segunda-feira, 7 de outubro de 2019

Coringa

'Coringa' mostra crueldade do homem de gostar de rir dos outros

INÁCIO ARAUJO

O horror não está no horror -repetia Júlio Bressane nos anos 1970, no Brasil. O horror não está no horror- parece insistir Todd Phillips em seu "Coringa". Ali ele nos fala da origem do mais célebre e temível inimigo de Batman, como se sabe. Mais do que isso, porém, é da passagem de psicótico a psicopata de um jovem que vive na Gotham City (ou Nova York) de 1981, ano de "Um Tiro na Noite", mas também da tomada do poder por Ronald Reagan.


É uma cidade suja, infestada por ratos, tomada por despossuídos, habitantes de rua e prédios sujos. Lembra até certos filmes de John Carpenter. Mas lembra, mais do que tudo, que Reagan foi o instaurador da política neoliberal nos EUA. Quisesse ou não, foi essa a política econômica que tem propiciado o crescimento abissal das desigualdades sociais no mundo.

Não por acaso, pouco depois de o filme começar sabemos que o serviço social onde o jovem Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), o futuro Coringa, trata de seus problemas mentais teve a verba cortada. Vai-se assim a terapia e, junto, os remédios que recebia gratuitamente. Resta-lhe cuidar da mãe, exercer sua profissão de palhaço (do tipo que atrai pessoas para lojas, visita hospitais etc.), assistir televisão e sonhar em tornar-se astro de comédia stand-up e apresentador de talk shows.

É então que entra em cena outro elemento-chave do filme: a televisão (o primeiro, claro, sãos as HQs). Ali trabalha Thomas Wayne, um dos mestres do talk show. Aquele que veio de baixo e teve oportunidade de subir, de chegar ao sucesso. Aquele que, de passagem, não hesita em humilhar os "freaks", os desajustados como Arthur Fleck. Ok, as piadas de Arthur não fazem rir, mas fazem com que riam dele. Dá audiência, faz a fortuna dos Thomas Wayne (pai do futuro Batman, para os distraídos) ou Murray Franklin (outro rei dos talk shows).
Ok, eles não são os únicos culpados. Nem Ronald Reagan. Nem só a doença que faz o futuro Coringa rir nos momentos mais inconvenientes. Há também uma crueldade inerente ao homem: gostamos de rir dos outros. Então ou fazemos os outros rirem, ou os outros rirem de nós.

Será que na visão de Todd Phillips não somos uma espécie perversa? Ou que a televisão seja uma parte central dessa perversidade? (a TV está no centro de tudo neste filme). Ou que a tendência à ganância a qualquer preço esteja dentro de uma tendência natural ou, pelo menos, de uma decadência civilizatória? Pode-se ver as coisas assim. Elas não estariam tão longe do olhar de um Tim Burton (autor dos Batman já feitos). O certo é que os fãs de Batman nunca mais poderão olhar o Coringa com os mesmos olhos. Junto com a imagem do incompreensível, insuportável vilão de outros filmes, veremos também a de um jovem triste, torturado, sem pai conhecido. Em suma, revoltado. E é impossível não compreender sua revolta.

Uma palavra sobre Todd Phillips, que fez carreira sobretudo em comédias sarcásticas, em especial a muito bem-sucedida "Se Beber Não Case" (a primeira), onde manejava elementos de absurdo e crueldade com desenvoltura. Mas é aqui que, aparentemente, obteve a independência para fazer um trabalho pessoal.

Por fim, "Coringa" não seria o mesmo sem Joaquin Phoenix. Seu Thomas Fleck parece ter-se inspirado em Antonin Artaud ( 1896-1948 ), no Artaud do fim da vida, pós-hospício, o de "Artaud le Momo", dessa máscara que ri, faz rir, zomba e geme ao mesmo tempo.
Pode ser que não, mas quem quiser fazer um filme sobre Artaud já sabe onde encontrar o ator. É um gênio, também.

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O CORINGA: PRODUÇÃO EUA, 2019; DIREÇÃO Todd Phillips; ELENCO Joaquin Phoenix, Robert De Niro, Zazie Beetz


(Inácio Araujo - FolhaPress)

Bacurau e o Brasil brutal

Bacurau e a síntese do Brasil brutal

Ivana Bentes

Há algo de profundamente perturbador em Bacurau, de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles, talvez o mais importante filme contemporâneo sobre o Brasil distópico da era Bolsonaro. Mesmo tendo sido filmado antes das eleições de 2018 e da catástrofe política em andamento, Bacurau é um filme visionário e violento, uma ficção científica e política que não tem nada de alegórica. Ao contrário, é explicita e brutal, de uma lucidez aterradora.

Silvero Pereira como Lunga em Bacurau (Foto: Victor Jucá/Divulgação

Um filme em que os gêneros faroeste, ficção científica, filme de terror, filmes de ação hollywoodianos, rambos e exterminadores se encontram com um rural contemporâneo que explode clichês.

Bacurau é um extraordinário remix do imaginário hollywoodiano com a tradição do Cinema Novo brasileiro: a estética da fome, a estética do sonho e a pedagogia da violência de Glauber Rocha com banhos de sangue prêt-à-porter vindos dos filmes de ação e reality shows. Um filme de crítico de cinema, de cinéfilo e de um diretor que chegou ao auge da destreza narrativa.

Cinema Transgênero

Com Bacurau Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles fazem uma espécie de faroeste transgênero, no sentido dos gêneros do cinema, mas também ao explodir os clichês dos comportamentos. Um cangaço trans em que cada espectador projeta suas referências e desejos.
Mas o que o aproxima do Glauber de Deus e o diabo na terra do sol, de 1964, ou de O dragão da maldade contra o santo guerreiro, de 1969? Estamos falando de filmes de invenção de um imaginário rural brasileiro catártico, que inventam uma mística política vinda do povo. Vinda dos oralistas, dos interioranos, do inconsciente explodido das periferias rurais do Brasil.

Mas são muitas as referências: o Godard de Weekend à francesa (1967) ou de Alphaville (1965), ficção cientifica godardiana profundamente distópica. Com a diferença que não há mais nenhum romantismo em Bacurau, apenas um sarcasmo ou riso vingador ou irônico. Como na cena das execuções públicas no Anhangabaú, exibidas na TV, cenas que ecoam os linchamentos midiáticos que são as novas formas de execuções públicas.

Mad Max sertanejo

O filme trata de questões urgentes: crise da água e do meio ambiente, empresas e políticos com ethos milicianos, forças paramilitares ou mercenários globais. Atravessada por essas forças, uma nova Canudos na beira da estrada ou uma cidade Mad Max sertaneja. Uma Canudos genérica, pronta para explodir. Tudo filmado como uma espécie de reality show perverso e alucinatório, com jogos violentos e extremos e com personagens estranhamente familiares e “normais”.
Mas do que se trata o filme? Antes de mais nada de um rural contemporâneo. Um Brasil das cidadezinhas do interior completamente conectadas com o urbano. Atravessadas por redes de celular, tecnologias de vigilância e controle, telas de LED, drones, carros e motos possantes, distribuição de psicotrópicos e remédios que controlam o humor, uma cidade rústica, mas que poderia protagonizar um episódio de Black Mirror e que querem apagar do Google Mapa.

O que fazer diante do capitalismo gore?

A segunda questão é exatamente essa. O que podem (como agir, resistir, se governar) as comunidades que estão sendo atacadas e apagadas pelo capitalismo das “tripas e sangue”? E aqui tomo emprestado o conceito da mexicana Sayak Valencia para descrever a vida nas fronteiras de Tijuana, em que comunidades inteiras têm que lidar com o que nomeia de “capitalismo gore”, um capitalismo mafioso, da narcocultura, milícias, assassinatos.

Esse capitalismo gore, com suas tripas e sangue, é também uma construção cultural. O termo tem origem no gênero cinematográfico splatter, com o uso gráfico e extremo da violência, o grotesco e a violência explícita como linguagem. O assujeitamento e ações predatórias, onde se pode infligir dor e violência contra os corpos, mas também pensar a violência como necroempoderamento.
Diante de um neoliberalismo que fracassou na sua utopia de mercado, diante de uma democracia em agonia, os sujeitos, os cidadãos, a comunidade também quer partilhar e participar da violência como forma de resistência e sobrevivência.

As fronteiras, as cidade das bordas e periferias, as periferias, as comunidades apelam para um autogoverno e ações extrajurídicas. Como em Canudos amotinada, novos laboratórios do pós-colonialismo, mas também das insurreições contemporâneas. Enclaves, tribos, comunidades distópicas e utópicas se inventando.

Os insurgentes em uma democracia em agonia

Diante de fantasias de poder ultraconservadoras, diante de figuras ultraviolentas como Witzels e Bolsonaros, seres “endriagos”, demolidores, que surgem produzindo a gestão da morte, as comunidades se apropriam da violência como ferramenta de empoderamento e de resistência. Uma saída possível do lugar de vítima para a de vingadores.

Sonia Braga como Domingas em Bacurau (Foto: Victor Jucá/Divulgação)

Bacurau traz de volta o imaginário das guerrilhas dos anos 70 sem fazer qualquer menção, sem qualquer discurso político ou panfletário, simplesmente a narrativa empurra os personagens às armas!
Mas quem são esses novos heróis de uma Canudos revisitada? O Brasil que emergiu no ciclo democrático dos últimos 13 anos, as minorias que se tornaram sujeitos do discurso, os ex-quecidos do Brasil rural, ribeirinho, periférico, as figuras fronteiriças, como a extraordinária cangaceira trans, encarnada por Silvero Pereira.

Uma Canudos remixada que traz também personagens de uma dor extrema, como a mãe diante do filho executado no escuro, com o uniforme do colégio, uma cena arrepiante que vai entrar para a história do cinema brasileiro. E toda a comoção da cidade diante das mortes seriais.
Os personagens de Bacurau trazem nos corpos, nos cabelos, na cor da pele, um Brasil que emergiu e ganhou visibilidade. Homens e mulheres, negros e negras, trans, putas, os caboclos e povos originários. Magníficas as cenas de um devir índio dos personagens que andam e vivem nus nas suas casas de barro, falando com as plantas, vivendo em uma temporalidade estendida, donos de poderes mágicos e de uma cosmovisão.

Impossível não ver neste faroeste caboclo sideral os banhos de sangue, as Marielles assassinadas, a potência das mulheres, todo um novo cangaço das lutas de maiorias, minorias e transgêneros.

Hiper realismo alucinatório

Não há nada de fantasioso em Bacurau, o filme é de uma clareza e brutalidade alucinantes, uma espécie de documentário sobre o imaginário em que estamos. O que poderia ser traumático, o jorro de sangue, a violência gore, todos os corpos dilacerados, cabeças decepadas, os requintes de crueldade e o gozo e erotismo diante da morte se tornam elementos catárticos e redentores ao final do filme.

Diante do trauma político em que estamos. Diante da percepção cotidiana de que “estamos sendo atacados” em nossos valores, em nossos impulsos vitais, em nossas vidas, em nossas sexualidades, Kleber Mendonça apresenta uma guerrilha de bolso. Um laboratório na cidadezinha do interior de Pernambuco. Bacurau é meio Dogville de Lars Von Trier. Bacurau é Dogville, Alphaville, Canudos, um território separado geográfica e temporalmente do resto do país. O Brasil, São Paulo, são ficções distantes. Como a República era uma ficção para o arraial sertanejo. Como em Os sertões de Euclides da Cunha, Kleber Mendonça nos apresenta a Terra, o Homem e a Luta.

E que emoção ver o cinema glauberiano e o imaginário euclidiano vivos, reinventados em um presente urgente que atualiza personagens como Antônio das Mortes, Corisco, Lampião, a mística política presente em um mesmo filme sem fim que estamos fazendo, uma brasiliana contemporânea.
Bacurau traz uma linguagem impactante. Um remix de Glauber com Tarantino e Godard, e ainda revisita o tropicalismo cinematográfico de filmes como Brasil ano 2000, de Walter Lima Jr .,que proclamava em 1969 que “aqui é o fim do mundo”.
Uma ficção científica apocalíptica que é um retrato do Brasil em 2019. Não identificado, a música de Caetano cantada por Gal Costa, que abre o filme, vem diretamente deste espaço sideral, anos 60/70, nossos “negros verdes anos”, de ditadura militar e do auge de invenções na cultura, uma explosão criativa de cinemanovismo, tropicalismo etc. Kleber Mendonça revisita o lado B do tropicalismo solar: distopia, anarquia, um tropicalismo underground e sombrio que não chegou na cultura de massas.

Bárbara Colen como Teresa em Bacurau (Foto: Victor Jucá/Divulgação)

Efeitos colaterais

Bacurau produz efeitos colaterais e sensoriais imediatos. Seja um estupor melancólico frente ao cenário político que estrebucha na tela, seja o efeito catártico. Ouvi pessoas que gritam e aplaudem, urram diante das mortes horríveis, cabeças decepadas e castigos infligidos aos vilões. Outras despertam eufóricas com as imagens, a montagem, como se fosse um soco ou um pegar pelos ombros que nos sacode por inteiro. Ou ainda um choro, uma comoção, não se sabe bem por que, mas que o filme desata, como esses nós que se desfazem sozinhos depois que já ferimos os dedos da mão tentando abrí-los.

São muitas as referências ao cangaço, ao sertanejo, aos jagunços, aos beatos, aos pré-revolucionários de Glauber, os condenados da terra de Frantz Fanon, os resistentes de um Brasil que luta pela terra, pela água, pela comunidade, pela Amazônia, pela vida. Em Bacurau, o mais importante é a comunidade e o comum. As lideranças são múltiplas, descentralizadas: a cangaceira trans, a médica Domingas, o professor, as lideranças espirituais. Muitas cabeças e um só corpo. Ao final uma luta, um duelo, um acertar de contas entre essa diversidade, esse Brasil, esses personagens insurgentes e disruptivos e o militarismo corporativo, o capitalismo miliciano, o empreendedorismo gore. Vai faltar caixões?

As comunidades, os enclaves, os indígenas, a juventude periférica, as esquerdas, os estudantes universitários, os negros e negras, até o momento desconsideraram o discurso radical, de pegar em armas, usar a força física, se armar para fazer a disputa política. Mas o que esperar diante de um Estado que age extra judicialmente e fora da lei?
Quando um governante diz que tem “que mirar bem na cabecinha” e matar seus “inimigos” como em um filme hollywoodiano ruim, ou chega de helicóptero sobre um corpo abatido pela polícia e comemora como um gol, esse imaginário e esse desejo de justiçamento não produzem um imaginário sem controle e perverso?

Se o Estado pode ter drones fatais que atiram para matar, não veremos em um futuro imediato um Rio de Janeiro pilotando drones de autodefesa e ataques? Uma ficção política plausível e aterradora que mostra como se produz Marighellas, Conselheiros e Zumbis, mas também Mitos, Witzels, ultra-extremistas de todos os matizes.

Diante de um humanismo que fracassou, Bacurau sintetiza o Brasil brutal, distópico em que a partilha da violência e a posse de armas e de justiçamento passa a ser feita não apenas pelo “cidadão de bem” conservador, mas surge, como na década de 70 – com as guerrilhas urbanas e ligas camponesas – como uma saída possível, uma reação coletiva, diante de uma democracia e de um Estado colapsados.
Kleber Mendonça Filho não faz uma leitura piedosa de tudo o que está ai. Faz um manifesto cinematográfico, com uma linguagem sofisticada, um apuro estético, uma destreza em conduzir a narrativa. Deixa uma pergunta. Qual a saída diante da necropolítica? O necroemponderamento? A resistência vital? A violência como uma linguagem e um poder de transformação?

Mas também uma saída mágica, uma mística política. Porque “precisamos de todos os santos e orixás, amém” para atravessar o deserto e esse imaginário adoecido. Precisamos acreditar na política e no cinema, na cultura e na arte, na educação, nas resistências cotidianas, nos enclaves e motins.
Afinal o que é um cinema disruptivo? E aqui volto a Glauber e a toda a radicalidade da arte em tempos de barbárie, “deve ser uma mágica capaz de enfeitiçar o homem a tal ponto que ele não suporte mais viver nesta realidade absurda”.

Podemos também invocar outro grito de guerra das lutas contemporâneas, uma guerrilha rural e urbana que se alastra: “As putas as bi, as travas e as sapatão tão tudo preparadas pra fazer revolução”.
Nesse sentido, Bacurau também tem um forte protagonismo feminino. Lia de Itamaracá como a liderança política e mística da comunidade e Sonia Braga, uma médica de pés no barro. Bacurau despe Sonia Braga de todo um imaginário de glamour construído nos filmes brasileiros e estrangeiros ao mostrá-la com todas as marcas da idade, cabelos brancos, um corpo nu, uma mulher na sua maturidade, quase uma “médica cubana” na sua abnegação e cola comunitária, uma atriz excepcional que se reposiciona desde Aquarius e, em Bacurau, transcende e se reinventa. Fazer “desaparecer” uma atriz como Sonia em uma comunidade de atores incríveis e pouco conhecidos é um feito.

Os invasores

Afinal quem são os invasores de Bacurau? “Estamos sob ataque”, percebem os moradores. A chave não está apenas no grupo de gringos predadores da água e assassinos, do prefeito corrupto, mas também na dupla de brasileiros sulistas (em oposição aos moradores nordestinos) que se identifica com esses grupos ultra conservadores. São os primeiros a serem sacrificados. Os que se acham “brancos”, superiores à comunidade local, os que se identificam com seu próprio opressor. Esses são os descartáveis. A classe média de extrema-direita é a primeira a ser sacrificada pelos ultraconservadores. Ousem questionar e virem os inimigos também. Trágico e sarcástico, mas a cena dessa revelação no filme vale por todo um tratado sociológico. O cinema faz ver!

IVANA BENTES é ensaísta, professora Titular da UFRJ, pesquisadora do Programa de Pós Graduação em Comunicação da UFRJ e da Pro Reitoria de Extensão da UFRJ. Autora de Midia-Multidão: estéticas da comunicação e biopolítica (Sulina), entre outros.

terça-feira, 24 de setembro de 2019

Por que cortar gastos não é a solução para o Brasil


Por que cortar gastos não é a solução para o Brasil ter crescimento vigoroso?

Para grupo de pesquisadores, nova literatura econômica recomenda o inverso, mais investimento público

Vivemos a mais longa crise econômica da nossa história e o ritmo de recuperação segue muito lento, apesar da enorme capacidade ociosa da nossa indústria, mantendo um alto nível de desemprego, incertezas sobre o futuro do país e um processo de empobrecimento de amplos setores da população.
Nesse ambiente de demanda reprimida, o governo deveria estar agindo como a experiência internacional nos ensinou após a grande crise de 2008/2009, oferecendo estímulos fiscais para que o país volte a crescer de forma consistente.

Contudo, nossas autoridades e muitos economistas ortodoxos parecem continuar reféns de um diagnóstico que dominou a narrativa política nos últimos quatro anos: a ideia de que o desequilíbrio fiscal é a raiz dos problemas econômicos e o excesso de gastos públicos é a sua causa.
Além de tal diagnóstico não ser confirmado pelos números, ele tem sido usado para defender uma política de ajuste fiscal, que reduziu o investimento público ao menor nível em 50 anos e não obteve sucesso em controlar o déficit público.

Apesar do evidente insucesso dessa política e dos prejuízos sociais que dela decorrem, alguns economistas, dos quais deveríamos esperar menos dogmatismo, insistem em manter de pé o teto de gastos --a regra fiscal que congela por 20 anos o gasto público na esfera federal, uma regra que não encontra precedentes no mundo desenvolvido e que está ameaçando paralisar a máquina pública.
O que nos remete à seguinte pergunta: a insistência em um diagnóstico e uma política equivocada reflete apenas uma fé cega ou estaria a serviço de determinados interesses econômicos e políticos?

O DIAGNÓSTICO ESTÁ ERRADO: A CULPA NÃO É DO GASTO PÚBLICO

A ideia de que o governo precisa cortar gastos para voltar a crescer ganhou status de mantra. Argumentos falsos e mesmo um tanto infantis como "acabou o dinheiro" e "o Brasil quebrou", em conjunto com as frequentes comparações do Orçamento do governo com o orçamento de uma família têm promovido um ambiente que deixa pouco espaço para o debate qualificado.
Não, o país não quebrou. Não, o dinheiro não vai acabar enquanto o Estado puder exercer suas funções fiscais na sua própria moeda e alocar recursos a partir das escolhas da sociedade. No entanto, é fato que o Brasil enfrenta um déficit público considerável e houve um aumento da dívida pública desde 2014. Mas qual é a causa do aumento dessa dívida?

Entre 2007 e 2014, a dívida bruta se manteve relativamente estável em torno de 57% do PIB (Produto Interno Bruto). Nesse período, os juros nominais contribuíram em média com 5,7 pontos percentuais (p.p.) do PIB por ano para o aumento da dívida, enquanto o crescimento do PIB nominal contribuiu em montante semelhante (5,6 p.p.) para a redução da dívida.
O resultado primário, que se manteve positivo ao longo de quase todo aquele período, mesmo em um cenário de crescimento maior dos gastos públicos, teve um impacto de 2,2 p.p. na redução da dívida, que foi quase todo compensado por outros fatores, levando a contribuição das emissões líquidas para próximo de zero.
Já entre 2015 e 2018, o aumento da dívida bruta se deve a dois condicionantes principais: a péssima performance do crescimento econômico (2,8 p.p.) e o aumento do efeito dos juros nominais (cuja contribuição passa de 5,7 p.p. para 7,1 p.p.).
O resultado primário, por sua vez, passa a contribuir para o aumento do indicador da dívida, mesmo com a queda do crescimento dos gastos. Tal aumento foi compensado pelos demais fatores, fazendo com que as emissões líquidas respondessem por apenas 0,5 p.p. do PIB/ano do aumento da dívida bruta ao longo do período.
Portanto, o suposto excesso de gastos públicos não explica a evolução da dívida.

Os aumentos recentes da dívida pública decorrem principalmente dos gastos com juros e da queda do crescimento econômico, que não apenas reduz a contribuição do PIB para a queda do indicador da dívida pública, como impacta fortemente a arrecadação e afeta o resultado primário. Conforme veremos, a redução do crescimento é em parte explicada pelo corte de gastos públicos.
Não obstante, há outro mito que ronda o debate público: o mito do "crescimento acelerado dos gastos obrigatórios", pleiteado por Marcos Lisboa, Marcos Mendes e Marcelo Gazzano em artigo publicado na Folha no dia 8 deste mês (Por que o governo deve cortar gastos para o Brasil crescer?).

Um crescimento acelerado é uma referência ao aumento da taxa de crescimento. No entanto, ao contrário do que os autores argumentam, os dados mostram que a taxa de crescimento do gasto público caiu desde 2011, tanto os discricionários quanto os obrigatórios.
A taxa de crescimento real das despesas primárias do governo federal desacelerou de 5,2% ao ano no período de 2003 a 2010 para 3,5% no período de 2011 a 2014 e, finalmente, para 0,5% no período de 2015 a 2018. No entanto, a desaceleração das receitas nesses períodos foi maior, o que resultou na deterioração do resultado primário.

Ao analisar a evolução da composição das despesas entre 2002 e 2014, apontada por alguns como o período de "gastança", não se verifica um aumento substantivo dos gastos do governo federal em relação ao PIB, tampouco da proporção do gasto com pessoal, que se reduz em 0,7 p.p. do PIB.
As despesas que aumentam são as transferências para as famílias (0,6 p.p. do PIB), Educação (0,5 p.p.), investimentos (0,3 p.p.) e despesas correntes (0,3 p.p.). Portanto, o maior aumento relativo foi dos investimentos públicos. Os investimentos cresceram em média 8,5% ao ano entre 2003 e 2010 e caíram 31% em média por ano, entre 2015 e 2018.
 
REMÉDIO ERRADO: CORTE DE GASTOS NÃO GERA CRESCIMENTO

Para além dos mitos criados em torno do excesso de gastos públicos, o debate brasileiro também está preso à ideia de que o ajuste fiscal e o corte de gastos contribuem para o crescimento econômico, a chamada tese da "contração fiscal expansionista", formulada por Alberto Alesina e outros economistas italianos na década de 1990. Essa tese passou a ser desconstruída, desde 2012, pelos fatos e por novos estudos, até mesmo do FMI (Fundo Monetário Internacional), demonstrando as falhas da metodologia usada para embasar a conclusão.

Como argumentou Paul Krugman, a austeridade é um culto em decadência e a pesquisa que lhe dava suporte foi desacreditada. Há estudos que mostram que, além do efeito recessivo, a austeridade também provoca um aumento da dívida pública e uma piora da desigualdade social.
Mesmo autores como Alesina, Carlo Favero e Francesco Giavazzi, em texto publicado em 2018, reconhecem que a austeridade fiscal é contracionista no curto prazo e tem efeitos diferentes de acordo com as especificidades de cada país.

No Brasil, defensores da austeridade como Lisboa, Mendes e Gazzano têm argumentado que somos um caso especial em que a expansão do gasto "perdeu grande parte da sua eficácia" e o multiplicador fiscal é baixo. Entretanto, os autores tropeçam nos dados e usam uma variável de resultado para ilustrar um estímulo fiscal, misturando a dinâmica das receitas e das despesas.
Os pesquisadores Sérgio Gobetti, Rodrigo Orair e Frederico Nascimento Dutra, em texto publicado em 2018 no Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), mostram que no ano de 2015, por exemplo, os elevados déficits primário e nominal são consequências do movimento das receitas. Simultaneamente, ocorreu uma forte contração de despesas, implicando um impulso fiscal negativo de 1,5% do PIB.

Diversos trabalhos empíricos têm adotado diferentes metodologias para estimar os multiplicadores fiscais, dos quais se destacam os trabalhos acadêmicos de Alan Auerbach e Yuriy Gorodnichenko.
Essa literatura indica que esses multiplicadores são relativamente elevados, apontando para a possibilidade de que a expansão fiscal seja eficaz para estimular a demanda agregada e a produção, principalmente na situação de altíssima capacidade ociosa como existe atualmente no Brasil.
Os resultados empíricos não deixam dúvida de que os multiplicadores variam ao longo do ciclo econômico. Na fase recessiva, com desemprego e capacidade ociosa, o multiplicador fiscal é maior.
Além disso algumas categorias de despesas públicas tendem a ter um efeito sobre o gasto agregado muito maior do que outras.

Para o caso brasileiro, Orair, Fernando Siqueira e Gobetti, em estudo premiado pelo Tesouro Nacional em 2016, estimaram que, nas recessões, o multiplicador das despesas com investimentos, benefícios sociais e com pessoal assumem valores da ordem de 1,68, 1,51 e 1,33 respectivamente.
Diante do exposto, a interpretação de que a crise brasileira é decorrente de excessos de gastos não faz nenhum sentido, assim como cortar gastos não contribuirá para a retomada do crescimento. Não se quer com isso dizer que o desempenho macroeconômico, a partir de 2015, esteja relacionado exclusivamente ao corte das despesas públicas, pois a crise brasileira deve ser estudada a partir de suas múltiplas determinações. Entretanto, todas as evidências mostram que a virada na política econômica para a austeridade em 2015 contribuiu para o aprofundamento da recessão.

CONSEQUÊNCIAS E ASPECTOS POLÍTICOS DA AUSTERIDADE

Em quase todos os países do mundo, mas especialmente nos países avançados, o Estado exerce um papel distributivo importante, por meio da política fiscal. Nos países da OCDE e na União Europeia, a desigualdade medida depois do efeito na renda dos impostos, das transferências sociais e dos serviços públicos como saúde e educação é muito inferior à desigualdade da renda bruta de mercado. Isso é fruto da atuação redistributiva do Estado.

O Brasil é o país da América Latina que mais reduz a desigualdade por meio de seu gasto social, de acordo com os estudos da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe) e de Fernando Gaiger Silveira. Essa redução ocorre, principalmente, via transferências às famílias e gastos sociais em educação e saúde.

Já o sistema tributário é concentrador de renda, pois há grande participação de impostos sobre bens e serviços, que penalizam os mais pobres. Portanto, o ajuste fiscal pelos gastos é uma estratégia que desmonta justamente o lado progressivo da política fiscal.
Como mostrado no livro "Economia para Poucos", os efeitos sociais da austeridade já podem ser notados na restrição de acesso a saúde, educação, moradia e à deterioração do ambiente. Dada a sua seletividade, tais políticas impactam mais fortemente alguns grupos, especialmente negros e mulheres.

Mas há alternativas. Uma nota para discussão publicada pelo corpo técnico do FMI aponta que, nos últimos dez anos, houve diversas reformas nos regimes fiscais, constituindo as chamadas regras fiscais de "segunda geração".
As principais mudanças foram o aumento da flexibilidade (como novas cláusulas de escape para períodos de baixo crescimento) e aprimoramentos em sua aplicabilidade.
Os que se opõem à mudança nas regras fiscais brasileiras argumentam que isso levaria à fuga de capitais, com consequente crise cambial e aumento da taxa de juros, em situação similar à da Argentina.

Contudo, apesar de os dois países terem dívida pública em patamar semelhante, a dívida brasileira é predominantemente denominada em moeda nacional e as reservas internacionais (US$ 380 bilhões) superam em muito a dívida de curto prazo.
Na Argentina, o percentual da dívida do governo denominado em moeda estrangeira é cerca de 80% e tem curto prazo de maturação. As reservas internacionais da Argentina (US$ 65 bilhões) não são suficientes para liquidar sua dívida em momentos de diminuição da liquidez internacional, ao contrário do Brasil.

A manutenção do teto de gastos representa um entrave à retomada do crescimento econômico, amplia a crise social e aprofunda o desmonte dos serviços públicos. Situação que tende a se agravar com a ameaça do fim da garantia de recursos para áreas prioritárias como saúde e educação.
É preciso urgentemente repensar a política fiscal, considerando seus impactos econômicos, distributivos e na garantia dos direitos humanos. As evidências da literatura nacional e internacional, além dos dados da realidade brasileira, clamam por uma mudança imediata na condução da política fiscal.

Autoria:
Esther Dweck é professora do IE-UFRJ e ex-secretária de Orçamento Federal, Fernando Maccari Lara é professor da Unisinos, Guilherme Mello é professor do IE-Unicamp, Julia Braga é professora da Faculdade de Economia da UFF, e Pedro Rossi é professor do IE-Unicamp

Ver o debate com Esther e Pedro em O desmonte dos gastos com saúde e educação

Erramos: o texto foi alterado
20.setembro 2019
Estava incorreta a afirmação publicada no artigo “Por que cortar gastos não é a solução para o Brasil ter crescimento vigoroso?”, dos economistas Esther Dweck, Fernando Maccari Lara, Guilherme Mello, Julia Braga e Pedro Rossi, de que o resultado primário de 2007 a 2014 teve impacto próximo de zero sobre a dívida bruta do governo geral. Dados do Banco Central mostram que a contribuição foi de 2,18 pontos percentuais na média anual para a redução da dívida. Também estava incorreta a informação de que os déficits primários registrados de 2015 a 2018 responderam por apenas 0,5 ponto percentual do PIB/ano para o aumento da dívida bruta. A contribuição foi de 1,9 ponto percentual. Na arte “O que contribuiu para aumentar a dívida brasileira”, que ilustra o artigo, os dados incorretamente apresentados como impacto do resultado primário se referem, na verdade, à contribuição da emissão líquida.

Diversionismo

Há soluções que conciliam equilíbrio fiscal, crescimento e redução de desigualdades 

Laura Carvalho, Folha de São Paulo, 26/09/2019    

O artigo “Por que cortar gastos não é a solução para o Brasil ter crescimento vigoroso?”, publicado nesta Folha em 14/9 por Esther Dweck, Fernando Lara, Guilherme Mello e Pedro Rossi, interpretou de forma equivocada os dados disponibilizados pelo Banco Central quando argumentou que os déficits primários registrados de 2015 a 2018, por exemplo, teriam respondido por apenas 0,5 ponto percentual (p.p.) do PIB/ano para o aumento da dívida bruta do governo.

Na verdade essa contribuição alcançaria 1,9 p.p.

Nem mesmo a alteração significativa desses números invalidou os argumentos centrais do artigo, como pode ser verificado na versão já corrigida do site da Folha. Mas o erro tem de ser lamentado por ensejar uma enxurrada de reações virulentas nas redes sociais e veículos de mídia de quem parece
querer jogar areia sobre:
1) a falta de evidência empírica para a tese de que o crescimento desenfreado de despesas causou a crise econômica.
2) as sucessivas frustrações nas projeções de crescimento dos que defendiam que a agenda implementada no país nos últimos quatro anos traria de volta a confiança dos investidores.
3) a percepção crescente entre economistas e sociedade civil de que o corte de gastos sociais pode agravar nosso grave quadro de estagnação concentradora de renda.

Quanto ao primeiro ponto, cabe sempre lembrar que um erro não invalida o outro.
Marcos Lisboa, Marcos Mendes e Marcelo Gazzano em “Por que o governo deve cortar gastos para o Brasil crescer”, publicado também nesta Folha em 8/9, com o qual os autores buscavam debater, afirmam por duas vezes que as dificuldades orçamentárias no país derivam de um “crescimento acelerado de gastos obrigatórios”.Ora, os autores certamente sabem que o termo “aceleração” se refere à segunda derivada da variável, ou seja, só se aplicaria nesse caso a uma situação em que as despesas obrigatórias crescem a um ritmo cada vez maior.

Pois bem. De acordo com a Tabela 1.1-A da Secretaria do Tesouro Nacional, as despesas obrigatórias do governo central—benefícios previdenciários, despesas com pessoal e encargos sociais, e outras— cresceram em média, em termos reais, 6,6% ao ano entre 1998 e 2002; 7,4% ao ano entre 2006 e 2010; 4,9% ao ano entre 2011 e 2014, e apenas 2,1% ao ano entre 2015 e 2018.
Ou seja, de fato essas despesas cresceram um pouco mais rápido entre 2003 e 2010 —período em que o Brasil acumulou superávits primários graças ao crescimento também acelerado das receitas—, do que no segundo governo FHC.

Só que o primeiro ano de déficit primário em 2014 veio justamente após um período de desaceleração no crescimento dessas despesas. Em nenhum dos anos do período 2011-2014, a taxa foi superior à média do período 2003-2010.

Em vez de exigir outro Erramos, interessa mais à sociedade trazer o debate para o terreno das soluções que sejam capazes de conciliar equilíbrio fiscal, crescimento econômico e redução de desigualdades.

Abrir espaço para investimentos sociais por meio de medidas que eliminem subsídios e as famigeradas desonerações que é um excelente ponto de partida. As propostas recentes de Arminio Fraga, por exemplo, vão nessa direção.


Laura Carvalho
Professora da Faculdade de Economia, Administração e Contabilidade da USP, autora de "Valsa Brasileira: do Boom ao Caos Econômico".



sábado, 7 de setembro de 2019

O Narciso de Caravaggio

O meme do Caravaggio
Tela em museu próximo à capital alemã faz jogo de espelhos com museu italiano — e interpela o nosso narcisismo de celular


Narciso (1597-9), pintura de Caravaggio

Nos últimos meses, o Narciso de Caravaggio e seu espectro têm flutuado em pôsteres nas estações de trem em Berlim. Nas plataformas, diante da reprodução da pintura que guarda um duplo de si mesma, sempre há alguém de pé encarando o celular, colocando entre si e o mundo um outro tipo de espelho. 

Emprestado até outubro pela Galeria Nacional de Arte Antiga, sediada no Palácio Barberini, em Roma, o quadro é o carro-chefe da exposição Caminhos do Barroco, no Museu Barberini — o Barberini local. Cópia opaca, baseada num modelo em bronze do palácio romano de mesmo nome, o Barberini de Potsdam é um enclave de arquitetura italiana à beira do Havel. Construído no século 18 por Frederico, o Grande, e bombardeado nos estertores da Segunda Guerra Mundial, foi reerguido entre 2013 e 2016 para abrigar a coleção privada do proprietário da multinacional de software sap, Hasso Plattner.

O site do instituto com o nome de Plattner tem cinco fotos suas e um vídeo estrelado por si próprio, um altruísta que gosta de holofotes. A outro mecenas dado a erguer palácios com obras de arte é reservado semelhante destaque no primeiro andar do museu, onde vemos o papa Barberini posar na tradição francesa dos enormes retratos oficiais a óleo. Ao longo dos séculos, monarcas, papas e, hoje, capitalistas grisalhos mantêm a pretensão de se imortalizar ao abrir fundações, atuar como curadores e construir (ou copiar, ou reformar) palácios.

A sala onde está o Narciso não é a central e tampouco das maiores; estas estão ocupadas com uma seleção de discípulos e imitadores de Caravaggio, obras também vindas do Museu Barberini original em Roma. Trata-se de evidente espelhamento: o destaque da exposição é um quadro sobre um reflexo, os outros quadros são todos de reprodutores de Caravaggio e o próprio prédio é a cópia do principal museu que os abriga. O labirinto barroco e seu jogo de espelhos, máscaras e simulacros é representado pela própria estrutura que recebe a exposição.

Pintado entre 1597 e 1599, o Narciso é do início da carreira de Caravaggio em Roma, e só foi redescoberto  no século 20, pelo historiador Roberto Longhi em 1916 — apenas dois anos após o ensaio de Freud “Sobre o narcisismo”, que define o conceito psicanalítico como organizador do ego. Freud ou Longhi seriam incapazes de prever tamanha popularização do conceito — e muito menos o sofisticado aparato que carregaríamos no bolso para projetar versões de nós mesmos um século depois.

Teatro

O chiaroscuro é luz de teatro e aqui vemos o Narciso iluminado por um refletor de palco que apenas mostra o que devemos ver — o resto é um bloco negro sobre as costas do personagem, refletido mais abaixo em tons lavados. Caravaggio retrata o jovem agachado com as mãos na beira d’água numa composição que o aprisiona numa dança consigo mesmo: o braço esquerdo, imerso na água até o pulso, se prolonga no reflexo. Igualmente, a mão direita encontra o seu duplo na superfície da água — ele então parece um oroboro humano, uma figura antropomórfica presa num círculo.

Narcotizado de si mesmo, o personagem inclina a cabeça para baixo num movimento em direção ao próprio reflexo. Pelos músculos do pescoço e do braço direito, vemos que Narciso faz um esforço descendente e gradual. Um dos aspectos mais impressionantes é esse movimento: quando nos distraímos e voltamos a ele, a impressão é de que Narciso está um pouco mais perto do espelho. Quanto aos olhos, talvez seja o esforço, talvez o êxtase, mas ele os fecha em dois traços negros. A imagem no reflexo, de traços expressionistas, monstruosos, remete a um Goya das Pinturas negras (1819-23), lapso pré-moderno que ultrapassa os séculos nas águas turvas de Caravaggio.

Ao mesmo tempo que o Narciso de Caravaggio é um daqueles memes que atraem milhões de turistas, o termo originado pelo personagem mitológico atravessou o tempo de Ovídio e Pausânias, passando por Dante e Petrarca, até os dias de hoje. Já nos anos 1970, sociólogos começaram a tratar nossa era como narcísica e, desde então, à medida que escalamos as últimas fases do capitalismo tardio, o tal ethos só se fez mais presente. O cardápio é infinito: individualismo, consumismo, autopromoção, busca por fama, cocaína, cirurgias plásticas, obsessão pelo corpo, reality shows, redes sociais.

A depender, psicanalistas normatizam a condição — ou a tratam como epidemia no consultório. Se a presença de traços de caráter narcisista é aceita como um denominador comum entre os seres humanos, os extremos do espectro são classificados como distúrbio de personalidade pelo Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM-5), da Associação Americana de Psiquiatria (APA).

Não se trata simplesmente de vaidade desmedida ou de um Instagram cheio de selfies. Grosso modo, uma pessoa com distúrbio de personalidade narcisista é definida pela necessidade parasitária de se alimentar dos outros ao mesmo tempo que possui um senso de autoimportância desproporcional. Ao contrário do que poderia acontecer com narcisistas menos patológicos, sua necessidade de admiração não acompanha empatia alguma a sentimentos alheios e tampouco algo que psicólogos chamam de constância de objeto.

Muitos dos adultos que guardam o mecanismo de defesa de uma criança abandonada podem virar abusadores tóxicos, envolvendo familiares e parceiros em jogos de manipulação, controle via dissonância cognitiva e ciclos de sedução, desvalorização e descarte.

O que faz do Narciso de Caravaggio em Potsdam mais trágico do que belo em 2019 é pensar que tal processo pode ser coletivo. Sociedades que elegem narcisistas patológicos como Trump ou Bolsonaro se tornam perversas — ou vice-versa, uma vez que eles são espelhos perfeitos do éthos narcisista. Projetos de poder baseados em onipotentes sonhos de grandeza e em falta de empatia são gerados por traumas coletivos mal resolvidos (pense na escravidão ou na Lei de Anistia) e criadores de traumas ainda piores no futuro.

Quando o passado jamais se transforma em História, parecemos fadados a repeti-la — como um reflexo.

J. P. Cuenca
01 setembro 2019


quinta-feira, 29 de agosto de 2019

Tupi

Tupi: Uma história de coragem e determinação indígena

Frances Badia i Dalmares, EL PAIS
Santarém (Brasil) 28 agosto 2019

Assim como as cicatrizes se acumulam na casca das seringueiras por toda a Amazônia, os indígenas também carregam feridas profundas em seus corpos, cicatrizes muito antigas. A primeira ameaça industrial de dimensão catastrófica que caiu sobre a Amazônia foi a febre da borracha (1879/1912), que irrompeu nesses territórios remotos e quebrou um frágil equilíbrio entre o ser humano e a natureza exuberante da floresta, alcançada com o esforço de séculos de adaptação e simbiose. A extração maciça de borracha significou o abuso, a escravização e até o extermínio de aldeias indígenas inteiras.

https://www.youtube.com/watch?v=QAyqqL0q-w4 

Hoje, entre diversos povos tradicionais e demais populações que vivem nas margens do rio Tapajós e afluentes, pode-se observar o imenso dano que a extração industrial de seus ricos recursos naturais trouxe para seus modos de vida tradicionais. O modelo de desenvolvimento imposto pelo capitalismo causou o colapso de toda sua biodiversidade, afetando ao equilíbrio dessa terra fértil e sagrada.

Aqui nunca foi fácil viver. Apesar do massacre devastador da colonização, os povos indígenas manejaram sabiamente a sua relação com natureza, e conseguiram continuar a viver em assim por centenas de anos.

Tupi toma banho com seu filho de 10 anos. Foto de Pablo Albarenga

 A Cabanagem (1835-1840) no Grão-Pará, marginalizada por muitos ainda citados nos livros, pelo contrário foi um grande ato de resistência, onde hoje tentam aos poucos desconstruir essa narrativa negativa contra a luta popular, infelizmente terminou com a morte de muitos indígenas que guerrearam pelo ideal de retomar sua liberdade roubada pelo opressor, incluindo a extinção dos povos Murá e Mauê, sistematicamente ameaçou a sobrevivência de outros povos indígenas e os levou a abandonar suas culturas, suas línguas e suas tradições, especialmente devido à influência violenta dos missionários que representavam um terrível dilema: ou eles se convertiam ao cristianismo, negando sua cultura e suas raízes ancestrais, ou morriam.

O antropólogo Claude Levy-Strauss afirmou categoricamente, em sua obra-prima Tristes Trópicos(1955), que a modernidade violava toda a virgindade indígena, mesmo a mais remota. O mito do índio imaculado é um fantasma que apenas alguns antropólogos românticos e viajantes desinformados buscam. Ele desapareceu para sempre, há muito tempo atrás.


Tupi colhe flores e grandes folhas de palma para enfeitar a mesa 
durante uma jornada de discussão sobre gênero na aldeia San Francisco
Hoje, nas margens do rio Tapajós encontram-se os Tupinambás resistindo e protegendo, há mais de 519 anos, seu patrimônio ambiental, territorial e cultural, juntamente com outros diferentes povos na região, tendo como principal bandeira de luta a demarcação de seu território, hoje situado na Reserva Extrativista Tapajós Arapiuns, município de Santarém.

A resistência Tupinambá contra o processo de colonização a qual foram submetidos é evidenciada de diversas maneiras, desde a ligação com a natureza, crenças, costumes, até suas narrativas orais, ainda não contadas nos livros de história. É nesse território de ancestralidade que esse povo conta sua espiritualidade estabelecida com os Encantados do rio Tapajós. Onde a voz do seu povo ecoa em todos os espaços para terem o seu Protocolo de Consulta respeitado, defendendo que todos os povos tradicionais possam continuar navegando e se alimentando do rio, mantidos e protegidos pelos seus lugares sagrados.

A aldeia de São Francisco é um bom exemplo de tudo isso. É no percurso entre a aldeia e a cidade, onde a jovem indígena Tupi luta para se reconstruir, que algumas das feridas e violências que persistem entre as comunidades amazônicas às margens do rio Tapajós são explicadas de alguma forma. Dadas as circunstâncias em que Tupi cresceu, levantar-se sozinha e caminhar com passo firme requer coragem excepcional. E coragem Tupi tem muito.

Coragem para recuperar uma relação harmoniosa com o território, como aquela que tiveram seus avós e bisavós, mas que desabou há muito tempo.

Coragem para superar uma história de violência sexual, física e psicológica nas mãos de um companheiro abusivo, que morreu tragicamente em um acidente de moto.

Coragem para se levantar e educar seu único filho. Coragem para construir uma vida autônoma e estudar na cidade. Coragem também para se olhar diante do espelho e assumir o trauma da opressão e da violação sistemática.

Coragem para finalmente enfrentar o silêncio que a oprimia, como o que oprime tantas outras mulheres, usando como arma a contínua humilhação.


Tupi conversa com suas amigas em uma das fontes próximas a sua casa.

Mas Tupi se reencontrou em suas raízes, redescobrindo a força necessária para fortalecer sua própria ancestralidade Tupinambá e afirmando, ao mesmo tempo, sua feminilidade. Passar por esse processo ao lado de outras mulheres que, com coragem semelhante, estão na luta para reconhecer o abuso, a violação e os maus-tratos através da solidariedade e da ação coletiva.

Fazer parte de um movimento, aprender a liderá-lo, aprender a construir um espaço de liberdade é o que faz dessas mulheres seres excepcionais para sua comunidade. Tupi busca na terra e nos valores de seus ancestrais uma narrativa de continuidade com uma origem, de resistência ancestral, e que traduz na sua transmissão para o filho (João) sua mais poderosa razão de existir.
João é o filho que dá a Tupi, ao mesmo tempo, a energia e a paixão necessárias para se situar em um tempo histórico mais longo, para se sentir como um elo de uma saga.

Mas enfrentar a luta diária e, ao mesmo tempo, colocar as coisas em contexto e olhar para frente, não é uma tarefa simples. Para tornar essa jornada possível, o apoio de outras mulheres da comunidade desempenha um papel fundamental. Isso faz com que a vulnerabilidade de ser uma mulher isolada, uma mãe viúva marcada pela tragédia, se torne uma força, uma resolução.

Como já é o caso em muitas cidades, ser mulher entre mulheres que apoiam umas às outras é cada vez mais frequente nas comunidades e aldeias ao longo do rio. Se organizar na luta representou para Tupi a âncora que lhe permitiu sair da opressão, e se tornar alguém. Participar ativamente das ações de conscientização e reivindicação, cada vez mais frequentes, dá sentido à luta individual e coletiva.

Tupi pertence ao coletivo de mulheres indígenas Suraras do Tapajós, que há alguns anos opera na vila de Alter do Chão, também aldeia Alter do Chão-Território Borari, do outro lado do rio a mais de duas horas de lancha. É uma viagem nem sempre amistosa ou segura, sujeita às inclemências do vento e da chuva, que às vezes se intensificam enormemente. Fazer parte desse grupo, afirmar-se como mulher entre mulheres, recuperar, por exemplo, fragmentos da língua indígena, muitas vezes através de cantos realizados pelo grupo de Carimbó (ritmo popular do estado do Pará) que elas formaram recentemente, acabou sendo para Tupi uma via de fortalecimento e libertação.

"Eu virei uma mulher que desabrochou", diz ela com emoção. "Eu não sabia a força que eu tinha armazenada aqui dentro. Entre tantas coisas, não tinha a coragem de falar, não sabia falar". O coletivo acompanhou Tupi, dando conforto e coragem para ela suportar a dor que carregava e para se sentir alguém de novo, ou talvez pela primeira vez.

E esse sentimento, Tupi vive com muita felicidade. Sentir-se útil, poder falar em nome de outras mulheres Tupinambá também vítimas de abusos, e poder fazê-lo em outros âmbitos, além da aldeia de origem, é uma missão que Tupi assume, mesmo com alguma insegurança.
Mas, além de garantir um futuro para João, Tupi aprende a treinar outras mulheres para lutar pela demarcação e conservação do território e reforçar a ancestralidade Tupinambá recentemente reconstruída. "Eu não consigo falar sobre mim, mas sim sobre nós. É daí que vem a minha emoção.

Nós temos uma voz, nós temos que defender o território". Para Tupi, há uma parte importante de aprendizagem na sua jornada em direção ao ativismo e à reivindicação.
Aprender com outras mulheres, consigo mesmo, com os anciãos, professores da aldeia. Seu interesse em reconstruir uma voz indígena para compartilhá-la com outras mulheres, mesmo que seja dos escombros de um mundo praticamente desaparecido, é fundamental no exercício da luta pela sobrevivência, pela resistência.

Mas onde Tupi cresce e ganha força, onde ela acumula coragem suficiente para se sentir verdadeiramente útil para as mulheres de seu território, é na ação coletiva. Na aldeia de São Francisco, Tupi e um pequeno grupo de mulheres se organizaram para um exercício de voz ativa enquanto mulheres Tupinambás.

Ao cair da tarde, as mulheres da aldeia prepararam uma espécie de procissão sincrética. Em uma procissão ao longo da principal "avenida”, as mulheres levaram duas pequenas imagens de duas santas de devoção local. Confeccionaram também uma série de cartazes com frases contra a violência de gênero e feminicídio. Elas distribuíram velas entre os participantes e, ao anoitecer, com um ritmo lento, mas determinado, um grupo de mulheres e meninas caminhou ao longo da avenida, acompanhadas por alguns (poucos) homens.

Entre cantos da igreja, mistérios do rosário e pais-nossos, o grupo parou em várias ocasiões para lançar slogans de protesto e repetir denúncias. Com uma mistura de devoção e raiva reprimida, elas liam, uma a uma, passo a passo, os slogans dos cartazes. Os mistérios do rosário marcam a pausa, a petição. Os homens estão quase invisíveis e, à medida em que a procissão passava em frente à mercearia, num gesto ostensivo, com o que parecia uma mistura de surpresa e desdém, apenas olhavam.

Ao ritmo da marcha, portas e janelas se entreabrem e uma mulher, com um bebê no colo, olha de canto de olho timidamente. A procissão-manifestação-ritual avançava sem ter muito bem um rumo. Cada pausa se transformava em uma invocação. As mulheres estavam bem conscientes de que estavam envolvidas em um ato de transgressão de uma ordem há muito estabelecida.

O fogo das velas acrescentou drama, emoção e liturgia à procissão. Havia algo de evocação também, evocação essa de um mundo mágico e sagrado de ressignificação que em outros tempos reinou nestas terras indígenas. Acima de tudo, entre essas mulheres o que existe é determinação. Elas sabem que ninguém virá em seu auxílio, que sua aposta é alta, que a tarefa à frente requer uma força que só pode ser alcançada se elas se unirem. E se conseguirem se multiplicar.

Mas nada é fácil nesta castigada terra Tupinambá. Os povos indígenas há muito aprenderam que resistir é sobreviver. Também organizada por mulheres, uma ação simbólica encerra a procissão.
Desenhado na terra, um grande arco e flecha encarna muitas lutas pela sobrevivência. A luta dos indígenas. A luta das mulheres. A luta pela demarcação e conservação do território. A luta de Tupi.
As mulheres, adolescentes e meninas da procissão, vão colocando suas velas no desenho previamente traçado na areia da estrada: uma foto aérea dará a dimensão do símbolo.

No dia seguinte, em uma assembleia realizada na escola indígena da aldeia, as mulheres avaliam, conversam e decidem. A tarefa à frente será difícil, mas não há como voltar atrás. Conseguir que as feridas das violências cicatrizem em seus corpos, como curaram as feridas das seringueiras após a extração da borracha, é o objetivo final de tudo isso.
Dois dias depois, Tupi é reunida com seu filho em Alter do Chão, base também do movimento das Suraras do Tapajós. Naquele momento de comunhão mãe-filho, no banho no rio sagrado que tanto significa neste aquífero, Tupi já sabe que, protagonizando essa história, protagoniza junto com ela uma história de força e superação.

Ela espera juntar-se a tantas mulheres que, cada vez em maior número, decidem dar um passo à frente na reconstrução de sua própria luta como mulheres, como povos indígenas e como protagonistas da sua própria biografia. Em um mundo amazônico, devorado por múltiplas ameaças e violências, a história de Tupi é uma de coragem e determinação.

https://brasil.elpais.com/brasil/2019/07/03/actualidad/1562148915_640259.html

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

ANGUSTIA de Graciliano


Romance desagradável, abafado, ambiente sujo, povoado de ratos, cheio de podridões, de lixo. Nenhuma concessão ao gosto do público. Solilóquio doido, enervante. E mal escrito. A edição encalharia no depósito, roída pelos bichos. Não venderiam nem cem exemplares; repisei esta convicção, quis transmiti-la ao editor antes que ele se arriscasse.

A afirmação de Graciliano Ramos sobre o seu romance "Angustia" de 1936, está em seu outro livro: "Memórias do cárcere", publicado em 1953.

Contradizendo o autor, Angustia, se tornou o livro mais cult de sua bibliografia.

"Seu receio em relação à recepção do público vincula-se, por um lado, a sua notória autocrítica e às falhas de revisão e digitação decorrentes das circunstâncias da publicação do romance. Descarta a possibilidade de realizar algumas correções no texto, pois a hipótese de uma reedição futura lhe parece absolutamente descabida. No entanto, pode ser precipitado associar toda a apreensão do escritor alagoano à postura implacável diante de seus próprios textos. Sua preocupação com a opinião da crítica provavelmente está relacionada também ao alto teor moderno de seu romance, que poderia parecer excessivamente estranho no cenário literário nacional da década de 30... Outro testemunho do prestígio já desfrutado pelo livro narrado por Luis da Silva é um inquérito sobre os dez melhores romances brasileiros empreendido pela Revista Acadêmica entre 1939 e 1941. O resultado dessa pesquisa, na qual foram entrevistados aproximadamente cem intelectuais, é bastante surpreendente: Angústia foi considerado o segundo melhor romance de todos os tempos, perdendo apenas para Dom Casmurro. Dentro do quadro dos livros publicados na década de 30, sua primazia, entretanto, foi absoluta". (Ferreira, Carolina Duarte Damasceno)

Li Angustia recentemente (da Editora Record, 73ª edição, 2019). Impactante para quem já leu do mesmo autor Vidas secas, Memórias do cárcere, São Bernardo e Alexandre e seus heróis. Outra linguagem, outra estrutura de texto e outros temas. Presentes: memórias, paixão por uma mulher, ciumes, crime passional e culpa.

"O Brasil descrito pelas micronarrativas é o de República Velha (1889 - 1930). Ali estão plantadas as raízes sentimentais de Luis. Ele não é um citadino. Transportara-se do campo para a capital, transportando-se em representante típico da juventude tenentista, isto é, "molambo que a cidade puiu demais e sujou". Nas comunidades rurais alagoanas,o relacionamento entre os humanos é rude e áspero. São todos dominados pela vontade férrea do coronel, que toma assento no topo da pirâmide político - familiar." (Silviano Santiago).

Quanto à narrativa, Angustia tem pontos em comum com Crime e Castigo de Dostoiévski. Graciliano sempre negou esta influência. Mas a culpa pelo crime e a autopunição estão lá.

"Os defeitos de composição na frase e no discurso ficcional não empanam a alta qualidade do romance. Ponhamos abaixo o contrassenso. Dos casulos de redundância nascerão borboletas! O romance é excepcional porque recebeu a composição justa. A superabundância dos detalhes foi alimentada pela imaginação enraivecida do apaixonado. A compulsão à repetição foi impulsionada pela escrita do paranoico obsessivo. Marina e o assassinato de Julião, o crime e a autopunição - eis os pontos fulcrais da experiência de Luis da Silva em Maceió, narrada por ele próprio. Composto de outra forma, Angustia não teria sido tão exitoso. " (Silviano Santiago)

Quem ainda não leu Angustia está perdendo.

Citações
Ferreira, Carolina Duarte Damasceno,
O Lugar da ficção em Angústia, de Graciliano Ramos, Campinas, SP, 2005,
Orientadora : Maria Eugênia Boaventura.
Dissertação (mestrado) - Universidade Estadual de Campinas,
Instituto de Estudos da Linguagem.

Silviano Santiago, posfácio no livro citado, da Record

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

Elzita

João Valadares, Recife, Folha de São Paulo, 04/08/2019

Uma saga de 45 anos que envolve pistas falsas, visitas a quartéis, cemitérios, manicômio judicial, súplicas a presidentes e pedidos de ajuda a organizações internacionais. Ao seu lado, a companhia angustiante de uma mãe em busca de um filho: o silêncio oficial.
Até a morte, aos 105 anos, há pouco mais de um mês, Elzita Ramos de Oliveira Santa Cruz carregou como bandeira e razão de vida a pergunta sem resposta sobre o paradeiro do filho que repetiu enquanto tinha voz.

Morreu, em 2019, sem conseguir enterrar Fernando Santa Cruz, desaparecido em fevereiro de 1974, após ser preso em um sábado de Carnaval por órgãos de repressão da ditadura militar, numa esquina de Copacabana, no Rio de Janeiro.
No início da semana passada, o caso voltou à tona, quando o presidente Jair Bolsonaro (PSL) cutucou uma ferida que nunca sarou na família. De forma irônica, disse que poderia contar ao presidente da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Felipe Santa Cruz, filho de Fernando, como seu pai havia desaparecido nos tempos de repressão.

Bolsonaro relatou, na contramão do que evidenciam documentos históricos, que o militante político teria sido morto por integrantes da Ação Popular, grupo de esquerda contrário ao regime militar.
Um dia depois, o presidente ainda chamou de "balela" os documentos da Comissão Nacional da Verdade (CNV), o único e pequeno alento que o Estado brasileiro conseguiu oferecer a Elzita na tentativa de reconstruir minimamente as circunstâncias do assassinato de Fernando.

Pernambucana de Água Preta, interior do estado, mãe de dez filhos, com 28 netos e 32 bisnetos, Elzita morreu sem ter em mãos o atestado de óbito retificado no fim de julho pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos, vinculada ao governo federal.

Na última quinta-feira (1º de julho de 2019), o cartório liberou o documento para a família no qual aponta que Fernando foi vítima de “morte não natural, violenta, causada pelo estado brasileiro.”O sofrimento de Elzita, que serviu de adubo para sua conscientização política, começou em 1967, quando Fernando foi preso pela primeira vez, no Recife, após ter queimado uma bandeira dos EUA durante um protesto.

Foi levado a um juizado para menores e liberado em uma semana, após Elzita conseguir declaração de médicos do IML (Instituto de Medicina Legal) atestando que seu filho ainda iria completar 18.
Três anos depois, Marcelo Santa Cruz, o seu segundo filho, foi expulso da Faculdade de Direito do Recife. Por sua atuação política, teve os direitos estudantis cassados e foi estudar em Lisboa, Portugal.
No Brasil, Elzita, casada com o médico sanitarista Lincoln de Santa Cruz Oliveira, fazia contas para ajudar o filho a se manter no exterior.

Em 1971, logo após o retorno de Marcelo ao Brasil, sentiu o braço mais forte da repressão. Rosalina Santa Cruz, a filha mais velha, hoje professora da PUC-SP, foi presa no Rio de Janeiro ao lado do marido, o engenheiro agrônomo Geraldo Leite.

O episódio é retratado no livro “Onde Está Meu Filho?”, de Chico de Assis, Cristina Tavares, Gilvandro Filho, Glória Brandão, Jodeval Duarte e Nagib Jorge Neto. Rosalina integrava o grupo de extrema esquerda VAR-Palmares, que participou da luta armada contra o regime militar.
Após 55 dias sem nenhuma notícia, Elzita recebeu a ligação de um oficial do Exército dizendo que passaria às 6h em um carro descaracterizado para levá-la até a filha. “Vou sozinha. Estou disposta a correr todos os riscos”, disse na ocasião ao filho Marcelo.

Pouco tempo depois, encontrou a filha cheia de curativos e manchas roxas pelo corpo. Ela estava na sede do 1º Exército, no Rio de Janeiro. Diante dos agentes da repressão, perguntou a ela se eles haviam a torturado. A filha desconversou. Por causa das pancadas nos ouvidos, chutes e choques elétricos, teve um aborto na prisão.

Um oficial informou a Elzita que ela estava lá para convencê-la a colaborar. Retrucou e disse que não educou a filha para entregar ninguém. Na saída, recusou-se a assinar um termo para atestar que Rosalina estava bem fisicamente.
A filha só foi solta um ano depois, em 1972. E o pesadelo de Elzita que a acompanharia até a morte chegou dois anos depois.

O PESADELO

Militante da Ação Popular Marxista-Leninista, Fernando foi visto pela última vez por seus familiares no 23 de fevereiro de 1974. Desapareceu junto com o amigo de infância Eduardo Collier Filho.
A partir daí, teve início a busca que iria durar a vida inteira. Sem derramar lágrimas públicas, desafiou generais, questionou torturadores e escreveu cartas para autoridades.

Fazia peregrinações no Congresso para entregar pessoalmente cartas a deputados. No mercado, no açougue e nas filas de banco, falava abertamente que a ditadura militar havia sumido com seu filho.
A Armando Falcão, então ministro da Justiça de Ernesto ​Geisel (1974-1979), rebateu a informação recebida de que Fernando estava na clandestinidade. “Que clandestinidade seria esta, que transformaria um filho respeitoso, carinhoso e digno em um ser cruel e desumano, que desprezaria a dor de sua velha mãe, a aflição de sua jovem esposa e o carinho do seu filho muito amado?”, questionou.

Antes, por intermédio de dom Paulo Evaristo Arns, havia estado pessoalmente, junto com mais 12 famílias de desaparecidos, com então ministro-chefe do Gabinete Civil Golbery do Couto e Silva. Quando começou a falar do seu filho, foi interrompida de imediato. Golbery afirmou que, sobre aquele caso, tinha mais informações. A resposta que, num primeiro momento deu ânimo e esperança, nunca veio.

Em outubro de 1974, enviou cartas a Ernesto Geisel e à primeira-dama Lucy Geisel. "Por que, senhor presidente, se nega em um país democrata o direito de defesa, o respeito à vida de uma pessoa? Por quê?", escreveu.

Foi recebida no terraço da casa do conhecido general do Exército Antônio Bandeira, que comandou as tropas empregadas na Guerrilha do Araguaia. Voltou sem resposta. Escutou apenas que ele não poderia fazer nada. Em 2012, no livro escrito pelo jornalista Marcelo Netto “Memórias de uma Guerra Suja”, o ex-delegado Cláudio Guerra disse que os corpos de Fernando, Collier e outros dez desaparecidos foram incinerados em fornos numa usina de açúcar de Campos de Goytacazes (RJ). Para familiares, Elzita reagiu como ainda quem guardava esperança de enterrar o filho. “Vocês vão acreditar na palavra de um torturador?”, disse.

Por meio do então arcebispo do Recife e Olinda dom Helder Câmara, com quem sempre se encontrava, fez chegar a Rosalynn Carter, ex-primeira dama dos EUA, casada com Jimmy Carter, uma correspondência em que pedia ajuda.

Marcelo Santa Cruz relembra que dom Helder dizia para Elzita: “A senhora tome cuidado. Eu sou como fogo. As pessoas quando chegam aqui saem todas queimadas”, num alerta sobre a repressão. Ela respondia: “Eu já estou no inferno faz muito tempo”.

A cada pista nova, surgia uma esperança. Meses depois do desaparecimento, chegou a informação de que Eduardo Collier estaria na França. Logo em seguida, verificou-se que não era verdade.
Em seguida, Elzita foi atrás de uma pista que dava conta de que Fernando estaria no Hospital Psiquiátrico do Juqueri, em Franco da Rocha, na região metropolitana de São Paulo.
Levou fotografias, distribuiu com os funcionários e voltou ao Recife sem encontrar o filho. Há 12 anos, esteve no IML (Instituto Médico-Legal) do Rio de Janeiro porque ficou sabendo que um homem muito parecido com Fernando foi enterrado como indigente. Olhou as fotografias e viu que não era seu filho.
Perdeu as contas de quantos quartéis visitou no Recife, no Rio de Janeiro e em São Paulo. Também esteve em inúmeros cemitérios na tentativa de achar as ossadas do filho.
Até morrer, Elzita mantinha o mesmo número do telefone fixo, na esperança de que o filho desaparecido pudesse ligar para casa ou que qualquer pista pudesse chegar a ela. Em um dos quartos de sua casa, guardava fotos, documentos e roupas de Fernando.

No aniversário de 102 anos, já bastante debilitada de saúde em razão da idade avançada, conseguiu completar, estimulada pelos filhos, o poema de autor desconhecido que repetiu a vida inteira.
“Hei de vê-lo voltar, ela dizia, o meu doce consolo, o meu filhinho. Passam-se anos, e o véu do esquecimento baixando sobre as coisas tudo apaga. Menos da mãe, no triste isolamento, a saudade que o coração esmaga."

QUEM FOI FERNANDO SANTA CRUZ DE OLIVEIRA

Fernando desapareceu em fevereiro de 1974, após ser preso por agentes do DOI-Codi, órgão de repressão da ditadura militar, no Rio de Janeiro. Ele era pai do atual presidente da OAB, Felipe Santa Cruz, na época um bebê de dois anos.

Nascido no Recife, se juntou no fim dos anos 1960 à Ação Popular Marxista Leninista, grupo dissidente da Ação Popular, da juventude católica.
Nenhum documento escrito sobre ele pela própria ditadura o vincula a qualquer ato violento ou da esquerda armada. Fernando não era processado quando desapareceu, aos 26 anos. Ele usava seu nome e sobrenome reais e era funcionário público de uma empresa de água e energia de São Paulo.
No Carnaval de 1974, foi visitar seu amigo Collier, que morava no Rio. Desapareceu quando se dirigia ao encontro, em Copacabana.

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/08/elzita-teve-saga-de-45-anos-em-busca-de-filho-alvo-de-sarcasmo-de-bolsonaro.shtml  05/08/2019

ELZITA SANTOS DE SANTA CRUZ OLIVEIRA (1913 - 2019)

Elzita buscou respostas de regime após desaparecimento de filho

Artur Rodrigues, 27/06/2019, Folha de São Paulo

A vida da pernambucana Elzita Santa Cruz se transformou no Carnaval de 1974, quando um dos filhos saiu e nunca mais voltou. O estudante de direito e funcionário público Fernando Augusto Santa Cruz, com 26 anos, desapareceu no Rio de Janeiro, a caminho de um encontro com militantes da Ação Popular Marxista-Leninista.

Ela, então, iniciou uma peregrinação por prisões, quartéis e órgãos de repressão, em busca de resposta.

Elzita Santa Cruz em frente à foto do filho Fernando, desaparecido durante a Ditadura Militar - Reprodução

"É justo, é humano, é cristão que um órgão de segurança encarcere, depois de sequestrar, um jovem que trabalhava e estudava, sem que à sua família seja dada qualquer informação sobre o seu paradeiro e as acusações que lhe são imputadas? Que direi ao meu neto quando jovem for e quando me indagar que fim levou o seu pai, se ele não tiver a felicidade de ver seu regresso?", escreveu, em carta ao marechal Juarez Távora, em 1974.

Filho de Fernando e neto de Elzita, o advogado Felipe Santa Cruz, hoje presidente do conselho federal da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), afirma que a avó fazia o confronto às autoridades com destemor. "Mas ela era doce e poética, representava a coragem das mães e o direito da mãe ter o corpo do próprio filho."

Elzita, que teve ainda dois outros filhos perseguidos pela repressão, virou um símbolo da luta contra a Ditadura. Após a redemocratização, continuou buscando por uma resposta para a pergunta que repetiu por 45 anos: "Onde está meu filho?". Documentos públicos revelariam que ele foi preso pelas forças da repressão, mas não seu paradeiro.

O caso de Fernando foi um dos analisados pela Comissão da Verdade e Elzita venceu o Prêmio Nacional de Direitos Humanos em 2010.

Ela, que vivia em Olinda (PE), morreu aos 105 anos na terça-feira (25), sem as respostas que queria. Deixa sete filhos, 28 netos e 24 bisnetos.

https://www1.folha.uol.com.br/cotidiano/2019/06/mortes-mae-destemida-virou-simbolo-contra-ditadura.shtml  05/08/2019