quinta-feira, 25 de julho de 2013

Onde estão os ex-fascistas?


Todos nós, no mundo intelectual, conhecemos pessoas que foram comunistas e mudaram de idéia. Quantos de nós já encontramos ex-fascistas?
Eric Hobsbawm em "Tempos interessantes", Companhia das Letras, 2002.


Luis Fernando Veríssimo, em o Globo, 21/07/2013

Conversões

Ninguém é mais direitista do que um ex-esquerdista. Talvez porque a desilusão com as promessas nunca realizadas da esquerda se misture com a necessidade do novo direitista de exorcizar seu passado, de se autopunir pela sua ingenuidade.

Para repudiar o que era, o ex-esquerdista precisa arrasar o que era. Como está também arrasando o seu passado, a sua juventude e o tempo que perdeu acreditando em coisas como igualdade, solidariedade e a redenção da humanidade, não admira que sua crítica à esquerda seja tão ácida. Está lamentando a si mesmo, o que só aumenta sua raiva.

O adágio, tão repetido, segundo o qual quem não é de esquerda até uma certa idade não tem coração e quem não é de direita depois não tem cérebro, equipara a migração da esquerda para a direita como uma conquista da sabedoria.

Idealismo, crença em justiça social etc. seriam coisas que iríamos largando pelo caminho rumo à maturidade, junto com outras baboseiras juvenis. Não se tem notícia de uma migração ao contrário, de direitistas que voltam a ser esquerdistas, até como uma forma de recuperar a juventude.

E esquerdistas que continuam esquerdistas apesar de já terem idade para se darem conta do engano são alvos prioritários do escárnio dos convertidos. Ainda têm coração, os inocentes.

Os neoconservadores que levaram a política externa americana a sucessivos desastres nos últimos anos têm este nome porque muitos deles foram trotskistas na juventude. Abandonaram o internacionalismo trotskista e inauguraram o ultranacionalismo do "século americano", e continuam influentes, mesmo sob o governo do Obama.

Os ex-trotskistas odeiam o que foram um dia, e seu conservadorismo ativo é uma forma de expiação. Caso notório de conversão foi a do escritor John dos Passos, ex-comunista e autor de alguns livros memoráveis de crítica social, que acabou seus dias quase como uma caricatura de direitista americano, com bandeira na frente da casa e tudo.

Para quem ainda se considera de esquerda, apesar das desilusões e de um coração combalido, o rancor dos convertidos tem seu lado positivo. Mostra que a esquerda ainda existe, logo chateia. Ou chateia, logo existe.

quinta-feira, 4 de julho de 2013

Vândalos


Em 30/06/2013
Abaixo o vandalismo e vivam os vândalos brasileiros

POR JOSÉ RIBAMAR BESSA FREIRE
 
1968: nota do jornal O Paiz destaca o repórter Bessa Freire em foto do Correio da Manhã



É isso mesmo que você leu. Cada um defende sua tribo. Esse locutor que vos fala já foi chamado de vândalo, sofreu prisão e respondeu processo por danos ao patrimônio público, numa passeata na Rua Uruguaiana, no Rio. Mas isso foi no século passado, em 1968. Acontece que agora muitos manifestantes, que podiam ser meus netos, são presos sob a mesma acusação com ou sem culpa no cartório. Do Oiapoque ao Chuí, a mídia jura que os vândalos tomam contam do país.

"Vândalos provocam destruição em Minas", berra O Globo (27/6) em manchete de oito colunas. "Moradores improvisam 'milícia' contra vândalos no RS" – grita a Folha de S. Paulo (29/6), informando em outro título: "No Rio, 'pitboys' são suspeitos de ataques a concessionárias". Alguns apresentadores de telejornais chegam a encher a boca, saboreando cada letra da palavra.

Afinal, quem são os vândalos? Depende do momento, do lugar e de quem nomeia. Originalmente era uma tribo que falava vândalo, uma língua germânica, e que num conflito armado com o Império Romano saqueou Roma, destruindo muitas obras de arte. Por extensão, no século XVIII, na França, foram assim chamados os revolucionários que na luta contra o feudalismo e a monarquia arrasaram monumentos e prédios públicos. Na Av. Paulista, há quinze dias, vândalo era todo e qualquer manifestante que protestava pacificamente. Hoje, nas capitais brasileiras, são grupos considerados pela polícia como baderneiros.
 
Muito antes disso, Roma havia sido incendiada, mas não pelos vândalos. Durante dias o fogo consumiu a cidade, transformando o Templo de Júpiter num monte de cinzas. Até mesmo os que suspeitavam que o incendiário era o imperador Nero jamais usaram a palavra vândalo para designá-lo.

De Nero aos dias de hoje, ninguém que vandalizou em nome do Estado foi estigmatizado. O presidente George Bush também nunca foi chamado de vândalo, apesar de ter indignado a comunidade internacional quando comandou o saqueio no Iraque e destruiu, entre outros, o Museu de Arqueologia de Bagdá, sacrificando milhares de vidas humanas, inclusive de civis.


Wandali conquisiti
Ou seja, parece que bárbaros – como queria Montaigne – são sempre os outros, os derrotados, porque quem ganha tem o poder de nomear, de batizar, de dar nome aos bois, de classificar e de dizer quem é e quem não é vândalo. E no séc. VIII, os vândalos foram definitivamente derrotados: Wandali conquisiti sunt. Não sobrou nenhum para contar a história. Diz um provérbio da Nigéria: "Enquanto os leões não tiverem seus próprios historiadores, as histórias de caça sempre glorificarão o caçador".

Um caçador de São Paulo, governador Geraldo Alckmin, com aquela cara de babaca (desculpem baixar o nível, mas que ele tem cara de babaca tem) e o prefeito da capital, Fernando Haddad (que não tinha, mas está se esforçando pra ter)  justificaram inicialmente a repressão policial. Naquele momento, para eles, quem protestava contra o aumento do preço da passagem de ônibus era vândalo. As manifestações cresceram, o governo recuou e finalmente reconheceu que nem todo manifestante era vândalo.

No Rio de Janeiro, o governador Sérgio Cabral, com cara de Alckmin, declarou que a Polícia Civil havia identificado pelo menos cinco grupos que "vem cometendo atos de vandalismo, lesões corporais e furtos". Na lista, estão "os anarcopunks, os militantes de partidos políticos mais radicais (não mencionou quais), os brigões oriundos de torcidas de futebol, os neonazistas e os bandidos de facções criminosas". Faltou nomear mais dois grupos: a própria polícia que promoveu quebra-quebra e os revoltados, que estão putos da vida.

É o que os franceses chamam de ras-le-bol, ou seja, estar de saco cheio. As pessoas não aguentam mais engarrafamentos infernais, transporte coletivo precário, violência policial, insegurança, hospitais recém-inaugurados que não funcionam ou que desabam como no Ceará, estádios caindo como o Engenhão, obras superfaturadas, serviços de saúde e educação que atentam contra a dignidade humana, justiça lenta, enfim a impunidade dos vândalos de colarinho branco. Desconfiam do governo, do judiciário, do congresso, dos partidos políticos e não consideram as oposições alternativa de poder.

Alguns colunistas, assustados, de um lado com a rejeição aos partidos políticos e de outro com o quebra-quebra, tacharam esses manifestantes de vândalos, neonazistas, radicalóides sociopatas, pitboys de passeata ou, como quer Arnaldo Jabor, "vagabundos, punks e marginais que se aproveitam sabendo que a polícia não pode matar". Não querem entender que as manifestações são sintomas da crise de representatividade na qual está mergulhado o país.

As evidências apontam muita gente boa entre os que inicialmente promoveram o quebra-quebra e que simplesmente estavam emputecidos. Usaram o modelo de linguagem da própria polícia que espalha terror e medo em comunidades carentes, como vem fazendo, no Rio, o Batalhão de Operações Especiais, que quebra, mata, esfola e saqueia.


Fioforum infra
Tem forte carga simbólica o fato de que a violência tenha atingido ônibus, pontos de ônibus, relógios públicos, radares, semáforos e equipamentos de apoio ao tráfego que foram destruídos, assim como alguns monumentos e prédios públicos pichados e depredados. Não se trata de defender o vandalismo, porque quem vai pagar a conta somos todos nós, mas de buscar as razões que levam pessoas a manifestarem assim sua indignação.

No século XIX, condições subumanas de trabalho, jornadas prolongadas, salários miseráveis, levaram trabalhadores ingleses da indústria nascente, entre eles mulheres e crianças, a destruírem máquinas e equipamentos industriais, num movimento que ficou conhecido como ludismo em referência a Ned Ludlam, líder do movimento. Karl Marx, que criticou o quebra-quebra, buscou ver a semente revolucionária que ele continha e que foi canalizado para a reivindicação de reformas sociais e políticas e acabou originando novos métodos de luta, com o fortalecimento dos sindicatos.

Esses movimentos sempre trazem mudanças. As cinco pessoas assassinadas no Morro do Borel é que deram origem, em 2004, à Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência, que está convocando agora uma manifestação pacífica neste domingo, durante a final da Copa das Confederações.

- É muito difícil organizar uma manifestação pacífica na rua, no Brasil, porque o Estado é violento", disse à Folha Caio Martins, 19 anos, estudante de Historia da USP, que milita no Movimento Passe Livre (MPL) desde 2011. Ele condenou a polícia que na primeira passeata pacífica lançou uma bomba de efeito moral decepando um dos dedos de uma manifestante.

É evidente que ninguém pode aceitar a destruição do patrimônio ou a agressão às pessoas, sejam elas promovidas pela polícia ou por manifestantes. No entanto, muitas vezes, o aparelho policial busca bode expiatório. Em 1968, num primeiro momento, fui acusado de ter incendiado uma viatura na Rua Uruguaiana. No final, acabaram me processando por haver rasgado a farda de um policial. Nenhuma das acusações era verdadeira.

Quando a Polícia pediu ajuda ao MPL para identificar os vândalos, seus integrantes se recusaram. Poderiam muito bem, reconhecendo que Wandali conquisiti sunt, citar um dos reis vândalos, não sei se Hilderico ou Gunderico: "Fioforum plus infra est", ou como diria Cícero no senado romano:  "O buraco é mais embaixo".

Abaixo o vandalismo!  Vivam os vândalos!


http://terramagazine.terra.com.br/blogdaamazonia/blog/2013/06/30/abaixo-o-vandalismo-e-vivam-os-vandalos-brasileiros/

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Copa das Federações - Brasil, junho de 2013

 
 
 
 
 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
O Globo, Anselmo Gois_ 16_06_2013
 
As fotos acima são do Portal Terra http://www.terra.com.br/portal/ 15 e 16/06/2013


quinta-feira, 6 de junho de 2013

Touradas


Crônica de Luis Fernando Veríssimo publicada no jornal O Globo em 02/06/2013
 


 
A alma ibérica se divide em duas, uma mais caliente e a outra menos. Portugal é uma Espanha ponderada. A divisão está evidente na tourada, essa metáfora para todas as dicotomias humanas. Na Espanha matam o touro, em Portugal apenas o irritam. Ainda não se chegou a um acordo sobre o quê, exatamente, toureiro e touro simbolizam.

A metáfora não é clara. Razão x instinto? Cultura x natureza? Civilização x força bruta? Ou — como li em algum lugar — tudo não passa de um ritual de sedução, com o Homem subjugando a Mulher, a Besta Primeva e todos os seus terrores, numa espécie de tango sangrento em que não falta uma penetração no fim?

Ou o toureiro gracioso é a mulher estilizada e o touro resfolgante uma paródia de homem? Enfim, seja o que for que se decide numa arena de touros, os espanhóis terminam o ritual, os portugueses deixam pra lá.

Na Argentina, os líderes militares da época da repressão foram processados e as atrocidades cometidas pela ditadura punidas, ou pelo menos amplamente discutidas. No Chile, aos poucos a história ainda mal contada do governo Pinochet se incorpora à história oficial do país — para ser reconhecida e expiada, para que reconciliação não signifique absolvição e para que nunca mais se repita.

No Brasil, a repressão foi menos assassina do que na Argentina e no Chile — se é que se pode falar em graduações de barbaridade — e ninguém ainda teve que dar muitas explicações. No caso, a simpática irresolução portuguesa desserve a História. Pois, se o touro continua vivo, o que há para expiar? Aqui, até agora, venceu o deixa-pra-lá-ismo.

Já que temos que ser ibéricos, o que é melhor, ser português ou espanhol? Os espanhóis parecem viver mais perto do coração selvagem da vida. Os portugueses preferem menos drama e menos sangue.

Voltando ao touro: uma tourada espanhola sempre acaba com o animal morto, com uma resolução. Uma tourada portuguesa pode ser um espetáculo emocionante, mas o touro sobrevive e nada se resolve. E ainda se discute se convém irritar o touro.

domingo, 19 de maio de 2013

A questão das drogas no Brasil


Deu na Folha de São Paulo em 6 de maio de 2013
 
Redução de maioridade penal e internação forçada vão fracassar no Brasil

César Gaviria

IDADE: 66

FORMAÇÃO: Economia na Universidad de Los Andes, em Bogotá

CARGOS PASSADOS: Eleito vereador aos 23, chegou o Legislativo colombiano em 1974. Na década de 1980 foi ministro. Presidente da Colômbia (1990-1994)
Secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos) entre 1994 e 2004

CARGOS ATUAIS: Membro da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia. Pesquisador sênior da Universidade Columbia (EUA)

Ex-presidente colombiano defende regulação das drogas e mobilização para recuperar criminosos menores de idade

FABIANO MAISONNAVE DE SÃO PAULO

Para enfrentar as drogas e a violência, São Paulo implementou a internação compulsória e o Congresso discute a redução da maioridade penal.

Na visão do ex-presidente colombiano César Gaviria, essas políticas são inócuas e estão na contramão de experiências bem-sucedidas.

Ele é um dos três ex-presidentes da Comissão Latino-Americana sobre Drogas e Democracia. A iniciativa inclui Fernando Henrique Cardoso (PSDB) e Ernesto Zedillo (México) e defende medidas como o fornecimento controlado de drogas pelo Estado para diminuir o lucro e o tamanho do narcotráfico.

Gaviria, 66, fala de cátedra. Seu governo (1990-1994) enfrentou os cartéis de Cali e Medellín. Em seu mandato, o narcotraficante Pablo Escobar foi morto.

A seguir, a entrevista, feita por telefone na sexta-feira:


Folha - Pesquisa recente do Datafolha revela que o envolvimento de um jovem da família com drogas é o principal temor entre os moradores de São Paulo, com 45% do total. Isso o surpreende?

César Gaviria - Não me surpreende. Esses números são consequência de uma política que todos os latino-americanos e os EUA já observam por várias décadas, e o que temos para mostrar são apenas fracassos.

O Brasil tem de olhar as experiências europeias de menor dano e começar a tratar como problema de saúde, e não como um tema criminoso. E tentar desmontar o imenso tamanho desse negócio, que o transforma em um problema de segurança tão grave.

Ainda que seja fácil pensar numa solução autoritária, isso não resolve. Basta ver o que está acontecendo nos EUA, onde as pessoas estão votando em massa pela legalização da maconha.

Mas no Brasil o problema crescente tem sido o crack. Não há diferença na hora de lidar com um droga muito barata e mais viciante?

O que o Brasil tem de fazer é olhar Portugal, onde podemos observar o que há de melhor no mundo para enfrentar esse problema.

Portugal decidiu, anos atrás, tratar isso como um problema de saúde pública. Qualquer consumidor pode chegar a um hospital e receber atenção, tratamento, prevenção. E tem sido uma política bem-sucedida, que tem reduzido a violência, a corrupção e que permite ao Estado enfrentar problemas de vício como o do crack.

O que o Brasil faz, em contrariedade com toda a América Latina, Europa e Estados Unidos, é começar o caminho de criminalizar mais o consumo ou de pensar que enfiar mais pessoas na prisão vai resolver os problemas. Obviamente, é preciso combater os cartéis. Mas é possível apoiar os consumidores no sistema de saúde.

A internação compulsória é uma solução?

É uma política que se presta a todo tipo de abuso de direitos humanos. A China está abandonando por causa de enorme quantidade de abusos. Por que não olhar Portugal, onde não passou pela cabeça o tratamento compulsório? É preciso apoiar as pessoas a partir do sistema de saúde, para que não tenham medo de ir a hospitais.

O tratamento compulsório é uma má ideia e quem olhar a experiência internacional concluirá que os resultados são ruins.

Mesmo com relação ao crack?

O principal problema no crack, e se viu há pouco nos EUA, onde a diretriz está sendo retificada, é que termina sendo uma política terrivelmente discriminatória contra afro-americanos e pobres. Ser mais duro com o crack do que com as outras drogas só serve para enormes discriminações e para que pobres e negros acabem nos presídios.

O Brasil voltou a discutir a redução da maioridade penal. Qual é a sua posição?

Essas decisões não servem para nada. A única coisa que funciona são políticas integrais. Temos experiência na Colômbia. Medellín chegou a ter 300 mortes por 100 mil habitantes. Isso é mais do que qualquer guerra civil, é dez vezes a taxa do Brasil. Saímos por meio de trabalho social, tratamento integral. As empresas da cidade criaram fundações para levar educação e saúde aos meninos.

É possível transformar um assassino de 14 anos num bom cidadão se a sociedade se mobiliza para fazê-lo. Esses problemas não mudam com leis, mudam quando a sociedade decide resolver.

É o que as pessoas do Rio e de São Paulo têm de fazer. Se todas as empresas se dedicarem, verão como esses meninos sairão da violência.

Dói em mim ver o que está ocorrendo no Brasil, pensando em soluções tão contraindicadas e alheias ao que está acontecendo no mundo.

O sr. defende a administração de doses pequenas de droga. Como funcionaria?

Dou um exemplo. Na Suíça, há muitos anos, se fez um grande esforço para que as pessoas deixassem a heroína. No entanto, para os viciados que não foram capazes de abandoná-la, se a pessoa tem uma vida produtiva, o Estado fornece a morfina, e ela vai trabalhar todos os dias.

A sociedade tem de ser prática. Esses programas não podem ser administrados com moralismo e preconceito.

É melhor que o Estado forneça as drogas aos viciados que não se recuperam e não respondem ao tratamento do que ter meninos assaltando pelas ruas do Rio e de São Paulo para conseguir dinheiro e assim comprar drogas.

Por que o sr. prefere falar em regular em vez de legalizar?

Legalizar é uma palavra que expressa cansaço, um rechaço à política. Mas o que precisamos fazer é regular, porque obviamente só se vai permitir o acesso às drogas a pessoas de certa idade, em certas condições, com os controles necessários.

A regulação é algo que chegará aos EUA em breve, enquanto o Brasil começa o caminho contrário, ao insistir numa política fracassada.

A política brasileira para as drogas está defasada?

Esse tratamento compulsório do qual o Brasil está se aproximando não é o caminho do Uruguai, da Argentina, da Colômbia, do Peru.

O Brasil está começando a tomar o caminho do autoritarismo ao usar uma legislação de 2005, que parecia razoável, mas que os juízes aplicam de tal maneira que o que fizeram foi multiplicar a população carcerária. E isso não está levando a lugar nenhum. Alguns Estados dos EUA condenam jovens a até sete anos de prisão por consumir maconha, mas 60% dos presos de lá fumam maconha. Qual é o sentido de destruir a vida de uma pessoa para que ela inche as prisões e faça a mesma coisa?

Redução de maioridade penal e internação forçada vão fracassar no Brasil

 

 

sábado, 16 de fevereiro de 2013

Machado de Assis

Machado de Assis: a procura da reflexão em detrimento da paisagem

Blog do André Setaro, 12/02/2013


Não me lembro mais onde li, mas fiquei a pensar: "Nos livros de Machado de Assis não existe paisagem". A constatação é curiosa e revela que o bruxo do Cosme Velho era um escritor "avant la lettre". Nos grandes romances do século XIX, quase todos são muito detalhados em relação à descrição da paisagem. Em Honoré de Balzac, por exemplo, um capítulo de "Eugenia Grandet" é quase todo dedicado, com um luxo de detalhes, à descrição, a chegar ao cúmulo de descrever, numa casa, as pedrinhas, os talhes da porta e das janelas. Balzac é muito detalhista, mas a análise paisagística é uma tônica do romance do século retrasado.
Mas em Machado de Assis (1839/1908), se há descrição, esta é bem sucinta. O mestre, o maior dos escritores brasileiros em todos os tempos, principalmente a partir de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" (1881), o seu "estalo de Vieira", preocupa-se mais na reflexão das coisas que estão sendo ditas. O seu período descritivo e uma descrição "light" – termina em "Iaiá Garcia" (1878).

Acho que foi Autran Dourado quem disse que todo ano lê, religiosamente, "Brás Cubas", "Quincas Borba" (1892), e "Dom Casmurro" (1900), "para limpar a língua". A estilística machadiana é única e insuperável, a fazer dele um autor singular. Encontra-se entre os maiores da história da literatura, mas seu azar foi ter escrito em português, língua rica, mas pouco lida. Há décadas atrás, está a ser revisado e apreciado nas universidades americanas e européias, e o crítico Harold Bloom (aquele da "Angústia da influência" e "O cânone ocidental") o tem em alta conta.
Verdade seja dita, e dita por um grande admirador do grande romance do século XIX, a descrição esmiuçada da paisagem é irritante. Mas naquela época, quando a fotografia ainda era muito incipiente, e o cinema só veio a existir a partir de 1895, havia a necessidade de o leitor ter a paisagem imaginada. Mas Machado de Assis não se molda a esta querência de realidade, excluindo-a de seus últimos romances. Mas se poderá argüir que o bruxo do Cosme Velho descrevia o Rio de Janeiro da Corte Imperial. Sim, mas com citações breves: "Enfiou-se pela rua dos Inválidos, mas viu que era longe para chegar à rua do Ouvidor". E pronto.

Mas relendo "Helena" (1876), que precede a fase maior do romancista, há rigorosa estruturação da fábula, ou da história. Os elementos da fabulação estão em perfeita sintonia com a perspectiva de expectação do leitor, que desliza seus olhos pela sintaxe machadiana com um grande interesse pelo que está por vir. Ainda na sua época romântica, o desfecho, trágico, faz parte do momento. Vê-se, aqui, um escritor rigoroso no seu pleno domínio da narrativa ou, a melhor dizer, da sintaxe da língua.

A magistral utilização do tempo em "Quincas Borba", para ficar num exemplo apenas, mostra que, em sua segunda fase, Machado procura somente a reflexão. Rubião Braz acorda num dia de Ano Novo, senta-se num sofá e, com as mãos, fica a mexer nas borlas do roupão. Pensa em como chegou até aquela posição confortável e, até quase a metade do livro, a "ação" localiza-se nos arcanos da memória do grande personagem, a reviver como veio a conhecer Cristiano Palha e a bela, esplendorosa, magnífica Sofia (talvez a mulher mais perfeita "esculpida" por Machado de Assis).

Certa ocasião, vários intelectuais, encantados e extasiados com a prosa de "Quincas Borba", foram a Ferreira Gullar lhe perguntar o que queria Machado de Assis realmente dizer no livro. Gullar pensou um instante e respondeu: "É um livro sobre a arte de escrever".

Se, na fase romântica, anterior à explosão "brascubasiana", e, com ela, a desconstrução do romance tradicional, Machado procura estabelecer a estrutura narrativa numa forma "in progress", a partir de "Memórias Póstumas de Brás Cubas" tudo se reduz ao estudo de caracteres, muito embora, já no seu primeiro livro, "Ressurreição", pretenda, justamente, antes de tudo, a observação de comportamentos.
Escreveu Machado na advertência da primeira edição de "Ressurreição" (1872): "Não quis fazer romance de costumes; tentei o esboço de uma situação e o contraste de dous caracteres; com estes simples elementos busquei o interesse do livro. A crítica decidirá se a obra corresponde ao intuito, e, sobretudo, se o operário tem jeito para ela. É o que lhe peço com o coração nas mãos".

Para buscar o interesse do leitor, apóia-se em dois simples elementos: o esboço de uma situação e o contraste entre caracteres. O propósito do primeiro livro se alarga a partir de então até atingir a metalinguagem, a meta-literatura a partir de "Brás Cubas", quando, em determinado momento, para desfazer a ânsia das leitoras da "biblioteque rosé", dá-lhes o conselho de pular o capítulo, caso queira saber logo os detalhes de determinado assunto. Um escritor na melhor tradição de Cervantes e Xavier de Maistre.

As adaptações cinematográficas dos livros de Machado de Assis sempre foram desagradáveis àqueles que conhecem o estilo do grande mestre. "Dom Casmurro", por exemplo, que se chamou "Capitu" na versão cinematográfica, é um verdadeiro assassinato à obra literária perpetrada por várias mãos: as de Paulo César Saraceni (diretor), e, por incrível que pareça, pelas mãos de duas reconhecidas e talentosas pessoas das letras: o crítico cinematográfico e autor literário Paulo Emílio Salles Gomes e sua esposa, na época, Lygia Fagundes Telles. Sem falar na eleita para o papel título tão delicado: a desajeitada Isabella, escolhida porque era, então, mulher de Saraceni.
"Quincas Borba", do ilustre realizador paulista Roberto Santos, nem chegou a ser lançado, mas o que se diz é que é um filme abaixo de qualquer crítica. Vários contos de Machado foram adaptados para a tela, mas com resultados pífios, a exemplo de "Um homem célebre", com Walmor Chagas. E se chegou ao cúmulo de querer modernizar o bruxo do Cosme Velho com outra versão de "Dom Casmurro" cuja ação se passa na época atual: "Dom", de Moacyr Góes, com Maria Fernanda Cândido e Marcos Palmeira. O resultado? Melhor não dizê-lo.

O fato é que o romance filmado é uma utopia, porque duas práticas narrativas que se baseiam num diferente noção de espaço e de tempo. A menos que se queira ficar-se pela "ilustração" de histórias contadas pelo romance, o filme deve converter para o seu espaço-tempo a ação que pediu de empréstimo ao primeiro. Não deve haver, portanto, qualquer preocupação de fidelidade à letra do texto original mas, pelo contrário, a mais ampla liberdade na procura de soluções dramáticas e de "figuras" estilísticas capazes de produzir, na tela, o mesmíssimo efeito poético confiado na página a outros tantos recursos ao dispor da linguagem escrito-verbal. Hitchcock já disse, na sua proverbial sabedoria, que nunca gostou de adaptar obras literárias consagradas. E cita um exemplo: caso alguém queira filmar "Crime e castigo", de Dostoievsky, o filme teria de ter um tempo (para manter fidelidade) de duração excessivo: mas de duzentas horas de projeção. Mas, mesmo assim, a estilística dostoievskyana desapareceria em função da narrativa do realizador cinematográfica. E, perdido o estilo, tudo se perde, porque, como dizia Buffon, "o estilo é o homem"

http://terramagazine.terra.com.br/blogdoandresetaro/blog/2013/02/12/616/

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

O rabo da cachorra

Osorianas - parte 1            

No dia 25 de agosto de 1854 Francisco Barreto e Simão Antônio Marques assinaram a escritura de doação de terras para o patrimônio de Divino Espírito Santo. Barreto doou 62 alqueires e Simão 20 alqueires. A cidade de Barretos apareceu a partir daí. Na verdade nesta data eles não tinham a posse destas terras. A posse da Fazenda Fortaleza, dos Barreto, foi registrada nos assentos do capelão Justino Ferreira Rocha, em Jaboticabal no dias10 de abril e 29 de maio de 1856. A fazenda Monte Alegre, dos Marques, foi registrada junto ao mesmo capelão em 10 de abril de 1856. Nestes registros, em Jaboticabal, esteve presente José Francisco Barreto, filho de Francisco Barreto e genro de Simão Antônio Marques. José Francisco, na época, era casado com Mariana Cândida de Jesus (Mariana Librina).

Devido a esta posse até hoje, em Barretos, existe o “terreno foreiro ao Patrimônio do Divino Espírito Santo” com imposto em transações imobiliárias. O Divino fica com 2,5% do valor do imóvel.

Barretos (1854) é uma jovem cidade do século 19 assim como Jaboticabal (1828), Araraquara (1817), Frutal (1887), Batatais (1839), Bebedouro (1884), Campinas (1842), Ribeirão Preto (1856) e São José do Rio Preto (1852). Jovem se comparada a Jundiaí (1665), São Paulo (1554), Vitória do Espírito Santo (1551), Salvador (1549) e Rio de Janeiro (1565).

Conta Osório Rocha (no livro obrigatório Barretos de outrora, 1954) que Barretos em 1860 era um lugarejo amodorrado na pasmaceira e enervando-se na rotina. Nem a gente mais abastada tinha conforto, cultura, higiene e emoções artísticas. Para a maioria o cabo de enxada, da foice, do machado, sol a sol, ou lidas com o gado; alimentação ruim; mulheres fazendo sabão, azeite para as candeias, polvilho, laticínios rudimentares, torrando farinha, fiando, lavando roupas. O monjolo era a única máquina economizadora de trabalho. Nas povoações, os diz-que-diz-que, a politicagem rasteira, as conversas na botica e dos sórdidos botequins de cachaça, gazoza e cocada.

Mas nas décadas de 1860 e 70 ocorreram mudanças no amodorrado interior do Estado de São Paulo. A construção da ferrovia ligando Jundiaí a Campinas foi iniciada em 15 de março de 1861. Em agosto de 1875 inicia-se a construção da ferrovia (Companhia Mogiana) ligando Amparo, Jaguari e Mogi Mirim. O trem de ferro chegou a Barretos em 1909. E junto todos os benefícios e malefícios do capitalismo.
A geada de junho de 1870 devastou a região do Vale do Rio Grande. Nas palavras de Osório, quelque chose malheur est bom.  E assim vieram os rebanhos de gado e o café em alta pós-geada.
A rotina barretense na década de 1860 era de abertura de mais vendas e lojas além de muitas negociações de terras. Casamentos e batizados aconteciam aos montes. Mas tinha um problema: os padres vinham de fora da cidade. Vinham de Araraquara, Jaboticabal e Frutal.

Aí que vem a estória da cachorra do padre Sassi.

Segundo Osório Rocha em 16 de abril de 1874 ratifica-se a escolha do padroeiro da capela do Divino Espírito Santo. A paróquia foi canonicamente instituída em 2 de julho de 1887. O 1º casamento religioso foi de Manoel Francisco dos Santos e Maria Rosa de Jesus em 11 de julho e o 1º óbito foi de José Joaquim dos Passos em 15 de julho de 1887. Nesta época a capelinha em que estes ofícios se realizavam ficava próxima do local em que está, hoje, a Matriz. Ali na rua 18 entre as avenidas 19 e 21 no local em ficava a antiga Associação Rural do Vale do Rio Grande.
Mas só em 1º de setembro o padre Felipe Ribeiro da Fonseca Rangel, de Araraquara, lavrou o termo de abertura do respectivo livro, entregando-o ao padre Henrique Sassi . Os barretenses achavam esquisito o nome do padre. Sobre o nascimento do filho, o professor Ferreirinha anotou em seu diário, com a devida vênia, “foi baptisado pelo Padre Sacy”.

Padre Henrique Sassi foi vigário em Barretos de 1878 a 1880. Ele era muito amigo dos animais. Quando voltou para a Itália levou consigo muitos papagaios que já falavam algumas palavras em italiano. Tinha uma cachorra perdigueira de grande estimação. Quando a cachorra morreu o vigário teve o desatino de enterra-la no cemitério da avenida 21 (na verdade este cemitério localizava-se entre as avenidas 17 e 23 e entre as ruas 22 e 26).
Diz-se que o sacristão (e coveiro), de nome Marques, um dia no cemitério ouviu de cabelo em pé, uma voz vinda do túmulo da cachorra:
- Vocês me sepultaram em lugar sagrado. Agora, por castigo, Barretos vai afundar!
Marques saiu do cemitério aterrorizado. E não ficou por aí. Com o tempo o rabo da cachorra transformado em arvore cada vez mais grossa cresceu para os lados da igrejinha. Quando chegasse a tocar nos alicerces do templo, aí sim seria a desgraça.
Generalizou-se o pânico na cidade. Sem distinção de classe, o espanto estava entre lavadeiras, caipiras e gente abastada.
- Sá Mariana diz que o rabo da cachorra já tem três metros e está desta grossura!
- Valha-me Nossa Senhora das Dores! É castigo! Cruz credo, Ave Maria!


                                Edson Pereira Cardoso, novembro de 2012.


NB:
Nas palavras de Osório “naquele tempo, a semente das mais absurdas crendices e supertições achava terreno propício para germinar e propagava-se depressa na bisbilhotice das ruas do arraial. A população compunha-se em sua quase totalidade de analfabetos ou semialfabetizados nas escolas locais”.
É certo que em 1890 o analfabetismo atingia a cifra de 67,2% (Fernando de Azevedo). No interior do Brasil este índice, provavelmente, seria maior. Mas será que crendices tem relação direta com o analfabetismo? O DNA brasileiro é uma mistura de brancos, negros e índios. E junto toda a sua cultura. Somos a soma de mulatos (branco com negro), mamelucos (índio com branco) e cafuzos (índio com negro). Até hoje, sem distinção de classe, temos benzedeiras, mandingas, cartomantes, numerologia, amuletos e devotos (ateus) de São Jorge.
Enquanto existir cavalo São Jorge não anda a pé.

Para ilustrar transcrevo uma popular lenda indígena parente do causo da cachorra do padre Sassi.

A lenda da Mandioca
Em épocas remotas, a filha de um poderoso tuxaua apareceu grávida. Quis ele punir o autor da desonra de sua filha e para isto empregou rogos, ameaças e castigos. Tudo foi em vão a filha dizia que nunca se ligara a homem algum. O chefe tinha deliberado mata-la quando lhe apareceu em sonho um homem branco que disse para não mata-la, pois ela era inocente. Passado o tempo da gestação, deu ela a luz a uma menina lindíssima e branca, causando isto tanta surpresa que todas as tribos vizinhas vinham  vê-la.  Deram-lhe o nome de Maní e ela andou e falou precocemente.  Passando um ano morreu a menina sem ter adoecido nem dado mostras de dor.  Enterraram-na própria casa , segundo o costume do povo, descobriram  a casa e regaram a  sepultura.  Algum tempo depois brotou da cova uma planta desconhecida e por isso não a arrancaram. Cresceu, floresceu e deu frutos.  Os pássaros que comeram os frutos se embriagaram e este fenômeno estranho, aumentou-lhes superstição pela planta. A terra fendeu-se afinal; cavaram-na e julgaram reconhecer no fruto que encontraram  o  corpo  de  Mani. Comeram-no e assim aprenderam  a  usa-lo. O fruto  recebeu  o nome de Mani-oka que significa casa de Mani. Que é a nossa Mandioca de hoje.
              
http://www.velhobruxo.tns.ufsc.br/Lenda002.html  em 15/11/2012