quinta-feira, 18 de março de 2021

Bolsonaro

Ignóbil. Basculho. Baixo. Repugnante. Canalha. Deplorável. Mesquinho. Patife. Ordinário. Reles. Pulha. Sórdido. Torpe. Velhaco. Abominável. Detestável. Ralé. Biltre. Infame. Bandalho. Aberração. Calhorda. Desprezível. Pífio. Ignorante. Vil. Ribaldo. Soez. Jacodes. Cafajeste. Bronco. Inculto. Boçal. Néscio. Estúpido. Rude. Verme. Desgraçado. Maldito. Jumento. Monstruoso. Sádico. Burro. Insensível. Mentecapto. Demônio. Desalmado. Incapaz. Covarde. Crápula. Incompetente. Doentio. Sociopata. Peste. Idiota. Energúmeno. Reaça. Desequilibrado. Imoral. Rato. Mandrião. Beócio. Abjeto. Descarado. Pusilânime. Enxurro. Choldra. Gentalha. Labrusco. Desrespeitoso. Cruel. Facínora. Atroz. Maligno. Cafona. Execrável. Infando. Nefando. Abominável. Inclemente. Mau. Sicário. Viperino. Tirano. Impiedoso. Desumano. Malfeitor. Celerado. Estrupício. Chorume. Louco. Escroto. Lixo. Inútil. Escória. Ogro. Mitômano. Ególatra. Tosco. Verdugo. Mentiroso. Asno. Babaca. Déspota. Autoritário. Morte. Opressor. Tapado. Mandão. Autocrata. Desnecessário. Safardana. Prepotente. Abusivo. Injusto. Reacionário. Fascista. Cínico. Animal. Desaforado. Histrião. Grosseiro. Vulgar. Malandro. Inconveniente. Sujo. Sem-vergonha. Obsceno. Brega. Charlatão. Perverso. Monstro. Ditador. Embusteiro. Horrível. Desnaturado. Carrasco. Egocêntrico. Mariola. Salafrário. Imbecil. Lunático. Bufão. Garganta. Farofeiro. Farsante. Oportunista. Indefensável. Broxável. Carniceiro. Irresponsável. Excrementíssimo. Marginal. Praga. Traiçoeiro. Criminoso. Terrorista. Asqueroso. Cu de boi. Podre. Capiroto. Embuste. Lazarento. Indecoroso. Desmoralizado. Imprudente. Maléfico. Parasita. Delinquente. Seboso. Coisa-ruim. Quadrilheiro. Arrombado. Mau-caráter. Frouxo. Fracassado. Ressentido. Obtuso. Boçal. Brutamontes. Cavalgadura. Descortês. Lorpa. Pateta. Cretino. Parvo. Pacóvio. Inapto. Desqualificado. Pequi roído. Genocida.

 
Mariliz Pereira Jorge, FSP, 17/03/2021

quarta-feira, 17 de março de 2021

Euler (1707 - 1783)

Euler e a imperatriz da Rússia


Marcelo Viana, FSP, 16/03/2021

Matemático encontrava regularmente a soberana Catarina, a Grande, para conversar sobre as ciências
O czar Pedro 3º tinha o nome, mas nenhuma das qualidades de seu formidável avô, Pedro 1º, o Grande. Impopular devido a suas ideias pró-germânicas, em 9 de junho de 1762 foi deposto por tropas fiéis à sua carismática esposa, a princesa alemã Sofia de Anhalt-Zerbst que, ao converter-se à igreja ortodoxa russa, adotara o nome Catarina.

O matemático suíço Leonhard Euler - Domínio público

Morreu pouco depois, em condições suspeitas, e Catarina logo se fez coroar, dando início a um reinado de mais de três décadas que fez dela a mulher mais poderosa de sempre, e a única a receber o cognome “a Grande”. Entre suas prioridades estava devolver à capital imperial o brilho cultural que tivera a partir do reinado de Pedro 1º.

As exigências de Leonhard Euler para voltar à Rússia foram exorbitantes: salário anual de 3.000 rublos, pensão para sua esposa, Katharina, e promessa de cargos importantes na corte para seus filhos. Catarina aceitou sem hesitar e, em 1766, Euler regressou pela última vez a São Petersburgo. Está sepultado no mosteiro Alexandre Nevsky, num mausoléu de mármore que tive a oportunidade de visitar em 1991, quando participei da inauguração do Instituto Euler da Academia de Ciências da (ainda) União Soviética.
Esse período final de sua vida foi marcado por diversas tragédias. Cinco anos após ter ficado cego, em 1771 sua casa foi destruída por um incêndio que quase lhe custou a vida. Dois anos depois perdeu sua esposa de 40 anos. Oito dos 13 filhos do casal não chegaram à idade adulta.

Mas em 1776 casou com sua meia-cunhada Salome, e essa relação durou até a sua morte.
Catarina, a Grande, era uma mulher culta e sofisticada, que se correspondia com os maiores intelectuais do seu tempo, e fazia questão de discutir pessoalmente com os pensadores que reuniu em sua corte. Euler não era exceção: tinha encontros regulares com a soberana para conversar sobre matemática e outras ciências.

Euler continuou trabalhando até morrer, sem que os dramas pessoais ou a cegueira abatessem sua incrível produtividade. O seu último trabalho, sobre balões aerostáticos, foi encontrado escrito com giz na ardósia, e foi publicado postumamente.
Em 18 de setembro de 1783, após um almoço em família, sofreu uma hemorragia cerebral enquanto conversava com um colega sobre a recente descoberta de Urano. Poucas horas depois “parou de calcular e de viver”, como explicou Condorcet em seu elogio fúnebre na Academia de Ciências da França.

Seu maior monumento é o website The Euler Archive (Arquivo Euler), repositório dos mais de 850 trabalhos que escreveu, e de muito mais informação sobre sua vida e obra.

Euler e o rei da Prússia

Frederico, o Grande, se desapontava com a falta de habilidades práticas do matemático
Marcelo Viana, FSP, 10/03/2021

Inquieto com a instabilidade de sua posição em São Petersburgo, em 1741, Euler aceitou convite do rei Frederico, o Grande (1712-1786), para dirigir a seção de matemática da Academia de Ciências da Prússia e segue para Berlim. As quase duas décadas seguintes foram marcadas por descobertas muito importantes e por uma relação difícil com o rei.

Entre as obrigações de Euler estava educar a princesa Friederike Charlotte, sobrinha do rei. Ele lhe escreveu mais de 200 cartas sobre temas de matemática e física, que foram depois coletadas e publicadas na forma de um livro. As "Cartas de Euler a uma princesa alemã" evidenciam sua notável capacidade para comunicar ciência em linguagem acessível e se tornaram populares na Europa e nos Estados Unidos.

Frederico, um dos mais brilhantes monarcas do iluminismo, era culto, sofisticado, infatigável, excelente administrador e um dos maiores generais de sua época. Suas conquistas expandiram o reino, alçando a Prússia à condição de uma das principais potências mundiais. A par disso, reuniu em Berlim muitas das melhores mentes da ciência, arte e cultura do seu tempo.

O filósofo, historiador e escritor francês Voltaire ocupava lugar de prestígio na corte de Frederico, o qual apreciava a eloquência e mordacidade do francês. Euler era o oposto: simples, religioso, mal informado fora da matemática, nunca questionava as normas e entrava em discussões sobre temas que conhecia mal, o que o expunha a chacota.

O rei ficou especialmente desapontado com a falta de habilidades práticas do matemático. "Eu queria um chafariz e pedi a Euler que calculasse a força das rodas necessária para elevar a água até o reservatório. O aparelho foi planejado geometricamente e não conseguia erguer nem um gole de água. Vaidade das vaidades! Vaidade da geometria!"

Em suas correspondências, ele se referia a Euler como "o ciclope", brincadeira cruel com a cegueira do olho direito, ocorrida ainda na Rússia. Na sequência de uma catarata no olho esquerdo, em 1766, o matemático ficou totalmente cego, aos 59 anos de idade. Isso não afetou a sua produtividade: em 1775 ele publicou um artigo matemático por semana, uma média impressionante!

Por volta de 1763, enquanto a Guerra dos Sete anos assolava a Prússia e outras partes da Europa, a situação na Rússia tinha melhorado. O poder fora tomado por uma ambiciosa princesa alemã que estava a ponto de tornar-se a imperatriz Catarina, a Grande. A convite dela, Euler decidiu voltar para São Petersburgo. Foi a sua última mudança.

A bela fórmula de Euler


Descoberta do matemático foi pouco mais do que curiosidade até a década de 1890, quando Poincaré revelou o seu profundo significado


Marcelo Viana, FSP, 02/03/2021

Leonhard Euler (1707 - 1783) escrevia sobre matemática, física, astronomia, mecânica, lógica, filosofia e música em latim, alemão e francês. Seus trabalhos foram publicados pelas academias das nações mais avançadas da época, especialmente na Suíça, Rússia, Prússia e França. Mais de um século depois que a Academia Suíça de Ciências iniciou a coletânea de suas obras, com 85 volumes já publicados, a tarefa ainda não terminou.

A sua descoberta mais conhecida do público, obtida por volta de 1740, é a fórmula que leva o seu nome: e(iπ)+1=0. Essa belíssima relação usa os símbolos mais notáveis da matemática (π =3,1415…; a constante de Euler e=2,7182…; a unidade imaginária i=√-1; e os números 0 e 1, com os quais se constroem todos os outros) numa única igualdade que liga a aritmética, a álgebra, a geometria e a análise.


Em 1758, Euler observou que os números F de faces, A de arestas e V de vértices de um poliedro (sólido geométrico) convexo sempre satisfazem a igualdade F-A+V=2. Por exemplo, no cubo F=6, A = 12 e V=8, e vemos que 6-12+8=2. Provas alternativas deste fato foram dadas por matemáticos do calibre de Legendre e Cauchy, que também apontaram que a igualdade pode falhar se o poliedro não for convexo.


Apesar desses avanços, a descoberta de Euler continuou sendo pouco mais do que uma curiosidade até a década de 1890, quando Poincaré revelou o seu profundo significado e a tormou a base de uma nova disciplina matemática: a topologia algébrica.


Em 1760, Euler obteve um importante critério geral de exatidão para equações diferenciais de qualquer ordem. Submeteu o trabalho à Academia de Ciências de São Petersburgo, mas a publicação só ocorreu seis anos depois. No meio tempo, Euler mencionou a descoberta, sem prova, em sua correspondência com D’Alembert, o qual informou Lagrange, Condorcet e outros. Em 1765, o jovem Condorcet publicou uma prova, sem mencionar Euler.


Chateado, mas sem graça de intervir diretamente, Euler insistiu com Lagrange, que era próximo de Condorcet, para que pressionasse esse a reconhecer a origem do resultado. Mas, receoso de arruinar a carreira do amigo, Lagrange “enrolou”. A verdade sobre o “teorema de Condorcet” só veio a ser conhecida em 1980, quando essas cartas foram publicadas.


Em junho de 1741, Euler trocou São Petersburgo por Berlim, onde ficaria por quase duas décadas. Foi um período muito produtivo de sua vida científica. Mas, desprovido de sentido de humor e interessado apenas em números e figuras, o matemático nunca se encaixou na vida na brilhante e sofisticada corte de Frederico, o Grande, rei da Prússia.

Euler, o matemático mais prolífico da história


Estudioso tem inúmeras contribuições fundamentais em áreas da matemática, física, astronomia e até música
Marcelo Viana, FSP, 23/02/2021

Leonhard Euler é um dos grandes matemáticos da história e, certamente, o mais prolífico de todos os tempos. Seus trabalhos contêm inúmeras contribuições fundamentais a diversas áreas da matemática (da teoria dos números até a probabilidade), da física (acústica, ótica), da astronomia (do movimento planetas e cometas até a geofísica e o estudo das marés), da mecânica (da teoria dos corpos rígidos à ciência naval), da lógica, da filosofia e até da música.
As obras “completas” de Euler foram publicadas no século 19, mas o trabalho ficou insatisfatório, o que motivou a Academia de Ciências da Suíça a empreender um esforço mais consistente para reunir todos os seus escritos. Iniciado em 1904, esse projeto já publicou 85 volumes de trabalhos e ainda não está concluído.


Euler nasceu na Basileia, capital da Suíça, em 15 de abril de 1707. Foi contemporâneo e próximo de vários membros da família Bernoulli, especialmente de Daniel Bernoulli (1700 - 1782), com quem manteve amizade ao longo de toda a vida.
Após ter terminado o doutorado em 1726, Euler tentou, sem sucesso, obter uma posição como professor da Universidade de Basileia. Também participou no famoso concurso de solução de problemas matemáticos promovido pela Academia de Ciências de Paris, mas ficou em 2º lugar. Ele viria a ganhar esse concurso doze vezes ao longo de sua vida.


Por essa altura, Daniel Bernoulli se tornou membro da Academia de Ciências de São Petersburgo, na Rússia, e recomendou o seu amigo Euler para a cátedra de fisiologia da academia. Desapontado com o insucesso na sua cidade natal, Euler aceitou o convite da imperatriz Catarina I e viajou para São Petersburgo, onde chegou em maio de 1727. Datam do período que se seguiu muitas de suas grandes descobertas.


A morte de Catarina, sucedida por seu filho e desafeto Pedro II, piorou a situação política dos cientistas, sujeitos à hostilidade da facção tradicionalista ligada ao novo imperador. Desapontado, Daniel Bernoulli voltou para a Suíça em 1733, sendo sucedido por Euler como chefe da divisão de matemática da Academia.


Euler se casou no ano seguinte com a filha de um pintor da Academia. Sua esposa Katharina daria à luz 13 crianças, das quais apenas cinco chegaram à idade adulta. A família permaneceu em São Petersburgo até junho de 1741, quando Euler aceitou oferta irrecusável de Frederico, o Grande, rei da Prússia, para assumir a direção de matemática na Academia de Ciências de Berlim.


sábado, 13 de março de 2021

Alfredo Saad Filho

‘Brasil está virando uma Grécia tropical sem a fantasia do Syriza’


ESPECIAL PARA O JORNAL DA UNICAMP, 12 JUN 2017
Para professor da Universidade de Londres, tensões entre a democracia e o neoliberalismo explicam parte da crise no país

 
Alfredo Saad Filho, Foto de Antoninho Perri

“O Brasil entrou na divisão internacional do trabalho abaixo da China. Isso é um absurdo, para um país que tinha construído uma base industrial razoavelmente coerente e sofisticada. Agora, estamos presos debaixo de um colosso. Será muitíssimo difícil construir uma sociedade integrada e minimamente igual com essa base produtiva extremamente limitada”. A opinião é do economista Alfredo Saad Filho, professor de Economia Política na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) da Universidade de Londres e autor do livro O Valor de Marx – Economia política para o capitalismo contemporâneo (Editora da Unicamp). De passagem pelo Brasil, Saad concedeu a entrevista que segue ao professor Armando Boito Jr., docente do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas (IFCH) da Unicamp.


Armando Boito – Qual a sua impressão sobre a situação econômica e política do Brasil?


Alfredo Saad Filho – O Brasil vive uma tragédia sem precedentes no último século. A produção por substituição de importações foi destruída pela transição neoliberal nos anos 1990, e essa transição econômica rumo ao neoliberalismo veio na esteira da transição da ditadura para a democracia. Entretanto, a transição democrática era pouco compatível com a transição neoliberal: o neoliberalismo impõe uma economia com um padrão distributivo excludente e que cresce pouco, gera empregos ruins, e que produziu um padrão de especialização perverso: o Brasil entrou na divisão internacional do trabalho abaixo da China. Isso é um absurdo, para um país que tinha construído uma base industrial razoavelmente coerente e sofisticada. Agora, estamos presos debaixo de um colosso. Será muitíssimo difícil construir uma sociedade integrada e minimamente igual com essa base produtiva extremamente limitada.
Enquanto isso, a democracia significa uma sociedade inclusiva, relativamente igual, composta de cidadãos, e não de uns poucos sujeitos ricos e uma grande massa empobrecida. As desigualdades sociais extremas são incompatíveis com a democracia, mas o neoliberalismo é incompatível com a igualdade.
As tensões entre a democracia e o neoliberalismo explicam grande parte do desastre recente no Brasil: os governos do PT buscaram construir uma sociedade inclusiva numa base neoliberal, e o projeto entrou em colapso quando as condições internacionais se tornaram adversas, depois da crise global. O PT foi incapaz de entender essas tensões em tempo real, e incapaz de liderar a busca por soluções: o partido e seus governos continuaram, até o fim, a tentar improvisar alternativas temporárias, compatibilizar interesses cada vez mais distantes, e distribuir renda na margem sem mudar nada de fundo. Deu no que deu: a elite se rebelou, o Estado brasileiro foi sequestrado por uma quadrilha, um neoliberalismo turbinado está sendo imposto à força, e a sociedade está sofrendo prejuízos enormes.
O Brasil vive um pesadelo sem solução fora da democracia. Por isso eu sou a favor das eleições diretas já: elas abrem caminho para a sociedade fazer uma escolha de projetos, ao invés de ter que se subordinar, sem consulta alguma, ao projeto excludente de um grupo de bandidos.


Armando Boito – Como o senhor vê, do ponto de vista da economia, a intenção do governo em implantar as reformas da previdência e trabalhista?


Alfredo Saad Filho – Em 2016, o Brasil sofreu um golpe de Estado de novo tipo. Antigamente golpes de Estado eram conduzidos pelos militares, mas no neoliberalismo as formalidades democráticas são importantes. Além do mais, existe uma institucionalidade desenvolvida e sólida no Brasil, e que continua legítima, e que torna muito difícil passar por cima do texto constitucional. Portanto, os golpistas tiveram que se ater a formalidades legais. Como o poder institucional da quadrilha é muito grande, e eles querem aproveitar ao máximo a oportunidade, eles tendem a atropelar a institucionalidade e quaisquer interesses divergentes, usando a força bruta da maioria que têm no Congresso, e da hegemonia que exercem no Judiciário. Querem impor soluções violentas aos problemas nacionais, muitos deles criados pelo neoliberalismo, através da imposição de mais neoliberalismo. Assim, o Brasil está virando uma Grécia tropical sem a fantasia do Syriza [partido de esquerda]; um Chile de Pinochet sem o general, mas com o mesmo conteúdo econômico e o mesmo projeto antissocial. Esse projeto excludente deve ser barrado, e a forma mais direta de fazê-lo é através de eleições. Vamos ver se a população aprova a catástrofe neoliberal. Quem está com medo de perguntar, e quem tem medo da resposta?


Armando Boito – Por que um livro sobre a teoria do valor? Não se trata de um tema já suficientemente discutido?


Alfredo Saad Filho – A teoria marxista do valor oferece uma análise coerente das modalidades de reprodução da sociedade. É um tema abstrato, mas ele oferece um pano de fundo integrador, no qual análises mais detalhadas sobre a dinâmica da economia, da política e da sociedade podem ser inseridas. A teoria do valor é um instrumento, um método, e uma forma de ver o mundo. Ela é rica, e enriquece a nossa percepção da realidade. É preciso retornar à teoria do valor regularmente, para confirmar a nossa compreensão do real, e também para reconhecer as limitações do nosso conhecimento. Portanto, a teoria do valor precisa ser estudada em detalhe, e ela não se esgota nunca. Precisamos de mais trabalhos nessa área, mais debates, e mais troca de opiniões. Se o meu livro puder contribuir nesse sentido, meu trabalho estará bem feito.


Armando Boito – Você trabalha há muitos anos numa universidade inglesa. Qual a situação atual dos estudos sobre a teoria econômica de Marx na Inglaterra?


Alfredo Saad Filho – Dentro da economia, há muito pouco espaço para a heterodoxia em geral e o marxismo em particular. Tendo dito isso, a situação das abordagens heterodoxas melhorou bastante desde a crise global iniciada em 2008. Houve uma percepção das insuficiências das abordagens convencionais, exemplificada pelo desafio colocado pela famosa pergunta feita pela rainha Elizabeth II aos economistas convencionais, questionando a incapacidade deles em antecipar e prevenir a crise. Houve também um questionamento por baixo, vindo de um grande número de estudantes que rejeitam a hegemonia neoclássica.
Essas dificuldades vindas, digamos, “de cima” e “de baixo” abriram um pouco mais de espaço em vários departamentos de economia que, anteriormente, estavam completamente fechados. Mas os maiores avanços para as abordagens marxistas têm ocorrido em outros departamentos de ciências sociais: nas relações internacionais, na sociologia, na geografia, na política, nos estudos do desenvolvimento, e assim por diante. Uma nova geração de acadêmicos e estudantes tem produzido material excelente nessas áreas, e isso traz muito conforto e satisfação para os acadêmicos da minha geração. Existe, também, um interesse crescente dos estudantes em estudos que questionem a economia atual e a sociedade neoliberal, de um ponto de vista de esquerda e compromissado com a igualdade humana. O mainstream fracassou: é preciso reconhecer isso e construir uma academia nova, e uma sociedade nova, para além do neoliberalismo.


Armando Boito – Qual é o debate marxista sobre a crise econômica iniciada em 2008? Qual é a sua análise da crise?


Alfredo Saad Filho – Dois debates dominam o campo marxista. O primeiro é sobre as causas da crise. A grande maioria dos marxistas, e eu me somo a esse grupo, concorda que a crise de 2008 se deve às instabilidades impostas pela globalização neoliberal, em particular pela financeirização. Essa é uma crise de superprodução de ativos fictícios, pedaços de papel que representam riqueza e que se superimpõem ao processo produtivo para sugá-lo, e para remunerar uma casta financeira que está profundamente mesclada com o grande capital industrial.
Essa é também uma crise do neoliberalismo, que perdeu a capacidade de gerir a economia de maneira construtiva ou estável e, depois da crise, demonstrou grandes limitações em liderar a recuperação da economia global. Claro que o pior da crise já passou há algum tempo, pelo menos nos países do centro. Entretanto, a economia mundial está caindo no que até mesmo economistas neoclássicos reconhecem ser uma “Grande Estagnação” sem final previsto. Uma tragédia: a crise mostra que o neoliberalismo é capaz de gerar grandes lucros para poucos, mas não é capaz de dinamizar a economia, ou de construir sociedades coesas.
Outra interpretação, de uma pequena minoria de marxistas, é que a crise se deve à queda contínua das taxas de lucro desde os anos 1960; portanto, não se trata de uma crise especificamente neoliberal, e a financeirização não tem papel significativo: o capitalismo caminha para o colapso final há meio século, ou talvez desde sempre. Essa interpretação é implausível teoricamente e não se relaciona com os fatos evidentes das transformações da produção e das finanças no período relevante. Nesse sentido, eu a descarto.
Dito isso, eu enfatizo que o debate marxista sobre a crise atual é vibrante e muito rico. Um pequeno grupo de economistas, praticamente sem recursos ou apoio institucional, consegue oferecer interpretações da crise que são muito mais interessantes e férteis do que a grande maioria de economistas tradicionais, com todo o apoio de grandes instituições de pesquisa e financiamento, e contando com recursos comparativamente gigantescos. Apesar disso, eles não trouxeram nenhum elemento relevante para o debate, e não conseguem propor soluções. Essa é uma tragédia para a disciplina da economia.


Armando Boito – Você acompanhou de perto o Brexit. Como avaliou esse acontecimento?


Alfredo Saad Filho – A votação sobre o Brexit foi uma aposta inventada pelo primeiro-ministro anterior, David Cameron, para tentar resolver uma divisão interna ao Partido Conservador. Desde há muito tempo, uma ala crescente do partido, dominada pela extrema-direita nacionalista e racista, exigia a saída da UE, sugerindo que a Europa era a causa do declínio relativo do Reino Unido. Evidentemente isso é falso. Mas esse discurso ganhou bastante tração política devido à pressão da grande imprensa de direita, os famosos tabloides, que são na sua maioria extremamente xenófobos.
A população foi convidada a culpar os estrangeiros – enquanto indivíduos e enquanto países – por todos os males do neoliberalismo. Se a saúde, a habitação, os salários e a assistência social estão ruins, é culpa dos estrangeiros no país. Se a economia não cresce, perde empregos, e a capacidade manufatureira declina, é culpa dos estrangeiros em outros países. Ora, isso é uma fantasia: é como se o neoliberalismo global, liderado em parte pelo Reino Unido, não tivesse transnacionalizado a produção, exportado empregos para lugares mais baratos, e imposto políticas destrutivas de austeridade fiscal para reduzir impostos para os ricos e para transferir riqueza para os interesses financeiros. A culpa das falhas do neoliberalismo foi projetada para onde ela não cabia.
Com isso, e com uma campanha recheada de falsidades, o Brexit venceu – um Brexit de direita, excludente e regressivo socialmente. O país e a maioria da população vão perder muito nos próximos anos. Digo isso sem ilusões com relação à UE, que afinal de contas impôs o austericídio na Grécia, em Portugal, e em outros países. Mas a solução passa por construir uma União democrática, e não buscar um caminho fora dela, liderado pela extrema direita.



Neoliberalismo existe? Como compreendê-lo? c/ Prof. Alfredo Saad


Neoliberalismo no Brasil Lulista e a Crise Política - c/ Prof. Alfredo Saad Filho


sexta-feira, 12 de março de 2021

O moleque de Lima Barreto

A Arnaldo Damasceno Vieira

Reclus, na sua Geografia universal, tratando do Brasil, notava a necessidade de conservarmos os nomes tupis dos lugares de uma terra. Têm eles, diz o grande geógrafo, a vantagem de possuir quase todos um sentido claro, muito claro, nas suas palavras, exprimindo algum fato da natureza, a cor das águas correntes, a altura, a forma ou o aspecto dos rochedos, a vegetação ou a aridez da região. 

No Rio de Janeiro, há de fato nomes tupis tão eloquentes, para traduzir a forma ou o encanto dos lugares, que ficamos pasmos, quando lhes sabemos a significação, com o poder poético, com a força de emoção superior de que eram capazes os primitivos canibais habitantes desta região, diante dos aspectos da natureza tão bela e singular que é a que cerca e limita nossa cidade. Bastam os nomes da baía. Como não traduz bem a sua sedução, o seu recato, a sua fascinação, o nome: Guanabara  — seio do mar? 

E se o mar abriu aqui um seio foi para nele esconder as suas águas.  — Niterói — água escondida. 

Esses nomes tupis, nos acidentes naturais das cercanias da cidade, são os documentos mais antigos que ela possui das vidas que aqui floresceram e morreram. 

Edificada em um terreno que é o mais antigo do globo, nos depósitos sedimentares das velhas regiões, até hoje não se encontram vestígios quaisquer da vida pré-histórica. A terra é velha, mas as vidas que viveram nela não deixaram, ao que parece, nenhum traço direto ou indireto de sua passagem. Os mais antigos testemunhos das existências anteriores às nossas, que por aqui passaram, são esses nomes em linguagem dos índios que habitavam estes lugares; e são assim bem recentes, relativamente. Há, parece, na fatalidade destas terras, uma necessidade de não conservar impressões das sucessivas camadas de vida que elas deviam ter presenciado o desenvolvimento e o desaparecimento [sic]. Estes nomes tupaicos mesmo tendem a desaparecer, e todos sabem que, quando uma turma de trabalhadores, em escavações de qualquer natureza, encontra uma igaçaba, logo se apressam em parti-la, em destruí-la como coisa demoníaca ou indigna de ficar entre os de hoje. 

A pobre talha mortuária dos tamoios é sacrificada impiedosamente. Frágeis eram os artefatos dos índios e todas as suas outras obras; frágeis são também as nossas de hoje, tanto assim que os mais antigos monumentos do Rio são de século e meio; e a cidade vai já para o caminho dos quatrocentos anos. O nosso granito vetusto, tão velho quanto a terra, sobre o qual repousa a cidade, capricha em querer o frágil, o pouco duradouro. A sua grandeza e a sua antiguidade não admitem rivais. Ainda hoje esse espírito do lugar domina a construção dos nossos edifícios públicos e particulares, que estão a rachar e a desabar, a todo instante. 

E como se a terra não deseje que fiquem nela outras criações, outras vidas, senão as florestas que ela gera, e os animais que nestas vivem. Ela as faz brotar, apesar de tudo, para sustentar e ostentar um instante, vidas que devem desaparecer sem deixar vestígios. Estranho capricho... Quer ser um recolhimento, um lugar de repouso, de parada, para o turbilhão que arrasta a criação a constantes mudanças nos seres vivos; mas só isto, continuando ela firme, inabalável, gerando e recebendo vidas, mas de tal modo que as novas que vierem não possam saber quais foram as que lhes antecederam. 

Desde que as suas rochas surgiram, quantas formas de vida ela já viu? Inúmeras, milhares; mas de nenhuma quis guardar uma lembrança, uma relíquia, para que a Vida não acreditasse que podia rivalizar com a sua eternidade. Mesmo os nomes índios, como já foi observado, se apagam, vão se apagando, para dar lugar a nomes banais de figurões ainda mais banais, de forma que essa pequena antiguidade de quatro séculos desaparecerá em breve, as novas denominações talvez não durem tanto. Nenhum testemunho, dentro em pouco, haverá das almas que eles representam, dessas consciências tamoias que tentaram, com tais apelidos, macular a virgindade da incalculável duração da terra. 

Sapopemba é já um general qualquer, e tantos outros lugares do Rio de Janeiro vão perdendo insensivelmente os seus nomes tupis. Inhaúma126 é ainda dos poucos lugares da cidade que conserva o seu primitivo nome caboclo, zombando dos esforços dos nossos edis para apagá-lo. É um subúrbio de gente pobre, e o bonde que lá leva atravessa umas ruas de largura desigual, que, não se sabe por quê, ora são muito estreitas, ora muito largas, bordadas de casas e casitas sem que nelas se depare um jardinzinho mais tratado ou se lobrigue, aos fundos, uma horta mais viçosa. Há, porém, robustas e velhas mangueiras que protestam contra aquele abandono da terra. Fogem para lá, sobretudo para seus morros e escuros arredores, aqueles que ainda querem cultivar a Divindade como seus avós. 

Nas suas redondezas, é o lugar das macumbas, das práticas de feitiçaria com que a teologia da polícia implica, pois não pode admitir nas nossas almas depósitos de crenças ancestrais. O espiritismo se mistura a eles e a sua difusão é pasmosa. A Igreja católica unicamente não satisfaz o nosso povo humilde. É quase abstrata para ele, teórica. Da divindade, não dá, apesar das imagens, de água benta e outros objetos do seu culto, nenhum sinal palpável, tangível de que ela está presente. 

O padre, para o grosso do povo, não se comunica no mal com ela; mas o médium, o feiticeiro, o macumbeiro, se não a recebem nos seus transes, recebem, entretanto, almas e espíritos que, por já não serem mais da terra, estão mais perto de Deus e participam um pouco da sua eterna e imensa sabedoria. Os médiuns que curam merecem mais respeito e veneração que os mais famosos médicos da moda. Os seus milagres são contados de boca em boca, e a gente de todas as condições e matizes de raça a eles recorre nos seus desesperos de perder a saúde e ir ao encontro da Morte. 

O curioso — o que era preciso estudar mais devagar — é o amálgama de tantas crenças desencontradas a que preside a Igreja católica com os seus santos e beatos. A feitiçaria, o espiritismo, a cartomancia e a hagiologia católica se baralham naquelas práticas, de modo que faz parecer que de tal baralhamento de sentimentos religiosos possa vir nascer uma grande religião, como nasceram de semelhantes misturas as maiores religiões históricas. Na confusão do seu pensamento religioso, nas necessidades presentes de sua pobreza, nos seus embates morais e dos familiares, cada uma dessas crenças atende a uma solicitação de cada uma daquelas almas, e a cada instante de suas necessidades. 

A gravidade de pensamento que todo esse espetáculo provoca e as lembranças históricas que acodem fazem perguntar se a terra, que não tem querido guardar na sua grandeza traços das vidas e das almas que por ela têm passado, ainda desta vez, não consentirá que fiquem vestígios, pegadas, impressões das atuais que, nela, hoje sofrem e mergulham, a seu modo, no Mistério que nos cerca, para esquecê-las soturnamente; e pensa-se isto sob a luz do sol, alegre, clara, forte e alta, que recorta no céu azul as montanhas que se alongam para tocá-lo, tal como se vê nesse lugar de Inhaúma, antiga aldeia de índios, a serra dos Órgãos, solene, soberba... Numa das ruas desse humilde arrebalde, antes trilho que mesmo rua, em que as águas cavaram sulcos caprichosos, todo ele bordado de maricás que, quando floriam, tocavam-se de flocos brancos, morava em um barracão dona Felismina. 

O “barracão” é uma espécie arquitetônica muito curiosa e muito especial àquelas paragens da cidade. Não é a nossa conhecida choupana de sapê e de paredes “a sopapos”. É menos e é mais. É menos, porque em geral é menor, com muito menos acomodações; e mais, porque a cobertura é mais civilizada; é de zinco ou de telhas. Há duas espécies. Em uma, as paredes são feitas de tábuas; às vezes, verdadeiramente tábuas; em outras, de pedaços de caixões. A espécie, mais aparentada com o nosso “rancho” roceiro, possui as paredes como este: são de taipa. Estes últimos são mais baixos e a vegetação das bordas das ruas e caminhos os dissimula, aos olhos dos transeuntes; mas aqueles têm mais porte e não se envergonham de ser vistos. Há alguns com dois aposentos; mas quase sempre, tanto os de uma como de outra espécie, só possuem um. 

A cozinha é feita fora, sob um telheiro tosco, um puxado no telhado da edificação, para aproveitar o abrigo de uma das paredes da barraca; e tudo cercado do mais desolador abandono. Se o morador cria galinhas, elas vivem soltas, dormem nas árvores, misturam-se com as dos vizinhos e, por isso, provocam rixas violentas entre as mulheres e maridos, quando disputam a posse dos ovos. Por vezes, no fundo, na frente ou aos lados deles, há uma árvore de mais vulto: um cajueiro, um mamoeiro, uma pitangueira, uma jaqueira, uma laranjeira; mas nenhum sinal de amanho do terreno, de tentativa de cultura, a não ser um canteirozinho com uns pés de manjericão ou alecrim. Isto às vezes; e, às vezes também, uma touceira de bananeira. 

A guaxima cresce, e o capim, e a vassourinha, e o carrapicho e outros arbustos silvestres e tenazes. O barracão de dona Felismina era de um só aposento, mas o da vizinha, dona Emerenciana, tinha dois. Eram ambos da primeira espécie. Dona Emerenciana era casada com o senhor Romualdo, servente ou coisa que o valha em uma dependência da grande oficina do Trajano. Era preta como dona Felismina e honesta como ela. Defronte ficava a residência da Antônia, uma rapariga branca, com dois filhos pequenos, sempre sujos e rotos. A sua residência era mais modesta: as paredes do seu barraco eram de taipa. A vizinhança, ao mesmo tempo que falava dela, tinha-lhe piedade: 

— Coitada! Uma desgraçada! Uma perdida! Era bem nova ela, mas fanada pelo sofrimento e pela miséria. Com os seus vinte e poucos anos de idade, de boas feições, mesmo delicadas, a sua história devia ser a triste história de todas essas raparigas por aí... 

Mal comendo, ela e os filhos; mal tendo com que se cobrir, todas as manhãs, quando saía a comprar um pouco de café e açúcar, na venda do Antunes, e, na padaria do Camargo, um pão — que lhe teria custado, quem sabe! que profunda provação no seu pudor de mulher, para ganhá-lo — não se esquecia nunca de colher pelo caminho uns “boas-noites”, umas flores de melão-de-são-caetano, de pinhão, de quaresma, de manacás, de maricás — o que encontrasse — para enfeitar-se ou trazê-las nas mãos, em ramalhete. 

Todos da rua dos Maricás — era este o nome daquele trilho de Inhaúma — conheciam-lhe a vida, mas com a piedade e compaixão próprias à ternura do coração do povo humilde pela desgraça, tratavam-na como outra fosse ela e a socorriam nas suas horas de maiores aflições. Só o Antunes, o da venda, com o seu empedernido coração de futuro grande burguês, é que dizia, se lhe perguntavam quem era: — Uma vagabunda. Dona Felismina gozava de toda a consideração nas cercanias e até de crédito, tanto no Antunes, como no Camargo da padaria. 

Além de lavar para fora, tinha uma pequena pensão que lhe deixara o marido, guarda-freios da Central, morto em um desastre. Era uma preta de meia-idade, mas já sem atrativo algum. Tudo nela era dependurado e todas as suas carnes, flácidas. Lavava todo o dia e todo o dia vivia preocupada com o seu humilde mister. Ninguém lhe sabia uma falta, um desgarro qualquer, e todos a respeitavam pela sua honra e virtude. Era das pessoas mais estimadas da ruela e todos depositavam na humilde crioula a maior confiança. 

Só a Baiana tinha-a mais. Esta, porém, era “rica”. Morava em uma das poucas casas de tijolo da rua dos Espinhos, casa que era dela. Vendedora de angu, em outros tempos, conseguira juntar alguma coisa e adquirira aquela casita, a mais bem tratada da rua. Tinha “homem” enquanto lhe servia; e, quando ele vinha aborrecê-la mandava-o embora, mesmo a cabo de vassoura. Muito enérgica e animosa, possuía uma piedade contida que se revelou perfeitamente numa aventura curiosa de sua vida. Uma manhã, havia cinco ou seis anos, saindo com o seu tabuleiro de angu, encontrou em uma calçada um embrulho um tanto grande. Arriou o tabuleiro e foi ver o que era. Era uma criança, branca — uma menina. Deu os passos necessários e criava a criança, que, nas imediações, era conhecida por “Baianinha”. E, ao ir às compras na venda, o caixeiro lhe dizia por brincadeira: 

— “Baianinha”, tua mãe é negra. 

A pequena arrufava-se e respondia com indignação: 

— Negra é tu, “seu” burro! 

A Baiana, porém, era “rica”, estava mais distante. Dona Felismina, porém, ficava mais próximo da vida de toda aquela gente da rua. Os seus conselhos eram ouvidos e procurados, e os seus remédios eram aceitos como se partissem da prescrição de um doutor. Ninguém como ela sabia dar um chá conveniente, nem aconselhar em casos de dissídias domésticas. Detestava a feitiçaria, os bruxedos, os macumbeiros, com as suas orgias e barulhadas; mas inclinava-se para o espiritismo, frequentando as sessões do “seu” Frederico, um antigo colega do seu marido, mas branco, que morava adiante, um pouco acima. 

Além da medicina de chás e tisanas, ela aconselhava àquela gente os medicamentos homeopáticos. A beladona, o acônito, a briônia, o súlfur eram os seus remédios preferidos e quase sempre os tinha em casa, para o seu uso e dos outros. Certa vez salvou um dos filhos da Antônia de uma convulsão e esta lhe ficou tão grata que chegou a prometer que se emendaria.

Dona Felismina morava com o seu filho José, o Zeca, um pretinho de pele de veludo, macia de acariciar o olhar, com a carapinha sempre aparada pelos cuidados da mão de sua mãe, e também com as roupas sempre limpas, graças também aos cuidados dela. Tinha todos os traços de sua raça, os bons e os maus; e muita doçura e tristeza vaga nos pequenos olhos que quase ficavam no mesmo plano da testa estreita. Era-lhe este seu filho o seu braço direito, o seu único esteio, o arrimo de sua vida com os seus nove ou dez anos de idade. 

Doce, resignado e obediente, não havia ordem de sua mãe que ele não cumprisse religiosamente. De manhã, o seu encargo era levar e trazer a roupa dos fregueses; e ele carregava os tabuleiros de roupa e trazia as trouxas; sem o menor desvio de caminho. Se ia à casa do “seu” Carvalho, ia até lá, entregava ou recebia a roupa e voltava sem fazer a menor traquinada, a menor escapada de criança por aquelas ruas que são mais estradas que rua mesmo. Almoçava e a mãe quase sempre precisava: 

— Zeca, vai à venda e traz dois tostões de sabão “regador”. 

Na venda, entre todo aquele pessoal tão especial e curioso das vendas suburbanas: carroceiros, verdureiros, carvoeiros, de passagens; habitués do parati, como os há na cidade de chope; conversadores da vizinhança, gente sem ter que fazer que não se sabe como vive, mas que vive honestamente; um ou outro degradado da sua condição anterior ou nascimento — entre toda essa gente, Zeca era mais imperioso e gritava: 

— Caixeiro, “mi” serve já. Dois tostões de sabão “regador”! 

Se o caixeiro estava atendendo à dona Aninha, mulher do servente dos telégrafos, Fortes, e não vinha atendê-lo logo, Zeca insistia, fingindo-se irritado: 

— “Mi despache”, caixeiro! Dois tostões de sabão “regador”. 

“Seu” Eduardo, o caixeiro, que era bom e habituado a suportar a insolência dos pequenos que vão às compras, fazia docemente: 

— Espere, menino. Você não vê que estou servindo, aqui, a dona Aninha! 

A mãe tinha vontade de pô-lo no colégio; ela sentia a necessidade disso todas as vezes que era obrigada a somar os róis. Não sabendo ler, escrever e contar, tinha que pedir a “seu” Frederico, aquele “branco” que fora colega de seu marido. Mas, pondo-o no colégio, quem havia de levar-lhe e trazer-lhe a roupa? Quem havia de fazer-lhe as compras? 

À tarde, Zeca descansava, brincava com as crianças do lugar um pouco; mas, ao anoitecer, já estava perto da mãe que remendava a roupa dos fregueses, à luz do lampião de querosene, cuja fumaça enegrecia o zinco do teto do barracão. Se bem fosse com a mãe todos os meses receber a módica pensão que o pai deixara, na Caixa dos Guarda-Freios, o seu sonho não era viver no centro da cidade, nas suas ruas brilhantes, cheias de bondes, automóveis, carroças e gente. Zeca desprezava aquilo tudo. 

O seu sonho era o Engenho de Dentro e o seu cinema. Ter dinheiro, para ir sempre a ele, ver-lhe instantemente as “fitas” que os grandes cartazes anunciavam e o tímpano a soar continuamente insistia no convite de vê-las. Quando sua mãe permitia, aos domingos, com outra criança ajuizada da vizinhança, ia até à estação, até lá, defronte do fascinante cinema. Encostava-se, então, à grade da estrada de ferro e ficava a olhar, no alto, minutos a fio, aqueles grandes painéis, cheios de grandes figuras, deslumbrantes na sua cercadura de lâmpadas elétricas, como se tudo aquilo fosse uma promessa de felicidade. Como atingiria aquilo? O céu talvez não fosse mais belo... 

Em cima dos seus tamancos domingueiros, com o terno de casimira que a caridade do coronel Castro lhe dera, e a tesoura de sua mãe adaptara a seu corpo, ele, fascinado, não pensava senão naquele cinema brilhante de luzes e apinhado de povo. Nem o apito dos trens o distraía e só a passagem dos bondes elétricos aborrecia-o um pouco, por lhe tirar vista do divertimento. Não tinha inveja dos que entravam; o que ele queria era entrar também. Como havia de ser uma “fita”? As moças se moviam sob luzes? Como faziam-nas grandes, parecidas? Como apareciam os homens tal e qual? As árvores e as ruas? E sem falar, como é que tudo aquilo falava? Podia ter dinheiro para ir, pois, em geral, sempre os fregueses de sua mãe lhe davam um níquel ou outro; mas, mal os apanhava, levava-os à mãe que sempre andava necessitada deles, para a compra do trincal, do polvilho, do sabão e mesmo para a comida que comiam.

Distraí-los com o cinema seria feio e ingratidão para com a sua mãe. Um dia havia de ir ao cinema, sem sacrificá-la, sem enganá-la, como mau filho. Ele não o era como o Carlos que furtava os do próprio pai... Zeca, por seu procedimento, pela sua dedicação à mãe, era muito estimado de todos e todos lhe davam gratificações, gorjetas, balas, frutas, quando ia entregar ou buscar a roupa. Muitos se interessavam com a mãe, para pô-lo em um recolhimento, em um asilo; ela, porém, embora quisesse vê-lo sabendo ler, sempre objetava, e com razão, a necessidade que tinha dos seus serviços, pois era este seu único filho o braço direito dela, seu único auxílio, o seu único “homem”. 

Uma vez quase cedeu. O “seu” Castro, o coronel, empregado aposentado da alfândega, conhecido em Inhaúma pelo seu gênio benfazejo e seu infortúnio com os filhos e filhas, viera-lhe até à sua própria casa, até àquele barracão, naquela modesta rua, bordada de um lado e outro de sebes de maricás e de “pinhão”, e expôs-lhe a que vinha. Dona Felismina respondeu-lhe com lágrimas nos olhos: 

— Não posso, “seu” coronel; não posso... Como hei de viver sem ele? É ele quem me ajuda... Sei bem que é preciso aprender, saber, mas... 

— Você vai lá para casa, Felismina; e não precisa estar se matando. 

Titubeou a rapariga e o velho funcionário compreendeu, pois desde há muito já tinha compreendido, na gente de cor, especialmente nas negras, esse amor, esse apego à casa própria, à sua choupana, ao seu rancho, ao seu barracão — uma espécie de Protesto de Posse contra a dependência da escravidão que sofreram durante séculos. 

Apesar da recusa, o coronel Castro, em quem a idade e as desgraças domésticas tinham mais enchido de bondade o seu coração naturalmente bom, nunca deixou de interessar-se pela criança, que o penalizava excessivamente. A sua meiguice, a sua resignação, aquele árduo trabalho diário para a sua idade eram motivos para que o velho e tristonho aposentado sempre a olhasse com a mais extremada simpatia. 

Quando o pretinho ia à sua casa levar- lhe a sua ou a roupa das filhas, dava-lhe sempre qualquer coisa, puxava-lhe a língua, perguntava-lhe pelas suas necessidades. Certo dia, em começo do ano, o pequeno Zeca chegou-lhe em casa com a fisionomia um tanto transtornada. Parecia ter chorado e muito. O coronel, homem para quem, como disse um sábio, não havia nada insignificante e desprezível que pudesse causar dor ou prazer à mais humilde criatura, que não merecesse a atenção do filósofo — o coronel interrogou-o sobre o motivo de sua mágoa. 

— Foi tua mãe? 

— Não, “seu” coronel. 

— Que foi, então, Zeca? 

O pequeno não quis dizer e não cessava de olhar o chão, de encará-lo, de cravá-lo, de cavá-lo, de enterrar toda a sua vida nele. Zeca estava na varanda de uma velha casa de fazenda, como ainda as há muito por lá, varanda em parapeito e colunas, no clássico estilo dessas velhas habitações; o coronel nela também estava lendo os jornais, na cadeira de balanço, e só deixara a leitura quando avistou o pequeno que subia a ladeira com o tabuleiro de roupa à cabeça. A atitude do pequeno, a sua recusa em confessar o motivo do seu choro e o seu todo de desalento fizeram que o velho funcionário, já por ternura natural, já por bondosa curiosidade, procurasse a causa da dor que feria tão profundamente aquela criança tão pobre, tão humilde, tão desgraçada, quase miserável. 

— Dize, Zeca. Dize que eu te darei uma vestimenta de “diabinho” no Carnaval que está aí. 

O pretinho levantou a cabeça e olhou com um grande e brusco olhar de agradecimento, de comovido agradecimento àquele velho de tão belos cabelos brancos. Confessou; e Castro nada disse a ninguém da humilde e ingênua confissão do pretinho Zeca. 

Aproximou-se o Carnaval; e, quando foi sábado, véspera dele, dona Felismina retirou mais cedo dos arames a roupa branca que estivera a secar. Atarefada com esse serviço, ela não viu que o seu filho entrara-lhe pelo barracão adentro, sobraçando um embrulho guizalhante e um outro, com rasgões no papel, por onde saíam recurvados chifres e uma formidável língua vermelha. Era uma horrível máscara de “diabo”. 

Dona Felismina veio para o interior do barracão; e pôs-se a arrumar a roupa seca ou corada. Zeca, distraído, no outro extremo do aposento, não a viu entrar e, julgando-a lá fora, desembrulhou os apetrechos carnavalescos. Sobre a humilde e tosca mesa de pinho estendeu uma rubra vestimenta de ganga rala e uma máscara apavorante de olhos esbugalhados, língua retorcida e chifres agressivos, apareceu tão amedrontadora que se o próprio diabo a visse teria medo. 

A mãe, ao barulho dos guizos, virou-se, e, vendo aquilo, ficou subitamente cheia de más suspeitas: 

— Zeca, que é isso? 

Uma visão dolorosa lhe chegou aos olhos, da casa de detenção, das suas grades, dos seus muros altos... Ah! meu Deus! Antes uma boa morte!... E repetiu ainda mais severamente: 

— Que é isso, Zeca? Onde você arranjou isso? 

— Não... mamãe... não... 

— Você roubou, meu filho?... Zeca, meu filho! Pobre, sim; mas ladrão, não! Ah! meu Deus!...

Onde você arranjou isso, Zeca? A pobre mulher quase chorava e o pequeno, transido de medo e com a comoção diante da dor da mãe, balbuciava, titubeava e as palavras não lhe vinham. Afinal, disse: 

— Mas... mamãe... não foi assim... 

— Como foi? Diz! 

— Foi “seu” Castro quem me deu. Eu não pedi... 

Dona Felismina sossegou e o pequeno também. Passados instantes, ela perguntou com outra voz: 

— Mas para que você quer isso? Antes tivesse dado a você umas camisas... Para que essas bobagens? Isso é para gente rica, que pode. Enfim... 

— Mas, mamãe, eu aceitei, porque precisava. 

— Disto! Ninguém precisa disto! Precisa-se de roupa e comida... Isto são tolices! 

— Eu precisava, sim senhora. 

— Como, você precisava? 

— Não lhe contei que há meses, diversas vezes, quando passava, para ir à casa de dona Ludovina, diante do portão do capitão Albuquerque, os meninos gritavam: ó moleque! — ó moleque! 

— ó negro! 

— ó gibi!? Não lhe contei? 

— Contou-me; e daí? 

— Por isso quando o coronel me prometeu a fantasia, eu aceitei. 

— Que tem uma coisa com a outra? 

— Queria amanhã passar por lá e meter medo aos meninos que me vaiaram.


O moleque


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quinta-feira, 11 de março de 2021

O Homem que sabia javanês

Lima Barreto

Em uma confeitaria, certa vez, ao meu amigo Castro, contava eu as partidas que havia pregado às convicções e às respeitabilidades, para poder viver. Houve mesmo, uma dada ocasião, quando estive em Manaus, em que fui obrigado a esconder a minha qualidade de bacharel, para mais confiança obter dos clientes, que afluíam ao meu escritório de feiticeiro e adivinho. Contava eu isso.

O meu amigo ouvia-me calado, embevecido, gostando daquele meu Gil Blas vivido, até que, em uma pausa da conversa, ao esgotarmos os copos, observou a esmo:

- Tens levado uma vida bem engraçada, Castelo !

- Só assim se pode viver... Isto de uma ocupação única: sair de casa a certas horas, voltar a outras, aborrece, não achas? Não sei como me tenho agüentado lá, no consulado !

- Cansa-se; mas, não é disso que me admiro. O que me admira, é que tenhas corrido tantas aventuras aqui, neste Brasil imbecil e burocrático.

- Qual! Aqui mesmo, meu caro Castro, se podem arranjar belas páginas de vida. Imagina tu que eu já fui professor de javanês!

- Quando? Aqui, depois que voltaste do consulado?

- Não; antes. E, por sinal, fui nomeado cônsul por isso.

- Conta lá como foi. Bebes mais cerveja?

- Bebo.

Mandamos buscar mais outra garrafa, enchemos os copos, e continuei:

- Eu tinha chegado havia pouco ao Rio estava literalmente na miséria. Vivia fugido de casa de pensão em casa de pensão, sem saber onde e como ganhar dinheiro, quando li no Jornal do Comércio o anuncio seguinte:

"Precisa-se de um professor de língua javanesa. Cartas, etc." 

Ora, disse cá comigo, está ali uma colocação que não terá muitos concorrentes; se eu capiscasse quatro palavras, ia apresentar-me. Saí do café e andei pelas ruas, sempre a imaginar-me professor de javanês, ganhando dinheiro, andando de bonde e sem encontros desagradáveis com os "cadáveres". Insensivelmente dirigi-me à Biblioteca Nacional. Não sabia bem que livro iria pedir; mas, entrei, entreguei o chapéu ao porteiro, recebi a senha e subi. Na escada, acudiu-me pedir a Grande Encyclopédie, letra J, a fim de consultar o artigo relativo a Java e a língua javanesa. 

Dito e feito. Fiquei sabendo, ao fim de alguns minutos, que Java era uma grande ilha do arquipélago de Sonda, colônia holandesa, e o javanês, língua aglutinante do grupo maleo-polinésico, possuía uma literatura digna de nota e escrita em caracteres derivados do velho alfabeto hindu.

A Encyclopédie dava-me indicação de trabalhos sobre a tal língua malaia e não tive dúvidas em consultar um deles. Copiei o alfabeto, a sua pronunciação figurada e saí. Andei pelas ruas, perambulando e mastigando letras. Na minha cabeça dançavam hieróglifos; de quando em quando consultava as minhas notas; entrava nos jardins e escrevia estes calungas na areia para guardá-los bem na memória e habituar a mão a escrevê-los.

À noite, quando pude entrar em casa sem ser visto, para evitar indiscretas perguntas do encarregado, ainda continuei no quarto a engolir o meu "a-b-c" malaio, e, com tanto afinco levei o propósito que, de manhã, o sabia perfeitamente. Convenci-me que aquela era a língua mais fácil do mundo e saí; mas não tão cedo que não me encontrasse com o encarregado dos aluguéis dos cômodos:

- Senhor Castelo, quando salda a sua conta?

Respondi-lhe então eu, com a mais encantadora esperança:

- Breve... Espere um pouco... Tenha paciência... Vou ser nomeado professor de javanês, e...

Por aí o homem interrompeu-me:

- Que diabo vem a ser isso, Senhor Castelo?

Gostei da diversão e ataquei o patriotismo do homem:

- É uma língua que se fala lá pelas bandas do Timor. Sabe onde é?

Oh! alma ingênua! O homem esqueceu-se da minha dívida e disse-me com aquele falar forte dos portugueses:

- Eu cá por mim, não sei bem; mas ouvi dizer que são umas terras que temos lá para os lados de Macau. E o senhor sabe isso, Senhor Castelo?

Animado com esta saída feliz que me deu o javanês, voltei a procurar o anúncio. Lá estava ele. Resolvi animosamente propor-me ao professorado do idioma oceânico. Redigi a resposta, passei pelo Jornal e lá deixei a carta. Em seguida, voltei à biblioteca e continuei os meus estudos de javanês. Não fiz grandes progressos nesse dia, não sei se por julgar o alfabeto javanês o único saber necessário a um professor de língua malaia ou se por ter me empenhado mais na bibliografia e história literária do idioma que ia ensinar.

Ao cabo de dois dias, recebia eu uma carta para ir falar ao doutor Manuel Feliciano Soares Albernaz, Barão de Jacuecanga, à Rua Conde de Bonfim, não me recordo bem que numero. E preciso não te esqueceres que entrementes continuei estudando o meu malaio, isto é, o tal javanês. Além do alfabeto, fiquei sabendo o nome de alguns autores, também perguntar e responder "como está o senhor?" - e duas ou três regras de gramática, lastrado todo esse saber com vinte palavras do léxico.

Não imaginas as grandes dificuldades com que lutei, para arranjar os quatrocentos réis da viagem! É mais fácil - podes ficar certo - aprender o javanês... Fui a pé. Cheguei suadíssimo; e, Com maternal carinho, as anosas mangueiras, que se perfilavam em alameda diante da casa do titular, me receberam, me acolheram e me reconfortaram. Em toda a minha vida, foi o único momento em que cheguei a sentir a simpatia da natureza...

Era uma casa enorme que parecia estar deserta; estava mal tratada, mas não sei porque me veio pensar que nesse mau tratamento havia mais desleixo e cansaço de viver que mesmo pobreza. Devia haver anos que não era pintada. As paredes descascavam e os beirais do telhado, daquelas telhas vidradas de outros tempos, estavam desguarnecidos aqui e ali, como dentaduras decadentes ou mal cuidadas.

Olhei um pouco o jardim e vi a pujança vingativa com que a tiririca e o carrapicho tinham expulsado os tinhorões e as begônias. Os crótons continuavam, porém, a viver com a sua folhagem de cores mortiças. Bati. Custaram-me a abrir. Veio, por fim, um antigo preto africano, cujas barbas e cabelo de algodão davam à sua fisionomia uma aguda impressão de velhice, doçura e sofrimento.

Na sala, havia uma galeria de retratos: arrogantes senhores de barba em colar se perfilavam enquadrados em imensas molduras douradas, e doces perfis de senhoras, em bandós, com grandes leques, pareciam querer subir aos ares, enfunadas pelos redondos vestidos à balão; mas, daquelas velhas coisas, sobre as quais a poeira punha mais antiguidade e respeito, a que gostei mais de ver foi um belo jarrão de porcelana da China ou da Índia, como se diz. Aquela pureza da louça, a sua fragilidade, a ingenuidade do desenho e aquele seu fosco brilho de luar, diziam-me a mim que aquele objeto tinha sido feito por mãos de criança, a sonhar, para encanto dos olhos fatigados dos velhos desiludidos...

Esperei um instante o dono da casa. Tardou um pouco. Um tanto trôpego, com o lenço de alcobaça na mão, tomando veneravelmente o simonte de antanho, foi cheio de respeito que o vi chegar. Tive vontade de ir-me embora. Mesmo se não fosse ele o discípulo, era sempre um crime mistificar aquele ancião, cuja velhice trazia à tona do meu pensamento alguma coisa de augusto, de sagrado. Hesitei, mas fiquei.

- Eu sou, avancei, o professor de javanês, que o senhor disse precisar.

- Sente-se, respondeu-me o velho. O senhor é daqui, do Rio?

- Não, sou de Canavieiras.

- Como? fez ele. Fale um pouco alto, que sou surdo, 

- Sou de Canavieiras, na Bahia, insisti eu. -

Onde fez os seus estudos?

- Em São Salvador.

- Em onde aprendeu o javanês? indagou ele, com aquela teimosia peculiar aos velhos.

Não contava com essa pergunta, mas imediatamente arquitetei uma mentira. Contei-lhe que meu pai era javanês. Tripulante de um navio mercante, viera ter à Bahia, estabelecera-se nas proximidades de Canavieiras como pescador, casara, prosperara e fora com ele que aprendi javanês.

- E ele acreditou? E o físico? perguntou meu amigo, que até então me ouvira calado.

- Não sou, objetei, lá muito diferente de um javanês. Estes meus cabelos corridos, duros e grossos e a minha pele basané podem dar-me muito bem o aspecto de um mestiço de malaio...Tu sabes bem que, entre nós, há de tudo: índios, malaios, taitianos, malgaches, guanches, até godos. É uma comparsaria de raças e tipos de fazer inveja ao mundo inteiro.

- Bem, fez o meu amigo, continua.

- O velho, emendei eu, ouviu-me atentamente, considerou demoradamente o meu físico, pareceu que me julgava de fato filho de malaio e perguntou-me com doçura:

- Então está disposto a ensinar-me javanês?

- A resposta saiu-me sem querer: - Pois não.

- O senhor há de ficar admirado, aduziu o Barão de Jacuecanga, que eu, nesta idade, ainda queira aprender qualquer coisa, mas...

- Não tenho que admirar. Têm-se visto exemplos e exemplos muito fecundos... ? .

- O que eu quero, meu caro senhor....

- Castelo, adiantei eu.

- O que eu quero, meu caro Senhor Castelo, é cumprir um juramento de família. Não sei se o senhor sabe que eu sou neto do Conselheiro Albernaz, aquele que acompanhou Pedro I, quando abdicou. Voltando de Londres, trouxe para aqui um livro em língua esquisita, a que tinha grande estimação. Fora um hindu ou siamês que lho dera, em Londres, em agradecimento a não sei que serviço prestado por meu avô. Ao morrer meu avô, chamou meu pai e lhe disse: 

"Filho, tenho este livro aqui, escrito em javanês. Disse-me quem mo deu que ele evita desgraças e traz felicidades para quem o tem. Eu não sei nada ao certo. Em todo o caso, guarda-o; mas, se queres que o fado que me deitou o sábio oriental se cumpra, faze com que teu filho o entenda, para que sempre a nossa raça seja feliz." 

Meu pai, continuou o velho barão, não acreditou muito na história; contudo, guardou o livro. Às portas da morte, ele mo deu e disse-me o que prometera ao pai. Em começo, pouco caso fiz da história do livro. Deitei-o a um canto e fabriquei minha vida. Cheguei até a esquecer-me dele; mas, de uns tempos a esta parte, tenho passado por tanto desgosto, tantas desgraças têm caído sobre a minha velhice que me 1embrei do talismã da família. Tenho que o ler, que o compreender, se não quero que os meus últimos dias anunciem o desastre da minha posteridade; e, para entendê-lo, é claro, que preciso entender o javanês. Eis aí.

Calou-se e notei que os olhos do velho se tinham orvalhado. Enxugou discretamente os olhos e perguntou-me se queria ver o tal livro. Respondi-lhe que sim. Chamou o criado, deu-lhe as instruções e explicou-me que perdera todos os filhos, sobrinhos, só lhe restando uma filha casada, cuja prole, porém, estava reduzida a um filho, débil de corpo e de saúde frágil e oscilante.

Veio o livro. Era um velho calhamaço, um in-quarto antigo, encadernado em couro, impresso em grandes letras, em um papel amarelado e grosso. Faltava a folha do rosto e por isso não se podia ler a data da impressão. Tinha ainda umas páginas de prefácio, escritas em inglês, onde li que se tratava das histórias do príncipe Kulanga, escritor javanês de muito mérito.

Logo informei disso o velho barão que, não percebendo que eu tinha chegado aí pelo inglês, ficou tendo em alta consideração o meu saber malaio. Estive ainda folheando o cartapácio, à laia de quem sabe magistralmente aquela espécie de vasconço, até que afinal contratamos as condições de preço e de hora, comprometendo-me a fazer com que ele lesse o tal alfarrábio antes de um ano.

Dentro em pouco, dava a minha primeira lição, mas o velho não foi tão diligente quanto eu. Não conseguia aprender a distinguir e a escrever nem sequer quatro letras. Enfim, com metade do alfabeto levamos um mês e o Senhor Barão de Jacuecanga não ficou lá muito senhor da matéria: aprendia e desaprendia.

A filha e o genro (penso que até aí nada sabiam da história do livro) vieram a ter notícias do estudo do velho; não se incomodaram. Acharam graça e julgaram a coisa boa para distraí-lo.

Mas com o que tu vais ficar assombrado, meu caro Castro, é com a admiração que o genro ficou tendo pelo professor de javanês. Que coisa Única! Ele não se cansava de repetir: “É um assombro! Tão moço! Se eu soubesse isso, ah! onde estava !”

O marido de Dona Maria da Glória (assim se chamava a filha do barão), era desembargador, homem relacionado e poderoso; mas não se pejava em mostrar diante de todo o mundo a sua admiração pelo meu javanês. Por outro lado, o barão estava contentíssimo. Ao fim de dois meses, desistira da aprendizagem e pedira-me que lhe traduzisse, um dia sim outro não, um trecho do livro encantado. Bastava entendê-lo, disseme ele; nada se opunha que outrem o traduzisse e ele ouvisse. Assim evitava a fadiga do estudo e cumpria o encargo.

Sabes bem que até hoje nada sei de javanês, mas compus umas histórias bem tolas e impingi-as ao velhote como sendo do crônicon. Como ele ouvia aquelas bobagens !... Ficava extático, como se estivesse a ouvir palavras de um anjo. E eu crescia aos seus olhos !

Fez-me morar em sua casa, enchia-me de presentes, aumentava-me o ordenado. Passava, enfim, uma vida regalada. Contribuiu muito para isso o fato de vir ele a receber uma herança de um seu parente esquecido que vivia em Portugal. O bom velho atribuiu a cousa ao meu javanês; e eu estive quase a crê-lo também.

Fui perdendo os remorsos; mas, em todo o caso, sempre tive medo que me aparecesse pela frente alguém que soubesse o tal patuá malaio. E esse meu temor foi grande, quando o doce barão me mandou com uma carta ao Visconde de Caruru, para que me fizesse entrar na diplomacia. Fiz-lhe todas as objeções: a minha fealdade, a falta de elegância, o meu aspecto tagalo. 

- "Qual! retrucava ele. Vá, menino; você sabe javanês!" 

Fui. Mandou-me o visconde para a Secretaria dos Estrangeiros com diversas recomendações. Foi um sucesso. O diretor chamou os chefes de secção: 

"Vejam só, um homem que sabe javanês - que portento!"

Os chefes de secção levaram-me aos oficiais e amanuenses e houve um destes que me olhou mais com ódio do que com inveja ou admiração. E todos diziam: "Então sabe javanês? É difícil? Não há quem o saiba aqui!"

O tal amanuense, que me olhou com ódio, acudiu então: "É verdade, mas eu sei canaque. O senhor sabe?" Disse-lhe que não e fui à presença do ministro.

A alta autoridade levantou-se, pôs as mãos às cadeiras, concertou o pince-nez no nariz e perguntou: "Então, sabe javanês?" Respondi-lhe que sim; e, à sua pergunta onde o tinha aprendido, contei-lhe a história do tal pai javanês. "Bem, disse-me o ministro, o senhor não deve ir para a diplomacia; o seu físico não se presta... O bom seria um consulado na Ásia ou Oceania. Por ora, não há vaga, mas vou fazer uma reforma e o senhor entrará. De hoje em diante, porém, fica adido ao meu ministério e quero que, para o ano, parta para Bâle, onde vai representar o Brasil no Congresso de Lingüística. Estude, leia o Hovelacque, o Max Müller, e outros!"

Imagina tu que eu até aí nada sabia de javanês, mas estava empregado e iria representar o Brasil em um congresso de sábios.

O velho barão veio a morrer, passou o livro ao genro para que o fizesse chegar ao neto, quando tivesse a idade conveniente e fez-me uma deixa no testamento.

Pus-me com afã no estudo das línguas maleo-polinésicas; mas não havia meio! Bem jantado, bem vestido, bem dormido, não tinha energia necessária para fazer entrar na cachola aquelas coisas esquisitas. Comprei livros, assinei revistas: Revue Anthropologique et Linguistique, Proceedings of the English-Oceanic Association, Archivo Glottologico Italiano, o diabo, mas nada! E a minha fama crescia. Na rua, os informados apontavam-me, dizendo aos outros: "Lá vai o sujeito que sabe javanês."

Nas livrarias, os gramáticos consultavam-me sobre a colocação dos pronomes no tal jargão das ilhas de Sonda. Recebia cartas dos eruditos do interior, os jornais citavam o meu saber e recusei aceitar uma turma de alunos sequiosos de entenderem o tal javanês. A convite da redação, escrevi, no Jornal do Comércio um artigo de quatro colunas sobre a literatura javanesa antiga e moderna...

- Como, se tu nada sabias? interrompeu-me o atento Castro.

- Muito simplesmente: primeiramente, descrevi a ilha de Java, com o auxílio de dicionários e umas poucas de geografias, e depois citei a mais não poder.

- E nunca duvidaram? perguntou-me ainda o meu amigo.

- Nunca. Isto é, uma vez quase fico perdido. A polícia prendeu um sujeito, um marujo, um tipo bronzeado que só falava uma língua esquisita. Chamaram diversos intérpretes, ninguém o entendia. Fui também chamado, com todos os respeitos que a minha sabedoria merecia, naturalmente. Demorei-me em ir, mas fui afinal. O homem já estava solto, graças à intervenção do cônsul holandês, a quem ele se fez compreender com meia dúzia de palavras holandesas. E o tal marujo era javanês - uf!

Chegou, enfim, a época do congresso, e lá fui para a Europa. Que delícia! Assisti à inauguração e às sessões preparatórias. Inscreveram-me na secção do tupi-guarani e eu abalei para Paris. Antes, porém, fiz publicar no Mensageiro de Bâle o meu retrato, notas biográficas e bibliográficas. Quando voltei, o presidente pediu-me desculpas por me ter dado aquela secção; não conhecia os meus trabalhos e julgara que, por ser eu americano brasileiro, me estava naturalmente indicada a secção do tupi- guarani. Aceitei as explicações e até hoje ainda não pude escrever as minhas obras sobre o javanês, para lhe mandar, conforme prometi.

Acabado o congresso, fiz publicar extratos do artigo do Mensageiro de Bâle, em Berlim, em Turim e Paris, onde os leitores de minhas obras me ofereceram um banquete, presidido pelo Senador Gorot. Custou-me toda essa brincadeira, inclusive o banquete que me foi oferecido, cerca de dez mil francos, quase toda a herança do crédulo e bom Barão de Jacuecanga.

Não perdi meu tempo nem meu dinheiro. Passei a ser uma glória nacional e, ao saltar no cais Pharoux, recebi uma ovação de todas as classes sociais e o presidente da república, dias depois, convidava-me para almoçar em sua companhia.

Dentro de seis meses fui despachado cônsul em Havana, onde estive seis anos e para onde voltarei, a fim de aperfeiçoar os meus estudos das línguas da Malaia, Melanésia e Polinésia.

- É fantástico, observou Castro, agarrando o copo de cerveja.

- Olha: se não fosse estar contente, sabes que ia ser ?

- Que?

- Bacteriologista eminente. Vamos?

- Vamos.

Gazeta da Tarde, Rio.28-4-1911.


O Homem Que Sabia Javanês 


Critica de  Élide Valarini Oliver



domingo, 7 de março de 2021

Uê e os labirintos do tráfico no Rio

Eraldo Medeiros, o Uê
Poder, traição e morte: A história do traficante que criou uma guerra dentro da própria facção
O Globo, 05/03/2021

Os passageiros do voo 375 da Varig, que decolou de Fortaleza com destino ao Rio naquela terça-feira, viravam a cabeça para a parte de trás do avião com pontos de interrogação na testa. Quem era o rapaz de vinte e tantos anos de idade na última fileira, algemado e cercado por 12 policiais armados? A resposta, porém, já ganhava destaque no noticiário das emissoras de TVs de todo o país.

   

O traficante Uê é levado de helicóptero para o presídio de Bangu 1 | Foto de Jorge Peter/Agência O GLOBO

O preso era Ernaldo Pinto de Medeiros, o Uê, bandido mais procurado da capital fluminense numa época em que as milícias ainda não avançavam sobre as favelas, levando novas formas de tirania e disputando o controle de comunidades. Um grupo de 30 agentes havia passado 12 meses em seu encalço. A captura, no dia 5 de março de 1996, há 25 anos, num hotel quatro estrelas com vista para o mar do Nordeste, foi motivo de celebração na polícia e alterou o cenário do crime no Rio.

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Então chefe do tráfico no Complexo do Alemão, Uê estava se passando por um engenheiro de férias na capital cearense. Hospedado no apartamento 808 do luxuoso Seara Praia Hotel desde a sexta-feira anterior, com o nome de Juarez Soares de Oliveira, ele foi supreendido pelos policiais por volta das 10h.

- Percorremos vários hotéis até chegar naquele, onde uma camareira reconheceu Uê pela foto que mostramos na recepção. Quando subimos, ele estava saindo do quarto. Não houve resistência - relembra o detetive José Carlos Guimarães, chefe do grupo de policiais civis do Rio responsáveis pela captura. - Uê era o maior fornecedor de armas e drogas do estado. Ele controlava as rotas que vinham do Paraguai e estava em vias de fazer conexões na Colômbia que o tornariam ainda mais poderoso. A prisão dele quebrou essa trajetória.

Além de interromper a escalada de Uê no tráfico, a captura do bandido iniciava um novo capítulo na guerra fraticida que ele próprio havia gerado nas entranhas de sua antiga facção: o Comando Vermelho (CV).

Mas, para explicar esse conflito entre peixes grandes do tráfico, é preciso voltar mais no tempo. Ernaldo Pinto Medeiros nasceu na Favela do Adeus em 23 de abril de 1968. Ele tinha 12 anos quando começou a praticar pequenos delitos, influenciado pelo contato com alguns criminosos na comunidade. Segundo relatos, o pai de Uê guardava armas para traficantes em casa. Aos 17 anos, o jovem foi detido pela primeira vez, por assaltar um ônibus. Aos 18, foi preso novamente, por receptação de arma militar.

Em pouco tempo, Uê se tornou chefe do tráfico no morro onde nasceu, apadrinhado por José Carlos dos Reis Encina, o Escadinha, na época um dos principais líderes do Comando Vermelho. O elo com o bandido mais velho não apenas facilitou a ascensão de Uê na facção como também, mais tarde, salvou o traficante depois que ele organizou o assassinato de um outro figurão de seu próprio bando.

Orlando da Conceição era conhecido como Orlando Jogador por causa dos tempos como atleta do Olaria, clube de futebol da Zona Norte do Rio. Após deixar os gramados, tornou-se um dos maiores traficantes da cidade. Comandava a venda de drogas no Complexo do Alemão.
Em teoria, Jogador e Uê eram aliados, ambos líderes do CV. Mas Uê queria controlar as rotas de remessas de armas e drogas e enxergava em Jogador um rival. No dia 14 de junho de 1994, ele colocou em prática um plano traiçoeiro. O bandido fingiu ter sido "mineirado", ou seja, simulou que tinha sido sequestrado por policiais que o estariam extorquindo. Daí, enviou comparsas para "pedir a ajuda" de Jogador.

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Segundo as investigações da época, Jogador reuniu a tropa e colocou US$ 300 mil numa mala, dinheiro que serviria para libertar o "aliado". Quando menos esperavam, porém, a gangue de Uê sacou as armas. O então chefe do tráfico no Alemão e 11 de seus comparsas foram mortos sem ter tempo de reagir. O massacre foi noticiado pela imprensa, que destacou a execução do "maior traficante do Rio", traído por um membro de sua facção.

- Na época, Uê disse que matou Jogador porque ele tinha dado o tiro que deixou seu irmão numa cadeira de rodas. Na verdade, era tudo disputa pelo controle das rotas do tráfico - explica o detetive Guimarães, hoje lotado na Operação Barreira Fiscal.

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O assassinato de Orlando deu início a uma série de conflitos entre traficantes nas favelas e nos presídios. O Comando Vermelho foi rachado. De um lado, estavam aqueles que queriam a "pena de morte" para Uê. Do outro, os aliados do traficante. Muitos óbitos nos meses e anos seguintes foram atribuídos a essa guerra.

No dia 30 de agosto de 1994, Uê convidou repórteres de três jornais, entre eles O GLOBO, para uma entrevista coletiva, no Morro do Juramento. Armado com fuzis e pistolas, sentado num sofá com a cabeça coberta para não ser identificado, ele disse que não era responsável pela guerra que começou após a morte de Jogador.

-  Agora, tudo o que acontece, falam que sou eu. Ninguém investiga nada, a polícia não está nem aí - disse o bandido, que não confessou o assassinato, mas afirmou: - Aquilo foi um problema pessoal, questão famíliar.

Com a cabeça coberta durante entrevista em 1994, ainda em liberdade | Foto de Ricardo Leoni/Agência O GLOBO

Entre aqueles que queriam Uê morto, estavam os chefes mais jovens do Comando Vermelho. O bandido, porém, foi salvo por Escadinha e a ala mais sênior do bando. Os insatisfeitos criaram, então, o Comando Vermelho Jovem (CVJ), liderado por Marcinho VP, que vinha ganhando poder na facção e se tornou inimigo mortal do assassino de Orlando. Chamuscado, Uê deixou o CV, mas continuou crescendo no mundo do crime.

- Ele vendia um grande volume de armas e drogas para favelas, no atacado e no varejo. Comercializava até com rivais, por meio de laranjas - conta Guimarães, que também atuou na prisão de Marcinho VP, em setembro de 1996, quando o bandido já havia firmado parceria com o contrabandista de armas e drogas Luiz Fernando da Costa, mais conhecido como Fernandinho Beira-Mar.

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Depois de preso, Uê teve frustrados os planos de criar as conexões que buscava com o crime organizado na Colômbia. Ele pretendia trazer remessas de cocaína a preços baixos e com mais qualidade. Por outro lado, cotinuou exercendo grande influência no tráfico do Rio de dentro da prisão. Foi no Complexo Peniteniciário de Bangu, na Zona Oeste, que ele fundou sua própria facção.

Com Uê e Marcinho na cadeia, em 1996, o conflito entre eles tomou conta do presídio de Bangu 1. Os aliados de Uê, ameaçados, começaram a pedir transferência para uma determinada galeria do presídio, dizendo que eram "amigos dos amigos de lá". Os "amigos de lá" eram Uê e seu parceiro Celso Luís Rodrigues, o Celsinho da Vila Vintém. Estava sendo batizada, então, a facção Amigos dos Amigos (ADA).

Uê no Fórum de Justiça, em agosto de 2002, semanas antes de ser morto | Foto de Ricardo Leoni/Agência O GLOBO

A ADA se aliou ao Terceiro Comando para disputar territórios com o CV, constituindo o Terceiro Comando dos Amigos. Coordenando a facção de dentro da cadeia, onde cumpria pena de mais de 200 anos de prisão, Uê continuou enriquecendo. Estima-se que seus negócios movimentavam cerca de R$ 20 milhões por ano, há duas décadas atrás. Sua mulher e filhos moravam numa casa de luxo no Recreio dos Bandeirantes, na Zona Oeste. Ele tinha ainda um sítio de cinco mil metros quadrados em Pedra de Guaratiba, na mesma região, com piscina, parquinho e campo de futebol.

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Mas, como a maioria dos traficantes, Uê não podia desfrutar de sua fortuna. Ele ficou preso até morrer de forma violenta, como muitos de seus pares.

Em abril de 2001, a polícia prendeu Fernandinho Beira-Mar, o contrabandista de armas e drogas que tinha se tornado chefe do Comando Vermelho e estava na Colômbia tentando fazer as conexões que Uê fora impedido de firmar. Assim como VP, Beira-Mar era um arquirrival de Uê. Ele foi levado para o Complexo de Bangu, que virou uma panela de pressão com a presença de tantos inimigos perigosos. No dia 11 de setembro de 2002, enquanto o mundo todo temia um novo atentado da Al-Qaeda, um ano após os ataques ao World Trade Center, a panela de pressão na Zona Oeste do Rio explodiu.

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Segundo escutas da Polícia Civil, Uê tinha um plano para matar o rival no presídio, mas o traficante nascido em Duque de Caxias agiu antes. Beira-Mar comandou uma rebelião que tomou o presídio de "segurança máxima" de Bangu 1. Com o controle das galerias, fazendo diversos reféns, ele e seus comparsas ficaram livres para eliminar quem quisessem. Cinco rivais do Terceiro Comando e da ADA foram assassinados. Entre eles, estava Uê. O corpo do traficante que provocara uma guerra em sua própria facção foi encontrado carbonizado dentro de sua cela.

"Está dominado", festejou Beira-Mar durante uma conversa por telefone gravada por uma escuta policial. Mais tarde, o líder da rebelião seria condenado a 120 anos de cadeia pelos assassinatos cometidos durante o motim. Em 2015, suas penas somavam mais de 300 anos de cadeia. Atualmente, o bandido cumpre pena na Penitenciária Federal de Mossoró, no Rio Grande do Norte.

 

 

Ernaldo Pinto, o Uê, em registro de 1994, aos 26 anos | Reprodução




sábado, 6 de março de 2021

Mulher traída e a virada

Conheço Cátia de há muito. Lá de Bauru, SP, quando ela já estava casada e com dois filhos de um segundo casamento. Reencontramo-nos em São Paulo, por acaso, num boteco no Bexiga. Ela com 61 anos e eu com um a menos.

A conversa, regada a uísque e depois vinho branco no jantar foi longa. Confissão pra lá, confissão pra cá, ela me disse que deu uma de Nora e chutou o balde no casamento em Bauru e se mandou para São Paulo. Nora é a personagem da peça "Casa das Bonecas" de Ibsen. Nora se cansou de ser boneca em família e deixou o marido e filhos para ser mulher e não apenas esposa e mãe.

E porque Cátia chutou o barraco? Descobriu que o marido a traia com uma mulher mais nova. O cafajeste tinha uma namorada. Chega de bandalheira! disse ela. Arrumou as malas, conversou com os filhos e se mandou. Deixou a vida "estável" e foi pro mundo. Em tempo: em Bauru Cátia trabalhava como gerente de um supermercado. Em São Paulo conseguiu um emprego semelhante.

E como sentiu a separação, Cátia? Perguntei. Eu me sentia uma inútil. Achei que tivesse acabado como mulher, que a culpa era minha porque não o satisfazia e ele precisou buscar outras fora. Minha autoestima ficou lá embaixo e eu acreditava que jamais conseguiria me reerguer. Me mudei para São Paulo, procurei uma terapeuta e voltei a trabalhar.

A virada e a vingança

Até o casamento, Cátia tinha um único homem como parceiro sexual. Achava aquilo ótimo e se bastava porque não tinha referências. Não imaginava outra coisa no sexo. Mas, depois da traição e do divórcio a coisa mudou.

Cátia se libertou das amarras e vislumbrou muitas possibilidades. E o diabo fustigou, pro bem e pro mal. Ela fez um plano de vingança: transar com 22 homens, um para cada ano de casada. Sim, o casamento de Cátia durou 22 anos. Para iniciar, criou um perfil no Face book e se apresentou.

A mulher de 61 anos se transformou. No começo tinha insegurança de vestir uma roupa e se preocupava se o homem ia gostar. Com o tempo já vestia uma saia justa sem calcinha e não queria saber se o homem gostava ou não. No começo tinha alguns preconceitos em relação ao sexo. Com o tempo ficou como o diabo gosta. E ela gostou.

Cátia me fez um relato certeiro sobre as "imperfeições do tempo". Num motel ao se ver nua num daqueles espelhos enormes observou a celulite e os seios caídos. No começo ficou envergonhada, mas os caras achavam ela linda. Aí a virada. Cátia pela, primeira vez, começou a gostar do próprio corpo. Ela viu que podia por decote, saia justa e batom com cores fortes. Me achei uma delícia da meia idade, disse Cátia. Meu corpo, minhas regras.

Os 22 casos e os fetiches desvendados

Hoje, eu e Cátia somos amigos. E somos boa companhia de bar. Tem dias que saímos do bar embriagados e tortos de tanta bebida, mas saciados das confissões mútuas. Um dia ela me disse dos casos e fetiches. Resumo aqui alguns.

Prazer: orgasmo é a finalização. O melhor é o prazer durante o sexo. É o que vale. Às vezes, a situação era tão excitante que me segurava para aproveitar mais.

Posições: ficamos de pé no quarto e ele me despiu. Segurou minha cintura e explorou meu corpo. Deitamos e continuamos a nos explorar. Primeiro ele ficou em cima de mim. Depois me coloquei de quatro e transamos loucamente. Gozamos quase ao mesmo tempo. No final ele aplaudiu. Eu, idem. Pelo que acabamos de fazer merecíamos aplausos.

Vibrador: é meu companheiro. Descobri que não preciso de um homem para ter prazer – embora seja melhor com um. Vibrador é meu amante na solidão. Experimentei brinquedos eróticos depois de me separar: no casamento o sexo era uma coisa pra cumprir tabela. Não tinha incentivo, conhecimento, autoconfiança. Eu não investia em fantasia sexual, lingerie etc. Hoje visto até uma calcinha fio dental.

Com homem casado: Às vezes o corpo manda mais que o coração. Eu queria um bom momento e só. Pegava emprestado um pouco, deixava claro que não me interessava namorar e casar. Não faria nada para expor e prejudicar alguém num relacionamento. Não cabia a mim discutir a relação dele com outra pessoa.

Encontros superficiais: não estou preparada para ter um vínculo mais íntimo. Dar o corpo é diferente de dar a alma para alguém. Não queria mergulhar naquela rotina desgastante, na posse etc. Eu fiz boas amizades com alguns deles e isso bastava. Sei lá, não sou uma pedra. Prefiro estar nos limites da razão. Se um dia sair destes limites caio no delírio e aí ferrou. Mas sou humana e não estou imune.

Epílogo

A vida sexual é quase sempre um segredo. Todos conspiram para que seja assim. Até mesmo os melhores amigos e amigas não contam uns aos outros os verdadeiros detalhes de sua vida. Cátia e eu vivemos por um tempo esta exposição de segredos.

Depois dos 22 ela vive sua vida normal, liberada e libertina. Em nossa idade, infelizmente, não é comum esta liberdade e autonomia. Cátia ainda brilha como uma estrela.

 

NB: o redator informa que estas linhas tem como inspiração Isabel Dias, autora do livro “32. Um homem para cada ano que passei com você”, Da Boa Prosa.