quinta-feira, 2 de abril de 2026

Lúcio Flávio Pinto, o amazônida - parte 2

Continuação do post Lúcio Flávio Pinto, o amazônida (ver aqui)

O caminho difícil do jornalista Lúcio Flávio Pinto 

João Moreira Salles, piaui, Edição 235, Abril 2026 

PARTE II_TRABALHANDO NO PRÓPRIO JORNAL

Provavelmente o assassinato de Paulo Fonteles começou a ser preparado em março. Entre o final desse mês e o início de abril dois homens, ambos aparentando 30 anos, um deles alto, forte, barbudo, o outro magro e baixo, se hospedaram no Hotel Milano, um hotel de segunda categoria mas encravado num ponto estratégico da avenida Presidente Vargas, a mais importante do Centro da cidade.

José Roberto Vasconcelos, o Betão, e Marcos Antonio Nogueira, o Marquinhos, não poderiam ficar em melhor local para desempenhar sua missão. Eles deveriam observar Paulo Fonteles e checar um plano de ação para dois outros homens, que só viriam depois, com uma outra tarefa: matar o ex-deputado.

Esses são dois dos parágrafos iniciais do artigo investigativo que o repórter paraense Lúcio Flávio Pinto escreveu e publicou em setembro de 1987.

Paulo César Fonteles era um advogado paraense ligado à causa dos pequenos agricultores. Preso e torturado durante a ditadura militar, elegeu-se deputado estadual pelo PMDB em 1982, tendo dedicado o mandato a denunciar abusos cometidos por grileiros e grandes proprietários de terra.

Em 1986, concorreu a deputado federal, mas não se elegeu. Retomou, então, o trabalho de linha de frente na luta pela reforma agrária e pela apuração das violações contra a população pobre do campo.


Lúcio Flávio – é assim que todos o chamam – registrou: “Para um grupo de proprietários de terras, era a oportunidade do ajuste de contas: sem a proteção do mandato político, Fonteles, de 38 anos, se tornava um alvo menos complicado.”

Paulo Fonteles foi assassinado no dia 11 de junho de 1987 com “três tiros precisos na cabeça”, a 20 km de Belém, vítima de uma emboscada quando estava a caminho de uma reunião com trabalhadores rurais.

Era um crime de uma ousadia extraordinária. Os mandantes, fossem quem fossem, não haviam hesitado em executar um homem público – advogado conhecido, ex-deputado –, apesar de não poderem ignorar que o assassinato provocaria imensa comoção. O corpo foi velado na Assembleia Legislativa e levado em marcha até o cemitério. O cortejo fúnebre reuniu cerca de 7 mil pessoas que atravessaram a capital do Pará entoando canções de resistência.


Três dias antes da emboscada, Lúcio Flávio conversara longamente com Fonteles, que era, ao mesmo tempo, pauta e fonte. Com aquela morte, uma fronteira havia sido ultrapassada – o Pará se via diante de “um crime político terrível” que abriria “as portas para a violência indiscriminada”, como ele escreveria mais tarde.

O repórter, que em 1987 trabalhava simultaneamente nos jornais O Liberal, do Pará, e O Estado de S. Paulo, pôs mãos à obra.

Descreveu ainda as relações perigosas do organizador do crime, James Sylvio de Vita Lopes, com empresários, militares e agentes do serviço de informação, além de uma possível ligação entre ele e o então diretor da Polícia Federal, Romeu Tuma; a atuação de milícias policiais a serviço de fazendeiros; e o envolvimento de “dois delegados e um investigador de polícia” que mantiveram Vita Lopes “sempre bem informado sobre as investigações do delegado Otacílio Mota”, encarregado do caso.

As anotações da apuração encheram quatro cadernos. Lúcio Flávio escreveu a reportagem em três dias: 26 628 toques, nove laudas em papel A4, tamanho incomum para um diário. Ponto-final pingado, “lambeu a cria”. Sabia que o trabalho tinha valor.

Na primeira quinzena de setembro, entrou na redação do Liberal para entregar o texto. Ele descreve a cena em Como me tornei um amazônida, livro que reúne relatos autobiográficos:

[Lá] estava eu diante de Rosângela Maiorana Kzam, diretora administrativa de O Liberal, uma das herdeiras do império fundado pelo pai, morto pouco mais de um ano antes, de leucemia. Dos filhos de Romulo Maiorana, era com quem tinha mais afinidades […]. Era lá que eu tentava convencê-la a publicar uma matéria que me consumira três meses de trabalho integral […]. Pude sentir que “Loloca” partilhava minha emoção a cada virada de página. Leu tudo, de um só fôlego. Depois colocou os papéis em cima da mesa, reclinou-se, suspirou e deu seu veredicto: a matéria estava ótima, era impressionante. Tinha um porém: O Liberal não podia publicá-la. Dois dos alvos das minhas denúncias eram considerados os homens mais ricos no Pará (ambos já mortos: Jair Bernardino de Souza, do Grupo Belauto, revendedora Volkswagen, que calculava a própria fortuna em 120 milhões de dólares da época, e Joaquim Fonseca, o “maior armador fluvial do mundo”, conforme se anunciava). Eram anunciantes fortes. Não aceitariam aquela reportagem sem retaliações, que pesariam nas finanças de O Liberal.

Proprietária e repórter estavam diante de um impasse. Fonteles era um cidadão paraense, e aquela era uma história do Pará. Fora dali, o crime aparecia apenas em notas breves. Era improvável que o Estadão dedicasse nove páginas a um assassinato político ocorrido na província. O Liberal, o jornal de maior circulação do estado, era o destino natural da reportagem.

Sentado diante de Maiorana, a quem considerava uma amiga, Lúcio Flávio – possivelmente o jornalista mais prestigiado da casa – tomou uma decisão e a compartilhou ali mesmo com sua interlocutora: criaria um jornal só dele, no qual pudesse publicar tudo o que escrevesse. Um Jornal Pessoal.

Em silêncio na tela do computador, Rosângela Maiorana tenta se recordar do momento em que o jornal de Lúcio Flávio nasceu. Finalmente responde: “Lembro muito pouco. Eu era muito jovem, tinha 25 anos quando meus irmãos e eu assumimos a empresa. Nosso pai morreu muito cedo, foi um período muito difícil. Do que me lembro bem é que o Lúcio era um confidente. Eu pedia muito a opinião dele. Ele era meu amigo. Um amigo mesmo. Você diz que eu dei apoio a ele. Não me lembro mais de que tipo.”

Não foi uma ajuda qualquer. Lúcio Flávio descreve: “Transmiti minha ideia a ‘Loloca’, que a aprovou na hora. Tão empolgada estava pela matéria que se ofereceu para imprimir esse novo jornal, sem cobrar um tostão pelo serviço, desde que eu não identificasse onde o imprimiria. Foi ainda além: a tiragem não seria de 2 mil exemplares, mas de 5 mil.”

Ao ouvir a leitura dessa passagem, Maiorana assente com a cabeça. “É verdade. Tá voltando. Puxa, que memória tem o Lúcio. É verdade, sim. Eu percebi que ele não poderia publicar no Liberal. Por mim, eu publicaria, mas não era só eu.”

Hoje, o único membro da família que aparece no expediente do Liberal é Ronaldo Maiorana, irmão de Rosângela. Até 2023 ela ocupava o cargo de vice-presidente do grupo, mas houve uma ruptura entre os irmãos. É possível que, já em 1987, Lúcio Flávio tenha sofrido os efeitos da tensão entre os filhos do fundador, controladores do grupo.

“O que me lembro daquele período”, segue Rosângela, “é que o Lúcio tinha chegado a um ponto da vida em que passou a incomodar muita gente. Meu pai tinha morrido, e Lúcio não tinha mais a antiga liberdade que ele lhe dava. Ele não tinha mais espaço. Meu irmão não dava essa liberdade. Eu era a única que tentava, mas era uma empresa familiar e eu não podia ficar enfrentando meu irmão o tempo todo para defender o que o Lúcio escrevia. Foi nesse momento que ele decidiu ser livre.”

Ser livre envolvia um custo. “Naquela segunda quinzena de setembro de 1987, eu chegava aos 38 anos de idade, quase 22 de profissão e podia dizer que tinha currículo.”

Sem dúvida, tinha. Assumira a rede de correspondentes do Estadão na Região Norte, àquela altura composta de dez profissionais, segundo Raul Martins Bastos – durante anos, chefe das sucursais e responsável por contratar Lúcio Flávio para o diário paulista. Era um dos repórteres mais destacados daquele que estava entre os quatro jornais nacionais do país. O nome mais vistoso do diário de maior circulação de seu estado. Tinha publicado quatro livros e recebido um Prêmio Esso. Ganhava bem. Vivia bem.

Lançar o seu jornal significaria abandonar tudo aquilo. Imaginou uma publicação quinzenal sem publicidade nem patrocínio para não comprometer a própria independência. Toda receita viria dos leitores; todo o trabalho, dele. Pautaria, apuraria, comentaria, editaria, fecharia, rodaria, etiquetaria, postaria e distribuiria pessoalmente o jornal para os assinantes nos bairros mais próximos de sua casa – na lista exaustiva de tarefas anotada por Raul Martins Bastos.

Feito com dinheiro nenhum, seu aspecto seria, no mínimo, austero. “Quase um jornal escolar”, descreve, com dó, o senador Jader Barbalho (MDB), um dos grandes personagens do periódico. “Um merda de um jornalzinho”, diria o empresário e grileiro Cecílio do Rego Almeida, objeto de uma das investigações mais valentes da publicação.

“Aparência desencorajadora”, admite Lúcio Flávio: sem cor, maçudo, com frequência dedicado a temas áridos. “Sua comercialização, um convite à imolação”: ao menos no início, só seria vendido em bancas, obrigando quem o quisesse ler a ir até elas, sempre atento à periodicidade quinzenal. E custaria caro: cerca de 6 reais em valores de hoje.

A inspiração vinha dos Estados Unidos, onde, em janeiro de 1953, o jornalista Isidor Feinstein Stone, conhecido como Izzy, lançara o primeiro número do I. F. Stone’s Weekly. Tratava-se de um tabloide radical e ecumênico em relação a seus alvos, capaz de criticar tanto a vileza do macarthismo quanto a ingenuidade do nascente movimento ambientalista, considerado ineficaz por não associar as chagas do meio ambiente a problemas mais estruturais – e, por isso, visto como uma distração que desviava a atenção de lutas mais urgentes, como a oposição à Guerra do Vietnã.

O Weekly foi a primeira publicação a duvidar da versão oficial sobre as escaramuças navais ocorridas no Golfo de Tonquim, ao largo do Vietnã. Em agosto de 1964, o governo norte-americano alegou que, nos dias 2 e 4 do mês, lanchas norte-vietnamitas tinham investido contra suas embarcações. O primeiro ataque aconteceu; o segundo, ao que tudo indica, não. Ainda assim, o episódio serviu de pretexto para que o Congresso dos Estados Unidos concedesse ao presidente Lyndon Johnson autorização legal para ampliar a participação do país na guerra. Stone veiculou seu artigo vinte dias depois da suposta segunda agressão, denunciando o silêncio da imprensa, que preferira reproduzir a versão oficial.

A lição número 1 do americano era simples: “Não ficar amigo do secretário de Estado.” O repórter que se aproximava do poder perdia o discernimento. Em palestras a estudantes, Stone costumava dizer: “Repórteres do establishment sabem muita coisa que eu não sei, mas a maioria dessas coisas não é verdade – e o que é eles não podem publicar.”

Não surpreende que Lúcio Flávio tenha identificado em Stone um parente próximo.


O primeiro número do Jornal Pessoal foi publicado na segunda quinzena de setembro de 1987. Tinha oito páginas, as seis primeiras dedicadas ao assassinato de Paulo Fonteles; as duas últimas, ao desabamento de um prédio em Belém que matou 41 operários.

A manchete principal cortava a primeira página de margem a margem: O CASO FONTELES – Um crime bem planejado. Embaixo dela, a linha fina: “Um mundo pouco conhecido, com subterrâneos invisíveis e uma face externa às vezes ilustre, está por trás da morte do ex-deputado Paulo Fonteles. O Jornal Pessoal levou dois meses para levantar o tapete desse mistério.”

Numa caixa no canto inferior esquerdo, a informação institucional: “Este é um jornal pequeno e pessoal não por acaso. É um produto das circunstâncias dentro das quais exerce sua opção: a de transmitir à opinião pública, sem retoques, os resultados da investigação dos temas mais importantes da conjuntura de hoje, talvez a história de amanhã.” Terminava com uma frase que era também uma declaração de princípios: “Este jornalismo dedica todas as suas energias aos homens presentes e ao tempo presente – a maneira mais adequada de não se fazer ausente.”

Quem leu ficou pasmo.

O advogado da União Mauro O’ de Almeida, ex-secretário de Meio Ambiente do Pará, foi um dos leitores. “As portas tinham se fechado para o Lúcio Flávio. Aí ele lança o Jornal Pessoal e, logo no primeiro número, revela uma teia impressionante de mandantes e assassinos.”

O texto não omite que alguns dos fatos mais marcantes da reportagem já haviam aparecido na imprensa. Os vazamentos durante a investigação eram correntes, a ponto de o organizador do crime, James Vita Lopes, ter conhecimento de informações que a imprensa ainda não recebera.

Nem mesmo uma leitura atenta da reportagem permite distinguir muito bem o que é fato novo e o que já era de domínio público. Lúcio Flávio não emprega a primeira pessoa do singular, não se inclui no texto, não diz “recebi tal informação”, “descobri isso”, “identifiquei aquilo”.

(A primeira pessoa do singular ainda levaria algum tempo para aparecer no Jornal Pessoal – quase sempre mobilizada para informar o leitor sobre processos, ameaças e agressões, ou para rebater ataques pessoais, em geral com violência verbal equivalente.)

Ao terminar o artigo, o leitor entende quem são os personagens centrais, a que estrato da sociedade pertencem, como se relacionam entre si, o que fizeram, onde estavam e o que os levou a agir. Lúcio Flávio parece organizar com minúcia e clareza as provas colhidas pela investigação policial.

Em parte, foi exatamente isso – mas, segundo ele, não só. Acompanhou, sim, a investigação, porém depois passou “à frente dos policiais, que começaram a marcar passo, seja por já não lhes interessar o avanço na decifração das pistas, seja porque foram contidos por uma mão não muito invisível do governo, que não queria chegar aos ‘finalmentes’. O secretário de Segurança Pública era filho de um velho e temido jornalista, João Malato, que se colocara francamente ao lado do homem acusado de tramar o assassinato – e ao lado de toda a estrutura de poder, com suas vinculações diretas no campo, que Fonteles combatia”. (Mario Malato, filho de João Malato, era delegado de polícia e próximo de James, mas só se tornaria secretário de Segurança Pública dois anos depois, em 1989.)

No contexto do tempo e do lugar, pouco importa identificar em que momento Lúcio Flávio “passou à frente”. O valor da reportagem era outro. Raul Martins Bastos explica: “É preciso entender as peculiaridades da imprensa local. Vira e mexe ela serve a algum interesse e cobra por isso. O mérito do Lúcio foi ter publicado.”

O jornal trataria de violência, corrupção, grilagem, luta pela terra, garimpo, questão minerária, grandes obras de infraestrutura e também – quando não sobretudo – da própria imprensa.


Desde o primeiro número, o tema já estava posto. Lúcio Flávio conta que Vita Lopes, ao saber por suas fontes que a polícia o investigava, decidiu divulgar pela imprensa uma carta repleta de recados subliminares com destinatários precisos: ao lê-la, os eventuais mandantes saberiam que ele exigia proteção. A carta foi enviada para João Malato.

Não se tratava de um intermediário qualquer: João Malato foi um destacado jornalista do Liberal, o que adensava ainda mais os laços entre a imprensa e as diversas forças em jogo. Ao receber a carta, Malato a encaminhou para o Liberal, “não sem antes submetê-la a uma atenta copidescagem”.

Mostrar como o Pará funcionava significava, portanto, mostrar como a imprensa funcionava. Lúcio Flávio miraria nas empresas jornalísticas, “mostrando seus bastidores, os biombos invisíveis dos seus interesses”.

Ao revelar o que era omitido da cobertura, o Jornal Pessoal informaria ao leitor aquilo que realmente importava ao poder. Décadas mais tarde, o presidente Lula sintetizaria essa ideia numa boa frase: “Notícia de verdade é a que a gente não quer falar.”

Nunca se esclareceu quem mandou executar Paulo Fonteles. Os pistoleiros foram assassinados, o que não é incomum em casos como esse. Queimado o arquivo, o caso morreu.


Bastaram os dez primeiros números do Jornal Pessoal – todos com apenas oito páginas – para que a publicação se tornasse indispensável. O que se lia ali não podia ser encontrado em nenhum outro lugar.

No segundo número, o leitor se deparou com a primeira reportagem de uma série sobre um esquema de concessão fraudulenta de créditos no Banco da Amazônia (Basa), a mais importante instituição financeira da Região Norte. “Durante vários meses o filho de um dos diretores do Banco da Amazônia […] cobrou comissões para conseguir empréstimos em favor de empresas junto a três agências – Belém, Rio de Janeiro e Itaituba.”

Como no caso Fonteles, é difícil distinguir o que no texto é informação original e o que resulta da leitura atenta de documentos públicos. Lúcio Flávio menciona, por exemplo, um embargo apresentado a uma vara cível por uma empresa lesada pelo esquema. Cita também uma auditoria interna do próprio Basa, que já apontava a fraude. Como não há uso da primeira pessoa, não é possível saber se apenas ele teve acesso a esse documento.

Tanto faz, pois aqui continua a valer a observação de Raul Martins Bastos: o essencial era publicar. Desde sua criação, em 1942, o Banco da Amazônia foi sempre uma instituição permeada por interesses políticos. Tratar de fraudes no banco – que dirá de um dos maiores desfalques de sua história – era buscar confusão.

Augusto Barreira Pereira – presidente interino do Basa e personagem central da trama, que seria condenado pela fraude – era também diretor jurídico do Liberal.

Em artigos subsequentes, Lúcio Flávio informaria que, “além de ser advogado de O Liberal, Barreira Pereira fora indicado ao cargo no Basa pelo então governador Jader Barbalho, dono do Diário do Pará”. E mais: um dos envolvidos nas irregularidades, o compositor Billy Blanco, era irmão de um ex-diretor-geral da Província do Pará, Milton Blanco Trindade, falecido havia apenas um ano.

De uma só vez, os três jornais que circulavam diariamente em Belém viam-se enredados na trama, o que lhes dava razões de sobra para navegar com cautela em torno do escândalo. Segundo Lúcio Flávio, foi o que fizeram. A reticência noticiosa só seria interrompida no ano seguinte, quando uma juíza federal do Rio de Janeiro decretou a prisão dos executivos do banco, os primeiros no país a serem processados pela Lei do Colarinho Branco, promulgada em 1986.

A investigação sobre o Basa continuaria no Jornal Pessoal número 3, cuja matéria de capa trazia, pela primeira vez em destaque, um dos personagens mais recorrentes da história da publicação: o ex-governador do Pará e então recém-empossado ministro da Reforma Agrária do governo Sarney, Jader Barbalho. Um esquema nebuloso de construção de casas populares, abortado quando a notícia veio a público, levaria o principal financiador da sua campanha eleitoral a se transformar “no maior empreiteiro de obras do Pará”.

Uma pequena e aparentemente despretensiosa nota na página 7 dizia: “No apartamento de uma personagem da sociedade […] houve em agosto uma festa regada a cocaína.” Era a droga circulando nos ambientes frequentados pela elite local. Os desdobramentos do tema, anos depois, seriam consideráveis.

O Basa e suas conexões com o poder avançaram pelo quarto número da publicação. O filho de Augusto Barreira Pereira “estava cobrando comissão de 10% e mais a transferência de duas linhas telefônicas para liberar o empréstimo” de um cliente. Uma empresa que havia se beneficiado de “condições excepcionalmente favoráveis de crédito” tinha entre os seus sócios um irmão de Jader Barbalho.

Outro banco público, o Banco do Estado do Pará (Banpará), é a manchete do Jornal Pessoal número 5. AMEAÇA DE EXTINÇÃO: o Banco do Estado poderá sucumbir aos negócios que foi obrigado a fazer. Os maus negócios tinham uma explicação: “tráfico de influência, interferência política e corrupção.”

O número seguinte trazia de volta Joaquim Fonseca, investigado no caso Fonteles e dono da empresa de navegação Jonasa. Uma unidade da polícia estava funcionando nas dependências da sua empresa. Apesar das negativas do secretário de Segurança Pública, “era dado como certo que [a Jonasa] não apenas havia doado o terreno para a delegacia, como financiara sua construção e suplementaria as despesas operacionais”.

Número 7: “A verdadeira história da intervenção federal no Banco do Estado do Pará é contada aqui, pela primeira vez.”

Número 8: ainda o caso Basa – “A Polícia Federal deverá pedir, no próximo mês, a prisão administrativa de todos os envolvidos no rombo no Banco da Amazônia…” – e, no pé da página 5, um aviso:

O desafio maior deste jornal é a sobrevivência. Para consegui-la, precisa adaptar-se, corrigir rumos, recuar se isso é necessário aos avanços […]. A partir do próximo número, o JP deixará de circular em bancas. Manter a atual tiragem e a amplitude de veiculação tornou-se impossível. Insistir nessa linha significaria inviabilizar o jornal. Agora, ele será distribuído apenas a assinantes, um contingente ainda reduzido.

Serra Pelada é o tema central das duas edições que completam os dez primeiros números do Jornal Pessoal. A publicação tenta separar o joio do trigo da cobertura sobre um conflito envolvendo 350 homens da Polícia Militar e cerca de 1,5 mil garimpeiros que, no antepenúltimo dia de 1987, bloqueavam uma ponte rodoferroviária sobre o Rio Tocantins em protesto por direitos e condições de trabalho.

Morrer era um fato corriqueiro em Serra Pelada, informava o jornal. Embora não se soubesse o número exato de mortos no garimpo – gente soterrada nas laterais ou no fundo da cava –, não eram poucos. Essa contabilidade macabra, observava um dos textos, tinha sido agravada pelo incidente ocorrido em 29 de dezembro: autorizados pelo governador Hélio Gueiros a desobstruir “de qualquer maneira” a ponte, os soldados da tropa “lançaram bombas de gás lacrimogêneo, deram golpes de cassetete e dispararam tiros de revólver e fuzil”.

Quantas pessoas teriam sido mortas? Quantas teriam se jogado no rio e desaparecido? Cada parte no conflito sustentava a sua versão. Coube ao Jornal Pessoal, escrevendo no calor dos acontecimentos, desmontar o que não encontrava respaldo nos fatos.

“Houve um genocídio?”, indaga a manchete do número 10. Ao responder, o Jornal Pessoal se mostra ideologicamente agnóstico.

Em relação à esquerda: “O coordenador do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo” – o cientista político Paulo Sérgio Pinheiro –, “apesar de distanciado mais de 2 mil km do local, não titubeou em classificar a ação da Polícia Militar do Pará de ‘um genocídio’.”

Em relação à direita: “O comandante da Polícia Militar, coronel Ailton Guimarães, observou que o inquérito não seria necessário porque a PM agiu dentro dos ‘padrões de técnica policial’ e as baixas registradas foram ‘desprezíveis’ – desprezíveis para o coronel, naturalmente, que não teve o dissabor de ver um só de seus homens arranhado, ou não foi abalado por parentes feridos, mortos ou desaparecidos.”

A verdade provavelmente estava no meio do caminho: “Embora só haja duas vítimas fatais oficialmente reconhecidas, não é fantasia pensar no dobro desse número ou chegar a nove mortos, como acredita uma credenciada testemunha ocular do choque entre a PM e os garimpeiros, o coordenador da Defesa Civil de Marabá, Wilson Faval de Melo.”

E a conclusão: “Apesar de evidenciar falhas, o depoimento de Wilson ajuda bastante a iluminar o que houve sobre a ponte. Ele desautoriza todas as versões que, baseadas em estimativas variando de 26 a 133 mortos, classificaram o episódio como genocídio. Também nega o entendimento do comandante da PM, de que a tropa agiu absolutamente dentro dos ‘padrões de técnica policial’. Não há dúvida que a PM se excedeu.”

O jornalista, escritor e cineasta Ismael Machado, autor de uma biografia de Paulo Fonteles, diz que é possível discutir as interpretações de Lúcio Flávio sobre os fatos, nunca, porém, os fatos em si. “Não se pode pôr em dúvida a integridade dele como jornalista. Essa postura intransigente em relação ao jornalismo é extraordinária. A gente deve muito a ele nesse aspecto.”


"Gostaria, sim, que o Lúcio tivesse feito parte do jornal”, diz o senador Jader Barbalho, referindo-se ao Diário do Pará, do qual permanece proprietário.

Barbalho fala extraordinariamente baixo. O tom, além de polido, é sinal de autoridade. Homem forte de seu estado, o senador sabe que não precisa subir a voz para ser ouvido. É ele o centro.

Ministro (duas vezes), governador (duas vezes), presidente do Senado, pai de ministros e de governador, Jader Barbalho é a maior liderança política do Pará desde a redemocratização. Ele e Lúcio Flávio se conheceram na juventude, quando estudaram na mesma escola estadual.

Barbalho, cinco anos mais velho, já militava politicamente. Era presidente do grêmio estudantil e pertencia à Juventude Estudantil Católica (JEC), movimento de esquerda ligado à Igreja progressista. Vem daí o nome do seu filho Helder, atual governador do Pará, uma homenagem a dom Helder Câmara, figura essencial na formação do senador junto à do pensador católico francês Jacques Maritain.

Apesar dos inúmeros embates ao longo dos anos, os dois se respeitam. “Eu gosto do Jader”, havia dito Lúcio Flávio na véspera. “Ele é um político esperto, raposa, que sabe fazer o jogo da política.”

A alguns quilômetros do apartamento modesto do jornalista, Jader Barbalho, na sala de sua casa, ouve a pergunta que o antigo colega de escola sugerira que lhe fosse feita: “Pergunta assim pro Jader: ‘O Lúcio Flávio mentiu alguma vez pra você?’” O senador não hesita: “Imagina. Não tive nenhuma dificuldade com ele.”

É uma relação fascinante. O jornalista mais influente da imprensa local e o político mais poderoso do estado colecionam histórias de atritos, ameaças e denúncias – estando Lúcio Flávio geralmente na condição de vítima, e Barbalho na de suspeito –, sem que isso trinque o cristal entre os dois.

As críticas ferozes no decorrer do tempo não abalaram a admiração que Lúcio Flávio nutre pela sagacidade e instinto de sobrevivência do velho político, um dos fundadores do MDB, partido de oposição ao regime militar – “Acho que minha ficha de filiação é a de número 4” –, interlocutor e par de figuras como Ulysses Guimarães, Tancredo Neves, Teotônio Vilela e Fernando Henrique Cardoso.

Os casos mais rumorosos são, evidentemente, negados de parte a parte.

Uma história de Lúcio Flávio:

Corre o ano de 1984, é o primeiro governo de Barbalho. Cláudio Sá Leal, diretor de redação do Liberal, recebe um telefonema anônimo. Do outro lado da linha, a voz diz: “Leal, prepara a manchete de amanhã: ‘Lúcio Flávio assassinado.’”

Ao ser informado, Lúcio Flávio pega o telefone e entra imediatamente em contato com o assessor de imprensa de Barbalho: “Se o governador não me ligar em 10 minutos, vou mandar uma carta para o Júlio de Mesquita Neto, do Estadão, dizendo que Jader é o culpado.” Barbalho chama logo em seguida.

Na sala de seu apartamento, o jornalista reproduz a conversa entre os dois: “‘Lúcio, sei que estamos desavindos’ – nunca mais me esqueci da palavra que ele usou, desavindos – ‘mas não faria nada contra ti.’”

“Acredito, Jader, mas olha para o teu entourage”, respondeu Lúcio Flávio. A ameaça certamente partira do palácio – a velha história de algum subalterno querendo ser mais realista que o rei.

“Jader me ligou no dia seguinte”, conta ele. “Queria conversar a dois, mas não aceitei, exigi testemunhas – conversa a três, no mínimo. Ele chamou o assessor de imprensa dele, Guilherme Augusto, e disse: ‘Tá resolvido.’”

Jader Barbalho ouve serenamente o relato. No final, balança a cabeça. “Não me lembro desse episódio. E, se por acaso tivesse ocorrido, minha atitude seria drasticamente contrária a qualquer violência. Não contabilizo nos governos que exerci nenhum gesto de violência”, diz, no seu português preciso e rico, como alguém que fala com o dicionário na mão. Guilherme Augusto, o único que poderia desempatar a questão, faleceu em 2019.

Uma história de Jader Barbalho, do tempo de seu primeiro mandato de governador:

Seu assessor de imprensa – o mesmo Guilherme Augusto do episódio anterior – pede a ele que receba Lúcio Flávio. “Recebi”, conta Barbalho, “mas no fim da conversa, ouvi algo que considerei muito desagradável.”

Um indicado seu estava prestes a assumir a chefia da Sudam, o cargo federal mais importante da região amazônica. Médico endocrinologista, com clínica no Rio, Henry Kayath havia sido preso pela ditadura, e voltava agora a Belém, onde tivera o mandato de deputado estadual cassado pelo AI-1.

Sem demonstrar contrariedade e sempre no seu tom sussurrante, o senador chega ao ponto: “Aí, de inopino, o Lúcio me diz que, se o Kayath fosse indicado, ele não poderia escrever contra ele, porque o Kayath era muito amigo da figura mais poderosa da comunicação no Pará, Romulo Maiorana, dono do Liberal. Com isso, só lhe restaria um caminho: escrever contra mim. Considerei a coisa tão absurda que me levantei e dei a entrevista por encerrada. A partir daí, senti que passou a haver uma mágoa – eu diria até uma má vontade. Não sei se a memória do Lúcio é capaz de se recordar desse episódio.”

É capaz, sim – mas não exatamente do mesmo modo. A conversa existiu; o que muda é o que foi dito. Lúcio Flávio considerava Kayath uma pessoa excepcional, “de uma inteligência privilegiada”. O problema era o cargo.

“Jader, estás trazendo para cá esse médico, um bom médico até, mas que é também o tesoureiro do teu partido. O cara que cuida do teu dinheiro assumindo a Sudam? Se tu colocares o Kayath lá” – o que de fato veio a acontecer –, “pra mim você estará se corrompendo.”

Com isso, conta Lúcio Flávio, Jader Barbalho “ficou irritado”.

Se ficou, não passa recibo. Pelo contrário, até. “Eu acho que Lúcio foi um jornalista leal, não tenho nenhum registro que desmereça a conduta profissional dele. Ele é uma figura preparada intelectualmente e sem dúvida foi ele quem inaugurou no Pará o que seria o jornalismo investigativo.”

Barbalho admira sobretudo o compromisso de Lúcio Flávio com a Amazônia. Quando o governo federal passou a intervir com mão de ferro na região, o jornalista estava lá para lembrar a todos das violências desse colonialismo imposto por brasileiros a brasileiros. Era ele quem puxava essas pautas, recorda o senador.

É uma das razões pelas quais Barbalho não hesitou em responder que gostaria, sim, que Lúcio Flávio tivesse escrito para o seu jornal. Não daria certo, claro – e o próprio senador identifica o motivo: “O Lúcio resolveu assumir uma postura de total independência e certamente decidiu que não queria nenhuma vinculação.”

A história que Barbalho conta sobre por que o seu pai, um político cassado pelo AI-5, decidiu fundar o Diário do Pará diz muito a respeito da origem e do propósito de vários órgãos de imprensa país afora. “O jornal nasceu pela necessidade de uma alternativa. Na época, dois coronéis lideravam a política do Pará: Jarbas Passarinho e Alacid Nunes. Havia dois jornais. O Liberal, do Romulo Maiorana, que era governo, ligado ao Alacid. A Província do Pará era ligado ao grupo do senador Jarbas Passarinho, que passou a ser uma pessoa muito influente não só na política local, mas nacionalmente. Nós, para sobrevivermos aqui, fizemos um esforço enorme para comprar uma rotativa em São Paulo. Assim nasceu o jornal: por uma necessidade de divulgar.” A primeira edição do Diário do Pará chegou às bancas em agosto de 1982. Três meses depois, Jader Barbalho foi eleito governador do estado.

Nessas circunstâncias, o jornal alternativo de Lúcio Flávio surgia como a saída natural – ainda que penosa – para quem não quisesse transigir em matéria de isenção. O jornalista defenderia que o valor do Jornal Pessoal era consequência direta da omissão dos demais veículos de comunicação. “A omissão”, declarou, “resulta de um ato de vontade.”

Rubens Valente, um dos prestigiados repórteres investigativos do país, sentiu isso na pele no início da carreira. Trabalhando num jornal de Campo Grande (MS) nos anos 1990, teve três matérias censuradas num só dia. “Reportagens prontas: ‘Essa não, essa não, essa não.’” No interior do Brasil – e, em certa medida, também nos grandes centros –, diz ele, a informação era rigidamente controlada pelos veículos, dependentes das verbas públicas e das empresas locais. “A dificuldade pra você publicar algo crítico era tremenda.”

Valente nunca conheceu Lúcio Flávio. “Lamentavelmente. Gostaria muito. Ele era uma referência no nosso curso de jornalismo lá em Campo Grande. Não que a gente o lesse – isso era 1989, não tinha internet. A razão era outra: a ideia de abrir um jornal próprio era fascinante. No interior, pra publicar uma coisinha, você não tem alternativa: é aqui ou aqui. E, quando vi, lá estava ele criando o Jornal Pessoal.”

Em certo momento da carreira, Raul Martins Bastos percorreu o país montando emissoras de televisão para a Rede Globo. “No Amapá, o governo mandava pra redação o script e as imagens já gravadas, ‘Ó, tá aqui, bota no ar’.”

Cabia a Bastos ir de praça em praça para pôr fim a esses hábitos. Em Manaus, um canal vendia matérias e posições políticas. Repórteres acumulavam as funções de garotos-propaganda e jornalistas. “Esse era o padrão. Tinha essa elasticidade.” Acontecia no Sudeste também, ressalva, “mas não nesse grau”. Lá – naquilo que Lúcio Flávio descreve ironicamente como “periferia provinciana” –, “lá era a regra”.

“E o Lúcio quebrou a regra com o jornal pequenininho dele. É isso que eu acho notável.”

No apartamento em Belém, Lúcio Flávio chega a parecer nostálgico, não do regime militar, mas da clareza com que se trabalhava naquele período. “Na ditadura, tínhamos o censor na redação. Nós sabíamos quem era o inimigo, o inimigo jantava conosco. Depois, ficou mais ambíguo.” Começava aí o tempo da autocensura.


Embora prodigiosos, os dez primeiros números do Jornal Pessoal já revelavam as limitações que passariam a determinar o trabalho de Lúcio Flávio. O jornalismo agora seria feito sem dinheiro e sem o apoio institucional de um veículo reconhecido. Um jornalismo pobre e solitário, portanto.

Isso significava, entre outras coisas, uma capacidade cada vez menor de “estar lá”. Ele mesmo diz que o grande trunfo de sua carreira foi estar, durante boa parte dela, no lugar certo, na hora certa. “Vi com meus próprios olhos os fatos mais decisivos da história contemporânea da região entre 1966 e 1996, pelo menos.”

Assim, por cerca de dez anos, de 1987 a 1996, ele ainda dispôs de meios para se locomover pela região, financiado pelas economias acumuladas no tempo dos bons empregos e dos bons salários. Em comparação com a liberdade de movimento anterior, contudo, as novas condições eram muito mais restritivas. Ele teria que aprender a ser um tipo diferente de jornalista.

Enquanto pôde, tratou bem suas fontes. Um militar, diretor do Incra, dizia que estava indo para Porto Velho. Lúcio Flávio tomava o avião, se encontravam lá, saíam para conversar e ele pagava o café.

Quando os recursos começaram a escassear, ele se adaptou. Os almoços agora tinham que ser em Belém. Fazia também pequenos agrados que não custavam nada. Conseguia notas nas colunas sociais anunciando, por exemplo, o aniversário de uma filha da fonte. A pessoa ficava grata, fornecia mais informações e, ao vê-las impressas, sentia-se importante. A vaidade sempre foi uma aliada do jornalismo.

Pouco a pouco, as circunstâncias materiais o empurraram da linha de frente para a retaguarda, enquanto o avanço sobre a fronteira amazônica se tornava cada vez mais feroz. “Virei um homem da cozinha, que escreve da redação”, explica, em seu apartamento. Quando a situação apertou de vez – “meu dinheiro só dava para ir até o Ver-o-Peso” –, passou a recorrer às fontes que tinha espalhadas por toda a Amazônia. Até que isso também acabou, pois fontes precisam ser cultivadas.

Acontece que muita coisa pode ser feita da cozinha. As reportagens sobre o escândalo do Basa e o confronto na ponte são bons exemplos: nenhuma delas exigiu deslocamento, apenas pesquisa, escrita clara e disposição para publicar.

É o caso ainda de um artigo publicado no Jornal Pessoal de janeiro de 1992 que começa assim:

Bruno Marinho de Meira Mattos se equilibrava em dois mundos distintos, que só se tocavam em tangentes invisíveis. Para o grande público, era um legítimo figurante de colunas sociais. Membro de uma das mais tradicionais famílias do Pará (os Meira), era bonito (moreno, 1,92 metro de altura, forte) e, aos 32 anos, estava cada vez mais rico. Mas poucas pessoas conheciam a origem da fortuna de Bruno: provavelmente era o mais importante “lavador” dos dólares do narcotráfico de Belém.

No segundo parágrafo, vem o crime:

Pouco depois das 18 horas do dia 10 de dezembro do ano passado, o difícil equilíbrio mantido por Bruno Meira Mattos nos últimos três anos rompeu-se. Ele nem percebeu quando uma caminhonete emparelhou com seu automóvel Gol, a 30 km de Belém, quando ele regressava de uma viagem até agora não esclarecida. Um homem apontou uma pistola de grosso calibre, provavelmente uma Magnum, e fez um único disparo. A bala penetrou na têmpora de Bruno, abriu um buraco de 2,5 cm, e saiu na altura do queixo, com um rombo de 6 cm.

O assassinato de Meira Mattos aninhava o narcotráfico nos estratos mais poderosos do estado, tema que o Jornal Pessoal tangenciara na já mencionada nota perdida numa das últimas páginas da terceira edição. Lá, falava-se somente de consumo. Agora, 78 edições depois, a droga virara negócio.

Em menos de seis meses, a casa de câmbio de Meira Mattos movimentara mais de 100 milhões de dólares, a maior parte sem registro legal. Um pequeno traficante semiletrado fora a Amsterdã num dia e voltara no dia seguinte, com passagem paga pelo dono da casa.

Lúcio Flávio informava que Meira Mattos mantinha contas em Paris, Miami, Nova York, Amsterdã, Roma, Genebra e Paramaribo – seis destinos do consumo internacional e uma cidade que servia como rota da cocaína. Às tantas, chega a dar o número de duas contas de uma casa de câmbio que ele utilizava no exterior.

O primeiro artigo de uma longa série sobre o crime abria uma janela para a expansão do narcotráfico na região amazônica, um problema que só se agravaria com o passar das décadas e para o qual a imprensa nacional só despertaria muitos anos depois. “Belém se tornou um dos mais importantes pontos de passagem da cocaína produzida na Bolívia e já começa a receber também o produto colombiano”, afirmava o Jornal Pessoal em março de 1992.

Nessa ocasião, o silêncio da imprensa não foi absoluto. O Liberal fotografou um traficante investigado pela polícia, “dando origem à única matéria que o jornal publicou” – única na semana do crime, supõe-se, já que o Jornal Pessoal faz referência a no mínimo mais um artigo sobre o assassinato noticiado no diário nas semanas seguintes.

Outro suspeito, assessor de Meira Mattos na casa de câmbio e genro de um senador da República, chegou a ser preso, mas logo foi solto em razão de “cobranças que seguidamente fizeram o senador e seu amigo, o ministro Jarbas Passarinho, amigo da família”.

Uma vez mais, os graus de separação entre o morto, os suspeitos e grandes personagens da vida local podiam ser contados nos dedos de uma mão.

A mulher do executado era sobrinha de um ex-prefeito de Belém. Seu tio era procurador da República. Num momento de aperto financeiro, Meira Mattos, juntamente com o cunhado, assaltara a casa do próprio tio, levando ouro, joias e dólares.

Ambos foram presos e, logo em seguida, soltos por interferência do ex-prefeito de Belém, parente da mulher de Meira Mattos.

Como se não bastasse, Bruno era filho do secretário de Justiça do Pará.

Era previsível, assim, que a polícia teria dificuldade para avançar sobre esse vasto universo de interesses. E que a imprensa encontraria inúmeras razões para medir cada palavra publicada. “O assassinato de Bruno Meira Mattos continua a ser um crime perfeito, mais de três meses depois de ter sido cometido”, provocava o artigo de capa do Jornal Pessoal número 86, que saiu na segunda quinzena de março de 1992.

Os motivos do crime nunca foram esclarecidos; os assassinos permanecem desconhecidos

Cinco anos depois de ter sido criado, o Jornal Pessoal seguia publicando o que outros veículos relutavam em noticiar. Seguia também em dificuldades. Aparecia lá, no pé do artigo que abria a cobertura do caso Meira Mattos: “Desde o final do mês passado estão suspensas as assinaturas do JORNAL PESSOAL. Novas assinaturas ou a renovação das já existentes serão feitas apenas fora do Pará. O jornal voltará inteiramente às bancas, como no reinício dessa fase.”

A publicação havia chegado a 1,3 mil assinantes, mas Lúcio Flávio temia não poder honrar o compromisso. “Avolumaram-se os problemas”, escreveu, e ele decidira se poupar – “e aos meus leitores fiéis” – da inadimplência. Pedia que não abandonassem o jornal simplesmente por perder a comodidade da entrega em domicílio. “Se seu leitor não é capaz de ir à banca […] então o projeto de um jornal como o JP não vale a pena.”


Simão Jatene foi três vezes governador do Pará. Lia o Jornal Pessoal? “Sim.”

Jader Barbalho? Leitor assíduo: “Considero que uma liderança política como a minha tinha a obrigação de estar bem-informado.”

José Maria Cardoso, biólogo e professor titular da Universidade de Miami, na Flórida, assinava. “Quando me mudei pra UFPE em Pernambuco, mandava o cheque pro Lúcio e ele punha no correio. Era leitura obrigatória pra quem quisesse saber o que estava acontecendo na região. Todo mundo ficava esperando.”

Rodrigo Mesquita, membro da família proprietária do Estadão e um dos fundadores do SOS Mata Atlântica, era leitor. “Recebi o jornal por anos a fio. O Lúcio mandava.”

Justiniano Netto, secretário estadual do Programa Municípios Verdes durante o segundo governo de Simão Jatene, lia regularmente o Jornal Pessoal.

A ecóloga Ima Vieira, pesquisadora do Museu Goeldi, era leitora. “O Lúcio Flávio nos mostrava que, por trás de cada projeto, de cada desmatamento, de cada conflito, existia uma complexa rede de interesses políticos e econômicos.”

O arqueólogo paulistano Eduardo Góes Neves, um dos pesquisadores que vêm redefinindo nossa compreensão da Amazônia pré-cabralina, ia atrás do último exemplar sempre que chegava à região: “Lia muito o Jornal Pessoal, que comprava nas bancas de Belém. Aprendi muito sobre a Amazônia com Lúcio Flávio. Pra mim, talvez seja o maior exemplo de dedicação a uma causa, mesmo pagando um preço alto por isso. Nunca conversei pessoalmente com ele, mas o vi falar em eventos, sempre apontando sua metralhadora giratória pra todos os lados.”

Estudante de agronomia em Belém na segunda metade dos anos 1980, o pesquisador Beto Veríssimo – um dos fundadores do Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) – não apenas lia avidamente o Jornal Pessoal, como também vendia, de forma voluntária, assinaturas da publicação a professores e servidores da universidade. “Naquele período, Lúcio Flávio Pinto era um pop star, reverenciado na cidade como o grande pensador da Amazônia”, conta, por e-mail.

O procurador da República Ubiratan Cazetta, que atuou por mais de 23 anos no MPF no Pará, não era assinante. Comprava o Jornal Pessoal nas bancas e considerava a publicação leitura essencial. A análise crítica sobre os temas da região que encontrava ali – e praticamente em nenhum outro lugar – ajudava-o “a destrinchar a complexidade das forças em jogo na Amazônia”.

Ismael Machado, o cineasta e biógrafo de Paulo Fonteles, comprava exemplares avulsos – nunca assinou: “Todo mundo lia. Eu, o professor universitário, o estudante, o pessoal da esquerda; mesmo os adversários do Lúcio o liam. Todos na política o liam. A classe sindical. Os artistas.”

Para uma geração crescida nos anos 1980, 1990 e 2000, explica Machado, era impossível – “impossível”, repete – não ter Lúcio Flávio e o Jornal Pessoal como referências. “A gente lia pra entender o que estava por trás dos fatos.”

“Lia sim”, responde Rosângela Maiorana. “Tinha que ler, né? O Lúcio era leitura obrigatória pra quem queria saber sobre a Amazônia.”

Mauro O’ de Almeida, o ex-secretário de Meio Ambiente do Pará, não perdia um número. “Eu era colecionador.” Num restaurante em Brasília, ele percorre a memória: os primeiros escândalos do governo Jader; os episódios de corrupção da administração de Hélio Gueiros; o massacre de Eldorado do Carajás e o protesto na ponte em Marabá, desobstruída à força por Gueiros; o Projeto Carajás; os governos Almir Gabriel e Jader II; a morte de Bruno Meira Mattos, “o filho de grã-finos que assaltou a casa do próprio tio e se meteu com lavagem de dinheiro do tráfico”.

Faz uma pausa e, ainda espantado, conclui: “Tudo isso eu li no Jornal Pessoal.”

O Jornal Pessoal – cuja coleção quase completa está disponível no site da Universidade da Flórida – desempenhou um papel tão marcante na imaginação de certos leitores que, com o correr dos anos, toda grande investigação jornalística feita na região passou a ser atribuída a ele.

O fotógrafo Luiz Braga – autor da imagem que ilustra este perfil, e cuja obra, uma das mais belas da fotografia brasileira, é quase inteiramente dedicada ao Pará – era assinante do jornal e tem profunda admiração por Lúcio Flávio. “O mergulho dele na Amazônia, ninguém fez igual. Se tivesse tomado o Ita do Norte” – se tivesse ido para o Sul em busca de uma carreira no Rio ou em São Paulo –, “todo mundo saberia quem ele é. Teria reconhecimento nacional. Mas decidiu ficar.”

Braga recomenda um contato com o geólogo Breno Augusto dos Santos, descobridor, em 1967, da província minerária de Carajás, a maior mina de ferro a céu aberto do mundo. “Foi o Lúcio que deu o furo.”

A fama local de Lúcio Flávio é tamanha que mesmo grandes conhecedores da região – e Braga certamente é um dos maiores – lhe atribuem furos que ele nunca deu e tampouco reivindica ter dado. Quando Carajás foi descoberta, o jornalista tinha apenas 17 anos e mal começara a pegar no batente. É a reação natural de toda uma comunidade de admiradores do Jornal Pessoal: se é importante, diz a memória, então foi publicado ali.

A dedicação de décadas a uma só região produziu uma mirada de quem vê do alto, identifica os movimentos e liga os pontos. Uma visão de grande-angular. “Ele tem o olhar do cientista social”, diz Fabiano Maisonnave, jornalista que cobre clima e Amazônia para a Bloomberg e que, por anos, foi correspondente da Folha de S.Paulo em Manaus. “Ele entende as forças em disputa, o que está em jogo.”

O sociólogo José de Souza Martins concorda. Pesquisador da imigração, do campo, do trabalho, da religião e das formas modernas de servidão, conheceu Lúcio Flávio durante pesquisas na Amazônia. “Ele é excepcional como jornalista”, diz, na sala de sua casa em São Bernardo do Campo. “Faz um jornalismo com cunho de ciências sociais” – resultado da formação na mesma faculdade da USP de que Martins é professor emérito – “e isso lhe dá uma visão que o jornalista de redação não tem.”

É de Martins uma das mais breves e precisas apreciações do trabalho de Lúcio Flávio, um parágrafo na folha de rosto de um dos livros do jornalista:

Lúcio Flávio Pinto é tido, com justa razão, como um dos melhores conhecedores dos problemas sociais, políticos e econômicos da Amazônia e escreve diariamente há vários anos. O seu conhecimento do mundo amazônico é íntimo, pessoal, direto. Ele desenvolve uma modalidade de jornalismo que poderia ser definida como jornalismo social, o jornalismo que envolve um certo dimensionamento sociológico da notícia, do fato, do acontecimento. Com frequência, ele tem documentado acontecimentos que ficariam fora do registro historiográfico elitista que provém da nossa herança cultural e que ainda nos sufoca. Muitas vezes ele tem levado para o texto escrito e a página impressa a voz e a situação dos subalternos, dos lavradores pobres do sertão, dos peões vendidos e comprados como escravos. Por trás do seu trabalho existe uma viva concepção de História.

O Jornal Pessoal nunca rompeu a barreira que separa os veículos de nicho das publicações lidas pelo grande público. Nunca, nem no seu auge, chegou a ter mais que 1,3 mil assinantes, número que parece acanhado até Lúcio Flávio observar que, na mesma época, O Liberal somava por volta de oitocentas assinaturas – embora, claro, vendesse bem mais nas bancas. (Rosângela Maiorana não se recorda do número preciso de assinantes, mas estima que esse número fosse bem maior, na casa de alguns milhares.)

Jader Barbalho sustenta que a publicação não exercia influência significativa sobre a sociedade em geral; tinha, isso sim, “influência junto a uma elite que queria estar bem-informada”.

Essa influência se mede não apenas pelos afagos que o Jornal Pessoal recebia, mas também pelas caneladas, xingamentos, insultos, processos e, em ao menos dois casos, pela agressão física que tiveram como alvo o seu fundador.

No elenco de adversários de Lúcio Flávio, Jader Barbalho sobressai pelo comedimento. Não se tem notícia de que tenha feito algum ataque ao jornalista. Ao falar dele, é só elogios, o que pode ser sincero, politicamente astuto ou ambos.

Jarbas Passarinho é outra história. “Foi com Passarinho que travei a maior quantidade de polêmicas ao longo de minha vida, algumas delas cruentas”, escreveu Lúcio Flávio.

Cruentas e, até certo ponto, divertidas. A razão é que as polêmicas nunca extrapolaram os limites do debate de ideias e, mais importante, jamais descambaram – por parte de Passarinho – para ameaças de recorrer ao arbítrio para silenciar o oponente. O que não é pouco, em se tratando de um militar, político de expressão no Pará, signatário do AI-5 e autor da famosa frase que acompanhou o ato de exceção: “Às favas, senhor presidente, neste momento, todos os escrúpulos de consciência.”

Numa resenha do livro de memórias de Passarinho, Lúcio Flávio acusou-o de ter defendido a censura e atacado “um dos mais sagrados direitos da civilização”, a liberdade de imprensa. O velho coronel do Exército respondeu com uma carta que o jornalista publicou na íntegra no Jornal Pessoal, cedendo a seu crítico uma página inteira de sua publicação.

Para se defender, Passarinho convoca Raymond Aron, De Gaulle, Jefferson e Aldous Huxley. Começa manso: “Em 1968 travávamos uma guerra civil não declarada. As informações que seriam úteis aos guerrilheiros e terroristas deviam ser-lhes subtraídas do conhecimento.” Segue filosófico: “Este é o meu pensamento sobre a imprensa: quero-a livre, mas usando a liberdade com a contrapartida da responsabilidade.”

E então cai na galhofa. “Citas Jefferson, cometendo erro”, ensina, para logo aconselhar: “É bom rever os cadernos de aula do secundário, do mesmo modo que convém perguntar a um professor de direito constitucional o que distingue o referendo do plebiscito.”

Animado pelo novo tom, adota a estratégia do jiu-jítsu, utilizando as armas de Lúcio Flávio contra Lúcio Flávio. “Tu me dizes vítima de ‘síndrome de perseguição’ e de ter a inteligência obnubilada pela vaidade. Quanto a esta, já diz o velho brocado que ‘o bom julgador julga os outros por si’… Vaidosíssimo, estavas te olhando no espelho quando escreveste sobre a vaidade.”

Conclui calçando a pena com luva de pelica:

Já vai longa esta carta. Receio abusar do teu espaço, que em conduta jornalística louvável me concedes. Reafirmo as divergências contigo, do mesmo modo que renovo o apreço ao talentoso jornalista que, como Carlos Lacerda, sentiu a necessidade de ter um jornal próprio, certamente porque a sua personalidade assim o exige, mas é a mim que chamas de vaidoso e teimoso…

Lúcio Flávio devolve na mesma moeda. Melhor dizendo, dobra a aposta, já que sua resposta é duas vezes mais longa que a de Passarinho. Se nas reportagens não usava a primeira pessoa do singular, nessas polêmicas é o “eu” que impera.

Primeiro, se explica: “Não fiz este Jornal Pessoal para que meu nome ficasse no alto da primeira página […]. O jornal surgiu para publicar o que nenhum outro órgão da grande imprensa quis divulgar sobre o assassinato do ex-deputado Paulo Fonteles.”

Em seguida, contesta: “Que guerra é essa que leva o governo a censurar notícias sobre a maior epidemia urbana de meningite no mundo, que eclodiu em São Paulo em 1973?” Que razão de Estado justificaria a censura a notícias sobre “o uso especulativo de informações privilegiadas do governo para ganhar montões de dinheiro na Bolsa de Valores?”.

Mais adiante, acusa, imputando ao homem forte do Pará o pecado mais grave que conhece: o de não ser suficientemente amazônida.

Passarinho sempre se manteve mais próximo do Brasil do que do Pará. Funcionou mais como um cônsul (no sentido da antiga Roma) do planalto do que um representante da planície. Trazia ordens; uma vez ou outra levava reivindicações. Fez nome como um privilegiado tribuno na corte, adulado, bajulado e invejado por suas qualidades inquestionáveis. Mas pouco fez para que o hinterland não se cristalizasse como colônia.

E, como nunca deixa barato, encerra espetando o dedo no olho do interlocutor com a mesma elegância que o outro empregara para lhe dar a canelada final:

Por fim, senador […] parabéns pelos avanços formais desta sua carta. Mesmo assim, deve-me melhorias que nela introduzi com a redigitação de tudo. Um dia haveremos de acertar nossas contas pendentes; se possível, sempre de público – e com esse nível de civilidade que tanto me faz bem, e, espero, também ao distinto público, nesta terra de rasteiras & gueiradas.

P.S.: Da próxima vez, use mais pontos, parágrafos e períodos mais curtos. Nem todos têm os pulmões de um Maiakóvski para poder apreciar adequadamente seu estilo. Penhorado, agradeço.

O governador Hélio Gueiros optou por um registro, digamos, mais muscular. Em 1991, Jader Barbalho – de quem Gueiros havia sido aliado e com quem agora estava rompido – o sucede no governo do Pará. Um mês após a passagem de poder, Lúcio Flávio é convocado pela Província do Pará para entrevistar o novo mandatário, que lhe diz ter o antecessor deixado os cofres do estado à míngua.

Dias depois da publicação da entrevista, o jornalista recebe uma carta de Gueiros. A partir daqui, convém tirar as crianças da sala.

Lúcio Flávio,

Por que tu não vais chupar o cu da puta que te pariu?

Sabia que tu eras filho da puta. Sabia que quem te emprestou o sobrenome era um bandido. Sabia que és corno manso. Sabia que és frequentador habitual dos hospícios. Mas não sabia – confesso – que agora estás cooptado pela pica do Jader fazendo concorrência à corte dos eunucos que lhe (sic) cercam.

Ainda hoje Lúcio Flávio se espanta: “Seguia assim. Eram 56 palavrões xingando a mamãe.”

Na verdade, 26 palavrões, mas mesmo assim…

Gueiros de fato não havia deixado nenhum palavrão no fundo da gaveta. Curiosamente, era a um colega que se dirigia, pois, antes da política, tivera sucesso como jornalista “de mente atilada” e “raciocínio rápido”, segundo o próprio Lúcio Flávio. Um tipo irônico e de boa verve, desses que são bons para se ter numa mesa de botequim.

A carta havia sido entregue a um intermediário, com ordens para que a encaminhasse a Lúcio Flávio. Ao ler o que teria que passar adiante, o pobre homem ficou lívido e ligou para o ex-governador para confirmar: era aquilo mesmo? Do outro lado da linha, Gueiros não titubeou: “Eu não estou me defendendo. Eu quero é ofender.”

Disso, não havia dúvida. A carta terminava assim:

Era o que eu tinha a te dizer, seu crápula. Não adianta fingir que não recebeste nem leste esta porque estou tirando xerox em abundância para distribuir aos teus leitores.

E antes que me esqueça de repetir: por que tu não vais chupar o rabo e a boceta da puta que te pariu.

18.04.91 Hélio Gueiros

O ex-governador – e futuro prefeito de Belém daí a dois anos – não precisava ter se preocupado com a xerox. Talvez por considerar o texto impróprio para o seu Jornal Pessoal, Lúcio Flávio ressuscitou uma publicação alternativa que criara anos antes, o Bandeira 3. Em seu único número dessa versão rediviva, o tabloide reproduziu, para horror de uns e gáudio de outros, cada uma das 65 linhas da carta. Foi um sucesso.

A capa trazia uma advertência ao leitor, letras brancas sobre fundo preto, começando logo abaixo do título e descendo até o pé da página. Lembrava uma lápide.

Era um ippon. As obscenidades se colariam como velcro ao ex-governador.

Hélio Gueiros passou anos sem comentar a carta que o perseguiria até a morte, em 2011. No Pará, basta mencionar seu nome para que o assunto venha à tona. Para uns, ele é o autor da “carta cheia de palavrões”; para outros, “da carta mais pornográfica da história”.

Com o tempo, o próprio Gueiros acabaria por concordar com o veredicto geral. Quando, muitos anos depois, decidiu finalmente se pronunciar, registrou: “Poderia escrever um tratado de mil páginas tentando explicar a minha reação, mas não adianta nada. Não se pode nem se deve justificar o injustificável.”


Existem profissões cujo exercício leva à formulação da dúvida: será que sou um covarde? O jornalismo, de acordo com Lúcio Flávio, é uma delas. Mais dia, menos dia, o teste virá, e o repórter – sobretudo aquele que está na linha de frente – terá que dar a resposta.

Em janeiro de 2005, ele publicou no Jornal Pessoal um artigo intitulado O rei da quitanda, uma apreciação das Organizações Romulo Maiorana, proprietárias de seu antigo empregador, o jornal O Liberal, e da TV Liberal, afiliada local da Rede Globo.

Romulo Maiorana, fundador do império e protetor de Lúcio Flávio, morrera havia dezoito anos; os negócios agora eram conduzidos pelos herdeiros, sob a liderança de Romulo Maiorana Júnior.

O artigo era devastador desde o primeiro parágrafo:

O poder de Romulo Maiorana Júnior, o principal executivo do maior grupo de comunicação do Norte do país, contrasta com a situação de um estado destituído de informação, de opinião e de posição. O Grupo Liberal é mais poderoso do que o estado no qual atua. Mais do que um título, esse é um epitáfio: o que lhe dá força é o que enfraquece o Pará.

A parte inicial do texto se dedicava a traçar um retrato não exatamente lisonjeiro do herdeiro do pai. “Rominho é jornalista, mas nenhum dos editoriais bissextos publicados em O Liberal com sua assinatura foi escrito por ele. Falta-lhe a mais remota das intimidades com as artes e ofícios do jornalismo.”

De tão suntuoso, seu gabinete não teria paralelo com o de nenhum outro publisher do país: “do tamanho de um latifúndio – e com o mesmo significado etimológico: muito espaço para pouco uso.”

Até aí, o sarcasmo poderia ser descartado como o desabafo de um guerrilheiro da imprensa nanica, que despejava seu ressentimento contra o figurão da grande mídia. O que vinha depois, porém – a parte substantiva do artigo –, era de outra natureza. O Jornal Pessoal denunciava o uso do poder conferido pela imprensa para a prática da extorsão.

“Muitos temem mais do que admiram o Grupo Liberal”, afirmava. A Vale, o Banco da Amazônia, o governador do estado – segundo Lúcio Flávio, todos tinham boas razões para não desagradar o grupo:

Nos momentos em que se negou a comparecer ao caixa da corporação para atender a cobrança feita, a Companhia Vale do Rio Doce, a maior empresa em atividade no estado, foi vítima de campanhas sistemáticas e transformada no inimigo público número 1 do Pará. Quando se curvou, recebeu os afagos devidos.

O Basa foi ameaçado com escândalos anunciados por ter veiculado apenas meia página de balanço, que coube em três páginas do concorrente. Mas quando publicou integralmente o balanço seguinte, as operações nebulosas ficaram subitamente solares e nunca mais se falou nisso.

O nome de Jader [Barbalho] sumiu do noticiário da corporação. Mesmo ao tomar posse do maior cargo público do estado, não recuperou seu nome: foi referido, em página interna, como ‘o governador’. Com os primeiros anúncios legais (os editais), recuperou o nome próprio. Com os anúncios institucionais, foi conquistando, sucessivamente, foto, primeira página e a anistia incondicional. O ladrão da véspera virara, ao som das caixas registradoras em fúria, o estadista do dia.

“Em linguagem de rua, chantagem”, concluía o artigo. O negócio da imprensa tinha virado uma quitanda, e a informação era tratada como banana.

Quatro dias depois, Lúcio Flávio almoçava com um grupo de amigos num restaurante quando sentiu um tapa nas costas. “Queres apanhar de pé ou sentado?”, perguntou a voz. Era Ronaldo Maiorana, 37 anos, irmão de Romulo e diretor-editor corporativo do Liberal.

Conforme o relato publicado na imprensa no dia seguinte, Maiorana aplicou uma gravata no jornalista e o atirou no chão. Dois seguranças, um sargento e um subtenente da PM, vieram em seu auxílio – auxílio dele, Maiorana –, e os três passaram a espancá-lo. Enquanto batia, Maiorana o ameaçou de morte. Um companheiro de Lúcio Flávio levantou-se para tentar ajudá-lo, mas foi empurrado e, no chão, pisoteado pelos seguranças.

A Ordem dos Advogados do Brasil, a Associação Brasileira de Imprensa e o Sindicato dos Jornalistas do Pará – do qual Lúcio Flávio fora presidente em 1978 – manifestaram-se por meio de notas e atos de desagravo.

Há uma fotografia em que ele aparece diante de uma plateia, tendo aos pés, estendida de ponta a ponta do palco, uma faixa em que se lê: PELO FIM DA PERSEGUIÇÃO POLÍTICA DO JORNALISTA LÚCIO FLÁVIO PINTO.

Nos dias que se seguiram, O Liberal, o veículo mais lido da região, não publicou uma linha a respeito do episódio. A emissora do grupo, tampouco. Quem quis notícias sobre a agressão, teve que recorrer ao Diário do Pará, a publicação de Jader Barbalho. (Sendo quinzenal, o Jornal Pessoal não tinha como informar o público imediatamente após o ocorrido.)

O Liberal ainda tentou suspender as colunas de Elio Gaspari e Míriam Leitão, que eram ali reproduzidas. Ambos mencionavam o episódio. É Lúcio Flávio quem conta: “O diretor de redação do Liberal ligou para O Globo para avisar que não iam publicar, porque o caso envolvia um diretor do jornal. Aí meu grande amigo José Casado, do Globo, respondeu: ‘Olha, se não publicarem, vão perder tudo da Globo.’” Míriam Leitão anunciou que, se fosse censurada, renunciaria a um prêmio internacional prestigioso para o qual fora indicada e proporia, em seu lugar, o nome de Lúcio Flávio. As colunas acabaram sendo publicadas.

Lúcio Flávio registrou boletim de ocorrência na polícia. O Ministério Público apresentou a denúncia e Maiorana foi condenado por lesão corporal. “Teve que pagar umas cestas básicas”, diz o jornalista.

“Eu já tive várias oportunidades de ser covarde”, relata Lúcio Flávio, pensando no episódio. Não foi a primeira vez que ele sofreu agressões e ameaças. “De vez em quando ele apanhava por aí”, comenta o advogado da União Mauro O’ de Almeida.

No início dos anos 1990, o advogado Calilo Kzam Neto o agrediu na entrada do Fórum de Belém, diante de testemunhas. Veio por trás, apanhou-o de surpresa e, imobilizando-o com uma chave de braço, ameaçou-o de morte. O jornalista escreve que, ao largá-lo, o advogado subiu as escadas do Fórum e, do alto, gritou que lhe daria um tiro se o visse novamente.

“Impressionante, o cara era faixa preta de uma dessas lutas marciais”, lembra Mauro O’ de Almeida. “A desproporção física entre nós dois é brutal”, admitiu Lúcio Flávio no Jornal Pessoal. Se tivesse que ir para a pancadaria com Kzam Neto, “eu me sairia tão mal quanto ele (pudesse eu escolher as armas de combate), se, por exemplo, o forçasse a ler Grande sertão: veredas completo, de uma só vez”.

Mais tarde, o agressor alegou ter agido por forte emoção, em defesa da mãe de seus filhos.

Kzam Neto era casado com Rosângela Maiorana. Àquela altura, Lúcio Flávio já havia começado a publicar os artigos críticos sobre seus antigos empregadores.

A esses episódios de violência, ele reagiu com as armas de que dispunha – essencialmente, seu pequeno jornal. Seguiu publicando o que julgava relevante. A única mudança foi que passou a evitar sair à noite.

É exagero dizer que “de vez em quando ele apanhava por aí”, já que se contam duas agressões físicas, o que já é demais, mas não chega a configurar um hábito. Ainda assim, a formulação dá a medida de como os leitores do Jornal Pessoal imaginavam a sua vida: a de um jornalista solitário que não se intimidava diante de personagens extraordinariamente mais poderosos que ele.

Depois de cada um desses ataques, foi à delegacia, registrou o B.O. e seguiu para o IML. Acredita que é importante nunca voltar para casa como um covarde.

Os casos de delegacia talvez fossem os mais fáceis de resolver. Os mais difíceis, pelo tanto que exigiram de tempo, dinheiro e luta, foram os embates legais. Em 1976, Lúcio Flávio foi enquadrado na Lei de Segurança Nacional, “acusado de tentar jogar o povo contra as autoridades”. E, muito antes de o termo lawfare entrar para o léxico – esse uso estratégico do sistema jurídico para desestabilizar adversários inconvenientes –, ele já era uma de suas vítimas.

Ao longo da carreira, respondeu a 34 processos, 19 deles promovidos pelo Grupo Liberal. Foi processado por madeireiros, empresários e desembargadores. Pela direita (Delegado Éder Mauro, deputado bolsonarista) e pela esquerda (Edmilson Rodrigues, prefeito de Belém por três mandatos pelo PT e Psol).

Em 2005, o Washington Post o incluiu num editorial intitulado Jornalistas ameaçados. Ao comentar a sua ausência na cerimônia de entrega, em Nova York, do International Press Freedom Awards – prêmio do qual era um dos quatro laureados –, o jornal registrou: “Ele não está na prisão, mas empresários corruptos e autoridades locais sobre os quais escreve moveram contra ele tantos processos intimidatórios que ele não ousa sair de casa: uma única ausência em audiência daria às autoridades o pretexto para colocá-lo na cadeia, segundo o Committee to Protect Journalists (Comitê de proteção aos jornalistas)”, entidade que confere o prêmio.

Em 2013, uma publicação da Associação Brasileira de Imprensa o descreveu como o jornalista mais perseguido do país.

Lúcio Flávio obteve ganho de causa na maioria dos casos, tendo perdido somente dois. Um deles, contra Romulo Maiorana Júnior e Ronaldo Maiorana, aquele mesmo que o agredira. Na ação movida pelos irmãos, o jornalista foi condenado por ter ofendido a memória do patriarca ao escrever – no artigo que levara Ronaldo Maiorana a agir com violência – que o império fora construído com recursos advindos de “negócios escusos”. No caso, contrabando.

“É compreensível que os herdeiros de Romulo Maiorana não queiram tratar de questões incômodas da sua biografia, exaltando apenas os seus feitos, que não foram poucos”, escreveria Lúcio Flávio mais tarde. As nódoas da biografia do fundador do grupo eram o que eram, o que não eliminava o fato de que “o saldo é favorável tanto a ele como à sociedade. Essas nódoas passaram a ser marcas da história e, como tal, devem ser assim consideradas”.

Tais sutilezas passaram ao largo da sentença. A notícia foi tida como injuriosa, difamatória e mentirosa. Em 2009, o juiz determinou que o réu pagasse 30 mil reais aos irmãos, cerca de 75 mil em valores atuais.

O segundo processo em que foi derrotado lhe custaria mais caro e envolveria interesses ainda maiores. Lúcio Flávio decidira investigar o maior grileiro do Brasil.


Em 1993, o empresário Cecílio do Rego Almeida, dono da empreiteira CR Almeida – uma das quatro maiores do país na época –, foi entrevistado no Roda Viva. Poucas vezes a cenografia do programa se mostrou tão apropriada. No centro da arena, o empresário se comportou como um gladiador no Coliseu, tratando cada jornalista como um inimigo a ser deixado no chão, de preferência sangrando.

“O senhor está cometendo um erro totalmente absurdo”; “É desnecessária essa pergunta”; “A senhora comete um erro brutal em dizer isso”; “Veja o absurdo que o senhor está dizendo”; “A senhora está brincando…”; “Vou processá-la! Vou processá-la!”.

Compacto feito um frigobar, bronzeado como um estilista italiano e beligerante como um Gracie irritado, Almeida estava ali para se defender de acusações – já em 1993 – de envolvimento das empreiteiras em esquemas de corrupção e licitações fraudulentas.

Três anos depois, em abril de 1996, uma notícia surgia no pé da página 4 do Jornal Pessoal. Problema à vista, dizia a manchete. Referia-se ao possível cancelamento, pela Justiça, das matrículas imobiliárias de uma propriedade com 4,7 milhões de hectares, área do tamanho da Holanda, localizada no Vale do Xingu.

O artigo informava que, não obstante os registros efetuados no cartório de Altamira, o domínio privado das glebas não estava demonstrado. “Provavelmente, trata-se de uma grilagem de terras devolutas, feita grosseiramente.”

A propriedade, chamada Fazenda Curuá, fora comprada havia pouco, “por um preço vil”, pela Rondon Agropecuária, de Cecílio do Rego Almeida, que a adquirira de um grupo local. Paraense de nascença, mas com vida profissional construída no Paraná, o empresário voltava agora para a sua terra depois de “colocar os olhos nesse mundo de águas, florestas, solos e animais”, como revelou o Jornal Pessoal.

Apesar da posse incerta, ele já começara a tomar providências: “O empresário Cecílio Almeida, aliás, anunciou que contratara jagunços para retirar todos os ocupantes das terras, que considera suas, parcialmente superpostas a uma reserva indígena (Baú/Menkragnoti) e a um campo militar (do Cachimbo).”

Ao longo da década seguinte, Lúcio Flávio combateria incansavelmente a fraude nas páginas do Jornal Pessoal. Aquelas eram terras extraordinariamente ricas, pois ali ainda subsistia a maior floresta nativa do estado, além de minérios e outros recursos naturais.

Especuladores de terra, grileiros, extratores de madeira e outros personagens estão se apoderando dessa região, enquanto o suposto proprietário, fiscal e gerente, o Estado, mantém-se congelado. Cecílio Rego de Almeida [sic] é apenas o mais audacioso, esperto e articulado desses piratas fundiários.

O empenho de Lúcio Flávio contra Rego Almeida foi tão absoluto que, durante seis meses, ele deixou de ser repórter para se tornar ativista, embaralhando a fronteira entre uma coisa e outra. Pulou para o outro lado do balcão e prestou consultoria ao órgão fundiário do estado do Pará, Iterpa, ajudando-o a identificar o estelionato fundiário e a cancelar os registros das terras usurpadas.

Denunciado por pessoas ligadas a Rego Almeida, não escondeu o fato. Informou quanto havia recebido (2 mil reais líquidos por mês, 11,6 mil reais em valores de hoje), por quantos meses trabalhara, e voltava a se referir ao empreiteiro como “um autêntico pirata fundiário”.

Foi a expressão que o quebrou.

Em maio de 1999, os leitores do Jornal Pessoal puderam ler: “O empresário Cecílio do Rego Almeida, o polêmico proprietário da construtora CR Almeida, decidiu me processar. Diz ele […] que eu o caluniei, difamei, injuriei através de um artigo publicado na edição 203 deste jornal, da 2ª quinzena de janeiro.”

O empresário acusava o jornalista de tê-lo chamado de pirata – era esse o crime. Numa entrevista concedida em 2005 à revista Caros Amigos, Almeida falou sobre a Fazenda Curuá – “Faz dez anos que comprei essa merda lá no Pará” – e sobre os processos que movia contra funcionários do Iterpa e contra Lúcio Flávio: “Foi a maneira que encontrei de calar a boca desses filhos da puta. Tem também um merda de um jornalzinho de lá chamado Jornal Pessoal. Esse eu também processei. Tá no bico pra ser preso.”

Rego Almeida não era um adversário qualquer. Considerado um dos homens mais ricos do país, era bem conectado politicamente – tinha um irmão senador pelo Amapá – e temido. Uma lista de delitos compilada pela revista Carta Capital na época da entrevista incluía denúncias de fraudes, subornos, sonegação de impostos, espionagem, grampos telefônicos, cárcere privado – no caso, do repórter Policarpo Junior, da Veja –, grilagem de terras, agressões e ameaças de morte.

Naquele mesmo ano da entrevista de Rego Almeida, 2005, Lúcio Flávio foi condenado pela Justiça do Pará a pagar uma indenização de 30 mil reais ao empreiteiro, cerca de 90 mil em valores atualizados, soma de que o jornalista não dispunha.

Ele recorreu da decisão. Àquela altura, já havia se indisposto com boa parte do Judiciário estadual, cujas deliberações vinham favorecendo Rego Almeida. Dois desembargadores do Tribunal de Justiça do estado não gostaram das críticas feitas a eles pelo Jornal Pessoal e também processaram Lúcio Flávio.

“Bandidos de toga”, classificou-os o Jornal Pessoal. Em 2012, quando chegou a hora do desfecho do caso Rego Almeida – que nem vivo estava mais, tendo morrido três anos antes –, poucos devem ter se espantado com a confirmação da condenação.

Numa manobra capciosa, a sentença foi proferida por um juiz interino, que substituía o titular. Ele recebeu a ação de mais de quatrocentas páginas e, em 48 horas, deu o veredicto. À Folha de S.Paulo, confirmou não ter lido todo o processo: “O que um juiz precisa além de ler a reportagem?”

“Considero minha condenação um ato político”, decretou Lúcio Flávio. “Um escabroso crime político.”

O juiz – convém chamar pelo nome: Amílcar Guimarães, hoje desembargador – foi às redes sociais dizer que tinha pensado em “dar sopapos” no jornalista, a quem chamou de “canalha”. Não contente, acrescentou: “Eu quero me aposentar. Bem que esse otário do Lúcio Flávio Pinto poderia fazer uma reclamação no CNJ. Juro que não me defendo e aceito a aposentadoria agora. Me ajuda, babaca.” E arrematou, num dos grandes momentos da história jurídica brasileira: “Pensei em processá-lo judicialmente, mas não confio na Justiça.”

Lúcio Flávio poderia ter recorrido à instância federal, mas desistiu. “Não tenho dinheiro para sustentar uma representação desse porte. Muito menos para arcar com a indenização que me foi imputada”, escreveu. Fez uma vaquinha pela internet, conseguiu o valor da condenação e o depositou em juízo. Da última vez que o jornalista checou, o dinheiro não havia sido retirado pelos herdeiros de Cecílio do Rego Almeida.

Enquanto os processos contra o jornalista corriam no estado, a investigação sobre o estelionato fundiário tomava outro rumo. O Judiciário do Pará perdeu a jurisdição sobre o caso, que foi deslocado para a competência da Justiça Federal.

Em novembro de 2011, o Jornal Pessoal anunciou: “A maior propriedade rural do mundo deixou de existir legalmente na semana passada. O juiz Hugo Gama Filho, da 9ª Vara da Justiça Federal em Belém, mandou cancelar o registro imobiliário da Fazenda Curuá, que consta dos assentamentos do cartório de Altamira, no Pará.”

A Polícia Federal tinha comprovado a fraude. Além de decretar a nulidade da posse, o juiz determinou a devolução das terras “às comunidades indígenas nas áreas de reserva indígena que se encontram habitadas por não indígenas”. Em cerimônia pública, procuradores do Ministério Público Federal declararam que os dados levantados pelo Iterpa e os artigos no Jornal Pessoal haviam sido fundamentais para o cancelamento do registro da propriedade.


“Como é que um jornalzinho pequenininho feito por uma pessoa só consegue mexer em interesses desse tamanho?”, se pergunta Raul Martins Bastos, referindo-se ao caso fundiário. “Aquilo era uma irregularidade tão grande, uma roubalheira tão imensa, que a minha perplexidade era outra: como nenhum jornal, de lá ou de cá, tratava do assunto? Porque a notícia devia correr… E era ele sozinho.”

Não é pouca coisa ter desempenhado um papel decisivo na devolução de uma Holanda ao patrimônio público da nação. A justa vaidade pelo feito reavivava o ânimo, mas logo adiante vinha uma nova batalha, e depois outra, como alguém preso na arrebentação, sendo golpeado na cabeça por uma bateria cada vez maior de ondas.

Rego Almeida, essa figura “sem limites” e “meio repulsiva”, na avaliação de Bastos, perdera para Lúcio Flávio na causa maior. No embate pessoal, porém, acabou vencendo. O custo não foi apenas financeiro, mas também espiritual e físico.

Brigar sempre, o tempo todo, exaure. Precisar se defender, sexagenário e septuagenário, em diferentes instâncias e contra os mais variados tipos de adversário, destrói. “Eu me sinto muito só”, diz Lúcio Flávio, em sua poltrona. “Sempre sacrifiquei as minhas amizades”, admite, o que não deixa de ser um dos deveres do bom jornalismo.

A longa briga com Rego Almeida abriu o flanco para uma última querela com o jornalismo. “Onde antes havia um cidadão culto, dono de um texto excelente, raciocínio rápido e afiado”, escreve ele a respeito do jornalista Evandro de Oliveira Bastos, restava agora apenas mais um adversário – alguém convertido em “uma pena de aluguel”.

Era mais uma rusga pública, estampada, como de hábito, nas edições do Jornal Pessoal. Oliveira Bastos trocara a redação dos jornais pelas salas executivas da empreiteira de Rego Almeida, onde assumira o cargo de relações-públicas. No Liberal, defendia o direito do novo patrão às terras do Vale do Xingu.

Evidentemente, tornou-se alvo de críticas no Jornal Pessoal. Reagiu enviando a Lúcio Flávio uma carta em termos que não poderiam ser mais duros. Acusava o Iterpa de estimular a tensão no entorno da propriedade, o que poderia resultar em massacre. O órgão estaria atiçando “contra nós” as Erínias – “fúrias ou demônios enfurecidos”, explicava, didático, fazendo um desvio por Orestes, Minerva, Apolo, Freud e Sartre.

Expostos os argumentos em favor de Rego Almeida, Oliveira Bastos voltava sua artilharia – um arsenal cujo uso, sem dúvida, dominava – contra o responsável pelo Jornal Pessoal. “Saiba que sempre tive patrões”, informava, rebatendo a acusação de que vendera sua integridade. “O que eu acho estranho”, emendava, “é alguém, como você, se fazer de independente e ficar solicitando a compaixão da sociedade como se esta devesse remunerar, de alguma forma, o seu sacrifício voluntário. Lúcio, não dá pra ser mártir e barnabé ao mesmo tempo.”

Era uma referência à consultoria prestada ao Iterpa. Ele sustentava que a palavra grileiro, tantas vezes empregada no Jornal Pessoal para aludir ao empreiteiro, só entrava nos textos por encomenda do órgão. “É a forma de pagar as propinas com que o Iterpa da administração Lamarão te beneficiou?”

Numa frase terrível, descrevia a relação como sinal “do mau cheiro da cumplicidade financeira com sua fonte – de notícias e de renda”. E qualificava a condição do criador do jornal como a de um “martírio bem remunerado”.

Bem remunerado, decerto, não era. Mas a ideia do martírio começava a ser incorporada por Lúcio Flávio.  Ele seguia em frente, “apesar de todas essas ações e do martírio que elas criaram na minha vida nestes últimos vinte anos”, escreveu em 2012, referindo-se aos processos do passado e do presente. Amílcar Guimarães, o juiz que o havia ameaçado de sopapos, designou-o como “a irmã Dorothy do jornalismo paraense”, numa alusão à missionária Dorothy Stang, assassinada no Pará em 2005.

O próprio Jornal Pessoal, ao qual Lúcio Flávio, em suas palavras, dedicara-se “missionariamente”, consistia, desde a origem – e os leitores eram regularmente informados disso –, num projeto que exigia sacrifícios. Ao recusar anúncios, patrocínio ou o apoio de qualquer mecenas, o projeto encarnava “a opção total […] pela pobreza”.

Em certos momentos, diante da multiplicação de ações movidas contra ele, Lúcio Flávio se compara a Josef K., personagem de O processo, de Kafka; em outros, a um Prometeu amazônico, atado “a essa rocha de suplícios”. Escreve que nem a saúde cada vez mais frágil – agravada pela chegada do Parkinson – o fez desistir: “Era hora de parar tudo. Mas não parei. Embora cada vez mais isolado, abandonado, ignorado.”

“Ele nunca saiu da trincheira”, diz Fabiano Maisonnave, da Bloomberg. “Outros saíram. E ele pagou o preço. Ele se martiriza – e é verdade, porque ele é um mártir. Não tem nada parecido na Amazônia.”

Maisonnave, que já foi criticado por Lúcio Flávio num episódio envolvendo a mineradora Hydro e a Rede Globo – “Lúcio tinha razão” –, considera que a própria coerência do personagem faz parte do martírio. Estar certo e sozinho tem um quê de profeta no deserto.

Em várias ocasiões, o Jornal Pessoal foi mesmo profético. Nas primeiras linhas de um artigo publicado na edição de junho de 2004 dizia: “A missionária americana Dorothy Stang é uma radical: já dedicou quase metade dos seus 73 anos de vida a defender a parte fraca na história da Transamazônica, em cujas margens se instalou há mais de trinta anos.”

E terminava:

Se há crimes na história, eles devem ser apurados com rigor, independentemente de se saber a quem cabe a responsabilidade pelos delitos […]. A expansão irracional e destruidora da frente econômica sobre novas áreas de floresta na Amazônia, aumentando o inventário das perdas e danos sem que os males já praticados tenham sido sequer atenuados. E sem que a moral da história haja passado por uma revisão, para que não mais, como das outras vezes, os fracos percam e os fortes sempre ganhem, tornando um martírio a opção de vida de personagens como a irmã Dorothy Stang.

Oito meses depois, Stang foi assassinada.


Lúcio Flávio costuma dizer que os maiores elogios que recebeu vieram de seus inimigos. Cita como exemplo Roger Agnelli, um dos presidentes mais poderosos da história da Vale. Agnelli orientava seus subordinados em Belém a lhe enviar, no Rio, sede da empresa, a última edição do Jornal Pessoal assim que saísse da gráfica. Certa vez, tarde da noite, desviou um jato da companhia para que o assessor de imprensa da mineradora chegasse a tempo de tomar café da manhã com Lúcio Flávio para contestar uma reportagem recém-publicada. “Foi um grande elogio”, satisfaz-se o jornalista.

Não seria o caso de descrever Rosângela Maiorana como inimiga de Lúcio Flávio – não é esse o tom que ela adota ao falar do antigo amigo e mentor –, mas, como o processou na ocasião das reportagens sobre a família, seria natural esperar que fizesse uma avaliação menos generosa de seu legado.

No entanto, ela o considera, sobretudo, corajoso e idealista. “Ele sabia que algumas pautas iam incomodar – temas de devastação e grilagem. Lúcio sonhava que a Amazônia fosse escutada não apenas pelo Sudeste, mas por nós, amazônidas. Até hoje não somos escutados.”

Um dos traços de Lúcio Flávio, responsável por várias das rupturas que ele experimentou ao longo da vida, é uma espécie de maximalismo moral, em que, a despeito das circunstâncias específicas de cada caso, todos os personagens são medidos pela mesma régua, severa e inflexível.

“Eu tinha 31 anos…”, diz Rosângela. “Ele não entendeu que eu era uma mulher crescida num ambiente patriarcal. Me lembro até hoje da manchete: O Liberal: às vésperas da implosão?

O artigo, que saiu no Jornal Pessoal de setembro de 1992, era um relato sóbrio, porém inclemente, sobre as finanças periclitantes do jornal. Revelava que a publicação vinha sendo usada pelos irmãos para favorecer seus respectivos negócios particulares – lojas, locadoras de automóveis. Rosângela, que havia rompido com o irmão Romulo, juntara-se a duas irmãs, e as três “tornaram-se as maiores empresárias da noite em virtude da maciça divulgação de suas promoções”. O Liberal ia mal, dizia o texto, para que os Maiorana pudessem ir “muito bem, obrigado”.

“Foi uma atitude contra uma jovem que teve que se defender não só dele, mas também da estrutura machista na qual eu cresci. Procurei a Lei de Imprensa” – uma lei promulgada pela ditadura para limitar a liberdade de expressão – “porque fui atingida e não fui ouvida. Eu hoje repenso se faria aquilo. Talvez ele também repense. Nossa amizade não devia ter tomado esse caminho. Eu respeito o Lúcio até hoje.”

Os dois nunca mais se falaram.

O escritor Ismael Machado também penou nas páginas do Jornal Pessoal. Sua biografia de Paulo Fonteles recebeu uma crítica bastante desfavorável na publicação, o que não o impede de reconhecer a importância da obra de Lúcio Flávio. “Vai ser impossível entender o Pará dos anos 1970 a 2000 sem ler o Lúcio. São pelo menos quarenta anos de história. Ele é um dos mais precisos cronistas desse período.”

Ainda assim, a fronteira entre a denúncia legítima e a implicância é tênue, e a impressão é a de que, vez por outra, o Jornal Pessoal a ultrapassou.

Na resenha sobre a biografia de Paulo Fonteles, Lúcio Flávio lamenta que Ismael Machado não tenha descrito uma manifestação pela morte de um posseiro, em 1979, como o primeiro ato de posseiros e colonos contra a ditadura. Essa “falha de avaliação”, escreve, revelaria a “falta de intimidade” do autor com o tema.

Algumas linhas acima, observara que os soldados que barraram uma comitiva de senadores e deputados que foi à região para prestar solidariedade a dois padres franceses presos não eram “do Exército, mas da Polícia Militar”.

Parece pouco. Corrigir imprecisões é um dever da profissão; condenar uma obra por deslizes aparentemente secundários, não. Jarbas Passarinho, numa das cartas trocadas com o repórter, descreveu-o como um “implacável catador de erros”. Não era elogio. Se aplicada à própria obra de Lúcio Flávio, tamanha severidade produziria trincas.

Num de seus livros, ele escreve que o pai do jornalista e deputado Márcio Moreira Alves foi secretário de Educação do Rio. Não foi: seu cargo era o de secretário de Fazenda do Estado da Guanabara. Não é exatamente correto afirmar, como ele faz, que, na época do escândalo do BASA, “nenhum outro órgão da imprensa noticiou o caso” e que “o silêncio orquestrado da imprensa” foi “quebrado exclusivamente pelo Jornal Pessoal”; na mesma época, a Província do Pará publicou um artigo sobre o fato. Dependendo do artigo que se leia, a apuração sobre o assassinato de Paulo Fonteles ocupou-o por dois ou por três meses. “O Jornal [Pessoal], minha maior realização profissional, veio ao mundo exatamente na mesma quinzena em que eu nasci, a segunda de setembro”, escreve ele. No entanto, a data impressa no alto do primeiro número do Jornal Pessoal é “1a quinzena setembro/1987”, o que, tomado ao pé da letra, significa que o jornal já existia quinze dias antes de ter sido criado.

Mesmo alguns de seus maiores admiradores, como Raul Martins Bastos e Mauro O’ de Almeida, consideram que, em algumas poucas ocasiões, a fúria se sobrepôs ao rigor jornalístico. O governador Simão Jatene, que respeita o compromisso de Lúcio Flávio com a Amazônia, lembra que, na época da hidrelétrica de Tucuruí, ele escreveu artigos afirmando que o mar invadiria os rios, salinizando todas as águas da região. “E, claro, isso não aconteceu. Barrar um rio é de uma violência extrema, ele estava certo em relação a isso, mas os argumentos não eram os melhores.”

Nada disso importa muito. São lapsos compreensíveis numa obra vital e imensa, produzida por um só homem que, durante décadas, trabalhou sem equipe nem recursos para levar às ruas, a cada quinze dias, um jornal poderoso. A precariedade dessas condições deveria apenas tê-lo tornado um pouco mais sensível aos deslizes menores de colegas que tampouco gozaram de circunstâncias favoráveis.

“Lúcio é muito vaidoso”, avalia Jatene. “Como ele é muito acima da média, tinha razão pra sê-lo. O problema é que isso o impedia de compreender as razões do outro, de se deixar permear por opiniões diversas.”

Certa vez, Ismael Machado publicou um perfil de Lúcio Flávio no Diário do Pará – o jornal de Jader Barbalho. Dias depois, recebeu um e-mail do perfilado em que este dizia ter refletido por dias antes de enviar a mensagem, já que não costumava escrever para elogiar. Mas, pelo fato de aquele ser um dos melhores perfis já feitos sobre ele, decidiu que era o caso de ir em frente.

“E eu fiquei pensando: como é que você tem dificuldade em elogiar, né? Acho que é gentil, sabe? Você ser generoso é bacana. Tem tanta gente fazendo jornalismo, e você nunca reconheceu os que vieram depois?”, lembrou Machado.

É fato que Lúcio Flávio não tem o hábito de elogiar. Talvez considere que isso não é papel de jornalista. Mas não só. A imprensa que conheceu – aquela que permitia aos repórteres estar sempre ao pé dos acontecimentos –, essa se esvaiu. A profissão mudou e ele lamenta a mudança.

Quando tentou formar os jornalistas que gostaria de ver em campo, fracassou. “Durante sete anos dei aulas no curso de comunicação social na Universidade Federal do Pará. O meu principal objetivo era descobrir entre alunos uma vocação de repórter de linha de frente” – o repórter que ele próprio foi ao longo de tantos anos. Suas aulas foram frequentadas por “alunos inteligentes e capazes”, mas nenhum se tornou o profissional de campo “do qual sinto falta ao ler e acompanhar os veículos de imprensa local e nacional”.

Se o repórter não for nativo ou não tiver anos de mergulho na região, nem pense em ser levado a sério. Lúcio Flávio não tem paciência para iniciantes. “Exijo que apresentem tempo de serviço à ‘causa’.”

Um dos artigos dele que mais marcou Rubens Valente foi publicado no início dos anos 2000, e tratava de um episódio envolvendo o jornalista Klester Cavalcanti, da Veja. “Ele alegou que sofreu um sequestro em Belém por um empreiteiro ou empresário – já não me lembro bem. O Lúcio resolve investigar e publica um texto desancando o Klester.”

Numa espécie de anatomia dos acontecimentos narrados por Cavalcanti – que se dizia vítima de pessoas contrariadas com a apuração contida num artigo prestes a ser publicado –, Lúcio Flávio apontava inconsistências no relato do jornalista e punha o episódio sob suspeita:

Depois de se livrar das cordas com as quais fora amarrado, Klester diz haver escalado “uma árvore de uns 25 metros de altura”, tarefa duplamente notável: tanto pela existência de árvore tão alta nas cercanias (por ele classificadas de “selva”, para efeito de decorar com cores fortes o pedido de socorro feito à sede da revista) de uma Belém vitimada pela ação do homem, como pela escalada em si, de causar inveja aos próprios nativos da jungle.

A palavra jungle aí é decisiva: alude à perspectiva exotizante do estrangeiro sobre a Amazônia – ainda mais porque se trata da periferia de Belém, onde o repórter foi abandonado pelos bandidos e onde a floresta, com suas árvores imponentes, deixou de existir há mais de um século.

“A gente morava no interior do Brasil”, conta Rubens Valente, “e sabia que, às vezes, alguns jornalistas exageravam. Nunca é agradável falar de colegas, mas às vezes é necessário, certas coisas precisam ser feitas.”

Lúcio Flávio escreveu: “O tempo de permanência entre nós do repórter pernambucano, de 32 anos, foi curto: apenas dois anos”, assinalando, assim, o primeiro dos grandes pecados.

Supondo que Klester Cavalcanti chegara à região com ideias preconcebidas acerca da Amazônia, conclui que ele “não viu o que deveria ver e viu o que inexistia”. Retirado às pressas para São Paulo, o repórter começará a escrever – de longe – sobre a Amazônia. É o segundo pecado sem remissão:

As narrativas de Klester estão cheias de tais imprecisões, mas tudo isso passa a ser considerado detalhe irrelevante a partir do momento em que o desbravador da história amazônica abandona a região inóspita e volta ao centro do poder e da inteligência nacional, deixando para trás a marginalia de primitivismo, atraso, selvageria e incultura da jungle, cheia de gente boa, tanto mais boa quanto mais distante estiver.


“Minha impressão”, observa o sociólogo José de Souza Martins num e-mail, “é a de que tudo que o Lúcio Flávio faz em relação à Amazônia é motivado por sentir-se mais amazônida do que brasileiro e entende, com razão, que a terra dele está sendo invadida por saqueadores – como os paulistas e gaúchos que lá têm feito investimentos e promovido um desenvolvimento retrógrado e socialmente problemático.”

Rodrigo Mesquita, do Grupo Estado, concorda: “Ele passava 24 horas pensando na Amazônia. Era um idealista, um puro. Tinha uma militância no que ele escrevia, uma revolta muito grande com tudo que estava errado.”

Para muitos leitores de Lúcio Flávio, a Amazônia sobre a qual ele escreve é essencialmente paraense. Fabiano Maisonnave compartilha essa opinião. Sem dúvida, grande parte do que se encontra no Jornal Pessoal diz respeito ao Pará. Quem, como Maisonnave, nasceu nos anos 1970, não pôde ler Lúcio Flávio no Estadão ou no Liberal, o período dos orçamentos generosos e das viagens por toda a região. A geografia do jornalista, necessariamente, encolheu.

“É uma geografia limitada, patriótica”, avalia Souza Martins. “É a região privilegiada por ele.”

Não se trata, porém, de uma geografia qualquer, como lembra Raul Martins Bastos. “Lúcio cobriu os principais acontecimentos da Amazônia, onde quer que ocorressem” – era o tempo das vacas gordas –, mas, se deu mais atenção ao Pará, é porque, durante muito tempo, o estado foi “o principal gerador de conteúdo” para pensar a região. Foi pelo Pará que a floresta começou a ser destruída; ali se instalaram as primeiras grandes obras de infraestrutura e, a partir dos anos 1960, a grande exploração minerária industrial. Foi também no Pará que a violência explodiu.

O padre Ricardo Rezende, defensor da gente pobre do campo, guarda em seu apartamento, no Rio, uma fotografia que traduz o Pará dos anos em que Lúcio Flávio podia percorrer todo o estado como repórter de campo. É o registro da missa de sua ordenação, celebrada em Conceição do Araguaia, em 1980.

Em primeiro plano, o jovem padre, de barba rala e óculos de aro fino, põe a hóstia nas mãos de um fiel, que se inclina em sinal de respeito. Atrás dele, outros aguardam para comungar. Ao fundo, fora de foco, algumas dezenas de homens, mulheres e jovens acompanham de pé o rito, enquanto religiosos de mãos postas circundam o altar, enfeitado com velas e um pano imaculadamente branco.

Rezende descreve a foto: “Esse que está recebendo a hóstia da minha mão é o João Canuto – foi assassinado. Um pouco atrás dele, o Manoel Gago – foi assassinado. Lá atrás, de pé, está o Paulo Fonteles – assassinado. Quem enfeitou a igreja foi a irmã Dorothy – assassinada. No altar, a gente pôs uma foto do Raimundo Ferreira Lima, o Gringo, que tinha sido assassinado dois meses antes.”

Outras cinco pessoas – talvez seis – que compareceram à missa, mas não aparecem na foto, também foram assassinadas.

Foi nesse mundo que Lúcio Flávio se moveu, num embate constante contra forças poderosas. “Jornalista herói é aquele que não teve tempo de avaliar o risco, ou de fugir”, escreveu. Ele nunca foi imprudente, e parece ter sabido avaliar os riscos.

Embora no Pará, como observa Ismael Machado, jornalistas não costumem integrar a lista ordinária de pessoas assassinadas – um rol tenebroso que inclui sindicalistas, posseiros, advogados e religiosos –, isso acontece, e vem de longe. Jader Barbalho recorda um caso ocorrido nos anos 1950, dentro do Liberal: o assassinato do secretário de redação por um capitão do Exército, insatisfeito com um artigo. Sabendo-se que o capitão terminaria a carreira como general, conclui-se que, se bem amparado, quem mata pode contar com a impunidade.

“O Pará não te dá uma segunda chance”, diz Mauro O’ de Almeida. “O que o Lúcio fez, ele tá vivo por milagre.”

Mesmo que a vida não estivesse diretamente em risco, a liberdade estava. “Imagina o que era a Belém dos anos 1970, em plena ditadura”, lembra Rubens Valente. “A dificuldade do Lúcio pra fazer o trabalho dele. Se pra mim já deu problema nos anos 1990… Ele era uma referência, porque nós, lá no interior, víamos que os crimes ambientais eram ligados a crimes políticos” – pauta nascente, perigosa, que Lúcio Flávio foi dos primeiros a explorar.

Rubens Valente aprendeu que, na região amazônica, existem três etapas para “calar a boca” de um jornalista. Primeiro, pede-se a ele que pare – às vezes, com um processo. Em seguida, aparece o dinheiro, a tentativa de corromper. Por fim, vem a ameaça, “o ato físico”.

A própria forma como a imprensa surge e se organiza em certas praças do país pode ser vista como outra etapa desse mecanismo – talvez a primeira de todas. Quando determinadas informações não podem ser publicadas, o jornalista que insiste em apurá-las deixa de ter uma casa. Resta-lhe, então, a alternativa de uma independência cujo custo é alto. Concretamente, significa empobrecimento. Esse foi o caminho de Lúcio Flávio.


Numa manhã de agosto de 2025, Lúcio Flávio foi à casa onde morou de 1977 até poucos meses antes. No imóvel, que pertence a ele e à sua primeira mulher, ele criou quatro filhos. No ano anterior, a filha que mora em Belo Horizonte o visitou e decidiu que ele não podia mais viver ali.

Basta a porta se abrir para que o motivo fique claro. O térreo, composto de seis ambientes conectados, está tomado por livros – nas estantes, nas mesas, em pilhas grossas que sobem do chão ao teto. É preciso andar com cuidado entre colunas instáveis de papéis, revistas, tomos pesados, edições raras e exemplares baratos.

Como um enxame, os livros avançam pela cozinha, pela sala de jantar, pelo nicho sob a escada e por todos os cômodos do andar superior, inclusive o banheiro. O quarto onde Lúcio Flávio dormia é praticamente intransitável.

Num anexo à casa, o tumulto é ainda maior. As estantes de madeira parecem frágeis diante de tanto peso. As pilhas chegam a 4 metros de altura e a travessia do espaço entre elas exige acrobacias. Aqui e ali, tábuas dispostas na transversal formam pontes no vazio, sobre as quais repousam ainda mais livros, mais pastas, mais revistas. Passa-se por baixo delas como um mineiro sob as escoras da mina.

A situação é delicada. Exposto ao clima equatorial, o conjunto está em condições precárias de guarda. O teto tem goteiras e as janelas têm frestas que deixam o vento e a chuva entrarem. Já houve enchentes que destruíram parte dos livros, e há sempre o risco de incêndio.[1]

É uma biblioteca fabulosamente eclética. De várias edições de O capital a biografias de Hitler e Himmler; de dezoito edições de Os sertões a Emily Brontë e Thomas Mann; do teólogo Hans Küng ao historiador Niall Ferguson; de Mirabeau e Madame de Sévigné a Jean Genet; do biólogo Stephen Jay Gould a Paulo Leminski; de Dostoiévski a Raymond Chandler e Dashiell Hammett; de uma Bíblia de 1642 a um léxico latino de 1767, comprado em Bruxelas; da vida de Salvador Allende à autobiografia da atriz Ingrid Bergman.

Dicionários de toda natureza; coleções quase completas das finas edições francesas da Pléiade e de sua congênere brasileira, a Nova Aguilar. Livros em português, inglês, francês e, provavelmente perdidos na floresta de pilhas, em outros idiomas também. Obras de filosofia, literatura, economia, teologia, filologia, história e, acima de tudo, sobre a Amazônia. É possível que haja ali em torno de 70 mil volumes.

Lúcio Flávio. Considera a biblioteca uma confissão, pois as anotações nas margens dos livros – poemas, observações de tristeza e melancolia – expõem a sua intimidade. “Sem a biblioteca, eu morro”, disse, numa conversa por Zoom.

Comprava pelo mundo todo, na época em que ainda podia viajar. Era perspicaz. Em São Paulo, frequentava o sebo de um certo Brandão. Só ia lá calçando o seu pior sapato. “A primeira coisa que o Brandão fazia era olhar pro sapato pra saber o valor que ia pedir pelos livros.”

A biblioteca é seu bem mais precioso. Materialmente, é também o único que pertence só a ele. Lúcio Flávio pôs o Jornal Pessoal na praça por 32 anos, superando em treze anos o período durante o qual I. F. Stone manteve o seu Weekly. O trabalho destruiu sua saúde e suas finanças.

“Eu tenho uma admiração enorme pelo Lúcio”, diz Breno Augusto dos Santos, o descobridor de Carajás. “Ele poderia ter ficado rico com tudo que sabe sobre a Amazônia, mas abdicou da riqueza para perseguir uma verdade que era sua. Quando o conheci, trabalhava no Estadão e no Liberal, estava muito bem. Tinha o carro dele, bem-casado. Houve um certo radicalismo utópico. Ele não foi acompanhado pela opinião pública – o sucesso dele foi entre os intelectuais – e isso o levou à miséria. Ele trocou o conforto pela causa. Merecia ter um final de vida diferente.”

Se Lúcio Flávio não está propriamente na miséria, é certo que deixou para trás as conveniências de uma vida confortável de classe média, justa recompensa caso ele não tivesse escolhido um caminho tão árduo.

O esforço de fazer, sozinho, um jornal por décadas trouxe o cansaço e as doenças. “Minha depressão está muito forte. Sou alcançado por ela, pelo Parkinson e suas derivações”, escreveu certa vez. “Como dizia o Churchill, o cão negro da depressão me ataca nesse momento”, afirmou em outra ocasião.

Em 2024, numa carta aberta aos amigos, revelou que se sentia derrotado. “Não em relação ao que fiz até encerrar o Jornal Pessoal, em 2019. Se eu tivesse deixado de vez o jornalismo nessa data, não teria passado – nem estaria ainda passando – por tanta desilusão, tristeza, indignação e dor de derrota.”

Referia-se ao que julgava ser o pouco impacto do trabalho de sua vida. “Percebo que a minha palavra não ecoa e que não há preocupação em recolher os fatos que apontam para a ruinosa verdade diante dos nossos olhos vesgos.”

A Amazônia continuava a ser destruída, as paisagens “entregues ao silêncio e ao abandono”, como escreveu Claude Lévi-Strauss a respeito de como o Brasil trata o mundo natural. A função que a floresta deveria desempenhar no planeta – segundo Lúcio Flávio, a de “continuar a ser o território da harmonia entre a água, a luz e a massa vegetal deste nosso universo ameaçado”, aquilo que é o seu “desejo mais legítimo” – estava se perdendo.

“Sou um homem da Amazônia. Logo, sou um produto da floresta. Como a floresta está desaparecendo, meu habitat se reduz a cada ano”, escreveu, em 2021. É difícil não ver nessa redução espacial – que é também uma redução de possibilidades – a própria condição de Lúcio Flávio: a passagem da casa espaçosa onde criou a família para o apartamento modesto em que hoje vive sozinho.

O desperdício da floresta o desespera:

Uma prancha serve de tapume precário para uma obra levantada com elementos que demandaram muito menos energia, menos tempo, menos natureza. E depois é jogada fora, inservível, sem valor.

Quantos animais essa árvore de lenho branco não podia continuar a abrigar? Quanta água não lançaria à atmosfera? Quantos nutrientes não depositaria no solo? Quantos processos biológicos não ajudaria a compor?

Jamais defendeu que a floresta não fosse ocupada, pedia apenas cuidado e respeito. Como disse, belamente, era preciso pedir licença, tirar os sapatos, jogar o cigarro lá fora e aceitar as regras do jogo.

Como nada disso foi feito, ele se recolheu, exausto e triste.

Acontece que a força de uma obra não se manifesta necessariamente no seu tempo. Como lembrou Ismael Machado, no futuro não será possível compreender uma das maiores tragédias ambientais da nossa história sem recorrer a Lúcio Flávio.

“Nada do que realmente vale a pena fazer pode ser realizado ao longo de uma vida; por isso, precisamos ser salvos pela esperança. Nada do que é verdadeiro, belo ou bom faz pleno sentido em nenhum contexto histórico imediato”, escreveu o teólogo norte-americano Reinhold Niebuhr.

Enquanto a esperança não se concretiza, fica o exemplo. “Sabe o Zola, do J’accuse?”, pergunta Rubens Valente. “Eu acho que o Lúcio Flávio é da família desses caras. É preciso muita coragem pra dizer: Eu acuso!”

[1] O autor desta reportagem integra um grupo de pessoas envolvidas na tarefa de proteger a biblioteca de Lúcio Flávio Pinto e dar a ela um destino público. (N. R.)