Uma arma na mão, uma Bíblia na cabeça é o ideal da tropa de choque de Bolsonaro
A ascensão de Jair Bolsonaro é atribuída, prioritariamente, ao sentimento antipetista de boa parte de seus eleitores. Diz respeito aos erros, descaminhos e à corrupção de um partido que, impermeável à crítica, vaga numa cegueira narcisista. A análise da onda bolsonarista deveria, no entanto, voltar o foco um pouco mais para motivações profundas de um grupo que se sente acuado pelo avanço fundamental das pautas emancipatórias que o Brasil tem abraçado.
Podem nem ser a maioria dos eleitores do capitão, composta também por uma massa difusa que, mesmo não concordando com ele, ou até não o suportando, vê a chance de romper com “tudo o que está aí”. Mas representam seu núcleo forte. Acham que é preciso endurecer sem qualquer ternura. Entupidos de medos e recalques, encontraram um líder para chamar de seu e agem sem limites contra “os ativismos” que este prometeu extinguir. Esquecem que são, eles mesmos, ativistas radicais numa democracia que lhes dá voz, mas exige limites.
O mal não é estranho a ninguém. Como diria Hannah Arendt, é banal. Todo ser humano tem seus demônios. É passível de sentir-se incomodado com quem ameaça seu espaço. Cria bodes expiatórios e chega a desejar a morte do vizinho. Grande parte, no entanto, após uma confissão interna, alcança uma visão crítica dos próprios arroubos. Evita externar sentimentos circunstantes perigosos, e faz prevalecer a moderação, sob o peso da lei ou da consciência.
O que anima os bolsonaristas de raiz é a completa ausência desse filtro. Cerceados em suas pulsões justiceiras, querem dar um basta na evolução dos costumes. Acham que têm o monopólio do bem. Uma arma na mão, uma Bíblia na cabeça é o ideal de sua nouvelle-vague. É uma vertente variada, que vem de diferentes estratos. Por exemplo, os que, ao se deparar com o cotista que beliscou uma vaga na universidade, enchem-se de revolta persecutória.
Passam por cima de qualquer contexto histórico. Dizem, como uma influenciadora digital recentemente postou, que história, sociologia e filosofia são drogas “piores que a maconha”. Gritam, sem pudor, que “índio é a raça mais desgraçada que existe”. Trancam-se em casa com protetores de ouvidos quando a parada gay invade sua praia. As pernas tremem diante do empoderamento feminino. “Essa altivez vai acabar”, ameaçam, ao ver a menina que vem e que passa.
Enxergam, nas artes, caprichos degenerados de “bêbados vagabundos mamadores das tetas do governo”. Têm horror à atividade intelectual. Querem ver a Amazônia transformada num “puta estacionamento” (do refrão satírico da Casseta Popular). Acham que uma guerra civil daria uma equilibrada nos excessos. Veneram grupos de extermínio e milícias. Não entendem o que o pessoal vê de especial nessa tal democracia. “Ser escravo” da Constituição, para eles, é constrangimento. E, justiça social, sinônimo de comunismo.
A não ser que, se eleito, baixe em Jair Bolsonaro um caboclo deixa-disso, é essa guerrilha que sustentará a sua pauta e lhe dará aleluias. Se isso ocorrer, é bom que Deus ou os ativistas da tolerância sejam capazes de, pacificamente, resistir ao novo dictat.
Arnaldo Bloch, 16/10/2018
https://oglobo.globo.com/cultura/a-guerrilha-do-recalque-23158353#ixzz5U5Wsnkqh
terça-feira, 16 de outubro de 2018
quinta-feira, 11 de outubro de 2018
Vidas Secas
O filme
Entrevista com Luiz Carlos Barreto
"Era preciso sentir o calor olhando para a fotografia do filme"
Guilherme Sobota, O Globo, 25 Agosto 2018
Cena de ‘Vidas Secas’ (1963). Fabiano (Átila Iório) e o soldado amarelo (Orlando Macedo), Foto: LC Barreto Produções/IMS).
RIO — Quando a reportagem encontra Luiz Carlos Barreto na sede da sua lendária produtora, na Rua Visconde de Caravelas, no bairro do Humaitá, ele pergunta: Qual é a data do Vidas Secas? “Pô, mas eu sou mais velho que o livro!”, ri o produtor. Com 90 anos recém-completados, o homem que escreveu boa parte da história do cinema brasileiro nas últimos cinco décadas segue com sua memória irreparável e sua conhecida capacidade de contar histórias.
Ao revolucionar a estética da produção nacional, incorporando a fotografia de Vidas Secas(1963) à dramaturgia do filme, Barreto estabeleceu a pedra fundamental de sua carreira. Nesta entrevista, ele conta histórias sobre a produção, fala de como encontrou seus caminhos na fotografia, e da imensa repercussão que o filme alcançou dentro e fora do Brasil:
Palmeira dos Índios foi escolhida por causa de Graciliano, certo?
Foram dois motivos: no entorno da cidade tinha todo o sertão que a gente precisava, e também por ser a terra do Graciliano. Ali tinha uma presença, parentes, o irmão Clóvis, o Valdemar (Lima), um cidadão de Palmeira, crítico e ensaísta especialista em Graciliano. Palmeira impregnava a presença dele. Por outro lado, o Arnon de Mello, pai do Fernando Collor (ex-presidente da República, atual senador), era senador por Alagoas e um grande entusiasta do escritor e do filme. Ele nos facilitou muitos contatos e articulações lá.
O senhor voltou alguma vez para lá?
Nunca mais voltei. Era um centro político muito violento. Quando o sol se punha, as pessoas pulavam os muros para ir à casa dos vizinhos e não ficar expostas na rua aos pistoleiros. Na época, tínhamos dois jipes do governo para produção e transporte de equipes. Uma noite surgiu um emissário “do governo” com dois cavalheiros, pedindo o jipe emprestado. Eles disseram que tinham uma coisa para fazer, um negócio misterioso. Emprestamos e no outro dia eles devolveram. No dia seguinte, 48 horas depois, nós vimos as manchetes dos jornais locais anunciando um crime bárbaro na região de Palmeira dos Índios, em que quatro pessoas foram assassinadas e jogadas dentro de cisternas, com os olhos furados, um negócio de louco. O jornal era de oposição e acusava os criminosos de terem usado um transporte oficial do governo… os nossos jipes! A gente não sabia. Eles devem ter bolado aquilo como álibi. Isso nunca foi esclarecido.
Como foi chegar lá, se relacionar com as pessoas, escalar figurantes e atores?
Nós usamos muitas pessoas de lá para a figuração e papéis pequenos. Existiam grupos teatrais lá, alguns fazem coadjuvantes no filme. O principal foi a descoberta do Jofre Soares (que depois atuaria em mais de cem filmes, incluindo ‘Terra em Transe’ e ‘Memórias do Cárcere’). Ele era a glória da cidade. Era um sargento aposentado da Marinha que tinha voltado a morar lá e fundou um grupo teatral. O Nelson precisava de alguém para fazer o coronel. Viajamos quilômetros num dia de folga, chegamos às barrancas do São Francisco onde ele estava com o circo e o conhecemos. Foi paixão à primeira vista. Era um marinheiro, o cara de porto em porto, com vivência. O Nelson chamou ele, deixou o texto. Ele veio e ficou o resto do filme, porque passou também a ser um assessor para usos e costumes, inclusive para problemas de linguagem e de diálogo. Isso ajudou muito, porque o estilo do Graciliano dá pouca informação no livro.
E qual era o cenário sertanejo?
Tinha um caminhão-pipa que levava água para cisterna do set. A partir das 10 horas não dava para beber porque a água ficava quente. A Baleia procurava as sombras, a gente gastava muito filme. Filmávamos entre 5h30 e 10h30, para evitar o sol, sobretudo por conta da Baleia. Ela foi adquirida numa feira pelo equivalente a R$ 5. O Nelson a chamava de Grace Kelly, porque ela era muito elegante. Cadê a Grace Kelly?!, aí o assistente ia lá e pegava. Um dia, um maquinista de produção, o Domingos, um mulato, no meio da filmagem, teve um surto e saiu correndo por dentro da Caatinga. Daqui a pouco ele voltou, todo lanhado, sangrando dos mandacarus. O Domingos era chegado à umbanda. O homem não quer que filme, o homem quer que reze uma missa para ele, ele dizia. Mas quem era o homem? O Graciliano, ateu, pedindo para rezar uma missa? Por descargo de consciência, concordamos em fazer a missa, para limpar a barra, porque a gente não conseguia filmar o dia inteiro mesmo. Pedimos autorização para os parentes, eles concordaram, e no dia o padre fez a missa antes da filmagem. A população nunca soube dessa missa para o Graciliano.
Depois que o senhor conheceu o Glauber Rocha na Bahia, como aconteceu o convite para fotografar o Vidas Secas?
Depois de me convencer a fazer o roteiro de O Assalto Ao Trem Pagador (1962) com o Roberto Farias, Glauber me disse: O Nelson (Pereira dos Santos) está fazendo o Vidas Secas, você tem de fotografar. Eu dizia: Glauber, você não é o diretor do filme (risos). Ele queria acabar com a alienação na fotografia de cinema, parar de copiar Hollywood e o Gabriel Figueroa (cineasta mexicano). O Nelson concordou e me deu o roteiro. Falei: Só vou fotografar se for sem nenhuma luz artificial, sem nenhum filtro, nenhum artifício. Tem de ser um filme com ar de documentário. Maravilha, ele disse, embarcando na loucura do Glauber. O cameraman, o José Rosa, tinha uma experiência grande de cinema. Ele era sobrinho do mítico Edgar Brasil, que fez a fotografia do Limite, o filme que todo mundo fala mas nunca ninguém viu.
Como foi então passar a fazer fotografia para o filme, sem experiência?
Por segurança, no início, a gente fazia dois takes da mesma cena, um com a minha proposta e outro com os meios tradicionais, segundo o manual da Kodak, sobretudo nas cenas noturnas. A Tri-X era uma película para pouca luz, e a Plus-X era um filme menos sensível.
Qual foi sua abordagem para criar a fotografia do filme?
A fotografia para o Vidas Secas tinha de fazer parte da dramaturgia do filme. Ou seja, ela deveria espelhar a dramaticidade do clima, do calor exorbitante, era preciso sentir esse calor olhando para a fotografia. Quando anos depois houve uma retrospectiva do Nelson em San Francisco (EUA), o próprio (Francis Ford) Coppola ficou muito interessado em saber como tinha sido. Ele queria saber os detalhes, mas não havia detalhes: era luz e câmera, sem filtro. Nós não usamos filtro para diminuir contraste, etc. O contraste estava lá. A gente fotografou o filme pela sombra, a luz vinha do que jeito que viesse. No mundo setentrional, eles fotografam pela luz, porque tem pouca luz. No Brasil, tem muita luz e muito contraste. Então tem de fotografar pela sombra, em vez de iluminar a sombra. Eles colocava batedores, refletores na sombra. Isso pasteuriza, tira o clima. Fizemos todo o Vidas Secas baseado na sombra.
Quando o filme foi lançado, vocês já perceberam que havia algo diferente acontecendo?
O filme ficou pronto em 1963. Em 1964, ele estava indo para Cannes, em maio. Em março, antes do golpe, nós tínhamos feito algumas projeções para sentir a receptividade. Fizemos uma sessão com o grupo de intelectuais, Helio Pellegrino, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Autran Dourado e uma série de escritores e gente de artes plásticas. Já existia um clima reacionário no ar. Sendo Graciliano um escritor comunista, e o filme tratando de um problema social, chamamos também o João Pinheiro Neto, espécie de ministro da reforma agrária, porque o filme tinha muito a ver com isso. Para ver que tipo de apoio ele poderia dar ao filme. A receptividade foi excepcional, todo mundo saiu dali e escreveu artigos apoiando. E fomos selecionados para o concurso em Cannes.
Mas aconteceu o golpe e ficou aquele vai ou não vai. Eram três filmes indo para Cannes, Vidas Secas, Deus e Diabo na Terra do Sol, e Ganga Zumba. Houve uma cabine de coronéis do Exército para decidir se os filmes podiam ir. Quando terminou a sessão, um dos coronéis exaltado se levantou e falou: Eu, por mim, mandaria queimar os dois filmes em praça pública, é uma propaganda comunista vagabunda. Outro, mais liberal, chamado Coronel Velho, um intelectual da turma do Geisel, a ala mais liberal, na cabine mesmo disse: Que história é essa? Parece que estamos na Alemanha de Hitler. O outro coronel botou a viola dentro e saiu. Tanto que os filmes foram para o festival.
Como a repercussão em Cannes se relacionou com o golpe de Estado no Brasil?
Foi um choque na crítica, no meio jornalístico, e houve muitas entrevistas. Quando voltamos, Nelson, eu e Glauber, havia um relatório da embaixada brasileira na França com todas as entrevistas que nós demos, denunciando que estávamos fazendo “contrapropaganda” na Europa, aproveitando o festival, denunciando o governo brasileiro como ditadura. Isso era maio de 1964. Não tinha um mês. Eu tinha um conhecido do Exército, na época capitão, que nos deu uma cobertura. Na Bahia, quando o filme estreou no Cinema Tamoio, no centro de Salvador, uma patrulha do Exército sumiu com a cópia e tirou de cartaz. Na época, apelei para o Juracy Magalhães, ministro da ditadura, que eu conheci quando era governador da Bahia. Isso comprova que estamos numa ditadura, eu disse. Aí ele mandou uma ordem para o filme voltar a cartaz. Aqui no Rio não houve muito problema.
Em Cannes, episódio da Baleia sendo transportada para lá ficou célebre. O que aconteceu?
Uma colunista francesa acusou o filme de ser selvagem, porque ela dizia que os grandes momentos eram as mortes dos animais. O papagaio não morreu. Na verdade, o Nelson falou para a Maria (Ribeiro) matar. Quando ela pegou o papagaio, ela tentou, mas ficou falando: Não posso, não consigo. O Nelson dizia para matar, mas ela jogou o papagaio de lado e ele se salvou. Ninguém ia matar a Baleia. Fizemos um efeito especial subdesenvolvido. Pegamos uma linha branca de costura, amarramos a perna no rabo para ela fingir que tinha levado o tiro. Tinha a maquiagem, água de chocolate, não sei o quê. Ela tinha de fechar os olhos… Nós escolhemos uma locação, um carro de boi, e o sol nascendo… para ela olhar para o sol. O sol batia e ela foi fechando os olhos por causa da luminosidade. O Nelson botou toda a equipe para fora, e só ficou eu, ele e o José Rosa – e a câmera. Ninguém falava nada. Na hora que ela começasse a fechar os olhos, o Nelson catucava o Zé Rosa e ele ligava a câmara. O sol nasceu, ela fechou os olhos e deu a sensação nítida de morte.
Para provar que não éramos selvagens, bateu o sentimento brasileiro, inventaram de mandar a cachorra para lá. A Lucy (Barreto, sócia e esposa) mandou fazer um suéter para ela. Quando Baleia chegou, estava toda a imprensa esperando… ela desceu pela escada do avião, como se fosse uma estrela. Chegou no pátio do aeroporto, arriou ali e fez um xixi enorme. Tudo isso filmado pelas redes de televisão. Na França, cachorro é sagrado, então a gente virou VIP em Cannes, todo mundo conhecia a cachorra do filme. As pessoas ficavam impressionadas com a beleza, a gente dizia que era virrá-latá, vira-lata em francês (risos).
O livro de Graciliano
Experiência do leitor de hoje beneficia ‘Vidas Secas’ por evidenciar sua modernidade formal
Luiz Zanin Oricchio, O Globo, 25/08/2018
Vidas Secas, se sabe, começou de maneira avulsa, com um conto intitulado Baleia. Depois vieram outros quadros ou contos, somando o total de 13 capítulos, finalmente publicados sob forma de romance em 1938, e logo chamado de “desmontável” por Rubem Braga.
De fato, foi a forma que na primeira hora mais chamou a atenção dos críticos. Uma tendência mais tradicionalista, como a de Álvaro Lins, via na relativa autonomia dos capítulos um sinal de desarticulação do todo. Outros, como Lúcia Miguel Pereira, se indagam sobre a natureza da obra: “Será um romance? É antes uma série de quadros, de gravuras em madeira, talhadas com precisão e firmeza”. Antonio Candido preferia enxergar a estrutura em “rosácea” do romance, e via nela mais mérito que defeito.
Para uma visão abrangente da polêmica literária em torno da estrutura em Vidas Secas, leia em Uma História do Romance de 30, de Luís Bueno (Edusp/Unicamp, 2006), os capítulos dedicados a esta obra de Graciliano Ramos.
A experiência do leitor de hoje – mais acostumado à narrativa não-linear típica do mundo digital – beneficia Vidas Secas e vê logo sua modernidade formal. Lemos a história da família de retirantes em suas idas e vindas, sem tropeços com os saltos temporais ou mudanças de foco narrativo. E admiramos a estrutura cambiante, porém circular, que chamou a atenção de um crítico tão agudo como Antonio Cândido.
No primeiro capítulo – Mudança –, temos os personagens se deslocando penosamente pelo sertão esturricado. São seis viventes, ao todo – um casal, seus dois filhos pequenos, uma cachorra, um papagaio.
Os capítulos seguintes são nomeados como Fabiano, Cadeia, Sinhá Vitória, O Menino mais Novo, o Menino mais Velho, Inverno, Festa, Baleia, Contas, O Soldado Amarelo, O Mundo Coberto de Penas, Fuga. Podem mesmo ser lidos de forma isolada e independente. Talvez mesmo a leitura aleatória se sustente. Mas, claro, a “montagem” final de Graciliano propõe a forma linear como a mais consistente.
Há muitos aspectos a serem destacados nesta obra-prima e a crítica já se ocupou longamente de cada um deles. Por exemplo, como os personagens, apesar de interagirem, comportam-se como entidades autônomas, que falam para si mesmas, nesse simulacro do monólogo interior que é o discurso indireto livre. Parece uma narrativa em terceira pessoa, mas na qual a voz é concedida ao personagem. Mesmo que esse personagem seja um animal – a cadela Baleia.
Fabiano é o homem, Sinhá Vitória, a mulher. Os meninos não têm nomes. A Baleia tem. O papagaio também é anônimo, e será o primeiro a ser sacrificado em nome da sobrevivência da família. “Também nem falava”, justifica-se Sinhá Vitória. E como iria aprender a falar num meio em que o mutismo era a regra?
Já se disse também que a natureza – a áspera e nada idílica natureza da Caatinga – é personagem de Vidas Secas. E ela está sempre lá, a determinar, a limitar ou expandir a ação das pessoas. O sertanejo não discute com ela – aceita-a. Logo no capítulo 1, vemos através do monólogo interior de Fabiano que “A seca aparecia-lhe com um fato necessário...”
Outro tema recorrente para Fabiano é o da sua, digamos assim, condição existencial. Era um homem? Ou um bicho? Numa imagem bonita, considera que “Ele, Fabiano, era como a bolandeira. Não sabia porquê, mas era”. A bolandeira é o mecanismo, movido a tração animal ou humana e usado nos antigos engenhos de açúcar. A roda refaz seu caminho, em torno do seu eixo, infinitamente, sem sair do lugar. Assim seria Fabiano, alguém que nunca sai do lugar, por mais esforço que faça?
Ele também sabe que não é um homem diante do patrão autoritário. Ou do policial, “o soldado amarelo” arbitrário e parcial, que personifica o Estado, com o qual não se discute. “Pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros”, reflete. Sinhá Vitória tinha apenas ideia fixa, possuir um dia uma cama confortável, como a que vira na casa de Seu Tomás, um antigo patrão, o dono da bolandeira. Fabiano não respondia à mulher, mas achava que tal desejo, um leito macio para esticar os ossos após um dia de duro trabalho, era luxo impensável e inatingível para eles.
O romance “desmontável” de Graciliano Ramos nos coloca na intimidade dessa família miserável, à beira da extinção física, à mercê de uma natureza inclemente e de homens cruéis. Experimentamos sua dor, sua revolta, seu conformismo, sua consciência e alienação, sua esperança que aparece timidamente, como um toco de vela na escuridão. Talvez não haja ficção tão real e tão pungente sobre os efeitos da miséria e da extrema desigualdade social. E nos emociona demais porque o ponto de vista é o da interioridade dos personagens e não um olhar distanciado e “imparcial”. Mas é na contenção e economia de recursos que a obra de Graciliano nos toca de maneira ainda mais profunda, porque jamais apela para o melodrama ou as soluções emotivas fáceis. Se hoje Vidas Secas nos parece tão atual, também assim o pareceu nos anos 1960 quando os diretores do Cinema Novo buscavam temas urgentes e nacionais para suas obras críticas. O romance de Graciliano Ramos era ambição antiga de Nelson Pereira dos Santos, o precursor do movimento e um dos seus esteios mais sólidos.
Nelson, após uma frustrada tentativa anterior, começou a realizar Vidas Secas em 1962. Escolheu para o papel de Fabiano um ator profissional, Átila Iório, e, para o de Sinhá Vitória, uma amadora, Maria Ribeiro, funcionária do Laboratório Líder, onde os cinemanovistas revelavam os negativos dos seus filmes. Também encontrou Jofre Soares, que, no papel do dono da fazenda, faz sua primeira participação como ator. Primeira de uma carreira vitoriosa no cinema e na TV. A cachorra Baleia foi comprada em uma feira da região. Depois das filmagens, voltou com a equipe para o Rio de Janeiro e se tornou mascote de Fábio Barreto, filho de Luiz Carlos Barreto.
Barreto foi o fotógrafo de Vidas Secas e um dos principais responsáveis para que o filme tenha marcado época. Até então fotógrafo de revistas e jornais (foi profissional de O Cruzeiro), Luiz Carlos Barreto foi convidado a estrear como diretor de fotografia em Vidas Secas. Propôs uma fotografia sem filtros, chapada, que trouxesse para a tela a luminosidade e o calor sufocantes do sertão. Foi uma ideia ousada. Havia quem sustentasse que os laboratórios não conseguiriam revelar os negativos obtidos naquelas condições. Por sorte conseguiram. Curiosamente, foi o caráter “desmontável” do romance que permitiu a Nelson “remontá-lo” com toda facilidade em linguagem cinematográfica. Mudou a ordem dos capítulos e fundiu alguns deles para ganhar dramaticidade. Por exemplo, o sacrifício da cachorra Baleia foi levado para perto do final da história, de modo que o desfecho ganhou uma tonalidade emocional extra.
Aliás, a “morte” da Baleia teve repercussão quando o filme foi ao Festival de Cannes em 1964. Nelson, pessoa muito bem humorada, gostava de lembrar o caso em entrevistas. A morte de Baleia parece tão realista que uma condessa italiana, ligada à Sociedade Protetora dos Animais, denunciou que a cadela havia sido baleada de verdade para propósitos cinematográficos. Disse, para quem quisesse ouvir, que gente que matava um animal daquela maneira merecia mesmo morrer de fome.
Em vão a equipe negou que a cadela tivesse morrido nas filmagens. Mandaram então buscar o animal no Rio e Baleia, pelas asas da Air France, chegou a Cannes e desfilou em triunfo na Croisette. Nem por isso a Condessa deu o braço a torcer: “Mataram aquela e trouxeram esta para cá: cachorro vira-lata é tudo igual mesmo”.
Anedotas à parte, Vidas Secas comoveu o público e impressionou a crítica. Adaptação radical de uma obra-prima da literatura, capta sua essência. Mobiliza recursos de linguagem cinematográfica para lograr essa transposição bem-sucedida. Mantém o laconismo dos personagens, explora o contraste e a força da fotografia para imergir o espectador naquele labirinto solar em que a família de Fabiano e Sinhá Vitória se encontra presa. Limita a trilha sonora ao ruído triste das rodas de um carro de bois. Tal como o livro, é obra definitiva sobre a iniquidade social.
Referências
https://www.estadao.com.br/infograficos/brasil,cinema-era-preciso-sentir-o-calor-olhando-para-a-fotografia-do-filme-conta-barreto,911961 11/10/2018
A entrevista de Luiz Carlos Barreto
https://www.youtube.com/watch?time_continue=4&v=i7NhYGhlOoY
O filme Vidas Secas
https://www.youtube.com/watch?v=m5fsDcFOdwQ
Entrevista com Luiz Carlos Barreto
"Era preciso sentir o calor olhando para a fotografia do filme"
Guilherme Sobota, O Globo, 25 Agosto 2018
Cena de ‘Vidas Secas’ (1963). Fabiano (Átila Iório) e o soldado amarelo (Orlando Macedo), Foto: LC Barreto Produções/IMS).
RIO — Quando a reportagem encontra Luiz Carlos Barreto na sede da sua lendária produtora, na Rua Visconde de Caravelas, no bairro do Humaitá, ele pergunta: Qual é a data do Vidas Secas? “Pô, mas eu sou mais velho que o livro!”, ri o produtor. Com 90 anos recém-completados, o homem que escreveu boa parte da história do cinema brasileiro nas últimos cinco décadas segue com sua memória irreparável e sua conhecida capacidade de contar histórias.
Ao revolucionar a estética da produção nacional, incorporando a fotografia de Vidas Secas(1963) à dramaturgia do filme, Barreto estabeleceu a pedra fundamental de sua carreira. Nesta entrevista, ele conta histórias sobre a produção, fala de como encontrou seus caminhos na fotografia, e da imensa repercussão que o filme alcançou dentro e fora do Brasil:
Palmeira dos Índios foi escolhida por causa de Graciliano, certo?
Foram dois motivos: no entorno da cidade tinha todo o sertão que a gente precisava, e também por ser a terra do Graciliano. Ali tinha uma presença, parentes, o irmão Clóvis, o Valdemar (Lima), um cidadão de Palmeira, crítico e ensaísta especialista em Graciliano. Palmeira impregnava a presença dele. Por outro lado, o Arnon de Mello, pai do Fernando Collor (ex-presidente da República, atual senador), era senador por Alagoas e um grande entusiasta do escritor e do filme. Ele nos facilitou muitos contatos e articulações lá.
O senhor voltou alguma vez para lá?
Nunca mais voltei. Era um centro político muito violento. Quando o sol se punha, as pessoas pulavam os muros para ir à casa dos vizinhos e não ficar expostas na rua aos pistoleiros. Na época, tínhamos dois jipes do governo para produção e transporte de equipes. Uma noite surgiu um emissário “do governo” com dois cavalheiros, pedindo o jipe emprestado. Eles disseram que tinham uma coisa para fazer, um negócio misterioso. Emprestamos e no outro dia eles devolveram. No dia seguinte, 48 horas depois, nós vimos as manchetes dos jornais locais anunciando um crime bárbaro na região de Palmeira dos Índios, em que quatro pessoas foram assassinadas e jogadas dentro de cisternas, com os olhos furados, um negócio de louco. O jornal era de oposição e acusava os criminosos de terem usado um transporte oficial do governo… os nossos jipes! A gente não sabia. Eles devem ter bolado aquilo como álibi. Isso nunca foi esclarecido.
Como foi chegar lá, se relacionar com as pessoas, escalar figurantes e atores?
Nós usamos muitas pessoas de lá para a figuração e papéis pequenos. Existiam grupos teatrais lá, alguns fazem coadjuvantes no filme. O principal foi a descoberta do Jofre Soares (que depois atuaria em mais de cem filmes, incluindo ‘Terra em Transe’ e ‘Memórias do Cárcere’). Ele era a glória da cidade. Era um sargento aposentado da Marinha que tinha voltado a morar lá e fundou um grupo teatral. O Nelson precisava de alguém para fazer o coronel. Viajamos quilômetros num dia de folga, chegamos às barrancas do São Francisco onde ele estava com o circo e o conhecemos. Foi paixão à primeira vista. Era um marinheiro, o cara de porto em porto, com vivência. O Nelson chamou ele, deixou o texto. Ele veio e ficou o resto do filme, porque passou também a ser um assessor para usos e costumes, inclusive para problemas de linguagem e de diálogo. Isso ajudou muito, porque o estilo do Graciliano dá pouca informação no livro.
E qual era o cenário sertanejo?
Tinha um caminhão-pipa que levava água para cisterna do set. A partir das 10 horas não dava para beber porque a água ficava quente. A Baleia procurava as sombras, a gente gastava muito filme. Filmávamos entre 5h30 e 10h30, para evitar o sol, sobretudo por conta da Baleia. Ela foi adquirida numa feira pelo equivalente a R$ 5. O Nelson a chamava de Grace Kelly, porque ela era muito elegante. Cadê a Grace Kelly?!, aí o assistente ia lá e pegava. Um dia, um maquinista de produção, o Domingos, um mulato, no meio da filmagem, teve um surto e saiu correndo por dentro da Caatinga. Daqui a pouco ele voltou, todo lanhado, sangrando dos mandacarus. O Domingos era chegado à umbanda. O homem não quer que filme, o homem quer que reze uma missa para ele, ele dizia. Mas quem era o homem? O Graciliano, ateu, pedindo para rezar uma missa? Por descargo de consciência, concordamos em fazer a missa, para limpar a barra, porque a gente não conseguia filmar o dia inteiro mesmo. Pedimos autorização para os parentes, eles concordaram, e no dia o padre fez a missa antes da filmagem. A população nunca soube dessa missa para o Graciliano.
Depois que o senhor conheceu o Glauber Rocha na Bahia, como aconteceu o convite para fotografar o Vidas Secas?
Depois de me convencer a fazer o roteiro de O Assalto Ao Trem Pagador (1962) com o Roberto Farias, Glauber me disse: O Nelson (Pereira dos Santos) está fazendo o Vidas Secas, você tem de fotografar. Eu dizia: Glauber, você não é o diretor do filme (risos). Ele queria acabar com a alienação na fotografia de cinema, parar de copiar Hollywood e o Gabriel Figueroa (cineasta mexicano). O Nelson concordou e me deu o roteiro. Falei: Só vou fotografar se for sem nenhuma luz artificial, sem nenhum filtro, nenhum artifício. Tem de ser um filme com ar de documentário. Maravilha, ele disse, embarcando na loucura do Glauber. O cameraman, o José Rosa, tinha uma experiência grande de cinema. Ele era sobrinho do mítico Edgar Brasil, que fez a fotografia do Limite, o filme que todo mundo fala mas nunca ninguém viu.
Como foi então passar a fazer fotografia para o filme, sem experiência?
Por segurança, no início, a gente fazia dois takes da mesma cena, um com a minha proposta e outro com os meios tradicionais, segundo o manual da Kodak, sobretudo nas cenas noturnas. A Tri-X era uma película para pouca luz, e a Plus-X era um filme menos sensível.
Qual foi sua abordagem para criar a fotografia do filme?
A fotografia para o Vidas Secas tinha de fazer parte da dramaturgia do filme. Ou seja, ela deveria espelhar a dramaticidade do clima, do calor exorbitante, era preciso sentir esse calor olhando para a fotografia. Quando anos depois houve uma retrospectiva do Nelson em San Francisco (EUA), o próprio (Francis Ford) Coppola ficou muito interessado em saber como tinha sido. Ele queria saber os detalhes, mas não havia detalhes: era luz e câmera, sem filtro. Nós não usamos filtro para diminuir contraste, etc. O contraste estava lá. A gente fotografou o filme pela sombra, a luz vinha do que jeito que viesse. No mundo setentrional, eles fotografam pela luz, porque tem pouca luz. No Brasil, tem muita luz e muito contraste. Então tem de fotografar pela sombra, em vez de iluminar a sombra. Eles colocava batedores, refletores na sombra. Isso pasteuriza, tira o clima. Fizemos todo o Vidas Secas baseado na sombra.
Quando o filme foi lançado, vocês já perceberam que havia algo diferente acontecendo?
O filme ficou pronto em 1963. Em 1964, ele estava indo para Cannes, em maio. Em março, antes do golpe, nós tínhamos feito algumas projeções para sentir a receptividade. Fizemos uma sessão com o grupo de intelectuais, Helio Pellegrino, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos, Autran Dourado e uma série de escritores e gente de artes plásticas. Já existia um clima reacionário no ar. Sendo Graciliano um escritor comunista, e o filme tratando de um problema social, chamamos também o João Pinheiro Neto, espécie de ministro da reforma agrária, porque o filme tinha muito a ver com isso. Para ver que tipo de apoio ele poderia dar ao filme. A receptividade foi excepcional, todo mundo saiu dali e escreveu artigos apoiando. E fomos selecionados para o concurso em Cannes.
Mas aconteceu o golpe e ficou aquele vai ou não vai. Eram três filmes indo para Cannes, Vidas Secas, Deus e Diabo na Terra do Sol, e Ganga Zumba. Houve uma cabine de coronéis do Exército para decidir se os filmes podiam ir. Quando terminou a sessão, um dos coronéis exaltado se levantou e falou: Eu, por mim, mandaria queimar os dois filmes em praça pública, é uma propaganda comunista vagabunda. Outro, mais liberal, chamado Coronel Velho, um intelectual da turma do Geisel, a ala mais liberal, na cabine mesmo disse: Que história é essa? Parece que estamos na Alemanha de Hitler. O outro coronel botou a viola dentro e saiu. Tanto que os filmes foram para o festival.
Como a repercussão em Cannes se relacionou com o golpe de Estado no Brasil?
Foi um choque na crítica, no meio jornalístico, e houve muitas entrevistas. Quando voltamos, Nelson, eu e Glauber, havia um relatório da embaixada brasileira na França com todas as entrevistas que nós demos, denunciando que estávamos fazendo “contrapropaganda” na Europa, aproveitando o festival, denunciando o governo brasileiro como ditadura. Isso era maio de 1964. Não tinha um mês. Eu tinha um conhecido do Exército, na época capitão, que nos deu uma cobertura. Na Bahia, quando o filme estreou no Cinema Tamoio, no centro de Salvador, uma patrulha do Exército sumiu com a cópia e tirou de cartaz. Na época, apelei para o Juracy Magalhães, ministro da ditadura, que eu conheci quando era governador da Bahia. Isso comprova que estamos numa ditadura, eu disse. Aí ele mandou uma ordem para o filme voltar a cartaz. Aqui no Rio não houve muito problema.
Em Cannes, episódio da Baleia sendo transportada para lá ficou célebre. O que aconteceu?
Uma colunista francesa acusou o filme de ser selvagem, porque ela dizia que os grandes momentos eram as mortes dos animais. O papagaio não morreu. Na verdade, o Nelson falou para a Maria (Ribeiro) matar. Quando ela pegou o papagaio, ela tentou, mas ficou falando: Não posso, não consigo. O Nelson dizia para matar, mas ela jogou o papagaio de lado e ele se salvou. Ninguém ia matar a Baleia. Fizemos um efeito especial subdesenvolvido. Pegamos uma linha branca de costura, amarramos a perna no rabo para ela fingir que tinha levado o tiro. Tinha a maquiagem, água de chocolate, não sei o quê. Ela tinha de fechar os olhos… Nós escolhemos uma locação, um carro de boi, e o sol nascendo… para ela olhar para o sol. O sol batia e ela foi fechando os olhos por causa da luminosidade. O Nelson botou toda a equipe para fora, e só ficou eu, ele e o José Rosa – e a câmera. Ninguém falava nada. Na hora que ela começasse a fechar os olhos, o Nelson catucava o Zé Rosa e ele ligava a câmara. O sol nasceu, ela fechou os olhos e deu a sensação nítida de morte.
Para provar que não éramos selvagens, bateu o sentimento brasileiro, inventaram de mandar a cachorra para lá. A Lucy (Barreto, sócia e esposa) mandou fazer um suéter para ela. Quando Baleia chegou, estava toda a imprensa esperando… ela desceu pela escada do avião, como se fosse uma estrela. Chegou no pátio do aeroporto, arriou ali e fez um xixi enorme. Tudo isso filmado pelas redes de televisão. Na França, cachorro é sagrado, então a gente virou VIP em Cannes, todo mundo conhecia a cachorra do filme. As pessoas ficavam impressionadas com a beleza, a gente dizia que era virrá-latá, vira-lata em francês (risos).
O livro de Graciliano
Experiência do leitor de hoje beneficia ‘Vidas Secas’ por evidenciar sua modernidade formal
Luiz Zanin Oricchio, O Globo, 25/08/2018
Maria Ribeiro, então funcionária de um laboratório que trabalhava com a produtora,
acabou protagonizando como Sinhá Vitória , Foto: LC Barreto Produções
De fato, foi a forma que na primeira hora mais chamou a atenção dos críticos. Uma tendência mais tradicionalista, como a de Álvaro Lins, via na relativa autonomia dos capítulos um sinal de desarticulação do todo. Outros, como Lúcia Miguel Pereira, se indagam sobre a natureza da obra: “Será um romance? É antes uma série de quadros, de gravuras em madeira, talhadas com precisão e firmeza”. Antonio Candido preferia enxergar a estrutura em “rosácea” do romance, e via nela mais mérito que defeito.
Para uma visão abrangente da polêmica literária em torno da estrutura em Vidas Secas, leia em Uma História do Romance de 30, de Luís Bueno (Edusp/Unicamp, 2006), os capítulos dedicados a esta obra de Graciliano Ramos.
A experiência do leitor de hoje – mais acostumado à narrativa não-linear típica do mundo digital – beneficia Vidas Secas e vê logo sua modernidade formal. Lemos a história da família de retirantes em suas idas e vindas, sem tropeços com os saltos temporais ou mudanças de foco narrativo. E admiramos a estrutura cambiante, porém circular, que chamou a atenção de um crítico tão agudo como Antonio Cândido.
No primeiro capítulo – Mudança –, temos os personagens se deslocando penosamente pelo sertão esturricado. São seis viventes, ao todo – um casal, seus dois filhos pequenos, uma cachorra, um papagaio.
Os capítulos seguintes são nomeados como Fabiano, Cadeia, Sinhá Vitória, O Menino mais Novo, o Menino mais Velho, Inverno, Festa, Baleia, Contas, O Soldado Amarelo, O Mundo Coberto de Penas, Fuga. Podem mesmo ser lidos de forma isolada e independente. Talvez mesmo a leitura aleatória se sustente. Mas, claro, a “montagem” final de Graciliano propõe a forma linear como a mais consistente.
Há muitos aspectos a serem destacados nesta obra-prima e a crítica já se ocupou longamente de cada um deles. Por exemplo, como os personagens, apesar de interagirem, comportam-se como entidades autônomas, que falam para si mesmas, nesse simulacro do monólogo interior que é o discurso indireto livre. Parece uma narrativa em terceira pessoa, mas na qual a voz é concedida ao personagem. Mesmo que esse personagem seja um animal – a cadela Baleia.
Fabiano é o homem, Sinhá Vitória, a mulher. Os meninos não têm nomes. A Baleia tem. O papagaio também é anônimo, e será o primeiro a ser sacrificado em nome da sobrevivência da família. “Também nem falava”, justifica-se Sinhá Vitória. E como iria aprender a falar num meio em que o mutismo era a regra?
Já se disse também que a natureza – a áspera e nada idílica natureza da Caatinga – é personagem de Vidas Secas. E ela está sempre lá, a determinar, a limitar ou expandir a ação das pessoas. O sertanejo não discute com ela – aceita-a. Logo no capítulo 1, vemos através do monólogo interior de Fabiano que “A seca aparecia-lhe com um fato necessário...”
Outro tema recorrente para Fabiano é o da sua, digamos assim, condição existencial. Era um homem? Ou um bicho? Numa imagem bonita, considera que “Ele, Fabiano, era como a bolandeira. Não sabia porquê, mas era”. A bolandeira é o mecanismo, movido a tração animal ou humana e usado nos antigos engenhos de açúcar. A roda refaz seu caminho, em torno do seu eixo, infinitamente, sem sair do lugar. Assim seria Fabiano, alguém que nunca sai do lugar, por mais esforço que faça?
Ele também sabe que não é um homem diante do patrão autoritário. Ou do policial, “o soldado amarelo” arbitrário e parcial, que personifica o Estado, com o qual não se discute. “Pensando bem, ele não era homem: era apenas um cabra ocupado em guardar coisas dos outros”, reflete. Sinhá Vitória tinha apenas ideia fixa, possuir um dia uma cama confortável, como a que vira na casa de Seu Tomás, um antigo patrão, o dono da bolandeira. Fabiano não respondia à mulher, mas achava que tal desejo, um leito macio para esticar os ossos após um dia de duro trabalho, era luxo impensável e inatingível para eles.
O romance “desmontável” de Graciliano Ramos nos coloca na intimidade dessa família miserável, à beira da extinção física, à mercê de uma natureza inclemente e de homens cruéis. Experimentamos sua dor, sua revolta, seu conformismo, sua consciência e alienação, sua esperança que aparece timidamente, como um toco de vela na escuridão. Talvez não haja ficção tão real e tão pungente sobre os efeitos da miséria e da extrema desigualdade social. E nos emociona demais porque o ponto de vista é o da interioridade dos personagens e não um olhar distanciado e “imparcial”. Mas é na contenção e economia de recursos que a obra de Graciliano nos toca de maneira ainda mais profunda, porque jamais apela para o melodrama ou as soluções emotivas fáceis. Se hoje Vidas Secas nos parece tão atual, também assim o pareceu nos anos 1960 quando os diretores do Cinema Novo buscavam temas urgentes e nacionais para suas obras críticas. O romance de Graciliano Ramos era ambição antiga de Nelson Pereira dos Santos, o precursor do movimento e um dos seus esteios mais sólidos.
Nelson, após uma frustrada tentativa anterior, começou a realizar Vidas Secas em 1962. Escolheu para o papel de Fabiano um ator profissional, Átila Iório, e, para o de Sinhá Vitória, uma amadora, Maria Ribeiro, funcionária do Laboratório Líder, onde os cinemanovistas revelavam os negativos dos seus filmes. Também encontrou Jofre Soares, que, no papel do dono da fazenda, faz sua primeira participação como ator. Primeira de uma carreira vitoriosa no cinema e na TV. A cachorra Baleia foi comprada em uma feira da região. Depois das filmagens, voltou com a equipe para o Rio de Janeiro e se tornou mascote de Fábio Barreto, filho de Luiz Carlos Barreto.
Barreto foi o fotógrafo de Vidas Secas e um dos principais responsáveis para que o filme tenha marcado época. Até então fotógrafo de revistas e jornais (foi profissional de O Cruzeiro), Luiz Carlos Barreto foi convidado a estrear como diretor de fotografia em Vidas Secas. Propôs uma fotografia sem filtros, chapada, que trouxesse para a tela a luminosidade e o calor sufocantes do sertão. Foi uma ideia ousada. Havia quem sustentasse que os laboratórios não conseguiriam revelar os negativos obtidos naquelas condições. Por sorte conseguiram. Curiosamente, foi o caráter “desmontável” do romance que permitiu a Nelson “remontá-lo” com toda facilidade em linguagem cinematográfica. Mudou a ordem dos capítulos e fundiu alguns deles para ganhar dramaticidade. Por exemplo, o sacrifício da cachorra Baleia foi levado para perto do final da história, de modo que o desfecho ganhou uma tonalidade emocional extra.
Aliás, a “morte” da Baleia teve repercussão quando o filme foi ao Festival de Cannes em 1964. Nelson, pessoa muito bem humorada, gostava de lembrar o caso em entrevistas. A morte de Baleia parece tão realista que uma condessa italiana, ligada à Sociedade Protetora dos Animais, denunciou que a cadela havia sido baleada de verdade para propósitos cinematográficos. Disse, para quem quisesse ouvir, que gente que matava um animal daquela maneira merecia mesmo morrer de fome.
Em vão a equipe negou que a cadela tivesse morrido nas filmagens. Mandaram então buscar o animal no Rio e Baleia, pelas asas da Air France, chegou a Cannes e desfilou em triunfo na Croisette. Nem por isso a Condessa deu o braço a torcer: “Mataram aquela e trouxeram esta para cá: cachorro vira-lata é tudo igual mesmo”.
Anedotas à parte, Vidas Secas comoveu o público e impressionou a crítica. Adaptação radical de uma obra-prima da literatura, capta sua essência. Mobiliza recursos de linguagem cinematográfica para lograr essa transposição bem-sucedida. Mantém o laconismo dos personagens, explora o contraste e a força da fotografia para imergir o espectador naquele labirinto solar em que a família de Fabiano e Sinhá Vitória se encontra presa. Limita a trilha sonora ao ruído triste das rodas de um carro de bois. Tal como o livro, é obra definitiva sobre a iniquidade social.
Referências
https://www.estadao.com.br/infograficos/brasil,cinema-era-preciso-sentir-o-calor-olhando-para-a-fotografia-do-filme-conta-barreto,911961 11/10/2018
A entrevista de Luiz Carlos Barreto
https://www.youtube.com/watch?time_continue=4&v=i7NhYGhlOoY
O filme Vidas Secas
https://www.youtube.com/watch?v=m5fsDcFOdwQ
quinta-feira, 13 de setembro de 2018
Tratar um câncer transforma a vida, nem sempre para pior
Experiência desequilibra tudo, mas deixa um saldo bom, dizem pacientes
Dante Ferrasoli
Folha de São Paulo, 13/09/2018
A vida de quem passa por um tratamento de câncer é transformada em aspectos alheios à doença, como relações afetivas e familiares, autoimagem, hábitos, rotina. “Infelizmente, muitos maridos abandonam as mulheres que descobrem um câncer”, diz Luciana Holtz, presidente do Oncoguia, entidade que auxilia pacientes da doença.
Por ouvir histórias que exemplificam a afirmação acima, a cabeleireira Cíntia Gonçales, 38, resolveu se antecipar e mandar seu marido embora quando recebeu o diagnóstico de linfoma em 2013. “Falei: ‘não sei se você vai ter cabeça para enfrentar isso comigo, vai ser difícil, não quero que você passe por isso’, aquelas paranoias. Não queria vê-lo sofrer”, relembra. Mas o parceiro não foi embora. Ficou e a viu vencer o linfoma, em 2014, para descobrir uma leucemia, que Cíntia combate desde o fim de 2017. Eles estão casados há 16 anos.
O tratamento das neoplasias, é claro, afetou a rotina do casal, já que Cíntia não conseguia, por exemplo, fazer sexo. “Na época do linfoma não dava, de jeito nenhum. Minha cabeça queria, mas o corpo não. A gente fica muito ressecada. Tentei gel, tentei tudo que você pode imaginar, mas acabava me machucando e me frustrando”, afirma. O marido, conta ela, reagiu bem e nem sequer tocava no assunto, porque sabia que Cíntia tinha vontade. No tratamento da leucemia tem sido mais fácil. “Talvez porque minha cabeça também tenha mudado, mas tem uma medicação que tomo a cada três meses que me deixa muito ressecada. Nesse tempo, é mais difícil”, diz.
Para comunicar a sua doença ao filho de 9 anos na época, que tem síndrome de Down, Cíntia recorreu ao lúdico. “Fui contando como se fosse uma historinha. No fim, ele entendeu e raspou a cabeça.”
Outro aspecto que pode ter impacto na vida do paciente é a mudança na aparência, por causa da quimioterapia. “Quando raspei a cabeça, para mim foi tranquilo, o problema foram os outros”, conta a assistente de atendimento Regiane da Silva, 26, que fez na quinta (6) a última sessão de químio para tratar um linfoma descoberto em março. Ela diz que, às vezes, quando passeia de lenço na cabeça, recebe olhares assustados ou de dó, o que incomoda. “Também fui me inscrever numa academia, e a atendente me falou ‘nossa, mas você está de lenço, vai conseguir fazer?’”, relembra.
A publicitária Paula Dultra, 38, que já passou por um câncer de mama e hoje enfrenta um de ovário, diz não perder a vaidade mesmo careca. “Uso turbante de oncinha.” Uma tentativa malsucedida de evitar —ou ao menos reduzir— a queda de cabelo, no entanto, a deixou chateada. Como já ficara careca em 2011, época do primeiro tumor, tentou evitar a perda capilar no tratamento atual. Paula testou a touca gelada, método que baixa a temperatura do couro cabeludo durante as sessões de quimioterapia, para proteger as células. “Tive que ficar sete dias sem lavar o cabelo e, depois, não deu certo. Isso me deixou abalada”, afirma.
Só que nem toda mudança durante o tratamento de um câncer tem de ser negativa. Cíntia conta que, antes de descobrir o linfoma e a leucemia, tinha autoestima péssima e se achava muito feia. “Quando fiquei careca, foi a primeira vez que me olhei no espelho e me achei bonita, aos 32 anos. O câncer me trouxe a autoestima que nunca tive.” Junto com o amor-próprio veio um sentido de independência. “Antes, eu mal saía de casa. Era só filho, marido, irmão, mãe. Esqueci de mim por muito tempo e, com a leucemia, mudei minha forma de viver”, diz ela, que agora viaja uma vez por mês para a casa de uma amiga em Santos.
Regiane afirma que passou por fases muito difíceis, como na época em que teve de parar de amamentar o filho, ou quando tomava morfina para dormir, ou, ainda, quando, exausta, se sentava no chão do trem lotado, a caminho do trabalho. Mesmo assim, diz que a doença lhe fez bem. “Você pode passar por tudo com mente positiva. A gente apanha, mas aprende. Eu me considero hoje uma pessoa muito melhor e mais humana. Foi bom para mim”, afirma.
Paula, que também diz enfrentar a doença com otimismo, criou um blog em 2012, chamado Mão Na Mama, no qual conta suas experiências e auxilia outros pacientes. “Sempre tive uma visão prática. Tenho a doença, o que vou fazer? Levo a vida normalmente, não deixo que o câncer me defina”, afirma.
As três mulheres têm em comum o fato de terem contado com o apoio da família, dos companheiros e de amigos. “Esse é o remédio que mais fez efeito”, resume Regiane, que vai se casar em outubro.
https://www1.folha.uol.com.br/seminariosfolha/2018/09/tratar-um-cancer-transforma-a-vida-nem-sempre-para-pior.shtml
Posfácio: o que os depoimentos acima tem a ver comigo? Muito. Passei por um tratamento de câncer. Relato neste blog: PSA: a radiografia de um câncer
Dante Ferrasoli
Folha de São Paulo, 13/09/2018
A vida de quem passa por um tratamento de câncer é transformada em aspectos alheios à doença, como relações afetivas e familiares, autoimagem, hábitos, rotina. “Infelizmente, muitos maridos abandonam as mulheres que descobrem um câncer”, diz Luciana Holtz, presidente do Oncoguia, entidade que auxilia pacientes da doença.
Por ouvir histórias que exemplificam a afirmação acima, a cabeleireira Cíntia Gonçales, 38, resolveu se antecipar e mandar seu marido embora quando recebeu o diagnóstico de linfoma em 2013. “Falei: ‘não sei se você vai ter cabeça para enfrentar isso comigo, vai ser difícil, não quero que você passe por isso’, aquelas paranoias. Não queria vê-lo sofrer”, relembra. Mas o parceiro não foi embora. Ficou e a viu vencer o linfoma, em 2014, para descobrir uma leucemia, que Cíntia combate desde o fim de 2017. Eles estão casados há 16 anos.
O tratamento das neoplasias, é claro, afetou a rotina do casal, já que Cíntia não conseguia, por exemplo, fazer sexo. “Na época do linfoma não dava, de jeito nenhum. Minha cabeça queria, mas o corpo não. A gente fica muito ressecada. Tentei gel, tentei tudo que você pode imaginar, mas acabava me machucando e me frustrando”, afirma. O marido, conta ela, reagiu bem e nem sequer tocava no assunto, porque sabia que Cíntia tinha vontade. No tratamento da leucemia tem sido mais fácil. “Talvez porque minha cabeça também tenha mudado, mas tem uma medicação que tomo a cada três meses que me deixa muito ressecada. Nesse tempo, é mais difícil”, diz.
Para comunicar a sua doença ao filho de 9 anos na época, que tem síndrome de Down, Cíntia recorreu ao lúdico. “Fui contando como se fosse uma historinha. No fim, ele entendeu e raspou a cabeça.”
Outro aspecto que pode ter impacto na vida do paciente é a mudança na aparência, por causa da quimioterapia. “Quando raspei a cabeça, para mim foi tranquilo, o problema foram os outros”, conta a assistente de atendimento Regiane da Silva, 26, que fez na quinta (6) a última sessão de químio para tratar um linfoma descoberto em março. Ela diz que, às vezes, quando passeia de lenço na cabeça, recebe olhares assustados ou de dó, o que incomoda. “Também fui me inscrever numa academia, e a atendente me falou ‘nossa, mas você está de lenço, vai conseguir fazer?’”, relembra.
A publicitária Paula Dultra, 38, que já passou por um câncer de mama e hoje enfrenta um de ovário, diz não perder a vaidade mesmo careca. “Uso turbante de oncinha.” Uma tentativa malsucedida de evitar —ou ao menos reduzir— a queda de cabelo, no entanto, a deixou chateada. Como já ficara careca em 2011, época do primeiro tumor, tentou evitar a perda capilar no tratamento atual. Paula testou a touca gelada, método que baixa a temperatura do couro cabeludo durante as sessões de quimioterapia, para proteger as células. “Tive que ficar sete dias sem lavar o cabelo e, depois, não deu certo. Isso me deixou abalada”, afirma.
Só que nem toda mudança durante o tratamento de um câncer tem de ser negativa. Cíntia conta que, antes de descobrir o linfoma e a leucemia, tinha autoestima péssima e se achava muito feia. “Quando fiquei careca, foi a primeira vez que me olhei no espelho e me achei bonita, aos 32 anos. O câncer me trouxe a autoestima que nunca tive.” Junto com o amor-próprio veio um sentido de independência. “Antes, eu mal saía de casa. Era só filho, marido, irmão, mãe. Esqueci de mim por muito tempo e, com a leucemia, mudei minha forma de viver”, diz ela, que agora viaja uma vez por mês para a casa de uma amiga em Santos.
Regiane afirma que passou por fases muito difíceis, como na época em que teve de parar de amamentar o filho, ou quando tomava morfina para dormir, ou, ainda, quando, exausta, se sentava no chão do trem lotado, a caminho do trabalho. Mesmo assim, diz que a doença lhe fez bem. “Você pode passar por tudo com mente positiva. A gente apanha, mas aprende. Eu me considero hoje uma pessoa muito melhor e mais humana. Foi bom para mim”, afirma.
Paula, que também diz enfrentar a doença com otimismo, criou um blog em 2012, chamado Mão Na Mama, no qual conta suas experiências e auxilia outros pacientes. “Sempre tive uma visão prática. Tenho a doença, o que vou fazer? Levo a vida normalmente, não deixo que o câncer me defina”, afirma.
As três mulheres têm em comum o fato de terem contado com o apoio da família, dos companheiros e de amigos. “Esse é o remédio que mais fez efeito”, resume Regiane, que vai se casar em outubro.
https://www1.folha.uol.com.br/seminariosfolha/2018/09/tratar-um-cancer-transforma-a-vida-nem-sempre-para-pior.shtml
Posfácio: o que os depoimentos acima tem a ver comigo? Muito. Passei por um tratamento de câncer. Relato neste blog: PSA: a radiografia de um câncer
sábado, 25 de agosto de 2018
Violência no Brasil
Violência no Brasil gerou 3,5 vezes mais mortes do que todos os ataques terroristas no mundo em 2017
Renato Sérgio de Lima, Folha de São Paulo, 24/08/2018
Enquanto vários políticos surfam na onda do pânico da população e defendem violência e vingança como fórmula para reduzir o crime, o Brasil vai batendo recordes e mais recordes de violência e dá provas que está em acelerado processo de desconsolidação democrática e civilizatória.
Não estamos sendo capazes de compreender a urgência de uma ampla coalização em torno de um projeto de redução da violência letal no país. E, nesta toada, tornamo-nos insensíveis ao sofrimento provocado pela violência do crime e pela insensatez violenta das políticas públicas.
A maior evidência do fracasso do Brasil em prevenir a violência e controlar o medo e o crime em seu território é a cifra de casos de mortes violentas intencionais registrada em 2017: 63.880 casos.
Para se ter uma ideia da magnitude deste número, ele é três vezes e meia maior do que o total de mortes provocadas por todos os atos terroristas ocorridos no mesmo ano no mundo, segundo dados do Jane`s Terrorism and Insurgency Center. Em 2017, o mundo teve 18.475 pessoas assassinadas em ataques terroristas.
Se estes números parecem exagerados, aqueles observados para o período 2014-2017, são ainda mais emblemáticos, pois reforçam, a ideia de que vivemos em um permanente estado de exceção. Em 4 anos, o mundo registrou 124.382 vítimas fatais do terrorismo. E, no Brasil, foram mortas 243.545 pessoas de modo intencionalmente violento no mesmo período.
Porém, se desde 2001, quando dos ataques às Torres Gêmeas, em Nova Iorque, o mundo foi forçado a aprender, a um custo abominável de vidas e de dor, sobre os riscos e a perversidade do terrorismo contemporâneo, o Brasil teima em acreditar em promessas vazias e em salvadores da pátria e não se mobiliza.
O mundo mudou completamente a partir do 11 de setembro de 2001, mas nós ainda ficamos à espera da procissão de milagres narrada por Sérgio Buarque no livro Visão do Paraíso, de 1959.
Enquanto vemos o tempo passar, o país não parece muito preocupado com a vida de milhões de jovens, em sua maioria pobres e negros, que são mortos todos os anos. E, se a violência é uma das marcas mais profundas da nossa história, o momento atual a traz à tona de modo muito intenso e inédito em razão das novas configurações do crime organizado em torno de drogas e armas e da forma como o Estado, em suas múltiplas instâncias e poderes, tem insistido em tratá-las.
Reportagem de Flávio Costa e Luís Adorno, no UOL, mostra que o território nacional está tomado por uma guerra entre as várias organizações criminais existentes e que, a partir da disputa pela hegemonia no mundo do crime, o PCC (Primeiro Comando da Capital), tem usado as prisões como plataforma de invasão e dominação de territórios.
Há uma guerra entre facções que mimetiza técnicas do terrorismo político e religioso e, como se fosse algo quase que “naturalizado”, vemos cenas de decapitações sem maior indignação e ação por parte das autoridades.
Mas o mais surreal é ver que os políticos que assumem a valentia retórica da violência como melhor resposta para o crime, esquecem-se que os principais líderes do PCC e das demais grandes facções criminosas estão presos. O problema, portanto, não é prender, mas sufocar a capacidade das organizações criminosas em se financiarem.
Nenhum desses falsos profetas disse o que pretende fazer para achar e bloquear o dinheiro que move o crime organizado no país. É mais pop defender invasões bélicas às comunidades tomadas pelo tráfico, mesmo que ao custo de mortes de todos os lados, como os 3 militares do Exército Brasileiro e os 8 moradores, vítimas do confronto no Complexo do Alemão, na semana última.
Estamos banalizando a morte e estamos nos tornando insensíveis à dor e ao sofrimento da população que vive sob o fogo cruzado da tirania do crime organizado e da completa incapacidade do Poder Público em unir esforços em torno de um projeto de nação verdadeiramente democrático e informado pela nossa Constituição Cidadã.
Demagogos denunciam a agenda de direitos como excessiva ou de “esquerda”, mas são estes mesmos que, ao proporem jogar direitos na “latrina”, escondem que estão protegidos por coletes à prova de bala e por seguranças fortemente armados. É fácil explorar o medo e denunciar direitos quando se é político profissional e o sofrimento alheio é visto como mera oportunidade de angariar votos.
https://facesdaviolencia.blogfolha.uol.com.br/2018/08/24/violencia-no-brasil-gerou-35-vezes-mais-mortes-do-que-todos-os-ataques-terroristas-no-mundo-em-2017/
Renato Sérgio de Lima, Folha de São Paulo, 24/08/2018
Enquanto vários políticos surfam na onda do pânico da população e defendem violência e vingança como fórmula para reduzir o crime, o Brasil vai batendo recordes e mais recordes de violência e dá provas que está em acelerado processo de desconsolidação democrática e civilizatória.
Não estamos sendo capazes de compreender a urgência de uma ampla coalização em torno de um projeto de redução da violência letal no país. E, nesta toada, tornamo-nos insensíveis ao sofrimento provocado pela violência do crime e pela insensatez violenta das políticas públicas.
A maior evidência do fracasso do Brasil em prevenir a violência e controlar o medo e o crime em seu território é a cifra de casos de mortes violentas intencionais registrada em 2017: 63.880 casos.
Para se ter uma ideia da magnitude deste número, ele é três vezes e meia maior do que o total de mortes provocadas por todos os atos terroristas ocorridos no mesmo ano no mundo, segundo dados do Jane`s Terrorism and Insurgency Center. Em 2017, o mundo teve 18.475 pessoas assassinadas em ataques terroristas.
Se estes números parecem exagerados, aqueles observados para o período 2014-2017, são ainda mais emblemáticos, pois reforçam, a ideia de que vivemos em um permanente estado de exceção. Em 4 anos, o mundo registrou 124.382 vítimas fatais do terrorismo. E, no Brasil, foram mortas 243.545 pessoas de modo intencionalmente violento no mesmo período.
Porém, se desde 2001, quando dos ataques às Torres Gêmeas, em Nova Iorque, o mundo foi forçado a aprender, a um custo abominável de vidas e de dor, sobre os riscos e a perversidade do terrorismo contemporâneo, o Brasil teima em acreditar em promessas vazias e em salvadores da pátria e não se mobiliza.
O mundo mudou completamente a partir do 11 de setembro de 2001, mas nós ainda ficamos à espera da procissão de milagres narrada por Sérgio Buarque no livro Visão do Paraíso, de 1959.
Enquanto vemos o tempo passar, o país não parece muito preocupado com a vida de milhões de jovens, em sua maioria pobres e negros, que são mortos todos os anos. E, se a violência é uma das marcas mais profundas da nossa história, o momento atual a traz à tona de modo muito intenso e inédito em razão das novas configurações do crime organizado em torno de drogas e armas e da forma como o Estado, em suas múltiplas instâncias e poderes, tem insistido em tratá-las.
Reportagem de Flávio Costa e Luís Adorno, no UOL, mostra que o território nacional está tomado por uma guerra entre as várias organizações criminais existentes e que, a partir da disputa pela hegemonia no mundo do crime, o PCC (Primeiro Comando da Capital), tem usado as prisões como plataforma de invasão e dominação de territórios.
Há uma guerra entre facções que mimetiza técnicas do terrorismo político e religioso e, como se fosse algo quase que “naturalizado”, vemos cenas de decapitações sem maior indignação e ação por parte das autoridades.
Mas o mais surreal é ver que os políticos que assumem a valentia retórica da violência como melhor resposta para o crime, esquecem-se que os principais líderes do PCC e das demais grandes facções criminosas estão presos. O problema, portanto, não é prender, mas sufocar a capacidade das organizações criminosas em se financiarem.
Nenhum desses falsos profetas disse o que pretende fazer para achar e bloquear o dinheiro que move o crime organizado no país. É mais pop defender invasões bélicas às comunidades tomadas pelo tráfico, mesmo que ao custo de mortes de todos os lados, como os 3 militares do Exército Brasileiro e os 8 moradores, vítimas do confronto no Complexo do Alemão, na semana última.
Estamos banalizando a morte e estamos nos tornando insensíveis à dor e ao sofrimento da população que vive sob o fogo cruzado da tirania do crime organizado e da completa incapacidade do Poder Público em unir esforços em torno de um projeto de nação verdadeiramente democrático e informado pela nossa Constituição Cidadã.
Demagogos denunciam a agenda de direitos como excessiva ou de “esquerda”, mas são estes mesmos que, ao proporem jogar direitos na “latrina”, escondem que estão protegidos por coletes à prova de bala e por seguranças fortemente armados. É fácil explorar o medo e denunciar direitos quando se é político profissional e o sofrimento alheio é visto como mera oportunidade de angariar votos.
https://facesdaviolencia.blogfolha.uol.com.br/2018/08/24/violencia-no-brasil-gerou-35-vezes-mais-mortes-do-que-todos-os-ataques-terroristas-no-mundo-em-2017/
sexta-feira, 24 de agosto de 2018
Porque escrevo (Ensaios de risco)
Tati Bernardi
Otavio (Frias Filho)* topou escrever a orelha do meu livro sobre medos e crises de ansiedade, e eu, muito agradecida e emocionada, o convidei para almoçar. Finda a sobremesa, eu já angustiada querendo prolongar o papo, fiz o seguinte trato comigo: vou ler "Queda Livre - Ensaios de Risco" ainda esta semana e mandar um email bem caprichado para que, talvez, se eu tiver muita sorte, iniciemos uma amizade. Não li o livro (até esta manhã; e a leitura está sendo muito intensa porque o conteúdo trata sobre o temor da morte e, não obstante, a coragem, apurada e honesta, com a qual o autor se lança a pulsões que o aproximam dela). Nunca escrevi o email.
Na faculdade, a Priscila fez uma festa e chamou praticamente a classe inteira —menos eu. Encasquetei com aquela menina tímida e magrela e não descansei enquanto não consegui ser a sua melhor amiga. Várias vezes na semana, caminhávamos até o antigo Espaço Unibanco para ver filmes, comer pães de queijo e coçar as canelas. Estávamos aprendendo a dirigir, a suportar o estágio que não nos agradava e a lidar com rapazes que nunca mais telefonavam —tudo isso (mais a moda de usar meia-calça) nos dava a mesma alergia naquela parte das pernas. Vivemos grudadas por mais de uma década, até que ela se casou e mudou para Paris. Durante anos, ela me convidou insistentemente para visitá-la. Nunca dava tempo, nunca cabiam na minha vida fóbica esses dias incríveis que alargariam meus limites. Então ela morreu.
Li o brilhante livro de contos "Jeito de Matar Lagartas" e adicionei o escritor Antonio Carlos Viana no Facebook. Ele topou a aproximação virtual e me surpreendeu com uma mensagem na qual dizia que andava me lendo e gostando. Convidou-me então para um pequeno evento que organizava em Aracaju, chamado Autor do Mês. Achei longe demais, quente demais, em cima da hora demais. Vi as fotos, uma turminha ótima, animada, encantadora. Pouco tempo depois, Antonio parou de responder a minhas mensagens, e em seguida eu soube da sua morte.
Quando me perguntam para quem eu escrevo, sempre respondo que para ninguém ou para a parte de mim que não pode surtar. Mas a verdade é que escrevo para tocar interlocutores possíveis, perspectivas de uma vida menos chata, menos óbvia, menos superficialmente sufocante. Escrevo para que alguém possa entender e me explicar meus escritos. Escrevo para autores melhores e maiores como Antonio Carlos Viana, na tentativa de ser catapultada da minha medida. Escrevo porque não fui a Paris, não fui a Sergipe, não irei a mais almoços com Otavio.
Escrevo para dar conta da saudade que sinto de fazer gargalhar minha amiga Priscila, ela me pedindo: "Para, que vergonha!", mas se divertindo com minhas palhaçadas. Escrevo para organizar, na minha caixa de "tudo o que tem no mundo", um troço chamado câncer e seu efeito nefasto que abrevia a existência de melhores amigos e de amigos sonhados.
Escrevo para imaginar o abraço que eu teria dado no grupo de leitura do evento Autor do Mês e o que Otavio teria respondido à minha tentativa desesperada de ser sua amiga. Escrevo porque sou desesperada para ser amiga das pessoas.
Diferente de Otavio, não pulei de paraquedas, não tomei Santo Daime, não atuei numa peça de teatro, não mudei a história do jornalismo no Brasil. Mas escreverei para sempre (e sobretudo, enquanto puder, para este jornal) pensando na honra deste espaço, daquele almoço e de ter sido lida por ele.
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tatibernardi/https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tatibernardi/ 24/08/2018
*Otavio Frias de Oliveira Filho (São Paulo, 7 de junho de 1957 - São Paulo, 21 de agosto de 2018) foi um jornalista brasileiro. Foi diretor de redação do jornal Folha de S. Paulo e diretor editorial do Grupo Folha, o qual herdou de seu pai, Octávio Frias de Oliveira.
Otavio (Frias Filho)* topou escrever a orelha do meu livro sobre medos e crises de ansiedade, e eu, muito agradecida e emocionada, o convidei para almoçar. Finda a sobremesa, eu já angustiada querendo prolongar o papo, fiz o seguinte trato comigo: vou ler "Queda Livre - Ensaios de Risco" ainda esta semana e mandar um email bem caprichado para que, talvez, se eu tiver muita sorte, iniciemos uma amizade. Não li o livro (até esta manhã; e a leitura está sendo muito intensa porque o conteúdo trata sobre o temor da morte e, não obstante, a coragem, apurada e honesta, com a qual o autor se lança a pulsões que o aproximam dela). Nunca escrevi o email.
Na faculdade, a Priscila fez uma festa e chamou praticamente a classe inteira —menos eu. Encasquetei com aquela menina tímida e magrela e não descansei enquanto não consegui ser a sua melhor amiga. Várias vezes na semana, caminhávamos até o antigo Espaço Unibanco para ver filmes, comer pães de queijo e coçar as canelas. Estávamos aprendendo a dirigir, a suportar o estágio que não nos agradava e a lidar com rapazes que nunca mais telefonavam —tudo isso (mais a moda de usar meia-calça) nos dava a mesma alergia naquela parte das pernas. Vivemos grudadas por mais de uma década, até que ela se casou e mudou para Paris. Durante anos, ela me convidou insistentemente para visitá-la. Nunca dava tempo, nunca cabiam na minha vida fóbica esses dias incríveis que alargariam meus limites. Então ela morreu.
Li o brilhante livro de contos "Jeito de Matar Lagartas" e adicionei o escritor Antonio Carlos Viana no Facebook. Ele topou a aproximação virtual e me surpreendeu com uma mensagem na qual dizia que andava me lendo e gostando. Convidou-me então para um pequeno evento que organizava em Aracaju, chamado Autor do Mês. Achei longe demais, quente demais, em cima da hora demais. Vi as fotos, uma turminha ótima, animada, encantadora. Pouco tempo depois, Antonio parou de responder a minhas mensagens, e em seguida eu soube da sua morte.
Quando me perguntam para quem eu escrevo, sempre respondo que para ninguém ou para a parte de mim que não pode surtar. Mas a verdade é que escrevo para tocar interlocutores possíveis, perspectivas de uma vida menos chata, menos óbvia, menos superficialmente sufocante. Escrevo para que alguém possa entender e me explicar meus escritos. Escrevo para autores melhores e maiores como Antonio Carlos Viana, na tentativa de ser catapultada da minha medida. Escrevo porque não fui a Paris, não fui a Sergipe, não irei a mais almoços com Otavio.
Escrevo para dar conta da saudade que sinto de fazer gargalhar minha amiga Priscila, ela me pedindo: "Para, que vergonha!", mas se divertindo com minhas palhaçadas. Escrevo para organizar, na minha caixa de "tudo o que tem no mundo", um troço chamado câncer e seu efeito nefasto que abrevia a existência de melhores amigos e de amigos sonhados.
Escrevo para imaginar o abraço que eu teria dado no grupo de leitura do evento Autor do Mês e o que Otavio teria respondido à minha tentativa desesperada de ser sua amiga. Escrevo porque sou desesperada para ser amiga das pessoas.
Diferente de Otavio, não pulei de paraquedas, não tomei Santo Daime, não atuei numa peça de teatro, não mudei a história do jornalismo no Brasil. Mas escreverei para sempre (e sobretudo, enquanto puder, para este jornal) pensando na honra deste espaço, daquele almoço e de ter sido lida por ele.
https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tatibernardi/https://www1.folha.uol.com.br/colunas/tatibernardi/ 24/08/2018
*Otavio Frias de Oliveira Filho (São Paulo, 7 de junho de 1957 - São Paulo, 21 de agosto de 2018) foi um jornalista brasileiro. Foi diretor de redação do jornal Folha de S. Paulo e diretor editorial do Grupo Folha, o qual herdou de seu pai, Octávio Frias de Oliveira.
sexta-feira, 17 de agosto de 2018
Catástrofe a vista
A catástrofe se aproxima
das universidades federais e do sistema de ciência e tecnologia
Em
meio à neblina cerrada que recai sobre o futuro dos conhecimentos científico,
tecnológico, artístico e cultural, provocada pela emenda dita do Teto
(declinante) dos Gastos (EC 95/2016), a rigor, emenda da reforma não consentida
do Estado, a ponta do iceberg emerge ameaçadoramente. Como consagrado no dito
popular, a parte visível da catástrofe que se aproxima oculta a grande massa
submersa, justamente a referida EC 95. Um alerta à comunidade acadêmica:
manobras de pequena envergadura não livrarão o país dos problemas advindos da
obtusa alteração constitucional.
As
dimensões visíveis dos efeitos da EC 95 são importantes e, por isso, devem ser
cuidadosamente examinadas. Em 1º de agosto, a direção da Capes veio a público
para alertar que, com os cortes estimados para 2019, as 93 mil bolsas de pós-graduação
e as 105 mil de formação docente deixarão de ser pagas em agosto. É sistêmico.
Uma semana depois, o presidente do CNPq manifestou a mesma preocupação sobre o
futuro do órgão. A previsão é de que o orçamento despenque do irrisório R$ 1,2
bilhão em 2018 para apenas R$ 800 milhões em 2019. Nem sequer as bolsas poderão
ser pagas. É necessário lembrar que em 2014 o orçamento foi de R$ 2,8 bilhões.
Ademais, em virtude do teto, recursos advindos das empresas para o fomento
científico e tecnológico não poderão ser integralizados no orçamento do CNPq em
2019 por inexistência de limite orçamentário. Com isso, as bolsas de
pós-graduação e de pesquisa e os investimentos em ciência e tecnologia serão
literalmente interrompidos no país.
A
parte visível das consequências sobre a área de ciência e tecnologia é
devastadora. Mas é preciso ampliar o olhar para a destruição do sistema de
educação superior, ciência, tecnologia e inovação em sua amplitude. As
atividades apoiadas pela Capes e pelo CNPq são desenvolvidas, em sua grande
maioria, nas universidades públicas federais, e elas estão sobrevivendo por
meio de respiração artificial, na iminência de risco de colapso. De modo
direto: a crise orçamentária da Capes e do CNPq não pode ser vista de modo
desvinculado do apagão orçamentário das universidades federais. De nada
resolveria alocar mais recursos para a Capes retirando ainda mais recursos das
universidades e institutos federais de educação tecnológica. Tampouco dos
programas destinados à educação básica. Igualmente, de nada resolveria melhorar
os recursos da educação canibalizando as verbas do MCTIC ou do Ministério da
Saúde. O problema real é a armadilha produzida pela EC 95/2016. Nenhum país
sobrevive sem investimentos públicos.
Recente
estudo de Vilma Pinto e Manoel Pires, do Ibre/FGV, confirma o iminente colapso
do funcionamento do Estado Federal. As verbas discricionárias que pagam o
custeio e o investimento dos órgãos federais podem ser reduzidas de R$ 126
bilhões, em 2018, para R$ 100 bilhões em 2019, e, em 2020, para R$ 70 bilhões.
Isso considerando-se que o salário mínimo e a remuneração dos servidores não
serão corrigidos, hipótese socialmente deletéria. Contudo, o custo mínimo da
máquina pública é de R$ 120 bilhões. Episódios como a suspensão da emissão de
passaportes se repetirão em todos os órgãos. Com isso, toda a grande área
associada à ciência será desmoronada ao longo de 2019. A pesquisa não é uma
linha de montagem em que, desligadas as máquinas, elas podem ser religadas em
momento mais favorável. Linhagens de seres vivos precisam ser mantidas.
Processos de investigação são cumulativos. Os jovens pesquisadores e estudantes
precisam de mensagens positivas sobre o futuro. É fantasioso supor que o
mercado irá preencher esse vazio.
Um
exemplo concreto ajuda a dimensionar o problema. Em 2015, na UFRJ, a maior
federal do país, as verbas da União autorizadas pela LOA foram de R$ 341
milhões para o seu custeio e investimentos, sendo que R$ 53 milhões foram
contingenciados. Em 2018, o orçamento da União está reduzido para R$ 282
milhões. E novos cortes estão sendo anunciados. Assim, as verbas de
investimento despencaram de R$ 51 milhões, em 2016, para R$ 6 milhões em 2018.
E com isso prédios estão com a construção interrompida, os prédios prontos
estão sem fornecimento de energia, moradias estudantis ficam atrasadas,
alimentando a evasão de estudantes. E o estoque da dívida somente não cresce em
virtude do forte corte de gastos de custeio empreendido desde 2015, ceifando
mais de 1,3 mil postos de trabalho terceirizados. Mas os cortes chegaram ao
limite.
O
país necessita de uma concertação democrática e comprometida com o
desenvolvimento social, o que requer, obrigatoriamente, recolocar no eixo da
política nacional a valorização do trabalho. É preciso uma coalizão que permita
um pacto republicano que impeça a desorganização do exitoso sistema de ciência
e tecnologia lastreado pelo sistema federal de ensino superior.
A
premissa, lastreada pelas evidências empíricas, é a revogação da EC 95. Frente
à necessidade de sustentabilidade do fundo público, outras medidas mais
abrangentes e inteligentes terão de ser apresentadas, envolvendo reforma
tributária, isenções e renúncias fiscais, melhor abordagem da problemática da
dívida, entre outras. Na transição, é preciso impedir que a EC 95 salgue o solo
do porvir da educação, da ciência, da tecnologia, da arte e da cultura. Para
que as universidades federais não entrem em colapso, a Lei Orçamentária terá de
restabelecer, no mínimo, o montante corrigido da média das LOAs do período
2013-2016, anterior à EC 95, e alocar recursos que possibilitem a conclusão das
obras interrompidas e a correção do orçamento do Programa Nacional de
Assistência Estudantil, assegurando, ao mesmo tempo, que o CNPq e a Capes
recebam o valor real médio do mesmo período.
Jornal do Brasil, 14/08/2018
Roberto Leher
Reitor de Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
Roberto Leher
Reitor de Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ)
sexta-feira, 10 de agosto de 2018
A dor da existência
A guerra do Vietnam
“Quando um bom soldado vai à luta e mata seu primeiro inimigo ele está realmente com medo. Ele está com muito medo, porque matar alguém é aterrorizante. Mas depois você se acostuma com isso. A guerra desperta uma selvageria nas pessoas
Estive na floresta por muito tempo. Os animais não são tão selvagens assim.
Tigres não são tão selvagens. Tigres matam quando precisam comer. Mas as pessoas não se matam porque estão com fome. Quando as pessoas matam e mutilam essa é a selvageria da guerra.” (Nguyen Ngoc - Exército Norte-Vietnamita)
O depoimento acima é do documentário The Vietnam War, 2017, de Ken Burns e Lyn Novick, https://www.imdb.com/title/tt1877514/, (atualmente na Netflix). São 17 horas de vídeo distribuídas e 10 episódios. A selvageria da guerra, suas atrocidades, matança e horror são mostrados de forma contínua e devastadora. Um holocausto com 60 mil mortes de um lado (EUA) e cerca de 2 milhões de vietnamitas. Bombas foram lançadas como não se viu durante a 2ª Guerra. Vilas inteira foram destruídas junto com crianças, mulheres e homens civis.
“Nossas crianças são apenas emprestadas para nós”, declaração da mãe de Danton Wislow Crocker Jr., morto em 1966, aos 19 anos, na guerra do Vietnam.
A essência da existência é a dor (Schopenhauer)
No filme Apocalipse Now, 1979 de Francis Ford Coppola, https://www.imdb.com/title/tt0078788/ tem uma cena central que reproduz o que foi esta guerra. O agonizante Coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando) em sua última declaração em vida. Horror
“Quando um bom soldado vai à luta e mata seu primeiro inimigo ele está realmente com medo. Ele está com muito medo, porque matar alguém é aterrorizante. Mas depois você se acostuma com isso. A guerra desperta uma selvageria nas pessoas
Estive na floresta por muito tempo. Os animais não são tão selvagens assim.
Tigres não são tão selvagens. Tigres matam quando precisam comer. Mas as pessoas não se matam porque estão com fome. Quando as pessoas matam e mutilam essa é a selvageria da guerra.” (Nguyen Ngoc - Exército Norte-Vietnamita)
O depoimento acima é do documentário The Vietnam War, 2017, de Ken Burns e Lyn Novick, https://www.imdb.com/title/tt1877514/, (atualmente na Netflix). São 17 horas de vídeo distribuídas e 10 episódios. A selvageria da guerra, suas atrocidades, matança e horror são mostrados de forma contínua e devastadora. Um holocausto com 60 mil mortes de um lado (EUA) e cerca de 2 milhões de vietnamitas. Bombas foram lançadas como não se viu durante a 2ª Guerra. Vilas inteira foram destruídas junto com crianças, mulheres e homens civis.
“Nossas crianças são apenas emprestadas para nós”, declaração da mãe de Danton Wislow Crocker Jr., morto em 1966, aos 19 anos, na guerra do Vietnam.
Uma imagem impactante deste genocídio é a foto acima de Nick
Ut. Já na fase final da guerra, estarreceu o mundo na época. E mostrou o horror
da guerra.
No filme Apocalipse Now, 1979 de Francis Ford Coppola, https://www.imdb.com/title/tt0078788/ tem uma cena central que reproduz o que foi esta guerra. O agonizante Coronel Walter E. Kurtz (Marlon Brando) em sua última declaração em vida. Horror
Este é o fim / Belo amigo / Este é o fim / De nossos planos elaborados, o fim / De tudo que está de pé, o fim (da música The end dos Doors que dá o tom no filme )
O documentário de Ken Burns e Lyn Novick me trouxe de volta minhas convicções antibelicistas. E a sensação de “o que e para que estamos aqui?”
Joaquim
Deu no Aqui notícias.com, 07/08/2918 (*):
Um crime chocou a região de Brejetuba,ES, na tarde desta segunda-feira (6). Um trabalhador rural, identificado como Joaquim Sabino de Oliveira, 24 anos, matou o filho Ícaro Sabino de Oliveira Miranda, de apenas dois anos, e em seguida se matou em sua residência na localidade de Córrego São Domingos, interior do município, próximo à divisa com Minas Gerais.
Segundo as informações da Polícia Militar, o pai usou um pedaço de arame para matar o filho e com o mesmo tipo de material se matou em seguida. O corpo da criança estava pendurado a cerca de um metro de altura acima do chão. A perícia foi acionada e encaminhou os corpos para o Serviço Médico Legal (SML) de Cachoeiro de Itapemirim.
A hipótese de vingança existe. Joaquim tinha a guarda compartilhada do filho. A separação do casal teria provocada a ira assassina do pai.
A selvageria do cotidiano.
Joaquim não é um tigre, é um humano.
Existir dói. Dor que se disfarça, mas não se esconde. (Bruno Mello Souza)
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