quinta-feira, 14 de julho de 2022

Tenório Jr

Justiça, talvez, por Tenório

Dez criminosos da ditadura argentina vão à prisão perpétua 

Ruy Castro, 10/07/2022, FSP

O pianista brasileiro Francisco Tenorio Cerqueira Júnior, que desapareceu em 1976 em Buenos Aires, seis dias antes do golpe militar que derrubou a presidente Isabelita Perón, na Argentina - Reprodução

Há dias, a Justiça da Argentina condenou dez ex-militares à prisão perpétua por crimes cometidos durante a ditadura (1976-1983) naquele país. Alguns desses crimes foram de sequestro, tortura e homicídio, este muitas vezes o "voo da morte" —a prática de atirar prisioneiros políticos no mar, de avião. O centro desses torturadores era uma base militar perto de Buenos Aires. Por ali podem ter passado 5.000 pessoas. Uma delas, o pianista brasileiro Tenorio Jr. 

Tenorio tinha 33 anos, quatro filhos e sua mulher, no Rio, esperava o quinto. Fora uma das grandes revelações do samba-jazz e seu LP "Embalo", lançado em 1964, é um dos três ou quatro discos decisivos do gênero — a edição original, pela RGE, chega hoje a alguns milhares de reais nos leilões.

Tenório Jr. ‎/ Embalo / 1964 / full album  ou aqui

Em 1976, Tenório era o pianista de Vinicius de Moraes e Toquinho, que se apresentavam em Buenos Aires. Na noite de 18 de março, ele saiu do hotel Normandie para dar uma volta. Deixou um bilhete na recepção dizendo "Volto logo". Mas não voltou. Foi um dos primeiros "desaparecidos" do golpe que dali a dias deporia a presidente Isabelita Perón.

Tenório só pensava em música. Não se interessava por política. Presume-se que tenha sido preso por engano na avenida Corrientes, confundido pelos óculos e barba com um ativista que os golpistas queriam neutralizar. Levado à tortura e sem saber o que dizer, foi espancado de tal forma que, mesmo constatado o engano — confirmado, segundo dizem, por funcionários da embaixada brasileira, militantes da nossa própria ditadura —, estava machucado demais para ser devolvido. O jeito era jogá-lo do avião, não se sabe se vivo ou morto. Seu corpo nunca foi encontrado.

Há hoje uma placa com seu nome na fachada do hotel. E, agora, quase meio século depois, dez dos responsáveis por esse tipo de crime chegaram à Justiça. Têm entre 79 e 98 anos. Mas nunca é tarde para pagar.

Animação revisita história de pianista da bossa nova que desapareceu na Argentina

Em 'They Shot The Piano Player', Jeff Goldblum dá voz a jornalista que investiga o sumiço do músico Tenório Jr. 

Manoella Smith, 19/11/2019

O pianista Francisco Tenório Jr., músico da banda de Vinicius de Moraes e Toquinho, desapareceu em março de 1976, em Buenos Aires, durante uma temporada de shows da dupla. A Argentina estava às vésperas de um golpe militar. Tenório Jr. nunca mais apareceu. Ele tinha 35 anos.

O caso será revisitado pela animação musical “They Shot The Piano Player” (eles atiraram no pianista). O ator Jeff Goldblum ("Jurassic Park") dará voz ao protagonista, um jornalista musical de Nova York que investiga o desaparecimento de Tenório Jr. 

Ainda em pré-produção, o filme será dirigido por de Fernando Trueba e Javier Mariscal, da animação  "Chico e Rita", indicada ao Oscar de 2012. 

A produtora britânica Film Constellation descreveu o filme como "uma história comemorativa de origem da bossa nova que captura um tempo fugaz repleto de liberdade criativa em um momento decisivo na história da América Latina nas décadas de 1960 e 1970, pouco antes de o continente ser tomado por regimes totalitários".

Músicos como João Gilberto, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Vinicius de Moraes e Paulo Moura também devem aparecer na obra.


Pianista brasileiro foi assassinado por ditadura argentina

DE BUENOS AIRES

 07 de novembro de 2011

"Vou sair pra comprar cigarros e um remédio. Volto logo."

Depois de deixar esse bilhete aos parceiros Vinicius de Moraes e Toquinho, com quem fazia uma temporada de shows, o pianista Francisco Tenório Jr. deixou o hotel Normandie, em Buenos Aires, e nunca mais reapareceu. O músico foi confundido com um guerrilheiro de esquerda e levado por repressores para um centro de detenção.

A Argentina estava às vésperas de um golpe militar que imporia uma ditadura no país -o sequestro ocorreu no dia 18 de março de 1976, os militares tomaram o poder no dia 24. Segundo um oficial da Marinha que diz ter sido testemunha do ocorrido, quando se deram conta do equívoco, era tarde demais. Tenório estava muito machucado e teria visto o rosto de seus algozes. Foi então assassinado. Tinha 35 anos.

DEDICATÓRIA

No próximo dia 16, a legislatura da cidade de Buenos Aires fará uma homenagem ao artista brasileiro, dedicando a ele uma placa, que será colocada na frente do hotel. Na avaliação do escritor e colunista da Folha Ruy Castro, a história da música popular brasileira poderia ter sido outra e mais variada se Tenório não tivesse morrido naquela noite. Além da homenagem na capital argentina, Tenório está sendo celebrado por meio de um documentário do cineasta espanhol Fernando Trueba ("El Embrujo de Shangai"), em fase de edição.

A filha mais velha de Tenório, Elisa Cerqueira, conta que foram encontrados arquivos inéditos do músico, que serão editados junto com o filme. "Ele ficaria muito feliz de saber dessas homenagens. É uma pena, porém, o fato de que eu, meus irmãos e minha mãe não tenhamos ficado sabendo nunca o que aconteceu de verdade com ele", diz Elisa.

Elisa conta que, até 1986, os familiares ainda acreditavam que ele pudesse estar apenas desaparecido e que um dia "poderia tocar a campainha da porta". Quando surgiu a versão do oficial da Marinha, porém, eles perderam as esperanças. A homenagem portenha é mais um acontecimento na série de reparações que a Argentina tem feito com relação aos crimes cometidos pelo Estado durante a ditadura.

A família do músico já havia sido indenizada pelo governo local. (SYLVIA COLOMBO)

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