quinta-feira, 12 de março de 2026

São os indígenas que botam ordem na nossa baderna

Folha, são os indígenas que botam ordem na nossa baderna

Ao travar projeto conduzido sem transparência, mobilização no Tapajós freou o atropelo do governo

Mas jornal classifica de 'chantagem' ação de povo historicamente violentado na Amazônia

Caetano Scannavino, Coordenador da ONG Projeto Saúde e Alegria, é membro do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável e da Rede Folha de Empreendedores Socioambientais

Ana Carolina Amaral, Jornalista ambiental e fundadora da The Next Question

fsp, 8.3.2026 

Uma liderança yanomami conta que, para chegar a um ponto desconhecido na floresta, os indígenas caminham em espiral, conhecem o entorno e interagem de forma cooperativa. E que nós, brancos, seguimos em linha reta, direto ao ponto, e só depois vemos o que destruímos.

Grandes projetos na Amazônia têm repetido esse modelo inconsequente, com tramitações aceleradas que atropelam tudo ao redor: estudos, licenças, consultas e participação pública. Infraestruturas são essenciais; o problema é o método. E para quem.

Indígenas se abraçam comemorando a revogação de decreto sobre hidrovias na Amazônia, nesta segunda (23), em Santarém (PA), após mais de um mês de protesto - Adriano Machado - 23.fev.2026/Reuters

Longe de caminhar como os indígenas, não seguimos nem nossas regras. Por exemplo: o porto da Cargill, em Santarém (PA), foi construído em 2003 sem os estudos ambientais prévios obrigatórios, o Eia-Rima. Só o fez anos depois, após derrota judicial. O dano já estava feito. Com o novo polo graneleiro instalado no Tapajós antes do asfaltamento da BR-163, a floresta deu lugar à soja, com a explosão da grilagem e do desmatamento — salto de 511% entre 2003 e 2004 (Ipam).

Se a empresa tivesse seguido o rito legal, teria a chance de saber que se instalava em cima de um sítio arqueológico onde ficava o cemitério sagrado dos indígenas. Para eles, foi a empresa que invadiu o seu território.

Ao ocupar o porto por 33 dias,  os indígenas levaram o governo federal a rever uma decisão tomada sem consulta aos povos tradicionais — em afronta à Convenção 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho).

A manifestação que levou à revogação do decreto 12.600 foi lida como "baderna" pelo editorial "Lula cede à baderna e paralisa projetos de infraestrutura" (26/2), desta Folha. O texto erra ao afirmar que o decreto tratava de estudos para concessão de hidrovias nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins. O ato não cita estudos — que nem requerem decreto  —, apenas inclui 3.000 km dos rios no Programa Nacional de Desestatização. Os estudos, quando no PND, se resumem a viabilidade e modelos de concessão. A análise socioambiental, quando ocorre, é tardia — com o projeto já estruturado e pouca margem para ajustes.

Após os protestos, foi também suspenso o edital de dragagem do Tapajós, com quatro novos pontos do rio e sem licenças ambientais, tendo a empresa líder do pregão quase R$ 2 milhões em multas por irregularidades.

Ao frear um projeto sem transparência, a mobilização indígena bota ordem na baderna das grandes obras. O governo federal despertou e reconheceu o erro, mas os jornais reservam tais palavras para descrever pressões empresariais, enquanto a manifestação de um povo historicamente violentado é dada como "chantagem".

Se tivesse feito a lição de casa, o colunista Elio Gaspari ("A Cargill foi invadida e o governo cedeu", 28/2) poderia narrar em coluna recente o desinvestimento mais relevante da Cargill. Após protestos contra seu porto há mais de 20 anos, governo, ONGs e tradings firmaram a Moratória da Soja, onde as empresas se comprometiam a não comprar grãos de áreas desmatadas. Neste ano, a Cargill e outras deixaram o acordo, um grave retrocesso na responsabilidade social corporativa.

Manifestantes indígenas celebram revogação de decreto de hidrovias na amazônia - fotos

Retrocesso também com a entrada em vigor desde fevereiro da nova lei de licenciamento ambiental, que agora dispensa licenças para diversas obras, inclusive dragagem de rios.

Em meio a tudo isso, tem-se a expansão do Arco Norte, conjunto de portos e rotas logísticas para o escoamento de grãos pelo Norte do país. Só no Tapajós, entre já operantes e projetados, são mais de 25 portos e estações de transbordo, mais de 40 hidrelétricas (e eclusas), ferrovias e hidrovias. Não temos ideia do impacto sistêmico desses empreendimentos em uma mesma bacia — afinal, os Eia-Rimas, quando feitos, analisam obras isoladas, nunca o conjunto.

A Amazônia já funciona como corredor logístico do agronegócio, com 40% das exportações passando pelo Arco Norte (Antaq). A questão é sua intensificação a qualquer custo —pelo Plano Geral de Outorgas Hidroviário, projeta-se para a hidrovia do Tapajós sextuplicar até 2035 as toneladas movimentadas (com base em 2020).Retrocesso também com a entrada em vigor desde fevereiro da nova lei de licenciamento ambiental, que agora dispensa licenças para diversas obras, inclusive dragagem de rios.

Em meio a tudo isso, tem-se a expansão do Arco Norte, conjunto de portos e rotas logísticas para o escoamento de grãos pelo Norte do país. Só no Tapajós, entre já operantes e projetados, são mais de 25 portos e estações de transbordo, mais de 40 hidrelétricas (e eclusas), ferrovias e hidrovias. Não temos ideia do impacto sistêmico desses empreendimentos em uma mesma bacia —afinal, os Eia-Rimas, quando feitos, analisam obras isoladas, nunca o conjunto.

A Amazônia já funciona como corredor logístico do agronegócio, com 40% das exportações passando pelo Arco Norte (Antaq). A questão é sua intensificação a qualquer custo —pelo Plano Geral de Outorgas Hidroviário, projeta-se para a hidrovia do Tapajós sextuplicar até 2035 as toneladas movimentadas (com base em 2020).

A importância da Amazônia - webstories

A Amazônia é maior que o agro. Outros setores, como o turismo e a bioeconomia, geram riqueza que não só passa pela região, mas fica e beneficia quem vive nela. Após botar ordem na baderna, o governo tem a chance, de forma mais participativa e multissetorial, de pensar uma infraestrutura não só na Amazônia, mas para os amazônidas.

Como afirmou a Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), se o agronegócio sustenta o país, é a floresta amazônica —protegida há milênios pelos povos indígenas — que mantém o equilíbrio climático e torna o agro possível.


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