sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Socialismo ou barbárie

Socialismo ou barbarie. Será que estamos de novo diante desta escolha? Não. Estamos longe do socialismo, mas estamos próximos da barbárie.

O que segue ilustra: revendo Veríssimo no Blog do Noblat.

Pós-Fukuyama, por Luis Fernando Veríssimo

21/09/2014

Francis Fukuyama (lembra dele?) decretou o fim da História com a vitória definitiva das forças do mercado contra o dirigismo econômico. A sua foi uma das frases mais bem-sucedidas do século passado. O Muro de Berlim caíra em cima do que restava das ilusões socialistas, a frase não tinha resposta e o capitalismo desregulado não tinha mais inimigos. Dominaria o planeta e nossas vidas pelos próximos milênios.

Como o próprio Fukuyama reconheceu mais tarde numa revisão da sua sentença, a História reagiu. O capital financeiro predatório mantém seu poder de ditar a moral e os costumes da época, mas não não tem mais a certeza de um futuro só dele nem a bênção da filosofia sintética e incontestável do Confúcio da direita. Se pela História tornada irrelevante Fukuyama queria dizer contradição e conflito, tudo o que aconteceu no mundo depois da publicação do seu livro desmentiu sua premissa. Mostrou que a História está viva, forte e irritadíssima. Nenhuma senhora, ainda mais com sua biografia, gosta de ser declarada inválida antes do tempo.

A crise provocada pelo capital financeiro fora de controle levou protestantes para as ruas na Europa e nos Estados Unidos e transformou “austeridade”, a solução receitada para as vitimas da crise, em palavrão. Ninguém quer pagar, com o sacrifício de gastos sociais, por uma porcaria que não fez. E cresce a busca por alternativas para os dogmas neoliberais e pelo fim do monólogo dos donos do dinheiro.

E o papel da esquerda na História pós-Fukuyama? O socialismo está numa crise de identidade. Como é difícil, hoje, recuperar o sentido antigo, sem qualificativos, de uma opção pelo socialismo, as pessoas se entregam à autorrotulagem para se definirem exatamente, (sou dois quartos de esquerda-esquerda, um quarto de centro-esquerda e o outro quarto deve ser gases), o que só atrasa as discussões que interessam.

Quais são os limites da coerência ideológica e do pragmatismo? O que ainda pode ser resgatado das ilusões perdidas? Por que não se declarar logo um neo-neoliberal e ser feliz? Num livro recém-publicado, a ex-mulher de François Hollande revela que ele tem horror a pobre. Se pode sobreviver a Francis Fukuyama, a François Hollande e a partidos políticos brasileiros que se chamam de “socialistas” com uma certa imprecisão semântica, o socialismo ainda tem um futuro, mesmo que seja apenas um apelido conveniente para o que se quer.

A escolha continua sendo entre socialismo e barbárie. Pode-se não saber mais o que é socialismo, mas para saber o que é barbárie basta abrir os olhos.

http://noblat.oglobo.globo.com/cronicas/noticia/2014/09/pos-fukuyama-por-luis-fernando-verissimo.html  17/11/2017

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

A igreja do diabo

Autran Dourado um dia disse: "Todo ano releio três livros de Machado de Assis: Dom Casmurro, Quincas Borba, e Memórias póstumas de Brás Cubas, para limpar a língua que fica suja das leituras estrangeiras".

Reli alguns contos do Machado. Já reproduzi aqui "A cartomante", um clássico, e volto agora com a "Igreja do diabo". Serve como profecias; o diabo está soltinho nos tempos atuais

Recentemente este conto foi base para o filme "A comédia divina" (2017) de Toni Venturi  http://www.imdb.com/title/tt5207840/

A IGREJA DO DIABO

Capítulo I / De uma ideia mirífica

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
— Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.
Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: — Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

Capítulo II / Entre Deus e o Diabo 

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que
engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.
— Que me queres tu? perguntou este.
— Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os  Faustos do século e dos séculos.
— Explica-te.
— Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho;
dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
— Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
— Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa idéia, não vos parece?
— Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor.
— Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos
mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
— Vai.
— Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
— Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja.
O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje de memória, qualquer coisa que, nesse breve instante de eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:
— Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê-las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...
— Velho retórico! murmurou o Senhor.
— Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, — a indiferença, ao menos, — com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, — ou sejam roupas ou botas,  ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que  me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos... 
Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo.
— Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie,
replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
— Já vos disse que não.
— Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?
— Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.
— Negas esta morte?
— Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...
— Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!  Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

Capítulo III / A boa nova aos homens
 
Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula  beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e  extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus  discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham  dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.
— Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.
Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza,que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe erarobusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu..." O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos de Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de propriedades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.
As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes
de eloquência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.
Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe obraço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens sãocanhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua
 palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrado assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.
E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra  espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em  simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.
Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regime: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: — Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúltero. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

Capítulo IV / Franjas e franjas 

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava  em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.
A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e
viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas, socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter - se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia que duvidar; o caso era verdadeiro.
Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe:
— Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

domingo, 22 de outubro de 2017

Puta que pariu, eu amo essa mulher

Welcome to the jungle

Pergunta: Cadê a Rosa?
Resposta: Tá na 25 do 19.


Praia de Camburi, Vitória, ES. Lá pelos idos de 1990. 


Tradução de na 25 do 19: a barraca 25 do Chico, o 19. O apelido vem dos 19 dedos no corpo, não tinha um dedo do pé.


E quem fez a pergunta? Ana Júlia.


A praia de Camburi a noite, nesta época, era bem diferente de hoje.


Hoje é um cemitério. 


Quem viveu, viu. Era festa, feira, folia e território livre. E as vezes um rabo de arraia entre bêbados ou bêbadas.

 
Nesse ambiente conviviam todas as classes sociais. Pedreiro, médico, advogado, bancário, vendedor, traficante, estudante, professor e as minas da pista. Tudo misturado, juntos, curtindo a noite com cerveja, conhaque Dreher, caipirinha, peixe frito, camarão, peroá, frango a passarinho, aipim frito etc.


O Dezenove era o cara que sabia de tudo o que se passava. Contava algumas, outras não. E ele sabia porque não. Sobre a Rosa sabia... e me contou.


Rosa


Rosa, uma mulher da pista que era linda de morrer. Meio esquentada, mas sedutora. Seletiva em relação a clientes. Não ficava com qualquer um. Tinha requisitos. Conversava bastante, gostava de conhaque e às vezes cheirava uma coca da boa. Mas tudo sob controle já que tinha dois filhos ainda crianças e trabalhava durante o dia como auxiliar de limpeza num supermercado. Requisito 1: no geral saia da pista no máximo às três da madrugada porque tinha trampo às 8 da matina. Requisito 2: no fim de semana ficava por conta da família e dos filhos. Quando na pista os meninos ficavam com a irmã. Rosa era separada do pai dos filhos.


Na pista, Rosa, ganhava um extra e curtia a vida. Tinha um custo: sono curto de segunda a sexta, mas repunha nos finais de semana.


Dias normais até Rosa encontrar Claudio. Conheceram-se e rolou um quê entre os dois. Requisito 3: não se envolver com alguém.


Mas, no caso a razão e o controle foram para o espaço. 

Antes uma vez por semana, depois duas e logo, exclusividade. Rosa ficava apenas com Claudio a noite toda e ele a deixava em casa. Aí a mistura fatal. Claudio conheceu os filhos de Rosa e saiam juntos alguns fim de semana. 


Após seis meses desta mistura o ponto final.

Porque está falando isto, amor? Temos a maior tesão entre nós. Tenho prazer contigo na cama e fora dela. Meus filhos adoram você, disse Rosa depois que Claudio disparou a declaração final.


A carne não é fraca, Rosa, a carne é triste, infelizmente, disse Claudio.


Claudio era casado, com filhos e a situação ficara insuportável para ele.


Rosa nunca mais viu Claudio.


Ana Julia


Ana Julia, uma mulher da pista linda de viver. Juntas Rosa e Ana tinham perfis parecidos. Separadas dos pais dos filhos e eram mães. Ana tinha duas filhas, uma criança e outra adolescente. Mães que trabalhavam durante o dia e a noite caiam na pista.


Eram amigas e confidentes. Ana ajudou muito Rosa durante sua rebordosa pós separação. Fizeram loucuras na praia de Camburi.  Beberam, cheiraram, participaram de brigas, fizeram programas juntas e muito mais. Eram carne e osso, tampa e balaio.


O inevitável 


Um acontecimento clareou o que estava embaçado. Ana Julia foi divinamente cantada por outra mulher. Saíram para um motel e na volta encontraram uma Rosa possessa de raiva. Deu BO. Sim, com delegacia e tudo a que se tem direito. Tudo por conta de um ciúme ancestral que Rosa tinha de Ana.


O clarear: estavam apaixonadas e aí quando acontece dá-se um chute bem dado na razão.  


Depois de um tempo


Percebi que Rosa e Ana não estavam na praia. Perguntei ao 19 onde estavam. Saíram da pista casadas e viviam com filhos e filhas em Carapina, Serra, ES. Tinham um armazém / bar movimentado o suficiente para bem sobrevirem. Às vezes apareciam na 25, mas só para curtirem a madrugada. 


Puta que pariu, como sou apaixonada por Ana Julia.

 
Foi a declaração final que o 19 ouviu de Rosa na última visita à ainda viva praia de Camburi.


NB: o título destas mal traçadas linhas é uma homenagem à Rogéria

https://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2017/09/04/adeus-rogeria/

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A Cartomante

Machado de Assis

HAMLET observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que
fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe
dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...
— Errou! interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe
queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso,
quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa
ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas cousas? perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não
acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as
ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando. Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagcm para a casa da cartomante. Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado.
Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.
— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo, falava sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras.
Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não
desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição. Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.
Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que
gostava de passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita.
Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, —ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas.
Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração, não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo.
Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam. Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura, mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.
Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava
imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo.
Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse
ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.
— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...
Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se
sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem , em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.
No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de
Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.
— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel.
Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e
lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a ideia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar
algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.
Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as
palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas, ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela.
"Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas assim, pela
voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê?
Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto.
Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo.
Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando
que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois
rejeitava a idéia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.
"Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim..."
Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo
voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar, a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua.
Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.
Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era
grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns
fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O
cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir por outro caminho: ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a ponco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:
— Anda! agora! empurra! vá! vá!
Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos,
pensava em outras cousas: mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas as palavras da carta: "Vem, já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia.
A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar . Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários: e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia... " Que perdia ele, se... ?
Deu por si na calçada, ao pé da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e
rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não, viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do
que destruía o prestígio. A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:
— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande
susto...
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma cousa ou não...
— A mim e a ela, explicou vivamente ele.
A cartomante não sorriu: disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra
vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas
descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas. três vezes;
depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela curioso e ansioso.
— As cartas dizem-me...
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela: ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita. . . Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.
— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendedo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.
Esta levantou-se, rindo.
— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...
E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu,
como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de
dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.
— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?
— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.
— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá, tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...
A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele,
falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava , cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o
céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.
— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa;
parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.
A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas
felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo
olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.
Daí a ponco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?
Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e
foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.


                                                                             FIM


sábado, 23 de setembro de 2017

Não me esqueça num canto qualquer


Não me grila ser esquecido. Às vezes é bom sair de mansinho da vida de alguém.

Rio de Janeiro, metrô, Siqueira Campos, sento ao lado de uma mulher. Ela puxa conversa. Te conheço de algum lugar.
Essa já conheço. É cantada barata. E era mesmo uma cantada.

Posso saber o teu nome? Sim, Oscar. E o teu? Érika, com k.

Saímos na Cinelândia e fomos para o Amarelinho tomar chope com frango a passarinho. Depois um cinema do lado: Odeon, cinemão de 550 lugares de 1932. O filme: Dunkirk, 2017, de Cristopher Nolan (filmão). Érika sobre o filme: li sobre este filme e concordo. Acerta como um coice de cavalo. É uma força e tanto. Um coice que é um dos melhores filmes do ano.
 
Érika, sem dissimular nada, me chama para terminar a noite em sua casa. Um apartamento de 150 metros quadrado no Flamengo. E tome vinho para fechar a noite e começar a madrugada. Lembro me de um gostei de você antes de adormecer. Acordei as 11 do outro dia e me fui.

No dia seguinte repetimos a dose. No Net Gávea. O filme: Lady Macbeth, 2016, Willian Oldroyd . Dunkirk é um coice. Lady Macbeth é um direto no estômago. Impactante.

Nada de boteco. Voltamos para o aconchegante apartamento de Érika. Conversa recorrente: cinema. Vinho: Pinot Noir. Jantar: espaguete com filet au poivre. Noite maravilhosa, madrugada idem. Já dia claro fomos dormir embriagados, saciados e com um cara, continuo gostando muito de você... Eu também.
 
E a semana continuou com a rotina cinema, botequim, vinho e muito mais. Hotell, 2013, de Lisa Langseth (Igmar Bergman presente, é filme sueco) com Alicia Vikander, no cine Joia em Copacabana e Adega Pérola na Siqueira Campos. O filme da minha vida, 2017, de Selton Melo (imperdível) no cine Santa Tereza no centro e Nova Capela na Lapa.

Durante a última noite que estive com Érica, após cinco dias de intensa convivência, nos conhecemos mais. Disse a ela que era geógrafo, que não morava no Rio, divorciado, e estava de férias. Ela me disse que era roteirista de cinema e TV, casada e tinha dado um tempo no trabalho.

Me diz uma coisa Érica, você é casada? Cadê o marido?

Ele está no exterior trabalhando. Semana que vem está de volta.


Outra coisa, dona Érica, frequentei o apartamento que teu marido frequenta?


Sim.


Tem problema não. Ele me conhece e sabe como sou. E mais, seu Oscar, você não foi o primeiro.
 
Só me restou uma resposta, lembrando Toquinho.

Só peço a você Érika um favor, se puder. Não me esqueça num canto qualquer


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Aparência e Essência


Essência para a filosofia é “aquilo que a coisa é em si mesma”, isto é, a verdade mais profunda da coisa, o ser da coisa. E aparência, como a própria palavra sugere, é aquilo que a coisa aparenta ser e não aquilo que ela é em si. Aqui temos uma diferença/oposição/contradição (dialética). Ser e aparecer são realidades opostas que não somente se distinguem em suas características, mas que se digladiam entre si não havendo espaço e possibilidade de convivência. (Danilo Corrêa)

Aparência

Lauro é professor universitário, 31 anos, bonito e corpo escultural. Um Apolo com barriga zero. Irritante quando o vi em minha frente. O cara era só massa magra e eu com barriga maior que zero, não obeso, claro, mas frente a frente me deu um complexo de inferioridade estética.
Conversei com Lauro durante uma hora em sua sala de trabalho na universidade.

Tô casado não. Solteirinho da silva. Não tenho tempo para namorar. Sou contaminado pelo trabalho. Minha vida se resume em trabalho e nos intervalos, academia de ginástica.

Tempo social e tempo profissional. O primeiro quase inexiste. O trabalho de Lauro é predominantemente pesquisa. É da geração do Curriculum Lattes.

Rapaz, sou escravo do dead line. Veja lá no meu Lattes, um artigo a cada três meses. Tem que ser assim, é a sobrevivência como docente da universidade.

É a opinião de Lauro. Sobrevivência na universidade operacional contemporânea.  Como ele conheço vários docentes e várias docentes que pensam como.

Sindicato? Me acho cientista, cara. E como tal, confesso pra ti, não me considero trabalhador. Trabalho sim, e muito, para a ciência.

A origem da universidade está na idade média circunscrita ao pensamento cristão medieval. A igreja era a protetora e zeladora. Na época os universitários tinham imunidades similares às dos clérigos. E clérigos não eram trabalhadores.

E a família Lauro?

Minha família mora longe. Estou com eles e elas no Natal. Meus irmãos e irmãs são diferentes. Não pensam como penso, mas me dou bem com eles e elas. Gosto da minha família.

Saí da conversa com Lauro lembrando de Caravaggio.

Narcissus - 1597-99
Galleria Nazionale d'Arte Antica - Rome
https://favourite-paintings.blogspot.com.br/2011/03/michelangelo-merisi-caravaggio.html 15/08/2017

Essência

Marcos é um rapaz de 30 anos que mora em Vila Velha, Espírito Santo. Tem um filho, de 10, que mora com a mãe em Belo Horizonte. Todo o mês Marcos envia a mesada (1 salário mínimo) para o filho.

Tenho uma vida agitada, mas gosto do que faço. Moro com minha mãe e tenho muito carinho por ela, diz Marcos. A mãe, dona Manuela, tem personalidade forte e sabe como defender o filho. Não mexe com meu filho, senão viro bicho, diz sempre.

O filho da Manuela é um cara animado e falante. Estudou até o ensino médio e tem uma cultura respeitável. Conversa bem sobre literatura, cinema e psicanálise. Filosofar? É com ele mesmo. Gosta de moda e por sinal se veste muito bem.

Relato a seguir uma semana na vida agitada de Marcos.

Segunda: durante o dia é divulgador em uma loja de um shopping na Praia da Costa. A partir das 18 horas é apoio/segurança em um jantar no Cerimonial Orla Camburi em Jardim Camburi em Vitória. Volta depois da meia noite para Vila Velha. Para isto toma dois ônibus (o popular bacurau). Chega em casa às duas horas da madrugada.

Terça: Acorda às 6 horas e vai para a loja Aquarius na Glória, em Vila Velha. Lá trabalha como apoio e divulgador. À noite, a partir das 19 horas é garçom na boite Octopus em Itaparica, Vila Velha. Sai a 1 hora e chega em casa às 2 da madrugada. 

Quarta: Às 8 horas está no shopping da Praia da Costa. As 13 se manda para a Glória para o serviço na loja Aquarius. A noite volta para a Octopus. Está em casa às 2 da madrugada.

Quinta: a partir das 8 é apoio e divulgador na loja Veneza Modas na Glória. À noite, a partir das 20, é apoio no show do Exaltasamba no Parque de Exposição de Carapina, no município da Serra. Fica por lá até 1 hora da madrugada. Para voltar mais dois ônibus (bacurau) e depois de duas horas está em casa.

Sexta: durante o dia, é Papai Noel de uma loja no shopping na Praia da Costa. A noite é garçom no Bar do Luiz em Itapuã, Vila Velha. 

Sábado: de novo é Papai Noel no shopping. À noite garçom no Bar do Luiz.

Domingo: é dia de descanso. E como ninguém é de ferro se encontra com o namorado Alcides.

Para Marcos não há tempo ruim, não reclama da vida.

Resumo da ópera

Marcos e Lauro têm vidas distintas. Marcos (a exploração do trabalho) e Lauro (a alienação) representam o ser e o aparecer.

A ciência é, por assim dizer, a plenificação da coisa em si. No início do processo, a ciência está para ela na forma de aparência. Este processo é considerado por Hegel como o modo da essência de mostrar se à aparência. É este mostrar se que constitui a alienação, pois a ciência assume a forma de aparência para realizar se plenamente. O aparecer é a forma que a essência assume para vir à tona. (Fabrício J.Brustolin)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Feliz dia dos pais, João


A paternidade continua um privilégio de quem consegue receber e um favor de quem consegue exerce

Ana Paula Lisboa, O Globo – 16/08/2017

Minha mãe é filha de um homem mestiço português, e vem daí esse meu sobrenome da capital lusitana que muitos aqui em Luanda acreditam ser meu nome artístico.
Quando meu avô conheceu minha avó, ela era bem jovem, e ele, já um homem velho e casado com uma senhora branca, mas com muitas mulheres e, consequentemente, muitos filhos espalhados no mundo. Minha mãe era a única dos filhos fora do casamento que fora registrada por ele. Segundo meu avô, essa era a maior prova de amor que ele poderia dar à minha avó: acreditar que aquela filha era dele e dar a ela o seu sobrenome.
Minha avó faleceu, infelizmente, antes dos 50 anos, de um derrame cerebral. No dia do seu enterro, já há anos deixado por ela e cheio de recalque, meu avô soltou a seguinte pérola: “Filho de minhas filhas, meus netos são, de minhas noras serão, ou não?” Eu demorei anos pra entender o que esse ditado complexo significava, mas sabia que era algo muito ruim, porque minha mãe desde então cortou relações com meu avô e, mesmo depois de sua morte, nunca mais voltamos a Magalhães Bastos. A última notícia que tenho é de uma herança que minha mãe faz questão de não receber.
Eu sei que ela vai me matar quando ler essa coluna, mas eu precisava contar toda essa história íntima da minha família para dizer que ainda existem homens como o meu avô e filhas como a minha mãe. E que minha maior curiosidade está nos tios e primos que tenho pelo mundo e não conheço.
Sim, porque dados do Conselho Nacional de Justiça de 2011 dizem que mais de um quarto da população brasileira não tem na certidão de nascimento o nome do pai. O Estado do Rio lidera o ranking, com quase 700 mil crianças com “pai desconhecido”. A esses meus tios e tias foi privado o direito à personalidade e à identidade, a ter uma história de família para contar.
Nesse quase um mês fora do Rio, o que tem me guiado é pensar que “se você não sabe para onde está indo, saiba pelo menos de onde veio”.
Repararam no último domingo que, diferente do Dia das Mães, em que as redes sociais ficam repletas de amor, de agradecimento e de saudades, o Dia dos Pais traz uma enxurrada de ressentimento, de relações interrompidas ou que começaram tardiamente, de relatos de abandono e de tristeza? Parece até que pai se tornou aquilo que a gente nunca viu, nem comeu, só ouviu falar e admira nas fotos dos outros.
Porque é claro que há também as declarações de amor, de orgulho, de saudades, há os almoços, os churrascos, há a música do Fábio Júnior e a da Legião Urbana, há o perdão. Mas mesmo para essas pessoas, ter um bom pai parece ser um privilégio.
Por aqui o domingo foi normal, já que a data — Dia do Pai — é comemorada em 19 de março, dia de São José, o pai “adotivo” de Jesus. E mesmo o cristianismo não sendo uma referência atual pra mim, pareceu-me bem mais coerente que no Brasil, onde a data foi pensada por um publicitário.
A referência contemporânea mais antiga é que no início do seculo XX Sonora Luise resolveu homenagear seu pai, um veterano de guerra nos Estados Unidos, que foi pai solo de seis filhos depois que a esposa faleceu. No dia do aniversário dele, ela espalhou cartazes por toda a cidade com os seus feitos e emocionou todo o país.
Sem saber do feito de Sonora, eu fiz um post na semana passada pedindo para que pessoas usassem um tempinho do seu dia e ligassem para o meu pai, que fez aniversário do último dia 6 e que por não possuir nenhuma rede social, não havia recebido nenhuma declaração minha. Mais de 20 pessoas se disponibilizaram e ligaram para o meu pai, não sei se isso quer dizer alguma coisa, mas desses, só dois eram homens. E o presente no fim não foi pra mim ou para ele, foi para essas pessoas, que me devolveram emocionadas frases como “por um tempinho eu tive pai”.
Não é por acaso que Sonora tenha resolvido homenagear o pai depois de ouvir um sermão sobre as mães. Segundo a história, ela percebeu o quanto toda a abnegação feminina estava presente nos feitos do pai, e desde então pouca coisa mudou.
A paternidade continua um privilégio de quem consegue receber e um favor de quem consegue exercer. Enquanto a maternidade se entende como um dom natural.
Não é só sobre pagar pensão ou dar o seu nome, tem a ver com “romper com esse padrão histórico e compulsório do abandono, do desapego e do descompromisso com a paternidade frente a questões da reprodução da vida, do amor e da criação das pessoas”.
Tem a ver com expectativa social que se cria sobre o que é ser pai e, consequentemente, sobre o que é ser mãe, porque é realmente impossível descolar uma coisa da outra. Tem a ver com homens que formam outros homens.
Tem a ver especialmente com João, meu mais jovem afilhado, que nasceu bem no dia do aniversário do meu pai. Porque João tem um desses “pais desconhecidos” que todo mundo conhece. Porque João tem irmão, tem avô, tem primos e talvez João nunca os conheça. Eu fico pensando se João fará uma postagem de rancor no Dia dos Pais.
Não, João fará posts de quem nessas datas agradece à vida pela mãe, pela avó, pelas madrinhas e se orgulha por romper esse ciclo e ser um homem diferente.