A necessidade de viver nossas dores
Mariliz Pereira Jorge, 24/ 07/ 2018, Folha de São Paulo
Há poucos anos perdi uma amiga para o câncer. Quando soube da notícia, levantei da minha mesa de trabalho, peguei minha bolsa e me dirigi ao velório. No caminho, recebo uma ligação do diretor da empresa onde trabalhava. Ele questionava minha ausência e a necessidade da minha ida ao cemitério.
Eu tinha acabado de perder uma amiga, estava devastada pela tristeza e me defrontei com um filho da puta, insensível, que acreditava que eu não precisava de um tempo para me despedir de uma pessoa amada. Não conseguia entender a simples necessidade de alguém de se sentir miserável e de sofrer em paz.
Não sei quando foi que as coisas tomaram esse rumo, mas o pior é que nos convencemos de que perda, morte, fim de relacionamentos, decepções, frustrações, e até mesmo doenças são problemas menores que precisam ser enfrentados com a praticidade com a qual resolvemos nossa vida doméstica. Coloca tudo em débito automático e não se preocupe mais com nada.
Não vivemos mais nossas dores porque a vida, com todas as suas atribuições, nos atropela com suas urgências. E o mundo está cheio de gente cruel e sem coração que nos convence de que não há outra forma. Com frequência a gente pega sentimentos como revolta, negação, raiva, tristeza, perda, falta, choque, desamparo, e soca bem socadinho no fundo do coração, toma uma banho frio e volta para a rotina se arrastando por dentro, com a alma amassada, mas com a coluna reta e as metas atingidas.
Tanto faz se não estamos em dia com as nossas angústias e nossas feridas. Não sofremos mais, não deixamos que o ciclo dos nossos sofrimentos se complete, que as cicatrizes fiquem sequinhas e bem fechadas para que voltar a viver não seja um tormento diário. O mundo em nossa volta, muitas vezes, faz de conta que perder um familiar, terminar um relacionamento, ser demitido do emprego, são apenas episódios corriqueiros que devem ser superados rapidamente.
Nesse mundo digital em que todos são felizes e perfeitos me causou desconforto enorme ver uma blogueira que desfilava seu relacionamento perfeito nas redes diariamente, desfazer o compromisso, apagar todas as fotos e agir como se nenhuma lágrima tivesse sido derramada por aquela ruptura. Cada amor desfeito levou de mim uma parte da alegria da qual fui feita. Lembro de ficar horas na cama, em posição fetal, com uma dor tão profunda, que parecia impossível voltar a respirar sem que o coração doesse.
Defendo que as empresas tivessem uma espécie de licença-coração-partido, para que as pessoas tenham alguns dias para sofrer, chorar e odiar a vida, antes de voltar e fazer de conta que não se importam. Mesmo que queiram nos convencer do contrário, sofrer por amor é das dores mais insuportáveis e difíceis de lidar. É preciso respeitar as aflições do traído, do largado.
Dias atrás, tive uma intoxicação alimentar tão terrível em que abracei a privada com amor e ódio durante três dias. Ao menor sinal de recuperação, olhava com desespero para minha agenda de trabalho para checar o que conseguiria dar conta sem causar muitos danos ao meu cronograma. Como se o fato de estar doente, e eu estava muito doente, me fizesse menos profissional, menos capaz, menos digna da confiança que haviam me dado. Sofri com o piriri e com o julgamento, que era muito mais meu do que de terceiros. Até que me dei conta de que as cobranças me deixavam ainda pior.
Poderia ser só salmonela, mas talvez fosse estresse, estafa mental, um sinal claro de pedido de socorro. Consegui ser menos louca por alguns minutos, deixar o celular de lado, fechar a cortina do quarto, dormir horas e horas seguidas e só, então, colocar o nariz para fora do meu mundinho particular quando o corpo já estava num ritmo tão sóbrio quando a cabeça. O mundo pode esperar, o que não pode é a nossa sanidade. A gente precisa respeitar nossas dores para que a vida não nos deixe mais doentes.
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/marilizpereirajorge/2018/07/a-necessidade-de-viver-nossas-dores.shtml?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=compfb
quinta-feira, 26 de julho de 2018
segunda-feira, 16 de julho de 2018
Cão sem plumas
Cão sem plumas é o título do poema escrito por João Cabral de
Melo Neto em 1950. Cinco anos depois, em 1955, escreveu Morte e vida Severina.
O descaso e a miséria que assustou João Cabral estiveram em
transposições para o teatro dos dois poemas. Em 2017 Deborah Colker transformou
os versos de Cão sem plumas num espetáculo impactante. Assisti (14/07/2018) no Teatro
Carlos Gomes no Rio de Janeiro.
Abaixo o poema e considerações sobre o espetáculo concebido
por Deborah.
O cão sem plumas
|
João
Cabral de Melo Neto
|
I. Paisagem do Capibaribe
A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.
O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.
Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.
Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.
Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.
Abre-se em flores
pobres e negras
como negros.
Abre-se numa flora
suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues
de folhas duras e crespos
como um negro.
Liso como o ventre
de uma cadela fecunda,
o rio cresce
sem nunca explodir.
Tem, o rio,
um parto fluente e invertebrado
como o de uma cadela.
E jamais o vi ferver
(como ferve
o pão que fermenta).
Em silêncio,
o rio carrega sua fecundidade pobre,
grávido de terra negra.
Em silêncio se dá:
em capas de terra negra,
em botinas ou luvas de terra negra
para o pé ou a mão
que mergulha.
Como às vezes
passa com os cães,
parecia o rio estagnar-se.
Suas águas fluíam então
mais densas e mornas;
fluíam com as ondas
densas e mornas
de uma cobra.
Ele tinha algo, então,
da estagnação de um louco.
Algo da estagnação
do hospital, da penitenciária, dos asilos,
da vida suja e abafada
(de roupa suja e abafada)
por onde se veio arrastando.
Algo da estagnação
dos palácios cariados,
comidos
de mofo e erva-de-passarinho.
Algo da estagnação
das árvores obesas
pingando os mil açúcares
das salas de jantar pernambucanas,
por onde se veio arrastando.
(É nelas,
mas de costas para o rio,
que "as grandes famílias espirituais" da cidade
chocam os ovos gordos
de sua prosa.
Na paz redonda das cozinhas,
ei-las a revolver viciosamente
seus caldeirões
de preguiça viscosa).
Seria a água daquele rio
fruta de alguma árvore?
Por que parecia aquela
uma água madura?
Por que sobre ela, sempre,
como que iam pousar moscas?
Aquele rio
saltou alegre em alguma parte?
Foi canção ou fonte
Em alguma parte?
Por que então seus olhos
vinham pintados de azul
nos mapas?
II. Paisagem do Capibaribe
Entre a paisagem
o rio fluía
como uma espada de líquido espesso.
Como um cão
humilde e espesso.
Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama
plantadas em ilhas
coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.
Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.
Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).
O rio sabia
daqueles homens sem plumas.
Sabia
de suas barbas expostas,
de seu doloroso cabelo
de camarão e estopa.
Ele sabia também
dos grandes galpões da beira dos cais
(onde tudo
é uma imensa porta
sem portas)
escancarados
aos horizontes que cheiram a gasolina.
E sabia
da magra cidade de rolha,
onde homens ossudos,
onde pontes, sobrados ossudos
(vão todos
vestidos de brim)
secam
até sua mais funda caliça.
Mas ele conhecia melhor
os homens sem pluma.
Estes
secam
ainda mais além
de sua caliça extrema;
ainda mais além
de sua palha;
mais além
da palha de seu chapéu;
mais além
até
da camisa que não têm;
muito mais além do nome
mesmo escrito na folha
do papel mais seco.
Porque é na água do rio
que eles se perdem
(lentamente
e sem dente).
Ali se perdem
(como uma agulha não se perde).
Ali se perdem
(como um relógio não se quebra).
Ali se perdem
como um espelho não se quebra.
Ali se perdem
como se perde a água derramada:
sem o dente seco
com que de repente
num homem se rompe
o fio de homem.
Na água do rio,
lentamente,
se vão perdendo
em lama; numa lama
que pouco a pouco
também não pode falar:
que pouco a pouco
ganha os gestos defuntos
da lama;
o sangue de goma,
o olho paralítico
da lama.
Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.
Difícil é saber
se aquele homem
já não está
mais aquém do homem;
mais aquém do homem
ao menos capaz de roer
os ossos do ofício;
capaz de sangrar
na praça;
capaz de gritar
se a moenda lhe mastiga o braço;
capaz
de ter a vida mastigada
e não apenas
dissolvida
(naquela água macia
que amolece seus ossos
como amoleceu as pedras).
III. Fábula do Capibaribe
A cidade é fecundada
por aquela espada
que se derrama,
por aquela
úmida gengiva de espada.
No extremo do rio
o mar se estendia,
como camisa ou lençol,
sobre seus esqueletos
de areia lavada.
(Como o rio era um cachorro,
o mar podia ser uma bandeira
azul e branca
desdobrada
no extremo do curso
— ou do mastro — do rio.
Uma bandeira
que tivesse dentes:
que o mar está sempre
com seus dentes e seu sabão
roendo suas praias.
Uma bandeira
que tivesse dentes:
como um poeta puro
polindo esqueletos,
como um roedor puro,
um polícia puro
elaborando esqueletos,
o mar,
com afã,
está sempre outra vez lavando
seu puro esqueleto de areia.
O mar e seu incenso,
o mar e seus ácidos,
o mar e a boca de seus ácidos,
o mar e seu estômago
que come e se come,
o mar e sua carne
vidrada, de estátua,
seu silêncio, alcançado
à custa de sempre dizer
a mesma coisa,
o mar e seu tão puro
professor de geometria).
O rio teme aquele mar
como um cachorro
teme uma porta entretanto aberta,
como um mendigo,
a igreja aparentemente aberta.
Primeiro,
o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio
seus brancos lençóis.
O mar se fecha
a tudo o que no rio
são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.
Depois,
o mar invade o rio.
Quer
o mar
destruir no rio
suas flores de terra inchada,
tudo o que nessa terra
pode crescer e explodir,
como uma ilha,
uma fruta.
Mas antes de ir ao mar
o rio se detém
em mangues de água parada.
Junta-se o rio
a outros rios
numa laguna, em pântanos
onde, fria, a vida ferve.
Junta-se o rio
a outros rios.
Juntos,
todos os rios
preparam sua luta
de água parada,
sua luta
de fruta parada.
(Como o rio era um cachorro,
como o mar era uma bandeira,
aqueles mangues
são uma enorme fruta:
A mesma máquina
paciente e útil
de uma fruta;
a mesma força
invencível e anônima
de uma fruta
— trabalhando ainda seu açúcar
depois de cortada —.
Como gota a gota
até o açúcar,
gota a gota
até as coroas de terra;
como gota a gota
até uma nova planta,
gota a gota
até as ilhas súbitas
aflorando alegres).
IV. Discurso do Capibaribe
Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.
Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.
O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.
Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.
Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.
Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.
E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.
Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.
Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).
A cidade é passada pelo rio
como uma rua
é passada por um cachorro;
uma fruta
por uma espada.
O rio ora lembrava
a língua mansa de um cão,
ora o ventre triste de um cão,
ora o outro rio
de aquoso pano sujo
dos olhos de um cão.
Aquele rio
era como um cão sem plumas.
Nada sabia da chuva azul,
da fonte cor-de-rosa,
da água do copo de água,
da água de cântaro,
dos peixes de água,
da brisa na água.
Sabia dos caranguejos
de lodo e ferrugem.
Sabia da lama
como de uma mucosa.
Devia saber dos polvos.
Sabia seguramente
da mulher febril que habita as ostras.
Aquele rio
jamais se abre aos peixes,
ao brilho,
à inquietação de faca
que há nos peixes.
Jamais se abre em peixes.
Abre-se em flores
pobres e negras
como negros.
Abre-se numa flora
suja e mais mendiga
como são os mendigos negros.
Abre-se em mangues
de folhas duras e crespos
como um negro.
Liso como o ventre
de uma cadela fecunda,
o rio cresce
sem nunca explodir.
Tem, o rio,
um parto fluente e invertebrado
como o de uma cadela.
E jamais o vi ferver
(como ferve
o pão que fermenta).
Em silêncio,
o rio carrega sua fecundidade pobre,
grávido de terra negra.
Em silêncio se dá:
em capas de terra negra,
em botinas ou luvas de terra negra
para o pé ou a mão
que mergulha.
Como às vezes
passa com os cães,
parecia o rio estagnar-se.
Suas águas fluíam então
mais densas e mornas;
fluíam com as ondas
densas e mornas
de uma cobra.
Ele tinha algo, então,
da estagnação de um louco.
Algo da estagnação
do hospital, da penitenciária, dos asilos,
da vida suja e abafada
(de roupa suja e abafada)
por onde se veio arrastando.
Algo da estagnação
dos palácios cariados,
comidos
de mofo e erva-de-passarinho.
Algo da estagnação
das árvores obesas
pingando os mil açúcares
das salas de jantar pernambucanas,
por onde se veio arrastando.
(É nelas,
mas de costas para o rio,
que "as grandes famílias espirituais" da cidade
chocam os ovos gordos
de sua prosa.
Na paz redonda das cozinhas,
ei-las a revolver viciosamente
seus caldeirões
de preguiça viscosa).
Seria a água daquele rio
fruta de alguma árvore?
Por que parecia aquela
uma água madura?
Por que sobre ela, sempre,
como que iam pousar moscas?
Aquele rio
saltou alegre em alguma parte?
Foi canção ou fonte
Em alguma parte?
Por que então seus olhos
vinham pintados de azul
nos mapas?
II. Paisagem do Capibaribe
Entre a paisagem
o rio fluía
como uma espada de líquido espesso.
Como um cão
humilde e espesso.
Entre a paisagem
(fluía)
de homens plantados na lama;
de casas de lama
plantadas em ilhas
coaguladas na lama;
paisagem de anfíbios
de lama e lama.
Como o rio
aqueles homens
são como cães sem plumas
(um cão sem plumas
é mais
que um cão saqueado;
é mais
que um cão assassinado.
Um cão sem plumas
é quando uma árvore sem voz.
É quando de um pássaro
suas raízes no ar.
É quando a alguma coisa
roem tão fundo
até o que não tem).
O rio sabia
daqueles homens sem plumas.
Sabia
de suas barbas expostas,
de seu doloroso cabelo
de camarão e estopa.
Ele sabia também
dos grandes galpões da beira dos cais
(onde tudo
é uma imensa porta
sem portas)
escancarados
aos horizontes que cheiram a gasolina.
E sabia
da magra cidade de rolha,
onde homens ossudos,
onde pontes, sobrados ossudos
(vão todos
vestidos de brim)
secam
até sua mais funda caliça.
Mas ele conhecia melhor
os homens sem pluma.
Estes
secam
ainda mais além
de sua caliça extrema;
ainda mais além
de sua palha;
mais além
da palha de seu chapéu;
mais além
até
da camisa que não têm;
muito mais além do nome
mesmo escrito na folha
do papel mais seco.
Porque é na água do rio
que eles se perdem
(lentamente
e sem dente).
Ali se perdem
(como uma agulha não se perde).
Ali se perdem
(como um relógio não se quebra).
Ali se perdem
como um espelho não se quebra.
Ali se perdem
como se perde a água derramada:
sem o dente seco
com que de repente
num homem se rompe
o fio de homem.
Na água do rio,
lentamente,
se vão perdendo
em lama; numa lama
que pouco a pouco
também não pode falar:
que pouco a pouco
ganha os gestos defuntos
da lama;
o sangue de goma,
o olho paralítico
da lama.
Na paisagem do rio
difícil é saber
onde começa o rio;
onde a lama
começa do rio;
onde a terra
começa da lama;
onde o homem,
onde a pele
começa da lama;
onde começa o homem
naquele homem.
Difícil é saber
se aquele homem
já não está
mais aquém do homem;
mais aquém do homem
ao menos capaz de roer
os ossos do ofício;
capaz de sangrar
na praça;
capaz de gritar
se a moenda lhe mastiga o braço;
capaz
de ter a vida mastigada
e não apenas
dissolvida
(naquela água macia
que amolece seus ossos
como amoleceu as pedras).
III. Fábula do Capibaribe
A cidade é fecundada
por aquela espada
que se derrama,
por aquela
úmida gengiva de espada.
No extremo do rio
o mar se estendia,
como camisa ou lençol,
sobre seus esqueletos
de areia lavada.
(Como o rio era um cachorro,
o mar podia ser uma bandeira
azul e branca
desdobrada
no extremo do curso
— ou do mastro — do rio.
Uma bandeira
que tivesse dentes:
que o mar está sempre
com seus dentes e seu sabão
roendo suas praias.
Uma bandeira
que tivesse dentes:
como um poeta puro
polindo esqueletos,
como um roedor puro,
um polícia puro
elaborando esqueletos,
o mar,
com afã,
está sempre outra vez lavando
seu puro esqueleto de areia.
O mar e seu incenso,
o mar e seus ácidos,
o mar e a boca de seus ácidos,
o mar e seu estômago
que come e se come,
o mar e sua carne
vidrada, de estátua,
seu silêncio, alcançado
à custa de sempre dizer
a mesma coisa,
o mar e seu tão puro
professor de geometria).
O rio teme aquele mar
como um cachorro
teme uma porta entretanto aberta,
como um mendigo,
a igreja aparentemente aberta.
Primeiro,
o mar devolve o rio.
Fecha o mar ao rio
seus brancos lençóis.
O mar se fecha
a tudo o que no rio
são flores de terra,
imagem de cão ou mendigo.
Depois,
o mar invade o rio.
Quer
o mar
destruir no rio
suas flores de terra inchada,
tudo o que nessa terra
pode crescer e explodir,
como uma ilha,
uma fruta.
Mas antes de ir ao mar
o rio se detém
em mangues de água parada.
Junta-se o rio
a outros rios
numa laguna, em pântanos
onde, fria, a vida ferve.
Junta-se o rio
a outros rios.
Juntos,
todos os rios
preparam sua luta
de água parada,
sua luta
de fruta parada.
(Como o rio era um cachorro,
como o mar era uma bandeira,
aqueles mangues
são uma enorme fruta:
A mesma máquina
paciente e útil
de uma fruta;
a mesma força
invencível e anônima
de uma fruta
— trabalhando ainda seu açúcar
depois de cortada —.
Como gota a gota
até o açúcar,
gota a gota
até as coroas de terra;
como gota a gota
até uma nova planta,
gota a gota
até as ilhas súbitas
aflorando alegres).
IV. Discurso do Capibaribe
Aquele rio
está na memória
como um cão vivo
dentro de uma sala.
Como um cão vivo
dentro de um bolso.
Como um cão vivo
debaixo dos lençóis,
debaixo da camisa,
da pele.
Um cão, porque vive,
é agudo.
O que vive
não entorpece.
O que vive fere.
O homem,
porque vive,
choca com o que vive.
Viver
é ir entre o que vive.
O que vive
incomoda de vida
o silêncio, o sono, o corpo
que sonhou cortar-se
roupas de nuvens.
O que vive choca,
tem dentes, arestas, é espesso.
O que vive é espesso
como um cão, um homem,
como aquele rio.
Como todo o real
é espesso.
Aquele rio
é espesso e real.
Como uma maçã
é espessa.
Como um cachorro
é mais espesso do que uma maçã.
Como é mais espesso
o sangue do cachorro
do que o próprio cachorro.
Como é mais espesso
um homem
do que o sangue de um cachorro.
Como é muito mais espesso
o sangue de um homem
do que o sonho de um homem.
Espesso
como uma maçã é espessa.
Como uma maçã
é muito mais espessa
se um homem a come
do que se um homem a vê.
Como é ainda mais espessa
se a fome a come.
Como é ainda muito mais espessa
se não a pode comer
a fome que a vê.
Aquele rio
é espesso
como o real mais espesso.
Espesso
por sua paisagem espessa,
onde a fome
estende seus batalhões de secretas
e íntimas formigas.
E espesso
por sua fábula espessa;
pelo fluir
de suas geléias de terra;
ao parir
suas ilhas negras de terra.
Porque é muito mais espessa
a vida que se desdobra
em mais vida,
como uma fruta
é mais espessa
que sua flor;
como a árvore
é mais espessa
que sua semente;
como a flor
é mais espessa
que sua árvore,
etc. etc.
Espesso,
porque é mais espessa
a vida que se luta
cada dia,
o dia que se adquire
cada dia
(como uma ave
que vai cada segundo
conquistando seu vôo).
Do livro Poesias Completas (1940 –
1965) de João Cabral de Melo Neto, José Olympio, 3ª edição, 1979
O cão sem plumas de
Deborah Colker
No espetáculo a dança se mistura com o cinema. Os
bailarinos e bailarinas se cobrem de lama, alusão às paisagens que o poema
descreve, e seus passos evocam os caranguejos. “O espetáculo é sobre coisas
inconcebíveis, que não deveriam ser permitidas. É contra a ignorância humana.
Destruir a natureza, as crianças, o que é cheio de vida”, diz Deborah (http://www.ciadeborahcolker.com.br/release-csp)
O roteiro (do libreto do espetáculo) tem oito cenas entrelaçadas dança – filme:
I Aluvião (dança chama chuva)
II Rio ribeirinho (o rio e seus ribeirinhos)
III Caranguejão
IV Canavial (“se a moenda lhe mastiga o braço”)
V Rio cão (“como um cão /humilde e espesso”)
VI Mangue (“onde a pele / começa da lama / one começa o homem”)
VII Garças (onde a elite se nutre do Capibaribe)
Referências
em vídeo
CÃO SEM PLUMAS
http://www.ciadeborahcolker.com.br/ficha-csp 15/07/2018
Criação, Coreografia e Direção DEBORAH COLKER
Direção Executiva JOÃO ELIAS
Direção de Arte e Cenografia GRINGO CARDIA
Direção Cinematográfica CLÁUDIO ASSIS e DEBORAH COLKER
Dramaturgia CLÁUDIO ASSIS
Direção Musical JORGE DÜ PEIXE e BERNA CEPPAS participação especial LIRINHA
Desenho de Luz JORGINHO DE CARVALHO
Figurino CLAUDIA KOPKE
Fotografia CAFI
Elenco ALINE MACHADO, BIANCA LOPES,
DILO ALBERTO, FILIPI ESCUDINE, ISADORA AMORIM, JAIME BERNARDES, LEONY BONI,
OLIVIA PUREZA, PHELIPE CRUZ, PILAR GIRALDO, ROSINA GIL, UÁTILA COUTINHO, VICTOR
VARGAS
Direção de Produção GLEDSON TEIXEIRA
Produtora Assistente GABRIELA NEWLANDS
Direção de Palco THIAGO MERIJ
Operador de Luz RODRIGO BELAY
Assessoria de Imprensa FACTORIA COMUNICAÇÃO
Vídeo PAULO SEVERO
Projeto Gráfico PEU FULGENCIO -
FRITO STUDIO
Textos LUIS FERNANDO VIANNA
Revisão MALU RESENDE
Assistente de Direção e Coreografia JACQUELINE MOTTA
Ensaiadores JACQUELINE MOTTA, FERNANDA
CAVALCANTI e JOSÉ RAMOS
Consultor e Professor de Danças Urbanas FELIPI MOURA
Professores de Ballet Clássico ERIC FREDERIC, ELIZABETH ALEXANDRE, NORA ESTEVES, ALINE MACHADO,
JOSÉ RAMOS
Professores de Dança Contemporânea DEBORAH COLKER, JAIME BERNARDES, EDNEI D’CONTI
Participação na Criação Coreográfica BAILARINOS e ASSISTENTES
Cenógrafa Assistente e Efeitos de Maquiagem RENATA PITTIGLIANI
Assistente de Iluminação CÉSAR RAMIRES
Assistente de Figurino TERESA ABREU
Camareira ELIUMA SILVA
Ortopedista DANIEL RAMALLO
Consultoria Jurídica ERNESTO PAULOZZI JR. ADVOGADOS
ASSOCIADOS, SIQUEIRA CASTRO ADVOGADOS
Financeiro e Administrativo MIRIAM FURTADO
Arquivo e Enquadramento de Projetos ISRAEL OLIVEIRA
Manutenção ISAÍAS LAGO BASTOS
Serviços Gerais ROMÁRIO SOUZA
Realização JE PRODUÇÕES LTDA.
Duração 1h10 MINUTOS (sem
intervalo)
Classificação LIVRE
sábado, 14 de julho de 2018
As minhas seleções
José Eduardo Agualusa, O Globo, 13/07/2018
Continuarei torcendo pelo que a seleção francesa representa: diversidade e integração de culturas.
Já se sabe quem vai perder — aliás, quem já perdeu — quando amanhã a seleção francesa defrontar a Croácia: perdeu a extrema-direita racista e anti-imigração.
Há décadas que a seleção francesa irrita os racistas. O atual time, por exemplo, só tem cinco futebolistas filhos de pais franceses. A maioria dos jogadores é de origem africana. Blaise Matuidi, por exemplo, nasceu em Toulouse, filho de imigrantes angolanos (nós, angolanos, gostamos de pensar que, através dele, também chegamos à final). Já na seleção belga havia oito futebolistas de origem africana. Também as seleções inglesas costumam ter, como voltou a acontecer este ano, uma percentagem muito elevada de jogadores de raiz africana e asiática.
Não se pense, contudo, que a boa influência dos imigrantes, em particular daqueles de origem africana, se restringe ao desporto. Não, caros leitores, vai muitíssimo além. Se existisse uma Copa do Mundo de Literatura a seleção inglesa seria tão colorida quanto no futebol: além de dois ou três veteranos inquestionáveis, como V. S. Naipaul, Salman Rushdie, ou Zadie Smith, teria de incluir uma série de jovens estrelas em rápida ascensão, como a anglo-nigeriana Helen Oyeyemi, 33 anos, considerada pela “Granta” “uma das melhores jovens romancistas britânicas”.
Uma das grandes sensações da seleção francesa de literatura seria, sem dúvida a romancista franco-marroquina Leïla Slimani, autora do best-seller mundial “Canção de ninar” (Tusquets/Planeta, 2018) e que será este ano a principal atração da Flip. Na Flip estará um outro autor francês de origem africana: o meu amigo Alain Mabanckou, nascido no Congo-Brazzaville, e que em 2015 viu um dos seus romances, “African psycho”, chegar à short-list do Man Booker International. Também na Flip merece destaque a escritora italiana de origem somali Igiaba Scego.
Se existisse uma Copa do Mundo da Música Popular, as seleções de França, Bélgica, Inglaterra e Portugal teriam ainda mais afro-descendentes do que no futebol. Começando por Portugal, o destaque seria para as fadistas Mariza e Ana Moura, a primeira nascida em Moçambique, neta de uma famosa curandeira local; a segunda com raízes nas terras altas da Huíla, no sul de Angola. A seleção musical lusitana teria de incluir ainda craques como Mayra Andrade, Lura, Sara Tavares ou Tito Paris — todos eles de ascendência cabo-verdiana —, ou os angolanos Bonga, Paulo Flores e Anselmo Ralph. Suspeito que nessa seleção um dos raros portugueses sem ascendência africana próxima seria António Zambujo.
Stromae brilharia na seleção belga — tanto quanto o atacante Romero Lukaku no futebol, mas ainda com mais ginga. Em França a cena da música popular tem sido, desde há muitas décadas, dominada por imigrantes e seus descendentes: Josephine Baker, Serge Reggiani, Georges Moustaki, Léo Ferré, Charles Aznavour, entre tantos outros. Nos últimos anos o que mudou foi sobretudo a cor da pele desses cantores imigrantes, ou filhos de imigrantes. Hoje são, na sua maioria, de ascendência africana. Numa seleção musical francesa atual teriam de alinhar veteranos como Manu Dibango, Henri Salvador e Ray Lema, juntamente com uma mão cheia de outros grandes talentos mais jovens, dos rappers MC Solaar e Maitre Gims até Imany. No caso da França, o difícil é escolher entre tantos nomes excelentes.
Mesmo a Espanha, que há séculos se mantém de costas voltadas para a África, teria como principal goleadora da sua seleção musical uma mulher negra: esse extraordinário prodígio de paixão e energia chamado Concha Buika — com raízes na Guiné-Equatorial, o único país africano onde se fala espanhol.
Amanhã estarei torcendo pela França. Depois de amanhã, independentemente do resultado do jogo, continuarei torcendo por tudo aquilo que a seleção francesa representa: um exemplo de sucesso da diversidade e da integração de culturas. Uma demonstração clara de como as correntes migratórias provenientes da África estão revitalizando a Europa, através do rejuvenescimento da sua população, trazendo uma nova energia e dinamismo a um organismo velho e cansado.
Chorem, racistas: vocês perderam!
https://oglobo.globo.com/cultura/as-minhas-selecoes-22883060#ixzz5LEKHger4 stest
Continuarei torcendo pelo que a seleção francesa representa: diversidade e integração de culturas.
Já se sabe quem vai perder — aliás, quem já perdeu — quando amanhã a seleção francesa defrontar a Croácia: perdeu a extrema-direita racista e anti-imigração.
Há décadas que a seleção francesa irrita os racistas. O atual time, por exemplo, só tem cinco futebolistas filhos de pais franceses. A maioria dos jogadores é de origem africana. Blaise Matuidi, por exemplo, nasceu em Toulouse, filho de imigrantes angolanos (nós, angolanos, gostamos de pensar que, através dele, também chegamos à final). Já na seleção belga havia oito futebolistas de origem africana. Também as seleções inglesas costumam ter, como voltou a acontecer este ano, uma percentagem muito elevada de jogadores de raiz africana e asiática.
Não se pense, contudo, que a boa influência dos imigrantes, em particular daqueles de origem africana, se restringe ao desporto. Não, caros leitores, vai muitíssimo além. Se existisse uma Copa do Mundo de Literatura a seleção inglesa seria tão colorida quanto no futebol: além de dois ou três veteranos inquestionáveis, como V. S. Naipaul, Salman Rushdie, ou Zadie Smith, teria de incluir uma série de jovens estrelas em rápida ascensão, como a anglo-nigeriana Helen Oyeyemi, 33 anos, considerada pela “Granta” “uma das melhores jovens romancistas britânicas”.
Uma das grandes sensações da seleção francesa de literatura seria, sem dúvida a romancista franco-marroquina Leïla Slimani, autora do best-seller mundial “Canção de ninar” (Tusquets/Planeta, 2018) e que será este ano a principal atração da Flip. Na Flip estará um outro autor francês de origem africana: o meu amigo Alain Mabanckou, nascido no Congo-Brazzaville, e que em 2015 viu um dos seus romances, “African psycho”, chegar à short-list do Man Booker International. Também na Flip merece destaque a escritora italiana de origem somali Igiaba Scego.
Se existisse uma Copa do Mundo da Música Popular, as seleções de França, Bélgica, Inglaterra e Portugal teriam ainda mais afro-descendentes do que no futebol. Começando por Portugal, o destaque seria para as fadistas Mariza e Ana Moura, a primeira nascida em Moçambique, neta de uma famosa curandeira local; a segunda com raízes nas terras altas da Huíla, no sul de Angola. A seleção musical lusitana teria de incluir ainda craques como Mayra Andrade, Lura, Sara Tavares ou Tito Paris — todos eles de ascendência cabo-verdiana —, ou os angolanos Bonga, Paulo Flores e Anselmo Ralph. Suspeito que nessa seleção um dos raros portugueses sem ascendência africana próxima seria António Zambujo.
Stromae brilharia na seleção belga — tanto quanto o atacante Romero Lukaku no futebol, mas ainda com mais ginga. Em França a cena da música popular tem sido, desde há muitas décadas, dominada por imigrantes e seus descendentes: Josephine Baker, Serge Reggiani, Georges Moustaki, Léo Ferré, Charles Aznavour, entre tantos outros. Nos últimos anos o que mudou foi sobretudo a cor da pele desses cantores imigrantes, ou filhos de imigrantes. Hoje são, na sua maioria, de ascendência africana. Numa seleção musical francesa atual teriam de alinhar veteranos como Manu Dibango, Henri Salvador e Ray Lema, juntamente com uma mão cheia de outros grandes talentos mais jovens, dos rappers MC Solaar e Maitre Gims até Imany. No caso da França, o difícil é escolher entre tantos nomes excelentes.
Mesmo a Espanha, que há séculos se mantém de costas voltadas para a África, teria como principal goleadora da sua seleção musical uma mulher negra: esse extraordinário prodígio de paixão e energia chamado Concha Buika — com raízes na Guiné-Equatorial, o único país africano onde se fala espanhol.
Amanhã estarei torcendo pela França. Depois de amanhã, independentemente do resultado do jogo, continuarei torcendo por tudo aquilo que a seleção francesa representa: um exemplo de sucesso da diversidade e da integração de culturas. Uma demonstração clara de como as correntes migratórias provenientes da África estão revitalizando a Europa, através do rejuvenescimento da sua população, trazendo uma nova energia e dinamismo a um organismo velho e cansado.
Chorem, racistas: vocês perderam!
https://oglobo.globo.com/cultura/as-minhas-selecoes-22883060#ixzz5LEKHger4 stest
sábado, 23 de junho de 2018
Três pinos
Sete anos depois, quem ganhou dinheiro com as tomadas de três pinos?
Mercado movimenta R$ 24 bilhões por ano e segurança das redes elétricas não aumentou
BRUNO ABBUD, Revista Época, junho, 2018
22/06/2018
Com uma canetada em 2000, o então presidente do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), Armando Mariante Carvalho Junior, obrigou 196 milhões de pessoas a gastar ao menos R$ 1,4 bilhão para a troca potencial de tomadas em mais de 60 milhões de residências em todo o Brasil. Carvalho hoje integra o rol de investigados na Operação Lava Jato, mas não por ter liderado a incômoda revolução da tomada dos três pinos. Como ex-vice-presidente do BNDES, ele é investigado por participação em empréstimos fraudulentos ao pecuarista José Carlos Bumlai, o amigo do ex-presidente Lula que foi condenado a quase dez anos de prisão por corrupção e gestão fraudulenta.
No caso dos três pinos, Carvalho estabeleceu, por meio de portaria, prazos para que fabricantes e comerciantes de material elétrico e eletrodomésticos se adaptassem ao padrão NBR 14136 — um termo alfanumérico que define tecnicamente a nova tomada. Em 1º de julho, a tomada de três pinos completa seu sétimo ano de existência obrigatória. Ninguém mais pode fabricar ou importar aparelhos com plugues ou tomadas fora do padrão, sob pena de elevadas multas. Ninguém pode também vender no varejo tomadas velhas nem eletrodomésticos com o plugue antigo.
Duas perguntas, no entanto, ainda assombram os brasileiros: por que o padrão de tomadas e plugues foi alterado? E quem, afinal, ganhou com isso? Carvalho não quis responder às perguntas de ÉPOCA. O executivo Marco Aurélio Sprovieri Rodrigues, o maior inimigo que a tomada de três pinos já teve, verbalizou a hipótese mais frequente no setor de varejistas do comércio elétrico. Apontou uma multinacional francesa como beneficiária direta da adoção da tomada de três pinos.
Sprovieri é vice-presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP) e presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Material Elétrico e Aparelhos Eletrodomésticos no Estado de São Paulo (Sincoelétrico). Numa tarde de abril, no centro do Rio de Janeiro, no quarto andar do prédio da Confederação Nacional do Comércio, buscava, sem sucesso, uma tomada adequada para recarregar o celular, antes de discorrer sobre a hipótese que lhe parece a mais razoável.
A norma NBR 14136 foi estabelecida inicialmente em 1998 pela Associação Brasileira de Normas Técnicas, a ABNT. Completará 20 anos em julho e determina a padronização do encaixe em formato hexagonal, fixado à parede, com três furos posicionados em ângulos que lembram a pirâmide de Quéops. Na parte interna, possui três pequenos pinos ocos conectados à fiação. Os plugues de aparelhos eletroeletrônicos que ali se conectam caracterizam-se pela existência do terceiro pino.
O principal argumento favorável à tomada de três pinos, à época, era a segurança — uma vez que o recuo no encaixe impossibilita, por exemplo, que uma criança encoste o dedo no pino semiencaixado e energizado. Diminuiu também a chance de o plugue se soltar facilmente da tomada. Além disso, o terceiro pino evita choques quando conectado a tomadas de imóveis com aterramento elétrico. No entanto, os números oficiais de pessoas atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) por choque cresceram continuamente nos últimos sete anos.
Em 2011, quando a tomada de três pinos se tornou obrigatória, houve 857 atendimentos por exposição a corrente elétrica registrados no SUS em todo o Brasil — boa parte em residências, habitações coletivas e escolas. Em 2017, o Ministério da Saúde registrou 1.307 atendimentos por choque elétrico em todo o Brasil, crescimento de mais de 50% em seis anos. O número de internações por choque também aumentou, saltando de 22 em 2012 para 102 no ano passado. Até janeiro deste ano, houve 64 internações por choque elétrico pelo SUS no país. As mortes por choque elétrico em residências mantiveram-se num gráfico linear. Desde os anos 2000, há uma média de 1.300 por ano.
A tomada de três pinos mostrou-se ineficiente porque dependia de que as residências brasileiras fossem aterradas. O terceiro pino, como se sabe, só funciona em imóveis com aterramento. Isso significa que, se a tomada não estiver coligada a uma barra de cobre de 3 metros cravada na terra, a segurança propalada não existe. Uma pesquisa constatou que metade das residências brasileiras não dispõe de aterramento elétrico.
Criada para ser padronizada no mundo todo, a primeira versão da tomada de três pinos tem origem em 1986 na sede da Comissão Eletrotécnica Internacional (International Eletrotechnical Comission, a IEC), em Genebra, na Suíça. Batizada como IEC 60906-1, não decolou. Dos 85 países que compõem a IEC, só Suíça, África do Sul e Brasil decidiram assumi-la como padrão.
A ABNT importou a ideia da Europa em 1994. Embora a aparência tenha permanecido a mesma, houve adaptações técnicas. Enquanto a tomada europeia era própria para suportar uma intensidade elétrica de 16 amperes e tinha furos de 4,5 milímetros, a brasileira apareceu em duas versões: uma para voltagens de aparelhos menores (como liquidificadores), com furos de 4 milímetros e feitas para correntes de 10 amperes, e outra para voltagens de aparelhos maiores (como máquinas de lavar), com buracos de 4,8 milímetros e própria para aguentar um fluxo de até 20 amperes.
Na ocasião, houve na ABNT quem preferisse adotar o padrão alemão Schuko, considerado o mais seguro do mundo. Essa opção, no entanto, obrigaria o brasileiro a pagar R$ 40 por um plugue. A nova tomada de três pinos — com um custo de R$ 8 — era quatro vezes mais cara que a antiga, mas saía por um quinto da versão alemã. Em 2017, o mercado de tomadas, plugues, cabos e extensões faturou R$ 23,7 bilhões no Brasil, segundo a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). É tanto dinheiro que daria para cobrir o déficit mensal das contas públicas do governo federal.
Executivo do setor elétrico há 50 anos, Marco Aurélio Sprovieri disse que, no auge da discussão para tornar a norma obrigatória, a multinacional francesa Pial Legrand trouxe para o Brasil os moldes prontos para produzir o padrão que aqui tinha acabado de se transformar em norma. A empresa é uma gigante que atua em 180 países com um faturamento anual de € 4 bilhões, quase R$ 18 bilhões.
“Comentava-se na época que a Pial já tinha as máquinas para fabricar o novo padrão antes mesmo de ele ser imposto no Brasil”, disse Sprovieri. Só a Pial tinha o formato hexagonal. “A empresa se beneficiou mais do que os outros fabricantes, que tiveram um pouquinho mais de dificuldade de desenvolver um novo processo fabril de produção”, disse.
Sprovieri afirmou que a empresa francesa havia apostado na mundialização do produto, o que não se realizou. “O lobby foi uma das maiores produtoras do mundo já ter a fábrica, os moldes, os pinos, as máquinas para fazer os pinos, todo o processo fabril pronto quando a IEC desenvolveu a norma”, disse. A França não adotou, a Alemanha não adotou, a Itália não adotou, e a fábrica ficou inutilizada. “Esse padrão foi previsto pela IEC para ser um padrão universal, mas nenhum país quis mudar seu padrão para não causar impacto desnecessário na sociedade. Houve um investimento em novas máquinas e equipamentos pensando numa coisa que não aconteceu. Aí o único lugar em que podia acontecer era no Brasil. E aconteceu.”
A adoção da tomada mais segura do mundo, modelo Alemão, sairia quatro vezes mais cara do que a peça de três pinos escolhida no Brasil. De 85 países de associação mundial, só outros dois seguiram a opção brasileira
O executivo disse suspeitar que lobistas a serviço da indústria francesa tenham influenciado o Inmetro a tornar a tomada de três pinos obrigatória no Brasil. “Acredito que houve um acordo com o Inmetro para estabelecer isso”, disse. “Tenho quase certeza de que a empresa (Pial Legrand) vendeu a ideia para o Inmetro no Brasil, que pôde impor a norma aos consumidores. E o Inmetro baixou uma portaria que obrigou 200 milhões de pessoas a aderir a um padrão totalmente desconforme com o que tínhamos. É uma presunção.”
O lobby teria sido direcionado ao baixo escalão da autarquia. “Não foi uma ação a mando de governo, foi uma ação meio que pessoal”, disse. “Alguém da área técnica do Inmetro aceitou essa ideia como uma ideia a ser levada adiante.”
Sprovieri reuniu sindicatos e setores de classe e passou a enviar ofícios ao Inmetro, alertando para a incongruência da obrigatoriedade da norma no Brasil. “Não digo que o padrão é ruim”, declarou. “Mas havia um estoque muito grande no país de um padrão que não era inadequado. Era funcional. Além disso, poderia ser criada uma transição para um novo padrão, dois furos, dois furos com pino chato, mas tudo encaixado no mesmo lugar, e sem que isso fosse obrigatório.” Outra solução mais simples para a questão da segurança, segundo Sprovieri, seria encapar os pinos até a metade, de maneira que o toque não resultasse em choque elétrico. Os ofícios foram ignorados.
Quando a IEC lançou a tomada de três pinos nos anos 1980, Inglaterra, França e Alemanha estavam entre os países mais influentes na comissão, segundo Amaury Santos, diretor da IEC na América Latina. “Era um sonho padronizar plugues e tomadas internacionalmente, porque, por muitos anos, usou-se o plugue como barreira técnica de mercado”, disse. “Você comprava um aparelho nos Estados Unidos e não podia usar no Brasil e vice-versa. Proteção de mercado.”
Sustentada por anuidades pagas pelos países-membros e com a venda de normas de adoção voluntária por governos ao redor do mundo, a IEC não havia localizado, até o fechamento desta reportagem, as atas das reuniões que decidiram pelo desenho da norma 60906-1 nem seu inventor. O que se sabe, contudo, é que a ideia de seus criadores era acabar com a proliferação de vários tipos de plugue e tomada nos seis continentes. Atualmente, segundo a IEC, há ao menos 14 encaixes diferentes no planeta.
No dia em que se desenhou a primeira versão da tomada de três pinos, em setembro de 1986, o Brasil estava em Genebra, representado por um técnico do Comitê Brasileiro de Eletricidade, Eletrônica, Iluminação e Telecomunicações (Cobei). Da Suíça, ele trouxe ao Brasil a proposta para análise de uma comissão do comitê.
Formado por cinco sindicatos e associações, além de 17 empresas, que vão do setor médico-hospitalar ao de metais ferrosos e eletrodomésticos, o Cobei, que também é chamado de CB-003, é um dos 309 comitês técnicos da ABNT. O dinheiro para manutenção e aluguel das salas onde funciona — hoje está sediado em uma travessa da Avenida Paulista, em São Paulo — vem da indústria, por meio de empresas associadas e entidades de classe.
Atualmente, sua diretoria é formada pelo diretor-geral, João Carro Aderaldo, da Schneider, e pelo vice-diretor-geral, Antonio Eduardo Souza, da Pial Legrand.
Dos mais de 300 comitês técnicos da ABNT, o Cobei é um dos mais poderosos. Além dele, só três integram o Conselho Deliberativo da ABNT: o CB-004 (máquinas e equipamentos mecânicos); o CB-018 (cimento, concreto e agregados); e o CB-026 (odonto-médico-hospitalar). Os comitês técnicos são numerados em ordem cronológica, de maneira que o comitê que estuda eletricidade foi o terceiro a ser criado na ABNT, em 1908, atrás apenas dos comitês de Mineração e Metalurgia e da Construção Civil. De acordo com um anúncio para associados publicado em seu site, o Cobei é responsável por “garantir a participação ativa do Brasil” na IEC e “assegurar que seja realizado o pagamento das anuidades da filiação” à entidade.
A ABNT também é formada por entidades de classe, empresas e autarquias federais, como o Inmetro, por exemplo. Todos os associados contribuem com a associação. Alguns mais, outros menos. Entre os sócios mantenedores da ABNT estão os ministérios da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, o da Indústria, Comércio Exterior e Serviços e o da Defesa, com quem a ABNT faz convênios para o recebimento de verbas federais. Em 2017, R$ 547.700 foram repassados à entidade.
Das 522 comissões de estudo que já foram criadas sob o guarda-chuva do Cobei, hoje estão ativas cerca de 160, que avaliam tecnicamente desde turbinas de geração eólica a máquinas de lavar roupa. Em teoria, esses pequenos grupos devem ser compostos de fabricantes, consumidores, laboratórios e universidades ou por qualquer interessado que comprove relação curricular com o assunto em pauta. Na prática, contudo, boa parte é formada e supervisionada por técnicos de grandes multinacionais que gastam algumas tardes decidindo entre a cor verde e o amarelo, esse parafuso ou aquele encaixe de plástico, uma folha de alumínio ou um ponteiro de aço.
A indústria participou ativamente da escolha da tomada e dos plugues de três pinos no Brasil. Em 1994, a Comissão de Estudo de Interruptores, Tomadas, Pinos e Placas de Uso Geral — também denominada CE-03:023.02 — começou a se basear na norma da IEC para desenvolver a tomada de três pinos do jeito que é hoje. Entre 1994, quando o padrão começou a ser desenhado no Brasil, e 1998, quando foi lançado pela primeira vez, o número de integrantes da comissão de estudo que o escolheu era 26 — sendo 25 empresas e entidades de classe da indústria eletroeletrônica e do cobre e apenas um laboratório, o Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel), ligado à Eletrobras. Em quatro anos, reuniram-se cerca de 20 vezes. “Se houve algum lobby, foi nessa época”, confidenciou um executivo do setor elétrico que preferiu não se identificar.
“As decisões das comissões de estudo são sempre tomadas por consenso, não havendo votação”, afirmou Eugenio Tolstoy de Simone, diretor técnico da ABNT, que administra todos os comitês técnicos. O diretor da ABNT declarou que a escolha da norma da IEC pela comissão de estudo foi “natural e lógica”. “Não houve imposição de ninguém”, disse. “Ao se iniciar qualquer trabalho de normalização, devemos sempre optar pela adoção de uma norma internacional, conforme preconiza o Acordo de Barreiras Técnicas da Organização Mundial do Comércio.”
Em outubro de 1996, houve uma consulta pública na qual a norma NBR 14136 foi aprovada pelos integrantes da comissão de estudo com 21 sugestões. “As sugestões foram inexpressivas”, afirmou Tolstoy, que está na ABNT desde 2002. “O único setor que reclamou desse plugue e tomada foi o da construção civil, que na época dizia o seguinte: ‘Espera aí, quem instala as tomadas sou eu, e vai dar um trabalho danado’.” Instado a oferecer acesso às atas das reuniões, Tolstoy informou que são documentos de uso exclusivo da comissão de estudo.
Em 2006, Vicente de Paula Neves, funcionário da Pial Legrand, foi o coordenador da comissão de estudo que escolheu se basear no padrão da IEC. De acordo com o regimento interno da ABNT, compete ao coordenador da comissão, além de conduzir as reuniões, indicar o secretário, relatores e membros, receber as documentações e revisar “técnica e ortograficamente” o texto dos projetos de norma.
Questionado sobre se acredita que a Pial Legrand tenha largado na frente no comércio do novo padrão e sobre o comportamento da multinacional na consulta pública, Tolstoy disse: “A Pial não queria que a gente adotasse o formato igual ao da IEC. A Pial queria justamente que mudasse o formato, e isso não foi aceito”.
José Sebastião Viel, superintendente do Cobei e ex-funcionário das francesas Telemecanique e Schneider, afirmou ser uma obviedade que os franceses tenham saído na frente da fabricação e comercialização do novo produto. “A Pial Legrand era a maior fabricante que havia no Brasil. Ela sempre esteve na frente dos outros fabricantes daqui. Sempre foi uma empresa com uma agilidade tecnológica muito forte. Quem tem mais tecnologia e mais dinheiro para investir acaba saindo na frente.”
Representante de empresa nega que houve lobby de fabricantes de tomadas
Funcionário da Pial Legrand desde 1993, Antonio Eduardo Souza negou a tese de Sprovieri peremptoriamente, mas admitiu: “Realmente a ambição era que a norma da IEC se tornasse um padrão mundial. A Europa queria que fosse norma de padronização mundial de tomadas”
Souza foi o maior representante da Pial Legrand durante as discussões sobre a implantação do padrão no Brasil. Negou que tenha havido lobby da indústria na decisão de obrigar à utilização da NBR 14136. “Seria um baita tiro no pé. A indústria não criaria um lobby para se obrigar a fazer grandes investimentos para se adequar à obrigatoriedade do Inmetro.”Funcionário da Pial Legrand desde 1993, Antonio Eduardo Souza negou a tese de Sprovieri peremptoriamente, mas admitiu: “Realmente a ambição era que a norma da IEC se tornasse um padrão mundial. A Europa queria que fosse norma de padronização mundial de tomadas”.
Souza também é categórico ao rebater a acusação de que a Pial Legrand teria trazido os moldes da França para o Brasil: “Isso é uma falácia. Os moldes foram fabricados de acordo com o cronograma de implementação da norma”. Segundo ele, parte dos investimentos da Pial Legrand à época se deu justamente na fabricação de novos moldes. “Um molde de injeção plástica pode custar entre R$ 100 mil e R$ 130 mil. Em uma linha de tomada, por exemplo, há mais de um molde, incluindo tampa e tomada.” Para cada linha de produto, segundo Souza, gastam-se de R$ 200 mil a R$ 300 mil. “Se você tem dez produtos, são R$ 3 milhões só em moldes”, completou. “A indústria não ganhou tanto dinheiro assim porque os pinos antigos quase todos cabiam em tomadas antigas e também nas novas.”
Confrontada com a tese de Sprovieri, a Pial Legrand negou que tivesse os moldes da tomada de três pinos antes de sua implementação no Brasil. “Parece teoria da conspiração”, disse Carlos Eduardo Nonato, gerente de marketing da multinacional desde 2010. “Todos os fabricantes tiveram de se adaptar e todos sofrem, até hoje, com as reclamações de clientes e com a especulação de tentar achar um culpado para essa mudança”, acrescentou o diretor de marketing da empresa, Demetrius Basile.
Os fabricantes de adaptadores formam outro grupo entre os que ganharam dinheiro com a adoção do plugue jabuticaba nacional. No fim dos anos 2000, quando o escalonamento de prazos expedidos pelo Inmetro já havia criado algum efeito na indústria, e os eletrodomésticos certificados costumavam sair das fábricas padronizados, o plugue na norma NBR 14136 passou a aparecer com mais frequência nas casas dos brasileiros. Milhares de consumidores se viram obrigados a comprar adaptadores para dar vida a eletrodomésticos recém-adquiridos.
Nove meses depois da data final para o varejo se adaptar ao padrão obrigatório, uma empresa familiar já havia se valorizado em milhões de reais. A Daneva foi fundada por Juliano Filippelli Neto — que também participou da comissão da ABNT que estudou a tomada de três pinos — em 1978 em Poá, na Grande São Paulo. Era líder de vendas de extensões e adaptadores no Brasil. Em abril de 2013, alterou seu capital social, passando-o de R$ 700 mil para R$ 24 milhões — um salto de 3.328%. Um mês depois, em uma reunião registrada na Junta Comercial de São Paulo, a Pial Legrand adquiriu 51% da empresa por R$ 66 milhões. Dois anos mais tarde, em julho de 2014, comprou os 49% restantes por R$ 65 milhões. A multinacional francesa novamente se beneficiou da tomada de três pinos.
A aquisição faz parte de sua estratégia no Brasil. Em 2006, a Pial Legrand comprou a Cemar, líder do mercado de quadros de distribuição. Em 2008, a HDL, líder no segmento de porteiros eletrônicos. Em 2010, a SMS, líder no mercado de nobreaks. “É uma estratégia de crescimento lateral por meio da aquisição de empresas que estejam alinhadas com nosso portfólio de produtos”, disse Antonio Eduardo Souza, que hoje dirige a fábrica da Daneva.
Marcelo Filippelli, antigo sócio-proprietário da Daneva, afirmou que a diferença estratosférica no capital social da empresa surgiu de lucros acumulados. “Foi feita uma atualização de capital para efeito de menos gasto com imposto. Os lucros que não tinham sido distribuídos foram integralizados no capital social. Foi uma operação contábil que a gente fez porque já estávamos com a venda fechada para a Pial Legrand. Você paga menos Imposto de Renda se tem seu capital social mais alto. Não tem nada a ver com investimento, padronização, com ganho de dinheiro, com lucro, nada disso.”
A polêmica da tomada de três pinos ganhou fôlego em 2006, quando o Congresso aprovou o Projeto de Lei 1.096, de 1995. De autoria do então deputado Freire Júnior, a lei obrigou imóveis construídos a partir de outubro daquele ano a ter “sistema de aterramento e instalações elétricas compatíveis com a utilização do condutor-terra de proteção, bem como tomadas com o terceiro contato correspondente” e tornou obrigatório o plugue de três pinos em aparelhos eletroeletrônicos com carcaça metálica, como micro-ondas, geladeiras e máquinas de lavar.
Sem aterramento na maior parte dos imóveis brasileiros, o terceiro pino da tomada não tem utilidade alguma na prevenção de cargas ou redução de choque
O fato de Lula ter sancionado a lei a três meses do fim do primeiro mandato como presidente da República colocou internautas em polvorosa. Já naquela época, teorias da conspiração em forma de fake news surgiram na rede, e não demorou para que um filho de Lula levasse a culpa pela tomada de três pinos. Acusaram Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, de ter direitos sobre a patente da tomada — uma falácia, já que a patente de uma invenção, quando se torna norma internacional, é derrubada pelas regras dos normatizadores.
Freire Júnior, que hoje é suplente de deputado pelo Tocantins, disse que teve a ideia de propor a lei depois de uma conversa com um amigo de infância. “No passado, nós dois tivemos videocassetes queimados por falta de aterramento elétrico”, disse.
Na Rua Santa Ifigênia, maior polo do comércio eletroeletrônico de São Paulo, o empresário Felipe Abduch, proprietário da loja de materias elétricos Santil, disse que a francesa Pial foi a primeira a colocar tomadas de três pinos no mercado. “Eles estavam mais preparados para seguir as novas exigências. Depois vieram os concorrentes, a Schneider, a Siemens e a Tramontina.”
Quando os deputados Sandro Alex (PPS-PR) e Bruno Araújo (PSDB-PE) decidiram convocar uma reunião na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados para esclarecer os motivos da obrigatoriedade da tomada de três pinos no Brasil, João Viel, o superintendente da Cobei, foi convidado a participar como representante da Confederação Nacional da Indústria (CNI), mas não pôde ir. Enviou em seu lugar Antonio Eduardo Souza, da Pial Legrand.
As desconfianças sobre a tomada de três pinos reverberaram no Congresso em 7 de junho de 2011, a menos de um mês de o padrão se tornar obrigatório. Os argumentos favoráveis à padronização — entre eles a redução no consumo de energia, mais segurança contra choques elétricos, proporcionada pelo novo relevo das tomadas, e prevenção contra incêndios — eram rebatidos, à época, com argumentos de que a maior parte dos imóveis não dispunha de aterramento elétrico e boa parte dos eletrodomésticos era dotada de um sistema de proteção interna contra curtos-circuitos, de modo que o terceiro pino ficaria sem utilidade. Apontava-se também o baixo índice de choques no país, o que não justificaria uma mudança, a insegurança ocasionada pelo aumento no uso de adaptadores e o peso no bolso do consumidor.
O deputado Bruno Araújo, que presidia a Comissão de Ciência e Tecnologia em 2011, seguiu na mesma linha: “A coisa parecia fato consumado, lembro que na época não me convenci nem me dei por satisfeito. Havia uma grande desinformação da sociedade sobre qual seria de fato a utilidade desse investimento de centenas de milhões, se não fosse de bilhão, de mudar todo o sistema nacional”.
O presidente do Inmetro e da ABNT foram convidados ao encontro, mas enviaram subordinados. “Eles ficaram essencialmente no foco da segurança”, lembrou Araújo. A reunião durou duas horas.
“A tomada de três pinos veio muito mais da imposição do governo e do Inmetro”, disse o deputado Sandro Alex ao rememorar a reunião no Congresso. “A gente percebia que tinha alguma coisa errada nessa história. A decisão estava tomada. Muito se comentava de que tinha um caroço no angu.”
Em 2010, a Daneva doou R$ 50 mil a José de Souza Cândido, candidato do PT a deputado estadual em São Paulo, hoje falecido. Já a SMS Tecnologia Eletrônica doou, no mesmo ano, R$ 24 mil a José de Filippi Junior, candidato a deputado federal do PT por São Paulo; R$ 5.700 a Joel Fonseca Costa, candidato do PT a deputado estadual em São Paulo; além de R$ 2 mil a Paulo Skaf, que concorria ao governo paulista pelo PSB. Nas eleições de 2014 e 2016, nenhuma empresa do grupo Legrand colaborou com candidatos.
https://epoca.globo.com/tecnologia/noticia/2018/06/sete-anos-depois-quem-ganhou-dinheiro-com-tomadas-de-tres-pinos.html 23/06/2018
Mercado movimenta R$ 24 bilhões por ano e segurança das redes elétricas não aumentou
BRUNO ABBUD, Revista Época, junho, 2018
22/06/2018
Com uma canetada em 2000, o então presidente do Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia (Inmetro), Armando Mariante Carvalho Junior, obrigou 196 milhões de pessoas a gastar ao menos R$ 1,4 bilhão para a troca potencial de tomadas em mais de 60 milhões de residências em todo o Brasil. Carvalho hoje integra o rol de investigados na Operação Lava Jato, mas não por ter liderado a incômoda revolução da tomada dos três pinos. Como ex-vice-presidente do BNDES, ele é investigado por participação em empréstimos fraudulentos ao pecuarista José Carlos Bumlai, o amigo do ex-presidente Lula que foi condenado a quase dez anos de prisão por corrupção e gestão fraudulenta.
No caso dos três pinos, Carvalho estabeleceu, por meio de portaria, prazos para que fabricantes e comerciantes de material elétrico e eletrodomésticos se adaptassem ao padrão NBR 14136 — um termo alfanumérico que define tecnicamente a nova tomada. Em 1º de julho, a tomada de três pinos completa seu sétimo ano de existência obrigatória. Ninguém mais pode fabricar ou importar aparelhos com plugues ou tomadas fora do padrão, sob pena de elevadas multas. Ninguém pode também vender no varejo tomadas velhas nem eletrodomésticos com o plugue antigo.
Duas perguntas, no entanto, ainda assombram os brasileiros: por que o padrão de tomadas e plugues foi alterado? E quem, afinal, ganhou com isso? Carvalho não quis responder às perguntas de ÉPOCA. O executivo Marco Aurélio Sprovieri Rodrigues, o maior inimigo que a tomada de três pinos já teve, verbalizou a hipótese mais frequente no setor de varejistas do comércio elétrico. Apontou uma multinacional francesa como beneficiária direta da adoção da tomada de três pinos.
Sprovieri é vice-presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo (Fecomercio-SP) e presidente do Sindicato do Comércio Varejista de Material Elétrico e Aparelhos Eletrodomésticos no Estado de São Paulo (Sincoelétrico). Numa tarde de abril, no centro do Rio de Janeiro, no quarto andar do prédio da Confederação Nacional do Comércio, buscava, sem sucesso, uma tomada adequada para recarregar o celular, antes de discorrer sobre a hipótese que lhe parece a mais razoável.
A norma NBR 14136 foi estabelecida inicialmente em 1998 pela Associação Brasileira de Normas Técnicas, a ABNT. Completará 20 anos em julho e determina a padronização do encaixe em formato hexagonal, fixado à parede, com três furos posicionados em ângulos que lembram a pirâmide de Quéops. Na parte interna, possui três pequenos pinos ocos conectados à fiação. Os plugues de aparelhos eletroeletrônicos que ali se conectam caracterizam-se pela existência do terceiro pino.
O principal argumento favorável à tomada de três pinos, à época, era a segurança — uma vez que o recuo no encaixe impossibilita, por exemplo, que uma criança encoste o dedo no pino semiencaixado e energizado. Diminuiu também a chance de o plugue se soltar facilmente da tomada. Além disso, o terceiro pino evita choques quando conectado a tomadas de imóveis com aterramento elétrico. No entanto, os números oficiais de pessoas atendidas pelo Sistema Único de Saúde (SUS) por choque cresceram continuamente nos últimos sete anos.
Em 2011, quando a tomada de três pinos se tornou obrigatória, houve 857 atendimentos por exposição a corrente elétrica registrados no SUS em todo o Brasil — boa parte em residências, habitações coletivas e escolas. Em 2017, o Ministério da Saúde registrou 1.307 atendimentos por choque elétrico em todo o Brasil, crescimento de mais de 50% em seis anos. O número de internações por choque também aumentou, saltando de 22 em 2012 para 102 no ano passado. Até janeiro deste ano, houve 64 internações por choque elétrico pelo SUS no país. As mortes por choque elétrico em residências mantiveram-se num gráfico linear. Desde os anos 2000, há uma média de 1.300 por ano.
A tomada de três pinos mostrou-se ineficiente porque dependia de que as residências brasileiras fossem aterradas. O terceiro pino, como se sabe, só funciona em imóveis com aterramento. Isso significa que, se a tomada não estiver coligada a uma barra de cobre de 3 metros cravada na terra, a segurança propalada não existe. Uma pesquisa constatou que metade das residências brasileiras não dispõe de aterramento elétrico.
Criada para ser padronizada no mundo todo, a primeira versão da tomada de três pinos tem origem em 1986 na sede da Comissão Eletrotécnica Internacional (International Eletrotechnical Comission, a IEC), em Genebra, na Suíça. Batizada como IEC 60906-1, não decolou. Dos 85 países que compõem a IEC, só Suíça, África do Sul e Brasil decidiram assumi-la como padrão.
A ABNT importou a ideia da Europa em 1994. Embora a aparência tenha permanecido a mesma, houve adaptações técnicas. Enquanto a tomada europeia era própria para suportar uma intensidade elétrica de 16 amperes e tinha furos de 4,5 milímetros, a brasileira apareceu em duas versões: uma para voltagens de aparelhos menores (como liquidificadores), com furos de 4 milímetros e feitas para correntes de 10 amperes, e outra para voltagens de aparelhos maiores (como máquinas de lavar), com buracos de 4,8 milímetros e própria para aguentar um fluxo de até 20 amperes.
Na ocasião, houve na ABNT quem preferisse adotar o padrão alemão Schuko, considerado o mais seguro do mundo. Essa opção, no entanto, obrigaria o brasileiro a pagar R$ 40 por um plugue. A nova tomada de três pinos — com um custo de R$ 8 — era quatro vezes mais cara que a antiga, mas saía por um quinto da versão alemã. Em 2017, o mercado de tomadas, plugues, cabos e extensões faturou R$ 23,7 bilhões no Brasil, segundo a Associação Brasileira da Indústria Elétrica e Eletrônica (Abinee). É tanto dinheiro que daria para cobrir o déficit mensal das contas públicas do governo federal.
Executivo do setor elétrico há 50 anos, Marco Aurélio Sprovieri disse que, no auge da discussão para tornar a norma obrigatória, a multinacional francesa Pial Legrand trouxe para o Brasil os moldes prontos para produzir o padrão que aqui tinha acabado de se transformar em norma. A empresa é uma gigante que atua em 180 países com um faturamento anual de € 4 bilhões, quase R$ 18 bilhões.
“Comentava-se na época que a Pial já tinha as máquinas para fabricar o novo padrão antes mesmo de ele ser imposto no Brasil”, disse Sprovieri. Só a Pial tinha o formato hexagonal. “A empresa se beneficiou mais do que os outros fabricantes, que tiveram um pouquinho mais de dificuldade de desenvolver um novo processo fabril de produção”, disse.
Sprovieri afirmou que a empresa francesa havia apostado na mundialização do produto, o que não se realizou. “O lobby foi uma das maiores produtoras do mundo já ter a fábrica, os moldes, os pinos, as máquinas para fazer os pinos, todo o processo fabril pronto quando a IEC desenvolveu a norma”, disse. A França não adotou, a Alemanha não adotou, a Itália não adotou, e a fábrica ficou inutilizada. “Esse padrão foi previsto pela IEC para ser um padrão universal, mas nenhum país quis mudar seu padrão para não causar impacto desnecessário na sociedade. Houve um investimento em novas máquinas e equipamentos pensando numa coisa que não aconteceu. Aí o único lugar em que podia acontecer era no Brasil. E aconteceu.”
A adoção da tomada mais segura do mundo, modelo Alemão, sairia quatro vezes mais cara do que a peça de três pinos escolhida no Brasil. De 85 países de associação mundial, só outros dois seguiram a opção brasileira
O executivo disse suspeitar que lobistas a serviço da indústria francesa tenham influenciado o Inmetro a tornar a tomada de três pinos obrigatória no Brasil. “Acredito que houve um acordo com o Inmetro para estabelecer isso”, disse. “Tenho quase certeza de que a empresa (Pial Legrand) vendeu a ideia para o Inmetro no Brasil, que pôde impor a norma aos consumidores. E o Inmetro baixou uma portaria que obrigou 200 milhões de pessoas a aderir a um padrão totalmente desconforme com o que tínhamos. É uma presunção.”
O lobby teria sido direcionado ao baixo escalão da autarquia. “Não foi uma ação a mando de governo, foi uma ação meio que pessoal”, disse. “Alguém da área técnica do Inmetro aceitou essa ideia como uma ideia a ser levada adiante.”
Sprovieri reuniu sindicatos e setores de classe e passou a enviar ofícios ao Inmetro, alertando para a incongruência da obrigatoriedade da norma no Brasil. “Não digo que o padrão é ruim”, declarou. “Mas havia um estoque muito grande no país de um padrão que não era inadequado. Era funcional. Além disso, poderia ser criada uma transição para um novo padrão, dois furos, dois furos com pino chato, mas tudo encaixado no mesmo lugar, e sem que isso fosse obrigatório.” Outra solução mais simples para a questão da segurança, segundo Sprovieri, seria encapar os pinos até a metade, de maneira que o toque não resultasse em choque elétrico. Os ofícios foram ignorados.
Quando a IEC lançou a tomada de três pinos nos anos 1980, Inglaterra, França e Alemanha estavam entre os países mais influentes na comissão, segundo Amaury Santos, diretor da IEC na América Latina. “Era um sonho padronizar plugues e tomadas internacionalmente, porque, por muitos anos, usou-se o plugue como barreira técnica de mercado”, disse. “Você comprava um aparelho nos Estados Unidos e não podia usar no Brasil e vice-versa. Proteção de mercado.”
Sustentada por anuidades pagas pelos países-membros e com a venda de normas de adoção voluntária por governos ao redor do mundo, a IEC não havia localizado, até o fechamento desta reportagem, as atas das reuniões que decidiram pelo desenho da norma 60906-1 nem seu inventor. O que se sabe, contudo, é que a ideia de seus criadores era acabar com a proliferação de vários tipos de plugue e tomada nos seis continentes. Atualmente, segundo a IEC, há ao menos 14 encaixes diferentes no planeta.
No dia em que se desenhou a primeira versão da tomada de três pinos, em setembro de 1986, o Brasil estava em Genebra, representado por um técnico do Comitê Brasileiro de Eletricidade, Eletrônica, Iluminação e Telecomunicações (Cobei). Da Suíça, ele trouxe ao Brasil a proposta para análise de uma comissão do comitê.
Formado por cinco sindicatos e associações, além de 17 empresas, que vão do setor médico-hospitalar ao de metais ferrosos e eletrodomésticos, o Cobei, que também é chamado de CB-003, é um dos 309 comitês técnicos da ABNT. O dinheiro para manutenção e aluguel das salas onde funciona — hoje está sediado em uma travessa da Avenida Paulista, em São Paulo — vem da indústria, por meio de empresas associadas e entidades de classe.
Atualmente, sua diretoria é formada pelo diretor-geral, João Carro Aderaldo, da Schneider, e pelo vice-diretor-geral, Antonio Eduardo Souza, da Pial Legrand.
Dos mais de 300 comitês técnicos da ABNT, o Cobei é um dos mais poderosos. Além dele, só três integram o Conselho Deliberativo da ABNT: o CB-004 (máquinas e equipamentos mecânicos); o CB-018 (cimento, concreto e agregados); e o CB-026 (odonto-médico-hospitalar). Os comitês técnicos são numerados em ordem cronológica, de maneira que o comitê que estuda eletricidade foi o terceiro a ser criado na ABNT, em 1908, atrás apenas dos comitês de Mineração e Metalurgia e da Construção Civil. De acordo com um anúncio para associados publicado em seu site, o Cobei é responsável por “garantir a participação ativa do Brasil” na IEC e “assegurar que seja realizado o pagamento das anuidades da filiação” à entidade.
A ABNT também é formada por entidades de classe, empresas e autarquias federais, como o Inmetro, por exemplo. Todos os associados contribuem com a associação. Alguns mais, outros menos. Entre os sócios mantenedores da ABNT estão os ministérios da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, o da Indústria, Comércio Exterior e Serviços e o da Defesa, com quem a ABNT faz convênios para o recebimento de verbas federais. Em 2017, R$ 547.700 foram repassados à entidade.
Das 522 comissões de estudo que já foram criadas sob o guarda-chuva do Cobei, hoje estão ativas cerca de 160, que avaliam tecnicamente desde turbinas de geração eólica a máquinas de lavar roupa. Em teoria, esses pequenos grupos devem ser compostos de fabricantes, consumidores, laboratórios e universidades ou por qualquer interessado que comprove relação curricular com o assunto em pauta. Na prática, contudo, boa parte é formada e supervisionada por técnicos de grandes multinacionais que gastam algumas tardes decidindo entre a cor verde e o amarelo, esse parafuso ou aquele encaixe de plástico, uma folha de alumínio ou um ponteiro de aço.
A indústria participou ativamente da escolha da tomada e dos plugues de três pinos no Brasil. Em 1994, a Comissão de Estudo de Interruptores, Tomadas, Pinos e Placas de Uso Geral — também denominada CE-03:023.02 — começou a se basear na norma da IEC para desenvolver a tomada de três pinos do jeito que é hoje. Entre 1994, quando o padrão começou a ser desenhado no Brasil, e 1998, quando foi lançado pela primeira vez, o número de integrantes da comissão de estudo que o escolheu era 26 — sendo 25 empresas e entidades de classe da indústria eletroeletrônica e do cobre e apenas um laboratório, o Centro de Pesquisas de Energia Elétrica (Cepel), ligado à Eletrobras. Em quatro anos, reuniram-se cerca de 20 vezes. “Se houve algum lobby, foi nessa época”, confidenciou um executivo do setor elétrico que preferiu não se identificar.
“As decisões das comissões de estudo são sempre tomadas por consenso, não havendo votação”, afirmou Eugenio Tolstoy de Simone, diretor técnico da ABNT, que administra todos os comitês técnicos. O diretor da ABNT declarou que a escolha da norma da IEC pela comissão de estudo foi “natural e lógica”. “Não houve imposição de ninguém”, disse. “Ao se iniciar qualquer trabalho de normalização, devemos sempre optar pela adoção de uma norma internacional, conforme preconiza o Acordo de Barreiras Técnicas da Organização Mundial do Comércio.”
Em outubro de 1996, houve uma consulta pública na qual a norma NBR 14136 foi aprovada pelos integrantes da comissão de estudo com 21 sugestões. “As sugestões foram inexpressivas”, afirmou Tolstoy, que está na ABNT desde 2002. “O único setor que reclamou desse plugue e tomada foi o da construção civil, que na época dizia o seguinte: ‘Espera aí, quem instala as tomadas sou eu, e vai dar um trabalho danado’.” Instado a oferecer acesso às atas das reuniões, Tolstoy informou que são documentos de uso exclusivo da comissão de estudo.
Em 2006, Vicente de Paula Neves, funcionário da Pial Legrand, foi o coordenador da comissão de estudo que escolheu se basear no padrão da IEC. De acordo com o regimento interno da ABNT, compete ao coordenador da comissão, além de conduzir as reuniões, indicar o secretário, relatores e membros, receber as documentações e revisar “técnica e ortograficamente” o texto dos projetos de norma.
Questionado sobre se acredita que a Pial Legrand tenha largado na frente no comércio do novo padrão e sobre o comportamento da multinacional na consulta pública, Tolstoy disse: “A Pial não queria que a gente adotasse o formato igual ao da IEC. A Pial queria justamente que mudasse o formato, e isso não foi aceito”.
José Sebastião Viel, superintendente do Cobei e ex-funcionário das francesas Telemecanique e Schneider, afirmou ser uma obviedade que os franceses tenham saído na frente da fabricação e comercialização do novo produto. “A Pial Legrand era a maior fabricante que havia no Brasil. Ela sempre esteve na frente dos outros fabricantes daqui. Sempre foi uma empresa com uma agilidade tecnológica muito forte. Quem tem mais tecnologia e mais dinheiro para investir acaba saindo na frente.”
Representante de empresa nega que houve lobby de fabricantes de tomadas
Funcionário da Pial Legrand desde 1993, Antonio Eduardo Souza negou a tese de Sprovieri peremptoriamente, mas admitiu: “Realmente a ambição era que a norma da IEC se tornasse um padrão mundial. A Europa queria que fosse norma de padronização mundial de tomadas”
Souza foi o maior representante da Pial Legrand durante as discussões sobre a implantação do padrão no Brasil. Negou que tenha havido lobby da indústria na decisão de obrigar à utilização da NBR 14136. “Seria um baita tiro no pé. A indústria não criaria um lobby para se obrigar a fazer grandes investimentos para se adequar à obrigatoriedade do Inmetro.”Funcionário da Pial Legrand desde 1993, Antonio Eduardo Souza negou a tese de Sprovieri peremptoriamente, mas admitiu: “Realmente a ambição era que a norma da IEC se tornasse um padrão mundial. A Europa queria que fosse norma de padronização mundial de tomadas”.
Souza também é categórico ao rebater a acusação de que a Pial Legrand teria trazido os moldes da França para o Brasil: “Isso é uma falácia. Os moldes foram fabricados de acordo com o cronograma de implementação da norma”. Segundo ele, parte dos investimentos da Pial Legrand à época se deu justamente na fabricação de novos moldes. “Um molde de injeção plástica pode custar entre R$ 100 mil e R$ 130 mil. Em uma linha de tomada, por exemplo, há mais de um molde, incluindo tampa e tomada.” Para cada linha de produto, segundo Souza, gastam-se de R$ 200 mil a R$ 300 mil. “Se você tem dez produtos, são R$ 3 milhões só em moldes”, completou. “A indústria não ganhou tanto dinheiro assim porque os pinos antigos quase todos cabiam em tomadas antigas e também nas novas.”
Confrontada com a tese de Sprovieri, a Pial Legrand negou que tivesse os moldes da tomada de três pinos antes de sua implementação no Brasil. “Parece teoria da conspiração”, disse Carlos Eduardo Nonato, gerente de marketing da multinacional desde 2010. “Todos os fabricantes tiveram de se adaptar e todos sofrem, até hoje, com as reclamações de clientes e com a especulação de tentar achar um culpado para essa mudança”, acrescentou o diretor de marketing da empresa, Demetrius Basile.
Os fabricantes de adaptadores formam outro grupo entre os que ganharam dinheiro com a adoção do plugue jabuticaba nacional. No fim dos anos 2000, quando o escalonamento de prazos expedidos pelo Inmetro já havia criado algum efeito na indústria, e os eletrodomésticos certificados costumavam sair das fábricas padronizados, o plugue na norma NBR 14136 passou a aparecer com mais frequência nas casas dos brasileiros. Milhares de consumidores se viram obrigados a comprar adaptadores para dar vida a eletrodomésticos recém-adquiridos.
Nove meses depois da data final para o varejo se adaptar ao padrão obrigatório, uma empresa familiar já havia se valorizado em milhões de reais. A Daneva foi fundada por Juliano Filippelli Neto — que também participou da comissão da ABNT que estudou a tomada de três pinos — em 1978 em Poá, na Grande São Paulo. Era líder de vendas de extensões e adaptadores no Brasil. Em abril de 2013, alterou seu capital social, passando-o de R$ 700 mil para R$ 24 milhões — um salto de 3.328%. Um mês depois, em uma reunião registrada na Junta Comercial de São Paulo, a Pial Legrand adquiriu 51% da empresa por R$ 66 milhões. Dois anos mais tarde, em julho de 2014, comprou os 49% restantes por R$ 65 milhões. A multinacional francesa novamente se beneficiou da tomada de três pinos.
A aquisição faz parte de sua estratégia no Brasil. Em 2006, a Pial Legrand comprou a Cemar, líder do mercado de quadros de distribuição. Em 2008, a HDL, líder no segmento de porteiros eletrônicos. Em 2010, a SMS, líder no mercado de nobreaks. “É uma estratégia de crescimento lateral por meio da aquisição de empresas que estejam alinhadas com nosso portfólio de produtos”, disse Antonio Eduardo Souza, que hoje dirige a fábrica da Daneva.
Marcelo Filippelli, antigo sócio-proprietário da Daneva, afirmou que a diferença estratosférica no capital social da empresa surgiu de lucros acumulados. “Foi feita uma atualização de capital para efeito de menos gasto com imposto. Os lucros que não tinham sido distribuídos foram integralizados no capital social. Foi uma operação contábil que a gente fez porque já estávamos com a venda fechada para a Pial Legrand. Você paga menos Imposto de Renda se tem seu capital social mais alto. Não tem nada a ver com investimento, padronização, com ganho de dinheiro, com lucro, nada disso.”
A polêmica da tomada de três pinos ganhou fôlego em 2006, quando o Congresso aprovou o Projeto de Lei 1.096, de 1995. De autoria do então deputado Freire Júnior, a lei obrigou imóveis construídos a partir de outubro daquele ano a ter “sistema de aterramento e instalações elétricas compatíveis com a utilização do condutor-terra de proteção, bem como tomadas com o terceiro contato correspondente” e tornou obrigatório o plugue de três pinos em aparelhos eletroeletrônicos com carcaça metálica, como micro-ondas, geladeiras e máquinas de lavar.
Sem aterramento na maior parte dos imóveis brasileiros, o terceiro pino da tomada não tem utilidade alguma na prevenção de cargas ou redução de choque
O fato de Lula ter sancionado a lei a três meses do fim do primeiro mandato como presidente da República colocou internautas em polvorosa. Já naquela época, teorias da conspiração em forma de fake news surgiram na rede, e não demorou para que um filho de Lula levasse a culpa pela tomada de três pinos. Acusaram Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, de ter direitos sobre a patente da tomada — uma falácia, já que a patente de uma invenção, quando se torna norma internacional, é derrubada pelas regras dos normatizadores.
Freire Júnior, que hoje é suplente de deputado pelo Tocantins, disse que teve a ideia de propor a lei depois de uma conversa com um amigo de infância. “No passado, nós dois tivemos videocassetes queimados por falta de aterramento elétrico”, disse.
Na Rua Santa Ifigênia, maior polo do comércio eletroeletrônico de São Paulo, o empresário Felipe Abduch, proprietário da loja de materias elétricos Santil, disse que a francesa Pial foi a primeira a colocar tomadas de três pinos no mercado. “Eles estavam mais preparados para seguir as novas exigências. Depois vieram os concorrentes, a Schneider, a Siemens e a Tramontina.”
Quando os deputados Sandro Alex (PPS-PR) e Bruno Araújo (PSDB-PE) decidiram convocar uma reunião na Comissão de Ciência e Tecnologia, Comunicação e Informática da Câmara dos Deputados para esclarecer os motivos da obrigatoriedade da tomada de três pinos no Brasil, João Viel, o superintendente da Cobei, foi convidado a participar como representante da Confederação Nacional da Indústria (CNI), mas não pôde ir. Enviou em seu lugar Antonio Eduardo Souza, da Pial Legrand.
As desconfianças sobre a tomada de três pinos reverberaram no Congresso em 7 de junho de 2011, a menos de um mês de o padrão se tornar obrigatório. Os argumentos favoráveis à padronização — entre eles a redução no consumo de energia, mais segurança contra choques elétricos, proporcionada pelo novo relevo das tomadas, e prevenção contra incêndios — eram rebatidos, à época, com argumentos de que a maior parte dos imóveis não dispunha de aterramento elétrico e boa parte dos eletrodomésticos era dotada de um sistema de proteção interna contra curtos-circuitos, de modo que o terceiro pino ficaria sem utilidade. Apontava-se também o baixo índice de choques no país, o que não justificaria uma mudança, a insegurança ocasionada pelo aumento no uso de adaptadores e o peso no bolso do consumidor.
O deputado Bruno Araújo, que presidia a Comissão de Ciência e Tecnologia em 2011, seguiu na mesma linha: “A coisa parecia fato consumado, lembro que na época não me convenci nem me dei por satisfeito. Havia uma grande desinformação da sociedade sobre qual seria de fato a utilidade desse investimento de centenas de milhões, se não fosse de bilhão, de mudar todo o sistema nacional”.
O presidente do Inmetro e da ABNT foram convidados ao encontro, mas enviaram subordinados. “Eles ficaram essencialmente no foco da segurança”, lembrou Araújo. A reunião durou duas horas.
“A tomada de três pinos veio muito mais da imposição do governo e do Inmetro”, disse o deputado Sandro Alex ao rememorar a reunião no Congresso. “A gente percebia que tinha alguma coisa errada nessa história. A decisão estava tomada. Muito se comentava de que tinha um caroço no angu.”
Em 2010, a Daneva doou R$ 50 mil a José de Souza Cândido, candidato do PT a deputado estadual em São Paulo, hoje falecido. Já a SMS Tecnologia Eletrônica doou, no mesmo ano, R$ 24 mil a José de Filippi Junior, candidato a deputado federal do PT por São Paulo; R$ 5.700 a Joel Fonseca Costa, candidato do PT a deputado estadual em São Paulo; além de R$ 2 mil a Paulo Skaf, que concorria ao governo paulista pelo PSB. Nas eleições de 2014 e 2016, nenhuma empresa do grupo Legrand colaborou com candidatos.
https://epoca.globo.com/tecnologia/noticia/2018/06/sete-anos-depois-quem-ganhou-dinheiro-com-tomadas-de-tres-pinos.html 23/06/2018
terça-feira, 22 de maio de 2018
Deus salve o casamento
“É preciso muito cinismo para um casal chegar às bodas de prata”
A partir de hoje, a primeira segunda-feira do resto de seus tempos, Harry e Meghan desafiam o sambinha carioca de que a vida de casado é boa, mas a de solteiro é melhor. Que Deus salve a rainha e ampare o casal nesta divergência. Como é próprio de quem ama, eles não têm tempo de ler jornais.
Não sabem do outro casamento que está na página ao lado de suas núpcias gloriosas, a triste história do juiz brasileiro que depois dos primeiros anos de vida em comum deu um down-grade afetivo na mulher. Trocou os abraços e beijinhos sem ter fim por um festival de cascudos, todos gravados por ela e agora exibidos numa lavagem de roupa pública que Nelson Rodrigues assinaria embaixo: “É preciso muito cinismo para um casal chegar às bodas de prata”. São coisas do amor plebeu. Os príncipes preferem desconhecer qualquer prova sobre a impossibilidade da paixão eterna que lhes vai na alma e saúdam a multidão descrente com um pouco de poesia numa hora dessas.
Harry promete nas entrelinhas do acordo nupcial que, para o resto dos tempos, tomará à noite a iniciativa de abraçar sua agora esposa em conchinha de índole marital. Na delicadeza desse abraço, sussurrará “eu te amo” tantas vezes que ela confundirá com a contagem romântica de carneirinhos, e a partir daí ele resfolegará apenas o exigido pela respiração bem educada. Fará com isso um movimento de pulsação afetiva tão suave que o corpo de Meghan entenderá como o balanço do berço da infância — e ela chegará, linda e pacificada, aos braços do Morfeu monárquico.
É um casamento sem carnê de IPTU, sem infiltração no teto da sala e sem reunião de condomínio sexta-feira à noite. Mesmo assim, é dureza. Harry e Meghan, abençoados pela diversidade racial moderna, resolveram apostar na felicidade antiga. Contra todas as evidências ao redor, querem desmentir o pensador Millôr Fernandes, aquele que disse “o pior tipo de casamento é o que dá certo”.
No Brasil, o número de divórcios já é maior do que o de casamentos. Diretamente da catedral de Windsor, Harry e Meghan desdenham apaixonados diante do pasmo da plebe rude.
São moços, ricos moços, não querem saber se é verdade que amar é uma coisa e casar, já que a Copa do Mundo está aí, talvez seja avançar demais os laterais. Tentarão instalar entre as quatro paredes do palácio a utopia da felicidade conjugal. O pai de Harry só acreditava na felicidade extraconjugal. Traía a mulher na frente do mundo inteiro e, tão imbuído estava desse descontrole sentimental, que se queria um OB para viver sempre entre sua amante. O pai de Meghan também não resistiu, todo dia fazendo tudo igual, e saiu de casa quando a menina tinha seis anos. Mesmo assim o príncipe e sua agora duquesa insistiram em desafiar as obviedades do drama casório. No meio de uma noite qualquer de junho, a bica do banheiro vai começar a pingar. Eles sabem que casar, já que a Lava-Jato está aí, é produzir provas contra eles mesmos. Ainda assim, ao som de “Stand by me”, disseram sim.
O mundo conspira contra esse tipo de acasalamento radical, e o rancor silencioso com que a Melania Trump retira a mão para longe de qualquer afago público do marido só confirma que em alguns casos a faixa de Gaza fica entre o quarto e a sala. O capacete deve ser de uso obrigatório na convivência entre as partes, principalmente ao café da manhã, quando o mau humor poderá ser invocado mais adiante, nos tribunais, para atenuar penas de crimes passionais. A propósito, quem vai acordar primeiro para fazer o café? Quem deixou a pasta de dente aberta? Onde está o controle remoto?
Os príncipes saúdam a multidão do alto de suas nobrezas joviais e não se impressionam com o fato de a Grã-Bretanha estar em pleno Brexit, divorciando-se depois de décadas de um casamento infeliz com a comunidade europeia. Todo mundo quer ficar solto. Já disseram que o casamento é um souvenir do amor, uma xícara de louça barata que logo quebra. Disseram também que o casamento é o máximo da solidão, com o mínimo de privacidade. Harry e Meghan não estão nem aí. Ela promete não ser “a patroa”. Ele não ficará no canto, enrustido, com cara de marido.
Parecem decididos a cumprir para o resto da vida as juras básicas da coexistência pacífica de um casal, incluindo-se nesse pressuposto a vontade fundamental de jamais baixar a média internacional estipulada pelo Grande Tribunal do Amor (Viena, 1949) e fazer sexo pelo menos três vezes por semana.
Que assim seja. Que ao primeiro embate para se regular os hábitos cotidianos, diante da inevitável questão sobre em que direção deslizará o papel higiênico — homens preferem puxado para cima —, Harry e Meghan digam um “who cares!?” em uníssono. Não cairão nas armadilhas do casamento. Cairão na gargalhada. Perceberão que a vida não é muito mais do que isso — Deus salve o humor inglês — e que está na hora de seguir o sábio hábito da rainha-mãe. Meu bem, que tal preparar um martíni?
Joaquim Ferreira dos Santos, O Globo, 21/05/2018
https://oglobo.globo.com/cultura/deus-salve-casamento-22700527
A partir de hoje, a primeira segunda-feira do resto de seus tempos, Harry e Meghan desafiam o sambinha carioca de que a vida de casado é boa, mas a de solteiro é melhor. Que Deus salve a rainha e ampare o casal nesta divergência. Como é próprio de quem ama, eles não têm tempo de ler jornais.
Não sabem do outro casamento que está na página ao lado de suas núpcias gloriosas, a triste história do juiz brasileiro que depois dos primeiros anos de vida em comum deu um down-grade afetivo na mulher. Trocou os abraços e beijinhos sem ter fim por um festival de cascudos, todos gravados por ela e agora exibidos numa lavagem de roupa pública que Nelson Rodrigues assinaria embaixo: “É preciso muito cinismo para um casal chegar às bodas de prata”. São coisas do amor plebeu. Os príncipes preferem desconhecer qualquer prova sobre a impossibilidade da paixão eterna que lhes vai na alma e saúdam a multidão descrente com um pouco de poesia numa hora dessas.
Harry promete nas entrelinhas do acordo nupcial que, para o resto dos tempos, tomará à noite a iniciativa de abraçar sua agora esposa em conchinha de índole marital. Na delicadeza desse abraço, sussurrará “eu te amo” tantas vezes que ela confundirá com a contagem romântica de carneirinhos, e a partir daí ele resfolegará apenas o exigido pela respiração bem educada. Fará com isso um movimento de pulsação afetiva tão suave que o corpo de Meghan entenderá como o balanço do berço da infância — e ela chegará, linda e pacificada, aos braços do Morfeu monárquico.
É um casamento sem carnê de IPTU, sem infiltração no teto da sala e sem reunião de condomínio sexta-feira à noite. Mesmo assim, é dureza. Harry e Meghan, abençoados pela diversidade racial moderna, resolveram apostar na felicidade antiga. Contra todas as evidências ao redor, querem desmentir o pensador Millôr Fernandes, aquele que disse “o pior tipo de casamento é o que dá certo”.
No Brasil, o número de divórcios já é maior do que o de casamentos. Diretamente da catedral de Windsor, Harry e Meghan desdenham apaixonados diante do pasmo da plebe rude.
São moços, ricos moços, não querem saber se é verdade que amar é uma coisa e casar, já que a Copa do Mundo está aí, talvez seja avançar demais os laterais. Tentarão instalar entre as quatro paredes do palácio a utopia da felicidade conjugal. O pai de Harry só acreditava na felicidade extraconjugal. Traía a mulher na frente do mundo inteiro e, tão imbuído estava desse descontrole sentimental, que se queria um OB para viver sempre entre sua amante. O pai de Meghan também não resistiu, todo dia fazendo tudo igual, e saiu de casa quando a menina tinha seis anos. Mesmo assim o príncipe e sua agora duquesa insistiram em desafiar as obviedades do drama casório. No meio de uma noite qualquer de junho, a bica do banheiro vai começar a pingar. Eles sabem que casar, já que a Lava-Jato está aí, é produzir provas contra eles mesmos. Ainda assim, ao som de “Stand by me”, disseram sim.
O mundo conspira contra esse tipo de acasalamento radical, e o rancor silencioso com que a Melania Trump retira a mão para longe de qualquer afago público do marido só confirma que em alguns casos a faixa de Gaza fica entre o quarto e a sala. O capacete deve ser de uso obrigatório na convivência entre as partes, principalmente ao café da manhã, quando o mau humor poderá ser invocado mais adiante, nos tribunais, para atenuar penas de crimes passionais. A propósito, quem vai acordar primeiro para fazer o café? Quem deixou a pasta de dente aberta? Onde está o controle remoto?
Os príncipes saúdam a multidão do alto de suas nobrezas joviais e não se impressionam com o fato de a Grã-Bretanha estar em pleno Brexit, divorciando-se depois de décadas de um casamento infeliz com a comunidade europeia. Todo mundo quer ficar solto. Já disseram que o casamento é um souvenir do amor, uma xícara de louça barata que logo quebra. Disseram também que o casamento é o máximo da solidão, com o mínimo de privacidade. Harry e Meghan não estão nem aí. Ela promete não ser “a patroa”. Ele não ficará no canto, enrustido, com cara de marido.
Parecem decididos a cumprir para o resto da vida as juras básicas da coexistência pacífica de um casal, incluindo-se nesse pressuposto a vontade fundamental de jamais baixar a média internacional estipulada pelo Grande Tribunal do Amor (Viena, 1949) e fazer sexo pelo menos três vezes por semana.
Que assim seja. Que ao primeiro embate para se regular os hábitos cotidianos, diante da inevitável questão sobre em que direção deslizará o papel higiênico — homens preferem puxado para cima —, Harry e Meghan digam um “who cares!?” em uníssono. Não cairão nas armadilhas do casamento. Cairão na gargalhada. Perceberão que a vida não é muito mais do que isso — Deus salve o humor inglês — e que está na hora de seguir o sábio hábito da rainha-mãe. Meu bem, que tal preparar um martíni?
Joaquim Ferreira dos Santos, O Globo, 21/05/2018
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sábado, 12 de maio de 2018
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