1. O Segredo de Widow's Bay,
Widow's Bay, Série de TV, 2026, Katie Dippold
2. A vingança dos 47 Ronins,
Genroku chûshingura, 1941, Kenji Mizoguchi
3. A música de Gion, Gion bayashi, 1953, Kenji Mizoguchi
4. Vingança & Castigo, The Harder They Fall, 2021, Jeymes Samuel [Netflix]
5. Freud, Série de TV, 2020,
Marvin Kren
6. Irmão, irmã, Ani
imôto, 1953, Mikio Naruse
7. Sabor da vida,
An, 2015, Naomi Kawase
8. O sal da Terra, Salt of the
Earth, 1954, Herbert J. Biberman
9. A Woman Called Moses, TV Mini
Series, 1978, Paul Wendkos
10. Lady Snowblood: Vingança na
neve, Shurayuki-hime, 1973, Toshiya Fujita
11. Criaturas
extraordinariamente brilhantes, Remarkably Bright Creatures, 2026, Olivia
Newman
12. A Odisséia, The Odyssey,
Minissérie TV, 1997, Andrei Konchalovsky
13. Odissea,
Minissérie TV, 1968, Franco Rossi (8 episodios), Mario Bava
14. O
Retorno, 2024, Uberto Pasolini
15. Desbravando
o Oeste, The Way West, 1967, Andrew V. McLaglen
16. A voz de
Hind Rajab, Sawt Hind Rajab, 2025, Kaouther Ben Hania
17. Viver e
morrer em Los Angeles, To Live and Die in L.A., 1985, William Friedkin
18. Spartacus,
1960, Stanley Kubrick
19. Jogo
mortal, Sleuth, 1972, Joseph L. Mankiewicz
20. Secretária,
Secretary, 2002, Steven Shainberg [prime]
21. Amaldiçoada,
Brimstone, 2016, Martin Koolhoven [prime]
22. Assassino
de aluguel, Desert
Saints, 2002, Richard Greenberg
23. A
sangue frio, The Way of the Gun, 2000, Christopher McQuarrie
24. Noites
violentas no Brooklyn, Last Exit to Brooklyn, 1989, Uli Edel
25. Lutador
de rua, Hard Times, 1975, Walter Hill
26. O
Retorno, 2024, Uberto Pasolini
27. A
Odisseia, The Odyssey, 2026, Christopher Nolan
4.7.26
1. O Segredo de Widow's Bay, Widow's Bay, Série de TV, 2026, Katie Dippold
‘O Segredo de Widow’s Bay’ é a melhor coletânea de Stephen King de todos os tempos
Ambientada em uma pequena (e amaldiçoada) cidade da Nova Inglaterra, a gloriosamente estranha série da Apple TV+ pega a matéria-prima do Mestre do Macabro e vai além
David Fear, Publicado em 28 de abril de 2026
Ao longo das bordas da Nova Inglaterra, a apenas uma viagem de balsa da costa, fica a pitoresca cidade-ilha de O Segredo de Widow’s Bay. Ela é povoada por moradores da classe trabalhadora e por famílias que estão ali há várias gerações, o tipo de lugar perfeito para férias de verão e sanduíches de lagosta de matar. Passe pelo Salty Whale, um dos melhores restaurantes da ilha, e você encontrará o centro histórico, dedicado a preservar o legado de O Segredo de Widow’s Bay. Sim, o lugar tem um passado conturbado — uma pena o incidente de canibalismo-na-igreja lá pelos anos 1800 — mas que cidade que remonta ao começo deste grande experimento americano não tem?
Uma jornalista de viagens do New York Times acha que este lugar pode ser a próxima Martha’s Vineyard, se mais pessoas soubessem que ele existe. O novo prefeito da cidade, Tom Loftis (Matthew Rhys), ficaria satisfeito se a cidade virasse a nova Bar Harbor. Tanto os eleitores quanto a equipe da prefeitura acham que ele é ambicioso demais, para falar a verdade. Mas Tom tem grandes planos para transformar esse ponto modesto no mapa costeiro em um destino turístico. Só é uma pena, sabe, aquela maldição infeliz, com séculos de existência, que parece ficar arrotando todo tipo de fenômeno aterrorizante….
A primeira sinopse de O Segredo de Widow’s Bay, o novo programa da Apple TV+ que estreia com dois episódios em 29 de maio, diz que é “Parks & Recreation encontra Stephen King” — um resumo geral que faz sentido à primeira vista. Dá para ver ecos da burocrata esforçada Leslie Knope no prefeito de Rhys, perpetuamente frustrado por não conseguir reverter a sorte dessa comunidade economicamente combalida. O mesmo vale para sua segunda no comando, uma vice tímida e socialmente desajeitada chamada Patricia (Kate O’Flynn, brilhando em todas as cenas), que compartilha uma certa qualidade imperturbável e otimista com a filha favorita de Pawnee. O escritório de Loftis é povoado por versões mais contidas dos excêntricos típicos de uma sitcom, indo da veterana durona de Dale Dickey ao escrivão eternamente confuso de Jeff Hiller, de Somebody Somewhere. E os moradores cobrem toda a gama de excentricidades regionais, com Stephen Root — um ator que, cientificamente comprovado, aumenta a qualidade de qualquer projeto em 33,3% — devorando o papel de um velho lobo-do-mar no mesmo estilo em que Nick Offerman fez com Ron Swanson.
Mas é a parte Stephen King que ganha mesmo destaque aqui e, embora ele não esteja diretamente envolvido com a série, a criadora Katie Dippold e seus colaboradores pegaram a matéria-prima dos melhores livros do autor e foram em frente. Se nada mais, O Segredo de Widow’s Bay funciona como uma coletânea da obra do Mestre do Macabro, reunindo arquétipos e situações clássicas do horror antes de passá-los por um filtro bizarro ao extremo. Uma pousada mal-assombrada permite que a série faça referência a O Iluminado e It de uma vez só. Uma lendária bruxa do mar coloca Loftis na mira e, digamos assim, ela tem um… jeito único de matar suas vítimas. Um livro antigo sobre como dar uma festa, com desenhos da era Eisenhower, acaba tendo uma pauta secundária quando você lê nas entrelinhas. Um cadáver reanimado se mostra uma dor no pescoço. Até filmes slasher entram no tratamento de remix.
A série mata a coceira que tanto Castle Rock quanto Welcome to Derry não conseguiram alcançar e, ainda assim, O Segredo de Widow’s Bay não está interessada em fanfic de propriedade intelectual. Há uma excentricidade gloriosa pairando sobre a mistura de sitcom de humor seco e pavor de conto assustador, além de uma disposição de mexer com a sua cabeça que remete a uma era diferente, menos “segura”, da programação. Sem falar numa marca corporativa diferente — a melhor coisa que se pode dizer sobre esta série da Apple TV+ é que ela não parece uma série da Apple TV+. Para cada Slow Horses e Severance, há outras sete séries no streaming com o verniz de “TV de prestígio” sem o peso e a profundidade associados ao termo. Esta primeira temporada poderia ter saído direto da era de ouro da FX, o que não surpreende, já que Hiro Murai — produtor executivo e diretor de quase metade dos 10 episódios — foi uma das mentes criativas-chave por trás de Atlanta.
O Segredo de Widow’s Bay compartilha do amor daquele marco por surrealismo e formalismo, de um senso de humor torto (quando perguntado sobre os julgamentos de bruxas da cidade no passado, o historiador local diz que eles encaram aquele período sombrio com “um grande senso de orgulho… nós pegamos elas, nós queimamos elas…”) e de zero medo de ficar bem esquisita. Também é um lembrete de que, assim como as fortunas, por trás de todo paraíso aparente espreita um crime ou dois. Quando a série finalmente chega a um episódio de flashback (dirigido por Ti West, de Pearl) e mergulha nas raízes puritanas por trás do que acontece na ilha, dá para sentir como a nação que construímos está assentada sobre os ossos do que Greil Marcus chamou de “a velha e estranha América”. Não dá para fugir dos fantasmas do passado. Não dá nem para domá-los em nome do turismo. O melhor que se pode fazer é honrar os espíritos inquietos que vieram e se foram. Ou, pelo menos, garantir que todos aqueles corpos continuem enterrados.
6.7.26
2. A vingança dos 47 Ronins, Genroku chûshingura, 1941, Kenji Mizoguchi
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Crítica | A Vingança dos 47 Ronins por Luiz Santiago, 30 de agosto de 2021
Embora hoje seja muito comum assistir A Vingança dos 47 Ronins como um único filme, ele foi originalmente lançado em duas partes, a primeira estreando em 1º de dezembro de 1941 e a segunda estreando em 11 de fevereiro de 1942. Porém, diferente do colossal Guerra e Paz de Bondarchuk, a discussão desse tradicional conto japonês adaptado para o cinema por Kenji Mizoguchi só faz mesmo sentido se analisado por completo. Falemos primeiro do contexto em que o longa foi produzido. Nos anos 1940, o Japão estava em constante atividade bélica pelo Pacífico e em território chinês. Como em qualquer nação envolvida na 2ª Guerra Mundial, muita coisa do cinema nacional orientava-se para criar propaganda (até Kurosawa foi obrigado a isso, em seu único filme ruim: A Mais Bela) e não foi diferente com essa história dos 47 Ronins.
A pedido do estúdio, o diretor Kenji Mizoguchi realizou uma série de escolhas estéticas que não combinavam com o seu planejamento para a obra (os closes nos rostos atores e as questões moralizantes, na segunda parte da fita são bons exemplos), chegando até a estendê-la um pouco mais para expor cenas familiares e de grupos de samurais https://www.planocritico.com/tag/samurais-e-ou-ronins/ que bravamente mostravam o seu valor em campo e podiam entregar a vida para defender a honra de seu Senhor, ao mesmo tempo que obedeciam as leis impostas pelo Shogunato. Apropriando-se de elementos que realmente fazem parte da história original, o filme termina por levar o pensamento do espectador para um estágio onde os homens de Asano insistem em uma causa apenas simbólica e nada prática, mas isso não importa. O que importa é eles garantirem a honra, executarem a sua vingança e, ao fim de tudo, entregarem-se honradamente à morte.
Nesta adaptação, temos um olhar que chama a atenção para o cotidiano dos samurais, para os sentimentos das famílias e para o funcionamento da política do Shogunato no período retratado (início do século XVIII). Diferente de versões como A Queda do Castelo Ako (1978) e Os 47 Ronins, de Kon Ichikawa (1994), a obra de Mizoguchi não está interessada em explorar conflitos diretos entre samurais e/ou ronins, embora tenhamos sim alguns poucos embates desse tipo. O que o diretor explora é o impacto pessoal que a condenação de Lorde Asano tem na vida de seus homens e de sua família, e como a intriga em torno de Lorde Kira parece ganhar outros significados e incitar o ódio e o desejo de vingança dos ronins inimigos. De certo modo, o filme dá a impressão de que Lorde Asano foi o grande errado da história, agindo de maneira impensada num lugar em que ele sabia que não poderia sacar a espada. Seu destino, portanto, foi fruto de sua ira descontrolada e de sua própria imprudência, não importasse o quanto Lorde Kira o tivesse provocado e humilhado.
Muito se fala do formalismo exagerado de Mizoguchi nesse filme, além dos maneirismos do elenco, que claramente evocam uma aproximação com o teatro tradicional japonês. Mas o único exagero desse filme é a sua longa duração. Não há real necessidade para o filme se arrastar tanto, e se olharmos com atenção para o que o diretor no traz na segunda parte, é perfeitamente possível escolher blocos inteiros que podem ser retirados da fita sem prejuízo ao acompanhamento da obra. Isso se dá porque muitos diálogos e muitas situações são reações a eventos de dentro da corte, preparação para atitudes futuras e compartilhamento de ideias sobre o caso em discussão, ou seja, nada que realmente desenvolva os personagens ou seja grandiosamente necessário para o entendimento do enredo. Na primeira parte, essas cenas são raras. Já na segunda, elas tomam conta de quase tudo.
A beleza na composição dos planos, marca do cinema de Mizoguchi, se vê aqui no decorrer de toda a fita, mas de certa maneira, a falta de variedade nas locações e a longa duração do filme tornaram esse lado visual menos impactante à medida que a trama avança, porque nos parece acompanhar uma repetição de planos em cenários muito parecidos. Levando em conta que o diretor não mostra o grande e esperado evento (a luta dos ronins contra os homens de Lorde Kira), estamos diante de uma obra lenta que não compensa o espectador com um clímax, mas com um simples comunicado de que a morte de Kira acontecera, seguindo-se o embarque do filme na esteira moral e propagandista, sequestrando os já conhecidos elementos da cultura japonesa a favor de um clamor para a luta na Grande Guerra.
A Vingança dos 47 Ronins é um filme visualmente chamativo, com uma história popular e capaz de enervar a qualquer um, por mostrar a vitória de um vilão num sistema social e político corrompido; mas com um encadeamento que lhe tira muito da identidade e da qualidade. É um grande projeto de Mizoguchi, minado pelas escolhas forçadas em seu momento histórico e por uma duração que não se sustenta bem. Está entre os filmes japoneses que precisam ser vistos, mas conhecendo quem o dirigiu e o que ele poderia ter sido se não fossem as influências externas, é difícil não chegar ao fim da sessão com uma alguma dose de frustração, mesmo estando diante de uma ótima obra.
7.7.26
3. A música de Gion, Gion bayashi, 1953, Kenji Mizoguchi
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A música de Gion por Eduardo Kaneco, 02/01/2018
Os Músicos de Gion retrata a vida das gueixas nos anos 1950, quando os valores tradicionais do país sofrem forte influência ocidental com o fim da Segunda Guerra Mundial e o consequente intervencionismo americano.
O enredo
Gion é o bairro das gueixas em Kyoto. Lá, a jovem Eiko, de 16 anos, procura a experiente Miyoharu para solicitar um treinamento para ingressar na profissão. Ela sai de casa, porque, depois da morte da mãe, ela sofria assédio sexual do tio com quem passou a morar. Miyoharu aceita, e o filme mostra uma colagem do extenso treinamento que a jovem recebe. Dessa forma, ela aprende música, comportamento, enfim, a arte do entretenimento, que representa a função principal de uma gueixa.
Essa, pelo menos, sempre foi a função das gueixas, mas no pós-guerra a tradição começa a perder para uma realidade mais materialista. Para Miyoharu, e sua aprendiz Eiko, a gueixa só se deita com quem quer, e com o patrono, que é o seu amante oficial que lhe provém a maior parte do seu sustento. Porém, um rico empresário quer que Miyoharu seduza um potencial cliente, para que se torne a amante dele e isso facilite futuros negócios.
O empresário, além disso, ignora as recusas de Eiko, e tenta estuprá-la. Nesse momento, acontece uma das cenas mais marcantes do cinema japonês, quando Eiko reage e morde a língua do agressor. Não há violência explícita, o ato acontece em elipse. Assim, quando Miyoharu corre para acudí-la, vemos o homem se debatendo no chão e a jovem gueixa com sangue na boca, indícios suficientes para o espectador descobrir o que aconteceu.
Depois disso, as duas não conseguem mais trabalho. A situação só melhorará se Miyoharu se resignar a se deitar com o proposto amante. Os tempos mudaram, e chegou o ocaso dos tempos de glória das gueixas.
A direção
O diretor Mizoguchi capricha nos enquadramentos em Os Músicos de Gion. Faz uso recorrente de recortes com o cenário; portas, janelas, paredes, ruas, etc. criam quadros dentro do quadro principal. Com isso, direciona a atenção do espectador para um determinado ponto da tela, principalmente ao enjaular algum personagem dentro desse recorte.
Além disso, mais uma vez, Mizoguchi retrata a mulher sofredora, que tenta se rebelar da sociedade masculinizada japonesa, mas não consegue. Aliás, o tema da gueixa é recorrente na obra do diretor, cuja irmã mais velha tinha essa profissão e o sustentou quando era jovem. Vem daí a fidelidade evidente nesse grande filme, particularmente indicado para quem deseja conhecer a tradição das gueixas.
9.7.26
4. Vingança & Castigo, The Harder They Fall, 2021, Jeymes Samuel [Netflix]
'Vingança e Castigo' mostra que há faroeste depois de Clint Eastwood
Trabalho de Jeymes Samuel é uma fábula original do oeste e da negritude que enxerga a realidade através do excesso
Inácio Araujo, fsp, 12.11.2021
É como se o western spaghetti tivesse dado uma cambalhota e caído no Arizona para nos lembrar que, afinal, nem tudo foi feito em matéria de velho oeste. Isto é, em poucas palavras, "Vingança e Castigo"
E, no entanto, parece que tudo ali já vimos em alguma parte, como se o filme de Jeymes Samuel — também conhecido como The Bullitts — fosse uma espécie de rearranjo de procedimentos já usados no bangue-bangue ou nos filmes de gângster. Parece haver ali dezenas de fragmentos roubados de velhos faroestes. Mas o roubo faz parte dessas duas coisas, o faroeste e o cinema. O importante é que o produto dessa colagem resulta original, provocador, intrigante.cena de filme
Como ato de provocação, "Vingança e Castigo" afirma, já em sua abertura, que seus personagens são extraídos da vida real. Nada ali, no entanto, pertence à tradição, a começar por seu argumento opor duas gangues de personagens negros, as de Nat Love —Jonathan Majors — e Rufus Buck — Idris Elba —, em cidades inteiramente ocupadas por pessoas negras. Numa bem imaginada sequência, aliás, uma dessas gangues invade White City, a cidade dos brancos toda pintada de branco.
Não falta ousadia à empreitada de Samuel. Ele começa por desprezar a verossimilhança —isto é, a tradição — e abdicar de todo apelo realista, ao mesmo tempo em que projeta na tela a ideia de que nossa imagem do mundo hoje vem das imagens, não do mundo —o que Brian De Palma já nos ensinou.
Com isso, Samuel maneja seus recursos com a aparente consciência de que o faroeste, como gênero, existiu para criar o mito da nação americana e seus valores. Desde o cinema mudo essa construção ofuscou a história. Foi com essa mitologia que, de certa forma, Clint Eastwood acertou as contas em "Os Imperdoáveis", ao criar caubóis que não passavam de bêbados, idiotas ou sádicos.
Imagens do filme 'Vingança & Castigo'
Seria esse o oeste "real"? Ou, como diz um personagem de David Lynch, "não faça parecer real até que se torne real". Eis a proeza a que "Vingança e Castigo" chega: pelo caminho do excesso, do simulacro, é que se torna real.
Basta ver a primeira sequência para observar o estranho caminho que Samuel trilhará: lá está a casinha toda arrumada, pintadinha, bonitinha, onde vive o jovem Nat Love. E depois chegamos às cidades: de uma perfeição insultuosa, parecem tiradas de um jogo infantil de faroeste recém-trazido pelo Papai Noel para o Natal das crianças.
Também os pistoleiros envolvem-se nesse jogo de espetáculo que tem por ponto alto — ou baixo, conforme o olhar — os maneirismos técnicos, os planos de 180 graus, os ângulos "recherchés", o acúmulo de extravagâncias da câmera.
Mas eis que, no meio disso, explode em nossa cara a cena formidável, que começa dentro da casa de Rufus Buck e segue até trazer em primeiro plano um Nat Love que estava no fim da rua, do outro lado da cidade — o plano expressa o ponto de vista de Buck, arqui-inimigo de Love, e a atenção que o rival merece dele.
Com essas e outras, o que poderia ser notado até como defeito acaba se tornando não raro virtude, transformando nosso olhar, subvertendo as formas conhecidas, pois da soma de exageros e movimentos ostentatórios, o resultado é original. Isso sem falar do belo encontro final entre os dois rivais, Buck e Love: o momento em que já não é preciso criar algo parecido com o real, pois tudo já se tornou real. Ou, como queria William Blake, o caminho do excesso leva ao palácio da sabedoria. Jeymes Samuel parece acreditar nas palavras de seu conterrâneo.
Com tudo isso, não é possível dizer que "Vingança e Castigo" seja um filme perfeito. Existe, por exemplo, uma inflação de personagens no roteiro a que Samuel mal consegue dar forma. Como decorrência, surgem tempos mortos desnecessários. No entanto, tais problemas são resgatados por coisas como a intervenção de um personagem abertamente andrógino, Cuffee —Danielle Deadwyer— ou do surpreendente xerife Bass Reeves — Delroy Lindo.
Ou ainda pela percepção de que, sim, existe vida no bangue-bangue depois de Clint Eastwood (não vale citar Kelly Reichardt, que não trabalha cinema de massas). Isso sem falar, naturalmente, da música escrita pelo próprio Jeymes Samuel (inglês e músico de origem, que musicou em 2013 o enjoativo "O Grande Gatsby", de Baz Luhrmann), que ora evoca e subverte o oeste já visto (italiano ou não), ora passeia por ritmos que consagraram a música negra.
Com toda franqueza, o único defeito imperdoável de "Vingança e Castigo" é estar entrando em cartaz pela Netflix — sua produtora, admita-se. Espera-se que um dia seja possível ver essa surpreendente fábula do oeste e da negritude onde evia estar: numa bela e grande tela de cinema, numa sala cheia de gente.
O importante é que, de todo o suco de excessos, espetaculosidades, ostentação, o saldo é novo. Sim, havia vida depois de Clint Eastwood. Restava descobrir onde estava. Samuel parece que descobriu.
10.7.26
5. Freud, Série de TV, 2020, Marvin Kren [Netflix]
Episódios: 1. Histeria; 2. Trauma; 3. Sonâmbulos; 4. Totem e Tabu; 5. Desejo; 6. Regressão; 7. Catarse e 8. Supressão
Freud, a série: o que é real e o que não é na nova ficção da Netflix
Cristina Roda Rivera, 29 dezembro, 2022
A série da Netflix não lança muita luz sobre a vida e a obra do pai da psicanálise. É uma ficção histórica inspirada na imaginação do seu diretor e com poucas partes baseadas na realidade.
As pessoas continuam a se interessar pela vida de Sigmund Freud. Ele é assunto de conversas e aulas, e agora uma figura de ficção. No entanto, a nova série da Netflix, ‘Freud’, não esclarece muito sobre a vida e a obra desse neurologista austríaco. Pelo contrário, contribui para criar ainda mais confusão.
Há poucos dados históricos, biográficos e acadêmicos refletidos com precisão na série, pois trata-se de uma ficção histórica. Na verdade, a série imagina como Freud poderia ter usado suas habilidades psicanalíticas para resolver crimes.
O diretor da série, Marvin Kren, afirmou que não queria que o produto final parecesse muito histórico, mas sim que o público jovem e moderno se interessasse por ele. Dito e feito.
Além disso, a série é uma mistura de elementos modernos, provocativos e históricos. Mas, por que misturar o pai da psicanálise https://amenteemaravilhosa.com.br/sigmund-freud-biografia-mente-brilhante/ com crimes e sessões de espiritualismo? Já não havia controvérsia e confusão suficientes associadas a ele?
Aparentemente não. Inclusive, esse interesse em torná-lo um personagem misturado com ficção não é recente. Neste artigo, falaremos sobre as “incursões cinematográficas e artísticas” prévias de Freud e esclarecemos o que é real nessa ficção recente da Netflix.
O grande interesse cinematográfico por trás de Freud
Atualmente, o trabalho de Freud é mais estudado na área das ciências humanas do que nos departamentos de ciências. Sua popularidade não vem exatamente do seu rigor científico. No entanto, Freud tinha a vantagem de ser um escritor extremamente bom que ilustrava a psicanálise com referência ao trabalho de grandes artistas, como Shakespeare, Dostoiévski e Leonardo da Vinci.
De certa forma, é graças à arte e ao cinema que seu trabalho e premissas teóricas despertam interesse no público em geral. Inclusive, Stefan Marianski, do Freud House Museum em Londres, disse: “Você não precisa ler Freud para viver em um mundo onde ele é importante ou pensar de maneira freudiana”. Por outro lado, Nicholas Ray, professor da Universidade de Leeds, afirma que, para a cultura popular, seu trabalho foi processado para se tornar mais leve e transformado em uma fantasia acolhedora e tranquilizadora.
Isso não aconteceu apenas com a obra de Freud. Também é notável no caso de praticamente toda a obra de Woody Allen, na dinâmica pai-filho em Guerra nas Estrelas: O Império Contra-Ataca ou De Volta Para o Futuro, assim como em romances de Virginia Woolf e James Joyce, Salvador Dalí e os surrealistas, Os Sopranos e Frasier e, mais especificamente, o filme de 2011 Um Método Perigoso, com Viggo Mortensen.
Tentativas prévias de fazer uma série de detetives com Freud
O romance de 2006 The Interpretation of Murder (Jed Rubenfeld) explorou Freud resolvendo um caso de assassinato. Foi baseado na primeira e última visita do pai da psicanálise a Nova York em 1909. Em 2014, Frank Spotnitz, diretor de Arquivo X, estava pronto para escrever Freud: The Secret Casebook. Nele, ele pretendia usar suas teorias para resolver casos não resolvidos. No entanto, a série nunca se materializou.
Freud, a série: o que é real e o que não é
Freud nasceu em Freiberg (uma cidade agora chamada Pribor, na República Tcheca). Sua família se mudou para Leipzig e depois se estabeleceu em Viena para sempre. Poucos dados podem ser extraídos claramente dessa série. A seguir, selecionamos alguns deles.
Datas dos seus estudos médicos
Ele estudou medicina na Universidade de Viena e trabalhou no hospital da cidade. Se formou nessa universidade como médico em 1881. Mais tarde, em 1885, ele completou sua habilitação e iniciou sua carreira em neuropatologia como professor universitário.
A série se desenvolve em 1886, por isso, parece concordar com sua interessante teoria e revisão dos primeiros casos reais.
Dependência de cocaína
Freud experimentou cocaína pela primeira vez em sua juventude. Ele acreditava que era uma “droga milagrosa”. Em 1884, ele escreveu um artigo intitulado “Über coca“, uma espécie de elogio a essa substância, pois ficou impressionado com seus efeitos físicos e psicológicos. Só mais tarde ele descobriu que era viciado nessa droga.
A série de oito episódios da Netflix explora corretamente seu vício em cocaína.
Prática psicanalítica precoce com Breuer
Em 1886, ele iniciou a prática particular em Viena e começou a usar a hipnose em seu trabalho. Cabe ressaltar que a hipnose era uma abordagem impopular na época.
Curiosamente, a série explora essa parte da sua vida. Inclusive, ela adota a abordagem de seu amigo Josef Breuer, médico com quem ele colaborou para escrever Estudos Sobre a Histeria.
Seu trabalho destaca as experiências de Breuer no tratamento de sua paciente Anna O, diagnosticada com histeria. Devido a inconsistências nos resultados, Freud eventualmente abandonou a técnica da hipnose e então desenvolveu o que chamou de “associação livre”. É importante mencionar que a série não esclarece toda essa relação com seu mentor.
Romance com Fleur Salomé
Nessa série, há outro aspecto que parece ser baseado na vida real. Trata-se da personagem de Fleur Salomé, uma médium que se junta à trama para ajudar a resolver casos. A inspiração para essa personagem é a psicanalista Lou Andreas-Salomé.
Sempre houve rumores de que Freud e Lou Andreas-Salomé tinham sentimentos um pelo outro. No entanto, ninguém foi capaz de comprovar isso. Em termos de precisão, a série se passa na década de 1880, e historiadores afirmam que não eles não se conheceram até 1911.
Detetive de assassinato
Sigmund Freud nunca foi responsável por nenhuma investigação criminal ou ajudou a resolver crimes de qualquer tipo. A série também o retrata participando de sessões sombrias de espiritualismo. No entanto, também não há registro disso.
Ele era um grande leitor de romances policiais, incluindo aqueles sobre Sherlock Holmes. Isso nos leva a pensar que, mesmo que ele não tenha resolvido crimes na vida real, ele definitivamente era um fã dessa literatura.
Como você pode ver, há muito pouco a resgatar das teorias freudianas ao longo dos oito capítulos de Freud, mas talvez alguns dos seus conceitos tenham originado a imaginação e a construção dessa ficção.
Táltos: O guardião espiritual da tradição húngara texto
11.7.26
6. Irmão, irmã, Ani imôto, 1953, Mikio Naruse
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Mikio Naruse (1905-1969) imdb
Mikio Naruse (1905-1969) texto
Jornada Sem Sentimentalismo: Um Vislumbre do Cinema de Mikio Naruse
Acquarello Fevereiro de 2001
Uma cena inicial do filme de Mikio Naruse, When a Woman Takes the Stairs (1960), mostra a bela recepcionista Keiko (Hideko Takamine) caminhando diligentemente até seu local de trabalho. Ela para em frente à escada, e então a câmera corta para um close de seus passos rápidos e medidos. Seu monólogo interno traz uma visão sobre seu ritual diário: "Depois que anoitece, eu tenho que subir as escadas, e é isso que eu odeio. Mas quando eu acordar, posso aguentar o que acontecer." É uma cena que lembra a imagem final da indomável Oharu (Kinuyo Tanaka) em A Vida de Oharu (Kenji Mizoguchi, 1954), quando Oharu olha de lado para um templo budista à distância, para para se curvar em reverência e então retoma sua caminhada pela rua. No entanto, Naruse não é um imitador derivado de Mizoguchi ou do cinema clássico japonês, mas sim um de seus cineastas originais, embora infelizmente negligenciados. É essa imagem graciosa de Keiko – sua crônica objetiva do decadente comércio de bares do distrito de Ginza e sua resiliência contra a adversidade – que iniciou minha própria busca pelo cinema de Mikio Naruse. Infelizmente, isso se mostra uma tarefa frustrante e não correspondida.
When a Woman Climbs the Stairs é um comentário notavelmente perspicaz sobre as pressões sociais sobre mulheres "de certa idade". Keiko, uma jovem viúva sem filhos carinhosamente chamada de "mamãe" por suas garçonetes juniores, enfrenta as oportunidades limitadas que seu gênero e classe ofereciam no Japão do pós-guerra: casar ou abrir seu próprio bar no competitivo distrito de Ginza. Ainda assim, apesar de suas tentativas fracassadas em ambos, ela persevera com grande coragem e tenacidade. O uso de monólogos interiores desapegados e música contemporânea e sensual cria uma atmosfera noir que contrasta fortemente com o comportamento reservado e reservado de Keiko. A incongruência, por sua vez, exemplifica a luta interna de Keiko entre manter os costumes tradicionais ou se resignar às pressões de influências modernas e, cada vez mais ocidentais.
Ao retratar a perda da tradição cultural, Naruse aborda temas semelhantes aos de seu contemporâneo, Yasujiro Ozu. Em Uma Tarde de Outono (Yasujiro Ozu, 1962), a perda da identidade cultural é lamentada com humor e nostalgia leve pelos veteranos militares, Hirayama (Chishyu Ryu) e Sakamoto (Daisuke Kato), durante uma reunião no bar local. Em contraste, em When a Woman Climbs the Ladders, a resistência de Keiko em se adaptar à realidade de sua profissão cada vez mais desonrosa reflete a luta pessoal para manter sua dignidade. Para Keiko, a pressão crescente para abandonar os costumes tradicionais não é apenas influência inevitável da cultura ocidental, mas um mandato para a sobrevivência financeira. Além disso, é interessante notar que, ao contrário da descrição de Ozu do bar local como um santuário familiar e reconfortante do caos do mundo exterior, os bares de Ginza em When a Woman Ascende as Escadas servem como uma distopia autopropagante e inescapável, marcada pelo caos e pela incerteza.
A abordagem de Naruse sobre o casamento também é diferente da de Ozu. Enquanto as pressões matrimoniais das heroínas de Ozu resultam da devoção altruísta de um pai a uma criança (ou a uma criança substituta, como em Tokyo Story [1953]), a motivação de Keiko é puramente econômica. Apesar das tentativas de Keiko de separar sua vida pessoal do trabalho profissional, a divisão fica confusa quando a sobrevivência financeira depende da duvidosa "assistência" de seus patronos. Nesse aspecto sem sentimentalismo, Naruse diverge significativamente do cinema humanista de Ozu e emerge como um realista social.
Em um filme anterior, Late Chrysanthemums (1954), Naruse explora ainda mais o envelhecimento e a solidão através da vida cotidiana (e decididamente pouco glamourosa) de gueixas aposentadas. Forçadas à aposentadoria pela idade e enfrentando dificuldades financeiras em suas modestas segundas carreiras, essas mulheres orgulhosas, porém falhadas, perseveram diante das dificuldades econômicas, do afastamento dos filhos adultos e de suas desilusões pessoais. Em uma cena, o amargurado Kin (Haruko Sugimura), um agiota solteiro, ignora a notícia da prisão de um antigo patrono, racionalizando que a cruel realidade da existência faz com que todos "comam ou sejam comidos". É uma descontentamento resignada que seria ecoada de forma semelhante pela prostituta Mickey (Machiko Kyo) no último filme de Mizoguchi, Rua da Vergonha (1956).
As referências recorrentes aos filmes do contemporâneo de Naruse, Kenji Mizoguchi, não são incidentais. Como Mizoguchi, Naruse pertencia à classe trabalhadora pobre, e seus filmes refletem o desespero e o desespero dos desfavorecidos. Além disso, Naruse compartilha a propensão de Mizoguchi para a "direção feminista" na representação compassiva de mulheres corajosas diante de grandes adversidades. Naruse evoca resiliência em suas imagens de despedida da mesma forma que Mizoguchi, que concluiu seus filmes com um último e reconfortante golpe de coragem e dignidade humana. Semelhante à imagem recorrente da escada em Quando uma Mulher Sobe as Escadas, as imagens finais de Crisântemos Tardios mostram as mulheres desiludidas subindo as escadas de uma estação de trem, aceitando um novo e desconhecido capítulo de suas vidas com renovada determinação.
No entanto, enquanto Mizoguchi frequentemente explorava temas universais em filmes de época, o cinema de Naruse é contemporâneo. Ao abandonar o exotismo do cinema tradicional em favor do mundano, Naruse cria uma mise en scène distinta para revelar a personalidade inata de seus protagonistas. Em Crisântemos Tardios, a casa pouco mobiliada de Kin serve não apenas como uma manifestação física de sua frugalidade apesar da riqueza acumulada, mas também como reflexo de sua profunda solidão. Figurativamente, ao capturar o desespero comum e silencioso da alma humana, Naruse oferece uma crônica objetiva e relevante da realidade social de sua época.
Por quase quarenta anos (1930-1969), Mikio Naruse dirigiu impressionantes 87 longas-metragens. No entanto, apesar do sucesso e reconhecimento concedidos a seus contemporâneos Kenji Mizoguchi, Yasujiro Ozu e Akira Kurosawa, a disponibilidade pública dos filmes de Naruse permanece esquiva. Ao experimentar a graça comovente de Late Chrysanthemums e When a Woman Ascende the Stairs, sinto que dei um salto quântico de compreensão para o mundo agridoce de esperanças esmagadas e sonhos fracassados de Mikio Naruse. Naruse não busca simpatia através de seu olhar imparcial e sem sentimentalismos, mas sim busca validação para a luta humana por meio da honestidade emocional e da perseverança. Infelizmente, assim como as vidas exploradas de suas heroínas resilientes e imperfeitas, o cinema de Naruse também é um triunfo silencioso e não reconhecido.
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“Irmão, Irmã”, de MIKIO NARUSE por Octavio Caruso -20 de agosto de 2022
Irmão, Irmã (Ani Imôto – 1953)
A família camponesa dos Akaza passa por uma grave crise, quando Mon (Machiko Kyō), a filha mais velha, volta grávida de Tóquio, onde trabalhava. É o início de uma série de conflitos.
Quando se celebra a era de ouro do cinema japonês, normalmente são aplaudidos nomes como Akira Kurosawa, Yasujiro Ozu e Kenji Mizoguchi, mas há um mestre no período que merece ser redescoberto, o grande Mikio Naruse.
O seu conjunto de obra impressiona pela quantidade e pela coerência temática, a segurança com que ele controlava o ritmo, trabalhando situações emocionalmente complexas em sequências aparentemente tranquilas, prova sua habilidade em compreender os dilemas mais profundos da natureza humana.
Naruse foi o responsável por um dos primeiros filmes japoneses exibidos no Ocidente, o bom “Esposa! Seja como uma Rosa!” (1935), destaco também pérolas como “Nuvens Flutuantes” (1955), “O Som da Montanha” (1954), “Relâmpago” (1952) e “Quando a Mulher Sobre a Escada” (1960), mas decidi resgatar neste texto um título menos lembrado, até mesmo entre os fãs mais dedicados do diretor, o sensível “Irmão, Irmã”, adaptação do excelente conto homônimo de Saisei Murô, vale destacar, inserido na ótima antologia “Modern Japanese Short Stories“, de Ivan Morris.
O roteiro acerta ao iniciar dedicando maior atenção às consequências negativas da reputação social da jovem Mon na rotina da sua doce irmã San (Yoshiko Kuga), personagem que aparece pouco no conto original, mas que é fundamental nesta adaptação.
O irmão mais velho, Ino (Masayuki Mori), um grosseirão preguiçoso que projeta suas frustrações com mulheres no ódio que sente por Mon, que ele enxerga como uma frívola desonrada, apresentado literalmente fugindo do pai (Reysaburô Yamamoto) na rua, não passa de uma figura patética que humilha constantemente seu alvo.
Ele conduz a trama para seu momento mais impactante, no conto e no filme, o enraivecido confronto entre Mon e Ino, após a revelação de que ele perseguiu e agrediu o rapaz (Eiji Funakoshi) que a engravidou e a abandonou, cena em que ela, demonstrando incrível força de caráter, evidencia a covardia de punir alguém mais fraco e que desejava o perdão, além de jogar na cara dele a hipocrisia, já que o irmão era reconhecido na região por tratar mulheres como objetos descartáveis.
O lindo desfecho, com as duas irmãs caminhando juntas na estrada de terra, vistas à distância pelos pais, muito superior à conclusão literária, potencializa a mensagem. Mon sabe que Ino se revolta porque enxerga nela o seu reflexo no espelho, e que, mesmo sendo extremamente rude e agressivo, ainda há amor, preocupação.
Nesta conversa aparentemente simples no caminho para o ponto de ônibus, Mon se mostra ao público como sendo superior em todos os aspectos, corajosa até para assumir seus erros e perdoar.
Um tesouro do cinema japonês que merece ser redescoberto.
Você encontra facilmente o filme no Youtube
12.7.26
7. Sabor da vida, An, 2015, Naomi Kawase
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Sabores e saberes: encontros em “Sabor da Vida”, あん
por Gisele Wolkoff, abril 8, 2024
O filme Sabor da Vida, no original japonês あん – e em inglês Sweet Bean –, foi dirigido e escrito por Naomi Kawase. Estreou em 2015 trazendo dois ícones da cinematografia contemporânea japonesa, nomeadamente, Kiki Kirin, que interpreta a senhora Tokue e Masatoshi Nagase, que faz o papel de Sentarō, gerente de um estabelecimento que produz e vende dorayaki. A terceira protagonista-antagonista da narrativa é a personagem Wakana, interpretada por Kyara Uchida, uma garota prestes a largar os estudos.
Estamos diante de uma Poesia lírica que, ainda assim, incorpora imagens japonesas típicas, clichês, tais como as cerejeiras (sakura), os bolinhos de feijão (dorayaki) o silêncio e o silenciamento de temas considerados tabus, a beleza da dor e da solidão, a velocidade lenta da câmera em contraste ao ritmo acelerado dos espectadores, as paisagens claro-escuro a ressignificar o ambiente interior e o exterior, a cor vermelha como ícone nacional em oposição ao colorido, ao barulho e à felicidade hollywoodeanas, dentre outros.
As vidas destes três personagens se cruzam numa narrativa temperada pelo amor que faz curar o desamor supostamente prévio à narrativa que se desvela aos espectadores. O homem de meia idade Sentarō trabalha pesado no estabelecimento de bolinhos de feijão e recebe a proposta da ajuda da senhora Tokue. No entanto, hesita em aceitá-la. A oferta se torna irrecusável e é quando a colher de madeira que move o caldeirão do feijão a se tornar pasta acaba movimentando também os corações de ambos.
Esses dois personagens se cruzam com a jovem Wakana, que ouve da mãe que “os estudos não pagam as contas”. O encontro dos três se dá em meio aos seus dramas pessoais, “desvios” ou incapacidades de vislumbrar novos horizontes. E é aí que está a chave de tudo: este encontro propicia-lhes trocas que os impulsionam a vivências únicas, a partir de saberes e sabores, conduzindo-os a novos possíveis horizontes.
Para além do debate sobre a cultura do preconceito etário, relativo à lepra e à condição social, o filme em seu profundo lirismo sinaliza reflexões sobre a existência que poderiam se configurar como um verdadeiro tratado sociológico. Afinal, a senhora Tokue parte para o mundo espiritual, mas deixa uma gravação (analógica!) para os dois outros protagonistas em que conta a sua estória e afirma ao seu “chefe”, o gerente da loja de bolinhos:
“- Viemos a este mundo para ver e ouvir. Por isso, não precisamos ser nada, não precisamos ser ninguém.”
Essa constatação de Tokue constitui uma cartografia do eu, e é a base filosófica de toda arte: escrevemos para fazer ver, como teria dito o escritor Joseph Conrad certa vez ao ser indagado sobre o porquê de sua escrita (ele responde: to make you see). Contamos para nos fazer ouvir. É a lógica das narrações. Basta-nos ver e ouvir, mas não um simples ver e ouvir. Um ver que é olhar que se prolonga em saber. E um ouvir que é escutar que se desdobra em entender. Ou seja, podemos não conseguir mudar o mundo, mas podemos conhecê-lo para o entender. Eis uma tarefa cheia de significado neste mundo.
Uma parte das muitas imagens líricas ao longo da narrativa é a da lua, que se conjuga com o indivíduo que existe ao ouvir. E ao ver. Também, existe ao contar. Numa alusão ao famoso poema da escritora norte-americana Emily Dickinson:
Eu sou ninguém! Quem é você?
Você é ninguém também?
Então, somos dois.
(no original, I’m Nobody! Who are you? /Are you – Nobody – too? /Then there’s a pair of us!)
O paladar que transforma as vidas dos personagens a partir da pasta de feijão de Tokue está para além de todos os sabores, mas não além dos saberes… Somos alguém, sendo ninguém… E no caso de Tokue, Sentarō e Wakana, eles poderiam reescrever o terceiro verso do famoso poema de Dickinson:
Eu sou ninguém! Você é ninguém também? Então, somos três!
13.7.26
8. O sal da Terra, Salt of the Earth, 1954, Herbert J. Biberman
No iutubi aqui
Rosaura Revueltas (1910-1996) imdb
Will Geer (1902-1978) imdb
Resenha por Herb Gallows - Letterboxd
Muita história aqui, começando pelo diretor Herbert Biberman, um dos Dez de Hollywood que foi o primeiro grupo de cineastas a ser colocado na lista negra em 1947. Sal da Terra foi um dos únicos dois filmes que ele fez após ser expulso do Sindicato dos Diretores da América, sendo o outro Escravos em 1969. Há a estrela do filme, Rosaura Revueltas, uma figura pioneira do cinema mexicano que veio para os EUA depois que a Igreja Católica incentivou boicotes a Girls in Uniform, de 1951, que trazia uma das primeiras histórias de romance lésbico no cinema. Will Geer, outro membro da lista negra, é um dos poucos outros atores profissionais a aparecer neste filme, cuja vida de agitação socialista culminou em interpretar o Vovô Walton nos anos 1970. O filme em si é um dos poucos conhecidos a ter sido colocado na lista negra por conta própria, e nem estava disponível para exibição até a década de 1960.
A produção de Salt of the Earth é essencialmente cinema de guerrilha. A história é baseada em uma greve real de mineiros que ocorreu na mesma região, e o filme contou com muitas pessoas que participaram dela. A maioria dos atores não é profissional e era membro do sindicato local dos mineiros. O cenário era frequentemente atacado pelas autoridades locais, que periodicamente atiravam nos cineastas e faziam cenas com aviões voando baixo. Revueltas foi deportado no meio das filmagens pelo INS, nunca mais retornando aos Estados Unidos. Que uma equipe de produção composta quase inteiramente por pessoas que foram presas e depois efetivamente banidas de sua indústria tenha conseguido filmar um filme sem distribuidor em meio a um território hostil é quase milagroso.
Então, o que deixou as pessoas tão chateadas? Um filme que é abertamente marxista, radicalmente feminista e pró-direitos dos chicanos. Fazer algo assim mesmo hoje seria difícil, e em 1954 era basicamente desafiar o governo dos Estados Unidos a intervir e prender todos os envolvidos. Este é possivelmente o filme mais corajoso já filmado na história do cinema dos EUA. E apesar de toda a base ideológica, nem é tão incendiário assim.
O próprio filme tem dificuldade em sair de sua sombra, sendo muito mais revolucionário por seu tema e circunstâncias do que por sua arte cinematográfica. Surpreendentemente, vai além da propaganda, e é um dos poucos filmes que conheço que realmente aborda o papel das mulheres em um movimento socialista. O principal conflito não é entre mineiros e proprietários, mas entre os mineiros e suas esposas, que exigem um papel maior na greve e serem reconhecidos como iguais. Também há as tensões entre os mineiros predominantemente mexicano-americanos de Zinc Town e os mineiros predominantemente brancos dos moradores vizinhos. Para algo que foi mostrado por inúmeros organizadores trabalhistas na área, a Salt of the Earth é bastante franca sobre as divisões dentro do movimento.
Além de tudo mais, o filme de Biberman é um registro da estreita relação entre o emergente movimento chicano e o movimento sindical organizado, algo que seria cimentado mais tarde por Cesar Chavez e a UFW. Se você é uma figura na era McCarthy em Washington, é fácil entender por que um filme feito por comunistas de Hollywood sobre minorias se unindo aos colegas de trabalho para exigir igualdade e melhor tratamento te assustaria profundamente. Os latinos continuam a desempenhar um papel desproporcional no movimento trabalhista moderno, e o manual estabelecido por Biberman aqui pode ser uma possível opção para uma representação cinematográfica maior.
Salt of the Earth é mais ideias do que arte, mas mesmo assim, Revueltas é uma presença magnética. Ela se mistura perfeitamente com o restante de seu elenco neorrealista, o que é ainda mais impressionante quando se considera o quão notável ela foi ao longo da vida. Aqui, ela é uma personagem constante, passando de dócil para severa e depois para momentos de verdadeiro fogo enquanto luta contra seu marido Ramón (Juan Chacón), que está totalmente comprometido tanto com a união quanto com a dinâmica familiar ultrapassada. Entre os atores amadores, há também atuações de destaque, sendo as mais notáveis Ángela Sánchez e Virginia Jencks, que são presenças distintas e libertadas entre as esposas dos mineiros. Aprecio que Biberman usa atores amadores, mas não esgota toda a personalidade deles como tantos diretores fazem nessas situações.
Filme fascinante, tanto pela observação quanto pela toca de coelho da pesquisa que chama.
Resenha por Sally Jane Black - Letterboxd
As mulheres sempre foram o núcleo das revoluções. Algo em torno de 70% dos Panteras Negras eram mulheres. Kim Jong-suk foi tão revolucionário quanto seu marido. O movimento trabalhista, a libertação queer e trans, os direitos civis, toda luta foi empoderada, liderada, imposta, impulsionada por mulheres. O que deve ser entendido, é claro, é que a revolução não para quando os meios de produção são arrancados da burguesia ou quando a Lei dos Direitos de Voto é aprovada. Ela continua viva enquanto a luta continua, como na URSS, onde o aborto foi legalizado pela primeira vez, onde 60% dos médicos eram mulheres; como na maioria dos países comunistas onde a diferença salarial desapareceu; como em Cuba e Coreia do Norte, onde as mulheres continuam a ser líderes. E aqui no núcleo imperialista, onde as mulheres continuam lutando.
O chauvinismo sempre foi um problema na sociedade de classes. Ele não desaparece magicamente, nem mesmo após a revolução. Temos que trabalhar para isso; em Cuba, URSS, China, Coreia do Norte, Vietnã, eles trabalham para isso e as mudanças, embora às vezes lentas, permanecem. Em democracias burguesas (como os Estados Unidos), as poucas mudanças que alcançamos estão sob constante ameaça de perda (veja, por exemplo, a Lei dos Direitos de Voto). O propósito do patriarcado é nos dividir para que não possamos tornar essas mudanças permanentes sob o domínio burguês. Sexismo, misoginia, homofobia, transfobia, tudo isso faz parte das táticas de dividir para vencer da classe dominante.
Este filme, feito em meio ao segundo Pânico Vermelho, é um ato ousado de desafio, e um ato firmemente direcionado ao proletariado em fragmentação. Cuidadosamente construído para retratar uma luta feminista, da classe trabalhadora e racialmente diversa contra a classe dominante, este filme é tanto um manual de instruções quanto um chamado às armas. É uma ilustração do poder da unidade entre a classe trabalhadora contra a burguesia e seus agentes (a polícia, para ser bem claro). Eles mostram explicitamente como o poder de dividir para vencer pode ser combatido com sucesso, e mostram explicitamente muitas das táticas que ainda são usadas contra a classe trabalhadora quando revidamos. Nada neste filme é uma obra de fantasia.
O poder aqui está nas performances, na imagem da unidade, nas visões de ação democrática (verdadeira). O poder aqui está no contexto subjacente da desafio, de um filme feito contra a vontade da elite dominante que é um grito de guerra contra eles. Esta é uma obra do proletariado; Esta é uma obra de resistência. Este também é um dos exemplos mais claros da mentira que é o ideal americano de "liberdade de expressão". Foi isso que eles colocaram na lista negra. É disso que eles têm medo. A liberdade de expressão na sociedade burguesa é uma mentira contada para apaziguar. Lute pela sua saúde, seu emprego, sua educação, sua moradia, sua água, seu ar, sua comida. Sua liberdade de expressão nasce da segurança que isso lhe traz, não de um papel escrito por donos de escravos e estupradores. Assista a este filme e veja do que eles têm medo: os trabalhadores, unidos, individidos, apoiando uns aos outros, lutando de volta.
Resenha por wersku - Letterboxd
Li que este é um dos poucos filmes na lista negra em Hollywood.
Um ato político não só no conteúdo, mas também em todo o processo de produção do filme, que foi extremamente fascinante de ler — tudo o que essa obra teve que suportar. Orçamento limitado, prisões, sabotagem e atores de famílias verdadeiras de mineiros. Essa é uma peça muito rígida em muitos aspectos, mas ao mesmo tempo, isso se torna compreensível ao considerar todo o contexto. E ainda assim, parece que consegue trazer tudo o que é necessário da maneira certa.
Uma luta da classe trabalhadora sob condições duras, o papel das mulheres, o papel dos latino-americanos — uma história de opressão, mas também algo mais. A narrativa do filme é íntima, próxima e uma representação realista de um tempo e lugar imersos em injustiça. E apesar do que mencionei antes sobre o filme tropeçar um pouco como um todo, é surpreendentemente fácil de assistir na forma como retrata essa luta.
Mesmo que isso claramente pareça um tipo de grito direto nos seus olhos — exigindo que você entenda absolutamente sua mensagem e significado — ainda assim é feito de uma forma interessante. Rosaura Revueltas representa o lado íntimo do filme e aquela voz gritando em um ambiente injusto, e essa mesma injustiça aconteceu na vida real também, já que ela foi presa e, por fim, deportada dos Estados Unidos.
Todo o filme e seu processo de produção são uma experiência incrivelmente, incrivelmente fascinante, e acho que acabei me interessando mais pela história por trás do filme do que pelo próprio filme — e isso não é necessariamente ruim, porque a história é sempre importante de lembrar e entender.
No final, o filme dá voz àqueles que foram ignorados. Os papéis dentro da história mudam, e o coração de todo um movimento é mostrado e retratado com atenção cuidadosa do início ao fim. Talvez um pouco desajeitado no geral, mas, no fim das contas, um filme bastante significativo em termos do que quer mostrar e do que contém. Um ótimo filme.
14.7.26
9. A Woman Called Moses, TV Mini Series, 1978, Paul Wendkos
No iutubi:
A Woman Called Moses (1978) | COMPLETE EDITION |
A Woman Called Moses (1978) | Part 1
A Woman Called Moses (1978) | Part 2 |
Uma Mulher Chamada Moisés é estrelado por Cicely Tyson como a escrava fugitiva da vida real Harriet Tubman. Correndo o risco de ser recapturado, Tubman ajudou a organizar a Ferrovia Subterrânea, que permitiu que centenas de afro-americanos escravizados chegassem à liberdade do Norte. Aumentando a tensão estão os frequentes desmaios epilépticos de Harriet. Orson Welles narra esta adaptação do romance de Marcy Heidish
A minissérie Uma Mulher Chamada Moisés foi exibida em 11 de dezembro de 1978.
Uma mulher chamada Moisés. 1978. EUA. Dirigido por Paul Wendkos. Roteiro de Lonne Elder III, baseado no romance de Marcy Heidish. Com Cicely Tyson, Will Geer, Jason Bernard. 240 min.
Este drama televisivo em duas partes da NBC examina as dificuldades e conquistas da abolicionista afro-americana Harriet Tubman. Desafiador e determinado, Tubman facilitou a perigosa jornada dos escravos mais de uma dúzia de vezes para áreas do Norte onde podiam viver livres. Nascida escravidão por volta de 1822 como Araminta Ross, Tubman ganhou o apelido de "Moisés" ao liderar seu povo rumo à liberdade e segurança, muito parecido com o líder bíblico. Sempre comprometida em melhorar a vida das pessoas ou aliviar a perseguição, Tubman ingressou no movimento pelo sufrágio feminino no final do século XIX. Arquivo digital
14.7.26
10. Lady Snowblood: Vingança na neve, Shurayuki-hime, 1973, Toshiya Fujita
Lady Snowblood - Vingança na Neve : O conto revanchista que inspirou o cinema de ação ocidental
Filipe Pereira, 29 de dezembro de 2023
Lady Snowblood: Vingança na Neve é um filme de ação e drama japonês que completou cinquenta anos em 2023, já que foi lançado no ano de 1973. Dirigido por Toshiya Fujita, o longa narra a história de uma mulher habilidosa nas artes marciais e no manejar de armas brancas, que vai atrás de vingança a pessoas que fizeram mal a gente do seu passado.
O tal acerto de contas envolve a personagem da cantora e atriz Meiko Kaji, que recentemente, voltou aos holofotes por fazer a velha Genkai em Yu Yu Hakusho da Netflix. É baseado no mangá Shurayuki-hime, um Seinen da editora Shueisha, escrito por Kazuo Koike e ilustrado por Kazuo Kamimura.
O longa é produzido por Kikumaru Okuda, de Os Bravos Morrem Lutando e Com 007 Só se Vive Duas Vezes. Tem produção executiva de Robert J. Woodhead, que fez Samurai Assassino, Academia de Gênios e Lupin III: O Ouro da Babilônia.
O roteiro foi escrito por Norio Osada, da série Captain Ultra, Number 10 Blues Goodbye Saigon e Poderes Eróticos.
O filme faz parte do gênero Jidaigeki, estilo que retrata um drama de época, além de ser um filme de Chanbara, termo que remete a lutas de espadas. Foi filmado no Japão, foi distribuído pela Toho e financiado pela Tokyo Eiga, estúdio que fazia muitos filmes por ano e que entre suas obras mais famosas, estão As 4 Faces do Medo, Onibaba e A Face do Outro/O Rosto da Maldade, todos filmes de horror da década de 1960.
O nome original do longa é Shurayukihime ou Shura-yuki-hime, em atenção a Shirayuki hime que é o nome japonês de Branca de Neve e os Sete Anões. Na maioria dos países chama Lady Snowblood, pegando para si o nome adotado nos Estados Unidos
O filme foi lançado na parte final de 1973, época em quem o mangá terminava de ser publicado no Japão. Entre as diferenças pontuais das duas mídias está a exploração da nudez e da sexualidade feminina, muito mais presente no quadrinho, já que ele foi uma publicação financiada pela revista Playboy. Era um Gekiga, um mangá voltado para o público adulto.
Kazuo Koike escreveu Ninja Assassino e Lobo Solitário, enquanto Kamimura fez A Sociedade da Espada junto a Koike também. São dois mangakás experientes, cujas obras foram bastante adaptadas para o cinema e mídias audiovisuais.
Fujita fez dezenas de filmes, dos quais os mais lembrados são Shinjuku outlaw: Buttobase em 1970, Hachigatsu no nureta suna de 1971 e o drama Kaerazaru hibi lançadom em 1978. Foi indicado a premiações do cinema japonês por sua atuação em Zigeunerweisen 1981.
A trama inicia em um estranho ambiente, com o choro de um bebê ao fundo. É um lugar escuro, onde se enxerga madeira, com breves espaços, onde mãos de pessoas são vistas entre os vãos. Aquela é uma prisão de Tóquio, Hachioji, na prefeitura Kanagawa, no ano 7 da Era Meiji, no ano de 1874 segundo o calendário gregoriano. Nesse lugar somente mulheres estão instaladas e o pranto ouvido é a primeira manifestação vocal de uma criança recém-nascida.
O espectador é introduzido a história justamente no parto de sua protagonista. Não demora a aparecer um cenário de neve, onde a guerreira vivida por Kaji anda. Nessa introdução toca "Shura no Hana/ The Flower of Carnage " música escrita por Kazuo Koike e Masaaki Hirao e interpretada pela própria protagonista e anti-heroína.
O interesse pela carreira musical de Kaji foi renovado justamente depois que essa canção foi revisitada no cinema, em Kill BIll Volume 1, fato que a inspirou a gravar e lançar novas músicas pela primeira vez em quase 30 anos. Atualmente, a canção é lembrada especialmente por estar na trilha do filme de Quentin Tarantino. Ao longo do texto outros pontos de convergência serão apontados entre essa obra e o épico de vingança protagonizado por Uma Thurman.
Ela tem seu caminho cortado por um carro, onde está Shibayama Genzo (Hôsei Komatsu), o líder da gangue Asakura Senryo. Ela mostra seu poder letal e mata os capangas sem qualquer pudor, enfia a espada nos corpos dos homens manchando de vermelho o chão com neve.
A moça é bela, rápida e diz que seu nome é Vingança.
O roteiro mostra a personagem em processo de treinamento. Ela praticamente não para de se preparar, ou está lutando ou está treinando, inclusive em flashbacks, quando ela é criança ou adolescente.
O filme se passa em duas eras, com a primeira parte, antes do nascimento da protagonista, localizado na época de Edo, enquanto o grosso é ambientado durante o Período Meiji. Outra questão pontual é que apesar de localizar no gênero de luta de espadas, ou Chanbara, foge do clichê de apresentar a história de um ex-samurai ou ronin errante.
O Período Meiji se dá entre 1868-1912 e dentro do Japão é lembrado por ser uma época de transição da sociedade feudal isolacionista para uma nação mais moderna e que por conta disso, terminou a ideia de xogunato. Essas ações ocorreram justamente por conta do imperador recém empossado, que queria demarcar as diferenças do seu governo para o outro.
Dessa forma, uma mulher forte e poderosa matando pessoas poderia ser encarado como um sinal de mudança dos tempos. Quando a personagem interage com terceiros ela é chamada de Shurayuki. Isso ocorre especialmente quando ela chega na aldeia do senhor Matsuemon (Hitoshi Takagi), o líder do clã de pessoas em situação de ruas.
Sua personificação é diferenciada, ele usa muletas, tem problemas sérios de saúde, mas é poderoso, tanto que tenta ajudar ela a encontrar três alvos, que estão na aldeia Koichi, sua terra natal. Tanto Matsuemon quanto outros acham ela incapaz de ferir uma mosca, a julgam por conta de ser uma menina de aparência bela, virginal e angelical. Ela de fato veste a máscara do anjo da morte, a vingança que se apresenta bela, mas que é cruel e mortal.
Lady Snowblood é uma das referências de Tarantino para formar ideias para Kill Bill. Ele pegou a música, já citada, mas não só isso. Ele também copia os anúncios dos alvos da Vingança, que são apresentados de maneira sensacional, com o nome em destaque de cada personagem.
Também há cenas animadas, tal qual ocorre a recapitulação da vida de O-Ren Ishii. A protagonista faz uma lista escrita à mão, das pessoas que devem morrer pelas ações da protagonista, tal qual Beatrix Kido faria nos dois filmes.
O enquadramento de quatro do quarteto de vilões também se parece com que é visto com os personagens de Lucy Liu, Michael Madsen, Vivica A. Fox e Daryl Hannah. A referência é óbvia, assumida, mas tem um significado e contexto diferente, como o diretor sempre gostou de fazer, já que pega uma imagem conhecida e coloca ela em outro contexto, referenciando e distorcendo tudo.
Lady Snowblood - Vingança na Neve : O conto revanchista que inspirou o cinema de ação ocidental
15.7.26
11. Criaturas extraordinariamente brilhantes, Remarkably Bright Creatures, 2026, Olivia Newman [Netflix]
Crítica | Criaturas Extraordinariamente Brilhantes por Ritter Fan, 15 de maio de 2026
O cefalópode, a velhinha e o nômade
Dentre todos os animais que poderiam protagonizar um “filme de bichinho”, jamais imaginaria que um polvo seria sequer uma opção. Mas esse fato somado ao protagonismo de Sally Field no alto de seus 79 anos que não parecem um dia a mais do que 65 atraíram-me para esse que provavelmente é o maior feel good movie do ano até agora, ou seja, um longa criteriosamente construído para pastorear o espectador pelo caminho do contentamento e das pazes com o mundo. Não é um filme perfeito nem de longe e ele exige que se aceite uma sucessão de coincidências que leva a um final de rolar os olhos em descrença, mas o comando de Olivia Newman, https://www.planocritico.com/tag/olivia-newman/ em apenas seu segundo trabalho de direção de longas (o outro foi Um Lugar Bem Longe Daqui) e o roteiro que ela, ao lado de John Whittington (que corroteirizou Lego Batman: O Filme, Sonic 2 e 3, além do recente Como Mágica), adaptou a partir do romance de Shelby Van Pelt, publicado em 2022, resulta em uma obra absolutamente irresistível.
Narrado pelo idoso polvo Marcellus (com voz de um ator cujo nome não direi aqui, e sugiro não pesquisar ou conferir a ficha técnica abaixo, mas que afirmo, sem sombra de dúvida, ter sido uma das mais inspiradas escalações de todos os tempos), que vive no aquário da cidadezinha costeira de Sowell Bay, no estado de Washington, o filme é, descaradamente, o clichê de autoajuda sobre aproveitar ao máximo a vida e sobre o poder da amizade e do amor, com a imponente criatura marinha usando sua inteligência privilegiada para, de uma tacada só, tentar resolver os problemas das vidas de Tova Sullivan (Field), a servente noturna da atração e de Cameron Cassmore (Lewis Pullman), um jovem que mora em seu furgão (qualquer semelhança com o Salsicha simplesmente não pode ser mera coincidência) e que chega ao local em busca do pai que nunca lhe deu atenção. Tanto Tova quanto Cameron cultivam um passado triste e ambos lidam com isso de maneira semelhante, ou seja, fazendo o máximo para afastarem-se do contato humano. Não demora e um pequeno acidente com Tova leva Cameron a trabalhar no aquário e os dois passam a nutrir uma relação de mentoria primeiro sobre como limpar o chão do aquário com escova de dente que, claro, desenvolve-se para algo mais profundo e duradouro.
Enquanto vamos aos poucos aprendendo mais sobre Tova e Cameron, outros personagens entram na história, seja Ethan Mack (Colm Meaney), o dono do mercado local que gosta de Tova e ajuda Cameron, Janice Kim (Joan Chen), Mary Ann Minetti (Kathy Baker) e Barb Vanderhoof (Beth Grant), todas amigas de Tova que, juntas, formam uma espécie de clube de tricô e Avery (Sofia Black-D’Elia), uma jovem proprietária de uma loja de paddleboarding que se aproxima de Cameron, isso além da presença constante e sempre enternecedora de Marcellus e suas escapadas de seu viveiro, personagem que, diria, é um pequeno triunfo de computação gráfica mesclada com filmagens reais como há muito tempo não via. Entre a serenidade melancólica de Tova, a energia inocente de Cameron, a sabedoria tricordada do polvo e a pequena constelação de personagens que gravitam ao redor deles, o filme acerta seu tom logo de imediato e consegue estabelecer conexão em maior ou menor grau com todos aqueles que estiverem procurando uma obra que é pura simpatia, mesmo que carregada de melodrama e, por vezes, ainda bem, de melodrama temperado por uma leve camada de comicidade.
Como imagino que seja também o romance, apesar de não tê-lo lido, na medida em que as linhas narrativas do cefalópode empático, da senhorinha simpática e do jovem errático começam a convergir e a chegar ao final em meio a lições de vida dignas de para-choque de caminhão, o roteiro passa a exigir o que mencionei no começo, ou seja, a aceitação de uma série de coincidências e conveniências que telegrafam em detalhes o que acontece e que exigem doses cavalares de suspensão da descrença. Talvez faça até parte do DNA desse tipo de filme a transferência da obrigação de convencer o espectador para o autoconvencimento desse mesmo espectador, mas tenho para mim que essa é uma escolha um tanto quanto preguiçosa. O longa de Newman poderia muito facilmente ter chegado ao mesmo resultado prático sem fazer das tripas coração para satisfazer o público que procura coisas forçadas assim, mas compreendo o quanto um resultado desses é preferível a algo que represente um mínimo de desafio. Mar calmo em uma praia meramente simpática é sempre escolhido quando a outra opção tem marolas, mesmo que a praia seja magnífica. E não há problema algum nisso de vez em quando, mas só de vez em quando.
Criaturas Extraordinariamente Brilhantes encanta por colocar um polvo como narrador e, não só isso, dividindo o protagonismo com atores reais e comove por ter Sally Field fazendo uma das mais simpáticas senhorinhas do audiovisual. Só isso já vale o preço do ingresso, mesmo que, quando os créditos começam a aparecer e nós finalmente descobrimos a perfeição da escolha do ator para a voz de Marcellus, o que resta é aquela sensação passageira de bem-estar que poderia ter vindo acompanhada de algo um pouco mais duradouro do que ensinamentos de vida que encontramos em livros de autoajuda.
16.7.26
12. A Odisséia, The Odyssey, Minissérie TV, 1997, Andrei Konchalovsky
A Odisséia - 1997 - Crítica do Filme - vídeo
Irene Papas nesta série fez Anticleia. Na outra, Odissea, Minissérie 1968, ela fez Penélope.
No iutubi:
Filme de Ulisses (A Odisseia de 1997 parte 01)
Filme de Ulisses (A Odisseia de 1997 parte 02)
A Odisseia é uma minissérie de televisão estadunidense de mitologia-aventura de 1997 baseada no poema épico grego antigo de Homero, a Odisseia. Dirigida por Andrei Konchalovsky e coproduzida pela Hallmark Entertainment e American Zoetrope, a minissérie foi exibida em duas partes a partir de 18 de maio de 1997, na NBC. Foi filmado em Malta, Turquia, partes da Inglaterra e muitos outros lugares ao redor do Mediterrâneo, onde a história se passa. O elenco inclui Armand Assante, Greta Scacchi, Irene Papas, Isabella Rossellini, Bernadette Peters, Eric Roberts, Geraldine Chaplin, Jeroen Krabbé, Christopher Lee e Vanessa Williams. (wiki)
17.7.26
13. Odissea, Minissérie TV, 1968, Franco Rossi (8 episodios), Mario Bava
Episódios:
E01-Telemaco e Penelope; E02 - Ulisse, Nausicaa e Calipso; E03 - La distruzione di Troia e l'isola dei Lotofagi; E04 - Polifemo e il dono di Eolo; E05 - L'isola di Circe e la discesa agli Inferi; E06 - Le Sirene, Scilla e Cariddi, l'isola del Sole e il ritorno a Itaca; E07 - Ulisse mendico alla corte e la vigilia della gara finale; E08 - Vittoria di Ulisse e il riconoscimento di Penelope
No iutubi:
Odissea E.01 Telemaco and Penelope (1968)
Odissea E.02 Ulysses, Nausicaa and Calypso (1968)
Odissea E.03 Fall of Troy and Island of Lotus-eaters (1968)
Odissea E.04 Polyphemus and the Gift of Aeolus (1968)
Odissea E.05 Island of Circe and Descent to the Underworld (1968)
Odissea E.06 The Sirens, Scylla and Charybdis, The Island of the Sun and Return to Ithaca (1968)
Odissea E.07 Ulysses Beggar at the Court and the Eve of the Final Competition (1968)
Odissea E.08 Victory of Ulysses and the Recognition of Penelope (1968)
Odissea/L'Odissea/A Odisseia (1968) por Mark David Welsh
'Você será devorado por último depois que eu tiver comido todos os seus companheiros.'
No final da Guerra de Troia, o guerreiro Odisseu parte na jornada de volta para casa, em Ítaca. Mas ele ficou irritado com certeza dos Deuses e o caminho está marcado por bestas mitológicas, armadilhas e feitiçarias. Durante os dez anos que se passam, sua esposa Penelope permanece fiel, mas está cercada por jovens príncipes que exigem que ela tome um deles como marido e novo rei...
Épica, adaptação de quase sete horas do famoso poema de Homero, feita para a televisão italiana pelo produtor Dino De Laurentiis e pelo diretor Franco Rossi. De Laurentiis também foi responsável pela versão longa-metragem 'Ulisses' (1954) com Kirk Douglas, mas sempre ficou insatisfeito com os compromissos necessários para reduzir a história ao tamanho de um longa-metragem. Esta coprodução ítalo-franco-alemã, no entanto, entrega quase toda a história intacta.
Foram 20 anos difíceis para a Rainha Penélope de Ítaca (Irene Papas). Não só o marido Odisseu (Bekim Fehmiu) lutou no cerco de uma década a Troia, como agora se passaram dez anos, e ele ainda não voltou. A corte real está cheia de jovens nobres que a devoram e exigem que ela tome um deles para ocupar o trono vago. Seu filho Telémaco (o excelente Renaud Verley) não pode fazer nada além de suportar os insultos lançados pelos pretendentes noivos, liderados pelo insuportavelmente arrogante Antínoo (Constantin Nepo, também conhecido como Constantin Andrieu).
O frustrado Verley é persuadido pela deusa Atena a procurar seu pai. Então ele pega a estrada para visitar os veteranos de Troia Nestor (Jaspar von Oertzen) e Menalus (Fausto Tozzi). Nenhum dos dois consegue lhe dar informações, mas a esposa de Tozzi, Helen (Scilla Gabel), conta como Fehmiu escalou sozinho as muralhas de Troia para encontrá-la. Enquanto isso, o homem em questão apareceu na costa da Feácia. Graças à ajuda da jovem Princesa Nausicaa (Barbara Gregorini), ele foi recebido na corte pelo Rei Alcinioo (Roy Purcell) e pela Rainha Arete (Marina Berti). Depois de inicialmente manter sua identidade em segredo, ele se revela e começa a contar as histórias de suas aventuras.
É aqui que começa a parte mais famosa do poema, é claro. Fehmiu já contou ao apaixonado Gregorini sobre seus sete anos passados nos braços da deusa Calipso (Kyra Bester), então ele começa com a tentação de sua tripulação pelos Comedores de Lótus e segue para o encontro com o ciclope, Polifemo (Samson Burke). Essa sequência foi dirigida pelo mestre do terror Mario Bava, e algumas fontes afirmam que Bava também trabalhou nas mesmas cenas em 'Ulisses' (1954). No entanto, outros sugerem que não há evidências para essa afirmação. De qualquer forma, faz todo sentido De Laurentiis trazer Bava para o grupo, dado seu lendário talento com truques ópticos e efeitos sonoros práticos.
E Bava não decepciona, entregando uma sequência substancial que se torna o destaque da série. A escala da caverna do gigante é alcançada com uma combinação de pinturas matte e posicionamento perfeito da câmera, auxiliada por adereços apropriadamente sobredimensionados. Perspectiva forçada e ângulos altos enfatizam o tamanho da criatura, e alguns cortes rápidos com uma mão gigante (muito reminiscentes de alguns dos mesmos momentos em 'Ulisses' (1954)) só servem para reforçar a ilusão, em vez de desfazê-la. É uma obra técnica, auxiliada pelas excelentes atuações do elenco e pelo trabalho de Carlo Rambaldi no rosto do monstro, embora este último já tenha passado um pouco.
O restante da história de Fehmiu é mais variado em termos de qualidade de produção. O único grande erro é sua visita ao 'guardião dos ventos' Éolo (Vladimir Leib). Até esse ponto, o departamento de figurino fez um trabalho impecável, mas aqui algo deu muito errado. Leib e sua comitiva estão equipados com perucas prateadas de terror afro e roupas combinando. Eles parecem mais refugiados de um filme de ficção científica italiano da época. Também vale notar que a Cila de seis cabeças e o redemoinho Caribdes são completamente omitidos; provavelmente devido às dificuldades técnicas de trazê-los para a tela de forma convincente. No entanto, pelo lado positivo, temos uma Circe muito memorável, cortesia da impressionantemente bela Juliette Mayniel.
O que mantém o projeto unido, porém, são algumas ótimas atuações dos principais protagonistas. Fehmiu é excelente como Odisseu; Impulsivo e arrogante nos flashbacks do início de sua jornada, mas mais velho e sábio na narrativa. Ele até tem dúvidas durante sua vingança contra os pretendentes da esposa no ato final, algo que seu eu mais jovem não teria considerado. O ator também claramente faz a maior parte do combate com espadas sozinho. Não é um trabalho espetacular, mas evita a irrealidade excessivamente coreografada dos filmes mais modernos, parecendo genuinamente mais autênticos para a época. E a autenticidade é um marco ao longo da produção, com Fehmiu comendo uma refeição com os dedos na corte dos feácios (sem talheres na Grécia Antiga, pessoal, nem mesmo facas!)
Dark-eyed Papas também faz o melhor de seu papel como a arquétipa 'mulher que espera', trazendo um toque emocional muito necessário à história sem exagerar. É interessante especular por que Silvana Mangano não teve esse papel em vez disso. Afinal, ela havia interpretado o mesmo papel em 'Ulisses' (1954) ao lado de Kirk Douglas, e na época era casada com o produtor De Laurentiis! Também é curioso que apenas a bela Helen, interpretada por Gabel, tenha o rosto branco com maquiagem, pois essa era a prática padrão de todas as nobres na Grécia Antiga, onde o bronzeado não era socialmente aceito.
As conversas entre os Deuses são mantidas ao mínimo e apresentadas por narração fora de cena acompanhada por cenas de estátuas. Não é particularmente satisfatório, mas é preferível a atores conhecidos fazendo participações especiais em cenários cheios de fumaça vestidos com togas. Peter Hinwood aparentemente interpretou Hermes, meio década antes de alcançar fama cult eterna no papel principal de 'The Rocky Horror Picture Show' (1975). Você também vai reconhecer a jovem Gregorini em seu papel de estreia. Uma rápida mudança de nome depois, ela se tornou 'Bond Girl' Anya Amasova ao lado de Roger Moore em 'Ths Spy Who Loved Me' (1977) e outra a tornou Mrs Ringo Starr. Um dos primeiros créditos de Gabel na tela foi como a 'dupla nadadora' de Sophia Loren em 'Boy On A Dolphin' (1957). Apesar de sua atuação memorável aqui, a carreira de Nepo nas telas foi curta. Na vida real, ele foi um artista surrealista russo celebrado cuja obra mais conhecida é a maravilhosa pintura 'La Nuit de Walpurgis'.
Outros méritos técnicos impulsionam a produção, incluindo uma trilha sonora elegante do compositor Bruno Nicolai e um excelente trabalho em locações. Os exteriores foram totalmente filmados na antiga Iugoslávia, e suas costas vazias e ensolaradas são o cenário perfeito para essa história grandiosa de homens e mitologia. Além da transmissão televisiva, a série foi condensada em um longa de 105 minutos chamado 'As Aventuras de Ulisses'. Este filme foi aos cinemas nos anos seguintes e aparentemente continha quase toda a contribuição de Bava.
Menores críticas à parte, esta é uma tentativa impressionantemente fiel de recriar o poema original de Homero na tela. O cinema raramente é tão ambicioso ou tão bem realizado.
19.7.26
14. O Retorno, 2024, Uberto Pasolini
Crítica | O Retorno (2024) por Leonardo Campos, 8 de setembro de 2025
O herói astuto e resiliente da Odisseia
As complexidades da jornada de Ulisses permeiam diferentes camadas de compreensão, desde questões existenciais até reflexões sobre a natureza da humanidade. A Odisseia, como já explicitado em outros textos por aqui, não é apenas uma história de aventura, mas uma poderosa meditação sobre a vida, bem como sobre a existência e os dilemas humanos, refletidos em sua caminhada pela sociedade, abordagem que continua a inspirar e instigar debates e produções de entretenimento, como o caso desta narrativa exuberante dramaticamente. O Regresso de Ulisses, dirigido por Uberto Pasolini, é um épico que nos apresenta um impressionante desempenho de Ralph Fiennes como Odisseu, ao lado de Juliette Binoche como Penélope, ambos inseridos num enredo que interpreta uma versão moderna das últimas partes do poema em questão, a icônica composição poética atribuída ao grego Homero, com roteiro de Edward Bond e John Collee, em colaboração com Pasolini, cineasta que assina os elementos deste texto dramático coeso e coerente. Na produção, após vinte anos de guerra em Troia, Odisseu retorna nu à sua terra natal, Ítaca, onde é acolhido por dois de seus fieis escudeiros. No entanto, ele se vê devastado pelas cicatrizes da guerra e pelo estado de seu reino, que deteriorou durante sua ausência. Enquanto isso, a sua esposa enfrenta uma crescente pressão dos pretendentes a se casar, que estão ansiosos para assumir o controle do reino em crise. O filho de Odisseu, Telêmaco, interpretado por Charlie Plummer, se recusa a ceder às pressões destes homens inescrupulosos, algo que permeia a tensão ao longo dos 116 minutos de um enredo clássico que já conhecemos bem.
Enquanto a situação se agrava, Penélope se dedica a tecer a mortalha de seu sogro idoso, um ato que simboliza sua resistência e lealdade ao marido. Angustiado, o filho sugere que ela escolha um pretendente para restaurar a ordem, mas fiel esposa se recusa, preferindo finalizar a mortalha antes de tomar uma decisão. Com a morte do sogro e a pressão crescente dos pretendentes, que insistem na morte de Odisseu, ela promete que usará a vestimenta como seu vestido de noiva e que tomará uma decisão em breve. Neste processo, o protagonista planeja estrategicamente seu retorno. Assim, O Regresso de Ulisses se destaca por reimaginar a narrativa da segunda metade da Odisseia, deliberadamente omitindo as aventuras míticas do herói, como seu encontro com sereias e a luta contra o Ciclope. Essa escolha permite ao diretor Uberto Pasolini contar a história de maneira mais realista, concentrando-se nas dimensões psicológicas dos personagens. Diante deste desprendimento em relação ao que é da ordem do mitológico, a trama favorece uma abordagem intimista, que se aprofunda nas emoções e conflitos internos do casal, numa decisão dramática que desloca o foco do extraordinário para o cotidiano, destacando as lutas humanas e a resiliência emocional em um cenário de desolação.
A direção de fotografia assinada por Marius Panduru, marcada por uma estética “elegante e discreta”, sem os excessos de efeitos visuais que poderiam carregar demais sua composição, contribui para a atmosfera do drama psicológico que Pasolini busca criar. O que temos como resultado é um drama psicológico cheio de carga emocional, produção que oferece uma visão incisiva da situação dos personagens. A abordagem do diretor não apenas recontextualiza a história clássica, mas também proporciona um cinema “envolvente” que ressoa com as nossas experiências, enquanto público, diante de uma trama repleta de liberdades face ao material que serve como ponto de partida para os realizadores. O design de produção de Giuliano Pannnuti estabelece uma cenografia e direção de arte com toques clássicos, eficiente e ainda mais assertiva quando expõe em cena os figurinos de Sergio Ballo, coerentes com a época retratada. Essa interpretação mais humana da obra de Homero permite uma reflexão mais profunda sobre os temas da espera, da perda e da luta pela identidade, revelando as complexidades que permeiam as relações familiares e a noção de pertencimento em tempos de crise.
Ao final, depois de refletir ao longo da sessão, juntamente com a informação sobre uma nova abordagem grandiosa para o próximo ano, isto é, o esperado filme de Nolan, nós podemos observar que a Odisseia, de Homero, é um dos pilares da literatura ocidental, conteúdo que continua a fascinar o público contemporâneo por suas complexidades e enredo de identificação plena com muitas questões que nós humanos vivenciamos cotidianamente. Ulisses é o arquétipo do viajante e do herói que enfrenta desafios não apenas físicos, mas também espirituais e emocionais. Sua longa jornada de volta para Ítaca simboliza a busca incessante pelo lar e pela identidade. Essa temática ressoa fortemente em um mundo moderno em que muitos se sentem deslocados ou em busca de propósito. A ideia de que a jornada é tão importante quanto o destino final nos permite lembrar que o crescimento pessoal muitas vezes ocorre através das dificuldades enfrentadas ao longo do caminho. Os conflitos internos e a dualidade humana, priorizados por aqui, como já mencionado, delineiam o estilo adotado pela equipe de realizadores que entende o material que assume. Destaque para a sutil composição musical de Rachel Portman para a narrativa, delicada quando é preciso, contundente, mas sem exagerar na textura percussiva, outro primor desta produção peculiar no universo das traduções homéricas para o cinema.
Ulisses é uma figura complexa, marcada por suas fraquezas e virtudes. Ele é ao mesmo tempo astuto e impulsivo, corajoso e nostálgico. Essa dualidade reflete a condição humana: somos capazes de grandes feitos, mas também suscetíveis a erros e fraquezas. Essa luta interna é uma experiência universal e contemporânea, convidando os leitores a refletirem sobre suas próprias complexidades. A dúvida e a incerteza que Ulisses enfrenta nos convidam a considerar como lidamos com nossas próprias lutas internas. Sua caminhada é uma jornada pavimentada pela sabedoria da experiência, afinal, um dos aspectos mais profundos da poesia homérica é a valorização do conhecimento e daquilo que é experimentado e adquirido ao longo da vida. À medida que Ulisses enfrenta diversas armadilhas e desafios, como os Ciclopes, as sereias e a feitiçaria de Circe, por exemplo, ele aprende e evolui. Tais figuras mitológicas, mesmo suprimidas, estão onipresentes na narrativa. Nós, do lado de cá, sabemos em que ponto o herói se encontra ao se apresentar em cena, mesmo que tudo isso não seja explicitado. Este tema tem uma forte ressonância na sociedade contemporânea, onde a sabedoria prática é frequentemente subestimada em meio à busca por conhecimento teórico. A jornada de Ulisses nos lembra da importância da aprendizagem que vem da experiência e da reflexão sobre as lições da vida.
Outro destaque que a produção evidencia é a natureza da heroicidade. Ulisses desafiou a ideia tradicional de heroísmo, não se limitando à força física e bravura, mas utilizando a inteligência e a astúcia para superar os obstáculos. Essa visão mais ampla do heroísmo estimula uma reflexão sobre o que significa ser um herói nos dias de hoje. Em uma era onde os heróis são frequentemente celebrados por grandes feitos, pode ser mais relevante reconhecer e valorizar as pequenas vitórias e as contribuições silenciadas do cotidiano. Assim, a postura heroica está na resiliência, na virtude e na capacidade de se adaptar. O desempenho dramático de Ralph Fiennes capta muito bem estes aspectos. Ademais, o protagonista, ao longo de sua travessia desafiadora, questiona e reafirma sua identidade como rei, pai e homem. Sua jornada para voltar a Ítaca não é apenas um retorno físico, mas uma busca pela essência de quem ele é. Esse tema crítico se manifesta fortemente na era contemporânea, caracterizada por constantes mudanças sociais e tecnológicas que desestabilizam identidades. O dilema de Ulisses nos leva a refletir sobre como construímos e reconstruímos nossas identidades em um mundo em constante evolução, e nos lembra da importância de encontrar um senso de pertença.
21.7.26
15. Desbravando o Oeste, The Way West, 1967, Andrew V. McLaglen [Prime]
Desbravando o Oeste (The Way West, 1967): A Épica Jornada Pioneira pelos Territórios Inexplorados
Desbravando o Oeste” é um clássico do faroeste de 1967 que retrata a coragem e os desafios dos pioneiros em uma jornada épica rumo ao desconhecido no Velho Oeste.
Andrew V. McLaglen dedicou boa parte de sua filmografia ao gênero que mais amava: o western. Discípulo do mestre John Ford, dirigiu sua primeira produção em 1957: Atirar para Matar (Gun the Man Down) não era um grande filme, mas agradou aos fãs do gênero. Após fazer algumas incursões na televisão, o diretor voltou-se novamente ao cinema na década de 60. Já com uma boa bagagem, lançou filmes bem populares e que traziam grandes astros: O Preço de Um covarde (com James Stewart, 1968), A Brigada do Mal (com William Holden, 1968) e Quando um Homem É um Homem (com John Wayne, 1963). Desbravando o Oeste (The Way West, 1967) também faz parte desse seu período:
O senador William Tudlock (Kirk Douglas) precisa levar um grupo de colonos para o Oregon através de um longo percurso. Para que isso seja possível, pede a ajuda de Dick Summers (Robert Mitchum), um guia experiente, porém doente e deprimido após a morte da esposa. William consegue convencê-lo e inicia-se uma longa caminhada, com vários desafios, romances, desilusões e perdas. Com o convívio constante, fica claro que a personalidade problemática de cada um aparece. William se desentende constantemente com Lije Evans (Richard Widmark), que tem ideias diferentes do senador, mas que também deseja chegar ao local e manter sua família.
Desbravando o Oeste se passa em 1843 e traz cenas muito fortes que envolvem mortes acidentais e enforcamentos. O modo de vida no velho Oeste não parece muito justo, as leis buscam frear os instintos de seus habitantes. E seguindo a tradição dos westers, índios são considerados os malvados da história e as personagens femininas secundárias e assustadas e subjugadas. Mas estamos na década de 60 e o gênero repetia a fórmula de sucesso adquirida ainda na década de 30. Sally Field fez sua estréia no papel de Mercy McBee, uma jovem cheia de energia. Sua liberdade não é bem vinda pelos pais, que julgam que ela deve se casar o mais urgente possível, antes que “algo de ruim aconteça”. Bem, acontece, ela se envolve com um homem casado e cria uma situação péssima com a esposa deste, interpretada por Katherine Justice. No final, ambas se sentem culpadas pela desfecho de tudo. Bem, estamos nos faroestes.
É um bom épico que repete um tema constante sobre caravanas de colonizadores que atravessam terras para chegar ao tão almejado lar. Porém traz uma fotografia espetacular assinada por William H. Clothier. É possível vislumbrar belos registros das planícies do velho Oregon.
Algumas curiosidades: Essa foi a segunda vez que Kirk Douglas e Robert Mitchum trabalharam juntos. A primeira foi no noir Fuga do Passado (Out the Past, 1947), um dos primeiros da carreira de Douglas. Mitchum e Widmark tinham algo em comum: também não se davam bem com Kirk Douglas, que assim como seu personagem, gostava de ditar ordens e ter o controle do filme.
22.7.26
16. A voz de Hind Rajab, Sawt Hind Rajab, 2025, Kaouther Ben Hania [Netflix]
A voz de Hind Rajab (2025) | Crítica por Felipe Fernandes | jan 29, 2026 |
Trezentos e cinquenta e cinco tiros foram disparados pelas Forças de Defesa de Israel (FDI) contra o carro em que Hind Rajab, uma menina palestina de seis anos, estava com os tios e primos, durante a invasão israelense à Palestina em janeiro de 2024. No primeiro momento, apenas ela e sua prima mais velha, que conseguiu entrar em contato com a ajuda humanitária em Gaza, sobreviveram. Quando outro ataque foi feito, Hind se viu como a única sobrevivente em um fogo cruzado, enquanto a Sociedade do Crescente Vermelho Palestino — responsáveis pela coordenação de emergências no país — tentava desesperadamente enviar socorro à menina. Essa situação integralmente factual é narrada em A Voz de Hind Rajab (2025), dirigido pela tunisiana Kaouther Ben Hania.
Todos os elementos do filme são condicionados para causarem desconforto, ansiedade e tensão, e o principal deles é a dificuldade da equipe de enviar o resgate para Hind.
Com a invasão, qualquer circulação de socorristas deve ser autorizada pelo exército israelense e, para isso, Mahdi (Amer Hlel) deve realizar um processo de coordenação similar ao de um telefone sem fio. Falar com uma pessoa, que entrará em contato com outra, que, por sua vez, falará com mais uma até chegar ao Ministério da Defesa israelense. Caso contrário, a ambulância enviada será atacada pelos soldados de Israel. Os seus colegas, principalmente os que estão em contato via telefone com a menina em apuros, o pressionam para que ele mande o socorro sem a luz verde da FDI, mas ele recusa. Correr o risco de perder mais voluntários não é uma opção.
É recorrente o uso de planos fechados, majoritariamente de câmera na mão, o que provoca essa sensação de inquietude. A ambientação limitada ao escritório da SCVP promove a atmosfera de urgência e impotência também. Os personagens vagam entre duas salas próximas. É um espaço apertado que, em união com os closes, gera um clima tenso.
O filme tem como artifício a utilização das gravações telefônicas reais entre Hind Rajab e a equipe de voluntários, ou seja, os atores interagem com a voz da própria Hind, que é também o que ouvimos. Isso aproxima o espectador da trama e intensifica a tensão. É como se nós próprios estivéssemos ouvindo a ligação de mãos atadas — que é exatamente o que os voluntários experienciaram.
É louvável o respeito para com a imagem e memória de Hind, uma vez que não há reencenações da menina no carro. Não há a escalação de uma atriz para interpretá-la, seja imageticamente ou sonoramente. Tudo que vemos dela são suas fotos verdadeiras e ouvimos sua voz real. Isso proporciona uma dramatização que utiliza o próprio contexto sociopolítico como uma das ferramentas narrativas suficientes para gerar a afetação.
Depois de horas de negociação para a passagem segura dos socorristas até o carro em que Hind Rajab estava presa, a Sociedade do Crescente Vermelho Palestino recebeu a autorização das forças israelenses para avançar com o resgate em uma rota segura. Se antes era possível sentir a tensão junto com a equipe, é natural sentir a esperança quando o socorro foi autorizado. A distância entre a ambulância e Hind foi percorrida em menos de 10 minutos, quando ouvem-se pelo telefone barulhos de tiro e a conexão, tanto com a menina como com o veículo dos voluntários, foi perdida. Mesmo conhecendo a história previamente e sabendo que esse era o final, o choque foi tremendo. O filme se encerra ali e é seguido por uma entrevista com a mãe de Hind, que só encontrou o corpo da filha doze dias depois do ocorrido.
A Voz de Hind Rajab é um lembrete da barbárie do genocídio palestino proporcionado por Israel. Se, no início do filme, há um certo excesso na relação vilanesca proposta sobre as tropas israelenses, logo tudo deixa de ser excessivo e torna-se verossímil. Não existe guerra em que a ajuda humanitária é bloqueada e fuzilada. Não existe guerra em que uma família inteira é morta por tentar fugir do conflito.
O conflito territorial em si, a disputa histórico-religiosa, é muito complexa, mas o genocídio não. Tentar complexificar isso é um privilégio ocidental quando, na verdade, é tudo bem simples: a libertação da Palestina é uma questão, literalmente, de vida ou morte.
23.7.26
17. Viver e morrer em Los Angeles, To Live and Die in L.A., 1985, William Friedkin
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Crítica | Viver e Morrer em Los Angeles por Fernando JG, 3 de abril de 2021
Viver e Morrer em Los Angeles me confirma a ideia de que o Willem Dafoe nasceu para fazer filmes temáticos das décadas de 80-90. Quando assisti ao O Dono da Noite, Dafoe estava metido em um esquema de drogas e criminalidade, com toda aquela pompa atmosférica da década de 90, com luz vermelha, muito jeans azul claro, a rádio tocando só as mais românticas no estilo Fulton Street, e ele, obviamente, dominando toda a situação com a malandragem típica que ele tem. Dafoe é sempre um ótimo vilão, e aqui não é diferente. Em To live and Die in L.A, ele tem uma atuação impecável. Começo destacando a atuação de Willem Dafoe pois ele, certamente, sabe o que está fazendo. No filme de Wim Wenders, Tão Longe, Tão Perto (In weiter Ferne, so nah!), o homem também atua no papel de um anjo vilão e é incomparável. Gosto das vilanias dele e da verossimilhança que ele transmite.
Um filme policial carregado de fugas alucinantes, violência, corrupção e uns romances bem cretinos e carnais, o longa de William Friedkin – que, além de ter dirigido um dos melhores filmes da história do cinema, O Exorcista, já tinha cravado seu nome com a melhor direção por Operação França no Oscar de 1971 – é uma produção de altíssima qualidade com um roteiro que dispensa comentários. Da primeira à última cena a ação é o que move a trama. É um homem-bomba que se explode; fugas a pé; perseguição em aeroporto e outros desesperos parecidos com estes. A violência não é sempre explícita, e nem sempre é gratuita, mas ela ocorre em momentos-chave da história, e te choca pelo que acontece, quando você menos espera.
A trama é simples mas é imbricada de acontecimentos que se cruzam a todo momento. Afinal, em se tratando de redes de crime, o filme, estilisticamente, também busca esse labirinto de perguntas e respostas. Um agente secreto do Estado, Richard Chance (William Petersen) trabalha como investigador infiltrado na sociedade. Quando em um dia de trabalho o seu amigo policial é assassinado por um mero acaso, por estar na hora e no local errado, Richard vai em busca do mandante e se depara com a figura de Rick Masters (Willem Dafoe), um falsificador dono de quadrilha, um bandido procurado há muito tempo pelo FBI. E então tem início a trama de gato e rato. A partir disso, Richard lança mão dos meios oficiais e age conforme sua própria vontade, caminhando da justiça para a vingança, e vice e versa.
O que chama a atenção é a segurança da direção na condução do filme. É visível que Friedkin assume os riscos de cair no clichê, e justamente por assumir o risco é que ele não cai no lugar-comum. Apesar de vários filmes seguirem a mesma fórmula, o toque de identidade do diretor é o que sustenta a sua originalidade. A ambientação do filme é impecável e te leva para um estado nostálgico através da atmosfera, das luzes características e da trilha sonora composta pela banda da novíssima onda inglesa Wang Chung. A banda, que compôs o álbum chamado também To Live and Die in L.A, traz uma força incrível para a trama.
Um filme que representa a potência do neo-noir norte-americano, com boas doses de suspense, a película traz um roteiro que flerta com o surrealismo, ainda que distante. Lembrei-me invariavelmente do noir lynchiano, principalmente na cena em que a posição da câmera dá a entender que o personagem de Willem Dafoe beija um rapaz. O jogo de câmera nesta cena é inacreditável, e logo em seguida a câmera faz um meio-giro e revela-se que, na verdade, é a sua ficante, colocando em jogo a questão da perspectiva dentro do cinema. Falando em relações, o modo com que Richard utiliza de sua posição policial para se aproveitar de lindas mulheres, em situação de liberdade condicional, para atrair seus alvos, é de uma canalhice absurda, seduzindo-as e as ameaçando para atingir seu fim.
As paisagens da famosa L.A aparecem aqui realçadas de sentido e escondem o que há por trás de toda a beleza da cidade dos anjos: corrupção, tristeza, crime, vício. Nem por isso este é um filme de drama. De fato, o grande trunfo e a grande aposta fílmica são as perseguições. Em todos os atos têm cenas arrebatadoras: mas destaco o terceiro ato, momento este em que o filme ganha o espectador, colocando uma perseguição na Avenida Principal – na contramão!! -. Uma cena memorável dentro do cinema noir, que arrepia pelo risco iminente de um acidente fatal.
Uma produção que tem como característica estilística a velocidade, o excelente longa de William Friedkin acontece sem dar um descanso, suspendendo por aquilo que a arte cinematográfica tem de melhor: a ficcionalização da realidade. É graças a isso que ele pôde dar ao seu filme um ar inflado na ação. E como dá certo! Uma sessão que vale a pena, sobretudo pelo elenco, To Live and Die in L.A é uma maravilha policial para se assistir a qualquer momento.
24.7.26
18. Spartacus, 1960, Stanley Kubrick
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Crítica | Spartacus (1960): Versão Restaurada Sem Cortes por Leonardo Campos, 7 de fevereiro de 2026
Uma produção hiperbólica que traduz o romance épico de Howard Fast para a linguagem do cinema na perspectiva criativa do mestre Kubrick.
Da mesma maneira que outras versões especiais comentadas e restauradas analisadas por aqui, a edição em questão, do clássico Spartacus, de 1960, é um material valioso para aqueles que apreciam o cinema em duas vias, isto é, como entretenimento e fascínio reflexivo. A filmagem do épico pelo cauteloso Stanley Kubrick, projeto que ele assumiu a convite de Kirk Douglas, se consolidou como um dos épicos hollywoodianos mais importantes das décadas de sua época. A produção foi marcada por bastidores intensos, começando pela demissão do diretor original, Anthony Mann, após três semanas de filmagem, o que levou Douglas, cuja empresa, a Bryna Productions, produzia o ambicioso projeto, recrutar Kubrick, com quem já havia trabalhado no aclamado Glória Feita de Sangue, em 1957. Spartacus, por sinal, é uma obra que permanece como a única na carreira de Kubrick onde ele não deteve controle artístico completo, enfrentando o desafio de gerenciar um elenco verdadeiramente impressionante que incluía Laurence Olivier, Charles Laughton, Peter Ustinov, Tony Curtis, dentre outros. Apesar das pressões do estúdio e da magnitude da produção, que se tornou a maior bilheteria da história da Universal Studios até ser superada pelo “menor” Aeroporto, em 1970, o filme equilibra sua escala grandiosa com um desenvolvimento narrativo profundo e humano.
A trama, que narra a histórica revolta de escravos liderada pelo gladiador Spartacus (interpretado por Douglas), destaca-se por ser imponente sem jamais se render a um heroísmo exagerado, mantendo um toque de intimidade crucial na relação entre o protagonista e a escrava Varinia (Jean Simmons). Esse equilíbrio emocional culmina em um final memorável que evoca tanto tristeza quanto inspiração, ecoando através das décadas e encontrando o tom mais visceral na mais recente versão televisiva do mito, transformado em série. Embora suas mais de três horas de duração original representem um desafio para as audiências contemporâneas, nessa versão, a integridade da obra foi preservada graças ao meticuloso processo de restauração conduzido por Robert Harris em 1991, que recuperou cortes feitos em relançamentos anteriores. É longo, cansativo sim, mas um daqueles filmes obrigatórios para qualquer cinéfilo, mesmo que seja para assistir e dizer que não se envolveu. Ao longo de sua história, Spartacus teve o reconhecimento da crítica e das cerimônias de premiação, através de seis indicações ao Globo de Ouro, incluindo a única indicação da carreira de Woody Strode, bem como a conquista de quatro estatuetas do Oscar, especificamente nas categorias de fotografia, direção de arte, figurino e a atuação coadjuvante de Peter Ustinov, imortalizando o filme como um pilar do cinema épico.
Essa versão restaurada de Spartacus é considerada a forma “definitiva” de assistir ao épico no Blu-ray (e 4K UHD). Esta versão corrige erros de edições anteriores e restaura a integridade visual e sonora do filme. A restauração foi supervisionada com cuidado para preservar a obra original, muitas vezes referida como a versão “Uncut” (sem cortes) restaurada. No processo, temos a mudança na fonte da Imagem, pois foi feito um novo escaneamento em 6K dos elementos originais de película de 35 mm (Technirama) para criar um master 4K. A proporção de tela foi mantida na proporção original de 2.20:1, refletindo o formato grande da época, além da qualidade visual, haja vista a restauração ter eliminado a aplicação excessiva de redução de ruído digital (DNR) que arruinou lançamentos anteriores, resultando em uma imagem com grão orgânico, maior nitidez e realismo nas texturas realistas. Ademais, a paleta de cores Technicolor também foi restaurada, apresentando tons vibrantes e naturais, com a versão 4K a utilizar HDR10 e Dolby Vision para melhor profundidade de preto e brilho. Um dos pontos que podemos observar é a famosa cena da “piscina” (que aborda a bissexualidade do personagem de Laurence Olivier), censurada no lançamento original, foi reintegrada e restaurada digitalmente.
Sobre os importantes detalhes no design de som e demais elementos de áudio de Spartacus, essa nova versão traz uma nova mixagem DTS-X (e DTS-HD Master Audio 7.1 no Blu-ray) que dá nova vida à trilha sonora original de Alex North, sem perder a “essência” da composição. Há também uma notável limpeza, com diálogos mais nítidos e claros, num processo que elimina alguns chiados e problemas sonoros das versões de DVD, oferecendo uma espacialidade maior nas cenas de batalha. E, na zona do enriquecimento intelectual, temos a faixa de áudio com os comentários inestimáveis, gravados na restauração anterior (aprox. 1991) e mantidos por sua relevância histórica. Ouvimos Kirk Douglas trazer relatos pessoais sobre as dificuldades de produção e a polêmica contratação de Dalton Trumbo, postura corajosa que quebrava a “lista negra” de Hollywood, bem como a sua visão sobre o personagem que ele mesmo interpretou, baseado no romance homônimo de Howard Fast. Peter Ustinov, o intérprete de Batiatus, traz como contribuição um tom mais leve e reflexivo, compartilhando histórias sobre o elenco e a atmosfera no set. Robert A. Harris, na posição de restaurador, nos fornece detalhes técnicos sobre como o filme foi salvo da deterioração, tratando ainda do processo de montagem das cenas que tinham sido descartadas. Edward Lewis, produtor, versa sobre os bastidores da produção e a relação complexa entre Douglas e Kubrick, numa faixa riquíssima que ainda inclui Saul Bass e suas explicações sobre a gênese criativa dos storyboards e a concepção artística geral de Spartacus, um dos maiores filmes das carreiras de todos os envolvidos.
O clássico é um épico que permanece como um dos pilares mais significativos da história do cinema hollywoodiano, não apenas por sua grandiosidade técnica, mas pelo profundo impacto político e social que exerceu na indústria da época. Com a presença de Kirk Douglas não apenas como o “galã” protagonista, mas nos bastidores e seus mecanismos de engendramento da narrativa, o filme desafiou frontalmente o macarthismo ao contratar publicamente o já mencionado roteirista Dalton Trumbo, numa postura que buscou quebrar efetivamente o cerco da censura ideológica da época, tal como a bravura do rebelde escravo transformado em gladiador. Sob a direção meticulosa de Kubrick, um gênio na concepção de imagens, a volumosa narrativa de quase quatro horas de duração elevou o gênero “espada e sandália” a um novo patamar de sofisticação visual e narrativa, substituindo o melodrama religioso convencional por uma análise mais crua da interminável luta de classes que vai além da ficção, bem como refletiu sobre a dignidade humana e o custo da liberdade. A icônica cena “I am Spartacus” transcendeu as telas para se tornar um símbolo universal de solidariedade e resistência coletiva contra a opressão, influenciando décadas de cineastas, dentre eles, o admirador assumidamente declarado Ridley Scott e seu épico Gladiador, igualmente emocionante e artisticamente imponente. O legado e o impacto cultural de Spartacus é duplo: consolidou a imagem do herói rebelde que prefere a morte à servidão e serviu como o catalisador que restaurou a integridade.
25.7.26
19. Jogo mortal, Sleuth, 1972, Joseph L. Mankiewicz
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26.7.26
20. Secretária, Secretary, 2002, Steven Shainberg [prime]
Sinopse: Lee Holoway, nossa personagem-título, logo no início da história é mostrada sendo liberada de um hospital psiquiátrico. Primeiro sinal: por que estava lá? Depois, como qualquer pessoa em situação similar, sai à procura de um emprego. Encontra uma oportunidade no escritório do Sr. Grey – este sendo o original, e não essa cópia genérica que tem feito sucesso nos últimos tempos – um advogado que precisa de alguém para auxiliá-lo no escritório. Lee não só se candidata à vaga, como a consegue. Segundo sinal: por que Grey precisa tanto de secretárias – já que trabalha sozinho – a ponto do anúncio de “precisa-se” ser fixo, logo abaixo do letreiro com seu nome, bastando um acender de luzes para torná-lo ativo? Quando a novata entra no local, a antiga funcionária ainda está se retirando, aos prantos. E há sinais de que outras passaram pelo mesmo local recentemente.
O Sr. Grey não é uma pessoa fácil. Metódico, lento, reservado, adota procedimentos muito especiais no seu dia a dia. Não usa computadores, todo seu material de expediente é redigido em máquinas de escrever. Trabalha cuidadosamente num orquidário pessoal, e revê neuroticamente todas as suas anotações, além de procurar pausadamente por erros nas cartas que sua subalterna lhe entrega. O mais curioso – e é nesse momento que algumas questões começam a ser solucionadas – é que serão justamente essas peculiaridades do comportamento do Sr. Grey que tanto irá atrair Lee, e essa atração se fará notar também pela percepção dele.
Desenvolvendo-se de um certo ponto até mesmo óbvio – afinal, estamos estamos diante de uma comédia romântica, e como tal os parâmetros do gênero serão respeitados: os pares são apresentados no primeiro ato, sofrem adversidades diversas no segundo e terminam juntos no terceiro. Todo mundo sabe disso, não é para adivinhar como irá acabar que vamos assistir filmes assim, mas para presenciar o desenrolar da ação, ver como a situação proposta irá se comportar até o já sabido final. E é justamente neste aspecto que Secretária revela seus méritos.
O filme só ganha quando seus pequenos segredos começam a ser elucidados. Para quem ainda não havia percebido, as cenas seguintes tratam de ser bem claras sobre a natureza dos acontecimentos: Lee é masoquista, enquanto Grey é um sádico. Os dois são párias, mas que se reconhecem e se aproximam por suas peculiaridades. São exceções num mundo de comuns, e o processo de aceitamento mútuo será tão difícil quanto complicado. E, principalmente, baterá de modo muito mais forte e insistente neles próprios do que nos que estão ao seu redor. Nesse ponto, Secretária confirma sua maturidade ao mostrar os dois personagens principais conduzindo suas existências perturbadas em busca da aceitação – um se abrindo, o outro se refugiando – para no fundo irem ao mesmo local, o bem estar. É um filme adulto, feito para uma plateia madura. Mantendo-se à altura dos conceitos abordados, satisfaz seus espectadores pela qualidade da mensagem que passa e pela forma satisfatória em que apresenta sua resolução.
SECRETÁRIA - UM BAITA FILME PARA VER NO PRIME VIDEO - vídeo
27.7.26
21. Amaldiçoada, Brimstone, 2016, Martin Koolhoven [prime]
Crítica | Amaldiçoada (2016) por Anthonio Delbon,16 de novembro de 2017
Amaldiçoada, tradução de Brimstone – que remete, em tradução livre, a algo como enxofre ou, literariamente, ao sofrimento do inferno – é um introvertido e denso western do diretor holandês Martin Koolhoven, que diz logo ao que veio ao colocar seu nome antes do título do filme logo na abertura do longa. Retratando, pode-se dizer, sua própria concepção do que seria o inferno, o diretor expõe um filme de linda fotografia, belas atuações e narrativa interessante, ainda que peque um pouco na pretensão metafórica que seu roteiro tenta contar.
Acompanhando a vida da parteira muda Liz (interpretada pela notável e delicada Dakota Fanning) e sua família nos Estados Unidos do século XIX, o longa conta como a protagonista é abalada pela chegada do novo reverendo na pequena cidade onde vive, interpretado pelo excelente Guy Pearce em papel incomum. Fundamentando seu suspense na descoberta paciente do passado das personagens, o filme de Koolhoven repousa, essencialmente, na estrutura narrativa criada por seu diretor/roteirista que desvela, com paciência e indo do presente ao passado, o verdadeiro enredo da película e os temas a serem trabalhados.
Aqui já vale uma observação: seria a jornada de Liz tão interessante e peculiar se fosse contada dentro de uma narrativa ordinária? Acredito que não. O final do primeiro capítulo – sim, o filme é dividido em três capítulos ao estilo Tarantino, batizados com nomes bíblicos que expõem, até excessivamente, a temática a ser trabalhada – serve praticamente como cliffhanger a ser finalizado no último arco, quando já temos todas as informações e nos afeiçoamos com as personagens em si. Optando por um desenvolvimento convencional, creio que Amaldiçoada perigaria cair na vala comum dos banais contos de sofrimento, coragem e sacrifício ainda na metade de sua duração, daqueles com flashbacks apelativos.
Felizmente, a escolha de Koolhoven foi acertada por manter no espectador um nível alto de interesse praticamente durante todo o filme, ainda que a duração se arraste um pouco ao final. Tal estrutura também de nada serviria se o diretor não mantivesse cada capítulo – que possuem temas, atores, objetivos e cenários totalmente distintos – em uma unidade forte e explícita. Equilibrando bem a peculiaridade de cada parte da vida de Liz contada dessa forma, o diretor consegue expor um todo destacando a particularidade de cada pedaço do filme.
Para tal admirável trabalho, o uso de diferentes fotografias, ora acinzentadas, ora avermelhadas, só se equipara à paciência no desenvolvimento das personagens. Seja no bordel, seja com os porcos, o roteirista consegue criar uma unidade poética sólida, com rimas e repetições capazes de mesclar cada pedaço da vida de sua protagonista gerando uma evolução constante na nossa percepção do que já foi visto. Uma expansão prudente que descansa, certamente, nos ombros do excelente elenco coadjuvante, que perpassa cada arco ditando o tom do filme.
O trabalho de roteiro, porém, não passa incólume. Ainda que Guy Pearce dê ao reverendo uma gravidade instantânea, facilitada pelo figurino escuro e pela câmera de Koolhoven que o transforma em uma espécie de mal encarnado e misterioso, o personagem em si sofre por um estereótipo de fanatismo que o tira, constantemente, de qualquer tridimensionalidade capaz de sustenta-lo como figura icônica. É verdade que o reverendo é atroz, desprezível e amedrontador, mas também é verdade que sua convicção psicopata e hipócrita não vai muito além disso, o que o transforma, em determinados momentos da película, em uma espécie de exterminador imparável.
Tal problema se estende, em certo sentido, à própria temática geral do filme. Sim, o filme trata do fanatismo religioso, da misoginia e da superação humana de forma cuidadosa, ainda que visceral – daquele tipo de virar o estômago, quase que literalmente. Decisão acertada, nesse sentido, foi a de contar a história da perspectiva da frágil Liz, algo visto poucas vezes em um western tão brutal como este. Mas o que parece ser uma grande metáfora bíblica no seu início recai, por excesso de pretensão, em uma belíssima jornada de heroísmo e coragem em face ao mal e ao sofrimento que permeiam a vida, seja no século XIX seja no XXI.
Não me entenda mal: as aporias que o filme coloca, a desesperança e a superação local – nunca redentora nem salvadora em sua totalidade – são pontos inflexivelmente admiráveis. O problema é que, ao pretender-se mais meditativo do que realmente é, o filme parece causar, ao seu final, uma impressão forte que dá ares de permanência pela densidade das situações e pela linda fotografia, mas acaba, ao passar dos dias, mostrando um roteiro mais nu e ordinário do que se poderia imaginar lá pela metade da obra.
Como um violento conto sobre coragem, Amaldiçoada merece ser visto e apreciado. É fato que as vísceras que o filme expõe não acabam simbolizando tanto quanto poderiam, tal como o flerte com a temática bíblica, que acaba deixando a desejar – penso em A Bruxa como algo semelhante e melhor executado, ainda que de um gênero totalmente distinto. De qualquer forma, para além das críticas que amam reduzir filmes ao contexto cultural, afirmo com um sorriso no rosto que Amaldiçoada escancara, como poucos, o suor, as lágrimas e o sangue que uma vida infernal – desculpe o pleonasmo – requer para durar, seja na época ou no lugar que for. O rosto de Dakota Fanning, atingindo uma espécie de paz trágica ao se resignar com a aspereza da jornada de Liz, certamente é um ponto inesquecível deste cruel e corajoso western.
AMALDIÇOADA - O FILME ESCONDIDO NO PRIME VIDEO QUE VOCÊ PRECISA VER - vídeo
28.7.26
22. Assassino de aluguel, Desert Saints, 2002, Richard Greenberg
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Melora Walters, 1960 imdb
Banks é um matador de aluguel, o melhor, geralmente trabalhando para cartéis de drogas latino-americanos. Ele pega mulheres solitárias, as usa brevemente para um trabalho e depois as mata. Ele está no Sudoeste, indo para o México, quando pega Bennie, uma mulher que está deixando um casamento abusivo e indo para Paradise, Arizona. O filme segue três trilhos: o recrutamento lento de Bennie por Banks, o preparo para o assassinato em um resort chique no México e a perseguição próxima do FBI a Banks, que eles querem vivo na esperança de que ele denuncie seus chefes. Bennie pode não ser quem parece, e pode haver uma brecha na armadura durona de Banks. Armas, dinheiro e uma chance no Paraíso.
29.7.26
23. A sangue frio, The Way of the Gun, 2000, Christopher McQuarrie
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Jennifer Jason Leigh, 1962 imdb
The Way of the Gun por Roger Ebert, 8 de setembro de 2000
O filme marca a estreia como diretor de Christopher McQuarrie, que ganhou um Oscar por seu roteiro de "Os Suspeitos de Sempre". Ele é um diretor nato, e agora o que ele precisa encontrar é um editor nato.
Há cenas aqui tão boas, tão inesperadas, tão cheias de observação e nuances, que você mal acredita nas notas que ele está atingindo. E então ele volta para mais uma rodada de tiroteios "Wild Bunch" – sem perceber que, para Sam Peckinpah, o tiroteio foi o clímax, não a pontuação.
Ambos esses filmes de McQuarrie têm enredos repetitivos, reviravoltas e revelações inesperadas, e falas finais que colocam tudo em dúvida – embora, apresso-me a acrescentar, não sejam da mesma forma. Será que essa pode realmente durar apenas 119 minutos? Tem enredo suficiente para uma série. Eu adoraria ver o prelúdio, no qual esses personagens se torcem como pretzels narrativos, preparando tudo o que vale a pena aqui.
Benicio Del Toro e Ryan Phillippe estrelam como o Sr. Longbaugh e o Sr. Parker (o "senhor" é uma lembrança de "Reservoir Dogs"). Tendo esgotado todas as chances de uma vida normal (duvidamos que tenham se esforçado muito), eles nos dizem na narração que "saíram do caminho e foram atrás da fortuna que sabíamos ser nossa." Em um banco de esperma, eles ouvem uma conversa sobre um milionário cuja semente está sendo levada a termo por uma mãe de aluguel, que está sempre sob guarda armada. A ideia deles: sequestrar a mãe e cobrar o resgate.
A ideia de sequestrar uma mulher (muito) grávida já causaria complicações suficientes para alguns diretores, mas não para McQuarrie, que se lança em um labirinto envolvendo lealdades cruzadas entre os guarda-costas atuais do milionário, seus empregadores obscuros, seus antigos executores, o velho amigo do executor e uma ginecologista cujo envolvimento no caso é mais (ou menos) do que profissional.
30.7.26
24. Noites violentas no Brooklyn, Last Exit to Brooklyn, 1989, Uli Edel
Noites Violentas no Brooklyn – Histórias de almas destruídas e corpos despedaçados
By Distração planejada, 08/07/2018
Toda cidade tem suas regiões barra pesada. Aquele bairro que ninguém recomenda aos turistas e desavisados. Em Nova York, o Brooklyn é visto como um desses lugares. Na verdade, durante muitas décadas, praticamente toda a cidade era considerada perigosa, impressão que o próprio cinema hollywoodiano ajudou a propagar internacionalmente, em filmes de diferentes gêneros como Desejo de Matar (Death Wish, 1974), Loucademia de Polícia (Police Academy, 1984) e Arrebentando em Nova York (Rumble in the Bronx, 1995).
E não era apenas ficção cinematográfica, tanto que houve uma verdadeira cruzada contra o crime, batizada de tolerância zero, promovida pelo prefeito à época, na década de 1990, Rudolph Giuliani. Noites Violentas no Brooklyn reforça mais ainda a má imagem que a região projetou e que se fixou no imaginário de milhares de pessoas que nunca estiveram lá ou em nenhuma outra parte dos Estados Unidos.
O filme se passa no início da década de 1950, onde uma greve de trabalhadores está em curso, paralisando uma fábrica local. As ruas do Brooklyn retratadas na película, especificamente a área de Red Hook, onde se passa a trama, lembram algo como um cenário pós-apocalíptico, no mínimo uma cidade pós-ocupação nazista na Segunda Guerra, um local em ruínas. A luz do sol não consegue penetrar nem durante o dia, as ruas são repletas de lixo, terrenos baldios são convidativos ao ilícito e os prédios são tão mal cuidados que parecem abandonados. É nesse ambiente em que se desenrola o cotidiano de violência e abandono, de perversidade e desesperança, incompreensão e intolerância vivido pelos moradores, retratado através de recortes na vida de vários personagens apresentados ao longo da trama.
Lançado em 1989, Noites Violentas no Brooklyn parece uma produção perdida da década anterior, gravada no auge da Nova Hollywood e mantida no porão de algum estúdio, até ser encontrada e revelada ao mundo. A narrativa não é voltada para heróis, mas desprovida de esperança e o mais gráfica possível no tocante à violência. Um filme seco que não faz a menor questão de tornar seus protagonistas simpáticos aos espectadores, mas repulsivos ou, no máximo, dignos de pena.
Durante o dia, os marginalizados, como vampiros, se escondem dentro das moradias decrépitas, esperando o anoitecer para saírem em busca de dinheiro fácil, álcool, drogas ou simplesmente violência gratuita. Então percebemos que esta última não está restrita ao exterior. A violência domiciliar, praticada pela própria família, é talvez ainda pior que a das gangues e larápios das ruas, pois afeta diretamente a autoestima, apodrecendo o interior dos personagens.
Em uma situação invertida, as ruas servem de abrigo para os desajustados. Harry (Stephen Lang), por exemplo, está em uma posição privilegiada no sindicato, mas se sente incompleto em casa, com mulher e filho recém-nascido. Atraído por uma cena que parece comum na região, uma gangue surrando quase até a morte um soldado de passagem, resolve usar seus recursos para conquistar a companhia de Vinnie (Peter Dobson) e sua gangue, se sentindo satisfeito em apenas observar a violência que o grupo pratica.
Mais tarde, Harry se descobre homossexual, se apaixonando por um travesti que o dispensa quando seu dinheiro acaba, o levando a desabar de modo hediondo, quando a violência que idolatra é voltada contra ele em um ato de justiça bárbara.
Big Joe (Burt Young), um dos operários em greve, se comunica com sua família com a mesma linguagem com que trata seus parceiros de trabalho, com resmungos, ofensas verbais e até tapas. Sua esposa não age de forma diferente, até ameaçando quebrar o braço do filho caso esse desobedeça a uma ordem simples como se retirar da sala. Ao descobrir que a filha (uma virgem santa, em sua visão) está grávida, Joe tenta resolver a situação agredindo o rapaz que a engravidou, apesar dele aceitar o casamento. Este é o único fragmento que chega a ser cômico em todo o filme.
Uma das personagens com mais tempo em tela, e que teve como resultado o melhor trabalho de atuação no filme, é a prostituta Tralala (Jennifer Jason Leigh), uma mulher que vive de aplicar golpes em bêbados que pesca nos bares locais, em parceria com a gangue de Vinnie. Usa sua beleza como única arma para sobreviver em um meio que não admite fraquezas. Mesmo diante do amor sincero de um jovem oficial do exército, que enxerga valores que não existem nela, se recusa a sucumbir a qualquer sentimento de carinho, tentando entorpecer o corpo numa tentativa de retornar à segurança da insensibilidade da alma em um processo catártico extremamente doloroso, resultando em uma das cenas mais brutais do filme e talvez até do cinema americano.
Talvez o único indício de inocência em todo o filme esteja no filho adolescente de Big Joe. Apaixonado por Tralala, seu sonho é comprar uma moto para conquistar a atenção dela. Mesmo esse sonho simples, quando parece prestes a se concretizar, é despedaçado duramente. Não há piedade no Brooklyn, uma espiral de iniquidade que suga e devasta qualquer alma, deixando o espectador ansioso para saber qual a próxima maldade que será apresentada na tela.
Uma das cenas que reforçam a visão do Brooklyn como um centro de entropia é a da insurgência dos grevistas quando uma série de caminhões tenta furar o bloqueio. Os operários se atiram contra os portões da fábrica como uma invasão zumbi, sendo rechaçados pelos poucos policiais em um conflito desesperado. Simplesmente parece o fim do mundo.
Noites Violentas no Brooklyn é baseado no livro homônimo escrito por Hubert Selby Jr. e lançado em 1964. Os Estados Unidos sempre foram mais puritanos que sua produção cultural deixa perceber, e os fortes relatos de violência e transgressão sexual aliados a dizeres bíblicos abrindo cada capítulo da obra geraram uma boa repercussão na época. Até cineastas renomados como Stanley Kubrick e Brian De Palma pensaram em algum momento em fazer o filme.
A ideia da adaptação do livro surgiu na mente do diretor alemão Uli Edel desde o curso de cinema. No início da década de 1980, ele já havia feito Christiane F., 13 anos, Drogada e Prostituída (Christiane F., 1981), um filme que chamou a atenção na época e até hoje é relevante sobre o tema do vício. Aliás, a influência do cinema alemão foi apontada por alguns críticos em Noites Violentas no Brooklyn, mais especificamente toques de expressionismo alemão, escola cinematográfica cujo domínio de luzes e sombras era uma de suas principais características.
Depois desse trabalho, Edel ainda fez Corpo em Evidência (Body of Evidence, 1993), suspense com Madonna e Willem Dafoe no elenco, que não agradou nem público nem crítica, e passou a se dedicar a dirigir filmes para televisão e séries, com uma ou outra exceção até então.
31.7.26
25. Lutador de rua, Hard Times, 1975, Walter Hill
Outro dia sentei com meu velho para assistir a LUTADOR DE RUA que passou no TCM, atualmente o melhor canal da tv fechada para se encontrar bons filmes. Pena que nem tudo é perfeito e passaram com a porcaria do full screen preenchendo a tela. Mas tudo bem, qualquer hora dessas eu arranjo com o formato original pra rever, pois vale muito a pena. Filme poderoso cuja trama retrata perfeitamente o período da grande depressão sob o ponto de vista de dois sobreviventes (cada um à sua maneira) que se unem para ganhar uma grana com apostas em brigas de rua numa New Orleans subjugada pela situação em que o país vivia. Temos aqui um lutador de rua interpretado por Charles Bronson e seu agente, encarnado pelo James Coburn. O filme também conta com Jill Ireland, como sempre, fazendo o par romântico de Bronson...
É muito bom ver o velho Bronson em um de seus grandes momentos. Típico personagem “bronsoniano”, ele vive aqui um sujeito de poucas palavras, muita atitude, chega de trem com apenas uma sacola e sem passado encarando aquele universo de frente. Sua presença em cena é pra destroçar a opinião de qualquer um que ainda não acredita que ele foi um dos maiores atores de sua geração. James Coburn também está excelente; mais afoito e explosivo, acaba tendo grande importancia na narrativa, embora nunca tire o brilho de Bronson, principalmente porque este último é o cara que arrisca a fuça nas brigas.
E o trabalho de câmera de Walter Hill é exemplar nestas sequências de luta, valorizando cada plano e a performance dos atores. Trabalho de corpo genial. E olha que LUTADOR DE RUA foi a estréia de Hill na direção, embora já demonstrasse um talento peculiar para este estilo de cinema escrevendo roteiros. OS IMPLACÁVEIS, de Sam Peckinpah e THE MACKINTOSH MAN, do John Huston, são alguns exemplos que podemos encontrar em seu currículo até então.
Só uma curiosidade, para finalizar, inicialmente LUTADOR DE RUA se chamaria THE STREET FIGHTER, mas desistiram do nome justamente porque um certo filme oriental com um tal de Sonny Chiba havia sido lançado primeiro. Acabou com o nome HARD TIMES no original. E é isso aí, pessoal! Ronald Perrone
1.8.26
26. O Retorno, 2024, Uberto Pasolini
Crítica | O Retorno (2024) por Leonardo Campos, 8 de setembro de 2025
O herói astuto e resiliente da Odisseia
As complexidades da jornada de Ulisses permeiam diferentes camadas de compreensão, desde questões existenciais até reflexões sobre a natureza da humanidade. A Odisseia, como já explicitado em outros textos por aqui, não é apenas uma história de aventura, mas uma poderosa meditação sobre a vida, bem como sobre a existência e os dilemas humanos, refletidos em sua caminhada pela sociedade, abordagem que continua a inspirar e instigar debates e produções de entretenimento, como o caso desta narrativa exuberante dramaticamente. O Regresso de Ulisses, dirigido por Uberto Pasolini, é um épico que nos apresenta um impressionante desempenho de Ralph Fiennes como Odisseu, ao lado de Juliette Binoche como Penélope, ambos inseridos num enredo que interpreta uma versão moderna das últimas partes do poema em questão, a icônica composição poética atribuída ao grego Homero, com roteiro de Edward Bond e John Collee, em colaboração com Pasolini, cineasta que assina os elementos deste texto dramático coeso e coerente. Na produção, após vinte anos de guerra em Troia, Odisseu retorna nu à sua terra natal, Ítaca, onde é acolhido por dois de seus fieis escudeiros. No entanto, ele se vê devastado pelas cicatrizes da guerra e pelo estado de seu reino, que deteriorou durante sua ausência. Enquanto isso, a sua esposa enfrenta uma crescente pressão dos pretendentes a se casar, que estão ansiosos para assumir o controle do reino em crise. O filho de Odisseu, Telêmaco, interpretado por Charlie Plummer, se recusa a ceder às pressões destes homens inescrupulosos, algo que permeia a tensão ao longo dos 116 minutos de um enredo clássico que já conhecemos bem.
Enquanto a situação se agrava, Penélope se dedica a tecer a mortalha de seu sogro idoso, um ato que simboliza sua resistência e lealdade ao marido. Angustiado, o filho sugere que ela escolha um pretendente para restaurar a ordem, mas fiel esposa se recusa, preferindo finalizar a mortalha antes de tomar uma decisão. Com a morte do sogro e a pressão crescente dos pretendentes, que insistem na morte de Odisseu, ela promete que usará a vestimenta como seu vestido de noiva e que tomará uma decisão em breve. Neste processo, o protagonista planeja estrategicamente seu retorno. Assim, O Regresso de Ulisses se destaca por reimaginar a narrativa da segunda metade da Odisseia, deliberadamente omitindo as aventuras míticas do herói, como seu encontro com sereias e a luta contra o Ciclope. Essa escolha permite ao diretor Uberto Pasolini contar a história de maneira mais realista, concentrando-se nas dimensões psicológicas dos personagens. Diante deste desprendimento em relação ao que é da ordem do mitológico, a trama favorece uma abordagem intimista, que se aprofunda nas emoções e conflitos internos do casal, numa decisão dramática que desloca o foco do extraordinário para o cotidiano, destacando as lutas humanas e a resiliência emocional em um cenário de desolação.
A direção de fotografia assinada por Marius Panduru, marcada por uma estética “elegante e discreta”, sem os excessos de efeitos visuais que poderiam carregar demais sua composição, contribui para a atmosfera do drama psicológico que Pasolini busca criar. O que temos como resultado é um drama psicológico cheio de carga emocional, produção que oferece uma visão incisiva da situação dos personagens. A abordagem do diretor não apenas recontextualiza a história clássica, mas também proporciona um cinema “envolvente” que ressoa com as nossas experiências, enquanto público, diante de uma trama repleta de liberdades face ao material que serve como ponto de partida para os realizadores. O design de produção de Giuliano Pannnuti estabelece uma cenografia e direção de arte com toques clássicos, eficiente e ainda mais assertiva quando expõe em cena os figurinos de Sergio Ballo, coerentes com a época retratada. Essa interpretação mais humana da obra de Homero permite uma reflexão mais profunda sobre os temas da espera, da perda e da luta pela identidade, revelando as complexidades que permeiam as relações familiares e a noção de pertencimento em tempos de crise.
Ao final, depois de refletir ao longo da sessão, juntamente com a informação sobre uma nova abordagem grandiosa para o próximo ano, isto é, o esperado filme de Nolan, nós podemos observar que a Odisseia, de Homero, é um dos pilares da literatura ocidental, conteúdo que continua a fascinar o público contemporâneo por suas complexidades e enredo de identificação plena com muitas questões que nós humanos vivenciamos cotidianamente. Ulisses é o arquétipo do viajante e do herói que enfrenta desafios não apenas físicos, mas também espirituais e emocionais. Sua longa jornada de volta para Ítaca simboliza a busca incessante pelo lar e pela identidade. Essa temática ressoa fortemente em um mundo moderno em que muitos se sentem deslocados ou em busca de propósito. A ideia de que a jornada é tão importante quanto o destino final nos permite lembrar que o crescimento pessoal muitas vezes ocorre através das dificuldades enfrentadas ao longo do caminho. Os conflitos internos e a dualidade humana, priorizados por aqui, como já mencionado, delineiam o estilo adotado pela equipe de realizadores que entende o material que assume. Destaque para a sutil composição musical de Rachel Portman para a narrativa, delicada quando é preciso, contundente, mas sem exagerar na textura percussiva, outro primor desta produção peculiar no universo das traduções homéricas para o cinema.
Ulisses é uma figura complexa, marcada por suas fraquezas e virtudes. Ele é ao mesmo tempo astuto e impulsivo, corajoso e nostálgico. Essa dualidade reflete a condição humana: somos capazes de grandes feitos, mas também suscetíveis a erros e fraquezas. Essa luta interna é uma experiência universal e contemporânea, convidando os leitores a refletirem sobre suas próprias complexidades. A dúvida e a incerteza que Ulisses enfrenta nos convidam a considerar como lidamos com nossas próprias lutas internas. Sua caminhada é uma jornada pavimentada pela sabedoria da experiência, afinal, um dos aspectos mais profundos da poesia homérica é a valorização do conhecimento e daquilo que é experimentado e adquirido ao longo da vida. À medida que Ulisses enfrenta diversas armadilhas e desafios, como os Ciclopes, as sereias e a feitiçaria de Circe, por exemplo, ele aprende e evolui. Tais figuras mitológicas, mesmo suprimidas, estão onipresentes na narrativa. Nós, do lado de cá, sabemos em que ponto o herói se encontra ao se apresentar em cena, mesmo que tudo isso não seja explicitado. Este tema tem uma forte ressonância na sociedade contemporânea, onde a sabedoria prática é frequentemente subestimada em meio à busca por conhecimento teórico. A jornada de Ulisses nos lembra da importância da aprendizagem que vem da experiência e da reflexão sobre as lições da vida.
Outro destaque que a produção evidencia é a natureza da heroicidade. Ulisses desafiou a ideia tradicional de heroísmo, não se limitando à força física e bravura, mas utilizando a inteligência e a astúcia para superar os obstáculos. Essa visão mais ampla do heroísmo estimula uma reflexão sobre o que significa ser um herói nos dias de hoje. Em uma era onde os heróis são frequentemente celebrados por grandes feitos, pode ser mais relevante reconhecer e valorizar as pequenas vitórias e as contribuições silenciadas do cotidiano. Assim, a postura heroica está na resiliência, na virtude e na capacidade de se adaptar. O desempenho dramático de Ralph Fiennes capta muito bem estes aspectos. Ademais, o protagonista, ao longo de sua travessia desafiadora, questiona e reafirma sua identidade como rei, pai e homem. Sua jornada para voltar a Ítaca não é apenas um retorno físico, mas uma busca pela essência de quem ele é. Esse tema crítico se manifesta fortemente na era contemporânea, caracterizada por constantes mudanças sociais e tecnológicas que desestabilizam identidades. O dilema de Ulisses nos leva a refletir sobre como construímos e reconstruímos nossas identidades em um mundo em constante evolução, e nos lembra da importância de encontrar um senso de pertença.
Em linhas gerais, um filme envolvente e reflexivo. Tal como a poesia que lhe é ponto de partida.
The Return (O Retorno) - Crítica: uma maneira diferente de adaptar A Odisseia - vídeo
2.8.26
27. A Odisseia, The Odyssey, 2026, Christopher Nolan
"A Odisseia" de Nolan por Emily Wilson (tradutora de A Odisseia) ler aqui






























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