: The Lost Scores - Kenny Wheeler Legacy Featuring The Royal Academy of Music Jazz Orchestra & Frost Jazz Orchestra 


Melhor Álbum de Jazz Latino

La Fleur de Cayenne - Paquito D'Rivera & Madrid-New York Connection Band 

The Original Influencers: Dizzy, Chano & Chico Arturo O'Farrill & The Afro Latin Jazz Orchestra - Featuring Pedrito Martinez, Daymé Arocena, Jon Faddis, Donald Harrison & Melvis Santa 

Mundoagua - Celebrating Carla Bley - Arturo O'Farrill & The Afro Latin Jazz Orchestra 

A Tribute to Benny Moré and Nat King Cole - Gonzalo Rubalcaba, Yainer Horta & Joey Calveiro

Vanguardia Subterránea: Live at The Village Vanguard - Miguel Zenón Quartet 

Melhor Álbum de Jazz Alternativo

honey from a winter stone - Ambrose Akinmusire 

Keys To The City Volume One - Robert Glasper 

Ride into the Sun - Brad Mehldau 

LIVE-ACTION - Nate Smith 

Blues Blood - Immanuel Wilkins 


Melhor Álbum Instrumental Contemporâneo

Brightside - ARKAI 

Ones & Twos - Gerald Clayton 

BEATrio - Béla Fleck, Edmar Castañeda, Antonio Sánchez 

Just Us - Bob James & Dave Koz 

Shayan - Charu Suri 


Melhor Álbum de Blues Tradicional

Ain't Done With The Blues - Buddy Guy 

Room On The Porch - Taj Mahal & Keb' Mo' 

One Hour Mama: The Blues Of Victoria Spivey - Maria Muldaur 

Look Out Highway - Charlie Musselwhite 

Young Fashioned Ways - Kenny Wayne Shepherd & Bobby Rush 


Melhor Álbum de Blues Contemporâneo

Breakthrough - Joe Bonamassa 

Paper Doll - Samantha Fish 

A Tribute To LJK - Eric Gales 

Preacher Kids - Robert Randolph 

Family - Southern Avenue 


Melhor Álbum de Reggae

Treasure Self Love - Lila Iké 

Heart & Soul - Vybz Kartel 

BLXXD & FYAH - Keznamdi 

From Within - Mortimer 

No Place Like Home - Jesse Royal 


Melhor Performance de Orquestra

Messiaen: Turangalîla-Symphonie - Boston Symphony Orchestra 

Ravel: Boléro, M. 81 - Simón Bolívar Symphony Orchestra Of Venezuela 

Still & Bonds - The Philadelphia Orchestra 

Stravinsky: Symphony In Three Movements - San Francisco Symphony 


Melhor Gravação de Ópera

Heggie: Intelligence 

Huang Ruo: An American Soldier 

Kouyoumdjian: Adoration 

O'Halloran: Trade & Mary Motorhead 

Tesori: Grounded 


Melhor Performance de Coral

Advena - Liturgies For A Broken World - Simon Barrad, Emily Yocum Black & Michael Hawes; Conspirare 

Childs: In The Arms Of The Beloved - Billy Childs, Dan Chmielinski, Christian Euman, Larry Koonse, Lyris Quartet, Anne Akiko Meyers, Carol Robbins & Luciana Souza; Los Angeles Master Chorale 

Lang: Poor Hymnal - (Steven Bradshaw, Michael Hawes, Lauren Kelly, Rebecca Siler & Elisa Sutherland; The Crossing 

Ortiz: Yanga - Los Angeles Philharmonic; Los Angeles Master Chorale 

Requiem Of Light - Brian Giebler & Sangeeta Kaur; The Clarion Choir 


Melhor Álbum Clássico Solo

Alike - My Mother's Dream - National Symphonia Orchestra 

Black Pierrot 

In This Short Life 

Kurtág: Kafka Fragments 

Schubert Beatles - Rupert Boyd, Julia Bullock, Alex Levine, Andrew Owens, Rubén Rengel & Sam Weber 

Telemann: Ino - Opera Arias For Soprano - Boston Early Music Festival Orchestra 

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33. Bruce Springsteen - Streets Of Minneapolis (Official Lyric Video) 

Springsteen & Tom Morello, 30/01/26, protest concert at First Avenue, Minneapolis 

ICE, F**K You - A Protest Song for Minneapolis 

IRA CONTRA ICE SE ESPALHA NOS EUA | PLANTÃO 

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34. O cinema em 2025

Alguns motivos de preocupação, alguns filmes notáveis

Eduardo Escorel, 17 dez 2025

O ano de 2025 começou bem, com a estreia, em 2 de janeiro, de Encontro com o ditador, dirigido pelo cambojano Rithy Panh, e vai chegando ao fim com uma expectativa crescente de mais prêmios para O Agente Secreto a serem atribuídos nos primeiros meses de 2026. O sucesso do filme de Kleber Mendonça Filho, que teve uma acolhida exitosa em festivais, uma recepção favorável de boa parte da crítica e foi visto, no Brasil, por mais de 1 milhão de espectadores, escapa por completo à minha compreensão, salvo no que se refere ao desempenho meritório de Wagner Moura.

À medida que se aproxima a temporada de premiações nos Estados Unidos, com o Globo de Ouro em janeiro e o Oscar em março, ficamos sabendo, para nosso espanto, que “todo mundo odeia a Netflix”, conforme escreveu Sharon Waxman em artigo publicado no New York Times, em 7 de dezembro, reproduzido há dias nos jornais Folha de S.Paulo e O Globo:

Produtores odeiam a Netflix porque não conseguem participação nos lucros. Atores de primeira linha e seus agentes odeiam o teto imposto a salários. Os estúdios odeiam a Netflix por ter atraído seus talentos e inflacionado salários de executivos. Os exibidores odeiam a Netflix porque o streaming enfraquece o cinema ao convencer o público de que é melhor ficar no sofá.

Tamanho ódio sugere a possibilidade de estarmos testemunhando o redesenho, em escala mundial, das relações de poder tradicionais entre os três setores básicos da atividade cinematográfica – produção, distribuição e exibição.

Enquanto isso, a crônica anunciada de um fracasso comercial se repete no mercado interno a cada novo lançamento de filme brasileiro no circuito de cinemas, e o projeto de regulamentação do streaming, aprovado na Câmara dos Deputados em novembro de 2025 e previsto para ser votado em breve no Senado, parece condenado a um desfecho frustrante. O valor do tributo que financia em parte a produção audiovisual, a ser definido pelo projeto, divide o setor. De um lado, grandes produtoras; do outro, pequenas e médias empresas, além de cerca de 2 mil profissionais da atividade. O senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), líder do governo no Congresso, veio a público numa tentativa de explicar a provável aprovação do projeto pelo Senado em termos notoriamente insatisfatórios:

Eu acho importante esclarecer à classe artística que, em 2022, nós ganhamos a eleição para o governo, para a Presidência da República e perdemos para o Congresso. Nós temos um Congresso desfavorável. Eu espero, imagino que as pessoas estejam assistindo à televisão, estejam vendo o que está acontecendo […] É esse Congresso que temos. É esse Congresso que vivemos. Vota Marco Temporal. Vota outras coisas aqui. Então, aqui a gente tenta minimizar danos […] Nós tentamos o melhor texto, mas não conseguimos. Tem lobby. Tem lobby de plataforma nesse Brasil e nesse mundo… desculpa a revolta, mas em que mundo a pessoa está? Tem lobbies aqui. A gente conseguiu, foi o melhor possível do texto. Não é, infelizmente, nem tudo é exatamente do jeito que a gente quer porque é esse Congresso que temos com enormes limitações […] A maior bancada aqui é do PL, do partido do Bolsonaro. Será que o pessoal não entende isso? […] Não é o que a gente quer. É o que a gente pode, é o que a gente tenta fazer.

A atividade do governo no Senado está reduzida a “minimizar danos”, admite Rodrigues – situação nada menos do que deplorável e alarmante.

Na coluna de 8 de janeiro deste ano, ao comentar Encontro com o ditador, ressaltei

um elo imprevisto do filme com o Brasil, guardadas as devidas diferenças e proporções – afinal, torturadores e assassinos a serviço da ditadura civil-militar de 1964 não permaneceram impunes? E quem arrisca prever o desfecho das investigações sobre a tentativa de golpe em dezembro de 2022 e janeiro de 2023, na qual estava previsto assassinar um ministro do Supremo Tribunal Federal, o vice-presidente e o presidente da República? Haverá um julgamento? Mesmo sem invocar o processo colonial feito às custas das nações indígenas e da mão de obra escrava, não nos faltam violências cometidas e encobertas no decorrer da história. 

De lá para cá, por um lado, permaneceram impunes torturadores e assassinos a serviço da ditadura civil-militar de 1964, protegidos pela chamada Lei da Anistia de 1979. Mas, por outro lado, os responsáveis pela tentativa de golpe mais recente foram julgados, restando por definir, no entanto, qual será o resultado da manobra em curso, feita no Congresso, para anistiar ou atenuar as penas dos condenados – outra iniciativa por si só frustrante para o país.

Entre os principais destaques do ano, não há como deixar de enaltecer Manas, lançado no circuito de cinemas em 15 de maio. Premiado em festivais no Brasil e no exterior, o filme de Marianna Brennand, ao estrear na Giornate Degli Autori, mostra paralela do Festival de Veneza, teve reconhecida a excelência de sua “confecção magistral”, das “atuações brilhantes” e da abordagem do “tema extremamente sensível e complexo do abuso”. Mesmo assim, ou por isso mesmo, o mercado exibidor brasileiro foi incapaz de acolher e proporcionar oportunidade suficiente para que Manas fosse visto por um público expressivo. Na quarta semana em cartaz, havia sido visto por cerca de 14 mil espectadores, apenas. Outro sinal do impasse que tolhe a possibilidade da produção cinematográfica vir a se tornar menos dependente do Estado, sem o que se perpetuam, a cada nova providência legal ou administrativa, soluções meramente de compromisso.

Não farei aqui uma lista de melhores do ano. Faz sentido comparar filmes? De qualquer modo, caso fizesse uma relação incluiria, além de Manas, mais dois títulos: Iracema – Uma transa amazônica, de Jorge Bodanzky e Orlando Senna, e O último azul, de Gabriel Mascaro. Em versão restaurada, Iracema foi relançado no circuito de cinemas, em 24 de julho, pela primeira vez desde seu lançamento em 1981. O último azul, por sua vez, estreou em 28 de agosto, credenciado pelo troféu Urso de Prata recebido, em fevereiro, ao ganhar o Grande Prêmio do Júri no 75º Festival de Berlim.

Entre outros, mais quatro também foram dignos de nota: A garota da agulha, de Magnus von Horn, lançado no Mubi, em janeiro; Escrevendo Hawa, de Najiba e Rasul Noori, exibido em abril no 30º Festival É Tudo Verdade; Levado pelas marés, de Jia Zhang-Ke, lançado no circuito de cinemas em 19 de junho; e Uma bela vida, de Costa-Gavras, lançado em 17 de julho. Comentei os sete filmes citados aqui na coluna.

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35. ‘O agente secreto’ é equívoco político

Filme aponta para questões relevantes, mas as trata de modo esquemático

Pablo Ortellado, O Globo, 14/11/2025 

Estreou nos cinemas “O agente secreto”, novo filme de Kleber Mendonça Filho. Vencedor de duas premiações importantes em Cannes, ele tem recebido reconhecimento quase unânime da crítica. O filme, porém, está atravessado por equívocos políticos.

(Aviso: a partir deste ponto, contém spoilers)

Conta a história de Marcelo Alves (Wagner Moura), um professor de engenharia da Universidade Federal de Pernambuco perseguido por Ghirotti, funcionário graduado do governo, durante o período da ditadura militar. Ghirotti, convencido de que o desenvolvimento tecnológico brasileiro deve se concentrar no Sudeste e de que o departamento de Marcelo precisa de um “banho de imersão” no setor privado, ameaça fechá-lo.

Durante um jantar, o desentendimento entre os dois esquenta, e a mulher de Marcelo termina agredindo o filho de Ghirotti. Ela morre em seguida, em circunstâncias não explicadas (talvez assassinada?), e Marcelo se lança numa longa fuga que o leva a São Paulo, depois de volta ao Recife, onde se refugia num predinho com outros perseguidos. Tenta se reunir com o filho, que vive com os avós, para se exilar no exterior, quando descobre que é procurado por pistoleiros.

O filme se organiza por meio de duas oposições que deveriam dar a ele um sentido político. A primeira é entre o impulso e a lei. O Recife dos anos 1970 é retratado como lugar sem lei, onde toda regra é burlada, e uma exceção sempre pode ser comprada. Logo na primeira cena, vemos Marcelo abastecendo o carro num posto no sertão, diante de um corpo abandonado há dias. A polícia se aproxima, e ficamos com a expectativa de que recolherá o cadáver, mas a intenção dos policiais é apenas achacar Marcelo para obter propina. A lei não parece ser capaz de impor limite ao poder.

Mas a lei fraca também é celebrada como catarse popular. A maior parte da trama se passa no carnaval, e vemos o enredo de perseguições e ameaças se desenvolver em meio a blocos e festas populares. O sexo não parece ser contido pela lei e a todo momento extravasa no espaço público — no meio de uma sessão de cinema, no meio do expediente de trabalho e também numa praça à noite, numa cena-devaneio divertida. As camisas quase sempre desabotoadas também representam a natureza mal contida pela norma.

Às vezes essa carnavalização parece aludir, esteticamente, ao Gláuber Rocha de “Terra em transe” e “Deus e o diabo na terra do sol”. Mas, enquanto a carnavalização em Gláuber — a gestualidade exagerada, as multidões descontroladas, os corpos suados — busca transformar a solenidade política, da esquerda e da direita, em delírio, histeria e excesso, no filme de Mendonça Filho ela tem função completamente contraproducente.

O filme é marcado por uma perspectiva libertária setentista que exalta a libido como subversão da norma opressiva. Só que a afirmação da sexualidade incontida termina celebrando a fraqueza da norma que, noutra chave, busca condenar. Quando o filme denuncia diretamente a lei que não consegue conter os abusos dos poderosos, essa deficiência não parece recair apenas sobre a ditadura, mas também sobre o Recife “atrasado”. Nesses momentos, involuntariamente, retoma o velho tópos das “ideias fora do lugar”, da vida social na periferia do capitalismo que não consegue estar à altura da norma europeia civilizada.

A segunda oposição com que o filme trabalha é mais juvenil. Aqui, “O agente secreto” retoma a visão política simplória de “Bacurau”. Mendonça Filho reedita o antagonismo esquemático entre um Nordeste popular, tolerante e resistente e um Sudeste capitalista, arrogante, racista e colonizador.

Se isso o havia levado, em “Bacurau”, ao delírio de imaginar uma comunidade popular sertaneja que celebrava o cangaço, aqui ele delira com uma ditadura privatista. Estamos nos anos 1970, no auge do desenvolvimentismo militar, com acelerada expansão das estatais e dos projetos de desenvolvimento regional — a época de ouro da Sudene e do Banco Nacional do Nordeste.

Mas não se trata apenas de erro em relação ao contexto histórico da política econômica da ditadura. Ghirotti é um vilão esquemático, sem qualquer densidade psicológica. Não é um apoiador do regime com medo da tirania comunista ou um empreendedor orgulhoso daquilo que construiu. É apenas um cafajeste que defende, sem qualquer elaboração, injustiças flagrantes e privilégios. Esse empobrecimento do personagem não compromete apenas a inteligência política do filme, mas também sua capacidade de construir conflito dramático.

Apesar das qualidades formais, “O agente secreto” fracassa justamente nas duas oposições que deveriam sustentar seu projeto político: a tensão entre impulso e lei se dissolve numa celebração acrítica da desordem, e o contraste entre Nordeste e Sudeste é reduzido a uma caricatura, sem densidade dramática nem rigor político. O filme aponta para questões relevantes, mas as trata de modo esquemático, ora celebrando o que critica, ora simplificando o que deveria tornar complexo.

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36. Metrópolis 1927 de Fritz Lang profético

https://www.instagram.com/reel/DUQSqfUjl-j/?igsh=ZXNwc2FzdDBjeDB2

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37. O Iluminismo prometeu libertar a dúvida; os progressistas a reclassificaram como ofensa, para fazê-la calar.

O dogmatismo continua sendo uma tendência na era atual da humanidade. Por Wilson Gomes 4.2.2026

Contra os dogmas antigos, coragem; contra os novos, silêncio

O novo moralismo pune quem ousa rediscutir os consensos

Neste país, você não pode dizer impunemente que resultantes da mistura de negros, brancos ou indígenas não são uma subcategoria de negros. Uma jovem mestranda achou que podia transformar isso em agenda de pesquisa em uma universidade pública. Mostraram-lhe a porta da rua, depois de tentativas forçadas de reeducação ideológica. A certo ponto, a estudante já não era tratada como alguém que discutia posições hegemônicas, fazia novas perguntas e queria reexaminar pressupostos, mas como tola, inimiga ou imoral.

Como isso é possível? E, sobretudo, como isso é possível em uma universidade?

É simples: o dogmatismo continua sendo uma tendência intelectual nesta estação. Sabemos bem o que é o dogmatismo porque o pensamento moderno se forjou na luta contra ele.

Em filosofia política, dogma é a convicção que a fé ou a autoridade colocam fora do alcance da razão. O Iluminismo, que se insurge contra o dogmatismo e o obscurantismo, afirmava que o progresso humano e a vida em comum dependem do que pode ser examinado pela inteligência e livremente discutido em busca de consensos esclarecidos. Nada deve estar fora do alcance do exame racional e livre; não há crença, lei ou princípio que não possam ser discutidos.

Na psicologia social, dogmatismo é um modo rígido de pensar. A ênfase recai na inflexibilidade: o indivíduo dogmático resiste a evidências contrárias, evita a dúvida, fecha-se ao dissenso e concebe suas posições como fixas. É uma maneira de pensar. Se esse traço aparece mais na direita ou nos extremos de ambos os lados, continua sendo a controvérsia clássica da área. Há resultados consistentes para sustentar ambas as teses.

O que surpreende hoje são duas coisas.

Primeiro, que justamente as arenas institucionais por excelência da liberdade de pensamento — universidade e jornalismo, onde se fazem perguntas, se desafiam consensos e se testam certezas — tenham se tornado alguns dos principais espaços do dogmatismo e da ortodoxia. É mais que paradoxal, é contraditório, mas esses são os fatos.

Segundo, que a posição progressista, que se bateu por séculos por ciência, crítica, emancipação e desmistificação, seja agora protagonista de uma nova onda dogmática. Os progressistas não hesitam em declarar que determinadas proposições são indiscutíveis por princípio, fora do alcance do escrutínio da razão, blindadas do atrevimento da inteligência. Os ambientes sociais em que predominam formam mentes fechadas, dogmáticas, intolerantes. Negam fatos que não se encaixam em suas crenças ou que as incomodam, evitam livros, pessoas e ideias divergentes, simplificam de forma grosseira o campo adversário ("é tudo a mesma coisa"), aceitam com maior facilidade o uso da força contra divergentes, dependem da ortodoxia e passam a criminalizar as posições que não toleram. O Iluminismo prometeu libertar a dúvida; os progressistas a reclassificaram como ofensa, para fazê-la calar.

Nada disso tem a ver com importância temática. Segundo o recém-lançado livro "Brasil no Espelho", de Felipe Nunes, 96% dos brasileiros acham que Deus está no comando de suas vidas. Para uma grande parte da população, questões relacionadas à vida após a morte, à existência de um Deus onipotente e de uma ordem moral criada por ele são o que mais importa na vida de um ser humano —talvez a única coisa que realmente importe. Ora, neste país, não é considerado crime, imoralidade ou mancha indelével de caráter não acreditar em Deus nem em lei moral natural. Quase 80% afirmam, por exemplo, que alguém pode ser uma boa pessoa mesmo sem fé.

Agora diga que negros, como todo mundo, podem ser racistas; que racismo estrutural ou ambiental são hipóteses discutíveis; que políticas públicas baseadas em cotas raciais ou identitárias podem não ser nem justas nem eficientes; que "mulher" não é sinônimo de "pessoa que menstrua"; que mestiços não são negros de segunda classe; que não existem pessoas cis; que competência na matéria não é um valor menor que diversidade; que o feminismo não deveria ser uma luta contra os homens, mas contra a desigualdade; que, em um conceito rigoroso de democracia, tem de haver espaço para a direita e para conservadores —e veja a mágica acontecer.

Não é preciso afirmar o contrário; basta um "gostaria de rediscutir este ponto" para que se descubra o que o dogmatismo faz com quem o desafia. É surpreendente, mas, no novo consenso dogmático intelectual, é mais seguro duvidar da existência de Deus do que pedir para rediscutir qualquer cláusula do catecismo progressista.

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38. Dez Bandas brasileiras que você tem que ouvir  vídeo

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39. O Oscar 2026 acontece em 15 de março, em Los Angeles, nos Estados Unidos. Assim como em 2025, a 98ª edição da premiação americana vai contar com o comediante Conan O'Brien como apresentador.

Veja a lista completa abaixo:

Melhor filme

'Bugonia'

'F1'

'Frankenstein'

'Hamnet: A vida antes de Hamlet'

'Marty Supreme'

'Uma batalha após a outra'

'O agente secreto'

'Valor sentimental'

'Pecadores'

'Sonhos de trem'

Fotografia

'Pecadores'

'Uma batalha após a outra'

'Sonhos de trem'

'Frankenstein'

'Marty Supreme'

Direção

Chloé Zhao, 'Hamnet: A vida antes de Hamlet'

Josh Safdie, 'Marty Supreme'

Paul Thomas Anderson, 'Uma batalha após a outra'

Joachim Trier, 'Valor sentimental'

Ryan Coogler, 'Pecadores'

Atriz

Jessie Buckley, 'Hamnet: A vida antes de Hamlet'

Rose Byrne, 'Se eu tivesse pernas, eu te chutaria'

Kate Hudson, 'Song Sung Blue - Um sonho a dois'

Renate Reinsve, 'Valor sentimental'

Emma Stone, 'Bugonia'

Ator

Timothée Chalamet, 'Marty Supreme'

Leonardo DiCaprio, 'Uma batalha após a outra'

Ethan Hawke, 'Blue Moon'

Michael B. Jordan, 'Pecadores'

Wagner Moura, 'O agente secreto'

Efeitos visuais

'Avatar: Fire and Ash'

'F1'

'Jurassic World: Recomeço'

'O Ônibus Perdido'

'Pecadores'

Animação

'Guerreiras do K-Pop'

'Zootopia 2'

'Arco'

'Elio'

'A Pequena Amélie'

Som

'F1'

'Frankenstein'

'Uma batalha após a outra'

'Pecadores'

'Sirât'

Montagem

'F1'

'Marty Supreme'

'Uma batalha após a outra'

'Valor sentimental'

'Pecadores'

Documentário

'The Alabama Solution'

'Come See Me in the Good Light'

'Cutting Through Rocks'

'Mr. Nobody Against Putin'

'The Perfect Neighbor'

Direção de arte

'Frankenstein'

'Hamnet: A vida antes de Hamlet'

'Marty Supreme'

'Uma batalha após a outra'

'Pecadores'

Canção original

'Dear Me', de 'Diane Warren: Relentless'

'Golden', de 'Guerreiras do K-Pop'

'I Lied to You”', de 'Pecadores'

'Sweet Dreams of Joy', de 'Viva Verdi!'

'Train Dreams', de 'Sonhos de trem'

Filme internacional

'Foi apenas um acidente' - França

'O agente secreto' - Brasil

'Valor sentimental' - Noruega

'A voz de Hind Rajab' - Tunísia

'Sirât' - Espanha

Figurino

'Avatar: Fogo e cinzas'

'Frankenstein'

'Hamnet: A vida antes de Hamlet'

'Marty Supreme'

'Pecadores'

Seleção de elenco

'Hamnet: A vida antes de Hamlet'

'Marty Supreme'

'Uma batalha após a outra'

'O agente secreto'

'Pecadores'

Ator coadjuvante

Benicio Del Toro, 'Uma batalha após a outra'

Jacob Elordi, 'Frankenstein'

Delroy Lindo, 'Pecadores'

Sean Penn, 'Uma batalha após a outra'

Stellan Skarsgård, 'Valor sentimental'

Roteiro original

'Blue Moon'

'Foi apenas um acidente'

'Marty Supreme'

'Valor sentimental'

'Pecadores'

Roteiro adaptado

'Uma batalha após a outra'

'Hamnet: A vida antes de Hamlet'

'Bugonia”

'Sonhos de trem'

'Frankenstein'

Curta-metragem com atores

'Butcher's Stain'

'A Friend of Dorothy'

'Jane Austen's Period Drama'

'The Singers'

'Two People Exchanging Saliva'

Animação de curta-metragem

'Butterfly'

'Forevergreen'

'The Girl Who Cried Pearls'

'Retirement Plan'

'The Three Sisters'

Documentário em curta-metragem

'All the Empty Rooms'

'Armed Only With a Camera: The Life and Death of Brent Renaud'

'Children No More: “Were and Are Gone'

'The Devil Is Busy'

'Perfectly a Strangeness'

Trilha sonora original

'Bugonia'

'Frankenstein'

'Hamnet: A vida antes de Hamlet'

'Uma batalha após a outra'

'Pecadores'

Atriz coadjuvante

Elle Fanning, 'Valor sentimental'

Inga Ibsdotter Lilleaas, 'Valor sentimental'

Amy Madigan , 'A hora do mal'

Wunmi Mosaku, 'Pecadores'

Teyana Taylor, 'Uma batalha após a outra'

Maquiagem e cabelo

'Frankenstein'

'Kokuho'

'Pecadores'

'Coração de lutador: The Smashing Machine'

'A Meia-Irmã Feia'



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