A coreografia do genocídio
O que ontem era impensável torna-se hoje discutível. Amanhã, aceitável. Finalmente, inevitável. É esse o perigo do discurso trumpista
José Eduardo Agualusa, O Globo, 11/04/2026
Suponham que, num momento de perigosa insensatez, decide servir-se das vossas redes sociais para ameaçar um vizinho: “Fulano morrerá esta noite para nunca mais ser ressuscitado.”
Teria problemas com a Justiça. Sérios problemas.
Agora, imaginem que é o presidente dos EUA. Dispõe de poder para arrasar um país, recorrendo a armamento nuclear. E escreve isto nas redes sociais, referindo-se ao Irã: “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada.”
Uma afirmação como esta, produzida por quem tem meios para cumpri-la, não pode ser lida como mera retórica, uma metáfora cruel, o irresponsável descuido de um senhor idoso, já um pouco senil. Tem de ser interpretada como o primeiro movimento de uma coreografia genocida. Não descreve uma possibilidade — aproxima-a do real.
Mais inquietante do que a brutalidade da frase é a brandura com que o mundo reagiu a ela.
É certo — o Papa protestou. Greta protestou. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, mostrou-se muito preocupado. George Clooney, mais rigoroso, chamou-lhe um crime de guerra: “Se alguém diz que quer acabar com uma civilização, isso é um crime de guerra. Você pode apoiar pontos de vista conservadores, mas deve haver uma linha de decência, e não pode ser cruzada.”
Linha de decência, George?! Estamos falando de um presidente da República que se comunica através de palavrões e baixo calão, insulta os jornalistas que se atrevem a colocar-lhe questões mais difíceis, usa o cargo para enriquecer, e, convém lembrar, foi condenado por abuso sexual ainda antes de ser eleito.
Donald Trump não se limitou, uma vez mais, a troçar da decência. Cometeu um crime, sim, um abominável crime de guerra. Num mundo normal, não anestesiado por anos de intimidade com o feroz surrealismo da extrema direita global, o escândalo seria unânime. A carreira política do atual inquilino da Casa Branca terminaria naquele triste parágrafo.
O que ocorreu, ao invés, foi um sobressalto breve, e logo o mundo regressou à sua tépida indiferença. A frase permaneceu — como permanece uma mancha de sangue —, já integrada no padrão. Mais uma. Apenas mais uma.
Aprendemos a aceitar o excesso. A linguagem, levada ao limite, não fere mais. É como um ruído demasiado alto, que o ouvido recusa.
Quanto maior a violência anunciada, mais irreal parece. Ora, a irrealidade, o absurdo, não exige resposta. Contudo, é assim que a História avança. Não na sequência de rupturas súbitas, mas por uma lenta deslocação do tolerável. O que ontem era impensável torna-se hoje discutível. Amanhã, aceitável. Finalmente, inevitável. É esse o perigo do discurso trumpista. Não tanto por aquilo que afirma, mas por aquilo que permite. No caso, permite que a ideia do genocídio circule sem consequências. Que se teste o limite. Que se meça a paciência da plateia. E a plateia, queridos leitores, é paciente.
Então, a coreografia prossegue, um pequeno passo hesitante, depois um segundo mais firme. E nós, espectadores atordoados, vamos aprendendo a reconhecer os movimentos sem, todavia, abandonar a sala.
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O que nos ensinam as cartas de Einstein e Freud sobre a guerra
Ruth de Aquino, O Globo, 09/04/2026
Neste momento em que muitos de nós, em família ou entre amigos, comentamos, impotentes, pessimistas e traumatizados, os rumos funestos de um mundo invadido por Trump e Netanyahu, é fascinante ler “Por que a guerra?”, a troca de cartas entre o pai da física moderna e o pai da psicanálise.
A correspondência entre Einstein e Freud foi publicada em Paris em março de 1933, em inglês, francês e alemão. E proibida na Alemanha. O timing foi levemente tardio. Dois meses antes, Hitler tinha assumido o poder. O nazismo forçou ambos ao exílio: o físico e o psicanalista.
Faz quase 100 anos que os dois se conheceram, em 1927, em Berlim. “Einstein é alegre, confiante e gentil, e entende tanto de psicologia quanto eu de física, então tivemos uma conversa muito agradável”, disse Freud. O comentário revelava curiosidade, empatia, admiração. Sentimentos em falta.
Foi o único encontro pessoal entre os dois. Cartas alimentaram a amizade. A convite da então Liga das Nações, Einstein escolheu Freud para debater a tragédia das guerras e as saídas – ou impasses – para uma paz mundial duradoura. As perguntas e reflexões continuam atuais.
Na primeira carta, Einstein escreve que a libertação dos males da guerra “era a esperança de líderes morais e espirituais reverenciados além dos limites de seu próprio tempo e país, de Jesus a Goethe e Kant”. Mas, “o destino das nações está nas mãos de governantes políticos totalmente irresponsáveis”.
Vai adiante: “Estamos longe de ter uma organização supranacional competente para ditar veredictos de autoridade incontestável”. E obrigar a cumprir. Continuamos longe, um século depois.
Freud concorda que só “uma autoridade central com o direito de arbitrar todos os conflitos de interesses” poderia evitar as guerras. “Dois requisitos são necessários: criar uma instância suprema e dotá-la de poder. Uma sem a outra seria inútil”. E isso não acontece porque “os ideais nacionalistas operam em direção oposta”. Por isso, estaríamos destinados ao fracasso.
Einstein insiste. “Existe alguma maneira de libertar a humanidade da ameaça de guerra?” Como a física “não permite vislumbrar os lugares obscuros da vontade e do sentimento humanos”, pergunto, o que diz a psicanálise?
Freud argumenta que os seres humanos têm dois instintos fundamentais: Eros, a pulsão de vida, para unir e preservar, e Thanatos, a pulsão de agressão, para matar. A guerra não seria apenas um acidente, mas uma manifestação desse impulso destrutivo inconsciente.
Einstein acusa a classe dominante, hostil a qualquer limitação da soberania nacional, de subjugar a maioria e usar a Igreja para incitar ao ódio. “Essa sede de poder político é apoiada por outro grupo, com aspirações puramente mercenárias”. Guerra, fabricação e venda de armas são mera oportunidade para promover interesses pessoais e ampliar a autoridade. Tudo tão igual que provoca arrepios.
Freud sugere a humanização pela educação. “Uma comunidade de sentimentos”. Mas não passa de utopia, se desdiz, cético. “Não há chance de suprimir as tendências agressivas da humanidade”.
Anos depois dessa correspondência, Einstein assinou a carta de 1939 incentivando os EUA a desenvolver a bomba atômica. Foi seu “único grande erro”, arrependeu-se, com imodéstia. “Não sei com que armas a Terceira Guerra Mundial será travada, mas a Quarta será com paus e pedras”.
Percebo à minha volta uma melancolia. Substitui a vã indignação com a dupla de loucos furiosos sem pudor de destruir cidades, cometer crimes de guerra e provocar o caos mundial.
Conheço quem fique ligado o tempo inteiro. Conheço quem se recuse a ver notícias e vídeos das guerras. E prefira olhar a Lua ou observar os pássaros. Para continuar a viver, comer, dormir, amar e sonhar.
POR QUE A GUERRA? (EINSTEIN E FREUD) (1933 [1932]) - texto


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