segunda-feira, 2 de novembro de 2026

Pílulas 49

Jorge Ben Jor em show no Festival Turá, realizado no parque Ibirapuera - Rubens Cavallari - 24 jun. 2023/Folhapress


1. Hermanos Gutierrez & Laurindo Almeida & Schubert 

2. Januária das cavernas 

3. Eric Cantona, reeleição de Lula e os egos confinados 

4. A fuga do amarelão

5. Como uma cozinheira turca me ajudou a aguentar a tensão do segundo turno

6. Influência financeira de oligarcas tech em eleições enfrenta rejeição crescente

7. BPC evitou 13 milhões de internações 

8. Ben Jor resumiu história do café em música 'esquecida'

9. Nelson Motta ‘sincerão’

10. Celso Furtado e Conceição Tavares

11. Ed Motta 

12. Monterey Pop Festival 1967 

13. Salve Carmen! 

14. Sonho libertário de Foucault com LSD 

15. Hei teacher, leaves them kids alone 

16. Luisa Stefani e canadense assumem liderança do ranking de duplas 

17. O clique da glória e da amargura – Ruy Castro 

18. Escolha do Nobel é mais uma vitória da astronomia multimensageira 

19. Nada de novo no Front e outras obras antiguerra 

20. Assombrado após perder quase toda sua família, deslocado de Gaza ainda sonha em voltar

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1. Hermanos Gutierrez & Laurindo Almeida & Schubert - vídeos

Hermanos Gutierrez at the Miami Beach Bandshell 6/21/23 

Laurindo Almeida - Chamber Jazz (1978) Full Álbum 

Schubert - Fantasy in F minor - SONUS Guitar Trio 

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2. Januária das cavernas 

Januária guarda cavernas monumentais no coração do sertão mineiro.

Uma das portas de entrada do Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, patrimônio da humanidade, município foi visitado pelo Datafolha para a pesquisa Folha Top of Mind.

Grutas do Janelão, com salões de 180 m, serviram de refúgio para personagens de 'Grande Sertão: Veredas', a obra-primeira de Guimarães Rosa que imortalizou aquele território.

Roberto de Oliveira, topofmind, 27.10.2026

Do portal de entrada, os olhos não alcançam o que existe lá embaixo. Descemos por uma trilha bem marcada entre pedras de todos os tamanhos, e só no pórtico da gruta a escala se revela. Dentro da caverna, a paisagem contraria a própria ideia de subterrâneo: um jardim se ergue em direção às aberturas do teto, com árvores de até 40 metros emolduradas por paredões e salões que chegam aos 180 metros de altura. Foram as águas do rio Peruaçu que, há milênios, esculpiram esses caminhos.

Ao longo de seus 4.700 metros de extensão, a luz não para quieta. O sol atravessa uma claraboia em formato de coração, talhada na pedra pelo tempo. A vegetação, a rocha e a trilha ora assumem tons prateados, ora esverdeados. Ao fim da tarde, ganham matizes dourados. Um bocadinho adiante, porém, o brilho desaparece abruptamente em trechos dominados pela escuridão total.

Foi nesse cenário que a gruta do Janelão ajudou a moldar o imaginário da ficção brasileira e a própria ideia de sertão. O lugar serviu de refúgio e passagem para Riobaldo e Diadorim em "Grande Sertão: Veredas", a obra-prima em que João Guimarães Rosa imortalizou aquele pedaço do Brasil.

Estamos na mais volumosa caverna do país, uma das mais de 200 já catalogadas no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu. E o levantamento está longe do fim: pesquisadores estimam que a unidade de conservação possa abrigar outras 1.400 cavidades ainda não registradas.

Em pleno Janelão, a mesma engenharia do tempo produziu uma estrutura de dimensões raras: a maior estalactite suspensa do mundo. Apelidada de Perna da Bailarina por suas curvas, a formação de calcário tem 28 metros. Para efeito de comparação, equivale a um prédio de nove andares e quase a altura da estátua do Cristo Redentor. Gota a gota, a água filtrada pelas fendas do teto depositou minúsculas partículas minerais até esculpir a forma que hoje se projeta sobre a caverna.

Reconhecida pela Unesco como Patrimônio Mundial Natural, a reserva se estende por 56 mil hectares, área equivalente a cerca de 350 parques Ibirapuera. Criada em 1999, a unidade abraça três municípios próximos da divisa com a Bahia: Itacarambi, Januária e São João das Missões. O parque reúne áreas de caatinga, cerrado e mata atlântica, além de cerca de 80 sítios arqueológicos com pinturas rupestres datadas de 500 a 11 mil anos atrás.

O título da Organização das Nações Unidas não ficou no papel. De acordo com a gestora do parque, Dayanne Ferreira dos Santos Sirqueira, 2025 foi o ano de maior visitação da história da unidade: 23.082 pessoas, alta de 58% sobre os 14.600 registros do ano anterior. Para este ano, a expectativa é superar a marca de 30 mil visitantes. O movimento é sazonal: vai de cerca de 1.000 turistas nos meses de baixa, como março e abril, a quase 3.000 nas férias de julho, pico da temporada.

São viajantes que chegam, pernoitam, passeiam e consomem. É nesse ponto que a natureza se encontra com a atividade comercial.

Caverna do Janelão, no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, que fica entre os municípios de Januária, Itacarambi e São João das Missões (MG) - Roberto de Oliveira/Folhapress

Conheça a cidade de Januária (MG) - fotos

"Ter um parque assim praticamente no quintal de casa é um privilégio total", conta Anthony César Alves Barbosa, 21, integrante da brigada de incêndio do Peruaçu. "Estamos numa área com forte presença da natureza, mas onde não faltam produtos, a oferta é diversificada. Com o reconhecimento internacional, a tendência é recebermos ainda mais gente, o que já vem acontecendo. E onde há público, as grandes marcas também precisam se fazer presentes."

É essa engrenagem que conduz o Datafolha a um município distante ao menos 600 quilômetros de Belo Horizonte. Januária tem população estimada em 67.123 habitantes e PIB per capita de R$ 15.970,66 em um território de 6.661 km², mais de quatro vezes a área da capital paulista, com densidade próxima de 10 habitantes por quilômetro quadrado.

Trata-se de uma cidade que consome, escolhe marcas e influencia percepções. Por essa razão, o município mineiro entrou na rota desta edição especial da Folha Top of Mind.

A iniciativa do instituto busca capturar as nuances de localidades fora do radar dos grandes eixos urbanos, mas que concentram uma diversidade socioeconômica e cultural essencial para compreender a lembrança de marca e o comportamento de consumo em um país de dimensões continentais, explica a diretora do Datafolha, Luciana Chong.

Ouvir a cidade é garantir que a voz de um Brasil múltiplo e interiorano também esteja, de fato, representada na pesquisa.

Garotos saltam às margens do rio São Francisco, em Pedras de Maria da Cruz, cidade vizinha a Januária (MG) - Roberto de Oliveira/Folhapress

A cerca de 30 minutos de carro do parque, Januária detém o título de capital da cachaça artesanal do norte de Minas. Fica em uma zona de transição onde o Sudeste se conecta ao Nordeste e ao Centro-Oeste, cravada na bacia do Médio São Francisco. Não é raro avistar mandacarus, ícones do sertão, adornando jardins e varandas de casarões históricos.

Entre julho e outubro, quando o Velho Chico baixa de nível e recua, o sertão revela sua praia. O leito que estava submerso dá lugar a bancos de areia fina, onde se monta a estrutura de veraneio. Banhar-se nesse trecho do São Francisco é testemunhar o crepúsculo tingir de dourado as águas. Nas chuvas de fim de ano, contudo, o rio ganha volume e a faixa de areia volta a desaparecer.

O rio São Francisco corta a cidade, e parte de sua margem é ocupada pelo Cais de Januária, tombado como Patrimônio Cultural de Minas Gerais.

Construído originalmente para proteger o município das cheias, o espaço hoje reúne comércio, convivência e lazer, além de ser palco de eventos públicos e uma janela para a paisagem do histórico rio São Francisco, que corta Minas Gerais e segue pelo Nordeste.

Ao fim da tarde, quando o sol baixa sobre as águas, essa relação entre passado e presente se revela com mais força na avenida beira-rio. Casarões da era da navegação a vapor ainda resistem ao tempo, embora muitos estejam abandonados, ao lado de hotéis, restaurantes, o comércio de peixes nativos e a legítima cachaça local.

Um pouquinho mais de 6 km separam o centro de Januária do distrito de Brejo do Amparo, onde o tempo segue a cadência das conversas na praça, das brincadeiras de rua e do voo do sofrê. De plumagem alaranjada e negra e canto marcante, a ave, também conhecida como corrupião, é encontrada nas paisagens secas do sertão mineiro.

O Brejo guarda memórias dos bandeirantes de meados do século 18 e é um daqueles vilarejos onde se estaciona o carro para caminhar a pé, em busca de simplicidade. Seus moradores são hospitaleiros, sempre dispostos a um dedinho de prosa com forasteiros.

Atrás do povoado, um morro terracota, coberto por vegetação rasteira que ganha volume à medida que sobe, serve de mirante para o espetáculo multicolorido do entardecer.

Entretanto, o sertão que fascina o visitante impõe desafios a quem ali finca raízes.

Veja paisagens naturais de Januária (MG) - fotos

Vizinha à reserva, Rosana Pereira Souza dos Santos, 26, encontrou nas pousadas do entorno do parque nacional o seu sustento, mas esbarra diariamente nas dificuldades do isolamento geográfico.

Alguns serviços básicos são escassos, sobretudo nos bairros e distritos afastados do centro urbano. "Creches, por exemplo, a gente não encontra com facilidade. Para quem tem filho e precisa trabalhar, a situação é complicada", ela desabafa.

O turismo chegou antes da infraestrutura.

Foi essa natureza que revelou ao Brasil urbano as profundezas de um território que Guimarães Rosa imortalizou para além da geografia. Hoje, as cavernas do Peruaçu voltam a revelar o sertão de Januária.

Monumental para quem chega. Ainda por fazer para quem fica.

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3. Eric Cantona, reeleição de Lula e os egos confinados 

Contexto: Programa Posse de Bola ao Vivo - UOL, 26.10.2026 

Com a palavra o Jornalista Mauro Cezar: Isso aqui (foto em sua camisa vermelha) é o Eric Cantoná, um dos meus ídolos no futebol. E além de jogar muita bola, certa vez Eric Cantoná, ofendido por um huligan do Crystal Palace, ele jogava no Manchester United, que mandou várias mensagens, xenófobas para ele enquanto ele saía de campo expulso de numa partida de futebol. Ele deu uma voadora no cara, um fascista ligado ao Partido Nacionalista Britânico, um cara da extrema direita. Cantoná também detonou  um fascista. 

A seguir o jornalista Juca Kfouri: (...) grande Cantoná que eu tive o prazer de conhecer no Festival de Cinema de Cartagena, Colômbia quando ele apresentou lá, a céu aberto, no Festival de Cinema o filme 'Os rebeldes do futebol' que tinha Sócrates como um dos cinco protagonistas.

Juca Kfouri ignorou a frase final de Mauro Cezar: Cantoná também detonou  um fascista. 

Porque? A frase é uma referência direta sobre a reeleição de Lula sobre o mililiciano/fascista Flávio Bolsonaro ocorrida no dia anterior (25.10.2026).

Valeu Mauro Cezar!

E Juca Kfouri, deixe seu ego sair um pouco pela janela.(Socorro Acioli)

Vermelho&antifascista - vídeo

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4. A fuga do amarelão

Ruy Castro, fsp, 28.10.2026

Não faltam sinônimos para definir Flávio Bolsonaro como covarde e mentiroso. Os braços musculosos sob a camiseta amarela são incapazes de encarar a lei.

Qual você prefere? Amarelão, covarde, medroso, pusilânime, frangote, maricas, desertor, foragido, poltrão, peidão, pipoqueiro, frouxo, trêmulo, borrão, arregão? Ou, numa palavra, cagão — digo, fujão? Se você for um dos meus fiéis leitores bolsonaristas ou um dos 59.826.041 eleitores que cravaram o número de Flávio Bolsonaro na urna neste domingo (25), a escolha é farta. Todas definem o caráter do homem que, não fosse por outros 64.256.232 brasileiros, poderia ser agora o presidente da República. Derrotado e sujeito a investigação e processo por uma quantidade de acusações — a escolha também é farta —, preferiu escafeder-se a enfrentar a Justiça. Onde está o machão que ele fingia ser?

Menos de 12 horas depois de produzir um vídeo em que bateu no peito e desmentiu a possibilidade de fugir do país —ao contrário, entregaria os passaportes e ficaria para liderar a oposição, retomar o Brasil e fazer e acontecer —, meteu-se na escuridão, tomou um avião na moita ou atravessou de cócoras a fronteira e foi se esconder sob a gravata vermelha de seu chefe, Donald Trump.

Como ficaram seus seguidores que assistiram ao vídeo e acreditaram nele? Como passaram a vê-lo depois desta? Se quiserem, aqui vão sugestões: falso, embusteiro, fingido, enganador, trapaceiro, mendaz, pérfido, perjuro, desleal, simulado, charlatão, cascateiro, impostor, xavequeiro, patureba, trambiqueiro. Ou, também, em uma palavra, mentiroso.

É uma atitude decepcionante para alguém que, assim como seus adeptos, fala grosso, faz arminha, ronca motocicletas e exibe braços musculosos sob as camisetas amarelas, mas é incapaz de enfrentar uma Justiça armada apenas com fatos, números e provas. A contrapô-los com seus próprios fatos, números e provas, escolheu vazar, escapar, ciscar, dar o pira, cair fora, dar no pé, picar a mula. Em resumo, fugir.

Ao abandonar seus eleitores — na verdade, traí-los —, Flávio Bolsonaro apenas repetiu o que levou toda a campanha fazendo: mentir para eles, iludi-los, ludibriá-los, fazê-los de otários.

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5. Como uma cozinheira turca me ajudou a aguentar a tensão do segundo turno

Socorro Acioli, fsp, 27.10.2026

Betül Tunç faz acreditar que o mundo pode ser perfeito por três minutos. Tudo lá fora explode em caos, mas nessa mesa está tudo sob controle.

Roasted Strawberry Rhubarb Sauce and - vídeo 

Para sobreviver a momentos tensos, como os que vivemos nas últimas semanas, é preciso encontrar estratégias.

A minha operação de sobrevivência à tensão do segundo turno foi assistir vídeos de receitas de uma dona de casa turca chamada Betül Tunç. Precisaria de uma aula de turco básico para aprender o que significa o som do trema no "u", a cedilha no final da palavra, é realmente uma nova alfabetização.

O fato é que essa senhora me salvou da agonia de uma eleição presidencial neurastênica. A vida toda é assim, não tem como aguentar sem ilusões, válvulas de escape e algumas irresponsabilidades inofensivas.

Soube que ela começou a gravar vídeos durante a pandemia, mas só agora a descobri, atrasada. É uma mulher cozinhando, como tantas outras, mas diferente de tudo o que já vi antes. O Jamie Oliver, por exemplo, fala tão rápido que aperreia o juízo.

A primeira coisa incrível da turca é que os vídeos não têm conversa, não têm fala, ela não explica absolutamente nada com palavras. É só o gestual da culinária, mistura, sova, bate, unta, leva ao forno, tira do forno, corta, fatia, esses verbos acontecendo com calma.

Good Morning! Today is my birthday! - vídeo 

O único som é uma seleção de músicas instrumentais, piano tranquilo, violino choroso, uma paz. A ordem predeterminada na partitura.

Além disso, a estética é de outros séculos. A batedeira é manual, funciona ao girar uma manivela. Os utensílios, as bacias, rolo de abrir massa, é tudo louça antiga, madeira, ferro. De vez em quando uma forma de louça tem uma pontinha quebrada, o imperfeito convive em paz. As travessas parecem todas herdadas de uma bisavó, comprada em um mercado de pulgas. Quase tudo é azul com branco, vez ou outra chega outra cor para aquecer.

Nada dá errado. Nada. As medidas, o tempo, tudo funciona perfeitamente e todos os resultados são impecáveis. Claro que é tudo produzido e planejado, mas faço questão de esquecer que há uma edição que acelera o tempo discretamente e faz tudo parecer mais simples e rápido do que é. Deixa assim.

.. t's been a while since we've had a pasta recipe - vídeo 

Uma das coisas mais eficazes desses vídeos é a sensação de calma. Relaxa de verdade. Quase ninguém está calmo ao nosso redor, só essa moça turca mesmo. Nem aí pra nada. O importante é deixar que o fermento descanse o suficiente para oxigenar a massa e garantir a fofura do pão, do bolo.

Betül Tunç nos ilude e nos faz acreditar que o mundo pode ser perfeito por três minutos. Cinco, talvez. Ela serve a comida, corta um pedacinho ao final. Ali, naquela mesa, o universo está em perfeita ordem. As frutas estão maduras, o bolo desenforma perfeitamente, nada desanda, tudo vibra.

Reparando nisso, eu entendi que cozinhar em silêncio é uma forma de meditação. O mundo lá fora está explodindo em caos, mas aqui nessa mesa, nesse fogão, está tudo sob controle. Há tempo para dedicar ao ritual de preparar e comer. Que cansaço. Nada valeria mais hoje do que o conforto de uma torta de frutas em prato florido, antigo, vindo de um tempo em que a vida era mais tranquila.

Comprei a ilusão da turca. Vou comprar seu livro, um dos mais vendidos no mundo. Fazer um bolinho, esperar o ano acabar, respirar fundo e recomeçar a luta. Todos os dias.

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6. Influência financeira de oligarcas tech em eleições enfrenta rejeição crescente

Lúcia Guimarães, 21.10.2026

Sabemos de que lado eles estão na eleição brasileira; nos EUA, pleito próximo aponta para mudança de humor nacional. Na mais cara campanha da história do país, dinheirama despejada por oligarcas não parece estar comprando proteção.

Os americanos têm uma nova oportunidade de escolher seu oligarca tech mais detestado. Uma série de lançamentos deve reforçar o que pesquisas de opinião já refletem. Os americanos, especialmente os jovens, sentem profunda desconfiança dos bilionários do Vale do Silício.

O diretor e roteirista Aaron Sorkin oferece "O Outro Lado das Redes", um exame das denúncias feitas por uma engenheira do Facebook a um repórter, confirmando que Mark Zuckerberg não tem caráter, intelecto ou maturidade para exercer o poder acumulado à frente da Meta.

Zuckerberg tem disputado a impopularidade com o Voldemort trilionário Elon Musk, objeto de um documentário de Alex Gibney que, com quase quatro horas, vai desafiar sua fé no futuro da humanidade.

No Natal, estreia "Artificial", do diretor Luca Guadagnino, uma cinebiografia do CEO da empresa OpenAI, cuja sucessão de malfeitos inspira manchetes como "Por que Sam Altman Continua em liberdade?".

Já o canadense Nathan Fielder pode ser indicado para um Oscar de melhor diretor pelo extraordinário "You Can See Everything", um documentário sobre Elizabeth Holmes, a fundadora da fraudulenta empresa Theranos.

No momento, o filme mais recente sobre o execrável Peter Thiel é um episódio da série "The Ruling Class", lançada em 2023. O fundador da Palantir tem a rara distinção de ver seu nome aparecer ao lado de "anticristo" nas buscas online.

Veja fotos do encontro de Trump com CEOs de tecnologia dos EUA - fotos

Mas esses lançamentos não chegaram ao público sem enfrentar o poder da oligarquia vigente. O estúdio Amazon, de Jeff Bezos, suspendeu o acordo para distribuir "Artificial" para proteger uma parceria de US$ 50 bilhões com a OpenAI.

Aaron Sorkin confessou recentemente que temia, a qualquer momento, uma ação judicial da Meta que impedisse o lançamento de "O Outro Lado das Redes" antes das eleições americanas. O Oscar na prateleira de Alex Gibney, um dos maiores documentaristas vivos, não o protegeu de múltiplas ameaças de processos e um boicote de exibição do trailer nas plataformas Meta, TikTok, YouTube e X.

Uma pesquisa divulgada nesta semana revela que a maioria do público nos EUA associa os oligarcas à direita e ao Partido Republicano, que deve perder o controle da maioria na Câmara, nas eleições do próximo dia 3.

Não é à toa que Elon Musk, o doador mais responsável pela reeleição de Donald Trump, decidiu investir, na reta final da campanha, R$ 1,4 bilhão em candidatos republicanos. O Wall Street Journal apurou a nova malvadeza do empresário sul-africano: foi ele que ordenou a desaceleração da versão militar da rede de satélites Starlink na Ucrânia, o que permitiu à Rússia aumentar ataques de mísseis que deixaram dezenas de civis ucranianos mortos, na última semana.

Nesta quarta-feira (21), um juiz do estado do Novo México multou a Meta de Zuckerberg em US$ 25 bilhões por violar a privacidade dos usuários, um esporte favorito do Peter Pan do mal. A influência política global dos oligarcas é indissociável do declínio da indústria de jornalismo independente provocado pelo Facebook ao monopolizar o mercado publicitário e, em seguida, suprimir sua plataforma de conteúdo de notícias.

Sabemos de que lado estão os oligarcas na eleição brasileira. Mas, nos EUA, a eleição de novembro aponta para uma mudança do humor nacional. Na mais cara campanha da história do país, a dinheirama despejada por oligarcas não parece estar comprando proteção.

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7. BPC evitou 13 milhões de internações 

BPC evitou 13 milhões de internações e 571 mil mortes em três décadas no Brasil, diz estudo

Análise calcula retorno social de R$ 3,81 para cada R$ 1 investido no programa de assistência do governo federal. Eventuais cortes vão ampliar riscos entre as populações mais vulneráveis, afirma pesquisadora.

Ana Bottallo, fsp, 22.10.2026

BPC evitou 571 mil mortes e 13 milhões de internações no SUS, aponta estudo 

O BPC (Benefício de Prestação Continuada), programa de assistência do governo federal a pessoas com deficiência e idosos com mais de 65 anos em situação de vulnerabilidade, evitou, em 30 anos, mais de 13 milhões de internações pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e 571 mil mortes.

De acordo com a análise, publicada em pré-print (ainda sem revisão de pares) na terça-feira (20), para cada aumento de um ponto percentual na cobertura do programa houve redução de 2,9% no número de hospitalizações, 0,6% na mortalidade e 3,9% nos anos de vida vivendo com alguma doença (conhecido como DALYs, na sigla em inglês, ou anos de vida saudável perdidos em decorrência de mortes prematuras e condições de saúde incapacitantes).

Beneficiária de 71 anos que recebe BPC (Benefício de Prestação Continuada) em sua casa, em São Paulo - Rubens Cavallari - 29.mar.19/Folhapress

Entre 1996 e 2023, cada R$ 1 investido no BPC gerou benefícios econômicos estimados em R$ 3,81 para a sociedade.

O estudo foi desenvolvido pelo Health Project, do grupo IMPACThealth, coordenado por Davide Rasella, do ISGlobal, em Barcelona, e tem primeira autoria de Daniella Medeiros Cavalcanti, pesquisadora da UFBA (Universidade Federal da Bahia) e professora na UFRN (Universidade Federal do Rio Grande do Norte).

Com 6,5 milhões de beneficiários diretos, o BPC foi criado no início da década de 1990 e começou a ser pago em 1996. O programa não exige contribuição ao INSS, mas o beneficiário deve ter renda familiar por pessoa de até um quarto do salário mínimo.

A análise considerou dados de todos os 5.570 municípios do país coletados junto ao IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística), dados de hospitalizações e mortalidade do DataSUS e informações sobre carga de doença (DALY), anos de vida perdidos (YLLs, em inglês) e anos de vida vivendo com deficiência (YLDs) do Global Burden of Disease (GBD), produzido a cada dois anos pelo Instituto de Métricas e Avaliação em Saúde (IHME).

Em termos de proteção, foram evitadas 13.011.645 hospitalizações e 571.019 mortes de 1996 a 2025 (3,44% e 1,53% do total de internações e óbitos no período), diz o estudo. O BPC também passou de uma cobertura de 0,82% (1,2 milhão de pessoas), em 1996, para 7,2% dos domicílios (ou 14,8 milhões de pessoas, considerando beneficiários diretos e indiretos), em 2025.

A pesquisa também aponta redução de 5% na mortalidade infantil a cada aumento de um ponto percentual na cobertura do BPC. Uma das explicações é que avós idosos cuidam de crianças enquanto os pais trabalham.

"Os beneficiários do programa são, em geral, representantes da parcela da população mais vulnerável, idosos e pessoas com deficiência de famílias de baixa renda. O que nosso estudo mostra é que o ganho em saúde não é apenas ao beneficiário direto, o que por si só já seria muito importante, mas para toda aquela família e entorno do beneficiário", diz Cavalcanti.

Custos com hospitalização

O estudo avaliou os efeitos do BPC na saúde em três décadas. Segundo Cavalcanti, os dados foram corrigidos pela inflação, e as estimativas econômicas se basearam em custos de hospitalização do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada).

Em um cenário sem nenhuma expansão do programa a partir de 1996, o país teria arcado com custos na ordem de R$ 25,3 bilhões apenas com hospitalizações.

"Considerando o cálculo de hospitalização por pessoa e trazendo os valores de 1996 para a realidade econômica de 2025, só de economia hospitalar foram R$ 25 bi. Outro dado, mais importante, é quanto a sociedade ganhou evitando os anos de vida perdidos por morte ou deficiência, que é da ordem de R$ 4 trilhões", diz.

"Os benefícios econômicos e sociais estimados superaram os custos do programa ao longo desses anos."

História do SUS - webstories

Cenário para 2030

A pesquisa também fez simulações de três cenários para o próximo quadriênio (até 2030): uma na qual seria mantida a vinculação atual, de até um quarto do salário mínimo para ser incluído no BPC; outra com expansão progressiva para até metade do salário mínimo; e uma terceira, com recuo, com desvinculação do benefício ao salário mínimo e acesso progressivamente limitado até o valor de R$ 218 de renda por pessoa por mês, conforme é hoje no Bolsa Família.

Este último cenário é o que está na proposta do candidato Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República, que defende a desvinculação dos reajustes do BPC ao salário mínimo, além de "tesouraço" na saúde.

No cenário de expansão, o estudo mostra que seriam evitadas 2,55 milhões de internações e 43.731 mortes até 2030.

Já o recuo do programa iria provocar cerca de 1,5 milhões de hospitalizações e quase 25 mil mortes adicionais no mesmo período. Segundo a pesquisadora, cortes podem desproteger parcela crescente da população vulnerável.

"O debate em torno do BPC ganha ainda mais importância. Propostas de alteração dos critérios ou de desvinculação ao salário mínimo podem ter consequências importantes para a população mais vulnerável. Nosso estudo busca contribuir com evidências científicas para esse debate, mostrando que medidas de restrição, mesmo quando justificadas pela necessidade de reduzir gastos, podem gerar custos adicionais para a saúde e a sociedade", afirma.

O projeto Saúde Pública tem apoio da Umane, associação civil que tem como objetivo auxiliar iniciativas voltadas à promoção da saúde.

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8. Ben Jor resumiu história do café em música 'esquecida

Ben Jor, que faz show em SP, resumiu história do café em música 'esquecida'.

Letra cita a chegada das primeiras mudas ao país e lembra a queima de sacas após a crise de 1929. Canção inspirou samba-enredo do Salgueiro de 1992

David Lucena, 15.10.2026

Jorge Ben Jor, que se apresenta em São Paulo neste sábado (17), no Nubank Parque, escreveu uma música que sintetiza a história do café no Brasil em poucos versos.

A canção "Café", sobre essa "planta maravilhosa e originária da Etiópia", mistura aspectos históricos com um refrão simples e pegajoso: "Meu amor, meu amor / Me faz um cafezinho / Com aroma e com carinho".

Jorge Ben Jor em show no Festival Turá, em 2023; cantor se apresenta neste sábado no Nubank Parque, em São Paulo - Rubens Cavallari/Folhapress

O músico vai às origens da chegada do café ao Brasil ao cantar: "Em 1727, um nobre / chamado Palheta / trouxe a cultura do café / para o Brasil".

Ele se refere a Francisco de Mello Palheta, que naquele ano foi à Guiana Francesa e, sob as ordens de João Maia da Gama, então governador do estado do Maranhão e Grão-Pará, surrupiou sementes e mudas da planta. Naquela época, quem cultivava café fazia de tudo para evitar que a planta caísse nas mãos de concorrentes, pois o grão começava a conquistar a Europa e havia se tornado uma mercadoria valiosa.

Ao fim de sua incursão à Guiana Francesa, Palheta voltou a Belém com cinco mudas e mais de mil sementes, dando início a um cultivo que sustentaria a economia de exportação do Brasil por quase dois séculos.

Veja fotos de Jorge Ben Jor - fotos

Ben Jor continua sua aula nos versos seguintes: "Depois vieram os barões / do café / um cartel que mandava / queimava, jogava fora / mas não dava".

O trecho faz menção ao episódio da queima de sacas de café, uma das políticas de intervenção econômica mais extremas da história do país. Na década de 1920, a expansão acelerada dos cafezais no Oeste Paulista gerou uma oferta muito superior à capacidade de absorção do mercado internacional. Com a crise da Bolsa de Nova York, em 1929, os preços do produto despencaram.

O resultado foi o acúmulo de estoques: em 1930, o Brasil mantinha mais de 26 milhões de sacas armazenadas — volume superior a todo o consumo mundial de um ano. Assim, o governo federal concluiu que a única saída para reequilibrar a oferta e a demanda seria a destruição do excesso.

A União passou, então, a comprar o excedente dos produtores para incinerá-lo. Entre 1931 e 1944, o país destruiu cerca de 78,2 milhões de sacas de 60 kg, montante equivalente a quase três anos do consumo global da época.

Ainda sobre café - textos

Do pó fino demais à água da torneira: os 11 erros que sabotam o seu café 

Por que chamamos a 1ª refeição de café da manhã (mesmo sem tomar a bebida)? 

Tomar café pela manhã pode fazer você viver mais e melhor 


Trazendo a história para o Rio, Ben Jor faz uma referência sobre os primeiros cafezais, cultivados na floresta da Tijuca, nos arredores de onde hoje fica o morro do Salgueiro: "O preto que virou ouro / nas terras do Salgueiro".

Isso inspirou os compositores da escola de samba Acadêmicos do Salgueiro, que, em 1992, desfilou com o enredo "O negro que virou ouro nas terras do Salgueiro".

Sem deixar de lado a crítica social, um trecho do samba diz: "O ciclo do café era a riqueza / fausto e luxo da nobreza / e suor da escravidão / sonso, vira rico e rotina / filosofia de esquina / cafezinho no balcão".

O Salgueiro acabou como quarto colocado naquele ano, mas o samba conquistou o público com o refrão "soca no pilão / preto velho mandingueiro / o negro que virou ouro / lá nas terras do Salgueiro".

Lado B de uma fase pouco aclamada da carreira de Ben Jor, "Café" não deve estar no setlist do show deste sábado, promovido pela 30e. Não fará falta. Estaremos lá para ouvir, mais uma vez, as composições de discos antológicos, como "Samba esquema novo", "A tábua de esmeralda" e "África Brasil".

A música de Jorge Ben Jor - webstories

 

Homo Sapiens / ℗ 1995 SONY MUSIC ENTERTAINMENT (BRASIL) I.C.L. - vídeos

Café - Jorge Ben Jor 

Ave Anjos Angeli 

Jorge Ben Jor - Gostosa 

Maria Luiza 

Jorge Ben Jor - Rabo Preso 

Gertrudes Bon Hausen 

Homo 

Musas De Bruxelas 

Little Black Joe'S Band 

Ubirani Ubiraci 

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Jorge Ben Jor faz show 'Alquimia Popular Brasileira' em São Paulo 

Festival Meli Music aposta no pop com Anitta, Luísa Sonza e Normani. Barão Vermelho Encontro encerra turnê com Frejat e formação histórica.

Griele Koga, fsp, 13.10.2026

A música brasileira ganha destaque nos próximos dias em São Paulo, com Jorge Ben Jor e seus clássicos como "País Tropical" e "Mas, Que Nada", além de Barão Vermelho Encontro e Pocah. A programação também tem espaço para o pop nacional e internacional, com Anitta, Luísa Sonza e Normani entre as atrações do festival Meli Music.

Jorge Ben Jor em show no Festival Turá, realizado no parque Ibirapuera - Rubens Cavallari - 24 jun. 2023/Folhapress

Jorge Ben Jor

O cantor sobe ao palco com o show "Alquimia Popular Brasileira". Sucessos da carreira do artista, como "País Tropical", "Mas, Que Nada", "Taj Mahal" e "Fio Maravilha", devem compor o setlist.

Nubank Parque - av. Francisco Matarazzo, 1.705, Água Branca, região oeste. Sáb. (17), às 19h. Ingr.: a partir de R$ 425 (cadeira inferior) em Eventim

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9. Nelson Motta ‘sincerão’

Nelson Motta ‘sincerão’: traição de Elis Regina, pavor de sertanejo e namoro à distância - vídeo 

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10. Celso Furtado e Conceição Tavares

Celso Furtado e Conceição Tavares: O debate histórico sobre a construção interrompida - vídeo 

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11. Ed Motta 

Ed Motta - Flow #662 - vídeo

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12. Monterey Pop Festival 1967 - vídeo (ver aqui) 

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13. Salve Carmen! https://www1.folha.uol.com.br/colunas/ruycastro/2026/10/salve-carmen.shtml

Ruy Castro, fsp, 18.10.2026

Há anos, numa reportagem para Serafina, saudosa revista da Folha ("Menina do Rio", 26/4/2009), propus a quem se interessasse um tour por Carmen Miranda no Rio. Iria de 1909, quando ela chegou de Portugal aos 10 meses, até 1939, quando embarcou para a glória nos EUA. Compunha-se dos endereços onde morou e de lugares marcantes na sua vida, quase todos no centro da cidade. Alguns tinham escapado à sanha demolidora; nos demais, o número passara a abrigar outra coisa. Não importava: Carmen, um dia, estivera neles.

Citei a rua Mayrink Veiga, 15, onde ficava a fabulosa Rádio Mayrink Veiga, da qual Carmen foi a maior estrela. No outro lado da rua, existira a primeira barbearia do pai de Carmen, "seu" Pinto, quando ela ainda era garota. Entre outros, citei também a rua do Passeio, 78, na Cinelândia, a rua do Ouvidor, 141, e a rua Gonçalves Dias, 55, endereços dos ateliês e lojas de artigos masculinos onde Carmen trabalhou como balconista antes da fama e já chamava a atenção dos fregueses.

Mas os principais eram os residenciais. Pela ordem, a rua Senhor dos Passos, 59, no Saara, onde morou de 1910 a 1912; a rua da Candelária, 50 (atual 94), de 1912 a 1915; a rua Joaquim Silva, 4, na Lapa, de 1916 a 1925; a Travessa do Comércio, 13, de 1926 a 1932; a rua André Cavalcanti, 229, em Santa Teresa, de 1932 a 1934; a rua Silveira Martins, 12 (atual 20), no Catete, em 1935; e a avenida São Sebastião, 131, na Urca, de 1935 a 1939. Todos ainda de pé, menos o da Lapa.

Pois agora há outro prestes a desabar, e logo o mais famoso: o da Travessa do Comércio, adjacente à praça 15. Todos se chocam com o estado do imóvel. É tombado pelo Iphan, mas está desocupado há anos e vive sendo invadido. Em 2024, parte do telhado caiu e seus vizinhos o cercaram com um tapume e uma faixa implorando "Salve Carmen!". Mas nada se fez e o casarão está servindo de acesso a ladrões para assaltar à noite as lojas ao lado.

A Prefeitura do Rio não tem ideia da importância internacional da carioca Carmen para a cidade e de seu potencial turístico. Aliás, não sabe nada sobre ela.

Carmen Miranda, pouco depois de chegar em Nova York em 1939 - Divulgação

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14. Sonho libertário de Foucault com LSD 

Sonho libertário de Foucault com LSD está soterrado no Vale da Morte na era Trump 

Marcelo Leite, fsp, 17.10.2026

Conheça a lisérgica viagem do filósofo francês pelo deserto da Califórnia em 1975. Um dos principais pensadores do século 20, Foucault nasceu há cem anos.

Vista parcial do Zabriskie Point, famoso mirante e formação geológica localizado no Parque Nacional do Vale da Morte na Califórnia, onde Foucault tomou LSD pela primeira vez, em 1975 - Marcelo Leite / Folhapress

[RESUMO] Repórter percorre itinerário de Michel Foucault em viagem de 1975 ao Vale da Morte, onde tomou LSD pela primeira vez. Meio século depois do fim de semana relatado no livro "Foucault na Califórnia", psicodélicos estão de volta, não como elixir da contracultura dos anos 1960, mas desprovidos do ímpeto emancipador, diluídos como lenitivo para a infelicidade individual no deserto do realismo capitalista.

Michel Foucault, cujo centenário de nascimento foi celebrado na quinta-feira (15), tem uma obra estabelecida. Nem sempre, porém, seu pensamento abrasador, mais presente em outros tempos, é lembrado por uma passagem singular de sua biografia: o fim de semana, em maio de 1975, em que ele tomou LSD num deserto da Califórnia e viveu momentos transformadores. Em abril passado, fui buscar ecos daquela experiência em dois dias de viagem solitária de carro pela paisagem de outro mundo.

"Foi uma grande experiência, uma das mais importantes da minha vida. E não me refiro apenas à noite no Zabriskie Point, mas ao nosso encontro e aos dois dias que passamos juntos", escreveu Foucault dias depois a Simeon Wade, o anfitrião.

A viagem de Foucault ao Vale da Morte - vídeo 

A carta está no livro "Foucault na Califórnia: Filosofia e LSD no Vale da Morte" (288 págs., editoras Elefante/Grafatório), que reúne o relato de Wade e comentários de Heather Dundas, Júlio Delmanto, Felipe Melhado, Antonio Pele e Tony Hara.

Ao lado de Michael Stoneman, Wade recebera Foucault em Claremont, cidadezinha onde dava aulas na escola de pós-graduação local após doutorar-se em história na Universidade Harvard.

Aficionado pela obra do francês, teve um "delírio de grandeza" e o convidou para um experimento em que seria o alquimista e relator, com a fórmula Michel Foucault + Pedra Filosofal + Vale da Morte + Michael Stoneman. Foucault topou.

A Califórnia ocupava amplo território na geografia mental dos três psiconautas. Simeon cruzara os EUA como refugiado de Harvard, movido pelo impacto que lhe causara o filme "Zabriskie Point" (1970), de Michelangelo Antonioni. Em um clube gay conheceu Stoneman, com quem viveria até a morte do companheiro em 1998.

Imagem da capa do livro "Foucault Na Califórnia" (editora Elefante), de Simeon Wade - Reprodução Editora Elefante

Foucault estava visitando a universidade estadual em Berkeley e cogitava mudar-se para o estado, que via como terra de liberdades e possibilidades. "O que eu particularmente gosto no Brasil, e também na Califórnia, nesse sentido, é que os garotos não são orgulhosos nem arrogantes", disse aos novos amigos, segundo Wade.

"Ao contrário da Europa, eles não ficam se achando; estão à vontade com o próprio corpo. São acessíveis. Um pouco como na Grécia Antiga." E mais: "Tenho a impressão de que a Califórnia se afastou do continente e está flutuando em direção à Ásia. Agora entendo por que as pessoas que vivem aqui, quando viajam para fora, dizem que são mais da Califórnia do que dos Estados Unidos. [...] A Califórnia e os Estados Unidos não são a mesma coisa."

Meio século separa esse otimismo solar da Califórnia de hoje, epítome dos EUA onde reinam as big techs, a herança da contracultura se resume a jeans rasgados e megastores de cannabis, com ex-hippies a circular em carros autônomos Waymo ou viajando para o Burning Man com seus Teslas.

Em 1975 a ingenuidade fazia algum sentido, embora o filme de Antonioni, a que Foucault só assistira pela TV, já prenunciasse a domesticação da rebeldia que o neoliberalismo viria a impor.

Antonioni não fora a única motivação para a viagem do trio. A locação já tinha sido destino de incursões lisérgicas de Wade e Stoneman, de resto bem escolhida por eles e pelo cineasta italiano. Poucos lugares do planeta têm horizontes tão largos e eloquência geológica comparável.

Ao repetir o percurso de Foucault ao Vale da Morte, exatos 51 anos depois dele, anotei no caderno de repórter viajante e sóbrio: "O deserto parece coisa de Yayoi Kusama, tufos de vegetação pontilhando tudo que não é montanha e rocha", releio. "Tem algo de Patagônia e de caatinga, essa secura altiva, mas os espaços parecem maiores. O céu, nossa, como cabem ali tantas nuvens? Não espanta que Foucault tenha preferido ficar calado em parte do trajeto, é de tornar humilde qualquer (não) cristão."

Relembre os filmes de Michelangelo Antonioni - fotos

Segundo conta Wade de sua tagarelice filosofante, silêncio foi uma reação comum do pensador que quatro anos antes havia entrado para o Collège de France. As conversas triviais por vezes lançavam migalhas ao apetite do norte-americano, como na confissão de Foucault de que frequentara festas na França em que havia LSD, mas seu namorado recusava pelos dois.

"Talvez ele resista aos alucinógenos porque tenha uma maneira peculiar de se relacionar com o próprio corpo. Afinal de contas, nós somos nosso corpo". Após uma pausa: "E algo mais". Sua primeira vontade foi experimentar meia dose, mas a dupla da Califórnia o convenceu a enfiar o pé na jaca lisérgica.

Em algum ponto da Artist’s Palette, circuito de mão única ao longo de escarpas multicoloridas por um verde improvável, Foucault "lambeu a ponta do dedo e pressionou a substância em seus dentes inferiores", perguntando quanto demoraria para fazer efeito.

Stoneman explicou que o acelerariam com maconha e Grand Marnier (licor francês). Dali se deslocaram para Zabriskie Point, belvedere cercado de monumentos como Telescope Peak e Manley Beacon, com rochas listradas pela profundidade do tempo geológico, dunas congeladas e uma planície de sal no fundo que motivou Wade a compor um quase haicai: "O lago seco não é mais que uma enchente esquecida".

Chegaram lá no crepúsculo e ficaram até o amanhecer. Foi na alvorada também que pude contemplar o Sol tingindo lentamente os cumes de rosa. Não estava só como eles, às 6h, como havia imaginado em desaviso; ao menos duas dezenas de veículos já enchiam o estacionamento.

Sentei-me num dos poucos lugares restantes na mureta e tomei café da manhã com goles discretos na garrafinha de Chardonnay, na impossibilidade de elixir californiano mais apropriado.

A brisa virava as páginas do volume com a capa rosa-choque em que o filósofo careca se acomoda sobre a mesma mureta, sorridente, com a blusa de gola rolê e os óculos de sol de moldura grossa, ambos de um branco marcante.

Lembrei-me da cena em que o vento folheou o Evangelho que repousava sobre o caixão do papa João Paulo 2º na praça São Pedro em outro abril, o de 2005.

A viagem psicodélica de Foucault pelo deserto da Califórnia - fotos

Foucault não foi o último a ter uma epifania no local e sob influência de LSD, embora o cenário propício deva ter contribuído para amplificá-la até o ponto de mutação. "O céu explodiu e as estrelas estão chovendo sobre mim. Eu sei que isso não é de verdade, mas é a Verdade", disse o filósofo enquanto ouvia Elisabeth Schwarzkopf cantar "As Últimas Quatro Canções" de Richard Strauss, como narra Wade.

O jovem lhe pergunta se haveria possibilidade de toda a humanidade tomar a substância e experienciar algo como o que viviam naquela noite. "Eu gostaria que fosse possível", Foucault responde, segundo Wade com melancolia. "A única coisa na minha vida que posso comparar com essa experiência é fazer sexo com um estranho. O contato com um corpo estranho provoca uma experiência de verdade similar à que estou sentindo agora."

Foucault morreu em 1984, com Aids. Os temas de liberdade, militância, prazer e morte já tinham ocupado o centro do filme "Zabriskie Point", que começa com um debate estudantil em Los Angeles sobre usar ou não violência contra a classe dominante e sua polícia.

Mark discute com militantes negros radicais, deixa a reunião depois de declarar-se disposto a morrer, compra uma arma, vai preso, deixa a cadeia, furta um avião e sai voando sobre o deserto.

Daria viaja em direção a Phoenix para encontrar o chefe e amante, Lee, e também está em busca de um lugar tranquilo para meditação. Seu carro velho passa a ser perseguido por Mark com voos rasantes. Ele pousa, e o flerte motorizado termina com os dois estranhos fazendo sexo em Zabriskie Point, cena que evolui para a multiplicação surreal de parelhas e grupos copulando, uma orgia luminosa sobre areia e rochas.

Depois Mark e Daria pintam juntos o avião roubado com motivos psicodélicos e frases como "No War" (sem guerra) e "No Words" (sem palavras). Daria segue viagem, e Mark retorna a Los Angeles, onde é assassinado pela polícia.

Daria chega à mansão de Lee em Phoenix, fica sabendo da morte de Mark e abandona a casa. Dirige algumas centenas de metros e, ao descer do carro, contempla a mansão e testemunha (ou imagina) de vários ângulos a explosão da propriedade que lança ao ar, em câmera lenta, ícones do consumismo: roupas, TV, geladeira de frutas e frangos, uma caixa de cereal Kellogg’s, móveis, revistas —tudo sob os urros da guitarra de Pink Floyd em "Come in Number 51, Your Time is up" (apresente-se, número 51, seu tempo acabou).

Atores amadores, os dois também se chamavam Daria (Halprin) e Mark (Frechette), eram amantes e tomavam drogas juntos na comunidade Fort Hill. Após ser condenado por assalto de seu grupo radical a um banco de Boston, Frechette morreu aos 27 anos, na prisão, por asfixia sob o peso de um haltere. Halprin faria ainda alguns filmes, mas deixou a carreira de atriz e se tornou terapeuta corporal.

O livro de Wade, em contraste, trata pouco do levante político da contracultura. O tema emerge quando o professor de Claremont descreve debates de Foucault com estudantes após a conferência que servira de pretexto para a visita.

Mas surge de maneira oblíqua, com Foucault expondo o conceito de arqueologia, como ao escavar as fundações mitológicas do sistema de poder oferecidas pela normalização disciplinadora, sob constante vigilância no modelo panóptico de Jeremy Bentham para prisões e manicômios. "Acho que nossa sociedade e o que somos têm uma dimensão histórica profunda, e nesse espaço histórico os eventos discursivos que aconteceram séculos atrás, ou anos atrás, são muito importantes", responde o pensador, que se define como jornalista. "Estou interessado no presente. Uso a história para entender o que está acontecendo conosco agora."

Sobre o trabalho intelectual, o filósofo recorre à metáfora pirotécnica para afirmar que não basta construir "ferramentas bonitas, úteis ou divertidas", mas sim bombas: "Eu gostaria de escrever livros-bombas", arremessou como que um petardo à plateia. "Tempos depois, os historiadores poderiam relatar que tal ou tal livro foi útil como uma bomba e bonito como fogos de artifício."

O clarão admirável de seu pensamento esmaeceu, verdade. Cabe agora a historiadores — ou jornalistas — recuperar o que ele iluminava nos idos de 1975. O aluvião contestador da contracultura já se sedimentava, então, no deserto de sal em acumulação pelo neoliberalismo, ou no que Mark Fisher chamaria de realismo capitalista.

O princípio de realidade, em versão individualista, se impôs ao princípio do prazer, sobretudo na acepção de gozo coletivo e libertador vislumbrado na mobilização pacifista, no orgulho gay, na consciência ecológica e na comunidade psicodélica.

Fechava-se assim a via emancipadora sonhada por Foucault sob efeito do LSD e de dois dias na companhia helênica de Wade e Stoneman.

"Acho que esses encontros não fazem sentido se não derem a todos nós um prazer intenso e recíproco e ao mesmo tempo serenidade", escreveu-lhes por carta logo após. "Temos de encontrar um jeito de fazer do princípio de prazer um princípio de realidade. Isso, penso eu, é um problema ético e político a ser resolvido nos tempos atuais."

O desafio permanece, meio século depois. Embora alguns enxerguem na "virada ética" de Foucault uma despolitização após a viagem californiana, quando destruiu o que já havia escrito para a continuação da "História da Sexualidade", reorientando-a para o uso dos prazeres e o cuidado de si, carece decerto de ressuscitação o empuxo coletivo daquela maré montante psicodélica e contracultural.

O sonho acabou, ou só está esquecido? Há como revivê-lo, talvez com a promessa de "comunismo lisérgico" vislumbrado por Mark Fisher, ou não há de fato alternativa ao recapitalismo selvagem sob Donald Trump?

Não parece bom augúrio que o autor britânico do blog k-punk tenha recorrido ao suicídio em 2017, uma semana antes de o presidente dos EUA assumir seu primeiro mandato.

As fases de Michel Foucault - fotos

Fato é que o renascimento psicodélico no século 21 procede em sentido oposto ao da contracultura. Nada tem de renascentista — e duplamente. O impulso psicodelicista nunca deixou de existir, apenas se refugiou na clandestinidade sob o tacão proibicionista dos anos 1970; e o que ressurge nos anos 2000 não é o horizonte de nova consciência e gozo comunitário à Woodstock, mas o confinamento do LSD e quetais na moldura de panaceias individuais para a infelicidade em escala industrial — depressão, ansiedade, estresse pós-traumático, abuso de substâncias, ludopatia — no panóptico das redes sociais patrulhadas pelos robôs que tudo veem desde a torre da inteligência artificial.

Na introdução inacabada sobre comunismo lisérgico para o livro que nunca escreveria, Fisher ainda soava otimista: "Apesar de todo o misticismo e pseudo-espiritualismo que sempre pairou sobre a cultura psicodélica, havia realmente uma dimensão desmistificatória e materialista nisso", escreveu (tradução de Amauri Gonzo para a revista Jacobina).

"Experimentos generalizados com a consciência prometiam nada menos do que uma democratização da própria neurologia –uma consciência, recentemente difundida, do papel desempenhado pelo cérebro em produzir o que é experimentado como realidade. Aqueles viajando de ácido estavam externalizando o funcionamento de seu próprio cérebro e potencialmente aprendendo a usar seu cérebro de maneira diferente."

A morte evitou que Fisher visse Trump tomar posse não uma, mas duas vezes. Também foi poupado de assistir ao presidente dos EUA cercado por Robert Kennedy Jr., Joe Rogan e Brian Hubbard na assinatura da ordem executiva mandando acelerar pesquisas psicodélicas. 

Como é o instituto que promete avançar tratamentos psicodélicos - fotos

Na mira dos conservadores não se acha a emancipação lisérgica, antes a mitigação do sofrimento mental de veteranos das muitas guerras imperialistas, ex-combatentes que seguem a porta de saída eleita por Fisher, à taxa de 18 suicídios por dia.

Jair Bolsonaro, preso, não pode se candidatar. Seu espectro ronda o país reencarnado como assombração no filho 01, que promete entregar o Brasil a Cristo, a Trump e à estética evangélica de magnatas da Flórida, não a das comunas psicodélicas da velha Califórnia.


Foucault Na Califórnia - Filosofia e LSD no Vale da Morte

Preço R$ 62,30 (288 págs.). Autoria Simeon Wade. Editora Elefante. Tradução Júlio Delmanto e Felipe Melhado

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15. Hei teacher, leaves them kids alone (Pink Floyd: Another brick in the wall) -> ver aqui ou  aqui

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16. Luisa Stefani e canadense assumem liderança do ranking de duplas após título na China 

Foi o sexto título conquistado pelas duas tenistas em 2026. Elas disputam na sequência o WTA 500 de Tóquio e o WTA Finals.

fsp, 19.10.2026

A tenista brasileira Luisa Stefani assumiu, ao lado da canadense Gabriela Dabrowski, a liderança do ranking de duplas feminina da temporada 2026, conforme a atualização divulgada nesta segunda-feira (19) pela WTA (Associação das Tenistas Profissionais).

O topo do ranking veio depois de as tenistas faturarem, no domingo (18), o título do WTA 1000 de Wuhan, na China, batendo na decisão a australiana Storm Hunter e a tcheca Katerina Siniakova por 2 sets a 0, com parciais de 7/5 e 6/4.

Luisa Stefani (à esq.) e Gabriela Dabrowski comemoram ponto durante a final do WTA 1000 de Wuhan - Wang Zhao - 18.out.26/AFP

Com a taça na cidade chinesa, elas ultrapassaram a tcheca Katerina Siniakova e a norte-americana Taylor Townsend, que passaram a ocupar a vice-liderança.

A diferença entre as duas duplas é de apenas 50 pontos (8.420 a 8.370). É a primeira vez na história que uma tenista brasileira alcança o topo do ranking de duplas da WTA.

Esse foi o sexto título da dupla na temporada 2026. Elas também faturaram os títulos do WTA 1000 de Pequim e Dubai; do WTA 500 de Estrasburgo; e do WTA 250 de Eastbourn e São Paulo.

Além disso, elas ficaram com o vice em Wimbledon, e avançaram até as semifinais no Australian Open, em Roland Garros e no US Open.

O próximo compromisso de Stefani (3ª colocada no ranking de duplas) e de Dabrowski (4ª) será o WTA 500 de Tóquio, que acontece entre 26 de outubro e 1º de novembro.

Na sequência, elas seguem para a disputa do WTA Finals, torneio que reúne as oito melhores duplas da temporada. A disputa acontece de 8 a 15 de novembro, em Indian Wells, nos Estados Unidos.

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17. O clique da glória e da amargura – Ruy Castro 

Ruy Castro, fsp, 11.10.2026

A foto, excepcional, correu o mundo em 1973. Mostrava um soldado americano, prisioneiro de guerra durante cinco anos no Vietnã, desembarcando recém-libertado numa base aérea na Califórnia. O homem é um major e se chama Robert Stirm. Está fardado, de costas para a câmera, e sua bela família corre euforicamente para abraçá-lo. São duas meninas, uma já adolescente, dois garotos e a esposa. Parecem estar no ar, os pés fora do chão, e a alegria em seus rostos é indescritível. A foto é de Slava Veder, também americano, da Associated Press.

Veder morreu há um mês, aos 99 anos. Sua foto lhe rendeu o Prêmio Pulitzer e fama pelo resto da vida. Stirm morreu em 2025, aos 92, mas, para ele, ao contrário, ela só lhe provocava amargura. Não porque lhe lembrasse o longo cativeiro na selva, mas porque, ao se reunir com a família naquele momento, já sabia que seu casamento estava destruído. Dias antes de voltar, recebera uma carta da mulher contando-lhe que, na ausência dele, ela se apaixonara por outro homem e, embora aquele caso já tivesse acabado, convencera-se de que não era feliz no casamento e queria o divórcio.

Stirm não esperava por aquilo. O que o fizera sobreviver à fome, às torturas e às execuções simuladas na prisão fora a esperança de reencontrar sua família, recuperar o tempo perdido com a mulher, acompanhar o que restava da adolescência das crianças. E, ao descer do avião, sentia-se como se o chão que pisava não existisse. O casamento acabara e eles concordaram em esperar um ano para a separação, o que aconteceu.

A história chegou à imprensa na época e, por algum tempo, foi tão conhecida quanto a foto. Para sorte de Stirm, seu rosto não aparecia na imagem, poupando-o de ser apontado nas ruas. Mas todos sabiam dela nos quartéis. Promovido a coronel, ele abandonou a vida militar.

Veder e Stirm passaram as muitas décadas seguintes ligados pela foto. Com frequência, participavam de cerimônias envolvendo os veteranos daquela guerra absurda. Mas, para Stirm, o Vietnã nunca acabou.

 A fotografia 'Burst of Joy', de Slava Veder, é exibida em programa de antiguidades - Reprodução PBS

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18. Escolha do Nobel é mais uma vitória da astronomia multimensageira 

Salvador Nogueira, fsp, 6.10.2026

Comitê enfatiza uma revolução em curso na astronomia, a partir da exploração do Universo invisível. Nesta terça, o físico belga Francis Halzen ganhou a láurea por trabalho para a detecção de neutrinos.

Com a premiação da detecção de neutrinos de alta energia pelo observatório IceCube, o comitê do Nobel enfatiza uma revolução em curso na astronomia, a partir da exploração do Universo invisível –composto por entes de difícil detecção, em geral feita de forma indireta.

O estudo do Cosmos, historicamente, baseou-se na luz. Desde tempos imemoriais, humanos olham para o céu e tentam entender que diabo está acontecendo lá em cima, o que são as luzes que transitam em seu ritmo próprio, alternando-se com o Sol, no firmamento. Com Galileu Galilei, em 1609, nasce o telescópio – nada mais que um captador mais sofisticado de luz.

Impressão artística da Via Láctea vista com uma lente de neutrinos - U.S. National Science Foundation (Lily Le & Shawn Johnson)/ESO (S. Brunier)/via Reuters

Com a compreensão de que a luz é uma onda que existe no contexto de um espectro eletromagnético, e a noção de que existem muitos tipos de luz, a maior parte dos quais somos incapazes de enxergar com os próprios olhos, a astronomia se expandiu por esses novos territórios.

Radiotelescópios detectam micro-ondas e rádio, o infravermelho se divide entre eles e os telescópios ópticos, e, para além da luz visível, encontramos as faixas de alta energia, ultravioleta, raios X e raios gama (felizmente para a nossa saúde filtradas em sua maioria pela atmosfera terrestre, mas disponíveis aos telescópios espaciais).

Quase tudo que sabemos sobre o Universo e os objetos das mais variadas escalas que o compõem veio do estudo da luz. Mas as últimas décadas, em particular as do século 21, viram o desbravamento de novos territórios, ofertando janelas para o cosmos até então inalcançáveis.

Veja os ganhadores do Nobel de Física nos últimos anos - fotos

O comitê do Nobel vem reconhecendo a enormidade dessa empreitada em diversas ocasiões, a começar pelo advento dos raios cósmicos –partículas que são geradas no confins do Universo por eventos de alta energia, como a explosão de supernovas, e podem ser detectadas aqui na Terra. Ao estudá-los, aprendemos muito sobre a natureza da matéria e também sobre os objetos que os geraram.

Destaca-se a lembrança do Prêmio Nobel em Física de 1950, dado a Cecil Frank Powell pela descoberta da partícula méson pi, com uma técnica de placas de emulsão desenvolvida pelo físico brasileiro César Lattes, que acabou preterido pelo comitê.

No fim do século 20, os neutrinos – essas partículas ultradiscretas que só interagem com a matéria por meio da força nuclear fraca– se juntaram aos raios cósmicos como potenciais agentes da astronomia multimensageira. Um evento marcante aconteceu em 1987, quando os astrônomos viram uma supernova explodir na Grande Nuvem de Magalhães, galáxia vizinha da Via Láctea. Mas, horas antes que a luz da detonação chegasse, uma onda de neutrinos varreu o planeta e foi detectada, numa demonstração de como essas partículas de difícil detecção poderiam ser usadas para explorar o Cosmos.

Em 2014, outra grande novidade veio com a primeira detecção de ondas gravitacionais, provenientes da colisão de dois buracos negros, feita pelo Ligo (Observatório de Ondas Gravitacionais de Interferômetro de Laser), com suas duas instalações gêmeas nos Estados Unidos.

A medição dessas oscilações no próprio tecido do espaço-tempo permitiram testar a teoria da relatividade geral e estudar as propriedades de buracos negros e estrelas de nêutrons como nunca antes, complementando o que podíamos aprender por meio da luz. Não por acaso, o feito foi premiado com o Nobel em Física em 2017, dado a Rainer Weiss, Barry Barish e Kip Thorne.

Já o IceCube, concebido por Francis Halzen, fez pela astronomia de neutrinos o que o Ligo fez pela de ondas gravitacionais. Desde 2013, a detecção de neutrinos astrofísicos de alta energia (chegando à faixa dos peta-elétron-volts, PeV, três ordens de magnitude acima da energia de operação do LHC, o maior acelerador de partículas do mundo) se tornou um evento frequente (média de um por dia) e, em muitos casos, é possível determinar de onde no céu eles vieram.

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"Halzen foi o visionário que idealizou o experimento e foi também quem trabalhou muito junto ao Congresso americano para conseguir sua aprovação", diz Renata Zukanovich Funchal, professora do Instituto de Física da USP (Universidade de São Paulo) especialista em neutrinos. "Trata-se do primeiro e maior telescópio de neutrinos, que inaugurou a chamada astronomia de neutrinos de altas energias."

E é aí que começa a diversão, pois caberá aos astrônomos entender como eles foram produzidos e o que podem nos contar sobre alguns dos ambientes mais radicais e inóspitos existentes no Universo. "Entre as muitas coisas que aprendemos com o IceCube, talvez a mais surpreendente, seja a descoberta de neutrinos vindos de fora da nossa galáxia com energias acima de centenas de TeV (tera-elétron-volts), chegando pelo menos a 10 PeV. Esse fluxo de neutrinos ainda tem origem bastante desconhecida, embora saibamos que alguns deles foram produzidos perto do buraco negro central de galáxias com núcleos ativos", diz Funchal.

Com a premiação deste ano, o Nobel celebra não só uma realização, mas sobretudo um potencial, com o crescimento cada vez mais acelerado da astronomia multimensageira. "Vivemos hoje um momento importante e único. Temos à nossa disposição uma série de novas maneiras de observar o Cosmos, além dos telescópios com base em ondas eletromagnéticas. Elas nos permitirão, nas próximas décadas, ter uma radiografia do Universo muito diferente da que temos hoje", diz a pesquisadora da USP. "O que vamos descobrir não se sabe, mas certamente nunca estivemos tão bem preparados para observar o inesperado."

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19. Nada de novo no Front e outras obras antiguerra | História com Prof. Vitor Soares (ver aqui) 

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20. Assombrado após perder quase toda sua família, deslocado de Gaza ainda sonha em voltar

Nidal al-Mughrabi, fsp, 6.10.2026

Omar al-Hassayna perdeu sua esposa, filhos adultos e quatro netos em ataque israelense de 2023. Exército israelense ainda controla mais de 60% da região e realiza bombardeios em meio ao cessar-fogo.

Omar al-Hassayna fugiu da Faixa de Gaza para o Cairo depois que um ataque aéreo israelense dizimou grande parte de sua família. Três anos depois, ele continua na capital egípcia, à espera de estabilidade, segurança e reconstrução suficientes em sua terra natal, ainda devastada, para poder voltar.

Hassayna é um dos mais de 100 mil moradores de Gaza que deixaram o território durante a guerra desencadeada pelo ataque do Hamas a Israel em 7 de outubro de 2023 e que continuam retidos no exterior, segundo dados da Autoridade Palestina. Eles ainda choram a morte de parentes e a destruição de suas casas e bairros.

"Deixei Gaza e vim para o Egito, a terra de Kinana [uma referência ao Egito], mas, ao mesmo tempo, isso não será esquecido, meu querido irmão, não será esquecido", disse ele. "Estou esperando a oportunidade, estou esperando o momento em que Gaza se torne estável para que eu possa voltar ao meu país, ser um membro produtivo desta nação e uma força positiva para ela."

O palestino deslocado Omar al-Hassayna, que perdeu grande parte de sua família, cuida de plantas na varanda de sua casa no Cairo - Mohamed Abd El Ghany - 22.set.26/Reuters

Quase um ano após um cessar-fogo em Gaza que deveria dar início a um processo de reconstrução sob um governo tecnocrático, acompanhado de um processo político que levaria, por fim, à retirada total de Israel, pouca coisa mudou.

As forças israelenses ainda controlam mais de 60% do território e realizam ataques aéreos quase diariamente, enquanto o Hamas controla a maior parte da área onde vivem os palestinos, em sua maioria instalados em abrigos temporários, com suprimentos de ajuda que agências humanitárias consideram insuficientes  e sem perspectiva de reconstrução em breve. 

Cerca de 308 integrantes da família ampliada de Hassayna morreram quando ataques israelenses destruíram um conjunto de edifícios residenciais na Cidade de Gaza, onde eles haviam se reunido em busca de abrigo, em 22 de novembro de 2023, segundo autoridades.

Entre os mortos estavam sua esposa, quatro de seus filhos adultos e quatro netos pequenos, incluindo um bebê de apenas alguns meses.

Mohammed, o filho mais velho de Hassayna, também está no Cairo com os quatro filhos, assim como a viúva de um de seus filhos mortos, acompanhada da filha. Hassayna também tem irmãos na capital egípcia.

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Uma de suas filhas foi retirada de Gaza para receber tratamento médico na Turquia, junto com o marido e os seis filhos. Outra permanece em Gaza com os cinco filhos, embora o marido tenha morrido no ataque.

As Forças Armadas de Israel não responderam a um pedido de comentário sobre os detalhes do ataque de 22 de novembro. Afirmaram que seus ataques em Gaza têm como alvo objetivos militares e que procuram reduzir os danos à população civil.

Em agosto, Hassayna assistiu por vídeo, do Cairo, enquanto parentes sepultavam 112 integrantes da família, entre eles sua esposa, filhos e netos, cujos corpos haviam sido retirados dos escombros. Dezenas de pessoas ainda estão desaparecidas.

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Ele era dono de uma empresa que vendia ferramentas de segurança e equipamentos de combate a incêndios em Gaza, e parte de suas mercadorias sobreviveu à guerra. De tempos em tempos, ele vende alguns desses produtos para custear sua permanência na capital egípcia, onde se casou novamente.

Todos os que deixaram Gaza foram submetidos a verificações por Tel Aviv e pelo Egito antes da partida, mas muitos têm encontrado dificuldades para retornar ao território.

Embora alguns políticos israelenses tenham defendido uma política de incentivo à saída de toda a população de Gaza e de impedimento do retorno daqueles que partiram, cerca de 7 mil pessoas voltaram para casa.

Hassayna acredita que o Egito impedirá qualquer deslocamento em massa dos palestinos de Gaza. No entanto, é improvável que haja um retorno em massa daqueles que fugiram de Gaza enquanto as perspectivas para o território não estiverem mais claras.

"Se Gaza voltar a existir. Se houver um acordo internacional, com uma solução abrangente para o povo palestino, e a reconstrução começar, por que eu demoraria a voltar?", disse ele.

O palestino deslocado Omar al-Hassayna segura seu celular em sua casa no Cairo, com um vídeo que mostra a destruição das casas de sua família após ataques israelenses em Gaza - Mohamed Abd El Ghany - 22.set.26/Reuters

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