terça-feira, 31 de março de 2026

Pílulas 41

"Quero dedicar este prêmio ao lindo caos que é o coração de uma mãe" (Jessie Buckley)

1. Força estranha - Gal, o musical 

2. O problema, o cientista da computação e a IA 

3.  A verdadeira prova de antissemitismo

4. Phumi Mtetwa: o erro de separar lutas 

5. Uma discussão sobre beleza: o lindo e assombroso Train Dreams 

6. Santuário de elefantes questiona padrão de cativeiros em zoológicos do Brasil 

7. Um Oscar para o lindo caos da maternidade

8. 'Uma Batalha Após a Outra' é espetáculo das contradições americanas

9. Frankenstein sobe ao palco

10. A vida em nosso planeta - série TV 

11. Kleber Mendonça Filho não tem amigos, mas bajuladores

12. Estreito de Hormuz, um dos atalhos marítimos que fazem o mundo girar 

13. Copa do Brasil 2026

14. Angine de Poitrine 

15. Anthropic versus Pentágono

16. Como os conservantes afetam o intestino

17. Projeto de soltura de tartarugas na amazônia bate recorde, mas tráfico ameaça conservação

18. Estreito de Hormuz carrega petróleo, plásticos e fertilizantes, e crise afeta exportações brasileiras

19. Dia da Mulher em São Paulo lembra casos de feminicídio

20. Nova vida para um filme assassinado

21. Caso Marielle: STF condena irmãos Brazão a 76 anos 

22. Simonal: Processo explicita colaboração entre cantor e o DOPS

23. F For Fake: Verdades e Mentiras

24. Dostoiévski no TikTok

25. Como Espinosa encontrou Exu

26. Caso Marielle ressuscita crença na punição de culpados

27. Escombros são a metáfora de um mundo em pedaços

28. Governo Lula revoga decreto de hidrovias na amazônia

29. Guimarães Rosa, a demolição e a perda da memória 

30. Filmes brasileiros em Berlim sugerem uma produção em retomada

31. Juliette Binoche estrela filme na Berlinale que vê efeitos da velhice sobre a autonomia


1. Força estranha - Gal, o musical 

Força estranha (de Caetano Veloso) no "Gal, o musical" com interpretação de Walerie Gondim e coro (maravilhoso).

Confira, em primeira mão, um vídeo do ensaio de “Gal, o Musical”, espetáculo que presta homenagem a Gal Costa, uma das maiores vozes da música brasileira. A montagem estreia em 6 de março de 2026, no 033 Rooftop, espaço localizado no Complexo JK Iguatemi, em São Paulo.

Gal será interpretada pela atriz Walerie Gondim (@waleriegondim), nascida no Amazonas, mas radicada na Bahia. A produção tem direção de Marília Toledo (@mariliatoledo2012) e Kleber Montanheiro (@kleber_montanheiro). A trama percorre desde a infância de Gal em Salvador até a adoção de seu filho Gabriel, em 2008.

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2. O problema, o cientista da computação e a IA 

Marcelo Viana, fsp, 24.03.2026

A lenda viva Don Knuth definiu a teoria dos algoritmos como a conhecemos. Cientista ficou alegre ao ver uma IA resolvendo um problema que formulara 30 anos atrás e no qual trabalhava.

Don Knuth, do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Stanford é uma lenda viva. É o autor de "A Arte de Programar Computadores", monumental série de livros (cinco volumes até hoje) que iniciou nos anos 1960 e, efetivamente, definiu a teoria dos algoritmos como a conhecemos. Não menos impactante, criou o TeX, a linguagem de editoração usada por 10 em cada 10 matemáticos, engenheiros, físicos, cientistas da computação etc. na preparação de seus trabalhos (50% a 70% de todas as publicações científicas, em todas as áreas, são escritas em TeX!).

Aos 88 anos, com todas essas realizações, talvez não fossem de esperar dele reações emotivas na pesquisa. Mas é exatamente assim que Knuth começa seu trabalho mais recente, datado de 28 de fevereiro: "Choque! Choque!". Não é para menos: acabava de saber que um problema matemático que formulara 30 anos atrás, e no qual vinha trabalhando, acabava de ser resolvido. "Não por um estudante de doutorado. Não por um grupo de pesquisa. Não por um departamento de matemática. Por um sistema de IA (inteligência artificial)".

Don Knuth, do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Stanford - Wikimedia Commons

Esse problema pertence a uma área da matemática, a teoria dos grafos, que lida com objetos especialmente simpáticos: um grafo é, simplesmente, um conjunto de pontos ligados por linhas. Ele pode existir em 2D (pense que os pontos são cidades e as linhas são estradas) ou 3D (por exemplo, os pontos são planetas e as linhas são rotas viáveis). O problema em causa tem a ver com encontrar percursos fechados passando por cada ponto do grafo exatamente uma vez ("ciclos hamiltonianos") no grafo cúbico NxNxN.

O caso N=2 é impossível. Knuth resolveu N=3, e o amigo Filip Stappers tratou os casos seguintes até N=16. Foi então que Stappers decidiu submeter o desafio à IA Claude Opus 4.6, da Anthropic. O resultado: em 1h, Claude produziu um código em linguagem Python que calcula uma solução correta para todo valor ímpar de N. Mas o mais incrível não é o fato da IA ter resolvido o problema: é o modo como o fez!

Stapper informou o enunciado à IA em linguagem matemática usual (bem técnica!) e deu instruções taxativas: "Após TODA tentativa, atualize IMEDIATAMENTE o arquivo de documentação, antes de fazer qualquer outra coisa. Sem exceções. Não comece nova tentativa até que a anterior esteja completamente documentada". Assim, dispomos de relato detalhado dos esforços sucessivos de Claude na busca da solução.

O que mais impressiona é que não tem a menor cara de força bruta computacional. Pelo contrário, Claude parece raciocinar exatamente como um matemático humano: testando diferentes ideias, abandonando as que não funcionam, aprimorando as mais promissoras e, aos poucos, melhorando sua compreensão do que realmente importa no problema. A partir da 15ª rodada, dá para sentir que está "farejando" o caminho certo. Mas ainda há muito a fazer: a solução chega, enfim, na 31ª tentativa.

A reação de Knuth? "Que alegria, não só saber que a minha conjectura tem uma solução linda, mas também comemorar este avanço dramático na área de dedução automática e resolução criativa de problemas. Estamos vivendo tempos realmente interessantes!"

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 3. A verdadeira prova de antissemitismo

Não se trata mais de combater o ódio contra os judeus, tarefa legítima e inegociável. Ao me acusar, Conib tenta reduzir a identidade judaica à lealdade perante um Estado étnico 

Breno Altman, fsp, 18.03.2026

Atualmente devo ser o judeu mais perseguido do país. E quem me persegue não são neonazistas, grupos de extrema direita ou negacionistas do Holocausto. Quem me persegue é a Confederação Israelita do Brasil (Conib), supostamente a principal entidade de representação da comunidade judaica —camuflagem sob a qual oculta sua condição de agência do Estado genocida de Israel. Através de múltiplos processos judiciais, essa organização busca me calar e a todos que combatem o regime sionista.

Mas há um fato que precisa ser saudado: o Tribunal Regional Federal da 3ª Região (TRF3) trancou ação  movida contra mim por suposta incitação e apologia ao crime em publicações feitas nas redes sociais. O desembargador Ali Mazloum avaliou que nem sequer havia delito que justificasse a tramitação da acusação, concluindo que minhas mensagens estão protegidas pela liberdade de expressão. Vale lembrar que já havia sido derrotada, em primeira instância, a tentativa do Ministério Público Federal em denunciar-me por discurso de ódio e racismo.

O jornalista Breno Altman no lançamento do livro "O Príncipe do Boxe" de Fabio Altman, na Casa do Povo, em São Paulo - Ronny Santos - 15.jun.2025/Folhapress

Recebi, ao longo desse processo, uma onda generosa de solidariedade. De colegas jornalistas, intelectuais, militantes, leitores e cidadãos comuns que compreenderam o que estava em jogo. A todos, meu profundo agradecimento. Registro também o trabalho magnífico de meus advogados, Pedro Serrano e Fernando Hideo Lacerda, cuja competência e rigor jurídico foram decisivos para desmontar uma acusação injusta e manipulada.

A acusação de antissemitismo tornou-se arma política. Não se trata mais de combater o ódio contra judeus — tarefa legítima, necessária e inegociável —, mas de silenciar vozes contrárias ao regime sionista. Ao confundir deliberadamente esses dois campos, antissionismo e antissemitismo, agentes de Israel buscam interditar o debate público.

Sou judeu, filho de judeus, formado numa tradição de pensamento crítico, justiça social e solidariedade internacional. Minha posição antissionista nasce de uma leitura histórica: o sionismo produziu um sistema racista, colonial e expansionista, cuja grande vítima é o povo palestino. Criticar esse projeto é, portanto, obrigação ética para quem se orienta por valores humanistas.

O paradoxo é evidente: ao me acusar de antissemitismo, a Conib não apenas deslegitima um judeu por suas opiniões como também define arbitrariamente um mecanismo de controle ideológico, na tentativa de reduzir a identidade judaica à lealdade perante um Estado étnico.

No mais, se um judeu pode ser publicamente perseguido por expressar críticas ao sionismo, cidadãos de outras origens devem temer um tratamento ainda mais autoritário e feroz, até que o medo eventualmente os silencie: essa é a lógica de meus perseguidores.

A distinção entre antissemitismo e antissionismo representa linha divisória fundamental. Se o ódio antijudaico é intolerável, também o é a existência de um regime que, em nome do judaísmo, comete os mais bárbaros crimes contra a humanidade desde o esmagamento das tropas de Hitler pelo Exército Vermelho e pelos países aliados.

A decisão do TRF-3, por isso mesmo, é seminal para a democracia brasileira. Caso venha a ser transformada em jurisprudência, estará enterrada a tentativa do fascismo sionista de calar quem ergue sua voz contra o mais imoral dos Estados.

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4. Phumi Mtetwa: o erro de separar lutas 

Para Phumi, um dos principais erros das agendas progressistas é fragmentar as lutas, tratando racismo, gênero, sexualidade e desigualdade econômica como campos separados.

Bianca Santana, 22.03.26, fsp

Na África do Sul pós-apartheid, ativista Phumi Mtetwa mostra como a fragmentação enfraquece a democracia. Ela articulou coalizão que garantiu proibição de discriminação por orientação sexual na Constituição. 

A ativista Phumi Mtetwa começou a se organizar politicamente aos 13 anos. Era meados dos anos 1980, quando a África do Sul vivia um dos momentos mais intensos da luta contra o apartheid. Boicotes de aluguel e enfrentamentos diretos com o regime eram planejados em sua casa, enquanto a mãe trabalhava em uma fábrica de telefones.

Quando o risco parecia muito alto, planejavam saídas clandestinas do país. Algumas colegas nunca voltaram. "Era um tempo em que não importava se você ia morrer", disse Phumi.

A ativista Phumi Mtetwa no Instagram - Reprodução/Instagram

Dois anos depois da transição democrática formalizada com as eleições de 1994, a África do Sul aprovou uma Constituição que se tornou referência global. Foi o primeiro país do mundo a proibir explicitamente a discriminação por orientação sexual.

Phumi, perto dos 20 anos, havia articulado uma coalizão que reuniu organizações LGBTQIA+, advogados e movimentos sociais para garantir a permanência da chamada "Equality Clause" (Cláusula de Igualdade) no texto final. "No começo éramos poucas pessoas", disse. "Mas construímos alianças fortes, parecíamos muitas." A estratégia era jurídica, mas, principalmente, de disputar o sentido da nova democracia.

O país se tornou símbolo de uma transição política negociada e de avanços institucionais visíveis, como a presença de mulheres no Parlamento e um arcabouço robusto de direitos. Ainda assim, manteve níveis extremos de desigualdade social e racial, mesmo 30 anos depois do fim do apartheid.

Manifestantes exibem faixas e entoam slogans durante uma marcha em protesto contra o abuso de mulheres e crianças em Matatiele, cidade da província do Cabo Oriental, na África do Sul - Rajesh Jantilal - 5.abr.25/AFP

"Temos recursos", disse Phumi. "Mas quem deveria garantir melhores condições de vida está roubando." A crítica à corrupção vem acompanhada pela reprovação da adoção de políticas econômicas de austeridade e maior alinhamento com agendas neoliberais. A crise do HIV expôs ao limite o Estado, especialmente durante o governo de Thabo Mbeki, marcado pelo negacionismo em relação ao vírus.

Foi nesse momento, no ano 2000, que Phumi se mudou para o Equador. O que começou como uma investigação sobre processos constitucionais semelhantes acabou se transformando em oito anos de imersão nas lutas latino-americanas.

"Foi outra educação política", disse. Participou de articulações no Fórum Social Mundial, nas mobilizações contra a Alca e em redes como a Marcha Mundial de Mulheres e a Via Campesina. Em diálogo com movimentos indígenas andinos, passou a pensar direitos não apenas como garantias individuais, mas como construção coletiva.

A Conferência de Durban, em 2001, foi outro marco para ela. Disputas em torno de reparações históricas, da questão palestina e da inclusão da orientação sexual nos documentos oficiais revelaram os limites da política internacional. "A orientação sexual foi colocada em disputa com as reparações", disse. "Como se eu pudesse dividir quem eu sou."

Atrações na África do Sul relembram centenário de Mandela - galeria

Para Phumi, um dos principais erros das agendas progressistas é fragmentar as lutas, tratando racismo, gênero, sexualidade e desigualdade econômica como campos separados.

Diante da frustração com as promessas não cumpridas da democracia pós-apartheid, a aposta de Phumi é na reconstrução da ação coletiva, capaz de articular diferentes agendas sem hierarquizá-las.

De volta à África do Sul, hoje ela é uma das diretoras da Jass, Just Associates, organização voltada à educação popular feminista e à construção de alianças globais.

Phumi Mtetwa - ¿Cómo podemos caminar juntas en la lucha?  vídeo

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5. Uma discussão sobre beleza: o lindo e assombroso Train Dreams 

O lindo e assombroso Train Dreams – Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, piaui, 11 março 2026

Em resenha de 2011, publicada na revista online the arts fuse, Train dreams, de Denis Johnson (1949-2017), foi apresentada como “uma novela assombrosa, linda” (a beautiful, haunting novella). A adaptação do livro para o cinema, por sua vez, foi aclamada ao estrear no Festival de Sundance, em janeiro de 2025, teve lançamento restrito em cinemas meses depois, nos Estados Unidos, e está disponível na Netflix desde novembro passado.

O título da novela de Johnson foi preservado no filme dirigido por Clint Bentley a partir do roteiro que ele e Greg Kwedar escreveram. Filmado quase todo no estado de Washington, no extremo noroeste da costa americana, Train Dreams narra a jornada solitária de um homem comum no início do século XX – Robert Grainier (Joel Edgerton), trabalhador ferroviário e madeireiro. Para Bentley, em entrevista ao The New York Times, o que o atraiu ao ler o livro foi “algo na história dessa vida modesta e na maneira como Johnson a retratou que nos fazia sentir a dimensão épica e a imensidão dessa vida tão acanhada”. No Brasil, onde o filme estreou no Festival do Rio, em outubro de 2025, devemos lamentar ter sido adotada a infeliz tradução literal do título – Sonhos de trem –, que nem de longe guarda o poder evocativo do original.

Embora não esteja, segundo previsões das revistas Variety e Hollywood Reporter, entre os prováveis premiados, Train Dreams concorre ao Oscar a ser entregue no próximo dia 15 em quatro categorias: Filme, Roteiro Adaptado, Fotografia, e Canção Original (os cotados para receber o maior número de troféus são Pecadores, de Ryan Coogler, e Uma batalha após a outra, de Paul Thomas Anderson, com dezesseis e treze indicações cada um, respectivamente).

Grandioso sucesso de crítica, Train Dreams é considerado, de modo geral, “um filme lindo” (a beautiful movie) ou “de uma beleza impressionante” (an astonishingly beautiful film), entre outros encômios. Além disso, é bem-sucedido como negócio – produzido com orçamento de 10 milhões de dólares, abaixo do custo médio de um filme feito nos Estados Unidos, teve seus direitos de distribuição adquiridos pela Netflix por 16 milhões de dólares (o orçamento estimado de Pecadores foi entre 90 e 100 milhões de dólares, e a renda de bilheteria chegou a cerca de 369 milhões de dólares no mercado mundial; Uma batalha após a outra teve orçamento estimado entre 130 milhões e 175 milhões de dólares e receita em cinemas acima de 200 milhões de dólares).

A disparidade financeira de Pecadores e Uma batalha após a outra, de um lado, e Sonhos de trem, do outro, é espelhada no número de indicações ao Oscar desses filmes e atesta quem são os verdadeiros protagonistas da grande festa da indústria americana e os figurantes que até surpreendem, às vezes, e levam uma estatueta para casa.

Quem assistiu ou vier a assistir a Train Dreams haverá de concordar que o filme faz jus aos adjetivos exaltando sua beleza, além de suas outras virtudes. Há, no entanto, quem julgue excessiva tanta formosura.

Haveria um limite nítido além do qual o que é reconhecido como sendo lindo se torna “estetizante”? Qual seria? O comentário pejorativo, feito em detrimento de Train Dreams, não contradiz a busca legítima do belo inerente à criação artística, derivada do ideal platônico?

Essas questões me lembraram de dois artigos de Paulo Emílio Sales Gomes – Desnecessidade da inteligência e Gosto pela inteligência, publicados, nessa ordem, no Suplemento Literário de O Estado de S.Paulo, em 1963 (os textos estão disponíveis para assinantes do jornal aqui e aqui). No primeiro, o crítico que afirma sempre ter gostado muito da inteligência escreve que ela “eventualmente pode ser dispensada na criação, já na apreciação é condição indispensável de bom rendimento”. No segundo artigo, ele assinala o fenômeno da “eclosão da inteligência no cinema, que apenas enunciado salta aos olhos do observador mais distraído”, sobretudo a partir dos “últimos anos da década de 1950”.

O raciocínio paradoxal, típico de Paulo Emílio, serviria para resolver o que chamaríamos de “a equação do excesso de beleza”?

Justin Chang, crítico de cinema da revista The New Yorker, desconfia da beleza superlativa de Train Dreams na primeira frase de seu artigo sobre o filme, publicado em dezembro de 2025:

Train Dreams é um filme belíssimo, mas não posso dizer que confio totalmente em sua beleza. O diretor, Clint Bentley, e o diretor de fotografia, Adolpho Veloso, compuseram um hino intencionalmente arrebatador à natureza selvagem dos Estados Unidos […] fiquei maravilhado com a nitidez das imagens de Veloso, com seu contraste intenso entre luminosidade e sombras: um trecho de floresta verde-esmeralda, vislumbrado de dentro de um túnel cavernoso, não perdeu seus contrastes na minha tevê caseira. Um segundo olhar, desta vez em um cinema de verdade, provou ser ainda mais cativante: aqui, finalmente, havia uma tela grande o suficiente para suportar o brilho radiante de um pôr do sol rosa-dourado e os rostos de Joel Edgerton e Felicity Jones. Trata-se de uma técnica inegavelmente majestosa, capaz tanto de nos deixar boquiabertos quanto de levantar uma sobrancelha; em certo ponto, começamos a nos perguntar se o esplendor visual do filme não estará ultrapassando seu significado. Quão requintado seria requintado demais?

A novela de Johnson, segundo Chang, “mantém a beleza e a feiura do mundo em um equilíbrio mais convincente” – ou seja, para ele, o livro é mais realista do que o filme e este seria lindo demais e horrível de menos.

Embora elucidativo quanto ao desequilíbrio que assinala, o critério do qual Chang lança mão para avaliar Train Dreams falha pela simples razão de depender do espectador ter lido o livro, o que certamente não é o caso para a imensa maioria, eu inclusive. Pelo mesmo motivo, resulta inadequado contrapor o protagonista da novela ao do filme – o primeiro, “longe de ser um mero espectador inocente ou testemunha bem-intencionada” como seria o caso do segundo, “participa ativamente da tentativa de execução” do trabalhador chinês, escreve Chang. “No filme, Grainier [Joel Edgerton] defende Fu, perguntando: ‘O que ele fez?’ Enquanto, na novela, ele agarra o acusado pelas pernas e grita: ‘Deixa comigo! Peguei o desgraçado.’

Ao transpor um livro para o cinema, segundo Chang, cada alteração necessariamente revela algo da intenção do adaptador e o que essa mudança em particular demonstra, a meu ver, é uma curiosa falta de fé no público — como se só pudéssemos simpatizar com um protagonista moralmente irrepreensível, mesmo um já imbuído da inefável simplicidade e da melancólica gravitas de Edgerton.

Na entrevista citada ao The New York Times, Bentley esclarece que

Grainier, no filme, ajuda sim. Ele ajuda por um instante. Ele se deixa levar pela violência de […] carregar o cara até a ponte […] ele agarra as pernas dele para ajudar a carregá-lo, mas é afastado com um chute. Essa cena não é tão desenvolvida quanto no livro, em parte por ser uma mídia diferente. E eu li as críticas. Não tenho nenhuma resposta específica além de que há coisas que eu acho que […] podem funcionar e que você pode fazer na literatura. Às vezes, é possível manter um certo distanciamento de algo muito difícil, um distanciamento emocional que não se consegue ter no cinema da mesma forma. 

Bentley teve a coragem de optar por uma versão ambígua do comportamento de Grainier, diferente da adesão explícita dele à violência na novela. A mudança me parece revelar, ao contrário do que Chang afirma, muita fé no público.

Dito isso, só resta deixar claro que Train Dreams não me parece bonito além da conta – é uma beleza de filme e merece ser reconhecido como tal.

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6. Santuário de elefantes questiona padrão de cativeiros em zoológicos do Brasil 

Precisamos reanalisar modelo apoiado há centenas de anos, diz fundador da entidade. Associação nacional afirma que instituições revisam práticas, e zoo de São Paulo planeja expandir recinto

Gabriel Gama, 22.03.2026. fsp

Elefantas Maia, Guillermina e Bambi em dia de garoa no Santuário de Elefantes Brasil - Rubens Cavallari / Folhapress

Chapada dos Guimarães (MT). Scott Blais, 53, começou a trabalhar em um safári no Canadá aos 13 anos e diz ter encontrado uma realidade sombria de maus-tratos aos animais logo no início da carreira. Desde 2016, o americano é a mente por trás do SEB (Santuário de Elefantes Brasil), em Mato Grosso, que movimenta a discussão sobre cativeiros.

"Precisamos reanalisar o modelo dos zoológicos que tem sido apoiado por centenas de anos. Sim, há um fator de educação e conservação, mas a que custo?", afirma o fundador do SEB, na Chapada dos Guimarães. "Não estamos aqui para tentar destruir qualquer coisa, e sim para dar uma alternativa."

Primeiro estabelecimento do tipo na América do Sul, o santuário enfrentou o escrutínio das autoridades em 2025, com as mortes das elefantas-africanas Kenya e Pupy. A Folha esteve na instituição no fim de fevereiro.

Como é o Santuário de Elefantes Brasil, que estimula discussão sobre cativeiros de animais - vídeo

Bambi, Guillermina, Mara, Maia e Rana, as cinco fêmeas da espécie asiática que moram no lugar, tiveram passagem por circos ou zoológicos. Segundo Blais, o passado em confinamento causou problemas nas patas e outras condições de saúde que permanecem até hoje.

O fundador diz que a instituição não é capaz de resolver os danos causados por anos de negligência, mas que promove um aumento significativo no bem-estar. "Temos que dar a elas a melhor vida que pudermos pelo maior tempo que pudermos. A sociedade comprometeu tremendamente a vida delas."

Marina Schweizer, 34, coordenadora do setor de pesquisas do SEB, afirma que muitos zoológicos no Brasil têm receio da categoria e não entendem como o santuário funciona.

"Os elefantes evoluíram para forragear [procurar alimento], cooperar, ter relações com outras espécies, receber chuva. Quando um zoo ou outra instituição busca proteger o animal de todas as adversidades, acaba gerando uma vida sem estímulo", diz a bióloga. "Aqui, a percepção é diferente: existe uma filosofia de respeito aos animais, seguindo a biologia deles."

O que é um santuário de animais - webstories

No SEB, as cinco fêmeas têm 279,7 mil metros quadrados à disposição, cerca de 55,9 mil m2 por indivíduo. Uma norma de 2015 do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) determina área mínima de 1.500 m2 para dois animais, e os estados podem estabelecer regras diferentes.

Blais diz que a maioria dos cativeiros de elefantes oferece uma área equivalente, em termos humanos, ao tamanho de um quarto e um banheiro. "Isso não é diferente de colocar uma pessoa em confinamento", compara.

O Ibama afirma que "a exigência de 1.500 m2 é o mínimo legal, mas instalações maiores são recomendadas e frequentemente exigidas em projetos mais recentes ou licenciamentos estaduais".

A Azab (Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil) diz que grande parte das instituições brasileiras segue o padrão exigido pelo órgão federal e argumenta que o bem-estar dos animais vai além da área disponível.

"Não conseguimos avaliar que todos os elefantes que vivem em zoológicos estariam melhor no santuário ou que todos estariam bem nos zoológicos. Isso tem que ser analisado com calma, conforme a história e a condição de vida de cada um", afirma Claudia Igayara, membro da diretoria da associação.

Na visão da Azab, a exposição dos animais ajuda a educar a população. "Quando uma pessoa vai ao zoológico e vê o elefante, muda alguma coisa, e ela passa a olhar a fauna, o ambiente e o planeta de uma forma diferente", opina Igayara.

O fundador do SEB se opõe à ideia de que a sociedade se beneficia com a exibição pública dos elefantes. "Será que temos a justificativa de comprometer a vida de um indivíduo em nome da educação de uma criança? O que estamos aprendendo com esses indivíduos em cativeiro?", questiona.

"Eu quase posso garantir que uma criança sabe mais sobre dinossauros do que sobre elefantes. E quando foi a última vez que você viu um dinossauro em um zoológico?"

Veja imagens do Santuário de Elefantes Brasil 

Blais diz que a valorização dos instintos naturais é a principal característica que define um santuário. "Supostamente, vamos ao zoológico para aprender o que é um elefante, mas aquele não é um elefante", afirma. "Nada do que se vê em cativeiro corresponde à natureza dos elefantes."

De acordo com a Azab, nove paquidermes vivem em oito zoos no país, localizados em São Paulo, Rio de Janeiro, Santa Catarina, Minas Gerais e Distrito Federal. Apenas quatro dessas entidades receberam uma certificação de bem-estar animal da associação, e as demais estão em processo de avaliação e melhorias.

Mara Marques, presidente da Azab, diz que a entidade prepara um novo protocolo de manejo para elefantes, que inclui nutrição, saúde e ambiente. "Temos instituições com bons padrões e instituições que estão revendo e aprimorando todos os seus padrões."

Uma delas é o Zoológico de São Paulo, que planeja expandir o habitat da elefanta asiática Hangun, de 54 anos, resgatada de um circo. Desde 2012, o animal vive em um recinto de 1.500 m2 com chão de terra batida e um tanque pequeno.

A previsão é de que o novo lar de Hangun tenha 8.628 m2, terreno com camadas profundas de areia, hidroterapia, lago e espaço sombreado com ar-condicionado. O projeto foi desenhado após mudanças no comando do zoológico, que está sob concessão à iniciativa privada. A entidade contratou o consultor de cuidados de elefantes Gerry Creighton para liderar a reforma, que deve ser concluída em 2027.

"Não há absolutamente nenhuma dúvida de que, de modo geral, os zoológicos erraram no passado. Erraram com espécies como os elefantes, porque os habitats foram projetados para o confinamento", diz Creighton. "O habitat antigo da Hangun é de uma era diferente, e queremos deixar essa era no passado."

O consultor afirma que a nova área terá o objetivo de oferecer o máximo de bem-estar. "É isso que vai guiar cada decisão que tomarmos, nada mais vai determinar. Não será pelo que os visitantes querem ver, nosso foco será a Hangun."

Zoológico de São Paulo planeja expandir recinto de elefanta -  fotos 

Para Blais, não é responsável terminar de uma vez todos os cativeiros de elefantes. "Podemos chegar lá progressivamente, parando os programas de reprodução de animais cativos para evitar que futuras gerações sejam comprometidas."

Com o envelhecimento dos elefantes na América do Sul, o fundador do SEB não vê um futuro longo para a espécie no continente. Ele descarta a possibilidade de reprodução no santuário mesmo com a eventual chegada do macho Sandro, que vive no zoológico de Sorocaba (SP).

"Se queremos proteger espécies de elefantes, teríamos que proteger populações selvagens. Não é um programa de nascimentos em cativeiro que vai salvar a espécie da extinção", diz. "E se for isso que é necessário, então deixe-os serem extintos, porque o cativeiro não é um lugar para se passar o resto da vida", opina.

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7. Um Oscar para o lindo caos da maternidade

Jessie Buckley foi além e fez o discurso mais emocionante e radical da noite do Oscar

Nada me parece mais importante do que homenagear o trabalho caótico de criar seres humanos melhores 

Joanna Moura, fsp, 17.03.2026

Quando terminei de ver "Hamnet", com os olhos inchados e o nariz entupido, levantei do sofá e andei a passos largos até a porta do quarto onde meus filhos dormiam. Guiada apenas pela vontade enorme de abraçá-los — e sentir o peito de cada um subir e descer e o arzinho quente e inebriante sair de seus pequenos narizes enquanto respiravam —, sem pensar duas vezes, sem medo de acordá-los, abri a porta e me deitei ao lado do caçula, acariciando seus cabelos, sussurrando em seu ouvido o tamanho do meu amor. Depois, repeti os mesmos gestos e as mesmas palavras na cama da mais velha, com meu corpo envolvendo o dela em concha, como ela gosta de ficar, fingindo que está na minha barriga novamente.

Hamnet, que foi indicado ao Oscar em oito categorias, mas só levou a estatueta para casa em uma, em teoria é um filme sobre Shakespeare e as vivências que o levaram a escrever "Hamlet", uma de suas obras-primas. Mas o que vemos se desenrolar na tela é a história de uma mulher, Agnes, e a extraordinária força e vulnerabilidade que são paridas com um filho.

A atriz Jessie Buckley, vencedora do Oscar de melhor atriz por sua atuação em Hamnet - Mario Anzuoni 16.mar.26/Reuters

No domingo (15), sentada em frente à televisão, assistindo à cerimônia do Oscar, foi para essa história que eu torci.

Por sorte, para a preservação do meu patriotismo cinematográfico, poucas foram as categorias em que o embate entre "Hamnet" e "O Agente Secreto" foi direto. Pude, portanto, vibrar sem hesitação ao ver Wagner Moura aparecer no palco para anunciar a categoria de direção de elenco e também todas às vezes que a câmera pousava sobre ele e seus colegas de elenco em meio à plateia estrelada.

Gritei de orgulho quando o trecho de "O Agente Secreto" surgiu na tela, anunciando o filme como concorrente da principal categoria da noite, e, mesmo sem ter visto "Valor Sentimental", gritei "injustiça!" quando fomos preteridos para o prêmio de melhor filme estrangeiro.

Mas — e essa parte escreverei em sussurros para que não ponham terminantemente em xeque meu ufanismo— preciso confessar que a maior decepção que poderia me acometer na noite de domingo seria ver Jessie Buckley, atriz que interpreta a personagem principal de "Hamnet", sair de mãos abanando. Por sorte, e certamente por mérito de Jessie, isso não aconteceu.

Quando Mikey Madison, atriz que injustamente desbancou nossa Fernandinha nessa mesma categoria no ano passado, anunciou o nome de Jessie, soltei um suspiro de alívio. Pelo menos esse ano, justiça havia sido feita.

Relaxei na cadeira enquanto via aquela mulher de sorriso magnético, trajando um vestido com a minha combinação de cores preferida, subir ao palco e soltar uma gargalhada satisfeita. Se seu discurso de aceitação se resumisse a isto, já seria suficiente —afinal, a gargalhada sincera e sonora de uma mulher, mais ainda de uma mãe, será sempre revolucionária.

Mas Jessie foi além e fez o discurso mais emocionante e radical da noite. Não, ela não falou de imigração e não pediu liberdade para a Palestina, não mencionou Trump nem pediu paz no Oriente Médio — todas pautas muito necessárias e mencionadas por alguns de seus colegas que também subiram ao palco naquela noite.

"Quero dedicar este prêmio ao lindo caos que é o coração de uma mãe", ela disse.

Ao ouvir suas palavras, chorei — não como criança, como diz o ditado, mas como mãe. Afinal, num mundo violento e mesquinho como esse em que vivemos hoje, nada me parece mais revolucionário e transformador do que esse amor avassalador e aterrorizante que nos consome e nos move. E nada me parece mais importante do que homenagear este trabalho hercúleo e caótico de tentar incansavelmente criar seres humanos melhores.

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8. Uma Batalha Após a Outra é espetáculo das contradições americanas

Paul Thomas Anderson faz filme vivo, incômodo e surpreendente. Violência, ação, racismo e humor se unem no coração do cinema 

Inácio Araujo, fsp, 24.03.2026

Ao espectador, "Uma Batalha Após a Outra" coloca a questão de o que pensar, como se situar diante de um filme que começa com um ataque terrorista para libertar imigrantes presos em um campo e logo prossegue com uma guerrilheira invadindo o sono de um oficial do exército para forçá-lo a levantar. Não a ficar de pé, mas a levantar o seu, digamos, membro. A ter uma ereção. E ele tem. Diante de uma bela mulher negra com uma metralhadora na mão.

Desde que surgiu para o mundo como cineasta, Paul Thomas Anderson parece ter o gosto de se equilibrar nos opostos. Nos pornógrafos de "Boogie Nights", por exemplo, encontrava sensibilidade e beleza. Em "Trama Fantasma", descrevia a arte delicada de um criador de moda, e a arte amorosa de uma feiticeira capaz de manejar o veneno para seduzir seu amado, fazendo rimar arte com poder, amor com horror.

"Uma Batalha", porém, não se detém por aí. Se lança no coração do cinema (e da civilização americana): violência, ação, racismo, humor. Lá tem quase tudo que pode existir e surpreender: freiras guerrilheiras, matadores com coração, guerrilheiros sentimentais, durões que delatam os companheiros por amor à família, matadores que se tornam sentimentais etc.

Esses elementos servem à ação, mas também à comédia, ao melodrama . Enfim, a qualquer gênero que apareça pela frente, porque nesse filme Anderson parece querer costurar o cinema inteiro em suas imagens.

Veja cenas do filme 'Uma Batalha Atrás da Outra' 

E quantas batalhas se passam em "Uma Batalha Após a Outra"? Há terroristas contra o governo, o governo contra os imigrantes, uma mulher negra e revolucionária que seduz um homem branco e racista, uma filha que se opõe ao pai. Em todo caso, o cinema é um campo de batalha, como bem disse Samuel Fuller, onde podem se encontrar todas as contradições. Fuller assinaria este filme com alegria, imagino.

Mas o certo é que Paul Thomas Anderson entende existir outro campo de batalha, que são os Estados Unidos — os United States of America. Esse país se forjou na guerra, contra os ingleses, os indígenas, depois contra o Japão, a Alemanha, Vietnã, Coreia, URSS, Cuba, Iraque, Afeganistão, Venezuela... Por que não uma guerra interna?

Não uma dessas guerras civis imaginárias que vez por outra chegam ao cinema. Aqui as guerras são muitas e, quase sempre, pessoais ou familiares. O espírito de família é tão intenso quanto o racismo e o gosto pela bebida e as drogas.

Assim, Bob é um pai bêbado e drogado, que mal consegue levantar da cadeira, mas parte numa empreitada épica em busca da filha. Um grosseiro coronel do Exército faz mesuras e se apequena diante de um grupo de ricaços dispostos a praticar sua suposta supremacia racial entre palácios chiques e violência bárbara.

É como se Anderson quisesse visitar todos os gêneros de uma só vez, misturá-los, para chegar ao retrato de uma América perdida dentro de seus próprios mitos e contradições.

Talvez seja o caso de personalizar um pouco essas batalhas de todo dia. Há, para começar, a de Bob Ferguson, personagem de Leonardo DiCaprio, guerrilheiro destemido, pai cheio de cuidados com a filha e, ao mesmo tempo, ex-guerrilheiro bêbado, chamado de volta à ativa para ir atrás dos responsáveis pelo desaparecimento da menina. De implacável terrotista da French 75 a pistoleiro de pijama, ele é capaz de tudo, sobretudo de ternura.

Sem falar de seu fiel escudeiro Sensei (Benicio Del Toro), mistura de mexicano e instrutor de lutas, cheio de um humor que se confunde com cinismo e espírito prático.

Relembre longas dirigidos por Paul Thomas Anderson - galeria 

E que dizer de Perfidia, papel de Teyana Taylor, a implacável terrorista que adora ver um branco em ereção e encontra um branco que adora transar com belas mulheres negras? Ou do oficial Lockjaw —Sean Penn —, disposto a matar qualquer um suspeito de traços negros, mas que hesita diante daquela que poderia, talvez, ser sua filha?

E assim vamos, com matadores profissionais que se voltam contra os patrões —o mestiço indígena, no caso— e tudo mais. Por momentos, parece que estamos num desses filmes ditos de "ação", cheios da violência mais gratuita, e de repente somos jogados numa perseguição de automóveis que desafiam toda convenção, ou no humor do tipo notável criado por Penn, cowboy do asfalto, da poeira, do Exército. Tipo notável e absurdo, clichê de todos os traços maníacos do militarismo.

Paul Thomas Anderson nos joga aqui, sem aviso prévio, em todas as contradições da formação dos Estados Unidos: a violência e a religião, o puritanismo carola e a sexualidade descontrolada, o espírito familiar e o hábito da droga, o homem durão que pode ser um chorão sentimental, o espírito familiar vivido na maior solidão.

De todos os traços aqui esboçados, nenhum parece mais presente, mais atual, do que o horror ao imigrante, ao outro que invade seu espaço. Isso rima com o racismo, claro, mas, mais do que tudo, parece nos remeter a uma estrada perdida, a um amontoado de ideais cultivados em mais de um século de cinema, que de repente parecem esmigalhadas em suas próprias contradições.

As saídas, tanto as individuais como as coletivas, parecem fechadas aos olhos de Paul Thomas Anderson. Mas ele as mostra com uma convicção e uma beleza que evocam, ao contrário, o que de melhor soube produzir os EUA, em especial sua grande arte popular, que se consubstancia no cinema.

As contradições de uma nação —sobretudo de uma nação central — não podem ser pequenas. É dessa grandeza que surgem suas fraquezas. E são essas fraquezas e contradições que Anderson parece juntar numa mistura delirante da qual resulta um filme grandioso, vivo, incômodo e, todo o tempo, surpreendente.

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9. Frankenstein sobe ao palco

Se o filme de Guillermo del Toro ganhar algum Oscar, será o primeiro Frankenstein a ser premiado

O monstro estrelou mais de 500 filmes e só não morreu em "O Jovem Frankenstein", de Mel Brooks 

Ruy Castro, 14.03.2026, fsp

"Frankenstein", de Guillermo del Toro, com suas figuras gosmentas, gente voando e explosões gratuitas, concorre neste domingo (15) ao Oscar. Disputa em nove categorias, inclusive a de melhor filme, e ameaça ganhar em várias. Se acontecer, será o primeiro "Frankenstein" a levar uma estatueta. E não será pouca façanha. O IMDB (Internet Movie Data Base) lista 56 filmes sobre o personagem apenas entre os produzidos para o cinema e diz que, se contarmos os feitos para a TV e os que têm remota ligação com a história, o número chega a 500. Mary Shelley, 21 anos quando publicou "Frankenstein" em 1818, não acreditaria se soubesse disso.

O primeiro foi um curta mudo de 16 minutos, de 1910, pelo estúdio de Edison, em que a Criatura nasce num caldeirão fumegante. O mais importante é o "Frankenstein" (1931) da Universal, com Boris Karloff inaugurando a caracterização definitiva do monstro: uma prótese de borracha em forma de carapaça pesando 3 kg e afixada na cabeça por dois parafusos, que levava 4 horas para ser aplicada. O pobre Boris carregou-a por diversos filmes, até passá-la para Lon Chaney Jr., Bela Lugosi e Glenn Strange em outros filmes da Universal, única a poder usá-la.

Depois do seminal "A Noiva de Frankenstein" (1935), com Elsa Lanchester no papel e talvez o melhor filme de todos, a Criatura teve várias outras noivas e mulheres e, sabe-se como, filhos. Já houve Frankensteins negros, adolescentes e até contracenando com Mickey num desenho animado. O primeiro Frankenstein em cores foi o inglês "A Maldição de Frankenstein", de 1957.

Em sua longa carreira nas telas, a Criatura enfrentou Drácula e o Lobisomem em filmes separados e os dois ao mesmo tempo numa comédia de Abbott e Costello, "Às Voltas com Fantasmas" (1948). A partir dali, o monstro cansou-se de ser desmoralizado —mas nunca tão bem quanto em "O Jovem Frankenstein" (1975), de Mel Brooks.

Este, por sinal, o único filme em que ele chega vivo e todo pimpão ao final, lendo o The Wall Street Journal na cama.

Mia Goth e Oscar Isaac em cena do filme 'Frankenstein', de Guillermo Del Toro - Ken Woroner/Divulgação

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10. A vida em nosso planeta - série TV 

Life on Our Planet  é uma minissérie documental americana sobre a natureza , lançada na Netflix e produzida pela Amblin Television e Silverback Films . Com produção executiva de Steven Spielberg e narração de Morgan Freeman , a série foca na história evolutiva da vida complexa na Terra . Após seu lançamento, a série recebeu críticas mistas, com elogios aos efeitos visuais, cinematografia, trilha sonora e escala, mas críticas à apresentação, formato e roteiro. Em março de 2026, sua sucessora espiritual, The Dinosaurs , foi lançada na Netflix. [ 1 ]

Cada episódio se concentra em alguns períodos geológicos específicos , incluindo as mudanças geológicas e ecológicas que ocorreram durante eles (visualizadas principalmente com filmagens reais como representação gráfica, com algumas imagens renderizadas) e a vida pré-histórica que existiu nesses períodos, visualizada em computação gráfica fotorrealista semelhante às séries "Walking with..." e "Prehistoric Planet" . Cada episódio também apresenta táxons modernos que podem traçar sua ancestralidade até os períodos geológicos mostrados, com vários segmentos reais semelhantes a documentários tradicionais sobre a natureza, mostrando imagens de algumas das adaptações modernas únicas que alguns desses táxons desenvolveram.

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[1] Moore, K. (5 de fevereiro de 2026). "Netflix divulga primeiras imagens e data de lançamento de nova série documental sobre dinossauros"  Consultado em 8 de fevereiro de 2026.

A vida em nosso planeta e seus episódios

1 "As Regras da Vida" 

Aborda a origem da vida e as regras da evolução , incluindo seleção natural , adaptação , interação e especiação , além de uma visão geral da série. Um par de irmãos Smilodon abate com sucesso uma ave do terror , uma mãe Maiasaura navega pelos locais de nidificação para chegar ao seu próprio ninho, e uma fêmea de Tyrannosaurus e sua cria tentam, sem sucesso , caçar uma fêmea de Triceratops .

Em segmentos com atores reais, vertebrados marinhos predadores de diferentes origens evolutivas atacam um cardume de iscas em equipe; plantas competem por espaço em uma floresta tropical, numa corrida armamentista evolutiva entre elas e as lagartas que se alimentam delas; e diversas espécies africanas de aves e mamíferos se reúnem ao redor de um bebedouro. 

2 - "A Primeira Fronteira" 

Nos mares do Pré-Cambriano , o plâncton se desenvolve e prepara o terreno para os futuros organismos. Os invertebrados marinhos evoluem lentamente e os mares pré-históricos são dominados por medusas até a explosão cambriana . Nos mares rasos da era Cambriana , um Anomalocaris tenta caçar um trilobita , [ b ] mas é impedido pelo exoesqueleto rígido do artrópode . No Ordoviciano , a carapaça dos trilobitas torna-se ainda mais avançada para lidar com novos predadores, mas não é páreo para os bicos de cefalópodes como o Cameroceras , enquanto o Arandaspis , um vertebrado primitivo e peixe , vive à sombra dos invertebrados. A extinção em massa do Ordoviciano Superior testemunha um resfriamento global massivo que dizima a maior parte da vida na Terra, fazendo com que muitos invertebrados recuem para as profundezas do mar e deixando aos vertebrados um caminho para a dominância. No Devoniano , uma família de Dunkleosteus , um dos maiores vertebrados recém-descobertos, caça amonoides [ c ] usando uma nova adaptação vital: mandíbulas . Proliferações massivas de plâncton causam desoxigenação global , levando ao segundo evento de extinção em massa: a extinção do Devoniano Superior . No entanto, em terra, as plantas passam a dominar e transformar o ecossistema, e os animais logo as seguem.

Em segmentos com atores reais, uma lesma-do-mar arco-íris preda uma anêmona-do-mar , larvas de água-viva tentam flutuar sobre anêmonas-do-mar predadoras, uma lula-de-cauda-curta caça um camarão , chocos-gigantes machos lutam por parceiras, peixes-franjados-sarcásticos machos lutam por território e tubarões-de-recife caçam um cardume de peixes em equipe.

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O Pré-Cambriano é o período geológico que se estende desde a formação da Terra, há cerca de 4,6 bilhões de anos, até o início do Cambriano, há aproximadamente 540 milhões de anos.

Duração e Divisões

O Pré-Cambriano é o período mais longo da história da Terra, abrangendo cerca de 4 bilhões de anos e representando aproximadamente 88% do tempo geológico total. Este superéon é dividido em três éons principais: Hadeano: de aproximadamente 4,6 bilhões a 4 bilhões de anos, marcado pela formação da Terra e das primeiras rochas. Arqueano: de cerca de 4 bilhões a 2,5 bilhões de anos, onde surgiram os primeiros organismos unicelulares. Proterozoico: de aproximadamente 2,5 bilhões a 540 milhões de anos, caracterizado pelo aumento do oxigênio na atmosfera e o surgimento de formas de vida multicelulares.

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[b] Identificada como Olenoides no livro complementar escrito por Fletcher em 2023 (Fletcher, T. (2023), Vida em Nosso Planeta: Acompanha a Série Histórica da Netflix , Witness Books, pp.  1–312 , ISBN 9781529144147)

[c] Identificada como Gonioclymenia no livro complementar escrito por Fletcher em 2023 (idem)

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3 - "Invasores da Terra"

A desestabilização das rochas por líquens cria o primeiro solo, permitindo que as plantas cresçam e eventualmente dominem. Nas florestas de carvão do Carbonífero , um macho de Arthropleura segue o rastro de cheiro deixado por uma fêmea e realiza com sucesso seu cortejo. Na água, vários peixes jovens de nadadeiras lobadas [ d ] escapam por pouco de um adulto faminto movendo-se para a terra, mas um deles é devorado por um tetrápode anfíbio primitivo , o Anthracosaurus . À medida que o Carbonífero dá lugar ao Permiano , mais seco , alguns desses tetrápodes anfíbios desenvolvem ovos com casca dura, mais resistentes à dessecação, tornando-se os primeiros amniotas . O Permiano é dominado por répteis como o Scutosaurus e mamíferos basais como o Lystrosaurus . Uma fêmea de gorgonopsídeo [ e ] caça com sucesso um Scutosaurus com seus dentes afiados como sabres. Erupções vulcânicas massivas nas Traps Siberianas levaram a grandes inundações de lava, uma atmosfera de substâncias químicas nocivas e um rápido aquecimento global, provocando a extinção do Permiano-Triássico , o maior evento de extinção em massa da história da Terra, que dizimou quase toda a vida. No entanto, algumas espécies, como o Lystrosaurus, conseguiram sobreviver.

Em segmentos com atores reais, uma aranha-pavão dança para uma fêmea indiferente, um besouro-tigre caça sua presa enquanto escapa por pouco de uma aranha-alçapão , rãs-do-brejo saltam da água para capturar libélulas e uma fêmea de rã-flecha-de-morango carrega seus filhotes até uma bromélia na copa das árvores. 

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[d] Identificado como Strepsodus no livro complementar escrito por Fletcher em 2023 (ibidem)

[e] Identificada como Inostrancevia no livro complementar escrito por Fletcher em 2023 (ibidem)

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4 - "A Sangue Frio"

Durante o Triássico Inferior , após a recente extinção, as espécies sobreviventes se recuperam e o Lystrosaurus rapidamente se torna o animal dominante na Terra, atingindo uma abundância incomparável a qualquer outro animal do passado ou do futuro. No entanto, os répteis continuam a evoluir nas margens áridas da Pangeia , e as futuras populações de Lystrosaurus se veem à mercê de predadores como os eritrossuquídeos , como o Erythrosuchus , que são uma das razões para sua extinção. Os répteis se diversificam e passam a dominar tanto a terra quanto o mar; em um salto temporal para o Jurássico , as primeiras tartarugas marinhas enfrentam a predação de plesiossauros , e seus filhotes precisam evitar os pterossauros enquanto correm para a água. De volta ao Triássico, um evento de precipitação massiva põe fim ao deserto da Pangeia, tornando o mundo exuberante e verde. No Triássico Superior , um Plateosaurus vagueia por essas florestas, sinalizando o eventual domínio futuro dos dinossauros .

Em segmentos com atores reais, lagartos de Fabian no Deserto do Atacama se alimentam de moscas-da-salmoura e disputam os melhores locais de alimentação; um anolis-d'água usa uma bolha como sino de mergulho para se manter submerso; um dragão-de-komodo envenena um filhote de búfalo-d'água ; tartarugas-verdes se reúnem perto da Ilha Raine ; e crocodilos-do-nilo atacam gnus . 

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O Triássico Inferior é uma das três épocas do período Triássico, que se estendeu de aproximadamente 252,17 milhões de anos atrás até 247,2 milhões de anos atrás. Este período é caracterizado por uma série de eventos geológicos e biológicos significativos, incluindo a formação da Pangeia e a diversificação de plantas e animais. Durante o Triássico Inferior, a flora era predominantemente composta por coníferas, cicadáceas e samambaias, enquanto a fauna incluía répteis primitivos como os dinossauros, pterossauros e crocodilos. A extinção em massa que marcou o fim do Triássico ocorreu no final do período, abrindo caminho para a ascensão dos dinossauros no período Jurássico.

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5 - "À Sombra dos Gigantes"

No início do Jurássico Inferior , a intensa atividade vulcânica durante a fragmentação da Pangeia levou a outra extinção em massa . No entanto, os novos ambientes facilitaram e impulsionaram a evolução dos sobreviventes, incluindo os dinossauros. No Jurássico Superior e ao longo do Cretáceo , grandes dinossauros de todos os tipos evoluíram. Um alossauro tenta, sem sucesso, caçar filhotes de diplodoco durante uma tempestade noturna. As plantas com flores evoluem e revolucionam a vida na Terra, à medida que inúmeras linhagens de insetos se adaptam para polinizá-las, enquanto outras linhagens evoluem para se alimentar desses polinizadores. No Cretáceo, pela primeira vez, há mais espécies em terra do que no oceano. Durante o Cretáceo Inferior , a evolução das penas beneficia os dinossauros terópodes , como o deinônico , que caçava em bandos, e um deles consegue abater um arkansauro . As mudanças tectônicas no Cretáceo Superior criam mares rasos que isolam cada vez mais as massas de terra umas das outras. Os dinossauros ornitísquios , como os hadrossauros , como o Maiasaura , desenvolveram mandíbulas capazes de mastigar as plantas recém-evoluídas e de viajar em grandes manadas. Enquanto isso, os primeiros mamíferos também aproveitaram a diversificação das plantas e desenvolveram comportamentos complexos. Um Tiranossauro macho corteja com sucesso uma fêmea.

Em segmentos com atores reais, uma vitória-régia gigante floresce e é polinizada por um besouro Cyclocephala ; polinizadores enfrentam diferentes predadores; formigas Megaponera invadem um cupinzeiro e usam saliva antibiótica para curar as feridas umas das outras; uma mãe numbat resgata seus filhotes de uma cobra ; e uma cascavel tenta, sem sucesso, caçar ratos-canguru . 

6 - "Das Cinzas"

No último dia do Cretáceo, Edmontosaurus , Triceratops , Tyrannosaurus , Alamosaurus , pterossauros azhdarchídeos e um plesiossauro seguiam suas vidas normalmente, pouco antes de um asteroide do tamanho do Monte Everest colidir com a Terra, causando a extinção do Cretáceo-Paleógeno . Megatsunamis , material ejetado em chamas pelo impacto, uma atmosfera superaquecida e chuva ácida dizimaram a maior parte da vida na Terra, pondo fim ao reinado dos dinossauros não-avianos e desestabilizando a cadeia alimentar marinha. Carniceiros abissais e insetos sobreviveram alimentando-se dos organismos mortos. Algumas pequenas espécies de répteis, anfíbios, peixes, aves e mamíferos conseguiram sobreviver ao impacto, protegendo-se do subsolo e através de ovos depositados na terra. Diz-se que esses sobreviventes seguiram os passos dos dinossauros para ocupar seus lugares e dominar o mundo. Um flashback para o Jurássico mostra as origens do voo quando uma fêmea de Anchiornis usa suas habilidades de planar para escapar de um Sinraptor juvenil . Apesar do inverno rigoroso , as adaptações das coníferas ao frio permitem que elas dominem as latitudes do norte logo após o impacto. Enquanto isso, as plantas com flores passam a dominar os trópicos , formando florestas tropicais , o ecossistema mais biodiverso da Terra. No Neogeno , as planícies da América do Sul são dominadas pelas gigantescas aves do terror, que caçam mamíferos como o Theosodon . Conforme a Austrália se desloca para o norte, os recifes de coral dominam o Mar de Arafura , servindo como centros de diversificação para a vida marinha. As aves marinhas se espalham pelo planeta para aproveitar a abundância de presas. Apesar do sucesso das aves, são os mamíferos que dominam o Cenozoico, como demonstrado por um Smilodon matando uma ave do terror.

Em segmentos com atores reais, flamingos andinos realizam rituais de acasalamento no Altiplano , uma coruja-lapônica caça um rato-do-campo em uma floresta de coníferas, beija-flores , como o beija-flor-de-bico-de-espada , usam suas adaptações especializadas para se alimentar de néctar e competir pelas melhores flores, um bando de gansos-patola se alimenta de um cardume de peixes, pinguins-das-galápagos usam suas asas para "voar" debaixo d'água e caçar peixes, enquanto iguanas marinhas se alimentam de algas. 

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O Cretáceo é o último período da Era Mesozoica, durando aproximadamente de 145 a 66 milhões de anos atrás, e é conhecido pela diversidade de vida, incluindo os dinossauros, e pela extinção em massa que marcou seu fim.

Duração e Divisões

O período Cretáceo se estende de 145 a 66 milhões de anos atrás, sendo o mais longo da Era Mesozoica. Ele é dividido em duas épocas principais: Cretáceo Inferior (de 145 a 100,5 milhões de anos) e Cretáceo Superior (de 100,5 a 66 milhões de anos).

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7 - "Herdando a Terra"

Em um flashback ao Jurássico, os primeiros mamíferos [ h ] vivem à sombra dos dinossauros, tanto de dia quanto de noite. Após a extinção em massa do Cretáceo-Paleogeno (K-Pg), eles se recuperam rapidamente e se diversificam, seguindo os passos dos dinossauros e assumindo o domínio do planeta. No entanto, em meados do Paleogeno , a separação da Antártica e da América do Sul provoca um evento global de resfriamento e seca, levando a novas adaptações em mamíferos, como o aumento de tamanho. Um macho de Megacerops , um desses novos mamíferos gigantes, luta sem sucesso com um macho rival por uma fêmea. A tendência de seca resultante da separação da Antártica continua e leva à substituição de florestas por pastagens em mais de um quinto da área da Terra, resultando na extinção de muitos mamíferos . Os mamíferos herbívoros sobreviventes desenvolvem adaptações especializadas para processar grama. No início do Quaternário na América do Sul, um jovem e curioso Smilodon investiga uma manada de Doedicurus e tenta predar um juvenil, mas é repelido por suas caudas. Os Himalaias são apresentados como um exemplo de grandes mudanças geológicas durante o Cenozoico. Os mamíferos conquistam tanto o céu quanto o mar; em um flashback para o Paleogeno, um Maiacetus , um ancestral semiaquático das baleias , escapa do tubarão gigante Otodus . À medida que o planeta esfriava, os descendentes do Maiacetus evoluiriam para os maiores animais já conhecidos: as baleias. O resfriamento se intensifica, mergulhando o planeta em uma era glacial e levando ao domínio de um novo tipo de mamífero .

Em segmentos com atores reais, uma família de quatis procura comida; macacos-prego abrem amêijoas batendo-as em troncos de árvores, usam suas caudas para absorver água e utilizam citronela como repelente de insetos; uma chita tenta, sem sucesso, caçar um filhote de gnu; uma fêmea de leopardo-das-neves cria seus filhotes enquanto a tentativa de seu parceiro de caçar um íbex termina em tragédia; morcegos frugívoros são caçados por águias-marciais ; e baleias-jubarte machos competem por uma fêmea. 

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 [h] Representado por um planador-de-açúcar 

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8 - "A Era do Gelo e do Fogo"

No início do Quaternário, mudanças na órbita da Terra, nas correntes marítimas e na atmosfera levam à era glacial. Em meados do Quaternário, a tundra-estepe circunda as latitudes setentrionais ao sul das calotas polares. Durante sua migração pela estepe, uma manada de mamutes-lanosos é emboscada por um bando de leões-das-cavernas , que abatem com sucesso um indivíduo subadulto. Uma tendência de seca leva à expansão dos desertos ao sul da tundra-estepe, e as florestas tropicais da África são quase completamente substituídas por savana . Ao final da glaciação, as calotas polares derretem à medida que a órbita da Terra se altera novamente e o clima aquece. Na América do Norte, enormes lagos proglaciais se formam a partir do derretimento, e um desses eventos de derretimento leva a imensas inundações que abrem caminho pela América do Norte, mas recuam rapidamente. O clima se estabiliza e o mundo se torna mais verde na época atual , permitindo a recuperação de florestas e áreas úmidas. Muitas espécies da megafauna em todo o mundo são misteriosamente levadas à extinção , o que permite que os bisontes dominem as Grandes Planícies , onde são mortos em massa em precipícios por caçadores humanos primitivos , que anteriormente haviam contribuído para as extinções da megafauna. Os humanos desenvolvem a agricultura e abandonam o estilo de vida de caçadores-coletores , levando à formação de sociedades e civilizações complexas e, eventualmente , à tecnologia . O domínio da humanidade ameaça o equilíbrio da Terra por meio da destruição de habitats e das mudanças climáticas , levando ao potencial de uma sexta extinção em massa , que só pode ser evitada por meio de um esforço conjunto da humanidade. No entanto, Freeman observa que, não importa qual futuro aguarde a Terra, "a vida sempre encontrou um caminho", [ i ] como uma libélula que se metamorfoseia e voa por uma Londres exuberante e pós-apocalíptica .

Em segmentos com atores reais, bisontes no inverno de Yellowstone espantam lobos , dois grupos de babuínos lutam por frutas, uma andorinha-do-mar-de-bigodes no delta do Danúbio tenta, sem sucesso, cortejar uma fêmea, e a humanidade passa a dominar o planeta. 

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[i] Possivelmente uma referência a outro trabalho de Spielberg, Jurassic Park 

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11. Kleber Mendonça Filho não tem amigos, mas bajuladores

Cineasta pernambucano é um grande diretor, mas não um bom roteirista

"O Agente Secreto" é longo demais e tem histórias paralelas completamente supérfluas

Gustavo Alonso, fsp, 13.3.2026

Toda vez que assisto a um filme ruim, me espanto quando vejo os letreiros subindo na tela.. É sempre admirável a quantidade de profissionais que trabalham em conjunto para um produto final que pode ser genial, medíocre ou ruim mesmo.

Sou escritor, não cineasta. É muito fácil escrever um livro ruim. Basta sentar a bunda na cadeira e escrever o que lhe vier à cabeça, sem filtro. Depois convença um editor de que sua obra pode ter algum valor. Basta uma pessoa para que seu livro seja publicado.

A cadeia de produção de um livro não chega nem perto da cadeia de produção de um filme. Não passa de dez o número de pessoas subordinadas a um editor para que um livro possa ser publicado por uma grande editora. No cinema, embora também haja hierarquias internas, o número de trabalhadores passa facilmente das duas centenas num filme grande como "O Agente Secreto".

Digo isso porque toda vez que vejo um filme do incensado diretor Kleber Mendonça Filho me pergunto se ele tem algum amigo de verdade. Um amigo que pegue no braço e fale ao ouvido: "Cara, isso não tá legal."

Vivemos tempos em que o bairrismo cinematográfico legitima qualquer filme meia-boca. Em Pernambuco, onde moro, muitos parecem intoxicados por se verem representados na grande tela. Empolgados com a possibilidade do Oscar, se seduzem pelo reconhecimento internacional. E o diretor alimenta tal perspectiva, querendo associar "lugar de fala" ao cinema, como se isso permitisse qualquer bobeira artística. Kleber não tem amigos, só bajuladores, em seu estado natal.

A verdade é que "O Agente Secreto" repete vários problemas dos filmes dramáticos anteriores do diretor pernambucano. Muito já foi apontado pela crítica, afinal o filme não é consenso fora de Pernambuco, como gostariam aqueles que acusam de "sudestino" qualquer um que discorde esteticamente da película.

Os personagens de Kleber são pobres, pouco mudam durante a esquemática encenação dramática. Em seus filmes há sempre bonzinhos de esquerda e os vilões, obviamente, de direita, claro.

E os diálogos? Chegam a dar vergonha alheia de tão amadores e forçados. Virou piada na internet um diálogo de "Aquarius", um dos filmes mais louvados do diretor, em que a personagem de Sônia Braga fala para o sobrinho, para que este agrade a namorada: "Toca Maria Bethânia para ela. Mostra que tu é intenso". Mesmo com bons atores, como é o caso de Wagner Moura neste último filme, as atuações ficam comprometidas com o primarismo verbal.

Tudo isso é culpa dos roteiros de Kleber que, além da direção, assina pelo argumento de seus filmes. Seus roteiros querem abraçar o mundo e perdem o foco narrativo.

Em "O Agente Secreto" há histórias paralelas como a da autópsia do tubarão, a do alemão no cinema e a do casal de angolanos refugiados, que são completamente supérfluas. Mesmo a bela cena inicial, muito louvada, não diz nada que outras cenas seguintes também não digam sobre a violência da sociedade brasileira no ano de 1977, quando se passa o filme. Fica parecendo um colecionismo de boas filmagens sem conexão com a história que se quer narrar. Mero virtuosismo masturbatório de fazer cinema.

É sobretudo em relação à duração dos roteiros que falta um amigo a Kleber Mendonça Filho. Se "O Agente Secreto" tivesse 50 minutos a menos daria até um filme OK. Entre as centenas de pessoas que trabalham com o pernambucano, não há uma alma para dizer que o fato de ele ser um bom diretor não o faz ser um bom roteirista?

É importante reconhecer: Kleber Mendonça Filho é um grande diretor de cinema. Não há dúvida. Seus filmes têm tensão, é um grande articulador de profissionais, reconstitui a época com maestria, emula eficientemente suas referências cinematográficas, faz milagre com um roteiro tão pobre. Tecnicamente "O Agente Secreto" é perfeito. O lamentável, como em quase todos os filmes dramáticos de Kleber, é o roteiro esquemático, a vontade de fazer do cinema um baluarte infantil de plataformas políticas.

Pode ser que "O Agente Secreto" ganhe o Oscar de melhor filme? Se chegou até lá, tudo é possível. Mas há um forte concorrente: "Pecadores", o grande favorito, com 16 indicações. Se Kleber perder para este filme, não deve ficar triste. Afinal, "Pecadores" é uma espécie de "Bacurau" que se passa no sul dos Estados Unidos. Tão ruim e bobo quanto o original brasileiro.

Quem sabe quando Kleber estiver no domingo (15) no Dolby Theatre, em Los Angeles, esperando a estatueta, algum agente secreto cochiche em seu ouvido: "Meu compadre, a gente não pode ser bom em tudo! Filme um roteiro que não seja seu! Escolha uma boa história de verdade e use todo seu grande potencial como bom diretor já comprovado. Vai nessa que vai ser melhor!".

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13. Copa do Brasil 2026

Veja os confrontos e os classificados da quarta fase da Copa do Brasil

Do UOL, em São Paulo, 13/03/2026

A terceira fase da Copa do Brasil terminou ontem, e 24 times avançaram no torneio. Os jogos da quarta fase serão disputados na próxima semana, em datas e horários ainda a serem divulgados pela CBF.

Veja os confrontos

Volta Redonda x Barra-SC

Sport x Athletic Club

Nova Iguaçu x Fortaleza

Jacuipense x Novorizontino

São Bernardo x Ceará

Vila Nova x Confiança

Atlético-GO x Ponte Preta

Maringá x Goiás

Juventude x Águia de Marabá

Londrina x Operário-PR

CRB x Figueirense

Portuguesa x Paysandu

Times da Série A entram na próxima fase

Os 20 clubes da elite se juntarão aos 12 classificados da quarta fase, e os confrontos serão definidos por sorteio. As partidas serão em jogos de ida e volta e acontecerão entre os dias 22 e 23 de abril (ida) e 13 e 14 de maio (volta).

Os times que já estão garantidos na 5ª fase: Flamengo, Fluminense, Vasco, Botafogo, Palmeiras, Corinthians, São Paulo, Santos, Bragantino, Mirassol, Atlético-MG, Cruzeiro, Internacional, Grêmio, Athletico-PR, Coritiba, Bahia, Vitória, Remo e Chapecoense

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14. Angine de Poitrine 

Angine de Poitrine Destruiu a Lógica da Música em 2026 vídeo

Angine de Poitrine - Full Performance (Live on KEXP) 

Angine De Poitrine - Full Live Concert @ Québec 2025 

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15. Anthropic versus Pentágono

Anthropic entra com processo após Pentágono classificá-la como 'risco à cadeia de suprimentos'

Empresa de inteligência artificial questiona classificação dada pelo governo dos EUA. Companhia não aceitou exigência de acesso total e que permitiria vigilância em massa

Jack Queen, fsp, 09.03.2026

A Anthropic entrou com uma ação judicial nesta segunda-feira (9) para impedir que o Pentágono a coloque em uma lista de segurança nacional, aumentando o confronto da startup de inteligência artificial com os militares dos Estados Unidos sobre restrições de uso de sua tecnologia.

Na quinta-feira, o Pentágono impôs à Anthropic uma designação formal de risco à cadeia de suprimentos norte-americana, limitando o uso de uma tecnologia que, segundo uma pessoa com conhecimento do assunto, estava sendo usada para operações militares no Irã.

A Anthropic afirma na ação que a inclusão da empresa na lista é ilegal e viola seus direitos de liberdade de expressão e devido processo legal. O processo no tribunal federal da Califórnia pede a um juiz que ordene a retirada da empresa da lista e impeça que agências federais a apliquem contra ela.

"Essas ações não têm precedentes e são ilegais. A Constituição não permite que o governo exerça seu enorme poder para punir uma empresa por seu discurso protegido", afirmou Anthropic.

O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, designou a Anthropic como um risco à cadeia de suprimentos de segurança nacional dos EUA na última quinta-feira (5), depois que a startup se recusou a remover barreiras contra o uso de sua IA para armas autônomas ou vigilância doméstica sob a alegação de evitar vigilância em massa dos usuários.

A classificação anunciado pelo governo coloca em risco os negócios da Anthropic com o poder público, e o resultado pode moldar a forma como outras empresas de IA negociam restrições ao uso militar de sua tecnologia, embora o presidente-executivo da empresa, Dario Amodei, tenha esclarecido na quinta-feira que a designação tem "um escopo restrito" e que as companhias ainda poderiam usar suas ferramentas em projetos não relacionados ao Pentágono.

O que a IA? webstories

O presidente dos EUA, Donald Trump, também instruiu o governo norte-americano a parar de trabalhar com a Anthropic, cujos patrocinadores financeiros incluem Google e Amazon. Trump e Hegseth disseram que haveria uma eliminação gradual de seis meses dos produtos da empresa das instâncias do governo dos EUA.

As ações de Trump e Hegseth ocorreram após meses de conversas com a Anthropic sobre se as políticas da empresa poderiam restringir a ação militar e logo após Amodei ter se reunido com Hegseth na esperança de chegar a um acordo.

O Pentágono disse que a lei dos EUA, e não uma empresa privada, determina como defender o país e insistiu em ter total flexibilidade no uso da IA para "qualquer uso legal", afirmando que as restrições da Anthropic poderiam colocar em risco vidas norte-americanas.

A Anthropic declarou que mesmo os melhores modelos de IA não são confiáveis o suficiente para armas totalmente autônomas e que usá-las para esse fim seria perigoso. A empresa também traçou uma linha vermelha na vigilância doméstica dos norte-americanos, chamando isso de violação dos direitos fundamentais.

Após o anúncio de Hegseth, a Anthropic respondeu que a inclusão da empresa na lista de restrição seria juridicamente infundada e abriria um precedente perigoso para as companhias que negociam com o governo dos EUA. A empresa disse que não se deixaria influenciar por "intimidação ou punição" e, na quinta-feira, Amodei reiterou que a Anthropic iria recorrer à Justiça.

O CEO da Anthropic também se desculpou por um memorando interno publicado na quarta-feira (4) pelo site de notícias de tecnologia The Information. No memorando, que foi escrito na última sexta-feira, Amodei disse que as autoridades do Pentágono não gostavam da empresa, em parte porque "não fizemos elogios ao estilo ditatorial a Trump".

Quais são os limites para o uso da inteligência artificial?  vídeo

O Departamento de Defesa assinou acordos no valor de até US $200 milhões cada com os principais laboratórios de IA no ano passado, incluindo Anthropic, OpenAI e Google.

Logo depois que Hegseth colocou a Anthropic na lista de restrição, a OpenAI, apoiada pela Microsoft, anunciou um acordo para usar sua tecnologia na rede do Departamento de Defesa dos EUA. O presidente-executivo da OpenAI, Sam Altman, disse que o Pentágono compartilha os princípios da empresa, de garantir a supervisão humana dos sistemas de armas e de se opor à vigilância em massa dos EUA.

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16. Como os conservantes afetam o intestino

Como os conservantes na sua comida afetam as importantes bactérias do intestino

Nosso intestino abriga uma fervilhante colônia de bactérias que influenciam muitas funções corpo. Os emulsificantes presentes em alimentos ultraprocessados influenciam a quantidade e a diversidade dessas bactérias, o que pode causar problemas de saúde

Melissa Hogenboom, fsp/BBC, 09.03.2026

Os aditivos presentes nos alimentos processados para conservá-los por mais tempo podem ter efeitos inesperados para a saúde dos micróbios que habitam nossos intestinos

Dentro de todos nós, existe uma comunidade fervilhante composta por trilhões de células que influenciam inúmeros aspectos da nossa saúde. Nós a chamamos de microbiota. "Você pode comparar a diversidade intestinal a uma floresta", explica a epidemiologista nutricional Melissa Lane, da Universidade Deakin, na Austrália. "Quanto mais micróbios você tiver na sua floresta, de mais tipos diferentes, maior será a sua resiliência a eventuais perturbações."

A ciência confirmou há muito tempo que a microbiota diversa e saudável é fundamental para o nosso bem-estar em geral. Afinal, ela influencia de tudo, do nosso humor ao metabolismo e até o nosso cérebro.

As pessoas com menor diversidade bacteriana no intestino são mais propensas a enfrentar problemas do sono, baixa saúde intestinal e maiores inflamações. Já a alta diversidade chega a ser relacionada à longevidade. "É todo um ecossistema", explica a professora de nutrição Sarah Berry, do King's College de Londres. "É como um órgão a mais que temos no nosso corpo."

Mas existem evidências de que alguns dos alimentos que consumimos regularmente podem desestabilizar esse ecossistema. Os ultraprocessados, particularmente, podem prejudicar e alterar os micróbios intestinais.

Um dos motivos é cada vez mais atribuído aos numerosos aditivos presentes nesses alimentos, o que nos leva a imaginar o que eles fazem com o nosso intestino.

Muitos alimentos vendidos nos supermercados incluem emulsificantes para estender seu prazo de validade

Se você observar qualquer lista de ingredientes na próxima vez em que for ao supermercado, irá rapidamente notar quantos emulsificantes alimentares, adoçantes artificiais e corantes alimentícios são adicionados à nossa comida. Eles fazem de tudo, desde melhorar o sabor dos alimentos ou fazer com que eles fiquem mais crocantes, até alterar a textura e conservá-los por mais tempo.

Comprei recentemente uma salada de frango aparentemente "saudável", que continha um aditivo de alto risco, segundo um aplicativo que uso para avaliar a qualidade nutricional dos alimentos. Ela incluía diversos emulsificantes, substâncias que permitem a mistura de óleos e água, comumente encontrados em alimentos ultraprocessados.

A textura do seu sorvete favorito, que derrete na boca, se deve aos emulsificantes. Eles também estendem o prazo de validade dos alimentos.

Os emulsificantes ajudam o pão do supermercado a ficar mais tempo macio e explicam por que o bolo comprado na loja permanece úmido por mais tempo que o feito em casa.

Eles são extremamente frequentes. Uma análise encontrou 6.640 produtos alimentícios contendo emulsificantes nos supermercados britânicos. Este número representa cerca da metade dos produtos analisados.

Mas por que isso é preocupante?

Evidências indicam que estes aditivos podem prejudicar a nossa microbiota intestinal. Eles foram relacionados à doença inflamatória intestinal, síndrome do intestino irritável e câncer colorretal.

Pesquisas conduzidas em animais e seres humanos aparentemente indicam uma relação direta entre os emulsificantes e problemas de saúde.

Os efeitos sobre a nossa microbiota

Em um estudo em camundongos, liderado pelo microbiólogo Benoit Chassaing, do Instituto Pasteur em Paris, na França, baixas dosagens de dois emulsificantes de uso geral levaram bactérias intestinais a se moverem mais perto da parede do intestino, gerando inflamações e sinais de doenças.

Os camundongos já propensos a problemas intestinais sofreram inflamações mais graves.

Normalmente, nossos micróbios são mantidos a uma distância segura da parede intestinal por uma camada de muco que reveste o intestino, o que ajuda a evitar inflamações. Quando as bactérias penetram na camada de muco protetor, podem surgir doenças inflamatórias crônicas, segundo Chassaing.

Os emulsificantes empregados em muitos alimentos ultraprocessados são relacionados a possíveis problemas de saúde, como doença inflamatória intestinal

Estudos de correlação posteriores também os relacionaram a efeitos prejudiciais em seres humanos.

Em um estudo francês que envolveu mais de 100 mil adultos em 2024, os participantes mais expostos a emulsificantes apresentaram maior risco de contrair diabetes tipo 2.

Outro estudo, entre mais de 90 mil adultos, encontrou possíveis ligações entre os emulsificantes e o câncer de mama e de próstata. Estes resultados tratavam de correlações, mas Chassaing e seus colegas coletaram amostras do intestino de participantes, em um pequeno exame em seres humanos.

Eles demonstraram que um emulsificante comumente usado como espessante em alimentos, consumido por pessoas saudáveis, prejudicou a microbiota intestinal e reduziu a quantidade de micróbios saudáveis.

Chassaing e o professor de dietética Kevin Whelan, do King's College de Londres, colaboraram recentemente em um teste clínico de indivíduos com doença de Crohn. O exame concluiu que as pessoas com dieta reduzida de emulsificantes apresentaram probabilidade três vezes maior de experimentar redução dos sintomas, em comparação com os que ingeriram emulsificantes regularmente como parte da sua alimentação.

Os efeitos dos alimentos ultraprocessados revelados em teste: 'É assustador'  31 janeiro 2024

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Apesar das preocupações com a saúde, não existem orientações públicas sobre a necessidade ou não de evitarmos os emulsificantes.

Um motivo é simplesmente porque existem muitos aditivos na nossa alimentação, e os cientistas não sabem ao certo quantos deles são tóxicos — ou se a sua combinação é prejudicial, segundo Whelan.

Todos os emulsificantes que comemos foram aprovados pela indústria alimentícia, segundo Chassaing. "Eles só são testados em relação ao seu efeito de toxicidade ou à capacidade de induzir danos ao DNA", explica ele. "E, nestes dois aspectos, eles são perfeitamente aceitáveis. Mas eles nunca foram testados para determinar o efeito direto sobre a microbiota."

A Autoridade Europeia de Segurança Alimentar (EFSA, na sigla em inglês) afirma que "na União Europeia, todos os aditivos alimentares são identificados por um número E, e sua segurança é avaliada antes que seu uso em alimentos seja autorizado".

Da mesma forma, a Administração de Alimentos e Drogas dos Estados Unidos (FDA, na sigla em inglês) indica que "um aditivo alimentar deve ser autorizado pela FDA antes de poder ser empregado em alimentos no mercado". Dito isso, pode definitivamente haver efeitos cumulativos, segundo Chassaing.

A forma de interação entre essas substâncias e os nutrientes recebeu o apelido de "efeito coquetel". E, como existem muitas permutas, é difícil isolar o efeito de um aditivo em relação a outro.

Já se comprovou que os aditivos presentes na nossa alimentação não alteram o nosso DNA, mas existem relativamente poucos estudos sobre os seus efeitos para a biota intestinal

Evidências em células humanas no laboratório indicam que os efeitos combinados de diversos aditivos comumente consumidos estão relacionados ao aumento das lesões celulares.

Além disso, a forma de processamento dos alimentos também pode ser importante para a saúde do intestino, além do teor de nutrientes, segundo um estudo recente.

Em um estudo controlado randomizado, Lane e seus colegas concluíram que uma alimentação rica em alimentos ultraprocessados resultou em menor diversidade microbiana no intestino. A equipe comparou dois grupos ao longo de três semanas. Ambos consumiram dietas com baixo teor de calorias, contendo nutrientes similares.

Basicamente, a dieta de um dos grupos era baseada principalmente em substitutos de refeições altamente processados, como shakes, sopas e barras de cerais. O outro seguiu uma dieta com baixo teor de alimentos ultraprocessados, composta de alimentos recém-preparados, com processamento mínimo.

Os dois grupos sofreram níveis similares de perda de peso, mas as bactérias intestinais de cada um deles eram radicalmente diferentes. As pessoas que se alimentaram com baixo teor de alimentos ultraprocessados apresentaram microbioma intestinal mais diversificado, enquanto as outras demonstraram menos diversidade e maior incidência de prisão de ventre.

Os participantes com diversidade intestinal reduzida também tenderam a relatar alterações menos favoráveis em relação a inchaços e dores abdominais.

A equipe não conseguiu identificar exatamente os motivos, mas Lane afirma que isso pode se dever a diferenças no tipo de fibras. "A dieta com maior teor de alimentos ultraprocessados continha misturas de aditivos e quantidades muito menores de ingredientes minimamente processados, enquanto a dieta com baixo teor de ultraprocessados continha muitos tipos diferentes de fibras, provenientes de alimentos integrais, e muito menos aditivos", explica ela.

Cozinhar do zero

Outro ponto importante a ser considerado é que muitos alimentos ultraprocessados contêm baixo teor dos nutrientes de que necessitamos, o que pode afetar o intestino.

Também se sabe que uma alimentação rica em fibras e polifenóis serve de nutrição para nossas bactérias intestinais. E que os polifenóis possuem propriedades anti-inflamatórias. Com o acúmulo de evidências, perguntei aos entrevistados o que o público deve procurar para minimizar alguns desses efeitos prejudiciais dos emulsificantes.

O melhor, para Sarah Berry, é cozinhar do zero, usando ingredientes frescos ao máximo possível. Mas evitar totalmente os alimentos ultraprocessados não é algo realista, afirma ela.

Kevin Whelan é da mesma opinião.

"Eu não gostaria de dizer ao público em geral 'nunca coma nada que tenha um aditivo alimentar incluído'", explica ele. "Eu certamente não faço isso e não recomendo às pessoas."

O que todos nós podemos fazer, segundo Whelan, é pensar em comer de forma mais saudável. "O alimento é realmente algo precioso nas nossas vidas e devemos celebrá-lo."

Claramente, a moderação é fundamental e, em vez de nos concentrarmos apenas no que devemos eliminar, podemos também considerar o que devemos acrescentar à nossa alimentação, segundo Berry — especialmente em relação aos lanches, que representam uma parcela significativa das nossas calorias diárias.

Por fim, uma boa regra é comer o máximo possível de produtos frescos. Eles só trarão benefícios para a nossa saúde e para os nossos micróbios.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Health. 

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17. Projeto de soltura de tartarugas na amazônia bate recorde, mas tráfico ameaça conservação

'Ainda estamos perdendo a batalha', afirma fundador da iniciativa Bicho de Casco, que atua no rio Jauaperi. Governo federal reconhece lacunas na fiscalização do comércio ilegal em área protegida na divisa de Amazonas e Roraima.

Gabriel Gama, fsp, 09.03.2026

Cerca de 8.000 filhotes de quelônios devem ser soltos na amazônia neste ano, o maior número já registrado na história do projeto Bicho de Casco, que atua desde 2010 na reserva extrativista Baixo Rio Branco-Jauaperi, uma unidade de conservação federal na divisa de Amazonas e Roraima. Porém, a ameaça do tráfico permanece.

A iniciativa protege cem quilômetros do rio Jauaperi, afluente do Negro, e envolve as espécies iaçá, irapuca, tracajá e tartaruga-da-amazônia, que só põem ovos nas praias fluviais e são mais vulneráveis à extinção. Com o apoio de empresas locais de ecoturismo, a operação paga ribeirinhos para vigiarem as margens durante a noite no período de desova e inibir pessoas que capturam os animais para comércio ilegal ou consumo próprio.

O projeto adota uma metodologia de manejo desenvolvida pela Ufam (Universidade Federal do Amazonas) que envolve a retirada dos ovos das praias e a construção de ninhos artificiais, para evitar ataques de iguanas e formigas.

Projeto Bicho de Casco solta filhotes de quelônios na reserva extrativista Baixo Rio Branco-Jauaperi, na divisa de Amazonas e Roraima - Marcelo Roveri/Divulgação Bicho de Casco

O protocolo também prevê a soltura dos répteis cerca de 30 dias após a eclosão dos ovos, quando termina a cicatrização do umbigo dos animais, para que eles tenham maior probabilidade de sobreviver. Até o momento, aproximadamente 5.700 filhotes já foram devolvidos à natureza na temporada 2025 e 2026, e outros 2.500 devem ser liberados nos próximos meses.

"É gratificante que hoje seja o maior projeto do tipo na bacia do rio Negro, mas estamos longe de realmente mudar alguma coisa", afirma o escocês Paul Clark, fundador do Bicho de Casco. "Ainda estamos perdendo a batalha, o tráfico consegue levar muito mais de 7.000 filhotes por ano."

Francisco Parede coordena a iniciativa de conservação e diz sentir falta de mais vigilância das autoridades. "O que a gente está fazendo parece que é só uma gotinha ainda muito pequena para equilibrar esse ecossistema. A gente sabe que falta muito, é uma luta pela vida inteira."

O engenheiro civil Ruy Tone, um dos fundadores da Expedição Katerre e do hotel Mirante do Gavião Amazon Lodge, empresas financiadoras do projeto, afirma que as fêmeas adultas são o alvo principal dos traficantes, o que rompe o ciclo de reprodução.

Projeto devolve quelônios aos rios da amazônia - galeria 

Hueliton Ferreira, chefe do Núcleo de Gestão Integrada do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) em Novo Airão (AM), reconhece a existência de lacunas na fiscalização.

"A gente tem se esforçado bastante, mas o território é muito extenso, e não temos número suficiente de pessoas para fiscalizar toda a área." Ele diz que o órgão apreendeu 2.000 quelônios adultos na área do baixo rio Negro durante o verão amazônico em 2025.

Segundo Tone, uma canoa simples consegue transportar em torno de 200 animais, que são vendidos ilegalmente por cerca de R$ 50 cada em Novo Airão ou Manaus. Assim, é possível faturar até R$ 10 mil em uma única viagem, mas, descontado o gasto com combustível e a divisão do dinheiro com mais pessoas, o lucro individual cai para aproximadamente R$ 2.000 por temporada.

"A ideia era tentar, pouco a pouco, introduzir na cabeça das pessoas de que era necessário preservar os quelônios. Ao mesmo tempo, a gente deveria fazer a nossa parte, que é resolver a questão de remuneração, porque, em parte, eles caçam justamente para gerar renda", afirma.

O projeto segue o formato de pagamento por serviços ambientais, e cada ribeirinho recebe um salário mínimo durante os dois meses de vigília nas praias, além de R$ 5 por filhote saudável solto na natureza.

Hoje, o Bicho de Casco faz parte do Programa Nacional de Monitoramento da Biodiversidade do ICMBio e tem apoio técnico da ONG Wildlife Conservation Society (WCS). O projeto abrange as comunidades Itaquera, ⁠São Pedro, ⁠Samaúma, ⁠Xixuaú, ⁠Xiparinã e ⁠Marral, e cada uma decide internamente se concorda em participar e assumir o compromisso de não atacar quem vigia as praias. Desde o início, o projeto encontra resistência.

"O pior é a gente ter que enfrentar os parentes. Tem que ter muito pé no chão e coragem, não deixa de ter uma pressão para intimidar", diz Parede. No passado, ele conta que houve casos de pessoas irem armadas às praias para afrontar quem vigiava os ninhos.

Na visão de Tone, o aumento no número de animais liberados neste ano não é reflexo de uma recuperação das espécies, mas da própria remuneração, iniciada em 2012. "O pagamento está estimulando as pessoas a protegerem mais, porque vão receber mais. Inconscientemente, isso vai fazer a população aumentar e deve ter mais fêmeas aptas a chocar no futuro."

Parede diz que chegou a observar muitos quelônios no período de desova. "Hoje não tem um terço do que eu vi 20, 30 anos atrás, caiu de uma maneira alarmante. Eu me lembro de ver a praia cheia de covas com ovos, a gente tirava um pouco [para comer] e deixava o restante todo lá. Meu pai era extrativista e sempre me ensinou que a gente tinha que pensar no amanhã", recorda.

"O meu sonho era a gente poder soltar 10 mil, 20 mil filhotes. Isso é algo que ainda está difícil pensar que pode ser realizado", afirma. "Todas as gerações que estão aqui e as que estão por vir teriam que conviver com os quelônios. Se um rio como o nosso não tiver quelônios, a vida acabou, é como se não tivesse sentido nenhum."

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18. Estreito de Hormuz carrega petróleo, plásticos e fertilizantes, e crise afeta exportações brasileiras

Canal travado pelo Irã recebe 25% de petróleo e fertilizantes do mundo, além de 35% de plásticos. Para o Brasil, impacto é sobretudo na exportação de proteína animal; 24% do frango brasileiro é vendido para países da região.

Pedro Lovisi, 9.3.2026, fsp

Além de ser uma rota estratégica para o comércio de petróleo no mundo, o estreito de Hormuz também é fundamental para o transporte de fertilizantes, plásticos, carnes e grãos. Por causa disso, analistas temem que o bloqueio do canal pelo Irã possa gerar um efeito cascata na economia mundial, altamente dependente desses produtos.

Entre consultorias especializadas no tema é consenso que o fechamento do estreito gera consequências diretas e indiretas. As primeiras passam justamente pelo aumento dos preços causado pela tensão geopolítica, além da paralisação brutal no fornecimento dos produtos que passam pela região. Já a segunda está atrelada aos impactos da falta de suprimento de alguns insumos a indústrias e produtores agrícolas de outros países.

Navios no estreito de Hormuz - Amr Alfiky/Reuters

O maior receio, por ora, é sobre a comercialização de petróleo, insumo primário na fabricação de vários combustíveis, seja industriais, elétricos ou automotivos. Do canal, saem cerca de 25% do óleo bruto produzido em todo o mundo, e um bloqueio de longo prazo pode afetar em massa o fornecimento de combustíveis vitais para a economia mundial.

Pesam também no comércio internacional os efeitos do aumento do preço da commodity, que chegou a passar dos US$ 100 nesta semana, algo que não se via desde 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia. O petróleo chegou a disparar quase 30%, na maior variação diária desde 1988, e ficar próximo de US$ 120. Desde o último dia 28, quando EUA e Israel bombardearam o Irã e assassinaram o líder supremo Ali Khamenei, o preço do petróleo subiu 51%.



No caso do petróleo, o impacto pode ser incontornável. Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA, na sigla em inglês), Irã, Iraque, Kuwait, Qatar e Bahrein usam o estreito para exportar a grande maioria do petróleo produzido por suas empresas. Entre os grandes produtores de petróleo da região, apenas Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos têm rotas alternativas, ainda assim limitadas.

"Alguns países têm oleodutos que evitam o estreito, mas eles não conseguem substituir totalmente a rota", diz Mario Veraldo, CEO da consultoria MTM Logix. Por isso, se o bloqueio durar por muito tempo, o efeito principal será uma redução temporária da oferta disponível no mercado internacional, o que normalmente se traduz em forte pressão nos preços do petróleo, além de impactos indiretos em frete marítimo, energia e inflação global."

A China é o principal destino do petróleo que sai do estreito. O país asiático é hoje o país que mais cresce no mundo e qualquer interrupção nas indústrias chinesas pode gerar consequências significativas para empresas exortadoras de de outros países, incluindo do Brasil. Outras nações dependentes do fornecimento de óleo bruto da região são Índia, Coreia do Sul e Japão.

Além disso, o bloqueio do estreito tem implicações significativas para o comércio de gás natural, geralmente atrelado à produção de petróleo. Qatar e Emirados Árabes representam 20% de toda a exportação mundial de gás natural liquefeito, um insumo fundamental para indústrias e termelétricas. De acordo com a IEA, cerca de 93% da exportação de GNL do Qatar e 96% dos Emirados Árabes passa pelo canal.

O gás natural, aliás, é um insumo fundamental na produção de fertilizantes, outro setor que deve ser bastante afetado com o bloqueio do canal. Um quarto do comércio mundial de fertilizantes passa pelo estreito de Hormuz, o que joga pressão a produtores agrícolas e, consequentemente, ao preço de alguns alimentos. Nesse caso, o maior impacto é em cima dos fertilizantes com enxofre – 44% da produção mundial passa pelo estreito.

Químicos e plásticos também serão impactados. A produção desses insumos está atrelada ao gás natural e, consequentemente, tende a se concentrar em regiões ricas no combustível – cerca de 10% da produção mundial de plástico está no Oriente Médio. Nas contas da MTM Logix, 35% de todo o transporte de químicos e plásticos passam pelo canal.

Mario Veraldo chama atenção também para o comércio de grãos. Os países do Golfo consomem 15% de todos os grãos produzidos no mundo, com destaque para trigo, cevada, milho e arroz. "O trigo é de longe o principal, porque é a base da alimentação. Depois vem cevada e milho, que são usados principalmente para ração animal, especialmente em países do Golfo que têm produção de aves e pecuária", afirma.

COMÉRCIO DO BRASIL

Grande parte das exportações de frango do Brasil está em risco, de acordo com a DataLiner/Datamar, ferramenta que analisa dados do comércio exterior.

A empresa aponta que 23,4% de todo frango exportado pelo Brasil tem como destino os sete países da região (Qatar, Bahrein, Irã, Iraque, Emirados Árabes Unidos, Kuwait e Arábia Saudita). Quando analisados todos os tipos de carne, a porcentagem é de 14,8%.

O setor de madeira também deve ser impactado. Hoje, os sete países consomem 5,1% de toda a madeira exportada pelo Brasil.

Já nas importações, o Brasil pode ser impactado na compra de plástico e petróleo. Segundo a DataLiner/Datamar, 5,1% dos derivados de petróleo e 4,1% do plástico importados pelo país vêm da região.

De acordo com Andrew Lorimer, CEO da Datamar, o bloqueio já tem afetado os fretes do transporte de mercadorias entre Brasil e China.

"Quando os contêineres ficam retidos, a oferta cai, gerando pressão de alta nos fretes de todos os trades. Inclusive no principal da América do Sul, que é o China-Brasil, onde o frete já saiu de patamares mais baixos (como US$ 1.500 a US$ 2.000) para algo em torno de US$ 3.000, refletindo essa escassez, ou ameaça de escassez", diz Lorimer. Durante a pandemia, esse valor ultrapassou os US$ 10 mil.

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19. Dia da Mulher em São Paulo lembra casos de feminicídio

Sob chuva forte, ato do Dia da Mulher em São Paulo lembra casos de feminicídio 

Manifestantes pedem criminalização da misoginia para combater o discurso 'redpill'. Protesto organizado por movimentos sociais ocupou a avenida Paulista na tarde deste domingo (8)

Nathalia Durval, 8.3.2026, fsp

Uma chuva forte acompanhou o ato do Dia Internacional da Mulher contra o feminicídio na avenida Paulista, em São Paulo, neste domingo (8). A criminalização da misoginia e o fim da escala 6x1 também eram reinvindicações da marcha organizada por movimentos sociais e partidos de esquerda.

A concentração começou às 14h, em frente ao Masp (Museu de Arte de São Paulo). A manifestação seguiu pela avenida Paulista e pela rua Augusta.

Antes de molharem, cartazes exibiam pedidos por mulheres vivas, fim do discurso "redpill", liberdade, salários igualitários e reafirmavam que criança não é mãe.

Mulheres recentemente assassinadas foram lembradas no ato. Um grupo montou um pequeno cemitério com bonecas e outro reuniu sapatos femininos sobre um pano vermelho, representando as várias vítimas.

Ato pelo Dia Internacional da Mulher na avenida Paulista, em São Paulo, neste domingo (8); sapatos femininos dispostos sobre pano vermelho representam vítimas de feminicídio - Bruno Santos/Folhapress

O Brasil registrou recorde de feminicídio: em 2025, foram 1.568 vítimas, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Desde a tipificação do crime, em 2015, 13.448 mulheres foram assassinadas no país. O estado de São Paulo reúne o maior número de assassinatos de mulheres por razões de gênero – foram 270 em todo o ano passado. Só em janeiro, 27 mulheres foram mortas no estado paulista.

Capitais brasileiras têm atos pelo fim da violência contra as mulheres 

Um dos casos mais marcantes é o de Tainara Souza Santos, de 31 anos, que foi atropelada e arrastada por um quilômetro presa ao carro dirigido por Douglas Alves da Silva, na zona norte de São Paulo, em novembro do ano passado. Ela morreu após um mês internada.

Monica Maria, 43, pedia justiça por sua filha, Tatiana, que foi estuprada e morta aos 17 anos, em agosto de 2024, no Jardim Pantanal, na zona sul paulistana. O caso continua sem conclusão após quase dois anos —não foram chamadas testemunhas nem emitido pedido de prisão preventiva, tampouco convocados suspeitos para depoimentos, relata a mãe.

"Até hoje, ninguém fez nada. Esse descaso é porque somos mulheres, somos negras ou porque moramos numa periferia?", diz Maria. "Destruíram a minha vida. Saí da minha casa de madrugada para trabalhar e quando voltei, encontrei minha filha dentro de um saco cinza."

Ato do Dia da Mulher em São Paulo destaca casos de feminicídio - fotos 

Maria e outras manifestantes relatam medo apenas pelo fato de serem mulheres. "É muito triste imaginar que o teu sexo, o teu corpo, acaba sendo tão vulnerável que você tem que lutar por si e pelas outras", diz a psicóloga Cristiane Martins, 39. "Não é o estado que vai te salvar, não é o homem, é você mesma", completa.

O discurso dos movimentos no ato criticava sobretudo cortes do governo de Tarcísio de Freitas (Republicanos) em áreas ligadas à proteção das mulheres. Em 2025, a Secretaria de Políticas para a Mulher de SP chegou ao terceiro ano sem recursos para projetos de combate à violência e igualdade de gênero.

"As reinvindicações de hoje são um chamado de responsabilidade de agentes públicos para que adotem ações efetivas de enfrentamento à escalada de violência contra as mulheres", diz Alice Ferreira, advogada e cofundadora do levante Mulheres Vivas.

"O corte de orçamento nas políticas de proteção tem impacto direto nessa realidade, assim como a tolerância institucional com práticas e discursos misóginos", completa.

Para Ferreira, o recorde de feminicídios "é resultado de um processo que vem se agravando nos últimos anos". "Assistimos a uma guinada conservadora que tenta recolocar a mulher em um lugar de submissão, questionando sua autonomia e seu direito de decisão", diz.

Ao mesmo tempo, a sociedade vê o aumento de conteúdos misóginos nas redes sociais, ligados sobretudo à chamada cultura "redpill". "O Brasil sempre foi um país machista e violento, mas hoje vemos esse machismo se radicalizando em formas cada vez mais explícitas de misoginia", diz Ferreira.

Carregando um cartaz contra o discurso "redpill", a técnica em nutrição Ivanete Araújo, 49, participou do protesto com o marido e os filhos. Sua filha de 14 anos, Estela, foi vítima de bullying na escola, conta. "Saber que existe apologia de ódio contra as mulheres dói ainda mais quando acontece com alguém da sua casa, quando um grupo de meninos da escola que seguem 'redpills' se juntam e falam que odeiam uma menina sem motivo."

Marcha em Curitiba pela vida das mulheres - galeria 

A garota, no entanto, diz que mesmo assim sai em defesa de outras colegas contra as brincadeiras machistas dos amigos. Para Ivanete, é fundamental educar os filhos desde cedo sobre respeito às mulheres. "Falo na escola da minha filha que essa educação precisa vir de casa, os pais precisam monitorar o que os filhos estão acessando. A principal influência tem que ser de casa, do pai."

Para a psicóloga Cristiane Martins, os homens devem fazer parte dessa luta. "Eles causam tudo isso e precisam fazer parte da solução. O discurso redpill tem que acabar", diz.

Os movimentos sociais pedem pela criminalização da misoginia e pela aprovação do PL 896/2023, de autoria da senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA), que prevê incluir o crime de ódio à mulher entre as condutas punidas pela Lei do Racismo. O projeto voltou a tramitar após ser barrado e será votado na próxima quarta (11) na Comissão de Direitos Humanos (CDH) do Senado.

"Essa é hoje uma das pautas mais urgentes para a proteção das mulheres no Brasil. Acreditamos que a aprovação pode representar um marco importante na defesa das mulheres, assim como foi a criminalização do racismo no passado recente. A defesa da vida das mulheres também passa pela coibição de discursos discriminatórios e de práticas que naturalizam a violência."

Ferreira acredita que este 8 de Março ganhou mais relevância, movimentado sobretudo pelas notícias recentes de violência contra a mulher. "Infelizmente pelos motivos errados. Gostaríamos de estar nas ruas debatendo avanços nos direitos das mulheres e não reivindicando algo tão básico e urgente quanto o direito de viver."

A gerente de projetos Jane Lima, 48, reforçava em cartaz que os homens que cometem esses crimes não são monstros ou psicopatas. "A gente tá falando de homens normais. Inclusive, os bons que nada fazem também validam esse comportamento", diz.

Parentes e parceiros são os principais agressores – 8 em cada 10 feminicídios foram cometidos pelo ex ou atual parceiro, segundo Relatório do Fórum Brasileiro de Segurança.

Rio de Janeiro, Vitória, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Florianópolis, Brasília, São Luís, Fortaleza, Maceió, Belém são outras capitais que também organizaram atos neste domingo (8).

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20. Nova vida para um filme assassinado 

A IA pode ressuscitar Soberba (1942), que Orson Welles deixou para trás e a RKO destruiu. Atores, vozes e cenários originais serão reconstruídos a partir do material que sobreviveu.

Ruy Castro, fsp, 7.3.2026

Com perdão pelo óbvio, se você é cinéfilo é claro que já viu "Cidadão Kane" (1941), de Orson Welles, não? A pergunta certa — por "Kane" ter passado tantas décadas como o maior filme da história — seria: "Quantas vezes?" Já a pergunta não tão óbvia vem agora: "E ‘Soberba’, você viu?". Foi o filme seguinte de Orson, de 1942, e seu título original é "The Magnificent Ambersons". Se você disser que não, ninguém poderá censurá-lo — não é um dos clássicos mais populares do cinema. E, se disser que sim, estará apenas admitindo que foi tapeado. Nem você nem nenhum de nós viu "Soberba". Não o filme escrito, produzido e dirigido por Orson.

O que todos vimos foi a contrafação parida na sala de montagem da RKO, sem a presença de Orson, então no Rio a serviço do governo americano, empenhado num filme para estreitar as relações Brasil e EUA durante a Segunda Guerra. Pelas suas costas, o estúdio, que não gostava dele nem do filme, cortou sequências inteiras ou remontou-as em outra ordem, picotou planos longos e converteu o final amargo num happy end bobo. Os 131 minutos originais foram reduzidos a 88. O material cortado foi jogado no mar, inclusive os negativos. E todas as buscas de uma cópia integral, perdida em algum depósito (até mesmo no Rio), fracassaram.

Mas, agora, um milionário cineasta anglo-iraquiano, Edward Saatchi, 41 anos, associado à Amazon, anuncia um projeto monumental: reconstruir com a IA o que se destruiu de "Soberba". Como? Refilmando as cenas mutiladas com atores que serão "transformados" em Tim Holt, Anne Baxter e Joseph Cotten, os quais terão suas vozes digitalizadas, em cenários levantados a partir das fotos que sobreviveram. Tudo isso seguindo o detalhado roteiro de Orson e as instruções que ele deixou com o montador Robert Wise antes de embarcar para cá.

Por incrível que pareça, não é um projeto absurdo, tanto que os herdeiros de Orson estão a favor. A pergunta é: um dia teremos "Soberba"?

Não sei. Mas, se der certo, é a prova de que a IA pode ressuscitar até ectoplasmas.

Cartaz original, por Norman Rockwell, de "The Magnificent Ambersons", de Orson Welles - Reprodução

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21Caso Marielle: STF condena irmãos Brazão a 76 anos - 25/02/2026 

STF condena irmãos Brazão a 76 anos de prisão por mandarem matar Marielle

OUTRO LADO: defesas negam acusação apresentada pela Procuradoria e contestam delação. Delegado Rivaldo Barbosa é condenado a 18 anos de prisão por atrapalhar as investigações

Primeira Turma do STF - julgamento da (AP) 2434 - 25/2/26 - vídeo 

 Italo Nogueira & Isadora Albernaz, fsp, 25.02.2026

A Primeira Turma do STF (Supremo Tribunal Federal) decidiu por unanimidade nesta quarta-feira (25) condenar o ex-deputado Chiquinho Brazão e seu irmão Domingos Brazão como mandantes da morte da vereadora Marielle Franco (PSOL) e chefes de uma milícia na zona oeste do Rio de Janeiro.

Os ministros também votaram para condenar Rivaldo Barbosa, ex-chefe de Polícia Civil, por obstrução de Justiça e corrupção. Eles consideraram não haver provas de participação do delegado no planejamento do crime contra Marielle, como apontava a acusação, mas viram evidências de atos para atrapalhar a investigação após o homicídio.

FOTOMarielle1 Familiares de Marielle acompanharam julgamento no STF nesta quarta-feira - Pedro Ladeira/Folhapress

Chiquinho e Domingos foram condenados, cada um, a 76 anos e 3 meses de prisão em fechado e 200 dias-multa no valor de dois salários mínimos. Rivaldo foi sentenciado a 18 anos de reclusão em regime fechado e 360 dias-multa no valor de um salário mínimo.

Eles também foram condenados a pagar R$ 7 milhões a familiares de Marielle, do motorista Anderson Gomes, morto no atentado, e Fernanda Chaves, sobrevivente do ataque. O Supremo também determinou a perda dos cargos públicos do acusados. Ainda cabe recurso das defesas contra a decisão à própria turma.

O voto do ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, foi acompanhado na íntegra pelos ministros Cristiano Zanin, Cármen Lúcia e Flávio Dino.

A defesa de Rivaldo Barbosa afirmou que não concorda com a decisão. "A manutenção do nome de Rivaldo nesse imbróglio é justamente para sustentar a condenação dos demais pelos homicídios", disse, em nota, o advogado Marcelo Ferreira.

Os demais advogados não se pronunciaram sobre a decisão.

O julgamento foi acompanhado por familiares e amigos de Marielle, como a ministra Anielle Franco (Igualdade Racial), irmã da vereadora. O presidente do STF, Edson Fachin, também assistiu a parte da sessão na plateia.

Moraes considerou que ficou comprovada a motivação política para o crime, concordando com a tese da PGR de que Domingos e Chiquinho decidiram matar a vereadora para impedir que ela continuasse a prejudicar os interesses da família em práticas de grilagem de terras.

O crime seria o ápice das desavenças entre os Brazão e integrantes do PSOL iniciadas em 2008 na CPI das Milícias, comandada pelo ex-deputado Marcelo Freixo na Alerj (Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro).

"Eles não tinham só contato com a milícia. Eles eram a milícia. Eles participavam da milícia. Um como executor dos atos milicianos, [Robson] Calixto, os outros como a grande influência política, a garantia política da manutenção daqueles territórios dominados pela milícia", disse Moraes.

"Dentro desse contexto e da necessidade de perpetuação das suas atividades ilícitas, tanto para a finalidade econômica, quanto para a finalidade e domínio político dessa organização miliciana, dessa organização criminosa, Domingos Inácio Brazão e João Francisco Inácio Brazão foram os mandantes do duplo homicídio e da tentativa de homicídio contra as vítimas Marielle Francisco da Silva, à época vereadora do município do Rio de Janeiro, Anderson Pedro Matias Gomes, então motorista da vereadora, e Fernanda Gonçalves Chaves, então assessora da vereadora."

Moraes apontou que o crime teve também conotação racista e misógina, em razão de Marielle ser uma mulher negra.

"Se juntou a questão política com a misoginia, com o racismo, com a discriminação. Marielle Franco era uma mulher preta e pobre estava, no popular, peitando os interesses de milicianos. Qual o recado mais forte que poderia ser feito? E na cabeça, misógina, preconceituosa de mandantes e executores: 'Quem iria ligar para isso?' Uma cabeça de 100 anos, 50 anos atrás. 'Vamos eliminá-la e isso não terá grande repercussão'", afirmou o ministro.

Moraes indicou não ter encontrado provas de envolvimento de Rivaldo Barbosa na trama. O delegado, segundo a PGR, foi consultado antes do crime e orientado que o homicídio não fosse cometido em trajeto que tivesse a Câmara Municipal como destino ou origem.

"Entendo que não há prova específica de que Rivaldo tenha participado dos homicídios", disse ele.

Contudo, o ministro decidiu desclassificar a acusação de homicídio feito pela PGR para analisar crimes de obstrução de Justiça e corrupção. "Não tenho nenhuma dúvida, pela prova dos autos, que Rivaldo, tanto como chefe da Divisão de Homicídios, como chefe da Polícia Civil, recebia propina."

O PM Ronald Pereira foi condenado a 56 anos de prisão por monitorar os passos da vereadora. O PM reformado Robson Calixto, o "Peixe", foi condenado a 9 anos de reclusão por integrar a milícia comandada pelos Brazão.

Boa parte da acusação é baseada na colaboração premiada de Ronnie Lessa, o ex-PM que confessou ter matado Marielle e Anderson. Ele afirmou que receberia como recompensa a autorização de explorar um área na zona oeste que poderia lhe render até R$ 25 milhões.

As defesas negam as acusações e afirmam que a delação de Ronnie Lessa não foi acompanhada de provas que confirmem os relatos do ex-PM, como manda a lei.

Apontam, por exemplo, que não há evidências independentes dos encontros relatados por Lessa e os irmãos Brazão, assim como não há prova de contato deles com Rivaldo Barbosa.

O julgamento do caso Marielle Franco - fotos https://fotografia.folha.uol.com.br/galerias/1814368301639603-julgamento-do-caso-marielle-franco#foto-1814368301740688

O ministro Flávio Dino abordou, de forma indireta, as críticas das defesas. Afirmou que diversos pontos da colaboração de Lessa foram confirmados. Declarou também que delações não tem valor absoluto, nem desvalor absoluto.

"O nosso juízo aqui não pode ser nunca, jamais, uma reconstituição física do que aconteceu, porque isso exigiria poderes metafísicos, sobrenaturais de um juiz. O que nós fazemos é uma reconstrução racional daquilo que nós consideramos como, acima de qualquer dúvida, razoável", disse ele.

Uma das corroborações, para Dino, foram o que ele considerou como falhas identificadas nos primeiros meses da investigação do homicídio.

"Uma investigação tão falha, tão lenta, tão negligente, só é possível na presença de elementos de muito poder para explicar a quantidade de absurdos que marcam esse caso. Não existe crime perfeito. Existe crime mal investigado. Eu diria que esse crime foi pessimamente investigado. E foi pessimamente investigado no começo de modo doloso", declarou ele.

Os ministros se alinharam à posição da PGR, de que as provas corroboraram o cenário descrito na colaboração de Lessa. A acusação também alegou que a ocultação de provas é uma característica de organizações criminosas como as milícias, principalmente com o envolvimento de policiais experientes, como Rivaldo.

Os acusados afirmaram em depoimento ao STF que Lessa está buscando proteger o ex-vereador Cristiano Girão, que também foi investigado pela Polícia Civil como um dos mandantes. Um dos argumentos é o fato do ex-PM ter tentado desvincular o ex-vereador de um outro homicídio em que os dois respondiam juntos. Lessa e Girão foram condenados juntos no ano passado por este crime, contrariando a versão do colaborador.

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Crime aconteceu em março de 2018

Marielle e seu motorista Anderson Gomes foram mortos numa emboscada no dia 14 de março de 2018. Ela estava num carro retornando para casa após um evento sobre atuação política de mulheres negras. O veículo foi atingido por 13 tiros, dos quais 4 atingiram a vereadora na cabeça e pescoço, e 3 o seu motorista. A assessora Fernanda Chaves sobreviveu ao atentado.

Lessa e Queiroz foram presos em março de 2019 após investigação da Polícia. A identificação dos supostos mandantes ocorreu apenas após a entrada da Polícia Federal no caso em 2023, por ordem de Flávio Dino, à época ministro da Justiça do governo Lula.

A investigação da PF aponta que o inquérito da Polícia Civil buscou se desviar dos reais executores e mandantes. A prisão dos executores só ocorreu, segundo os investigadores federais, após a pressão pelo esclarecimento do caso. Os mandantes, de acordo com essa conclusão, continuaram sob proteção na esfera estadual.

Delegados envolvidos no caso negam e afirmam que os Brazão foram investigados ao longo dos inquéritos instaurados, mas sem a obtenção de provas suficientes. Outros suspeitos foram analisados, como os ex-vereadores Girão, Marcelo Siciliano e Carlos Bolsonaro —este último, já descartado.

A PF primeiro conseguiu firmar um acordo de colaboração premiada com Queiroz. Meses depois, Lessa também se tornou delator, indicando os mandantes.

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22. Simonal: Processo explicita colaboração entre cantor e o DOPS

Simonal, Proc. 3.540/72

PROCESSO A QUE A FOLHA TEVE ACESSO EXPLICITA COLABORAÇÃO ENTRE CANTOR E O DEPARTAMENTO DE ORDEM POLÍTICA E SOCIAL; EM VIDA, ARTISTA DESMENTIA VÍNCULO COM ÓRGÃOS DE SEGURANÇA

Mário Magalhães, fsp, 21 de junho de 2009

O artista em 1974

Wilson Simonal de Castro, um dos mais talentosos cantores do Brasil em todos os tempos, declarou formalmente em 1971 que era informante do Dops (Departamento de Ordem Política e Social), a polícia política do antigo Estado da Guanabara.

Seu depoimento na polícia foi avalizado reiteradamente em processo judicial por seu advogado Antonio Evaristo de Moraes Filho.

A declaração de Simonal e a confirmação de Evaristo nunca foram divulgadas -conhecem-se apenas as manifestações de proximidade do artista com o Dops, mas em público ele negava ter sido informante.

A Folha teve acesso ao processo 3.540/72, do qual consta o depoimento em que Simonal reconhece seus serviços.

Ele foi processado sob acusação de ser o mentor de uma sessão de tortura -em dependências do Dops- para obter confissão de desfalque de Raphael Viviani, ex-funcionário de sua firma.

Relatório confidencial do Dops, anexado aos autos e ainda hoje inédito, explicitou a ligação -reafirmada por um agente do órgão, Mário Borges, em interrogatório na Justiça.

Testemunha de defesa do artista, o tenente-coronel do Exército Expedito de Souza Pereira descreveu-o como "colaborador das Forças Armadas". Foi Simonal (1938-2000) quem se disse "colaborador dos órgãos de informação", sublinharam Viviani e seu advogado, Jorge Alberto Romeiro Jr.

O Ministério Público, representado pelo atual deputado Antônio Carlos Biscaia (PT-RJ), apontou o intérprete como "colaborador das Forças Armadas e informante do Dops". Sentença proferida pelo juiz João de Deus Lacerda Menna Barreto concordou.

Acórdão (decisão de corte superior) do TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro), assinado em 1976 pelos desembargadores Moacyr Braga Land e Wellington Pimentel, referendou: Simonal era "colaborador das autoridades na repressão à subversão". Foi a palavra final da Justiça.

Todos esses documentos integram o processo 3.540, instaurado em 1972 na 23ª Vara Criminal, concluído em 1976 e em cujas 655 folhas jamais houve divergência: dos amigos mais fiéis ao antagonista mais ressentido, todos estiveram de acordo que Simonal -e ele assentia- era informante do Dops.

Em abril, a Folha pediu ao TJ para ler os papéis. Localizados em junho, eles foram consultados pelo jornal na íntegra. A história que eles descortinam vai na contramão de versões que rejeitam a relação do cantor com o aparato de segurança da ditadura militar (1964-85).

Entrevistas com sobreviventes da época e pesquisa em periódicos jogam luz no episódio.

Em 2000, a Folha publicou reportagem com base na sentença de 11 páginas, encontrada no Arquivo Público do Estado do RJ, que guarda o acervo do Dops.

Contudo, não achou cópia do conjunto do processo nem do informe interno acerca de Simonal, da declaração em que ele se afirmou colaborador ou de lista de eventuais pessoas delatadas por ele.

Desde a década de 1930 havia informantes da polícia política nos meios culturais do Rio. Eles não costumavam ser identificados nominalmente em relatórios, como se constata no Arquivo do RJ.

Tortura

A controvérsia sobre as conexões do cantor ressurgiu com vigor devido ao documentário "Simonal - Ninguém Sabe o Duro Que Dei", de Claudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal.

O filme narra da ascensão ao estrelato à morte no ostracismo, determinada pela imagem de "dedo-duro" - função que no fim da vida Simonal contestava ter desempenhado. Ele se dizia alvo de mentira inventada por inimigos, de racismo e de perseguição da esquerda.

O cantor não foi julgado pela colaboração com a ditadura, mas por ter levado Viviani para a sede do Dops, na rua da Relação, região central do Rio.

Simonal foi ao departamento e emprestou seu carro aos policiais, que buscaram Viviani em casa quase à meia-noite de 24 de agosto de 1971, passaram pelo escritório do artista e terminaram na rua da Relação.

Lá torturaram Viviani com choques elétricos, socos e pontapés até ele assumir por escrito o desvio.

Simonal estava no Dops, para onde ajudou a transportar -desde seu escritório, em Copacabana- o ex-chefe de escritório da Simonal Comunicações Artísticas.

Ele não participou da tortura nem a testemunhou.

Um inquérito foi instaurado na 13ª DP porque a mulher do funcionário registrou o desaparecimento.

Foram condenados o cantor, um policial do Dops, Hugo Corrêa de Mattos, e um colaborador do órgão, Sérgio de Andrada Guedes. Em 1974, por crime de extorsão, a pena de cinco anos e quatro meses de reclusão. Em 1976, depois da desclassificação do crime para constrangimento ilegal, a três meses. Simonal passou nove dias detido. Os três negaram as acusações.

"Subversivos"

Relatos jornalísticos recentes sustentam que foi o inspetor Mário Borges, chefe da Seção de Buscas Ostensivas do Dops e notório torturador de presos políticos, a fonte original da classificação de Simonal como informante.

Na 23ª Vara, Borges disse que o cantor "era informante do Dops e diversas vezes forneceu indicações positivas sobre atividades de elementos subversivos".

Não citou a identidade dos "elementos". O interrogatório do policial ocorreu em 16 de novembro de 1972.

Acontece que, 450 dias antes, Simonal já prestara declarações no Dops que foram anexadas ao processo e não chegaram ao noticiário.

Às 15h de 24 de agosto de 1971, perto de nove horas antes da diligência contra Viviani, Simonal afirmou ter ido à rua da Relação "visto aqui cooperar com informações que levaram esta seção a desbaratar por diversas vezes movimentos subterrâneos... subversivos no meio artístico". Também não nomeou os "movimentos".

Ou seja, o primeiro a sustentar que Simonal era informante foi ele mesmo, e antes da ação da polícia. Na ocasião, o cantor lembrou que no golpe de Estado de 1964 esteve no Dops "oferecendo seus préstimos ao inspetor José Pereira de Vasconcellos" -outro denunciado por sevícias contra opositores.

Simonal assinalou que se aproximou ainda mais do Dops quando pediu e obteve proteção contra uma ameaça de explosão de bombas em um show.

Em 1971, ele se queixou de um "grupo subversivo" que prometia sequestrá-lo se não "arrumasse" dinheiro.

A voz anônima parecia, ele disse, a de Viviani.

Na 13ª DP, o cantor depôs em 28 de agosto. Apresentou-se como "homem de direita" e relembrou ter dito no Dops (no dia 24) que conhecia, "como da área subversiva", "uma irmã do senhor Carlito Maia" -era a produtora cultural Dulce Maia, ex-presa política e àquela altura exilada.

Esse depoimento vazou à imprensa, mas nele Wilson Simonal calou, nem lhe perguntaram, sobre a atuação como informante.

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23. F For Fake: Verdades e Mentiras 

Assista a "F for Fake Verdades e Mentiras Orson Wells" no YouTube aqui

Verdades e Mentiras sobre Orson Welles

Por João Lanari Bo 

Com “F For Fake: Verdades e Mentiras”, pensei ter descoberto um novo tipo de filme, e era o tipo de filme que eu gostaria de passar o resto da minha vida fazendo. O fracasso do “F For Fake: Verdades e Mentiras”, na América e também na Inglaterra, foi um dos grandes choques da minha vida. Eu realmente pensei que estava no caminho certo. Como forma, é um filme de ensaio pessoal, ao contrário de um documentário. É bem diferente – não é um documentário (Orson Welles em entrevista para Leslie Megahey, 1980).

Jorge Luis Borges, ilustre personagem que despistava e desconstruía referências mentais entranhadas na cultura, escreveu que o mais famoso filme de Welles, “Cidadão Kane”, parecia um labirinto sem centro. A imagem, assustadora, serve também como descrição da trajetória errante de Orson Welles no cinema, a partir do sucesso estrondoso da estreia. Orson Welles, como é sabido, não apenas escolheu personagens ariscos e incertos em relação ao “contorno identitário”, como também ele mesmo tratou de forjar um emaranhado de pistas para seus biógrafos, despistando mais do que dando pistas, projeto que culminou no genial filme-ensaio “F for Fake” (Verdades e Mentiras, 1973).

Como William Shakespeare, por exemplo, Orson cultivou um uso e abuso da “licença dramática” no que concerne à identidade autoral, trabalhando situações limítrofes onde narrativas e personagens parecem esvair-se diante dos nossos olhos de tão fluidas e bem construídas que são. Não é este o núcleo narrativo de “F For Fake: Verdades e Mentiras”? Seria Orson Welles um artista barroco e radiante ? ou um prestidigitador, um… charlatão ? Os shakespearianos ortodoxos de todos os quadrantes, inclusive no Brasil, torcem o nariz para a versatilidade e o ímpeto deglutivo com que Orson trabalhou em cima dos textos ditos “clássicos” do bardo, cortou cenas e personagens, introduziu situações e fundiu personagens. Sua famosa montagem “Voodoo MacBeth”, encenada no Harlem, em 1936, foi um sucesso de público e crítica; inspirado pela esposa, Welles transferiu o set da peça para o Haiti, convocou um elenco exclusivo de atores negros (na linha do Teatro Experimental do Negro, de Abdias do Nascimento) e, claro, soltou a mão no voodoo, contagiando a narrativa com uma ênfase acalorada na bruxaria.

Esse deslocamento permanente de personagens e situações iria adquirir o aroma pós-moderno definitivo em “Verdades e Mentiras”, caracterizando uma espécie de instabilidade e assustando muita gente, que enxergou uma tendência conservadora na deriva cronológica da obra wellesiana. Nada mais equivocado: como diz a pesquisadora Catherine Benamou, wellesiana de boa cepa: talvez seja preferível falar da relutância de Welles em aceitar qualquer crença única como dogma – embora ele tenha permanecido muito comprometido com os direitos humanos e civis – e de seu afastamento gradual dos canais formais de expressão política, para se concentrar sobre o filme de ensaio como um fórum de debate.

Para Orson, portanto, realizar um filme-ensaio é sobretudo um ato político. Welles, uma criatura meio iluminista meio renascentista, e também influenciado pelo New Deal de Roosevelt, como lembra Benamou – passou a vida às voltas com pressões e preocupações associadas à alta voltagem de seus projetos e a às dificuldades inerentes de realização. A vertigem da linguagem radiofônica que produziu nos anos 30, por exemplo, reaparece em certa medida no revolver de camadas dos sujeitos-falsários que atravessam  “F For Fake: Verdades e Mentiras”, configurando uma pressa que conflui para a “potencialização do falso” como moeda de troca da linguagem. Em quem acreditar? E não é esse o dilema da pós-verdade política dos nossos dias?

Ao fabular com humor e versatilidade nas fronteiras que regulam nossa relação com o que chamamos de “realidade” – verdadeiro ou falso, binômio arquétipo do mundo objetivo – Orson executa com maestria a receita de Deleuze, que propõe a necessidade de ultrapassagem dos limites entre real e ficcional (ou imaginário) no discurso artístico. Mas, atenção: não se trata de extinguir essa fronteira, mas de torná-la incerta, escorregadia, indiscernível. No limite, o que importa é enxergarmos a ficção como potência de criação, em outras palavras, compreender que mesmo a verdade é uma ficção. Não é outra a atualidade gritante de “F For Fake: Verdades e Mentiras”.

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24. Dostoiévski no Tik Tok

Protagonista de 'Noites brancas' conquista jovens no TikTok, impulsionando vendas de clássico de Dostoiévski. Novela do russo é mais uma impulsionada pela rede chinesa, que se consolidou como fábrica de best-sellers e levou Collen Hoover a Taylor Jenkins Reid a novos leitores

Por Ruan de Sousa Gabriel de O Globo 

Nos debates do TikTok, personagem de novela curta de Dostoiévski é chamado de 'macho palestrinha', e um vascaíno se identifica com sua desilusão — Foto: Arte de Gustavo Amaral sobre pintura de Vasily Perov

No estande da Editora 34 na Bienal do Livro do Rio, em junho passado, jovens não paravam de brotar atrás de “Noites brancas”, novela do russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881), ou pedindo indicações de outros títulos do autor. A gerente comercial Eliete Cotrim quis saber por que tanto interesse justamente naquele livrinho (não chega a cem páginas), sobre a desilusão amorosa de um autointitulado “sonhador”, que nunca havia desfrutado do prestígio de outras obras-primas do escritor, como “Crime e castigo” e “Os irmãos Karamázov”. 

— Eles me mostraram vídeos no TikTok, alguns até bonitinhos, que apresentavam “Noites brancas” como uma história romântica — recorda Eliete. — Há meses estávamos intrigados com o aumento das vendas e não tínhamos noção de que o TikTok estava por trás disso. 

Desde a pandemia, a rede social chinesa se consolidou como uma fábrica de best-sellers e impulsionou a popularidade de escritores como Collen Hoover e Taylor Jenkins Reid entre os jovens. Mas ninguém imaginava que os booktokers seriam capazes de colocar na lista de mais vendidos um autor russo morto há quase 150 anos e com fama de difícil. Em 2025, a edição da 34 de “Noites brancas”, traduzida por Nivaldo dos Santos, vendeu 62.391 cópias, um salto de 463% em relação ao ano anterior. Segundo o PublishNews, foi o 13º livro de ficção mais vendido no ano passado, à frente de arrasa-quarteirões como “Tudo é rio” (17º), de Carla Madeira, e “Dias perfeitos” (20º), de Raphael Montes. 

“Noites brancas” está em domínio público e é publicado por várias editoras (34, L&PM, Penguin-Companhia e Principis, entre outras). Somando todas as edições, as vendas da novelinha cresceram 261% em 2025, de acordo com levantamento da Nielsen. Luiz Gaspar, diretor regional da empresa, disse ao GLOBO que a procura pelas obras do russo cresce desde 2020, “mas nada perto do boom que ocorreu de 2024 para 2025”, quando foi registrado um aumento de 142%. E não é somente aqui que o TikTok colocou “Noites brancas” na moda. Em dezembro de 2024, o jornal The Guardian publicou uma reportagem sobre o sucesso que a novela começava a fazer nas redes sociais entre os britânicos. 

História de verão

No TikTok, a hashtag #NoitesBrancas soma mais de duas mil publicações, e a audiência de vídeos sobre o livro aumentou 15% no segundo semestre do ano passado. No mesmo período, as buscas por “Noites brancas” e “Dostoiévski” cresceram 77% e 82%, respectivamente. Há vídeos de todo tipo sobre a obra, de resenhas curtíssimas a tiradas bem-humoradas. Um booktoker xingou o protagonista de “macho palestrinha”, mas admitiu ter gostado do final: “Te dá um tapa na cara.” Outro internauta comparou a desilusão amorosa do protagonista à sua relação com seu time, o Vasco.

A novela foi publicada pela primeira vez em 1848, e o título se refere às noites de verão em São Petersburgo, onde, devido à latitude extrema, o Sol nunca se põe totalmente e a luminosidade do crepúsculo dura até o amanhecer. O narrador é um rapaz de 26 anos, melancólico. Alheio ao convívio social, ele se entrega a devaneios e passeia sem rumo pela cidade.

Certa noite, avista uma moça chorando numa ponte. Quando ela sai apressada, ele vai atrás e a defende de um bêbado que tenta agarrá-la. Apesar da resistência inicial da jovem, que se chama Nástienka, ele a acompanha até em casa e os dois começam a conversar. O rapaz se apresenta como um “sonhador” e diz que gostaria de vê-la novamente. Ela concorda, mas com uma condição: “Não se apaixone por mim.” Dá para imaginar como a história vai acabar, não?

— “Noites brancas” é um dos melhores livros de Dostoiévski. Vale por si mesmo, não precisa ser lido como introdução à obra do autor. Prefiro “Noites brancas” a “O adolescente” e a “Os demônios”, romance de sua fase final, a meu ver confusos e problemáticos — afirma Rubens Figueiredo, tradutor da edição da Penguin-Companhia, que vendeu 16.235 exemplares no ano passado (aumento de 168% em relação a 2024). 

Em seu texto de apresentação a “Noites brancas”, Figueiredo explica que o “sonhador” é um dos “tipos” criados por Dostoiévski, “uma figura que sintetiza um conjunto de atitudes com relação à vida”, como “pequeno homem” (cidadãos ordinários, humilhados e ofendidos pela servidão e pela burocracia) e o “niilista” (que rejeitava os valores russos em nome do racionalismo europeu). Nas “Crônicas de Petersburgo”, de 1847, Dostoiévski descreve os sonhadores como personagens “sôfregos de uma vida espontânea”, “fracos, femininos, ternos”.

Danilo Hora, editor da 34, menciona uma resenha de 1849 na qual Aleksandr Drujínin afirma que a novela retrata “uma geração de pessoas jovens, que são gentis e inteligentes, e são infelizes”, que, “por orgulho, tédio e solidão”, “tornam-se sonhadores”. A carapuça talvez sirva aos usuários do TikTok que se identificaram sinceramente com o protagonista.

— O sonhador tem uma vida dupla, é canhestro na rua e pleno e melancólico dentro de si mesmo. Nada é mais adolescente do que essa sensação de não ter par no mundo — diz Hora, que aponta algumas peculiaridades de “Noites brancas” que tornam a leitura convidativa, como sua “ironia doce e romântica” e a ênfase na ação dramática.

Fiódor Dostoiévski escreveu “Noites brancas” num período de crise profissional, porque seus livros anteriores, “O duplo” e “A senhoria”, haviam sido massacrados pela crítica. Autor de “Como ler os russos” (Todavia), o tradutor Irineu Franco Perpetuo descreve a novela como “um acerto de contas com o Romantismo”.

— Alguns críticos veem “Noites brancas” como uma paródia, como se o autor estivesse ironizando os valores românticos. Mas, obviamente, aos 18 anos você não percebe que é uma paródia e se identifica com o romantismo do livro. Talvez isso explique a conexão dos moleques do TikTok com o livro— diz ele, que leu a novela na adolescência e ficou “chapado”. — “Noites brancas” foi adaptado por cineastas como Luchino Visconti e Robert Bresson, mas nenhum deles fez por Dostoiévski o que o TikTok está fazendo.

“Noites brancas” é o livro preferido do servidor público Philipe Rodrigues, de 31 anos, que virou booktoker em 2023 e já dedicou 157 vídeos ao russo. Um deles compartilhando um de seus trechos mais “sonhadores”: “E me pergunto: onde estão os meus sonhos? E balanço a cabeça e digo: como os anos passam voando! E, de novo, me pergunto: o que você fez de seus anos de vida? Onde você enterrou seus melhores dias? Você viveu mesmo ou não?” 

— É um livro que me impactou. Muita gente se identifica com o drama do protagonista, que é muito retraído, vive no mundo das ideias e se frustra. Também tem quem ache o personagem emocionado demais — afirma Rodrigues, que soma mais de 58 mil seguidores no TikTok e percebe que a maior parte do de seu público não passa dos 20 e poucos anos. — Dostoiévski furou a bolha. Vejo até influenciadores de desenvolvimento pessoal indicando “Noites brancas”. 

Escritor e editor da Companhia das Letras, Antonio Xerxenesky afirma que, além de “Noites brancas”, outros livros do russo têm sido redescobertos. “Memórias do subsolo”, outra novela protagonizada por um sujeito avesso ao convívio social, é a ficção mais vendida do selo Penguin-Companhia.

— Os personagens de Dostoiévski são movidos por angústia, um sentimento predominante entre a nova geração de leitores — diz o autor do premiado romance “Uma tristeza infinita”.

Na Editora 34, o sucesso de “Noites brancas” impulsionou a procura por outros clássicos fininhos da literatura russa do século XIX, como “A morte de Ivan Ilitch” e “Felicidade conjugal”, de Liev Tolstói. No começo do ano, um catatau de Dostoiévski também começou a vender mais: “Crime e castigo”. Mas dessa vez não era por causa do TikTok, informa a gerente comercial Eliete Cotrim. Ela notou que as vendas aumentaram quando saiu na imprensa que “Crime e castigo” é uma das obras que o ex-presidente Jair Bolsonaro tem à disposição caso queira reduzir sua pena por meio da leitura. (Ruan de Sousa Gabriel) 

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25Como Espinosa encontrou Exu

Exu revela que a ordem é apenas uma versão possível do movimento. Espinosa dissolve Deus na natureza. Ambos retiram o homem do centro do palco.

José Eduardo Agualusa, O Globo, 28.02.2026 

Estátua de Espinosa em Haia, na Holanda — Foto: Wikimedia Commons

Venho pensando muito num antigo provérbio iorubá: “Exu matou um pássaro, ontem, com uma pedra que lançou hoje.”

Gostamos de imaginar o tempo como uma seta que corre em direção ao futuro. Estamos certos de que a causa precede o efeito. No início temos o gesto — a seguir, a consequência. Exu, senhor das encruzilhadas, ri-se às gargalhadas desta ingênua ilusão. O que nos diz o famoso ditado africano é que o ontem pode ser reescrito por aquilo que acontece agora.

A física quântica, com a sua defesa da retrocausalidade — a ideia de que decisões presentes afetam estados passados de partículas —, ecoa o pensamento iorubá.

Também Baruch Espinosa, o filósofo holandês de origem judaico-portuguesa, defendeu no século XVII um conjunto de ideias que se aproximam das filosofias animistas — sejam africanas ou indígenas brasileiras. Na concepção de Espinosa, Deus e Natureza são dois nomes para a mesma realidade. Todo o resto — a Humanidade incluída — são expressões temporárias dessa realidade. Não existem consciências autônomas. Há formas que surgem, se entrelaçam e se desfazem.

Espinosa não conhecia Exu. Contudo, as suas ideias dialogam harmoniosamente com a cosmogonia africana, para a qual tudo está ligado a tudo. Não somos ilhas. Somos simples nós numa extensa rede de forças. Convivemos com os que nos antecederam, dialogamos com os que ainda não nasceram, respiramos juntos, numa continuidade onde o passado permanece ativo.

Nesta ordem de ideias, o princípio de Ubuntu — “eu sou porque nós somos” — impõe-se não apenas como uma ética social, mas como ontologia.

Espinosa suspeitava que acolhendo estas ideias estaríamos pondo em causa o livre-arbítrio. Se somos formas de uma única substância, se existimos numa trama onde todos os instantes coexistem, que significa escolher? Talvez não possamos sair do plano. Mas podemos ser o lugar onde o plano se torna consciente de si.

A liberdade deixa então de ser a possibilidade de fazer diferente e passa a ser a experiência de participar. Não escolhemos o território, mas sentimos a encruzilhada. Essa sensação é real. A dúvida faz parte da arquitetura do mundo.

Também a responsabilidade muda de lugar. Ao ferirmos alguém não estamos, nesta perspectiva, a ofender uma lei imposta por um deus remoto — estamos diminuindo a potência da própria rede. Amar, ao contrário, é a forma que temos de expandir a realidade.

Exu não destrói a ordem. Revela que a ordem é apenas uma versão possível do movimento. Espinosa não nega Deus. Dissolve-o na Natureza inteira. Ambos, cada um à sua maneira, retiram o Homem do centro do palco.

Espinosa irritou os teólogos judeus ao expor-nos como simples personagens numa tapeçaria que não começa nem termina conosco. O ontem ainda está acontecendo, e continuará acontecendo amanhã. O futuro, pelo seu lado, tem raízes vivas, bem fincadas no presente.

Contudo, continuamos a escolher o que iremos comer no café da manhã, as palavras de amor ou de ódio, os pequenos e grandes gestos. Continuamos lançando pedras — hoje — sem saber que pássaros já tombaram ontem.

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26. Caso Marielle ressuscita crença na punição de culpados 

Julgamento sedimentou a certeza de que, em crimes contra a vida, a justiça é sempre parcial, nunca plena.

Familiares de Marielle Franco e Anderson Gomes após julgamento do caso no Supremo Tribunal Federal (STF) — Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo

Flávia Oliveira, O Globo, 28.02.2026

Chegou ao fim, quase oito anos depois da barbaridade, o longo caminho de punição aos assassinos de Marielle Franco e Anderson Gomes. A Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal condenou, por unanimidade, mais cinco envolvidos no crime. O desfecho, essencial a uma nação que se entende democrática, sinaliza repúdio à impunidade e atenção à cobrança incessante das famílias das vítimas, da sociedade civil e da opinião pública, estrangeira inclusive. Ninguém soltou a mão de ninguém, até que as autoridades fossem capazes de identificar tanto quem matou quanto quem encomendou a morte da vereadora carioca em pleno exercício do mandato.

O duplo homicídio, bem como a tentativa de assassinato de Fernanda Chaves, assessora e amiga de Marielle, escancarou ao Rio de Janeiro e ao Brasil as vísceras de uma indústria da morte, que agia livremente no estado em que cinco governadores e dois chefes do Legislativo já estiveram atrás das grades. Abriu-se a tampa do bueiro que escondia as relações obscenas entre crime organizado, polícia e política. Todos os sete condenados eram agentes públicos. Homens formados, contratados ou eleitos para servir, mas que agiram contra o povo.

Ronnie Lessa e Élcio de Queiroz, um autor dos disparos, outro motorista do carro que conduzia o atirador, são ex-policiais militares. Foram condenados a 78 e 59 anos de prisão, respectivamente, pelo Tribunal do Júri, em 2024. No STF, nesta semana, foram julgados outros cinco, em razão da prerrogativa de foro do então deputado federal Chiquinho Brazão. Sim, um parlamentar reeleito, em 2022, com 77 mil votos, encomendara a morte da vereadora. Com ele, agiram o irmão, Domingos Brazão, ex-deputado estadual, conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, e Ronald Paulo de Alves, major da PM, encarregado de monitorar a vereadora. Os três foram condenados por duplo homicídio qualificado e uma tentativa. Os irmãos Brazão, considerados culpados também por organização criminosa armada, pegaram 76 anos, cada; o policial, 56.

Outro servidor envolvido foi o delegado Rivaldo Barbosa, ex-chefe de Polícia Civil. Ele foi condenado por corrupção e obstrução de Justiça. Livrou-se das acusações de homicídio por insuficiência de provas, mas cumprirá 18 anos de reclusão por, comprovadamente, ter agido para atrapalhar investigações. O deputado federal Tarcísio Motta e a vereadora Monica Benicio, viúva de Marielle, ambos do PSOL, encaminharam ao Ministério Público do Rio pedido para que sejam reabertos os inquéritos arquivados quando Barbosa ocupava cargos de comando na polícia fluminense. Por fim, foi condenado por organização criminosa Robson Calixto Fonseca, assessor de Brazão no TCE.

O STF determinou a perda dos cargos públicos de quatro dos cinco condenados. O mandato de Chiquinho Brazão foi cassado, um ano após a prisão. Por faltas, não por decisão dos pares. A justiça não passou pelo mundo político, indício da influência do parlamentar nos círculos do poder. Quando Brazão foi preso, apenas 18 dos 46 deputados federais do Rio de Janeiro votaram na Câmara para mantê-lo detido. Outros 18 votaram por anular a prisão, três se abstiveram, sete faltaram à sessão.

Inquérito policial, denúncia da Procuradoria-Geral da República e votos dos quatro ministros da Primeira Turma destacaram a atuação de Chiquinho e Domingos Brazão como líderes de milícia em Jacarepaguá, Zona Sudoeste do Rio. A ação penal revelou participação em grilagem de terras, exploração do mercado imobiliário e de serviços, domínio territorial, econômico e eleitoral de comunidades. Por terem interesses contrariados pela ação de Marielle Franco, encomendaram a execução da vereadora, num ato que mistura violência política, misoginia e racismo. No ambiente da brutalidade miliciana, a vereadora era o corpo “matável”.

A condenação dos réus é alento a quem, por longos anos, batalhou contra a impunidade. A elucidação do crime foi pedagógica também para desmascarar o enlace de estruturas de poder com o crime organizado no Rio. E pior: ainda vigente. Ontem mesmo, a PF indiciou TH Joias, deputado estadual eleito em 2022, e Rodrigo Bacellar, presidente licenciado da Alerj, por envolvimento com o Comando Vermelho. A facção controla quase metade (47,5%) dos territórios sob domínio do crime, uma área de 150 quilômetros quadrados em que vive 1,6 milhão de pessoas, segundo o Mapa Histórico dos Grupos Armados do Rio, elaborado por Geni/UFF e Instituto Fogo Cruzado.

Se ressuscitou a crença na punição de culpados, o julgamento sedimentou a certeza de que, em crimes contra a vida, a justiça é sempre parcial, nunca plena. O assassinos ceifaram a vida de uma mulher, mãe, filha, irmã, esposa, amiga, profissional; e de um homem, pai, filho, marido, trabalhador. Marielle e Anderson não voltarão. Nunca mais ela, ele ou os sonhos que semearam. Em 2016, 46 mil eleitores depositaram nas urnas a esperança no projeto político de uma mulher negra, nascida na favela, que estudou até o mestrado e, por uma década, atuou pelos direitos humanos. O crime cometido por sete homens públicos nos roubou o que Marielle era. E o que prometia.

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27. Escombros são a metáfora de um mundo em pedaços

Ato inicial do conflito de EUA e Israel contra o Irã, destruição de escola para meninas pode ter sido crime de guerra. Custo humano de ataques patrocinados por Trump e Netanyahu não pode ser esquecido.

Laura Greenhalgh, fsp, 5.2.2026

Imagens de escombros tornaram-se banais. Estão em celulares, computadores, aparelhos de TV, painéis eletrônicos, veículos da mídia, reprisando o espetáculo sombrio das guerras. Podem vir da Ucrânia, de Gaza, do Haiti, do Irã, de Israel, do Líbano, de tantas partes. A destruição da escola Shajareh Tayyebeh (A Boa Árvore), na cidade iraniana de Minab, ilustra esse mundo em pedaços.

A tragédia foi ato inicial da guerra deflagrada por Israel e Estados Unidos contra o Irã no último sábado (28). A despeito de toda a tecnologia de precisão, seus mísseis destruíram uma escola primária para meninas no mesmo dia em que foi assassinado o líder Ali Khamenei. Pelo que se tem notícia, houve ao menos 175 mortes, a maior parte delas de crianças entre 6 e 12 anos.

O jornal britânico The Guardian foi exemplar na checagem dos fatos. O ataque se deu num dia de aula, pois, no Irã, a semana letiva vai de sábado a quinta. Por volta das 10h, o bombardeio atingiu a escola, provocando uma carnificina cujas imagens agências de notícias optaram por não distribuir. Contudo, restaram os escombros, de novo eles, recobrindo corpos dilacerados, entre mochilas, tênis, cadernos e livros.

Imagens do desespero das famílias também circularam. Pais e mães perguntaram por que a escola não os avisou do ataque iminente, pois teriam ido buscar suas meninas. Tudo rápido e ao mesmo tempo. O governo parece ter entrado em contato com a rede escolar naquela manhã, determinando a suspensão das aulas. Será que a ordem chegou antes ou depois das bombas em Shajareh Tayyebeh?

O ataque teve a ver com a proximidade da escola do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica —um complexo militar com edifícios, ginásio esportivo, clínica médica e até área para concertos, também atingido. Esta vizinhança rendeu a versão, posterior ao ataque, de que seria uma escola-escudo da elite militar. Nada foi comprovado. Também em Gaza, crianças feridas e desassistidas pagaram o preço da classificação de hospitais públicos da região de bunkers do Hamas. Muitas, com a própria vida.

O fato é que investigações rigorosas e rápidas são devidas a estas famílias e à comunidade internacional. É o que cobra Volker Türk, Alto Comissário da ONU para Direitos Humanos, admitindo que o caso pode ter elementos que o enquadrem como crime de guerra.

Também rodaram o mundo imagens do velório coletivo na terça (3), com valas ainda sendo abertas durante o enterro das crianças. Visão devastadora. Por ironia ou cálculo político, na véspera, Melania Trump presidiu uma sessão do Conselho de Segurança da ONU, dedicada à educação em zonas de conflito. É para rir ou chorar?

A primeira-dama americana ouviu de Rosemary DiCarlo, subsecretária geral da organização, que uma em cada cinco crianças no mundo vive em guerras ou fugindo delas. São 473 milhões. Só em 2024, a ONU contabilizou 2.374 ataques a estabelecimentos de ensino e hospitais. O estupro de vulneráveis subiu 35% no período. Melania enalteceu o tema e, teatralmente, bateu o martelo no comando da sessão.

Não custa repetir: a infância é a grande vítima das guerras. Hoje Trump, sócio de Binyamin Netanyahu, só pensa em conflitos nos quais possa se escorar diante dos insucessos da sua Presidência. O custo humano das ofensivas destes dois homens não deve ser esquecido.

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28. Governo Lula revoga decreto de hidrovias na amazônia 

Governo Lula revoga decreto de hidrovias na amazônia após um mês de protesto de indígenas

Indígenas comemoram a revogação do decreto - vídeo

Manifestantes acampam desde o dia 22 de janeiro na sede da Cargill em Santarém (PA). Reunião em Brasília, nesta segunda-feira (23), encerrou a queda de braço.

Jorge Abreu, fsp, 23.02.2026

Os indígenas que se opõem ao plano de hidrovias em rios da amazônia https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/02/terminal-da-cargill-em-santarem-segue-fechado-em-meio-a-protestos.shtml receberam, nesta segunda-feira (23), o anúncio da revogação do decreto 12.600/2025 quando faziam um ritual sagrado, em frente à sede da Cargill em Santarém (PA). O grupo acampa no terminal portuário da empresa do agronegócio, em protesto, há mais de um mês, desde o dia 22 de janeiro.

Os manifestantes pediam o fim do projeto, assinado pelo presidente Lula (PT), que incluía hidrovias nos rios Tapajós, Madeira e Tocantins no Programa Nacional de Desestatização (PND). Ao longo do mês, o número de pessoas no ato aumentou e chegou a 1.200, segundo a organização.

A revogação gerou comoção entre os indígenas, que veem o decreto como uma privatização dos rios e temem os efeitos da dragagem dos cursos d'água para a passagem de grandes embarcações com produtos do agronegócio. A falta de consulta prévia às comunidades impactadas é outra insatisfação.

O governo, por sua vez, defendia que o decreto tratava apenas da realização de estudos e que o transporte hidroviário é o tipo mais sustentável, com menor emissões de carbono. A gestão Lula também afirmava que o impacto ambiental seria considerado nos projetos.

No final desta tarde, após a revogação, os indígenas percorreram a parte externa da Cargill em marcha, com cânticos e gritos. Muitos se emocionaram e se abraçaram entre si. A expectativa é finalizar o acampamento nos próximos dias, após a formalização da decisão no Diário Oficial da União.

Indígenas se abraçam comemorando a revogação de decreto sobre hidrovias na amazônia, nesta segunda (23), em Santarém (PA), após mais de um mês de protesto - Adriano Machado/Reuters

Nesta segunda, uma reunião em Brasília com representantes dos povos da região do Baixo Tapajós, no oeste do Pará, e do governo federal resultou na revogação do decreto, a principal pauta do movimento.

O ministro da Secretaria-Geral, Guilherme Boulos (PSOL), confirmou a revogação em postagem nas redes sociais. "Anunciamos a decisão do governo Lula de revogar o decreto 12.600, após me reunir hoje com os povos indígenas do Tapajós, Tocantins e Madeira. Este governo tem capacidade de escuta do povo, inclusive para rever decisões quando necessário", escreveu.

Boulos afirmou que a decisão será publicada na próxima edição do Diário Oficial da União.

Sonia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas, classificou a decisão como "muito importante".

"Hoje [segunda-feira] tomamos aqui uma decisão muito importante nesse diálogo com o presidente Lula, que mesmo em viagem [à Ásia] escutou, dialogou com a gente para que a gente pudesse rever essa decisão", disse Guajajara.

"Os indígenas estão aqui [em Brasília] pela segunda vez em 33 dias de ocupação com mulheres, crianças, que seguem lá acampadas, com condições precárias, riscos, ameaças. Então foi muito importante a gente também considerar essa questão humanitária", completou.

O cacique Gilson Tupinambá, em Santarém, foi um dos que festejaram a decisão. "Nós lutamos contra a gigante Cargill, mas eles se enganaram, porque gigante somos nós. A nossa luta é ancestral. Essa terra aqui é sagrada. E hoje, com a nossa espiritualidade, nós conseguimos revogar o decreto de morte", disse à Folha.

Indígenas realizam ritual durante protesto na sede da Cargill no terminal portuário de Santarém (PA) nesta segunda (23) - Adriano Machado/Reuters

A Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira) afirmou, em nota, que "acompanha com atenção" o anúncio do revogação do decreto, "ainda sem data definida para sua publicação no Diário Oficial da União".

Desde a semana passada, os manifestantes enfrentavam a pressão de uma ordem judicial que determinava a desocupação do terminal portuário, concedida a pedido da empresa do ramo do agronegócio. Em resposta, eles adentraram a parte interna da Cargill, pela primeira vez, no sábado (21), o que elevou a tensão do ato.

Na última sexta-feira (20), também houve protesto de indígenas e representantes de movimentos sociais em frente ao escritório da Cargill em São Paulo.

A Cargill, em nota, classificou o ato em São Paulo e a entrada na sede em Santarém como "duas ações violentas". Os atos, segundo o comunicado, resultaram em vandalismo em ambos ativos da empresa.

O governo Lula, após as manifestações, já havia suspendido, em 6 de fevereiro, a licitação que habilitou uma empresa para a dragagem do rio Tapajós.

Como mostrou a Folha, o governo Lula selecionou uma firma para dragagem a um custo de R$ 61,8 milhões sem obter a licença ambiental – e sem protocolar um pedido com esse propósito– para a retirada de material em sete pontos do rio, entre Itaituba e Santarém, no Pará.

Manifestantes indígenas celebram revogação de decreto de hidrovias na amazônia - fotos 

Documentos da Semas (Secretaria de Meio Ambiente e Sustentabilidade) do governo do Pará, do ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) e do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) apontam impactos considerados "significativos" a partir de dragagem no Tapajós.

Entre esses impactos estão alteração da qualidade da água, assoreamento do leito do rio, prejuízo à pesca, alteração de rotas de transporte usadas por comunidades ribeirinhas e indígenas, risco de insegurança alimentar nessas comunidades e alteração em ciclos de reprodução da tartaruga-da-amazônia, numa área que é a segunda maior em reprodução da espécie.

Antes da mobilização em Santarém, o projeto de hidrovias já havia sido alvo de protestos na COP30, conferência do clima das Nações Unidas realizada em novembro em Belém.

Na ocasião, indígenas mundurukus bloquearam o acesso à zona azul, o espaço diplomático do evento, para reivindicar uma reunião com o governo federal. Na data, foi feita a promessa de que haveria consulta prévia às comunidades impactadas.

A realização de consulta livre, prévia e informada às comunidades é determinada pela Convenção nº 169 da OIT (Organização Internacional do Trabalho), da qual o Brasil é signatário.

O repórter viajou a convite da Aliança Chega de Soja. Colaborou Jéssica Maes, de São Paulo.

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29. Guimarães Rosa, a demolição e a perda da memória 

Lamentável história a da demolição da casa do doutor José Lourenço, em Curvelo, referência na obra de Guimarães Rosa

Ignácio de Loyola Brandão, O Estado, 28/02/2026 

Para Sergio Abranches.

Uma postagem circula pelo grupo “Literatura e Liberdade”, criado em Minas Gerais pelo Afonso Borges, um querido de todos. Escreveu Afonso: “Lamentável história a da demolição da casa do doutor José Lourenço, em Curvelo, referência na obra de Guimarães Rosa. O Mondolivro de hoje vem carregado de indignação com a cidade.

Foi demolida a casa do doutor José Lourenço, médico que marcou profundamente a vida – e a literatura – de João Guimarães Rosa. Foi ele quem descobriu a miopia do menino Joãozito, ainda em Cordisburgo.

Essa cena virou literatura em Campo Geral, no livro Corpo de Baile. Quando Miguilim coloca os óculos pela primeira vez, tudo se revela: o mundo fica novo, luminoso, quase espantoso. É um dos momentos mais comoventes da obra de Rosa – e nasceu de um história real, ligada ao patrimônio material e imaterial da história de Curvelo.

Capa do livro 'Corpo do Baile', de João Guimarães Rosa Foto: Editora Global

Rosa chamava Curvelo de “cidade capital da minha literatura” e aparece 19 vezes em seus livros. Ali viveram parentes, afetos, histórias. Mesmo assim, a casa do médico que inspirou esse momento fundador foi ao chão, com autorização oficial. Lamentável. Quando uma casa dessa importância é demolida, some um pedaço da história do Brasil e da literatura brasileira.

A história não termina aqui. Imediatamente, o jornalista e escritor Sergio Abranches entrou no cortejo escrevendo-me: “Ah, a casa do doutor José Lourenço, no Curvelo? Ele era meu bisavô, o médico do Curvelo tão presente em toda a obra de Guimarães Rosa, e personagem decisivo de Miguilim.

Como era médico de minha mãe, sua neta mais velha fez questão de que o parto de seu primeiro filho fosse feito por ele. Meus pais moravam em Barbacena. Eles foram para Curvelo de trem, quando minha mãe estava no sétimo mês de gravidez. Eu nasci nesta casa demolida, a que Guimarães visitava sempre que passava por Curvelo. Fiquei chocado com a demolição. Além de fazer parte da história cultural do sertão mineiro, a capital da literatura de Guimarães Rosa, como ele dizia, era uma das mais antigas construções de Curvelo, em estilo neoclássico. Meu bisavô sustentou a Santa Casa da cidade por quase 40 anos. Lá atendia os mais pobres. Saía a cavalo pelos arredores da cidade, onde estavam os pobres, peões, e cuidava deles e suas famílias, todas as manhãs. Só à tarde, no seu consultório, atendia os fazendeiros ricos. A casa tinha uma entrada independente, era o consultório.

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30. Filmes brasileiros em Berlim sugerem uma produção em retomada 

Filmes brasileiros diversos em Berlim sugerem uma produção em retomada. 

Cineastas como Grace Passô, Allan Deberton e Eliza Capai apresentaram diferentes faces do país. Obras levaram alguns prêmios em mostras paralelas à Berlinale

José Henrique Mariante, 22.02.2025, fsp

Muitas perguntas poderiam ser feitas a Beth de Araújo, diretora independente americana do potente "Josephine", a história de uma menina de oito anos que testemunha um crime sexual. Em Berlim, no entanto, ter "metade da família brasileira", como declarou em entrevista, fez a realizadora ser questionada sobre o cinema do país natal de seu pai.

"Acompanho os diretores brasileiros, assisto a todos os filmes", disse Araújo, depois de arriscar um "oi, tudo bem?" que poucos entenderam na sala de imprensa da Berlinale, na sexta. Dias antes, curiosamente, ela passava quase despercebida na recepção organizada pela embaixada brasileira na capital alemã para Kleber Mendonça Filho, diretor de "O Agente Secreto", que concorre ao Oscar neste ano em quatro categorias.

O salão estava cheio de brasileiros ligados à indústria de cinema, reflexo de quase uma dezena de inscrições do país nas mostras paralelas do Festival de Berlim. "Feito Pipa", de Allan Deberton, ganhou o Urso de Cristal da mostra Generation Kplus e também o prêmio do júri internacional da mostra paralela.

O longa acompanha a vida de Gugu, um menino de 12 anos, vivido por Yuri Gomes, que mora com a avó ao lado de uma barragem e tem uma relação difícil com o pai, papel de Lázaro Ramos. "Ver nossas histórias alcançando o mundo e sendo celebradas internacionalmente mostra a potência criativa do nosso país", disse Deberton.

"Fiz um Foguete Imaginando que Você Vinha", primeiro longa de Janaína Marques, foi eleito pelos leitores do jornal berlinense Tagesspiegel, parceiro de mídia da Berlinale, como destaque da seção Fórum. "É muito emocionante ver um filme tão íntimo se conectar com o público em um festival tão especial como o de Berlim", disse Marques, em nota.

Veja filmes brasileiros selecionados para o Festival de Berlim 2026 - fotos

Também tiveram sessões concorridas "Nosso Segredo", de Grace Passô, "Isabel", de Gabe Klinger, "A Fabulosa Máquina do Tempo", documentário de Eliza Capai sobre o impacto do Bolsa Família sobre meninas de uma cidade do interior do Piauí, e "Se Eu Fosse Vivo… Vivia", de André Novais Oliveira, com a escritora Conceição Evaristo como uma das protagonistas.

"Fazer um filme são tantas etapas e tanto tempo. O dia que você vê outras pessoas assistindo é uma loucura", declarou Passô sobre este que é seu primeiro longa na direção, adaptando as primeiras peças que escreveu. "Esse sistema tão industrial do cinema difere muito do teatro. Sobretudo essa relação com o mercado."

"Nosso Segredo" versa sobre o luto em uma família negra em Belo Horizonte. "São figuras quase arquetípicas de uma família com muitos filhos, com muitos irmãos no Brasil", afirmou a diretora. "A ideia de um filho mais velho que, na ausência do pai, acaba ocupando o espaço dele na família. O matriarcado, onde a mãe é tão importante e central."

"Não é comum a gente ver tantos rostos retintos em uma tela de cinema, apesar do Brasil ser o Brasil", afirmou, rindo, a atriz Ju Colombo, que interpreta a personagem da mãe. "Mas é universal o que está sendo mostrado ali."

Marina Person em cena do filme 'Isabel', de Gabe Klinger - Reprodução

Um Brasil bem diferente é mostrado em "Isabel". A cineasta Marina Person, que foi chamada para contribuir com o roteiro sobre a história de uma sommelier de vinhos naturais, uma especialidade sua, acabou assumindo o papel-título. "Isabel", na verdade, é um grande passeio pela São Paulo afetiva de Gabe Klinger.

"A cidade retratada no filme tem muito a ver com esse olhar de uma pessoa que ficou fora e volta para o lugar de origem, mas que, de certa forma, também pertence a quase um passado", afirmou Person, sobre o longo tempo que o diretor viveu expatriado e longe de uma São Paulo que está sumindo: casas de vila, ruas de paralelepípedo, vizinhos.

Klinger usou como locação sua própria casa, no bairro da Aclimação, zona central da cidade, com um tom propositalmente artesanal, inclusive na filmagem, em 16 mm. Regiões do centro paulistano e de Pinheiros também aparecem bastante. Ter a capital paulista como protagonista também se relaciona com "São Paulo Sociedade Anônima", filme seminal de Luiz Sergio Person, pai de Marina. A obra de 1965, restaurada pela Martin Scorsese Foundation, foi relançada no ano passado. "Marina já é parte da história do cinema brasileiro", afirma Klinger.

"E isso não só pela conexão que ela tem com o cinema do pai e da mãe [Regina Jehá], que também é uma cineasta incrível", disse Gabe Klinger. Marina também é realizadora de "Califórnia", de 2015, estrelado pelo ator Caio Horowicz, também no elenco de "Isabel".

"É um momento muito profícuo do cinema brasileiro, tenho muito orgulho de também estar aqui em Berlim com tantos filmes maravilhosos. Sou muito fã da Grace, sou muito fã do André, são referências pra mim", disse Horowicz.

Ao seu lado, Marina Person lembrou que "a identidade de um país é feita da sua produção cultural". "A gente vê o cinema trazendo nossa língua, nossa música, nossos atores, atrizes, diretores, roteiristas. É tão incrível isso e é tão poderoso. Eu gostaria muito que a gente voltasse a ter uma produção realmente consistente."

Mas a Berlinale, com produções tão variadas, e o país no Oscar pelo segundo ano consecutivo, não são sinais de retomada? "Não voltou ainda. O Fundo [Setorial do Audiovisual] precisa voltar a funcionar como antes de 2016, para que a gente possa ter novos ‘Ainda Estou Aqui’, novos ‘O Agente Secreto’. Para ser justo, esses filmes só existem porque foram 20 anos de consistência e formação de profissionais", afirmou Person, usando como exemplos Adolpho Veloso, que concorre ao Oscar de fotografia por "Sonhos de Trem" neste ano, e o diretor de arte Thales Junqueira.

Em Berlim, o trabalho de Veloso foi notado pela crítica internacional em "Queen at Sea", filme de Lance Hammer que levou o Urso de Prata como prêmio do júri.

"A equipe de ‘O Agente Secreto’ foi formada nos anos em que a Ancine estava funcionando bem, naquele ciclo virtuoso que culminou com ‘Bacurau’, ‘A Vida Invisível’", disse Person, citando filmes de Mendonça Filho e Karim Aïnouz.

Dias antes, o diretor de "Rosebush Pruning", que disputou a competição oficial desta Berlinale, também defendeu o financiamento público para o cinema nacional. "Amigos brincam comigo que filmes brasileiros começam com aquele monte de logotipos, e eu respondo ‘é isso mesmo’. Só quem vem de um país onde o cinema não existe sem financiamento público sabe o que é isso."

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31. Juliette Binoche estrela filme na Berlinale que vê efeitos da velhice sobre a autonomia

Juliette Binoche estrela filme na Berlinale que vê efeitos da velhice sobre a autonomia. Olhar íntimo guia obra em competição 'Queen at Sea'. Dia também teve carta de artistas contra omissão política

José Henrique Mariante, fsp, 17.02.2026

Um casal de idosos, com dificuldade, supera os degraus íngremes de uma escada num parque público de Londres. A mulher, de bengala, precisa da ajuda do marido. Sozinha, não daria conta do passeio. A sugestão dos primeiros momentos de "Queen at Sea", exibido nesta terça-feira no Festival de Berlim, é discutir a autonomia que se vai com a idade.

Cada vez mais frequente no cinema, reflexo do envelhecimento generalizado do planeta, o tema ganha caminhos complicados na história de Lance Hammer, diretor independente americano. Estrelada pela francesa Juliette Binoche, a produção disputa a competição oficial da Berlinale.

Cena do filme 'Queen at Sea', com Juliette Binoche, no Festival de Berlim - Divulgação

Dependência e intimidade se confundem na história de Hammer, ganhador do Sundance por "Ballast", em 2008, que também é responsável pelo roteiro. O mundo real, organizado, socialmente aceito, não dá conta do problema.

Binoche é Amanda, mãe de uma adolescente e filha de uma mulher com demência. Ao entrar na casa da mãe, da qual tem a chave, surpreende Leslie debaixo do marido, Martin, na cama. Estão fazendo sexo ou, aos olhos da filha, a mãe está sendo submetida a isso pelo companheiro de fim de vida.

O casal se conheceu depois de ficarem viúvos, há 15 anos. Martin é, na prática, o cuidador de Leslie, a própria Amanda reconhece, mas a convicção de que a mãe está sendo violentada a faz chamar a polícia. Martin é detido e afastado da mulher, mas recusa a acusação. Sua intimidade é um pedido dela, que ele espera atender da mesma maneira afetuosa com a qual se dedica a suas refeições, medicações e passeios.

Confira destaques do Festival de Berlim de 2026 - galeria

Dar conta de Leslie sozinha se torna então tarefa da filha, que precisa resgatar uma intimidade com a mãe que talvez nunca tenha tido. Banhos, fraldas e a constatação de que tenha chegado tarde tornam o processo de reaproximação penoso. A filha logo começa a se perguntar se não é ela, agora, quem está submetendo a mãe às suas conveniências.

Tudo isso é expresso em cenas delicadamente trabalhadas por Hammer, como as que revelam a cumplicidade de Martin e Leslie, vividos por Tom Courtenay, de 88 anos, e Anna Calder-Marshall, de 79. Cumplicidade, que não pode ser confundida com dependência.

Além de tudo isso, "Queen at Sea" tem fotografia de Adolpho Veloso, brasileiro que tem se destacado na atual temporada de premiações e concorre ao Oscar de melhor fotografia por "Sonhos de Trem", filme de Clint Bentley disponível na Netflix.

Veja fotos de Juliette Binoche, que lançou 'In-I In Motion', seu primeiro trabalho como diretora - fotos

Fora das salas de cinema, a discussão em torno das manifestações políticas seguem dando o tom em Berlim. Depois da carta da diretora da Berlinale, Tricia Tuttle, defendendo a não obrigatoriedade da manifestação política de artistas envolvidos no festival, a primeira reação organizada do setor surgiu nesta terça-feira.

Em carta aberta endereçada aos organizadores do evento, cerca de 80 profissionais do cinema que estão ou já passaram pelo festival criticaram o "silêncio" do evento em relação aos conflitos na Faixa de Gaza e a "censura" que artistas que se manifestaram sobre o assunto estariam sofrendo.

Encabeçam o manifesto artistas de peso internacional como Javier Bardem, Tilda Swinton, Angeliki Papoulia, Saleh Bakri, Tatiana Maslany, Peter Mullan e Tobias Menzies. Cineastas como Fernando Meirelles, Miguel Gomes, Nan Goldin, Mike Leigh e Adam McKay também estão entre os signatários.

No documento, eles pedem que as instituições da indústria "se recusem a ser cúmplices da terrível violência que continua sendo perpetrada contra os palestinos".

A carta diz ainda que os signatários discordam veementemente do diretor Wim Wenders, que preside o júri desta edição e disse que artistas são o "oposto da política", e que, diferentemente do que o cineasta alemão e a organização do festival defenderam nos últimos dias, "cinema e política não podem ser separados".

Manifestações pró palestina pelo mundo - galeria 

"Apelamos à Berlinale para que cumpra seu dever moral e declare sua oposição ao genocídio, aos crimes contra a humanidade e aos crimes de guerra de Israel contra os palestinos, e que cesse completamente seu envolvimento em proteger Israel de críticas e exigências de responsabilização."

Em declaração oficial nesta semana, a direção do festival afirmou que "artistas não são obrigados a se manifestar sobre questões políticas". Tentavam apagar o incêndio provocado por Wenders que, no dia da abertura da Berlinale, saiu em defesa da produtora polonesa Ewa Puszczynska. Também integrante do júri, ao ser questionada sobre a postura do governo alemão acerca da Faixa de Gaza, ela respondeu que a "pergunta era injusta". O maior patrocinador do evento é o Ministério da Cultura da Alemanha.

"Acho que Wenders foi infeliz. Até porque ele faz um cinema profundamente político e transformador", disse Karim Aïnouz à reportagem no fim de semana. O diretor brasileiro, radicado em Berlim, concorre ao Urso de Ouro de melhor filme do festival com "Rosebush Pruning", sua segunda produção internacional.

Dias antes, duas manifestações haviam gerado grande polêmica. Michelle Yeoh, que conquistou o Oscar de melhor atriz por "Tudo em Todo Lugar ao Mesmo Tempo" e foi a Berlim para receber um Urso de Ouro honorário, e Rupert Grint, que viveu o personagem Ron Weasley na saga "Harry Potter", foram criticados por não se posicionarem.

Enquanto Yeoh afirmou não se considerar capaz de comentar questões como as políticas anti-imigração implementadas por Donald Trump, Grint disse que ainda escolherá um momento melhor para protestar contra a escalada de ideais fascistas que tem se desenhado nos últimos anos.

Com forte presença nas mostras paralelas do festival, a produção brasileira recebeu nesta terça-feira um prêmio inédito, em Berlim. "Emergência 53", série do Globoplay criada e produzida pela Conspiração, venceu o Studio Babelsberg Production Excellence Award, prêmio que estreou neste ano no Berlinale Series Market.

Com estreia prevista para este ano no Brasil, a obra segue o cotidiano de profissionais que trabalham em uma unidade de serviço móvel de urgência. A criação é de Claudio Torres, Márcio Maranhão e Andrucha Waddington, que divide a direção com Torres.


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