Parte uno: Beatrix
Em 2007, Beatrix era casada com Bento. Ela era uma mulher muito bonita e ele um ciumento doentio. Com um problema: ele era alcoólatra. Morava em Estrela Dalva, um dos 289 bairros de Cariacica, Espírito Santo. Ela era cabeleireira e ele pedreiro.
Durante a semana Bento era um anjo. Mas a partir da sexta o diabo entrava no corpo com força. Saía do serviço e começava beber todas. Onze da noite chegava em casa e reclamava de tudo. Da comida, da cama, da roupa. Beatrix vinha do serviço as dez e tinha que ouvir. Queria que ela ficasse em casa cuidando da casa e da filha Perla. Mas como não trabalhar fora? Só com o que ele ganhava não dava. E quando ela reclamava da situação o pau comia. Bento batia em Beatrix até cansar.
No sábado e domingo o drama para Beatrix se repetia. Sábado ela ficava no salão de beleza até às sete da noite. Bento chegava bravo e na presença de Perla o show se repetia. E toma surra de novo.
De uma amiga de Beatrix:
Amiga: porque você não denuncia teu marido na delegacia de defesa da mulher. Vai lá menina. Aqui perto, em Campo Grande, tem uma. É a lei Maria da Penha.
Beatrix: sei não, amiga, fico sem coragem. E depois? Aí que ele me arrebenta.
Amiga: e tem mais, além de te espancar sabia que sustenta outra com casa e tudo aqui no bairro?
Beatrix: filha da puta! Agora tá explicado.
A lei Maria da Penha, de que trata das punições das agressões contra a mulher, foi sancionada pelo Presidente da República em agosto de 2006.
Beatrix criou coragem para denunciar o marido. Numa sexta entrou num ônibus e foi até Campo Grande, e conversou com a delegada. Feito o registro a delegada disse que iria até Estrela Dalva intimar o marido.
Nem foi preciso a intimação. O destino reservou uma tragédia para Beatrix.
Bento apareceu furioso no sábado à noite. E bêbado, como sempre, disse: Bento: olha aqui sua puta, hoje te vi conversando com um homem em frente ao salão. Cê tá pensando que sou trouxa?
Beatrix estava conversando sim, mas era com um amigo. O Escobar.
Beatrix: era um amigo, ô babaca. E você? Todo mundo sabe aqui no bairro que você sustenta uma vagabunda. Com casa e tudo. Você surra ela também?
Aí o diabo tomou conta de Bento. Primeiro golpe: um murro no nariz da mulher. Segundo golpe: um chute no estômago. Beatrix quase desmoronou com o chute. Com o nariz ensanguentado criou forças e já curvada viu um vergalhão de aço encostado na pia da cozinha. Criou coragem e numa fúria canina lascou o vergalhão na cabeça do marido. Bento desmoronou no chão já desmaiado. A fúria, agora sanguinária, aumentou. Beatrix pegou uma faca que estava na pia abaixou a calça do homem e decepou testículos e pênis de uma só vez. Ato contínuo jogou a tralha toda pela janela. Bento estrebuchou, mas Beatrix não satisfeita enterrou a faca no peito do moribundo. Duas vezes, até comprovar que estava morto. Um banho de sangue. E Beatrix, como uma besta, urrou de vingança e ciúmes. A filha, Perla, não presenciou a tragédia, felizmente. Foi passar a noite na casa de uma amiguinha.
Após o ocorrido, Beatrix desapareceu na escuridão da noite. Apresentou-se à polícia uma semana depois.
Foi a julgamento e condenada a 10 anos de prisão.
Na penitenciária Beatrix sempre teve o apoio do Escobar. Tornaram-se namorados e já com um ano de convívio ela se engravidou de Ezequiel.
Após quatro anos de prisão e bom comportamento, Beatrix está livre sob condicional.
Hoje, a família Beatrix, Escobar, Perla e Ezequiel vivem em Campo Grande, outro bairro de Cariacica. Ela tem um salão de beleza e ele é sargento da Polícia Militar.
Vivem bem, em harmonia e felizes como deve ser.
Parte due: Morte vulgar
Morte vulgar
Ao buscar a vida, eu criei a morte. (Frankenstein, o criador, o monstro). Não consigo morrer e não consigo viver. Não posso encarar um fim tão vulgar. (A criatura, a vítima)
3.700 dias 19 horas 56 min 04 segundos
Les eaux glacées du calcul égoiste
Victor era um burgês e por conseguinte um egoista. Não vivia em águas geladas. Pelo contrário, vivia num clima quente, escaldante, do interior do Estado de São Paulo. Já beirava os oitenta. Vivia só, mas não era gregário. Tinha sua turma.
Cara, pare de fumar. Você quer antecipar tua morte? dizia um amigo.
E ele respondeu: morte? Neste inferno em que vivemos, a morte seria um alívio. Quem sabe existe um inferno melhor depois da morte, se é que tem existência post-mortem.
Revide do amigo: reclamando de barriga cheia. Tens uma boa aposentadoria, família, esposa, filhos e filhas, netos e netas e até bisnetos e bisnetas. Pessimismo não.
Você tem razão, pessimista. O que você disse da família é necessário, mas insuficiente. Convivo com um exterior de guerra de classes, de genocídios, de guerras fraticidas, de políticos filhos da puta e um crescente desastre ambiental. Para simplificar, num processo de auto-destruição, respondeu Victor.
3.304 dias 11 horas 56 min 30 segundos
A chave dos Lusíadas
Victor para uma roda de amigos e amigas: Sempre fui do livro. Desde criança lia muito. É de lá que lembro da História do mundo para as crianças de Monteiro Lobato. Foi minha primeira infantil visão de mundo. Mais tarde, já jovem, me enroscava no caderno de cultura do Estadão. Não entendia 40% do que lia, mas estoicamente, ia até o fim.
Vê-se que tem muitos livros mesmo. Quando estive na tua casa percebi. Peguei em alguns, disse uma amiga. Aliás cheguei a folhear o livro Luis de Camões, A chave dos Lusíadas, edição de 1907. Bem velhinho, mas conservado.
Pois é, deve ser uma bibliotecazinha de uns quinhentos livros mais ou menos, disse Victor. Aliás, não sei para onde vão estes livros, quando me for deste mundo para outro.
2.756 dias 17 horas 27 min 56 segundos
Ateu graças a Deus
Victor, tinha a fama na cidade de um leitor voraz. Num belo dia um professor o convidou para conversar com seus alunos e alunas. Sobre literatura.
Para uma turma de ensino médio ele disse:
"Minha cabeça deve a sua perfeição ou a sua imperfeição à literatura e ao cinema; à família; à interação (com as pessoas), à ação e à autonomia. Sou não gregário, mas as vezes egoísta. Resumindo, só da literatura, o que me fez a cabeça? Dom Casmurro do Machado de Assis, Angústia do Graciliano Ramos, Cem anos de solidão do Garcia Márquez, Fausto do Goethe, Grande sertão: veredas do Guimarães Rosa, O manifesto comunista de Marx e Engels. E outros por aí".
Num momento da conversa um fedelho perguntou: o senhor tem religião?
De pronto Victor respondeu: "Não, sou ateu graças a Deus". E a sala toda caiu na gargalhada.
1.101 dias 9 horas 00 min 20 segundos
Elogio à tristeza
Um bicho contraditório. Nem bom, nem mau. Um homem humano. Assim era Victor. Em família tinha lá seus tempos de tirania. Liza, sua esposa, que o diga. Um drama gótico é o que ela dizia sobre o seu casamento com Victor. Mas tiveram tempo para filhos, netos e bisnetos.
Tudo misturado com melancolia, alegria, histeria e tristeza. Até que que veio a tempestade. Victor foi diagnosticado com enfisema pulmonar.
Tornou-se intratável e irascível. Um Mephisto faustiano. Pulsão de morte? Sim. Destruição e autodestruição. E quem pagou o preço? A família, que foi contaminada pela tristeza.
Antes desta tempestade, Victor dizia que gostaria de morrer bem. Com saúde. Não foi o que viria acontecer.
502 dias 13 horas 37 min 45 segundos
Se você morrer eu te mato
Conversando sobre Liza. Mulher calma, com uma paciência de Jó, mas se alguém pisar no calo ela explode. Victor sabia quem era sua esposa. Cinquenta e dois anos de convivência deixaram marcas.
Tudo bem, querido, sei que tua doença tirou você do prumo. Agora sei também que você não pode extrapolar os limites da boa convivência agredindo, verbalmente, todo mundo. Conheço quem é você por baixo desta pele de cordeirinho. Disse ela a Vitor, ainda num dia de calmaria.
Olha aqui, eu também te conheço. Uma bruxa rabugenta com pacto com o diabo. Não me encha o saco, retrucou Victor.
Pisou no calo.
Com uma fúria indescritível, Liza replicou: olha aqui, seu filho da puta, vá para o inferno. Suportei você nesses anos todos para agora me condenar como a bruxa rabugenta? Agora sim, para eu estar certa, se você morrer, eu te mato.
10 dias 05 horas 27 min 32 segundos
Morte vulgar
Notícia na TV: Um caminhão de lixo tombou na manhã desta segunda-feira (27) após bater em um veículo de passeio na pista próxima ao Rio Pardo, no sentido da Rodovia Washington Luís.
Victor estava neste veículo de passeio. Morreu instantemente. Não morreu bem como desejava, mas quase não sofreu. Liza lamentou não poder matar o morto. O corpo estava praticamente em cinzas.
Vida vulgar, morte vulgar
00 dias 00 horas 00 min 00 segundos
FIM
Dando nome aos bois
Ao buscar a vida, eu criei a morte. (Frankenstein, o criador, o monstro). Não consigo morrer e não consigo viver. Não posso encarar um fim tão vulgar. (A criatura, a vítima) É, mais ou menos, do filme Frankenstein, 2025 de Guillermo del Toro
Pluribus, série de TV, 2025, foi de onde tive a ideia de segmentar o texto em partes temporais (dia, hora, minuto, segundo)
Les eaux glacées du calcul égoiste (tradução livre: as águas geladas do cálculo egoísta) está lá no Manifesto comunista de Marx & Engels publicado em 1848
Se você morrer, eu te mato, surrupiei do livro Samuel Fuller, se você morrer, eu te mato! Ruy Gardner, Fundação Cultural Banco do Brasil, 2013.
Parte tre: Nava
Luis Fernando Veríssimo
O suicídio é a única questão filosófica, disse Camus. O homem é o único animal que resolve se matar. Que resolve se resolver. O suicídio é ao mesmo tempo um gesto de desistência e de rebeldia. O homem nem sabota os desígnios que seus tecidos tinham para ele.
Se adianta, denuncia a trama na metade, conta o fim da história antes que ela acabe, corta essa. O suicídio é antinatural. Não estava previsto na criação. É um desfio ao sistema. O suicida não está sob nenhuma jurisdição salvo a da sua vontade. É como a masturbação: só cortando as mãos. O suicídio é o supremo paradoxo humano, porque é o último. Não é, como na piada, a autocrítica levada longe demais. O homem se mata para se preservar. Para se desagravar. Para dar uma lição nos outros cujo efeito nos outros ele não vai ver. O suicídio é uma usurpação. O suicida improvisa o próprio cadáver antes que o tempo o faça. É uma extrapolação. Nossa função não é esta.
Estamos aqui para ser, sem perguntas. O corpo não é nosso, só temos o usufruto. A vida é a despeito de nós. Este coração pulsando, esta fome, pertencem a outra ordem, que não é da nossa conta. O suicídio é uma intromissão indébita nesse processo lento e obscuro das células e dos astros. Já que não o desvendamos, explodimos. A gente não vive, a gente é vivida. Não somos as nossas células se decompondo, somos o que contempla a própria degeneração, perplexo. Não somos o cérebro nem a mão que leva a arma ao cérebro, mas somos, finalmente, definitivamente, o que puxa o gatilho.
Mas porque um homem de 80 anos se suicida? Num homem de 80 anos o suicídio é quase tão escandaloso quanto uma aventura amorosa. Não se faz.
Aos 80 anos um homem já devia ter sua perplexidade ajustada, num lado, como uma hérnia inoperável. Já devia ter passado por todas as rupturas perigosas - do desepero, da auto-indulgência - que fazem os moços se matarem. Pode se suicidar de impaciente, mas a impaciência também é coisa de moço. Pensei que houvesse uma glândula, algum dispositivo, que na velhice nos reconciliasse com esta coisa que acontece em nós, e da qual não sabemos a metade, que é uma vida finita. Não há. Merda, não há.
In Luis Fernando Veríssimo, A mãe do Freud, p. 131. L&PM Editores, 1987
NB: Pedro Nava wiki
Parte quattro: Coitado, morreu alegre
Coitado, morreu alegre
No dia 30 de outubro de 2022, lá pelas 11 horas da noite, Mundo (ou Raimundo) encheu a cara de uísque comemorando a derrota (na eleição presidencial) do idiota, execrável, farsante e fascista, cujo nome vocês já sabem. Ele, o maldito, se diz religioso, mas Mefistófeles não é ateu, frequenta as igrejas de todas as religiões.
Mundo participou de tudo quanto é manifestação pública, nos últimos 4 anos, do Fora o crápula, fora o cavalgadura, fora o escroto e fora o lazarento.
Mundo nasceu em 1949, é aposentado dos Correios e já fez um monte de besteiras na vida. E algumas boas. Por exemplo, torce para o time do Santos desde 1958. Claro, na época, moleque ainda, ficou encantado com Dorval, Mengalvio, Coutinho, Pelé e Pepe. E de se sobra, Zito e Gilmar.
Mundo é cinéfilo. Durante a pandemia assistiu 700 filmes. Onde? No iutubi, DVD (tem uma coleção razoável), Netflix, HBO, Amazon, Disney, Mubi e fora aqueles filmes ou séries que copia da internet. Sim, Mundo é um copista como o diabo gosta.
Mundo ficou feliz com 30 de outubro? Sei não. No certo ficou alegre. Em conversas dizia não saber o que era felicidade. E justificava. Para Freud, uma utopia, para Confúcio a felicidade seria a harmonia entre as pessoas e para Buda a liberação do sofrimento e superação do desejo através do mental. Para Mundo, Confúcio matou a charada, felicidade não existe. Dizia, “me mostre um bicho mais em não-harmonia que humanos. A mortandade nas guerras do século XX, demonstra. Pulsão pela morte. Gente como o beócio, o criminoso e o carrasco, derrotado no dia 30 de outubro, prova”.
Mundo foi solteiro, casado, divorciado e viúvo. Desse sapeca-iáiá surgiram dois filhos. “Uns malas sem alças que se deram bem na vida. Encontro com eles vez ou outra”.
Mundo mora só desde antes da pandemia. Antes passou por um perrengue daqueles. Além da hipertensão teve câncer de próstata. Fez tratamento e conseguiu controlar o monstro. Vai morrer fazendo exame de PSA e tomando remédio de pressão.
Mundo mora num apartamento de 70 m2. Modesto, muita luz e ventilação. Tem plantas na varanda. Na sala um vaso com uma árvore da felicidade (polyscias fruticiosa) de 1 metro altura.
Mundo, no dia 31 de outubro, estava no quarto lendo quando resolveu ir até à cozinha. Na passagem pela sala, descalço, escorregou no maldito piso liso azulejado molhado pela água que tinha transbordado do vaso da árvore da felicidade, aguado há pouco pelo Mundo. A tragédia veio a cavalo. Ele bateu com a cabeça na quina de uma cadeira. A vizinha do apartamento ao lado bateu na porta e nada. Assustada com o barulho chamou o condomínio que com uma chave reserva entrou. Lá estava Mundo estirado no chão já sem vida. Morreu 24 horas após o abjeto, o parvo, o covarde e o estrupício ter sido defenestrado pela população.
E que ironia, o Mundo morreu porque tinha aguado a árvore da felicidade.
Mundo foi enterrado no dia 2 de novembro, dia de finados. No dia seguinte visitei o túmulo. E lá tinha uma lápide, talvez já combinado antes com os filhos, com os seguintes dizeres:
Coitado, morreu alegre, Com PSA 0,23 e pressão 12 por 9
Mundo, Vitória, 2 de novembro de 2022
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