sexta-feira, 5 de julho de 2019

Moro, o justiceiro vingador e o PT

Desmoralização de Moro não inocenta o PT, diz Ruy Fausto

Ruy Fausto, Folha de São Paulo, 5 de julho de 2019

Autor argumenta que Sergio Moro repete história de Freud e tenta se defender com lógica insustentável, incapaz de livrá-lo das evidências de que a Lava Jato atropelou a lei. Tal constatação, contudo, não inocenta e não corrige os erros do PT.

Em duas de suas obras, Freud conta uma história deliciosa para ilustrar o quanto e como a contradição habita o inconsciente. Um cidadão se queixa de que emprestou um caldeirão ao vizinho, que o devolveu furado. Investigado e inquirido, o vizinho respondeu: 1) ele não me emprestou caldeirão algum; 2) eu o devolvi intacto; 3) o caldeirão já veio furado.

As respostas do ex-juiz e ministro da Justiça, Sergio Moro, aos que criticam a atuação dele e do procurador Deltan Dallagnol, postas à luz pelas revelações do site The Intercept Brasil, são de um teor comparável. Moro respondeu: 1) as informações podem ter sido adulteradas; 2) elas não contêm nada demais. E acrescenta que a eventual adulteração talvez tenha sido parcial.
Sem dúvida, os defensores do midiático ex-juiz dirão que a comparação não procede. No caso do personagem de Freud, as respostas se contradizem. Se não houve nenhum empréstimo, o caldeirão não poderia ter sido devolvido, nem o vizinho saberia que ele já veio furado. E se ele já veio furado, não poderia ter sido devolvido intacto.

Já no caso de Moro, diriam: as informações podem ser eventualmente falsas (em parte ou na totalidade) e, além disso, não conter nada de escandaloso.
Respondo: em termos da lógica, entendida no sentido teórico mais estrito, é assim mesmo. As respostas de Moro são compatíveis. Porém no registro de uma lógica pragmática, elas são contraditórias, e esse registro é essencial, tanto mais em se tratando de questões políticas.
A diferença entre a lógica teórica, em sentido estrito, e a pragmática não é difícil de exemplificar. Se digo que não sou capaz de improvisar um discurso em chinês, essa frase, em termos estritamente lógicos, é verdadeira. Mas em termos pragmáticos, ela é falsa. Por quê? Porque se, de fato, eu não sou capaz de improvisar um discurso em chinês, também não sou capaz de fazer menos do que isso em chinês, como ler um discurso ou mesmo entender algumas palavras.
Ora, a frase sugere o contrário. Faz supor que, embora eu não possa improvisar um discurso em chinês, eu seria capaz de fazer alguma coisa mais modesta, sem dúvida, no registro daquela língua.
Existe aí um “halo lógico-pragmático”, que é inseparável da frase. Como ele enfoca uma afirmação não verdadeira, a frase é pragmaticamente falsa. Com o discurso do ex-magistrado, acontece coisa análoga.

Nos dois casos, temos o efeito dos “halos lógico-pragmáticos”. Só que, em um deles, o halo recobre uma afirmação falsa e, no outro caso, o halo é de negações que induzem a falsidade pragmática do conjunto dos enunciados. Porém, em ambos, existe um campo mal iluminado de frases implícitas, que produzem um efeito de ilusão.

Como já disse, em sentido estritamente lógico, as respostas de Moro podem ser todas verdadeiras. O material divulgado pelo Intercept teria sido eventualmente adulterado (total ou parcialmente) e, ao mesmo tempo, não traria nada de mais. Em termos pragmáticos, entretanto, um dos enunciados põe em xeque o outro, o que significa que eles acabam se falseando mutualmente.
De fato, se as gravações são eventualmente falsas, por que dizer que nelas não há nada de chocante ou escandaloso? Verdadeira ou não, essa segunda afirmação, que pretende funcionar como um reforço da primeira tira, na realidade, a força dessa e, no limite, a anula. Inversamente, se não há nada de mais nas revelações, por que dizer que são eventualmente falsas?

Verdadeiro ou não, o segundo enunciado cria, de novo, um problema. A imputação da eventual falsidade das gravações retira a força da afirmação de que não há lá motivo de escândalo e, no limite, a anula. Restaria talvez a sub-hipótese de que elas sejam “em parte“ eventualmente falsas, em parte verdadeiras. Essa sub-resposta é a “colagem” das duas principais, a tentativa de conciliar afirmações pragmaticamente incompatíveis. Ela seria aceitável?

Observe-se, primeiro, que essa solução —que constitui, na realidade, uma terceira resposta— não é a última das teses propostas. Moro disse ainda que houve “descuido“ ao transmitir informalmente o que teria de ser objeto de uma transmissão formal. E mais: afirmou também e principalmente que “não se lembra”. Ó santa amnésia, mãe dos mentirosos.

Vê-se que não se pode acusar Moro de não nos ter dado uma resposta —são pelo menos cinco. A tese mais complexa, a de que as revelações sejam em parte verdadeiras, em parte eventualmente falsas, o obrigaria a dizer o que há lá de verdadeiro e o que há de eventualmente falso.
Ele deveria ter dito, por exemplo: “Eu jamais instruí o procurador Dallagnol a não enviar supostas revelações sobre certo político que poderia ser um aliado precioso”. Ou: “Eu jamais sugeri que se ouvisse certa testemunha”.
Ora, Moro não disse precisamente isso. O que sugeriu é um axioma de ordem geral: lá onde as gravações revelam procedimentos juridicamente ilegítimos, é que se trata de passagens eventualmente falsificadas; lá onde as conversas não contêm nada de legalmente ou moralmente imputável, elas são autênticas.

Com esse algoritmo sofístico, ele ganha sempre a partida. Use o procedimento 1 se for possível. Se não for, use o 2. Se não der o 2, tem o 3. O caldeirão nunca foi emprestado. Voltou intacto. Já estava furado. Esse jogo de respostas é uma confissão de culpa. Moro sofisma e mente como respira. Ele ganha sempre nos dados porque os dados estão viciados.

Moro é um justiceiro que teve o destino de todos os justiceiros. Desandou. Em nome da “justiça”, definida pelo seu ilibado senso moral, ele e seu bando praticaram toda a sorte de irregularidades e ilegalidades: interceptação ilícita de conversas telefônicas, interferência no trabalho dos procuradores (para usar um eufemismo), deposição “sob vara” lá onde a lei não pedia, decretação de prisões preventivas sem justificativa (uma delas resultou em suicídio de um professor universitário).
Diz-se, com razão, que Moro e os seus seguem o velho e mortífero adágio de que os fins justificam os meios. Mas é preciso se debruçar sobre o sentido específico do caso. Digamos que Moro e seus amigos teriam partido de uma causa justa: combater a corrupção, doença endêmica —mas não a única— da política brasileira (hoje já não se tem certeza de que o ponto de partida do herói tenha sido esse, mas pode ter sido). O bravo juiz se dispôs a utilizar todos os meios, legais e ilegais, para atingir os seus objetivos.

Houve uma corrida de obstáculos em direção ao reino da “justiça”. Observe-se que os obstáculos, no caso, são nada menos do que as leis do país, que os justiceiros-velocistas aprenderam a pular. Como resultado, Moro ajudou a eleger um governo —do qual logo se transformou, sem a menor vergonha, em ministro da Justiça— que não apenas herdou o hábito da corrupção que sempre caracterizou a política brasileira (ou se deve supor que o desvio de salários de representantes eleitos é coisa sem importância?), mas que também acumula com isso ligações “estranhas” com as milícias e que pratica a política mais retrógrada, mais medíocre, mais intolerante que já se viu no país. Pior do que isso, trata-se de um governo autocrático, para dizer o menos, já que seu objetivo, suficientemente explícito, é acabar com os poderes “intermediários”, isto é, o Congresso, a mídia independente, e também a universidade.

Essa foi a contribuição que o justiceiro deu ao seu país. Ele passará para a história como um dos parteiros desse monstro político que é o governo Bolsonaro, um governo que nomeia ministros a partir dos sábios conselhos de uma estrela do norte que brilha na Virgínia. Uma estrela que tem como troféu a escolha dos que foram, provavelmente, os três piores ministros que o Brasil já teve em toda a história, a qualidade dos indicados, diga-se de passagem, ilustrando bem a daquele que os indicou.
Do balanço das façanhas de Moro, o Vingador, resulta que os governos petistas foram inocentes (prefiro formular desse modo geral a questão)?

Se a irregularidade e a ilegalidade de Moro e seus pastores (e pastoras) são evidentes e escandalosas, isso significa que devemos inocentar absolutamente o PT nas suas práticas de governo?
Estou convencido de que não. A violência feita ao Código de Processo Penal e outros códigos oficiais não implica, em princípio, inocentar ou culpar ninguém, implica sim a exigência de começar de novo, procedendo dentro da lei.

Há, entretanto, sérios indícios, e mais do que indícios, de que houve promiscuidade entre parte do poder econômico e os governos petistas. De resto, entre os editoriais ou textos análogos publicados nos últimos tempos pelo site que revelou os “diálogos secretos“ —fonte insuspeita, portanto— há passagens que dão força a essa hipótese. Houve, desde há muito tempo no Brasil, uma espécie de duplo “potlatch”, espécie de doação infinita de favores, por parte de certas firmas e por parte do governo.

O PT, partido crítico por excelência nos seus primeiros tempos, acabou entrando nesse jogo. Nesse sentido, qualquer que seja a anormalidade jurídica da conduta de Moro e seus colegas (pelas razões indicadas, a irregularidade dessa conduta está, a meu ver, suficientemente estabelecida), isso não deve nos levar à crença de que a tese, defendida por vários críticos, de que o PT errou, e errou muito, seria equivocada.

Nesse mesmo sentido, continua sendo válida a exigência de uma autocrítica por parte do PT, que não ocorreu de fato até agora, em que pese o que seus porta-vozes disseram aqui e ali. Apesar das aparências, uma autocrítica séria e responsável só reforçaria a percepção do que houve de positivo (apesar de tudo, houve bastante coisa positiva) no que aquele partido legou ao país.
Na ausência dela, tudo fica mais difícil. Não só ficam provavelmente comprometidas eventuais vitórias da esquerda no futuro, mas, ainda apesar das aparências, a própria libertação de Lula se torna, em termos práticos, mais problemática. Se o PT tivesse feito uma verdadeira autocrítica, muito mais gente teria se empenhado na campanha pela liberdade de Lula.

A ideia de que o melhor para a esquerda seria dizer amém à narrativa do PT é enganosa. O futuro da esquerda brasileira só estará assegurado se ela for capaz de pensar ao mesmo tempo estas duas verdades: 1) o ex-partido hegemônico da esquerda se permitiu embarcar na canoa furada das administrações laxistas; 2) aproveitando-se disto, a direita e a extrema direita montaram julgamentos exóticos, em que, por meio de “atos de ofício” inexistentes, PowerPoints imaginários etc., condenaram e prenderam de forma abusiva e assimétrica.

O futuro da esquerda só estará assegurado se ela for capaz de encarar a fresta que se abre entre essas duas asserções. Em tempo: não se trata de assumir uma posição de tipo centrista. Essa imputação confunde a tomada de consciência da complexidade do objeto —o bom raciocínio político é quase sempre complicado porque o real é complicado— com um movimento de recuo de uma posição de esquerda para outra, de centro.
Ao contrário: a perspectiva crítica e, a seu modo, radical que eu e outros defendemos é, a meu ver, a  única que serve realmente à causa da esquerda, causa que é também a da democracia e do país.
O PT deve também às esquerdas e ao país revisão das suas posições em política internacional. O apoio a Chávez e, pior ainda, a Maduro foi um tiro no pé não só do PT, mas também (mesmo se injustamente) do conjunto da esquerda brasileira.

De que jeito a esquerda poderá levar adiante a luta política se, num exemplo extremo, mas real, há membros importantes do ex-partido hegemônico que ainda acreditam na legitimidade do regime dominante na Coreia do Norte?
Voltando ao caso Moro, à lei e à legalidade. Uma jurista e professora de direito da melhor universidade do país declara que não há nada de grave no episódio. Para ela, são  simples conversas via WhatsApp. Onde estamos? Uma especialista em leis e professora universitária acredita que acertos notoriamente ilegais visando legitimar, aos olhos da opinião pública, a condenação de um réu a nove anos de prisão não constituem evento de importância.

Um ex-presidente disse, por sua vez, que se trata de “tempestade em copo d‘água”. Poupado pelos juízes — depois de considerarem a possibilidade contrária, para dar a "impressão de imparcialidade com vistas ao reforço das hostes justiceiras", ele vem a público saudar o super magistrado pelo seu desempenho no Senado.
Mesmo se o ex-presidente se permite dar, de vez em quando, alguma estocada em Bolsonaro, o apoio a Moro  — que, como ele deve saber, é  peça chave do sistema Bolsonaro, e como tal  inseparável deste — revela (como também  outras das suas atitudes e intervenções) que, para ele, não há nada de muito anormal não só no percurso de Moro, mas no conjunto da situação criada pelo resultado das eleições de 2018. Ignorância, ingenuidade, cinismo?

Na mesma direção, alguns cientistas políticos —cada vez menos numerosos, felizmente— julgam que se trata da famosa “alternância”. Muito democraticamente, haveria que "suportá-lo" e "respeitá-lo".
Isso poderia ser verdade se tivesse chegado ao comando do Estado algum partido da direita republicana. Não se trata disso. Por um conjunto de circunstâncias (incluindo práticas notoriamente fraudulentas), instalou-se na cúpula do Estado um governo extremista destrutivo.
Relações exteriores, universidade, imprensa, ecologia, populações indígenas, Judiciário, costumes... Nada escapa à sua sanha. E principalmente: esse governo é visivelmente alérgico à democracia. Só não destruirá a democracia no Brasil se a resistência for suficientemente vigorosa. De resto, não há que discutir se o golpe bolsonarista virá ou não. Ele já está em curso.

É que o golpe dos Bolsonaros, Orbáns, Kaczynskis e tutti quanti não funciona na base de tanques na rua, mas da caneta. E não liquida por bala, embora os milicianos, tão apreciados pelos homens do poder, tenham feito muitas vítimas por bala, a começar por Marielle e Anderson.
A exemplo da jiboia, o golpe moderno mata por constrição. Vai asfixiando aos poucos sua vítima. O abraço da jiboia já se iniciou com o corte de verbas nas universidades e também com o projeto da Escola sem Partido, embora tal lei (ainda?) não tenha passado. Pois o mal já está feito.

Os professores do ensino médio trabalham sob tensão. Basta, por exemplo, que algum deles chame durante uma aula de golpe de Estado o que foi, de fato, um golpe de Estado, e não uma parada militar ou uma revolução popular, para que  possa ser denunciado — e denunciado (heil Hitler!) pelos seus próprios alunos.

Pobre país. Se, por desgraça, os salvadores da Pátria conseguirem realizar plenamente os seus objetivos, o que não é impossível, o Brasil se transformará numa grande Hungria, com imprensa controlada, universidade asfixiada, Judiciário dócil, obscurantismo à solta.
Caso não tenham força para chegar lá, a hipótese menos má nas circunstâncias atuais é a de que sairemos vivos, mas com ferimentos tão graves que exigirão muitos anos de tratamento e convalescença.
Nesse intervalo, e para que o pior não aconteça, a ordem é tentar segurar por todos os meios (digo, menos a violência) o “bateau ivre” em que navega o núcleo autoritário.
Se o arbítrio de uma parte do Poder Judiciário, de conluio com o Executivo, não for sustado, cada um de nós continuará vivendo sob a ameaça constante de cair sob o fogo de acusações infundadas ou imaginárias, proferidas por uma Justiça (com J maiúsculo) que tem campo livre para levar à prisão quem ela quiser.

À luz da evidente politização dos processos da Lava Jato (na linha “rezemos para que o Haddad não seja eleito”), não há como continuar admitindo que o destino político do país seja regido pelas decisões de juízes transfigurados em justiceiros (ou vice-versa), espíritos brilhantes que sabem melhor do que nós todos qual o destino que convém ao Brasil.
Se assim for, é inútil refletir antes de dar o seu voto, inútil se debruçar sobre os clássicos da filosofia política ou sobre a história do Brasil para tentar entender o que se passa. Nada disso tem importância.

Certos juízes ou juízas, certos procuradores ou procuradoras sabem melhor do que a massa ignara (o povo descontente mais os intelectuais críticos) que tipo de governança nós merecemos.
Nesse sentido, se podemos dizer que Moro e sua equipe se valeram, no início, do princípio de que os fins justificam os meios (ao interpretar as coisas desse modo, supõe-se, em tese, que meios condenáveis teriam  comprometido fins, em si mesmos, justificáveis), é preciso convir que, a partir de certo ponto, não houve mais comprometimento dos fins pelos meios nem, em geral, oposição entre fins e meios: os fins já não tinham mais nada que prestasse.

Tratava-se acima de tudo, e explicitamente, de derrotar Haddad e dar a vitória a Bolsonaro. A partir desse momento, justificavam-se meios  indefensáveis através de fins igualmente indefensáveis. O espaço do negativo veio a ser homogêneo. Violaram-se leis não para salvar o país, mas para levar ao poder o mais obscurantista e autoritário de todos os governos eleitos da República —os militares não foram eleitos, e o Getúlio Vargas do pós-novembro de 1937 governou pela graça de um golpe.

(Com agradecimentos a Arthur H. Bernardo e a Marcelo Coelho. Sem responsabilidade).

Ruy Fausto é professor emérito do Departamento de Filosofia da USP e autor de “Caminhos da Esquerda” (Companhia das Letras).

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/07/desmoralizacao-de-moro-nao-inocenta-o-pt-diz-ruy-fausto.shtml  05/07/2019

domingo, 9 de junho de 2019

Canudos

Destruída duas vezes, Canudos sobrevive em meio a escombros e miséria

Jornalista narra viagem a cidade imortalizada em 'Os Sertões' pelo homenageado da Flip, Euclides da Cunha

Marcos Vinícius Almeida, Folha de São Paulo, 09/06/2019

[RESUMO] Destruída pelo Exército e alagada por açude, Canudos sobrevive em meio a escombros e miséria. Jornalista narra viagem pela mítica cidade baiana, símbolo de um dos conflitos mais violentos da história do país, imortalizado pelo homenageado da Flip deste ano, Euclides da Cunha, no clássico “Os Sertões”.

Uma Rural Willys, motor a gasolina, seis cilindros, atravessou a BR-116, no nordeste da Bahia, transportando uma equipe de filmagem em 1962. Dentro do veículo, que partiu de Salvador, a sensação térmica devia estar próxima dos 40 graus.

Carlos Gaspar —repórter, diretor e produtor da série documental “A Grande Jornada”— conferia o mapa rodoviário. Signos cartográficos se fundiam às manchas de suor impressas por seus próprios dedos. No banco traseiro, o cinegrafista alemão Heinz Forthmann cochilava. “É na próxima”, disse Gaspar, “à direita”. O motorista conferiu o retrovisor. Reduziu a marcha. Dobrou à direita, na BR-235. O carro avançou por um caminho de terra ainda mais estreito. Surgiu uma placa: “Canudos, 12 km”.

'400 Jagunços Prisioneiros' 
fotografia de Flavio de Barros que retrata o final da Guerra de Canudos Flavio de Barros - 2.out.1897 
Instituto Moreira Salles


Gaspar e sua equipe fizeram um valioso registro cinematográfico antes que o açude do Cocorobó, idealizado por Getúlio Vargas, alagasse o povoado. Assistiram a uma missa, ao lado de parentes dos que sobreviveram à Guerra de Canudos, diante do cruzeiro erguido por Antônio Conselheiro em 1893, cujas fissuras de bala podem ser vistas até hoje.

Quase seis décadas depois, estamos numa segunda-feira, 7 de janeiro de 2019. Quando o ônibus da Falcão Real, laterais amassadas, para-choque raspado, estaciona na rodoviária de Salvador, por volta das 15h, tenho um mau pressentimento. Faltam ainda mais de 400 km até o destino final. Qualquer pessoa que dá sinal à beira da estrada tem acesso ao ônibus, sem um mínimo controle de identificação. Como a BR-116 não é duplicada, o risco de acidentes nas ultrapassagens é constante. O motorista não parece preocupado. Paramos numa lanchonete de beira de estrada, já por volta das 20h. “Tomem cuidado ao descer”, diz o motorista, “não tenho controle sobre o ônibus”. Talvez falasse do fluxo de passageiros. Enquanto fumava meu cigarro, ele arrastava uma pedra, um resto de construção, e a colocava na frente de uma das rodas.


Eu não ficaria preocupado se estivesse sozinho. Mas como Joaquim, meu filho de cinco anos, e Raquel, minha companheira —que passou toda a viagem com uma imagem de Nossa Senhora Aparecida nas mãos—, também estavam no ônibus, chegar vivo a Canudos seria um alívio.
“Alguém vem buscar vocês?”, pergunta o motorista, já na cidade, por volta das 23h. Não há rodoviária. “Acho que sim”, respondo. Dona Joselina mandaria um táxi. Olho ao redor, mas não vejo ninguém. Enquanto seguro Joaquim e as malas, Raquel tenta ligar para a pousada. Um velho Gol se aproxima. “Vocês que são hóspedes da dona Joselina?”, diz um homem de óculos. “Eu vim pegá-los.”

Quem assiste a “Um Sino Dobra em Canudos” (1962), documentário dirigido por Carlos Gaspar, percebe algo fora do lugar. Seu valor é inquestionável, mas ele exige certo esforço do espectador para superar a espessa névoa retórica: a narração do filme.

https://www.youtube.com/watch?v=LVXyyw3GRn0&fbclid=IwAR3zuenGGT0y7sH5LHJjTBKoBSkD8XkTIvHfoCNX2HCfrOOwTfLiLHx4J0w

Gaspar solta frases hiperbólicas: “É o progresso escrevendo o derradeiro capítulo, os últimos dias de Canudos”, “quartel-general dos temíveis jagunços”. Conversando com uma funcionária do Museu da República, nos estúdios, Gaspar apresenta as “relíquias da guerra”. O tom é enviesado.
O primeiro objeto que ele ergue é a corneta que ordenou a ofensiva contra a população. Depois empunha um facão, arma dos ditos jagunços: “eram gente de uma incrível atrocidade [...], capaz de degolar de um só golpe.” O equivocado retrato de Antônio Conselheiro como um louco também está presente.

O professor Roberto Ventura apontou equívocos dessas teses em textos publicados na Folha em setembro de 1997, nos cem anos da morte de Conselheiro. A leitura dos sermões escritos pelo próprio líder de Canudos não corrobora a imagem de um religioso fanático construída por Euclides da Cunha em seu clássico livro “Os Sertões” (1902).

E em matéria de violência, nada superou o Exército brasileiro, rancoroso das três derrotas sofridas para os homens de Conselheiro.

A quarta expedição foi a desforra dos militares. “Mais de 5.000 casas foram arrasadas uma a uma”, diz o texto de uma cartilha distribuída pela prefeitura de Canudos, em 1990, “para não deixar rastro”. Milhares de cadáveres insepultos foram consumidos pelo fogo.


A Canudos de hoje é a terceira da história. A primeira, criada no século 18, foi destruída pelo Exército em 1897, no fim da guerra. A segunda surgiu por volta de 1910, construída sobre as ruínas da anterior. Os primeiros habitantes eram sobreviventes do conflito.
Em 1950, com o início das obras da barragem que inundaria o local, os moradores começaram a sair, formando um novo vilarejo a uma distância de cerca de 20 quilômetros. A segunda Canudos desapareceu sob as águas do açude de Cocorobó, em 1969. O vilarejo tornou-se, em 1985, a terceira Canudos.

A Pousada Pôr do Sol fica na parte mais alta da cidade, com uma visão privilegiada para o açude Cocorobó. De frente para ela e de costas para o açude, há uma escultura de Conselheiro, de madeira, erguendo uma Bíblia e um crucifixo. Com acomodações simples e aconchegantes, o lugar recebe muitos pesquisadores e funcionários do campus da Uneb (Universidade do Estado da Bahia) instalado na cidade.

Joselina Oliveira Rabelo, 73, que coordena o local, é descendente de sobreviventes. Nasceu na segunda Canudos, aquela retratada no filme de Carlos Gaspar. Dona Joselina, como é conhecida, fala de sua história com orgulho. Avó e bisavó paternas estiveram na guerra. Foram capturadas e levadas para Salvador. A história do conflito lhe foi passada por seu pai, João Guerra, e seu avô, Joaquim Valério de Oliveira. Olhando para a estátua de madeira no jardim, dona Joselina diz que a primeira Canudos foi um exemplo de resistência e organização.
Contesta a ideia de Conselheiro como louco e de seus seguidores como fanáticos. “Ele foi muito perseguido nessas andanças dele. Construía igreja, consertava cemitério. Tem gente que fala que foi Conselheiro que começou com isso de comunismo”, ela diz, um tanto incrédula, sentada numa cadeira de balanço na varanda da pousada.
Receber pessoas interessadas na memória do lugar a deixa feliz. Lembra-se de uma hóspede, professora de história em São Paulo, que lhe pediu uma bandeira. “Ela me disse que quando abre aquela bandeira de Canudos na sala, não tem um aluno que não preste atenção. Fica tudo de olho arregalado.” Seus olhos, por trás dos óculos, também brilham. “Ariano Suassuna quem disse: ‘Quem não conhece a história de Canudos não conhece o Brasil’. E é verdade”.

No fim da tarde, o sol cáustico perde força e a temperatura arrefece. É comum ver cadeiras nas calçadas, onde grupos de pessoas conversam. Dona Joselina arma redes nas duas grandes árvores do jardim. “Os hóspedes adoram ficar aqui, nesse sossego.”
Com um ar reflexivo, diz que o potencial histórico e turístico precisa ser mais bem explorado. Lembra-se então de um episódio. Quando o escritor peruano Mario Vargas Llosa foi a Canudos, em 1979, como parte do trabalho de pesquisa para o livro “A Guerra do Fim do Mundo”, ficou hospedado na casa do pai dela.

Depois que Vargas Llosa venceu o Nobel de Literatura, em 2010, dona Joselina pensou em convidá-lo para voltar e participar de algum evento na cidade. Desistiu da ideia ao saber que o escritor é crítico do governo petista. “Talvez ele não aceitasse um convite para vir até o país, porque o Lula ainda era presidente”, diz. “E ele não gostava do Lula, né?”.

O Memorial Antônio Conselheiro, criado em 2002, tem por missão, segundo um cartaz afixado na parede, “preservar e difundir a memória da Guerra de Canudos”.
Lá há um jardim com plantas típicas do cenário da guerra, descritas em “Os Sertões”: favela, palmatória-do-diabo, cabeça-de-frade, mandacaru e o canudo-de-pito. Com seu caule oco, o canudo era usado como piteira de cachimbos. Foi essa planta que deu nome a uma antiga fazenda e depois à comunidade conselheirista.
No centro do jardim há uma escultura do beato. Sua superfície e traços são poligonais, algo que lembra os corpos das primeiras personagens 3D dos videogames. Numa placa na base do monumento, um tanto gasta, pode-se ler: “Aos heróis de Canudos”. E mais abaixo: “Os vencidos também merecem um lugar na história. Não devem ficar no anonimato”, assinada por José Calasans, folclorista e historiador, pioneiro no resgate da memória oral dos sobreviventes da guerra.
Há algumas peças arqueológicas no memorial: cartuchos, pentes de balas, cacos de utensílios e restos da igreja. Espantoso é o tamanho dos estilhaços de granadas lançadas contra o povo pelo canhão inglês Whitworth 32. Com mais de uma tonelada, essa monstruosa peça de artilharia foi apelidada pelos conselheiristas de “a matadeira”. Um único tiro era capaz de arrasar e incendiar as frágeis moradias de taipa e todos aqueles que estavam dentro.

Graciliano Ramos, em um breve texto anedótico, disse que Antônio Conselheiro vagava pelo sertão pregando ideias subversivas e o fim do mundo em 1900: “Antes do fim do mundo, porém, veio a República”.

“Penetrando pelos tetos e pelas paredes”, anotou Euclides em seu diário em 1º de outubro de 1987, “as granadas explodiam nos quartos minúsculos despedaçando homens, mulheres e crianças sobre as quais descia, às vezes, o pesado teto de argila, pesadamente, como a laje de um túmulo”.
A Canudos de hoje é um lugar cheio de contrastes. O sinal do wifi é onipresente nos poucos restaurantes, mas não há agência bancária ou caixas eletrônicos. Gangues estouraram inúmeras vezes os antigos bancos da cidade.
Motos de pequeno porte substituíram o cavalo e o jegue. Transformaram-se no transporta das famílias. Não poucas vezes vi pai, mãe e filho dependurados todos numa única moto. Diante de uma UBS, vi uma mulher sentar na garupa do marido, com um bebê de poucos meses no colo, e seguir rua afora, sem receio.
Antenas de operadoras de TV por assinatura são comuns nos telhados. No final de semana, paredões de som, tocando funk e hits do sertanejo universitário, animam bailes. Vejo um cartaz: “Canudos Fest, Pablo, a voz romântica”.

Mesmo com o campus da Uneb —que oferece atividades de extensão, como minicursos e palestras—, a maioria dos jovens, quando termina o ensino médio, precisa se deslocar até cidades vizinhas para cursar uma faculdade. Os desafios da cidade são muitos. De acordo com dados de 2010 do IBGE, o Índice de Desenvolvimento Humano de Canudos teve relativa melhora —saltou de 0,379, em 2000, para 0,562, em 2010—, mas ainda indica um quadro de gravíssimos problemas relacionados à renda e à educação. Entre os 5.565 municípios brasileiros daquela época, Canudos situava-se na 5.002ª posição do ranking de desenvolvimento humano, o mais recente divulgado.
Dados de 2018 apontam que, dos 16.752 habitantes da cidade, um total de 12.168 estão inscritos no programa Bolsa Família, o que evidencia um contexto de grande vulnerabilidade social.
Luiz Paulo Neiva, diretor do campus avançado da Uneb em Canudos, conta que a grande guerra de hoje é contra a pobreza. Ele escreveu o livro “Canudos – Uma Nova Batalha” (Eduneb, 2017), síntese do trabalho da universidade no município. Entre as propostas apresentas, além do melhor aproveitamento das águas do açude, está a construção de uma cidade cenográfica, réplica reduzida da Canudos original conselheirista. Estima-se que o projeto necessitaria de um investimento de R$ 6 milhões.

Diante do solo da caatinga, pergunto, um tanto perplexo: “Esse terreno é assim mesmo ou foi mexido?”. “É assim mesmo”, diz Jamilson, guia turístico que nos conduz pela estrada rumo ao Parque Estadual de Canudos.

Encontramos o telefone de Jamilson num cartaz na pizzaria Doce Mel. Além dos serviços de guia, é fotógrafo e anunciava a venda de um livro, um ensaio documental de profissionais e amadores. O título: “Canudos – Essa História Não Pode Morrer!”.
Ativo no Instagram, ele se apresenta como bisneto de sobreviventes. Já guiou figuras famosas, como a atriz Mariana Ximenes. “Semana que vem”, diz, depois de receber uma mensagem no WhatsApp, “vem para cá uma amiga italiana”. Como a atividade turística não garante o sustento, trabalha ainda de motorista. Dirige um micro-ônibus de universitários que estudam numa cidade vizinha.
Na entrada do Parque Estadual de Canudos, há um portal cuja forma lembra o arco da igreja da Canudos submersa. O percurso é feito de carro, por vias de terra sinalizadas com placas. Criado pelo governo do estado da Bahia em 1986, o museu a céu aberto tem área de 1.321 hectares. É o que restou do cenário da guerra.
“Quando o parque não existia”, conta Jamilson, “as pessoas andavam por aí e enchiam sacolas de restos de cartucho de bala”. A terra é de um vermelho-fogo. O ar, seco e parado. Começamos o roteiro de visitação pelo Vale da Morte, como é chamada uma espécie de cemitério da campanha dos militares. “Tá cheio de esqueleto aqui embaixo”, diz Jamilson.

Como o terreno é duro demais, as valas coletivas, onde os corpos foram despejados, são rasas. Não há qualquer vestígio de cruzes ou marcação na superfície. Um esqueleto inteiro e dois crânios foram extraídos do local nas escavações feitas em 1997. Mais adiante, há uma placa indicando o sítio arqueológico, no qual é possível ver nitidamente três ossos de costelas expostos ao sol.
Ouvindo nossa conversa, Joaquim começa a escavar a terra. Levanta um pedacinho de pedra. “Olha papai”, ele diz. “Achei um esqueleto.”
Em 1987, o arqueólogo paulistano Paulo Zanettini, então com 28 anos, viajou até Canudos para realizar os primeiros trabalhos no parque. Além das escavações iniciais, fez uma série de mergulhos no açude Cocorobó. “Munidos de uma tosca embarcação batizada de Colapso (em homenagem ao Calypso do Jacques Cousteau), seguimos as orientações de filhos da cidade inundada”, conta o arqueólogo, por email. “Nascia, assim, a ‘arqueologia subaquática na caatinga’.”

No centenário do início da Guerra de Canudos, em 1996, o açude Cocorobó baixou ao mínimo. Ressurgiram as ruínas da cidade. Em 23 de junho daquele ano, uma foto de Zanettini, caminhando sobre os destroços do portal do velho cemitério, foi publicada na primeira página da Folha. “Jamais poderíamos imaginar”, escreve Zanettini no relatório final do trabalho de salvamento arqueológico, “que nos veríamos caminhando já sobre o solo de Canudos, pisando o lodo seco e rachado na tentativa de identificar o ponto exato onde havíamos mergulhado”.

O estudo do arqueólogo também contesta teses populares do trabalho de Euclides da Cunha. O escritor afirma que Antônio Conselheiro ocupou um local ermo, mas vestígios apontam que a presença humana no território era mais intensa e muito mais antiga do que se imaginava. “Identificamos um sem número de áreas de ocorrência de sítios pré-históricos plenos de lascas e utensílios de pedra lascada que começam a ser estudados pela equipe e indicam que a região foi propícia à ocupação humana milênios antes da chegada do Conselheiro”, defendeu o arqueólogo em artigo.

Quando chegamos ao Alto da Favela, de onde Euclides avistou Canudos pela primeira vez, avistamos o açude. Suas águas são turvas e calmas. Como acontece em outras áreas do parque, há um totem de vidro de Conselheiro, retratado de cabelos longos e barba, de perfil, segurando um cajado. Parece um fantasma.
Sabe-se pelos registros históricos, inclusive de Euclides da Cunha, que o líder religioso já havia morrido, de causas nunca conhecidas, quando Canudos caiu. Seu corpo estava enterrado, mas foi exumado pelos soldados e fotografado. Não satisfeitos, degolaram o cadáver, sob a justificativa de submeter a cabeça a pesquisas científicas. Presos aos equívocos da época, esperavam encontrar nas ranhuras do cérebro sinais que atestassem sua loucura. Nada foi provado.
Mais adiante no parque, a intervenção mais poderosa são as ampliações dos rostos das mulheres capturadas pelo Exército, extraídas do registro do fotógrafo Flávio de Barros. Presas em 3 de outubro de 1897, dois dias antes de Canudos ser incendiada, muitas foram estupradas e degoladas.

Os melhores registros de “Um Sino Dobra em Canudos” vêm no final. “Batidas por três vezes sucessivas”, diz o narrador, “as tropas do governo parecem ter adotado, em relação a Canudos, a mesma solução final que Hitler no gueto de Varsóvia. Não ficou ninguém para contar a história”. Nesse momento o filme mostra José Ciríaco, Tizé, com cerca de 90 anos, apresentando como único sobrevivente da guerra.
Num pequeno museu, Tizé guarda objetos da época, como punhais, espingardas, e estilhaços de granada do canhão. “Isso é um pedaço da bala do canhão”, diz ele. “Essa bala é dos canhões que derrubaram a igreja aqui e mataram muita gente. Foi devido a esses canhões que acabou Canudos. Foi devido a esses canhões que acabaram com todo o pessoal, com as obras, as igrejas, casa, tudo.” Erguendo seu cajado, Tizé diz: “E quem nunca viu, como vocês, se admira de ver o que essa bala faz”.

Em outra cena de destaque, dona Hermenegilda caminha para a missa. Não se lembra do próprio sobrenome. Pai, filhos e marido estão mortos. Pede a Deus que a deixe morrer na cidade, mas não ouvimos sua voz. É Carlos Gaspar, lendo transcrições da entrevista, que fala no lugar dela.
A cena, reforçada pelo ruído de ventos artificiais, mostra uma mulher caminhando para a morte. No portal do cemitério, o branco caiado contrasta com suas vestes negras. Enquanto caminha entre os túmulos, onde estão enterrados os familiares e os heróis da Guerra, o narrador lê uma derradeira fala: “Até meus mortos vão se afogar. Não rezarei mais na sua sepultura. Não vou descansar ao lado dos meus.”
Das margens do açude, avisto a ponta das ruínas da igreja, despontando sobre as águas. O sol do meio-dia castiga a pele. Lembro-me das últimas páginas de “Os Sertões”, onde a fria pena científica de Euclides sucumbe, recua e então emperra diante do horror inenarrável.
Jamilson conta que, quando da montagem do Teatro Oficina na cidade, Mariana Ximenes resolveu nadar no açude e quase se afogou. “Isso aqui é um abismo”, ele diz e aponta para a beira da água.
Olho para trás. Joaquim e Raquel se afastam, caminhando na direção do carro. Pergunto ao guia se há histórias de assombrações por ali. “Uma vez um turista pediu para dormir no parque. Tem uma área de camping ali. Quando cheguei aqui no dia seguinte, o cara estava apavorado. Disse que escutou uns barulhos durante a madrugada. Criança chorando, ferro batendo, tiro, gritos. Coisa terrível”, conta ele. Estranho seria se não houvesse essas histórias, penso.

Antes de voltar para o carro e deixar o parque, resolvo levar uma lasca de pedra. Quando me agacho, outra coisa chama a atenção. Uma lasquinha de árvore, pedacinho de galho seco, esculpido ao acaso pelo tempo. Enfio no bolso. Contemplo uma última vez a ruína da igreja. E vou embora.
“Olha o que eu encontrei.” “Nossa!”, Raquel diz. “É um crucifixo perfeito.”

Euclides da Cunha será homenageado  na Flip

A festa literária terá como tema o escritor e jornalista. O evento em Paraty ocorrerá de 10 a 14 de julho. Ingressos ainda podem ser adquiridos pelo site flip.byinti.com, ao custo de R$ 55. Também haverá vendas durante o evento. Mais informações em flip.org.br
Principais mesas* sobre o autor de ‘Os Sertões’

Quarta (10/7), às 19h
Na abertura da Flip, a crítica literária Walnice Nogueira Galvão comentará a trajetória intelectual de Euclides da Cunha e o impacto da viagem a Canudos em sua vida e obra
Sexta (12/7), às 15h30
O historiador José Murilo de Carvalho vai analisar o conflito entre seguidores de Antônio Conselheiro e o Exército, em Canudos
Sábado (13/7), às 12h
O cineasta português Miguel Gomes, que prepara uma adaptação de “Os Sertões” para o cinema, conversa com o crítico Ismail Xavier
*Todas com ingressos esgotados, mas debates serão transmitidos também em um telão, gratuitamente
Marcos Vinícius Almeida, escritor e jornalista, é autor de “Paisagem Interior” (Penalux, 2017).

https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/06/destruida-duas-vezes-canudos-sobrevive-em-meio-a-escombros-e-miseria.shtml  09/06/2019

quarta-feira, 5 de junho de 2019

Um Brasil Mad Max

Estradas sem lei, armas liberadas: Bolsonaro quer um Brasil igual a Mad Max

Leonardo Sakamoto, 04/06/2019

Premiar motoristas que cometem infrações de trânsito, dobrando a pontuação máxima permitida na carteira de habilitação, e defender a retirada de radares, transformando as estradas em pistas de corrida.

Facilitar o porte de armas e possibilitar a compra de milhares de cartuchos de munição por pessoa, colocando em risco milhares de vidas e ajudando na formação e legalização de milícias urbanas e rurais.

Dificultar a fiscalização ambiental e liberar agrotóxicos em série, fomentando o desmatamento, a pesca e a caça em área de preservação ambiental e a queda na qualidade da saúde pública.
Bloquear a concessão de novas bolsas de pesquisa, reduzindo a produção de ciência e tecnologia nacionais (e, consequentemente, a produtividade e a competitividade), enquanto cresce o obscurantismo.

A um observador desatento, o governo Bolsonaro parece travar uma cruzada a fim de minar toda política construída, ao longo de décadas, com o objetivo de estabelecer regras para a vida em sociedade. Afinal, pode-se interpretar seu comportamento como o de alguém que deseja substituir o respeito à lei – em que nós aceitamos abrir mão de parte de nossa liberdade em nome da coletividade – pela lei do mais forte, e o seu cada um por si e Deus acima de todos.
Ou que ele adota medidas para ganhar a simpatia de uma fatia do seu eleitorado em um momento em que a insatisfação com seu governo cresce.

Mas não é bem isso. Pois caso ele tenha sucesso em seu intento, o país que vai sobrar não é o sonho ultraliberal de um lugar em que o Estado não se "intromete" na vida das pessoas. Se fosse assim, o presidente estaria defendendo a ampliação do direito ao aborto ao lado do livre mercado e não ficaria (pretensamente) horrorizado com golden showers. O que ele quer, na verdade, é uma sociedade à sua imagem e semelhança.

Uma sociedade sem regras nas estradas, sem limites para o acesso às armas, sem regras para o meio ambiente e na qual o conhecimento é desprezado. O Brasil de Bolsonaro se parece – e muito – com o mundo pós-apocalíptico de Mad Max.

"Você torce contra o governo" – me acusaram hoje, pela enésima vez. Óbvio que todos queremos que o desemprego caia rapidamente e o país volte a crescer, pois a manutenção do quadro atual torna a vida insustentável por aqui. A questão é que o presidente se desloca até o Congresso Nacional para propor o aumento de pontos na carteira e a possibilidade de não ser multado por trafegar na estrada com o farol apagado, quando deveria estar indo para apresentar uma política nacional para a geração de emprego e renda.

Qualquer pessoa que tenha o mínimo de apreço pela civilização não pode torcer pelo naco medieval da agenda do presidente da República. E não estamos falando de Reforma da Previdência ou mesmo das privatizações de empresas em setores estratégicos.

Até porque apenas quem acredita em Coelho da Páscoa e Papai Noel também caiu no conto da promessa da conversão liberal do capitão reformado do Exército. Até agora, o presidente conseguiu confirmar as expectativas de que é a pessoa mais despreparada a assumir o comando do Poder Executivo em muito, muito tempo. E olha que a concorrência é dura. Se ele contasse com um projeto para construir um país, esse despreparo talvez o inviabilizasse. Mas como o objetivo passa por desconstruir a sociedade como conhecemos, ele ainda tem chances de realizar seu objetivo com sucesso. Destruir é mais fácil que criar.

O Palácio do Planalto deveria tocar "We Don't Need Another Hero", interpretado pela Tina Turner, nas cerimônias. Ia ornar.

https://blogdosakamoto.blogosfera.uol.com.br/  05/06/2019













sexta-feira, 10 de maio de 2019

Caravaggio Imortal

Maledetti
Trafitti dalla passione,
l’Amore ci sopravvive
e l’Arte ci rende immortal

Com esta poética de Goethe termina a minissérie, de 2007, Caravaggio que acabei de ver. A arte nos torna imortais; Caravaggio que o diga.

Dirigida por Angelo Longoni, esta minissérie tem um diferencial: a cinematografia é de Vittorio Storaro. Uma referência de fotografia no cinema contemporâneo. Uma escolha por demais pertinente.

A seguir uma análise recomendável do trabalho, publicada  (GAUCHAZH) em 27/12/2012

A primeira versão para o cinema da vida do pintor lombardo Caravaggio (1571 - 1610), realizada em 1941 por Goffredo Alessandrini, denunciava as intenções do diretor logo no título: Caravaggio, il Pittore Maledetto (Caravaggio, o Pintor Maldito). Duas versões seriam ainda feitas (uma em 1967, por Silverio Blasi, e outra em 1986, pelo inglês Derek Jarman) antes que as contradições e ambivalência do pintor barroco fossem tratadas de forma menos estereotipada na minissérie Caravaggio, produção da RAI (2007) dirigida por Angelo Longoni, que a Versátil lança em DVD.

Sem a obsessão formalista de Jarman - que, ainda assim, fez um belo filme cheio de anacronismos e com um ator excepcional (Nigel Terry) -, o realizador Longoni preferiu ser mais convencional e explorar o conflito contínuo entre luz e sombra na obra de Caravaggio - reforçando a representação metafórica da salvação e danação. Afinal, justifica Longoni, 'Foi um pintor que ousou retratar santos e mártires com marcas terrenas, contestando as regras rígidas da Contrarreforma para representar a espiritualidade".

Para dar forma a esse confronto entre luz e sombra, Longoni chamou o veterano diretor de fotografia Vittorio Storaro (Apocalypse Now), que justamente decidiu se tornar fotógrafo de cinema, nos anos 1960, após descobrir, aos 20 anos, uma pintura que mudou sua vida, na Capela Contarelli (no interior da Igreja São Luís dos Franceses, em Roma). Era A Vocação de São Mateus (1599 - 1660), óleo com mais de 3 metros de altura por outro tanto de largura, que retrata uma passagem do Evangelho de Mateus. Nela, Cristo vê um homem (Mateus) sentado na coletoria e pede que o siga (é o único que o enxerga, enquanto os demais personagens continuam contando dinheiro).
Storaro ficou tão tocado pela pintura que a usa para emocionar também o espectador da minissérie na sequência mais elaborada de Caravaggio. Nela, o assombroso efeito de luz de A Vocação de São Mateus - um raio transcendental que vem da direita e incide sobre o santo - é sugerido pelo sol da manhã que desperta Caravaggio, doente e cansado. Esse raio de luz que entra pela janela, cortando a tela na transversal, corresponde simbolicamente a uma manifestação teofânica, segundo a concepção do pintor. Storaro reforça a descoberta em outras sequências que tentam reconstituir a origem de conhecidas pinturas do artista, entre elas Judite e Holofernes, tela igualmente de inspiração bíblica realizada no mesmo ano (1599) - e que retrata a decapitação do general assírio, embriagado e morto pela bela viúva judia para salvar seu povo.

A tentação de representar a cena como um fotograma é forte. Justificável: Caravaggio, ainda segundo Storaro, três vezes ganhador do Oscar de fotografia, foi cineasta antes mesmo de o cinema ter sido inventado, respondendo pela composição das cenas, a posição das figuras, os figurinos e, especialmente, o desenho da iluminação, feita com luz natural (como em A Vocação de São Mateus) e artificial (O Martírio de São Mateus, por meio de tochas).

Coube ao diretor Longoni deixar Storaro livre para explorar a passagem da luz natural para a artificial nessas duas telas que se completam. No entanto, para evitar comparações com a cinebiografia realizada por Derek Jarman - que leva ao paroxismo essa reconstrução formal -, o realizador italiano preferiu ser menos ousado e seguir as regras do melodrama, localizando Caravaggio em sua época, marcada pelo cinismo dos nobres e o absolutismo do poder eclesiástico. Longoni mostra o pintor como um inimigo da Inquisição, defensor de ideias progressistas e um homem detestado por seu espírito inovador, mas visto com desconfiança por ser protegido de cardeais e andar pelas ruas sempre seguido de capangas, pronto a usar sua espada.

Sem exatamente recusar o mito do "pintor assassino" consagrado pelo romantismo, Longoni tenta equilibrar sua cinebiografia entre a interpretação pessoal e os estudos de sua vida por acadêmicos - notadamente Roberto Longhi, responsável pela monografia mais respeitada sobre o artista, escrita em 1968 e publicada, aqui, pela Cosac Naify. Embora evite o estereótipo que a literatura artística solidificou, o diretor esbarra na simplificação da personalidade de um homem obcecado pela refiguração, pela reprodução mimética da realidade, a ponto de usar mendigos, prostitutas e marginais como modelos de santos.

Longoni faz do bissexual Caravaggio um garanhão, que rouba uma prostituta de um outro tipo de proscrito, o rufião Ranuccio Tomassoni, assassinado pela espada de Caravaggio em 1606. Na versão de Jarman, os três se tornam amantes e o ciúme corrói a relação, culminando em tragédia. Na minissérie italiana, o pintor mata Ranuccio por maus-tratos à amante dos dois, Fillide Melandroni. Segundo a versão oficial mais recente, o crime não aconteceu numa partida de tênis - apenas pretexto para um duelo. Caravaggio castrou seu adversário para defender a honra de Fillide, num arroubo de fúria heterossexual.

Seja como for, o diretor contou com o ator Alessio Boni na defesa do rebelde inconformista que mudou a história da pintura com sua habilidade em reproduzir o real. E, além de tudo, sua semelhança física com Caravaggio impressiona.

Caravaggio, A Vocação de São Mateus (1599 - 1660)

Caravaggio, Judite e Holofernes

Em tempo

Caravaggio já foi assunto neste blog em 2012

Lá fizemos referência ao filme Caravaggio de Derek Jarman (1942 – 1994) de 1986.

“Retrata uma biografia do pintor com suas nuances conhecidas: a relação com a igreja, suas brigas, seu exílio, sua bissexualidade e seus métodos de trabalho.
Em algumas cenas deste filme há uma mistura de figurinos do século XX com os do século XVII, como na figura mostrada acima. Algo me diz que Jarman quis mostrar o Caravaggio atemporal. Caravaggio atual. A rebeldia, a insatisfação com a realidade em que vive e a manifesta tradução de sua personalidade em sua obra são as marcas desta grande personagem.”


A minissérie de Angelo Longoni vai por outros caminhos. Apresenta o Caravaggio e seus conflitos (além daqueles pessoais) com a sua produção artística. E uma diferença significante: Vittorio Storaro.

Em nenhuma das publicações ou filmes apresentados mencionamos uma das telas mais relevantes e discutidas de Caravaggio: “Amor Vincit Omnia.”

Com a palavra Rodrigo Henrique Araújo da Costa da Universidade Federal da Paraíba (UFPB):

Em Amor Vitorioso, um anjo cupido desvencilha-se dos símbolos terrenos, pisando-os. Tais símbolos representam as forças religiosas e políticas do mundo, forças sobre as quais triunfa. A tela foi requerida ao pintor italiano Caravaggio, no início do século XVII, por um mecenas privado da alta sociedade romana chamado Vicenzo Giustiniani, e seria inspirada na famosa frase de Virgílio “O amor tudo vence; também nós cedamos ao amor” (Écloga X, 69). O pênis do cupido foi retratado pelo artista no centro da tela e no foco do observador. Nada camufla ou reprime o corpo deste púbere, nada disciplina sua vontade em estar livre, aberto e feliz. O Amor Vitorioso é exemplo do que almejara seu encomendador, mas é reflexo do que Caravaggio expressava subjetivamente, e, em amplidão, é reflexo da Idade Moderna. Caravaggio faz uma mudança de abordagem abrupta, de uma configuração cristã para outra pré-cristã ou pagã. Amor Vitorioso é um amor profano, foge do religioso e das convenções. Ademais, o sexo do cupido está completamente exposto como temática, trazendo muitas outras questões e debates como a Reforma, o prazer, a dor, o Barroco, o drama, a estética, o homem entre os séculos XVI e XVII. Trataremos isso perante o Indiciarismo, a Iconologia, a Cultura Artística e os conceitos de mito e desmitologizamento.

Reproduzi aqui o resumo do artigo AMOR VITORIOSO (1601-1602) DE CARAVAGGIO: DISCUSSÕES SOBRE SIGNOS, MITO E DESMITOLOGIZAMENTO publicado em 2012 nos Anais do III Congresso Internacional de História da UFG/ Jataí: História e Diversidade Cultural.


Caravaggio, Amor Vincit Omnia

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Abraço da serpente

(El abrazo de la serpiente) O abraço da serpente, 2015

https://www.imdb.com/title/tt4285496/


Logo de início, o preto e branco salta aos olhos. Não apenas pelo inusitado que é ver a floresta amazônica completamente sem cores, mas também pela beleza trazida pela proposta estética implementada pelo diretor Ciro Guerra e o diretor de fotografia David Gallegos. Este, no fim das contas, é um dos grandes trunfos entregues por esta produção colombiana, a primeira do país a conseguir uma vaga entre os indicados ao Oscar de melhor filme estrangeiro.
De fundo científico, O Abraço da Serpente é baseado nos diários de dois exploradores europeus, que vagaram pela Amazônia decididos a desvendar seus segredos nos primórdios do século XX. Cada um deles estrela uma ponta desta história, que tem no xamã Karamakate o elo de ligação. É ele quem conduz Théo (Jan Bijvoet) em sua jornada febril em busca de uma planta milagrosa, que pode salvá-lo da doença, e também quem, 40 anos depois, é procurado por Evan (Brionne Davis), que deseja seguir os passos de seu antecessor. Ao longo da jornada, é interessante notar a mudança de postura de Karamakate nestes dois momentos, revelada aos poucos.

Com a narrativa vagueando sem parar entre o passado e o presente, O Abraço da Serpentepor vezes confunde o espectador pela ausência de elementos que difereciem cada época. A floresta, incólume na sua ausência de cores, também auxilia nesta dificuldade de percepção, já que a passagem do tempo é perceptível apenas em padrões humanos - os índios e brancos que por lá passeiam são apenas residentes temporários, enquanto a floresta permanece sempre.
Diante desta proposta de valorização da natureza e dos povos que vivem dela, o longa-metragem logo se torna um imenso estudo antropológico, como poucas vezes o cinema já produziu. Questões relevantes como a influência das missões jesuítas são apresentadas com uma crueza impressionante, sem se ter à versão oficial promulgada pela Igreja. Da mesma forma, o preconceito latente do homem branco perante os índios - e até mesmo entre as diferentes tribos - é ampliado à medida que a loucura da selva toma conta dos forasteiros. Isto sem deixar de lado os costumes indígenas, seja através de Karamakate ou de personagens menores que povoam a história.

Visualmente impressionante, O Abraço da Serpente demonstra força ao trazer uma jornada que explore também crenças e descobertas, sejam estas físicas ou de espírito. Se em certos momentos apresenta-se confuso, isto é também pela proposta narrativa fora do convencional e, de certa forma, ousada.
http://www.adorocinema.com/filmes/filme-236295/criticas-adorocinema/  25/04/2019

Considerações sobre

Primeiro

Cayahuari Yacu, the jungle Indians call this country, the land where God did not finish Creation. They believe only after man has disappeared will He return to finish His work. 
(do filme Fitzcarraldo), Terra inacabada

Esta citação do filme Fitzcarraldo, 1982, de Werner Herzog, tem a ver com o tema do filme "Abraço da Serpente". Novamente os conflitos entre o estrangeiro, o estranho no mundo dos povos originários, na época provocados, também, pelo ciclo da borracha na floresta amazônica. Além da intervenção deletéria dos jesuítas. A personagem principal: a natureza. Questão ainda presente na década de 2010, infelizmente.

Segundo

Outra semelhança: “Coração das trevas” (Heart of Darkness) de Joseph Conrad (1857 – 1924). Muda o espaço, mas o tempo é o mesmo. Congo, África, colônia da Bélgica, início do século XXI. Sai a borracha, entra o marfim. Os conflitos? Parecidos. Na floresta amazônica do “Abraço da serpente” tem a personagem insana El Mesias (Nicolás Cancino) que, por sinal, fala em português / brasileiro. No “Coração das trevas” tem Kurtz. El Mesias e Kurtz são feitos um para o outro.

Terceiro

“Abraço da serpente” é um filme obrigatório

sábado, 27 de abril de 2019

LULA


Lula fala sobre prisão, Moro, Bolsonaro e STF; veja versão completa de entrevista.

Na cadeia, ex-presidente diz que Supremo já demonstrou coragem e fala em discutir questão ética sobre sítio

Mônica Bérgamo, 27 abril, 2019
CURITIBA

Ex-presidente Lula falou com exclusividade nesta sexta-feira (26) à Folha e ao jornal El País em sua primeira entrevista desde que foi preso, em abril de 2018.
Em duas horas e dez minutos de conversa —veja aqui a íntegra do vídeo com a entrevista—, o ex-presidente falou da vida na prisão, da morte do neto, do governo de Jair Bolsonaro (PSL), das acusações de corrupção contra ele e da possibilidade de nunca mais sair da prisão, dentre outros temas.
Lula disse ter "obsessão de desmascarar" o agora ministro da Justiça, Sergio Moro, que enquanto juiz da Operação Lava Jato o condenou pelo caso do tríplex em Guarujá (SP). Também afirmou estar determinado a provar sua inocência.
Na entrevista, o ex-presidente faz um aceno ao Supremo Tribunal Federal. "Ela [corte] já demonstrou que teve coragem e se comportou", em referência a votações anteriores para temas polêmicos. "No meu caso a única coisa que eu quero é que votem com relação aos autos do processo", afirma.
Após uma batalha judicial na qual a entrevista chegou a ser censurada pelo STF, decisão revista na semana passada pelo presidente da corte, Dias Toffoli,  o petista recebeu os dois veículos em uma sala preparada pela Polícia Federal na sede do órgão em Curitiba, onde está preso.
Lula foi preso em abril de 2018 após ter sido condenado pelo Tribunal Regional Federal da 4ª Região, a segunda instância da Justiça Federal, por corrupção e lavagem de dinheiro no caso do tríplex.
Na terça-feira (23), em decisão unânime, a Quinta Turma do STJ reduziu a pena do ex-presidente e abriu caminho para ele saia do regime fechado ainda neste ano. O tribunal manteve a condenação do petista, mas baixou a pena de 12 anos e 1 mês de prisão para 8 anos, 10 meses e 20 dias.
O petista já foi condenado também no caso do sítio de Atibaia (SP) —a 12 anos e 11 meses, na primeira instância, por lavagem de dinheiro e corrupção. O caso, porém, ainda passará pela análise do TRF-4.
"Então, se eu cometi o erro de ir num sítio em que alguém pediu e a Odebrecht reformou, vamos discutir a questão ética. Aí é outra questão", afirma Lula na entrevista, cuja versão completa segue abaixo.

A gente queria começar falando sobre a prisão do senhor. O que passou por sua cabeça quando estava sendo preso?

Durante todo o processo, eu sempre tive certeza, [pelos] discursos da Lava Jato, de que [a operação] tinha um objetivo central, que era chegar em mim. Aliás uma jornalista importante, amiga nossa, escreveu um artigo em que dizia: o que eles querem é o Lula. E isso foi ficando patente em todos os depoimentos.
A imprensa retratava: prenderam fulano. Vai chegar no Lula. Prenderam fulano. Vai chegar no Lula. E muita gente que era presa, a primeira pergunta que faziam [para a pessoa] era: "Você é amigo do Lula? Você conhece o Lula?".
A imprensa retratava, as pessoas contavam, advogado conversava com advogado. E foi ficando patente que o objetivo era chegar em mim. Tinha companheiros no PT que não gostava quando eu dizia isso. "Eles vão chegar em mim e depois vão caminhar para criminalizar o PT."
Muita gente achava que eu deveria sair do Brasil, ir para uma embaixada, que eu deveria fugir. E eu tomei como decisão que o meu lugar é aqui [no Brasil].
Eu tenho tanta obsessão de desmascarar o [ex-juiz e ministro Sergio] Moro, de desmascarar o [procurador Deltan] Dallagnol e a sua turma, e desmascarar aqueles que me condenaram, que eu ficarei preso cem anos, mas eu não trocarei a minha dignidade pela minha liberdade.
Eu quero provar a farsa montada. Montada aqui dentro, montada no Departamento de Justiça dos EUA, com depoimento de procuradores, com filme gravado, e agora mais agravado com a criação da fundação criança esperança do Dallagnol, pegando R$ 2,5 bilhões da Petrobras para criar uma fundação para ele.
Eu tenho uma obsessão. Você sabe que eu não tenho ódio, não guardo mágoa porque, na minha idade, quando a gente fica com ódio a gente morre antes.
Então como eu quero viver até os 120 anos, porque eu acho que sou um ser humano que nasceu para ir até 120 [anos], eu vou trabalhar muito para provar a minha inocência e a farsa que foi montada.
Por isso eu vim para cá com muita tranquilidade. Havia uma briga no sindicato aquele dia [da prisão, em abril de 2018], entre os que queriam que eu viesse e os que queriam que eu não viesse [para a prisão].
E eu tomei a decisão. Eu falei "olha, eu vou". Eu vou lá. Eu não vou esperar que eles venham até mim. Eu vou até eles porque eu quero ficar preso perto do Moro. O Moro saiu daqui [de Curitiba]. Mas eu quero ficar preso. Porque eu tenho que provar a minha inocência.

O senhor, concretamente, é um fato, pode ser que fique aqui para sempre. O senhor mesmo assim acha que tomou a decisão correta? 

Tomaria outra vez.

O senhor já pensou que pode ficar aqui para sempre?

Não tem problema. Eu tenho certeza que eu durmo todo dia com a minha consciência tranquila. Eu tenho certeza que o Dallagnol não dorme, que o Moro não dorme. E aqueles juízes do TRF-4 (Tribunal Regional Federal), que nem leram a sentença? Fizeram um acordo lá [entre eles]. Era melhor que um só tivesse lido e falado "olha, todo mundo aqui vota igual".
Então, sinceramente, quem tem 73 anos de idade, quem construiu a vida que eu construí nesse país, quem estabeleceu as relações que eu estabeleci nesse país, quem fez o governo que eu fiz nesse país, quem recuperou a auto estima e o orgulho do povo brasileiro como eu e vocês fizemos no meu período de governo, não vou me entregar.
Então eles sabem que eles têm aqui um pernambucano teimoso. É o que eu digo sempre. Quem nasceu em Pernambuco e não morreu de fome até os 5 anos de idade, não se curva mais a nada.
Você pensa que eu não gostaria de estar em casa? Adoraria estar em casa com a minha mulher, com os meus filhos, os meus netos, os meus companheiros. Mas não faço nenhuma questão. Porque eu quero sair daqui com a cabeça erguida como eu entrei. Inocente. E eu só posso fazer isso se eu tiver coragem e lutar por isso.

Com a decisão da Justiça de que a OAS devolva o dinheiro do apartamento de dona Marisa, o senhor acredita em sua absolvição?

Por incrível que pareça, eu acredito. Eu ainda continuo com a cabeça de Lulinha paz e amor. Eu acredito na construção de um mundo melhor, de um mundo de Justiça.
Eu penso que haverá um dia em que as pessoas que irão me julgar estarão preocupadas com os autos do processo, com as provas, e não com a manchete do Jornal Nacional, com a capa das revistas, com fake news.
As pessoas se comportarão como juízes supremos, de uma corte [o STF] [da qual] não podemos recorrer. E que já tomou decisões muito importantes.
Essa corte, por exemplo, votou [a liberação de pesquisas com] células-tronco contra uma boa parte da Igreja Católica. Já votou a questão [da demarcação da área indígena de] Raposa Serra do Sol contra os poderosos do arroz no estado de Roraima. Essa mesma corte votou a união civil [de homossexuais] contra todo o preconceito evangélico. Essa corte votou as cotas para que os negros pudessem entrar [nas universidades]. Ela já demonstrou que teve coragem e se comportou.
Ora, no meu caso a única coisa que eu quero é que votem com relação aos autos do processo. Eu não peço favor de ninguém, eu não quero favor de ninguém. Eu só quero que as pessoas, pelo amor de Deus, julguem em função das provas.
Porque eu tenho certeza, o Moro tem certeza [de sua inocência]. Se as pessoas não confessarem agora, no dia da extrema-unção vão confessar. Ele tem certeza que eu sou inocente. Esse Dallagnol tem certeza de que ele é mentiroso. E mentiu a meu respeito. Então eu tô aqui, meu caro, para procurar justiça, para provar inocência. Mas estou muito mais preocupado com o que está acontecendo com o povo brasileiro. Porque eu posso brigar e o povo nem sempre pode.

O senhor, durante esse um ano, passou por dois momentos de muita tristeza, que foi a morte do seu irmão e depois a morte do seu neto Artur. O que, para o senhor, depois de viver isso, fica da vida? 

Esses dois momentos foram os mais graves. Eu poderia incluir a perda de um companheiro como o [ex-deputado] Sigmaringa Seixas, que era meu companheiro de dezenas e dezenas de anos. A morte do meu irmão Vavá... O Vavá era como se fosse um pai da família toda. E a morte do meu neto é uma coisa que efetivamente não, não... [chora].
Eu às vezes penso que seria tão mais fácil que eu tivesse morrido. Eu já vivi 73 anos, poderia morrer e deixar o meu neto viver. Mas não são apenas esses momentos que deixam a gente triste.
Eu tento ser alegre e trabalhar muito a questão do ódio. Eu trabalho muito para vencer a questão do ódio. A questão da mágoa profunda.
Quando eu vejo essa gente que me condenou na televisão, sabendo que são mentirosos, sabendo que forjaram uma história... Aquela história do power point do Dallagnol, nem o bisneto dele vai acreditar naquilo. Nesse messianismo ignorante.
Então eu tenho muitos momentos de tristeza aqui. Mas o que me mantém vivo, e é isso o que eles têm que saber, eu tenho compromisso com esse país.
Eu tenho compromisso com esse povo. E eu estou vendo a obsessão que está acontecendo agora. De destruir a soberania nacional. De destruir empregos. De juntar R$ 1 trilhão, para que? Às custas dos aposentados?
Se eles lessem alguma coisa, se eles conversassem, eles saberiam que esse cidadão aqui, analfabeto, com um curso de torneiro mecânico, juntou R$ 370 bilhões e dólares de reservas, que a R$ 4 o dólar dá mais de R$ 1,2 trilhão, sem causar nenhum prejuízo a nenhum brasileiro.
Então, se eles querem economizar R$ 1 trilhão tem uma fórmula secreta: coloque o povo no orçamento da União. Gere emprego. Gere crédito para as pessoas.
Ah, o povo tá devendo? Tire todo o penduricalho da dívida do povo e ele paga apenas o principal no banco e você vai perceber que as pessoas voltam a comprar. Um país que não gera emprego, não gera salário, não gera consumo, não gera renda, quer pegar do aposentado e do velhinho R$ 1 trilhão? O Guedes precisava criar vergonha.
Onde ele fez esse curso de economia dele? Se ele quiser me visitar aqui, eu discuto com ele esse problema dos pobres sem causar prejuízo aos pobres. Por que ele não mostra os privilegiados [de quem] eles falam que vão acabar com os privilégios? Coloca a lista no jornal de dez privilegiados. Coloca o nome, CPF. Não.
É o coitado que vai ter que trabalhar até 65 anos, que vai ter que contribuir 40 anos [para se aposentar]. Ele não percebe que muita gente morre sem chegar a essa idade. Lamento profundamente o desastre que está acontecendo nesse país. E é por isso que eu me mantenho em pé.
No dia em que eu sair daqui, eles sabem, eu estarei com o pé na estrada. Para, junto com esse povo, levantar a cabeça e não deixar entregar o Brasil aos americanos. Para acabar com esse complexo de vira-lata.
Eu nunca vi um presidente bater continência para a bandeira americana [como fez Bolsonaro]. Eu nunca vi um presidente ficar dizendo "eu amo os EUA, eu amo". Ama a sua mãe, ama o seu país! Que ama os Estados Unidos! Alguém acha que os Estados Unidos vão favorecer o Brasil?
Americano pensa em americano em primeiro lugar, pensa em americano em segundo lugar, pensa em americano em terceiro lugar, pensa em americano em quinto e se sobrar tempo pensa em americano.
E ficam os lacaios brasileiros achando que os americanos vão fazer alguma coisa por nós. Quem tem que fazer por nós somos nós. A solução dos problemas do Brasil está dentro do Brasil.

Como é a rotina na prisão? O sr. passa muito tempo sozinho? Eu passo o tempo inteiro sozinho. 

Eu leio, eu vejo pendrive que o pessoal me manda, assisto a filmes, muitos filmes. Muita série, muito discurso, muita aula. Eu por exemplo fiz, na minha cela... Que eu não trato de cela, eu trato de sala porque é melhor. Eu fiz um curso sobre Canudos no canal Paz e Bem [na internet], recuperando a história e mostrando as mentiras que Euclides da Cunha contou sobre Canudos [no livro "Os Sertões"].Ou seja, a história não é aquela. Então eu fiz um curso de oito aulas. Agora eu sugeri a eles que façam um curso, Retratos do Brasil. Sobre todas as lutas sociais no Brasil. E agora acho que toda segunda-feira tem uma aula [no canal].Eu espero juntar umas quatro ou cinco, recebo um pendrive, vou assistindo e vou me aprimorando. Quando sair daqui, sairei doutor.

Mas o sr. lava a sua própria roupa, lava suas coisas? E a prisão mudou o sr. em alguma coisa?

É engraçado porque eu sempre tive vontade de morar sozinho. Quando eu fiquei viúvo a primeira vez, em 1971, eu fiquei bravo com a minha mãe [dona Lindu] porque meu sonho era alugar uma quitinete e morar sozinho. A minha mãe morava com a minha irmã, a minha mãe abandonou a minha irmã, foi na minha casa e exigiu que eu alugasse uma casa para morar comigo. E eu morei com a minha mãe durante três anos e meio. Sabe aquele sonho de jogar a cueca para qualquer lado a meia para qualquer lado, a camiseta, não ter que prestar contas, não ter ninguém atrás de mim, "recolhe, põe no chuveiro"?Hoje, eu faço isso. Mas eu preencho o meu tempo vendo muita coisa.

O sr. lava suas roupas?

Não. Eu mando para o meu pessoal lavar. Mas eu curto a solidão tentando aprender, mentalizar a minha espiritualidade, tentando gostar mais do ser humano, tentar ficar um pouco mais humano. Eu acho que eu vou sair daqui melhor do que eu entrei. Com menos raiva das pessoas. Eu vou sair um cidadão bom daqui. Bom e motivado para brigar. Estou doido para fazer uma caravana.

Um grupo perto da prisão diz "boa noite" e "boa tarde todos os dias para o senhor.

Eu escuto todo santo dia. Quando tem atividade, eu escuto discurso das 9h às 21h. É música, é canto. Eu sinceramente não sei como um dia eu vou poder agradecer a essa gente. Tem gente que está aqui [numa vigília em frente à PF] desde o dia em que eu cheguei aqui. Vai para casa, lava a roupa e volta para cá. Eu serei eternamente grato, não sei se isso já aconteceu alguma vez na história com alguém. Mas eu sinceramente não sei como fazer para agradecer. Eu já disse para todo o mundo aqui. Mas quando eu sair daqui, quero sair daqui a pé e quero ir lá no meio deles. A primeira cachaça eu quero tomar com eles. E brindar.

O seu partido perdeu a eleição e a extrema direita chegou ao poder com muitos votos que eram do PT. Como o senhor avalia essa guinada?

Vamos só relativizar tudo isso. Uma das condições que fez com que eu viesse para cá era porque não havia nenhum advogado naquele instante que não garantisse que eu disputaria as eleições sub-judice. Mesmo condenado, eu poderia concorrer.
E eu estava com um orgulho muito grande de ganhar as eleições de dentro da cadeia. É importante lembrar que eu cresci 16 pontos aqui dentro [da prisão]. Sem poder falar.
Aí quando o ministro [do STF e do TSE, Luís Roberto Barroso] fez aquela loucura [foi decidido que Lula não poderia se candidatar], eu tive que assinar uma carta dizendo para o [Fernando Haddad] ser candidato.
Ali eu senti que nós estaríamos correndo risco. A transferência de votos não é simples, automática. Leva tempo.
Eu tinha certeza de que o Haddad poderia representar muito bem a candidatura, como representou.
Nós tivemos uma eleição atípica no Brasil. O papel do fake news na campanha, a quantidade de mentira, foi uma coisa maluca. E depois [teve] a falta de sensibilidade dos setores de esquerda de não se unirem.
A coisa foi tão maluca que a Marina [Silva, da Rede], que quase foi presidente da República em 2014, teve 1% dos votos.
Eu respeito o voto do povo. O povo não é bom só quando vota em mim. Mas a verdade é que eu nunca tinha visto o povo com tanto ódio nas ruas.
Eu já fui muito a estádio de futebol. Eu sou corintiano. Eu ia com palmeirense, com são-paulino, com santista. A gente brincava, brigava. Mas, agora, era loucura. É ódio. E eu tenho acompanhado por leitura. Está no mundo inteiro assim.
A política está efetivamente demonizada. E vai se levar um tempo muito grande para a gente tratar a política com mais seriedade. Veja o caso do Brasil. O que você tem visto nesses quatro meses? Eu não esperava que o Bolsonaro fosse resolver o problema do Brasil em quatro meses.
Quem acha que em cem dias pode apresentar alguma coisa, realmente não aprendeu a sentar a bunda na cadeira. E, depois, com a família que ele tem. Com a loucura que tem. Quem é o primeiro inimigo que ele tem? É o vice [general Hamilton Mourão]. Ele [Bolsonaro] passa a agredir os deputados, depois tenta agradar os deputados. Diz que está fazendo a nova política e a política que ele faz é a mesma porque ele é um velho político.
Ou seja, o país está desgovernado. Ele [Bolsonaro] não sabe até agora o que fazer e quem dita regras é o Paulo Guedes. O homem de R$ 1 trilhão [que o ministro afirma que será economizado com a reforma da Previdência]. A única coisa que o povo sabe é do R$ 1 trilhão.
Eu vejo jornal das 7, das 8, das 11, do meio-dia, em todos os canais. Nunca vi tanto jornal na vida. É tudo a mesma coisa. Parece as sentenças que dão contra mim.
Fez a reforma da Previdência, acabou o teu problema. Acabou o problema do Brasil. Todo mundo vai ficar maravilhosamente bem. E eu acho que todo mundo vai se lascar se for aprovada a Previdência tal como ele [Guedes] quer.
Se a Previdência precisava de reforma, senta com os trabalhadores, com os empresários, com os aposentados, os políticos, e encontra uma solução para arrumar onde tem que arrumar.

Dá para culpar muitos pela derrota. Mas vocês ficaram muito tempo no poder. Houve corrupção de fato, comprovada. Que autocrítica que o senhor faz? E como fica o PT agora, sem o senhor?

Obviamente que reconhecemos que perdemos as eleições. Mas é importante lembrar a força do PT. Porque só eu pessoalmente tenho mais de 80 capas de revistas contra mim. Quando eu fui preso, eu tinha 80 horas de Jornal Nacional contra mim. Mais 80 horas da Record, mais 80 horas do SBT, mais 80 horas de um monte de coisas. E eles não conseguiram me destruir. Isso significa que o PT tem uma força muito grande.
O PT não foi destruído. O PT perdeu a eleição. Provou que é o único partido que existe nesse país. O resto é sigla de interesses eleitorais em momentos certos. Quem acabou foi o PSDB. Esse acabou. Esse foi dizimado.
Então o PT perdeu as eleições. Deve ter cometido erros durante os nossos governos. O Ayrton Senna cometeu erros, um só, e morreu.

E a corrupção?

Ela pode ter havido. Agora, que se faça prova. Teve corrupção, a polícia investiga, faz acusação, prova, está condenado. Fomos nós do PT que criamos os melhores mecanismos para apurar a corrupção. Não foi o Moro, não foi ninguém. Combater a corrupção é uma marca do PT.
Se alguém do PT cometeu um erro, tem que pagar. A única coisa que queremos é que se apure, que se investigue.
Eu falo por mim. Eu desafio Moro, Dallagnol, 209 milhões de pessoas – inclusive você –a provar a minha culpa.

Na questão do sítio, houve de fato uma reforma, comprovada, e o senhor usufruiu dessa reforma. A Justiça decidirá se houve crime. Mas não houve um erro?

Eu poderia ter aceito e nunca ter ido naquele sítio. Então eu cometi o erro de ter ido no sítio. Eu disse que está provado que eu fiquei sabendo daquele maldito sítio dia 15 de janeiro de 2011. E o sítio tinha dono, dono, pré-dono, e bidono. O Jacó Bittar era meu amigo de 40 anos, comprou o sítio no nome do filho dele, com cheque dado pela Caixa Econômica Federal, e a polícia sabe disso, a polícia investigou.
Nós tivemos policiais e procuradores visitando casa de trabalhador rural [do sítio], casa de pedreiro, casa do caseiro, perguntando até para as galinhas: “Você conhece o Lula? O Lula é o dono?” Nem as galinhas falaram. Porque se eu quisesse eu podia comprar.
Então, se eu cometi o erro de ir num sítio em que alguém pediu e a Odebrecht reformou, vamos discutir a questão ética. Aí é outra questão.
Acontece que o impeachment da Dilma [Rousseff], o golpe, não fecharia com o Lula em liberdade.
Qual é o meu incômodo? Se eu tivesse aqui preso e o salário mínimo tivesse dobrado, [pensaria] “o Lula realmente é um desgraçado, prendeu e melhorou [a vida do] povo”. Mas não.
Acabaram agora com o aumento real do salário mínimo. Inventaram uma carteira de trabalho verde e amarela [com menos direitos, para quem estiver entrando no mercado de trabalho]. Nenhum empresário vai contratar um trabalhador que não esteja com carteira verde e amarela.
Essa gente pensa que o povo é imbecil para ficar mentido o tempo inteiro para o povo.
Quando falam em autocrítica, eu acho que nós devemos ter muitos erros. Eu, por exemplo, tive um erro grave. Eu poderia ter feito a regulamentação dos meios de comunicação.
É uma autocrítica que eu faço. Mas imagina se todo mundo nesse Brasil fizesse uma autocrítica. A elite brasileira deveria estar agora fazendo autocrítica: “Poxa vida, como a gente ganhou tanto dinheiro no governo do Lula, como é que o povo pobre vivia tão bem, como é que o povo pobre estava viajando para o Piauí, para Sergipe, para Garanhuns, de avião e agora nem de ônibus pode viajar?”.
Vamos fazer uma autocrítica por causa do que aconteceu em 2018 na eleição. Vamos fazer uma autocrítica geral nesse país. O que não pode é esse país estar governado por esse bando de maluco.

O senhor se sente injustiçado por empresários que cresceram em seu governo fazerem delações premiadas contra o PT e o senhor?

Eu não fico com raiva. Eu tenho desafiado os empresários a dizerem quem é que me deu cinco centavos.
O Léo [Pinheiro, ex-presidente da empreiteira OAS que delatou Lula no caso do triplex] passou três anos dizendo uma coisa [que o ex-presidente não estava envolvido em irregularidades]. De pois mudou o discurso.
Meu advogado perguntou por que ele tinha mudado e ele disse que era orientação do advogado dele. Ele falou que o Lula sabia [da reforma no apartamento paga pela construtora].
Agora, o que está provado? A OAS gastou R$ 6 milhões para pagar funcionários dela para uniformizar o discurso dos funcionários na delação. Como eu posso levar a sério isso? Eu não posso levar a sério.
O que eu posso dizer é que haverá tempo suficiente para que a gente faça a investigação. Quem sabe um jornalista bem informado como você possa ir aos Estados Unidos saber qual é a intromissão do Departamento de Justiça americano nesse processo do Brasil. Qual é o interesse dos americanos na Petrobras.
Você sabe qual é, mas temos que investigar. Temos que ir atrás. Eles nunca engoliram o fato de eu dizer que a Petrobras era nossa, que o petróleo era nosso, que o petróleo seria o passaporte do futuro, que 75% dos royalties da Petrobras iria para cuidar da educação, e que a Petrobras teria 30%. Ou seja, quem quisesse entrar teria que pagar o que nós quiséssemos.
Aí o WikiLeaks [site que compartilha dados secretos na internet] vaza aquele documento do [senador José] Serra ligando para a Chevron [petrolífera dos EUA] dizendo "venha para cá [Brasil] que nós vamos dar um jeito [de mudar o modelo]. E deram um jeito.
Como esse país vai para a frente se não tiver gente que se respeita, que goste do país e que entenda que um país que tenha as riquezas minerais que o Brasil tem, a floresta, o potencial de água doce, de petróleo, quase 17 mil quilômetros de fronteira seca, 8 mil quilômetros de fronteira marítima, petróleo a 200 milhas... foi a gente anunciar o pré-sal que os americanos recuperaram a quarta frota que funcionou na Segunda Guerra Mundial.
Qual foi a resposta que dei para os americanos? Criei o Conselho Sul-Americano de Defesa para juntar e não ter intromissão dos Estados Unidos.
A coisa que mais acontece no Brasil é denúncia. E sou favorável que todas as denúncias feitas sejam apuradas. Investiga, investiga, apura, apura, faz o que quiser.
Eu estou achando estranho essa tal dessa milícia do Bolsonaro. Cadê aquele cidadão dos R$ 7 milhões [Fabrício Queiroz, ligado a Flávio Bolsonaro]? Cadê a imprensa que não está atrás do Queiroz? Então, é o seguinte, o Brasil tem dois pesos e duas medidas.
Eu, ex-presidente da República, sem nenhuma prova, foram na minha casa, recebi vários policiais. O seu Queiroz não atendeu a nenhum pedido [para depor no Ministério Público] e a Polícia Federal não foi buscar ele ainda.
Os policiais do Exército dão 80 tiros num carro, matam um negro. E vai [a imprensa] perguntar para o ministro da Justiça e ele fala: “Isso pode acontecer”. É por isso que eu não tenho o direito de baixar a cabeça, de ficar esmorecido, fraquejar. Eu estou mais tinhoso que nunca.

Como o senhor recebeu a notícia da morte de Alan Garcia [ex-presidente do Peru, que se matou quando ia ser preso por denúncias de corrupção]?

Eu nunca consegui entender a morte do Getúlio Vargas. O último filme que assisti do Getúlio Vargas foi esse com o Tony Ramos. É um bom filme.
Eu lembro que, em 2005, numa plenária com empresários no Palácio da Alvorada [quando era presidente], eu falei: “Eu quero que vocês saibam como eu sou. Não vou me matar porque eu não tenho vocação de Getúlio, não vou correr porque não tenho vocação de pedir asilo político. Se alguém quiser me pegar nesse país, vai me pegar na rua".
E comecei a ir pra rua. E por isso que ganhei em 2006 [quando foi reeleito presidente] e orgulhosamente terminei o meu mandato com 87% de bom e ótimo, 10% de regular, e 3% de péssimo, que deve ter sido lá no condomínio do Bolsonaro e na sede do PSDB.

E o Alan Garcia?

Ele teve uma reação psicológica que muita gente tem, como o reitor da UFSC [que se suicidou].
Não é todo mundo que aguenta. A Marisa [mulher de Lula] morreu por conta disso. Quem está falando é um homem de 73 anos de idade, perto de fazer 74 anos. A dona Marisa morreu por conta do que fizeram com ela e com os filhos dela.
A dona Marisa perdeu motivação de vida, não saia mais de casa, não queria mais conversar nada. O AVC dela foi por isso. Agora, não pense que por causa disso eu vou ficar com meu coração cheio de ódio.
Aqui tem muito lugar para amor. O ódio eu vou colocando num cantinho bem escondido.
E o Alan Garcia não deve ter suportado. Eu não sei, não leio imprensa peruana, não sei qual era a acusação que se fazia contra ele. Mas o Alan Garcia era um homem que tinha saído muito mal do governo. O Peru tem uma coisa engraçada, é um país que cresce a 5% ao ano e todos os presidentes saem com 10%, 5% de aprovação.
É porque eles exportam tudo para os Estados Unidos. Eles crescem mas não têm distribuição de renda. O país cresce 5% e a miséria cresce a 10%. A miséria sempre vai na frente do crescimento.
Eu sinceramente não sei como ele se matou. Tem que ter muita decisão [para não se matar]. Eu sei o que eu passei. Eu sei o que passei. Você não tem noção do que é passar seis meses esperando todo santo dia que a Polícia chegue na tua casa? Todo santo dia. Não é um dia, não, são seis meses.
E, de repente, você vê a polícia chegar na tua casa, com uma desfaçatez, todo mundo [os policiais] com máquina fotográfica pendurada no peito para tirar fotografia.
Deveriam ter mostrado a quantidade de dólares que acharam, a quantidade de joias que acharam da dona Marisa. Deveriam ter tirado foto e colocado na TV Globo. Enfiaram o rabo no meio das pernas porque não encontraram nada. E a imprensa não fala "não encontraram nada na casa do Lula".
É duro. Não queira que isso aconteça com você. Eu conheço casos de pessoas [presas] que estavam em cadeira de rodas, pediam para ir no banheiro e diziam: "Se você não falar o nome do Lula, você não vai no banheiro". Como a história não é contada, essas coisas vão acontecendo. Então eu tenho muita motivação para estar vivo. Estar vivo e não fazer nenhuma loucura.
Foi a forma que eu encontrei de ajudar esse país a se reencontrar com a democracia, com o amor, com a paz. Esse povo tem o direito de ser feliz, de viver bem. Então é para isso que eu existo, meu caro. E para isso eu vou brigar até os últimos dias da minha vida.
Me diga o seguinte: Lula, você está livre, vai morar nas Bahamas, tem um lugar para você lá, vai ter água de coco todo dia de manhã. Mas o compromisso é não fazer política. Eu vou dizer o seguinte: “Eu vou ficar aqui, sem água de coco, sem Bahamas. Vou ficar na esperança de que eu vou andar por esse país levantando a cabeça do meu povo para a gente voltar a conquistar direitos”.
O povo tem que tomar café de manhã, almoçar e jantar todo dia, e se puder comer uma bolachinha às três horas da tarde com café com leite, e se puder fazer um lanchinho dez horas da noite, antes de dormir.
Quero que o povo vá ao teatro, ao cinema. A coisa mais fantástica é um pobre pegar um avião, não sabe nem como entra no banheiro, mas pega um avião e vai para a sua terra. É isso que eu quero é e por isso que vou brigar
E sei que tem muita gente que não gosta de mim, e é por isso que eu vivo, é por isso que eu tô de cabeça erguida. Não pense que eu estou aqui orgulhosamente, não. Eu estou aqui com orgulho de defender o povo. Mas gostaria de estar fora com meus netos e meus filhos.

O senhor falou que o PSDB acabou. Quem vê agora como principal adversário? O Bolsonaro? O Moro? Os militares, que passaram a ter protagonismo?

A vida inteira vocês gozaram de mim porque ele falava "menas laranja". O Moro falar “conje” [em vez de cônjuge] é uma vergonha. Sinceramente é uma vergonha. É o mínimo que ele deveria saber porque está escrito no Código Penal, há vários artigos que falam de cônjuge.
O Moro não sobrevive na política. E o Bolsonaro, ou ele constrói um partido político sólido ou do jeito que está também não perdura muito. Porque ali você tem uma quantidade difusa de interesses. Não sei como você é deputado 27 anos e diz que não gosta de política [referindo-se à carreira de Bolsonaro]. Como você faz um filho vereador, outro deputado federal, outro senador, e você não gosta de política.
Então, ele vai ter que ter muita capacidade de articulação, muita vontade, vai ter que gostar muito de política para poder dar certo. Porque a chance de ele dar certo é o Brasil dar certo. O povo tem paciência, mas não tem toda a paciência do mundo.

Pode dar certo?

Não sei. Do jeito que está fazendo não pode dar, querida. Não tem condições de dar. Você [o governo] diminuiu a renda per capita da sociedade, você diminuiu o salário mínimo, você diminuiu a possibilidade de oferta de emprego e você acha que tudo vai ser resolvido com R$ 1 trilhão para a Previdência, para o sistema financeiro? Vai dar certo onde?
Sabe o que dá certo? Dá certo se fizer como nós fizemos: legalizamos e formalizamos 6 milhões de microempreendedores individuais. Sabe porque a Previdência era superavitária no meu governo? Porque teve 20 milhões de pessoas trabalhando com carteira profissional assinada. Seis milhões de microempreendedores individuais se formalizaram. O Brasil quadruplicou as exportações.
Você está lembrada que eu criei uma coisa chamada primeiro emprego. Foi uma farsa aquilo, uma loucura. Eu achava que fazendo uma lei, criando o primeiro emprego, e dizendo para os empresários que eu ia pagar R$ 200, ia gerar emprego.
Nenhum empresário gera emprego porque eu estou dando R$ 200 para ele. O que vai gerar emprego são os puxadinhos da Caixa Econômica Federal. Fiz financiamento para construir um puxadinho. Surgiram no mesmo ano dez novas fábricas de cimento no Brasil.
Quando você faz a economia, o povo come um pãozinho a mais, toma um cafezinho a mais, uma cervejinha a mais, ganha um real a mais, compra um chinelo a mais.
Aí, você começa a gerar emprego no país. Agora você, do jeito que eles tão fazendo, inclusive brigando com os nossos maiores parceiros comerciais, desprezando a América do Sul... o nosso comércio com a Argentina é maior do que com todos os países da Europa.
Como vai desprezar o nosso comércio com a Argentina o Mercosul?
Esse cara [Bolsonaro] não entende de nada. Também, com o ministro que ele tem das relações exteriores [Ernesto Araújo], aquilo foi encomendado.
Saudades do Silverinha [Azeredo da Silveira, ex-chanceler] nos tempos do [ex-ditador Ernesto] Geisel, que teve coragem de reconhecer Angola. Esse cidadão que está aí [Araújo], sinceramente, como o Celso Amorim [ex-chanceler de Lula] deixou um cara desse na carreira do Itamaraty?

Como vê o protagonismo dos militares?

Quando sair daqui eu quero conversar com os militares. Tenho vontade de perguntar para o chefe da Marinha, da Aeronáutica, do Exército, qual presidente da República que fez mais para eles do que eu fiz.
Quero perguntar para eles qual a razão do ódio que eles têm do PT. Quando eu cheguei na Presidência, em 2003, soldado brasileiro saía [do trabalho] 11 horas porque não tinha dinheiro para almoçar. Recruta não ganhava salário mínimo. Além de pagar salário mínimo, dar almoço para eles, ainda criei o soldado cidadão para dar curso de formação.
Pergunta para o general o que era o batalhão de engenharia do exército brasileiro. As máquinas estavam todas quebradas, não tinha nem caminhão. Pergunta para eles o que eu fiz.
Pergunta para a Aeronáutica como era a situação quando eu cheguei na Presidência. O avião da presidência era chamado de "sucatão". Você ia viajar para a Europa e quando parava em Cabo Verde, nas Ilhas Canárias, tinham 18 mecânicos dentro do avião para catar parafuso que caía no aeroporto.
Eu quero perguntar para a Aeronáutica como era avião que eu emprestava para levar autoridade em casa. Quando levantava voo em Brasília, pegava fogo no avião. Tinha que descer rapidamente, senão explodia. O Celso Amorim perdeu uma pasta porque ela queimou dentro do avião.
Quando eu comprei o avião novo [para viagens presidenciais], é porque eu me respeito. Eu se pudesse ia de jegue para a Europa. Como eu não podia, tive a coragem de comprar um avião. Hoje eu me arrependo de não ter comprado um Airbus 140. Comprei o menor, devia ter comprado um grandão.
Peguei 15 ou 20 aviões da [empresa aérea] Rio-Sul, que não pagou o BNDES, e dei para a Aeronáutica. Deixei a Aeronáutica com cara de força aérea.
Pergunte para a Marinha. Eu fui visitar o [navio] Barão de Teffé na base brasileira na Antártida. Eu cheguei lá, [concluí que] um país grande não pode ter um navio de pesquisa daquele. Se o cara entrasse com a barriga, a bunda ficava para fora num lugar que tem que fazer pesquisa. Nós autorizamos o almirante a comprar um navio descente.
O governo não dava dinheiro para enriquecer urânio. Pergunta para ele quem garantiu R$ 30 milhões por mês para funcionar Caparaó. Eu não sou contra militar fazer política, não. Quer fazer política? Sai do Exército, vai para a reserva.
Aliás, é importante lembrar que a política no Brasil começou com o Marechal Deodoro da Fonseca. Eles fazem política no Brasil, só não tiveram participação no poder decisivo no governo do Fernando Henrique, no meu e no da Dilma [Rousseff]. No restante [dos governos brasileiros], eles tiveram.

Pode ser que eles não voltem para a caserna.

Se você tiver um militar tecnicamente competente e especialista numa coisa, não tem problema que ele vá para o governo. O que não pode é do jeito que tá. Não dá. Não dá. Eu não sei a qualificação das pessoas, que estão lá.
Agora mesmo eu vi no noticiário que o ministro do Meio Ambiente desmanchou não sei o que lá no Instituto Chico Mendes e colocou não sei quantos cabos, soldados, militares. Para cuidar de meio ambiente, você coloca gente especialista. Tem especialista da Polícia Federal, do Ministério Público, coloca técnico, coloca especialista, não tem que militarizar o governo.
Não sou contra eles participarem do governo, não. Mas militar tem que saber que eles têm um papel a cumprir pela Constituição. O militar tem que cuidar dos interesses desse país e da defesa da nossa sociedade contra os inimigos externos. Temos, entre fronteira seca e marítima, quase 22 milhões de quilômetros quadrados, é muita coisa para os militares cuidarem. A burocracia, vamos deixar para o burocrata.

O senhor tem acompanhado os movimentos do general Mourão?

Eu tenho. Eu não posso falar porque eu também não conheço o Mourão. Eu sou agradecido, por exemplo, por um gesto dele na morte do meu neto.
Ele foi um cara que disse que era uma questão humanitária visitar [ir ao velório do] meu neto. Diferentemente do filho do Bolsonaro, que postou uma série de asneiras no Twitter [dizendo que a morte do menino vitimaria o ex-presidente].
Eu estou vendo a briga [entre Mourão e a família de Bolsonaro]. Eu vou acompanhando. Ninguém nunca mais vai ter nesse país uma dupla harmônica como Lula e [o ex-vice-presidente] Zé Alencar. Um sindicalista e um empresário que fizeram esse país ter orgulho. Que fizeram esse país crescer.
Eu duvido que tenha um empresário nesse país tratado com mais respeito, em qualquer governo, do que por mim. Duvido. A diferença é que eu tratava ele bem, mas também tratava os sem-terra, os sem-casa, os moradores de rua bem. Tratava a sociedade brasileira.
Então, eu posso te dizer, esse povo é minha motivação. Quero que vocês saiam daqui e retratem que não conversaram com um cidadão alquebrado. Conversaram com um cidadão que tem todos os defeitos que um ser humano pode ter. Mas tem uma coisa que eu não abro mão, e isso eu aprendi com a dona Lindu [mãe do ex-presidente], que nasceu e morreu analfabeta: dignidade e caráter não têm em shopping, em supermercado e você não aprende na universidade. Vem do berço.
E isso eu tenho, demais. E não abro mão. Esse é meu patrimônio.

Como o senhor está vendo o quadro da esquerda brasileira? Imagino que o senhor saiba que o Cid Gomes e o Ciro têm o bordão "o Lula tá preso, babaca".

Isso não é bordão, isso é uma constatação.

Não ficou chateado?

Não. Só não precisava chamar os outros de babaca. Mas [dizer que] está preso é apenas constatar. É só ler o jornal e ver que eu estou preso.
Eu acredito que a esquerda brasileira está acumulando um conjunto de pessoas muito importante. Vamos pegar o PT. Apesar de algumas pessoas não gostarem, é um partido muito forte. Aliás eu posso dizer que é o único partido efetivamente organizado em todos os estados brasileiros. Com cabeça, tronco e membros.
Você tem o Ciro Gomes, que é uma figura importante no Brasil. Você tem o Flavio Dino, que é uma figura importante no Brasil. Tem alguns governadores importantes do PT, na Bahia, no Sergipe, no Ceará e no Rio Grande do Norte. Alguns governadores importantes do PSB. Tem uma novidade política no Brasil, que não teve um bom desempenho eleitoral mas é um menino que vai crescer muito, que é o companheiro Boulos.

Do Haddad o senhor não fala.

Tem o Haddad. Eu falei do PT, não quis personalizar só nele. É uma figura importante. Embora não tenha saído vitorioso nas eleições, se notabilizou como uma figura muito importante.
Se o Bolsonaro tivesse aceitado apenas ou dois debates, efetivamente ele não tinha sustentação para debater. Ele nunca se importou em aprender. Eu fui obrigado a aprender um pouco de economia por conta da minha atividade sindical. Eu era obrigado a aprender para negociar. Depois, no PT, eu fazia reuniões com 30 dos mais renomados economistas deste país. Eu acho que o Bolsonaro não gosta disso.
Eu digo para o PT: não tem que apresentar proposta. Apresenta o programa do Haddad na campanha, faz um confronto de ideias para a sociedade perceber que é possível um novo Brasil.
Eu provei na prática que é possível construir um novo Brasil. Eu consegui provar, com a bênção de Deus e do povo brasileiro, que o povo não é problema, o povo é solução. Eu consegui provar isso.
Deixa eu dizer uma coisa: eu, pessoalmente, gosto do Ciro Gomes, tenho respeito pelo Ciro Gomes. Ele não causa mal ao PT. Ele causa mal a ele mesmo. O Ciro Gomes precisa aprender uma lição elementar: é preciso aprender a ouvir coisas de que você não gosta. Suportar os contrários. Conviver na diversidade. Ele precisa aprender essa lição mínima.
Quando foi governador do Ceará, ele não precisava disso. Quando foi prefeito de Fortaleza, não precisava disso. Mas, agora, para ser presidente do Brasil, ele precisa. E ninguém será presidente do Brasil se romper com o PT, o PC do B.
Com a direita, não sei se a direita aceitaria ele. Como eu gosto do Ciro, o dia em que ele pedir para me visitar, eu vou aceitar que ele me visite aqui, para ter uma conversa boa com ele. Porque eu gosto dele. Eu gosto do Flavio Dino.
Não sei se a Marina tem um dia propensão de voltar para os setores de esquerda. Porque a Marina acabou, né, coitada. Ter 1% no processo eleitoral depois de ser quase presidenta, foi muito pouco, não sei o que ela vai fazer. Mas penso que a esquerda pode construir um grande projeto para o Brasil e pode voltar ao poder.

Sem o PT na hegemonia?

Por que o PT, de vez em quando, aparece como hegemônico? Você acha que um partido que tem 30% de voto vai começar abrindo mão da sua candidatura? Não vai.
Como eu acho que o PT já teve presidente quatro vezes, em algum momento pode escolher um companheiro de outro partido político para ser candidato a presidente, e pode participar do governo, pode ter [candidato a] vice. Acho que tudo é possível.
O que você precisa é não exigir que o PT abra mão de apresentar uma proposta alternativa. Se você tem 10%, eu tenho 30%, no segundo turno sou melhor do que você.
Se você é melhor do que eu, por que você não ganha no primeiro turno? Eu lembro do [ex-governador e presidenciável Leonel] Brizola, em 1989 [nas eleições presidenciais, Brizola apoiou Lula no segundo turno, depois de ter sido derrotado por ele no segundo].
O Brizola é uma pessoa que faz falta no Brasil hoje. O [ex-governador de Pernambuco Miguel] Arraes faz falta. Sabedoria política: não tem mais isso.

E o Fernando Henrique Cardoso?

O Fernando Henrique Cardoso não tem jogado um papel que o nome dele deveria merecer. Ele fala muito sobre quase tudo desnecessariamente.
Eu sinceramente acho que ele poderia ter um papel de grandeza para quem já foi presidente da República, para quem já foi chamado de príncipe da sociologia. Ele poderia ter um papel mais respeitoso com ele mesmo, não comigo.
O problema do Fernando Henrique Cardoso é que ele nunca aceitou o meu sucesso. Ele me adorava no fracasso. Quando eu fui eleito, ele falou: bom, o Lulinha só vai durar quatro anos e aí eu vou voltar com pompa e tudo.
Ele me tratava bem. Eu chego a dizer que eu achava que ele queria que eu ganhasse ao invés do [então candidato tucano em 1989, José] Serra. Acho que ele pensava “o Lula vai ganhar, coitado, metalúrgico, não vai conseguir fazer nada, eu vou voltar depois cheio de moral. O Serra se ganhar vai me ferrar, então prefiro o Lula”.
Não deu certo, porque quem deu certo não fui eu, foi a paciência e a competência do povo brasileiro. Que me ajudou, que acreditou. Está lembrando quantas vezes eu dizia que o meu governo ia ser medido por quatro anos?
É igual jabuticaba. Você planta. Se não for enxertado, vai demorar 15 anos para dar. Se for enxertado, vai dar no primeiro ano. Mas tem que dar água, por no sol. O governo é isso. E eu tinha muito medo de não dar certo. Eu dizia: eu não posso dar errado. Eu tinha muito medo do [Lech] Walesa na Polônia. Olhava para o fracasso do Walesa, que na reeleição teve 0,5% dos votos, eu falava "Deus me livre, não quero ser isso.
E graças a Deus o povo brasileiro me fez. Até hoje tenho muito orgulho de ter sido considerado o melhor presidente da história do Brasil. Carrego isso com muito orgulho. Ninguém vai tirar isso do povo brasileiro, e quem quiser ganhar de mim, que faça mais [do que eu], não é me xingar.

Mas ganharam agora do senhor.

De mim, não. Eu não concorri. Se eu tivesse concorrido, certamente ganharia as eleições. A Folha de S.Paulo escreveu que eu só vou ser candidato [a presidente] em 2039. Eu sou um homem de muita crença. Eu vejo cientista falar que o homem que vai viver 120 anos já nasceu. E por que não ser eu?
A Igreja Católica ensinou que com 75 anos [a pessoa] se aposenta que é melhor. Eu acho que vai surgir muita gente boa nesse país e eu me contentarei em apoiar qualquer pessoa daqui para frente para ser candidato a presidente.
Agora, estou vendo nos Estados Unidos um monte de gente com 78, 79 anos, querendo ser candidato, e isso começa a me ouriçar, começa a me dar um chamuscão aqui no pé, uma coceira. Quem sabe eu ainda possa voltar? Com uma bengalinha na mão. Como é que fala a música do velhinho? “Bota o velhinho na parede, o velhinho tá de volta”. Quem sabe. Mas, se depender de mim, eu vou trabalhar para ter alguém mais novo, alguém com mais energia.

O seu ex-ministro Antonio Palocci virou agora delator. Ele disse inclusive que havia uma conta no exterior no nome do [empresário] Joesley [Batista, da JBS], onde era depositado dinheiro para o PT.

Ele disse também que as duas campanhas na Dilma para Presidência custaram R$ 1,4 bilhão de reais. Mas que não foi declarado à Justiça Eleitoral.

Por que o senhor acha que o seu ex-ministro estaria mentindo?

Primeiro, se ele disse que o Joesley tem uma conta no exterior, eu acho que o Joesley deve ter conta no exterior, em vários países, porque ele tem fábrica em vários países, não vejo nenhuma novidade.
Lembro de um tempo que saiu na imprensa, que o Joesley tinha aberto uma conta para mim no exterior, que era para o meu futuro. Depois ele disse que utilizou a conta para comprar a ilha que era do [apresentador Luciano] Huck lá em Angra dos Reis para dar de presente para a mulher dele, comprou um barco não sei pra quem.
Então, o dinheiro que ele disse que era meu, ele gastou. Quando eu sair daqui vou abrir um processo contra ele, para devolver o que era meu, segundo ele diz.
Eu era um cara que tinha profundo respeito pelo Palocci. Palocci era uma pessoa que, se não tivesse feito bobagem, poderia ter crescido na política brasileira. Eu comecei a perder a confiança no Palocci com aquela história do caseiro no meu primeiro mandato. Vocês estão lembrados que o Palocci saiu do governo em março de 2006. Eu vinha para o Paraná, tinha uma atividade aqui, e tinha lido na imprensa [sobre o escândalo em que o caseiro Francenildo dizia que Palocci participava de festas com mulheres numa mansão em Brasília].
Liguei para o Palocci. Falei "estou indo ao Paraná, eu vou voltar 3 horas da tarde. Se você não tiver resolvido o problema do caseiro, você não está mais no governo". Ainda falei pra ele: Palocci, não é possível um ministro da Fazenda não ganhar de um caseiro. Ou você explica a história do caseiro, ou cai fora. Quando eu voltei, liguei pra ele, não tinha explicação.
Eu comecei a achar que o Palocci não dizia a verdade porque nunca teve coragem de me dizer se ele ia ou não ia na casa. Se ele mentisse para a Polícia Federal, para o PMDB, para o Senado, era um problema dele. Mas para mim, que era o presidente dele, ele nunca disse –aliás, ele disse que não sabia de nada. E entre o Palocci que não ia na casa, e o caseiro que dizia que ele foi, eu acredito no caseiro.

Mas depois ele foi coordenador da campanha da Dilma.

Aí é outra história. Estou dizendo que ele saiu porque não respondeu pra mim a questão do caseiro. Foi depois eleito deputado federal, e três pessoas foram colocadas na campanha da Dilma: ele, José Eduardo Cardozo, e José Eduardo Dutra. Presidente do PT, secretário-geral do PT e o Palocci, que era remanescente da minha vitória e deputado federal que não ia concorrer mais. Ele foi coordenador da campanha junto com o Zé Eduardo Cardozo, Dutra e João Santana. Certamente a Dilma admirava o trabalho dos três porque fizeram ela ganhar as eleições.
Desde os anos 1970 você que tem no Brasil uma disputa entre o cara que foi preso e denunciou o companheiro que era traidor. Quem não denunciou é o herói. Eu nunca tratei assim. Eu acho que o ser humano tem um limite do suportável do ponto de vista psicológico, da dor que ele recebe.
Eu tenho pena do Palocci porque um homem da qualidade política dele não tinha o direito de joga a vida fora como ele jogou. Tenho um profundo respeito pela mãe do Palocci, que é fundadora do PT, que carrega barro até hoje pelo PT lá em Ribeirão Preto. Mas lamentavelmente eu tenho pena do Palocci. Ele não merecia fazer com ele o que ele está fazendo.

O Brasil passa por uma crise econômica. O que o senhor faria de diferente?

Não tem mágica: 50% dos problemas econômicos de um país são resolvidos quando quem está governando tem credibilidade interna e externa. As pessoas que levantam de manhã para trabalhar ou que estão lá fora pensando em fazer qualquer coisa no Brasil têm que saber se quem está falando por aquele país tem seriedade, tem credibilidade.
Se essa pessoa tiver credibilidade e seriedade, as pessoas passam a acreditar. Quando tomei posse em 2003, gastei parte da gordura política que eu tinha para fazer coisas que o PT não queria que eu fizesse. Eu aumentei o superávit primário para 3,45. Isso na esquerda do PT era para me matar.
Em três anos resolvemos a casa, colocamos em ordem. Zombaram muito de mim quando eu disse [que viveríamos] o espetáculo do crescimento. Em 2004, a economia cresceu 5,8%. Eu disse isso num comício dentro da Ford. E depois, a economia começou a andar. Mais devagar, mas ela foi andando. Eu tive muito apoio lá fora também.
Quando eu deixei o governo, a gente estava produzindo 4 milhões de automóveis. Era muita coisa que tava acontecendo nesse país.
Você quer ver uma coisa que acho que foi um erro do governo da Dilma e que eu não faria? Em 2009, quando veio a crise [internacional], eu criei uma política de desoneração, de R$ 4 e de R$ 7 milhões entre 2009 e 2010. E desoneração para mim sempre funcionava como se fosse uma comporta: eu abro quando eu quero produzir mais energia, e depois fecho.
De 2011 e 2014, entre desoneração e isenção fiscal eles [equipe da Dilma] fizeram [desonerações de] R$ 540 bilhões. Aí a Dilma percebeu que não dava mais para desonerar, porque você mandava para o Congresso [proposta] para desonerar fábrica de maçã e o [então presidente da Câmara dos Deputados] Eduardo Cunha colocava maçã, pera, melancia, abóbora, vinha 500 coisas de volta.
A Dilma tentou consertar e mandou para o Congresso uma medida provisória acabando com a desoneração. O Renan Calheiros [então presidente do Senado] mandou de volta, não aceitou a medida provisória. Nós exageramos na desoneração.

O senhor sempre fala que tem muito orgulho de ter saído do governo com 85% de aprovação. O senhor tem vergonha de ter eleito uma presidente que foi uma das mais mal avaliadas da história, perdendo apenas para Michel Temer?

[Batendo no coração]: Orgulho, tenho muito orgulho da Dilma.

Mas o povo brasileiro parece que não tinha.

Nem todo filho consegue ter o sucesso que você teve. O Pelé não teve nenhum jogador como ele, nem o filho dele.
É importante lembrar que em 2013 a Dilma tinha quase de 75% de preferência eleitoral. Depois do que aconteceu a partir de 2013 [com as manifestações de rua], eu acho que nem a imprensa avaliou direito, nem a esquerda, nem os cientistas políticos.
O que foi a primavera árabe? Aquela loucura. Eu fiquei muito feliz quando derrubaram o [Hosni] Mubarak [no Egito]. E quem está governando? Uma junta militar. E não tem mais manifestação na rua.
Invadiram a Líbia. Fazer o que fizeram com o [Muammar] Gaddafi [morto em 2011]. Eu achava ele muito parecido com o Cauby Peixoto. Ele tinha feito um implante de cabelo, utilizava muita base no rosto, aquelas panos de seda branco, tudo cheio de base. E ele não causava mal a ninguém. Aquela loucura de matar aquele cara, o que criaram na Líbia? Criaram uma guerrilha de verdade.
O Iraque, eu conversei muito com o Bush, “não tem armas químicas no Iraque”. Ele fez [invadiu o Iraque] porque ele precisava se reeleger. Eu sinceramente acho que o mundo está precisando de lideranças e nós não temos lideranças mundiais. Nós precisamos tentar, no campo da política, dizer o seguinte: quem vai resolver o problema do mundo é uma classe política séria, com partidos sérios, organizados seriamente, para poder consertar o país.
Não tem o gênio, não tem o gênio da universidade que vá dizer que vai governar. Se fosse fácil assim, você não teria problema em nenhum país. [A universidade de] Harvard teria presidente em todo o mundo.

https://www1.folha.uol.com.br/poder/2019/04/lula-fala-sobre-prisao-moro-bolsonaro-e-stf-veja-versao-completa-de-entrevista.shtml

Vídeos:

https://www.youtube.com/watch?v=xhhw1aCyIwQ 

https://www.youtube.com/watch?time_continue=4085&v=zCzco42kRAg


https://www.facebook.com/humbertocostapt/videos/684682811962882/?hc_location=ufi


A ENTREVISTA DE LULA 1:
A admirável resiliência de um condenado sem provas
Reinaldo Azevedo 28/04/2019

Goste-se ou não de Lula, o fato é que ele tem no sangue, nos gestos, no olhar, na linguagem, nos esgares, o prazer da política. Falar sobre o assunto, como se viu na entrevista concedida aos jornalistas Mônica Bergamo e Florestan Fernandes Jr., da Folha e do El País, respectivamente, o revigora. E, nesse particular, ele é o oposto de Jair Bolsonaro. Erre ou acerte, o petista, à diferença do atual presidente, é dono de uma fala caudalosa, que remete a vivências várias — dos palácios e das ruas —, articulando memórias, conectando-as com ideias que estão por aí, em trânsito e em choque. Faço um registro gramatical. Assisti à entrevista em busca de anacolutos, de expressões soltas, de expressões soltas, de palavras sem função sintática que atravancam o discurso. Nada! A fala é límpida — isso independe de o ouvinte, ou espectador aprovar ou reprovar o que ele diz. Louvem-se, assim, de saída, a sua resiliência e, à diferença do que afirmou o governador de São Paulo, João Doria (PSDB), a sua sanidade mental. Não se percebeu, em nenhum momento, sinal de confusão, de perda do fio, de palavras ao léu. Reitero: não estou entrando no mérito do que disse Lula. Em uma hora e 54 minutos de entrevista, por exemplo, não há sombra de autocrítica na sua fala — ou, vá lá, de crítica ao modo como o PT se conduziu no poder. Sim, compreendo a circunstância. Preso desde 7 de abril do ano passado, é a primeira vez que fala com liberdade. Fez um uso político do tempo. Não vou censurá-lo por isso. Ainda voltarei a esse tema. Quero me ater, por ora, à sua resistência. Poucos, caminhando para ninguém, suportariam com tanta dignidade o reverso da fortuna. Há pouco mais de oito anos, ele deixava o governo como o presidente mais bem-avaliado da história. Na sua passagem pelo poder, fez-se uma liderança mundialmente respeitada, reverenciada por governantes das mais variadas tendências e de todos os quadrantes do planeta. No front interno, governou praticamente sem oposição — excetuando-se o DEM e o PSDB. A elite brasileira que hoje lhe vira as costas praticamente se ajoelhava a seus pés. Este cronista que escreve agora era das poucas vozes dissonantes, o que levou o líder petista e pespegar em mim a pecha de "blogueiro falastrão" num encontro com petistas. Não era fácil enfrentar a patrulha organizada dos seus partidários e admiradores. Mas não vou me ater a isso não. Contrasto aquele que chegou a ser tratado quase como um imperador absolutista com o presidiário de agora, recolhido a uma cela — que ele prefere chamar "sala" —, em absoluta solidão, vendo o mundo pelo noticiário de TV, preenchendo as suas horas, como disse, com filmes que lhe passam em "pen drives", longe da verdadeira cachaça de que é dependente: não é a pinga, mas a política. Em dois anos, viu morrer a mulher, Marisa Letícia; o irmão de que era mais próximo, Vavá, e, supremo sofrimento, o neto Arthur, de apenas sete anos. Já vi gente se debulhar em lágrimas de autocomiseração por muito menos e por contrastes bem mais suaves, não conseguindo suportar com altivez revezes muito mais brandos. Lula, e qualquer especialista em saúde mental certamente poderá atestá-lo, está inteiro. E pediu aos jornalistas que não fizessem o registro de um homem alquebrado. Enfrentou com frieza a primeira e dura questão de Mônica Bérgamo: está preparado para não sair da cadeia? E, ainda que se mostre compreensivelmente obcecado por sua absolvição, a resposta inequívoca é "sim".

SEM PROVAS

Este é um post que tem o objetivo de fazer, sim, o elogio da resiliência demonstrada pelo ex-presidente. Tanto mais porque ele foi, com efeito, condenado sem provas. Já fiz este desafio aqui e o repito: que alguém aponte, então, na sentença de Sérgio Moro onde está a comprovação da denúncia feita pelo Ministério Público Federal, segundo quem o tal tríplex de Guarujá era propina decorrente de três contratos com a Petrobras celebrados por consórcio integrado pela OAS. Não existe nem sombra de evidência. E o próprio Sérgio Moro foi obrigado a reconhecer isso, deixando escrito, com todas as letras, que inexiste liame entre o imóvel e os tais contratos. O TRF-4 manteve a condenação e ampliou a pena sem enfrentar a questão. O STJ manteve a condenação e reduziu a pena sem enfrentar a questão. Agora a Justiça de São Paulo reconhece que Marisa Letícia efetivamente pagou à Bancoop por cotas de um apartamento e que desistiu da aquisição. Tanto é assim que a sentença determina que o dinheiro seja devolvido. Nunca se viu propina em que é o beneficiário — o corrupto passivo — a pagar mensalidades ao corruptor… Estou longe de ter a certeza que tem Lula de que vai deixar a cadeia. A forma como a Lava Jato e seus braços urdiram os processos não o autoriza a ter muitas esperanças. Mas ele tem um vício, lembram-se? É a política. Não entregar os pontos é a forma que encontrou de manter a sanidade mental e espiritual. E isso, por si, o torna uma pessoa admirável.

https://reinaldoazevedo.blogosfera.uol.com.br/2019/04/28/a-entrevista-de-lula-1-a-admiravel-resiliencia-de-um-condenado-sem-provas/?fbclid=IwAR0V90G2EPbNgs2kslIQ1E5f6UeCK6whDlEMFxz9OJlPlX-GRhsOhjKPHL8  02/05/2019