Ginzburg herdou da mãe gosto por idiossincrasias que inspirou seu trabalho
Obra do historiador italiano contrasta com obsessão contemporânea por hierarquia social. Pioneiro na aplicação da micro-história, autor morreu neste mês, aos 87 anos
Rafael Cariello, fsp, 28. 06. 2026
[RESUMO] Filho da escritora Natalia Ginzburg, Carlo herdou da mãe o gosto por idiossincrasias e conflitos aparentemente banais, esquecidos pela historiografia oficial. A atenção minuciosa do pesquisador a pessoas sem grande poder ou status social rompeu hierarquias, refletiu um novo modelo de saber, alterou nosso entendimento do passado e originou uma obra clássica que valoriza o que há de comum e de singular em todos nós.
"As coisas que meu pai apreciava e estimava eram: o socialismo; a Inglaterra; os romances de Zola; a fundação Rockefeller; a montanha; e os guias do Val d’Aosta."
Quase todas as pessoas que a escritora italiana Natalia Ginzburg nos apresenta em sua obra exercem o direito à singularidade, à idiossincrasia. São os pequenos desvios, as estranhezas, que lhes conferem interesse e dignidade.
Isso vale para um livro às vezes galhofeiro, mesmo sob a sombra do fascismo, como "Léxico Familiar" (1963). Nele, logo depois de descrever o pai, a autora enumera aquilo de que sua mãe gostava: "O socialismo; os poemas de Paul Verlaine; a música e, em particular, o Lohengrin, que costumava cantar para nós à noite, depois do jantar".
Vale também para "As Pequenas Virtudes" (1962), uma reunião de ensaios em tom um pouco mais grave, alguns tão cinzentos quanto o céu de Turim. No primeiro capítulo, somos apresentados aos moradores de uma cidadezinha do Abruzzo. "Quanto a Rosa, a bedel da escola, uma vizinha lhe cuspiu no olho e ela circulava com esse olho enfaixado, para que lhe pagassem uma indenização."
A atenção às idiossincrasias não apenas aparece na obra do historiador Carlo Ginzburg, filho de Natalia, como é uma de suas marcas distintivas. Um dos maiores intelectuais do século 20, Ginzburg morreu em 17 de junho, em Bolonha, na Itália, aos 87 anos.
Pioneiro da micro-história, corrente que ambicionava iluminar o movimento histórico da cultura, da sociedade e da economia a partir de trajetórias individuais, Ginzburg reconstituiu tão minuciosamente as vidas de sujeitos da Idade Média e do início da Idade Moderna que alguns dos protagonistas de suas obras acabaram ficando quase tão conhecidos quanto ele próprio.
O mais famoso, sem dúvida, é o moleiro e artesão letrado que protagoniza "O Queijo e os Vermes" (1976). Menocchio, um homem comum do norte da Itália, relativamente bem inserido socialmente, foi preso e julgado pela Inquisição depois de começar a propagar sua compreensão particular (idiossincrática) da cosmogonia.
O mundo surgiu, ele dizia, não por obra de Deus, mas por geração espontânea a partir de uma matéria caótica e disforme, para a qual o moleiro usa a metáfora do queijo. Depois de coalhado, começam a surgir vermes no laticínio: são os anjos, entre os quais o próprio Deus.
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A esse cosmos sem hierarquia transcendente corresponde, na particular visão de mundo de Menocchio, o ideal de uma sociedade igualitária e o questionamento da legitimidade do poder da Igreja Católica.
Além de Menocchio, Ginzburg dedicaria atenção minuciosa, em suas pesquisas, a outros sujeitos simultaneamente comuns e singulares (como todos nós) na península itálica do início da Idade Moderna.
Camponeses, por exemplo, em tudo ordinários, a não ser por suas crenças pagãs xamanísticas. Ou uma serviçal, como outras tantas, mas que, encurralada pela pobreza, decidiu se tornar feiticeira.
Essa atenção aos indivíduos, ainda mais em período tão remoto, foi de fato inovadora quando apareceu como prática de pesquisa, nos anos 1970. Durante a maior parte do século 20, os melhores historiadores europeus, fossem marxistas ou herdeiros da Escola dos Annales, buscaram explicitamente distanciar a narrativa histórica das crenças e decisões individuais.
Atentos aos movimentos coletivos e aos grupos sociais, os integrantes dos Annales recusaram, por décadas, o que François Simiand dizia terem sido os "três ídolos da tribo dos historiadores" no século 19: a política, o indivíduo e o grande evento.
Eis que, de repente, indivíduos com muito menos poder do que o de generais e imperadores começam a ganhar as páginas dos livros de história. Mesmo com radical diferença no tipo de compreensão do passado, era fácil entender como reis, de um lado, ou classes sociais, de outro, podiam ditar os rumos coletivos. Bem mais difícil era defender a relevância, em escala mais ampla, dos personagens mobilizados por Ginzburg.
Como justificar tanta tinta, centenas de páginas, gasta com essa gente excêntrica? Que importância podiam ter?
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Naquele que talvez seja o seu ensaio mais famoso, Carlo Ginzburg nota que no final do século 19 começou a aparecer, aqui e ali, um novo modelo de saber nas ciências humanas, mas também em atividades práticas, ligadas à autenticação de objetos e à identificação de indivíduos.
Um especialista italiano, Giovanni Morelli, advogava ter descoberto um método simples e confiável de atribuição de autoria às pinturas, permitindo que museus e colecionadores evitassem falsificações. Se surgia um quadro desconhecido atribuído a Botticelli, digamos, o que fazer?
Galileu Galilei - fotos
O segredo, dizia Morelli, era desconsiderar os padrões de estilo conhecidos e evidentes, para os quais o falsário certamente teria atentado, e concentrar a atenção em detalhes menores das obras do autor original: o contorno da orelha, as unhas, formatos de mãos e pés.
A ideia, razoável, é a de que, de um lado, há padrões impensados repetidos pelos artistas nesses detalhes; de outro, supõe-se que justamente nesses signos desimportantes os cuidados de quem copia são menores e, portanto, mais facilmente perceptíveis os estilos destoantes.
Um volume com os textos de Morelli, observa Ginzburg, foi encontrado na biblioteca de Sigmund Freud — e o próprio criador da psicanálise comentou, em um ensaio, o impacto que sofreu com a descoberta daquela obra.
Ginzburg argumenta que, assim como no método de Morelli, são os detalhes involuntários, os lapsos, o que vem à superfície pelas brechas da nossa vigilância consciente que passam a ser tratados por Freud como fonte privilegiada de compreensão dos conflitos da subjetividade.
Já na época, tanto o método de Morelli quanto o da psicanálise foram comparados aos raciocínios abdutivos de Sherlock Holmes. O detetive criado por Arthur Conan Doyle descobre os autores dos crimes que investiga baseando-se em indícios imperceptíveis para as testemunhas desatentas, incluindo os leitores. Um móvel ligeiramente fora de lugar ou pegadas na lama são suficientes para disparar uma cadeia de relações lógicas —ou, pelo menos, de hipóteses razoáveis.
As histórias de Sherlock Holmes - webstories
"Nos três casos", escreve Ginzburg, "pistas talvez infinitesimais permitem captar uma realidade mais profunda, de outra forma inatingível. Pistas: mais precisamente, sintomas (no caso de Freud), indícios (no caso de Sherlock Holmes), signos pictóricos (no caso de Morelli)".
Esse modelo de conhecimento de uma causa (o inconsciente, o assassino, o pintor) por meio de seus efeitos, de rastros não intencionais, Ginzburg o chamou de "paradigma indiciário". É um modelo epistemológico que descreve bem, também, parte importante do trabalho do historiador.
Todas essas disciplinas —a história, a psicanálise, a investigação criminal— lidam com casos particulares. Não podem se valer, portanto, do método típico da ciência moderna, desde Galileu, em que os eventos estudados são compreendidos necessariamente em grande número: os fatos da ciência moderna devem ser quantificáveis e reprodutíveis em laboratório.
"A ciência galileana [...] poderia adotar o lema escolástico 'individuum est ineffabile', do que é individual não se pode falar", escreve o historiador.
O que não significa que não houvesse saber fora da ciência galileana. Para os casos particulares, havia uma outra prática que funcionava e gerava conhecimento, ainda que não seguisse as regras da ciência abstrata, matematizada, experimental. Esse saber era a medicina, antepassado e modelo do paradigma indiciário.
Havia séculos que a medicina permitia "diagnosticar as doenças inacessíveis à observação direta na base de sintomas superficiais, às vezes irrelevantes aos olhos do leigo". Um médico não podia abrir o corpo vivo ao menor sinal de problema, mas podia investigá-lo com batidas dos dedos, estetoscópios, sinais na pele etc. Ainda hoje, desvendar sintomas está no cerne da prática médica.
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Carlo Ginzburg recorre a um procedimento desse tipo ao estudar o processo movido pela Inquisição contra Menocchio, no século 16. Julgado por heresia (o mundo pode ser um moinho, mas não é um queijo), o moleiro apresenta aos inquisidores sua lista de leituras. Relaciona, assim, várias ideias suas (absurdas, aos ouvidos da época) a autores e obras particulares. Ginzburg segue o rastro das referências. Encontra muito do que Menocchio diz nas fontes por ele elencadas, mas não tudo —e nem sempre da mesma maneira.
Há modificações, deslocamentos. O que resta, o que não se encaixa, tem ordem, contudo. Vem de algum outro filtro, que não é o da cultura letrada, não é o do protestantismo, nem, certamente, o da ortodoxia religiosa de sua época.
Com a ajuda de outras fontes, Ginzburg apresenta a hipótese de uma cultura popular pagã, talvez milenar, que teria se preservado sob as práticas religiosas cristãs da Itália da Idade Moderna.
Veja cenas de 'Freud' - galeria
Essa cultura é inferida a partir do que não se encaixa bem nas falas de Menocchio e em seus diálogos com os inquisitores. E como é ela que parece enquadrar parte da compreensão de mundo de Menocchio, Ginzburg rejeita a ideia de que a cultura popular na Europa da época fosse mera versão degradada da cultura erudita. Ao contrário, ela tinha lógica própria.
É isso o que as idiossincrasias de um trabalhador de moinho, de um artesão letrado, podem ensinar à compreensão da história cultural da Europa. Não é pouca coisa.
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Há quem continue a repetir, contudo, seguindo a máxima medieval, que daquilo que é individual não se pode falar. É esse, no fim das contas, o cerne da crítica feita por Natalia Pasternak e Carlos Orsi à psicanálise, no livro "Que Bobagem! Pseudociências e Outros Absurdos que Não Merecem Ser Levados a Sério".
O padrão ouro do método científico elogiado no livro é o do teste clínico capaz de determinar os efeitos de "uma conduta, tratamento ou medicamento" para a saúde humana. Eles estão falando de uma parte importante da medicina contemporânea.
A determinação da eficácia de tratamentos se beneficiou enormemente de avanços nos métodos estatísticos, desde o século 19, a ponto de atualmente esse tipo de conhecimento poder ser acomodado sob o guarda-chuva da ciência moderna. Saber se um determinado remédio ou tratamento funciona já se parece muito mais com um experimento em laboratório do que com o "método morelliano".
Um teste clínico contemporâneo tem em comum com a física inaugurada por Galileu a reprodutibilidade. O teste pode ser repetido, replicado, e busca a generalização. Não se aplica apenas a um caso particular, individual. De resto, o teste depende, para ser bem-feito, de um grande número de observações.
O que se faz, em um teste clínico de remédio, por exemplo, é separar dois grupos de voluntários, cujos integrantes são divididos de maneira aleatória. A aleatoriedade garante que os dois grupos terão características semelhantes: mesma proporção de homens e de mulheres, mesma idade média e até histórico de saúde, em média, semelhante.
Para um desses grupos é oferecido o tratamento; para o outro, não. Como os grupos são em tudo semelhantes, os efeitos que forem observados exclusivamente no grupo que tomou o remédio podem ser atribuídos ao tratamento.
O método é científico porque deriva de testes controlados e reprodutíveis. Já o diagnóstico de cada caso individual, quando corremos ao pronto-socorro ou ao consultório médico, é uma outra história. Ao tentar entender o problema específico de um determinado paciente, o médico continua a depender em boa medida do paradigma indiciário, como bem sabe qualquer espectador da série do doutor House.
Evidentemente que a psicanálise não deriva o seu saber — nem dentro do consultório, em cada caso particular, nem nas suas hipóteses teóricas, mais abstratamente— disso que Ginzburg chamou de ciência galileana. Não é possível fazer testes estatísticos para a eficácia do tratamento clínico psicanalítico porque cada história é particular, assim como cada tema de pesquisa historiográfica também o é.
Essa soma de singularidades que resistem à agregação basta para Pasternak e Orsi concluírem que na melhor das hipóteses todo o conhecimento psicanalítico é inválido e, na pior, é charlatanismo. Quem só dispõe de um martelo não consegue ver nada que não seja prego. "Pseudociências e ‘outras epistemes’ são limitadas apenas pela imaginação, vaidade e, não raro, ganância de seus promotores", eles escrevem.
Ora, o estudo da história ocorre em "outra episteme" e não é limitado apenas pela imaginação, o mesmo vale para a psicanálise, assim como o diagnóstico de um médico não depende exclusivamente de sua vaidade.
Vagamente conscientes da dificuldade de atacar as ciências sociais —é bem mais fácil imaginar uma sociedade sem psicanálise do que sem história —, os autores de "Que Bobagem!" tratam a reunião de psicanálise, história, linguística e outras disciplinas em um mesmo grupo epistemológico como um instrumento retórico equivalente "à tomada de reféns" por terroristas. "[...] A psicanálise seria o homem-bomba no prédio das humanas. Se explodir, leva todo mundo junto."
No que depender de Ginzburg, essas disciplinas, que não se adequam ao paradigma galileano, têm lógica própria, e não aparecem juntas apenas como recurso retórico. Sua lógica comum é a do paradigma indiciário, capaz de construir um conhecimento rigoroso, ainda que idiossincrático, a partir de casos particulares.
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Não é só na ciência que falta espaço para a singularidade. Nem é apenas a visão de mundo de Pasternak e de Orsi que opera sob a lógica do tudo ou nada. Um bocado do mundo contemporâneo funciona assim; nossos valores têm se organizado dessa maneira.
A importância das pessoas é cada vez mais medida por parâmetros homogêneos e quantificáveis, a começar pelo número de seguidores que cada um tem. O dinheiro, contável, sempre foi usado como atalho para hierarquizar indivíduos. Agora a fama, tornada mensurável, se une a ele como critério de relevância individual.
As características singulares e incomparáveis de cada um —as manias de Menocchio, o Lohengrin da mãe de Natalia Ginzburg — perdem importância, nessa lógica.
O caráter peculiar de uma obra —ou nem falemos de obra, mas de algo já reconhecidamente rebaixado, como um texto jornalístico— pode vir a ser reconhecido, mas seu valor depende muito, demasiado, da quantidade de cliques ou de engajamento que gera. Fazer o quê?
É possível propor uma definição alternativa de clássico. Uma obra se torna clássica quando alguma característica central sua já se encontra reconhecidamente fora do seu tempo —mas é justo essa característica que nos interpela e faz pensar melhor sobre o presente.
A obra de Carlo Ginzburg é clássica porque questiona obtusas hierarquias epistemológicas e sociais da nossa época. Sua pesquisa é capaz de fazer isso simplesmente por valorizar o que há de comum e singular, simultaneamente, em cada um de nós.
Agradeço a leitura atenta do doutor Carlos Eduardo Pompilio, livre-docente em clínica médica pela USP


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