sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Como nossos pais - o filme

Como nossos pais, 2017, de Laíz Bodanzky, é o filme da hora.


É a estória de Rosa (Maria Ribeiro) e seus conflitos familiares. Um marido, Dado (Paulo Vilhena), negligente à rotina estafante da esposa e a mãe, Clarisse (Clarice Abujamra, como sempre, impecável). Rosa, frustrada com suas atividades profissionais múltiplas, escreve uma peça de teatro e procura pessoas do meio para sua montagem. O tema da peça tem a ver com a estória de Rosa: inicia com o fim da peça Casa de bonecas de Ibsen, 1879,  depois que a personagem Nora rompe com o marido e sai de casa. O que Nora fará depois do rompimento?

O filme deixa no ar o final do casamento Rosa / Dado.

A cena final da peça (em três atos) de Ibsen é antológica. A reprodução desta cena está no final deste post. Também uma entrevista da Maria Ribeiro à Carta Capital.
 
Brasil em Cena COMO NOSSOS PAIS - Entrevista com Maria Ribeiro

Maria Ribeiro está em praticamente todas as cenas de Como nossos pais, quarto longa metragem dirigido pela cineasta Laís Bodanzky, que estreia nesta semana no Brasil. O filme conta a história de Rosa, mulher de 38 anos que se desdobra para ser profissional, mãe e esposa, lidando com conflitos familiares, desejos e frustrações pessoais.
Poucos dias antes da estreia nacional, Maria recebeu o prêmio de Melhor Atriz no Festival de Gramado por esta atuação. “É impressionante o número de mulheres que vem me dizer o quanto se identificaram com Rosa, e eu acho que ela é mesmo um símbolo da mulher do século 21”, diz Maria nesta entrevista exclusiva ao Cinema em Cena.

Cinema em Cena: Como nossos pais é um autêntico estudo de personagem no qual Rosa, que você interpreta, está praticamente em todas as cenas, e sempre em conflitos. Como foi o processo de composição dessa personagem?

Maria Ribeiro: A Rosa é uma personagem muito maravilhosa. Quando eu recebi o roteiro, a personagem já era muito rica, e eu sempre quis falar dessas questões. É um tema que me é muito caro, eu tenho prazer nesse cinema de comportamento: Domingos de Oliveira, Woody Allen, a própria Lais, um cinema meio dentro de casa, que tem momentos supostamente não tão grandiosos, mas que são grandiosos para quem está vivendo. Rosa é muito próxima de mim, das minhas amigas, ela traz temas que a gente está o tempo inteiro falando: como é que a gente vai dar conta de tudo, como é que você vai evoluir a sua relação com a sua mãe quando ela envelhecer. E, também, como não repetir com os seus filhos o que você recebeu dos seus pais e não concorda. Então, foi realmente um mergulho absoluto. Conversei com todas as pessoas que eu pude, as que tinham relações mais de conflito com a mãe. O tempo inteiro, eu sabia que ter esse personagem era como ter uma joia na mão e que, se eu não atrapalhasse, seria legal! 

Cinema em Cena: Os diálogos nesse filme transmitem muita naturalidade. Houve algum tipo de criação coletiva nos ensaios, ou já durante o set, que tenha sido incorporado ao roteiro ou ele já era exatamente o que a gente vê na tela?

Maria Ribeiro: Nunca é, né? A gente sempre coloca na nossa boca, dá uma adaptada. Mas o roteiro já era muito bom. Há uma cena, na praia, na qual Rosa e Pedro (Felipe Rocha) estão falando sobre hábitos machistas, e eu achei que ela poderia citar um exemplo, como o de que o homem sempre quer dirigir, quando está com uma mulher. Aquilo brotou na hora, fazia sentido e incorporamos. Mas o diálogo já era certeiro, tinha uma construção de naturalidade muito grande, que está evidente na tela.

Cinema em Cena: Você acha que a Rosa, é a mulher do século 21, por excelência? Ela define esse comportamento da mulher?

Maria Ribeiro: Eu acho que sim, porque é impressionante o número de mulheres que vêm falar comigo e diz: “a Rosa, sou eu, sou eu!” Estou até querendo criar a hashtag #somostodosRosa, porque realmente é impressionante a identificação das mulheres com essa personagem (risos).

Cinema em Cena: Por outro lado, você acha que os homens vão ter algum tipo de reserva com essa história, não querendo se identificar com o Dado, marido da Rosa, vivido pelo Paulo Vilhena, justamente por ele ser mais passivo?

Maria Ribeiro: Eu acho que não, porque o Paulo defende muito bem o personagem dele. O Dado não é um cara do mal, é alguém que tem uma postura de “eu tô tentando”. Ele tem um passivo, uma questão cultural que, afinal, não é culpa dele. Até agora, a experiência que eu tenho tido, tanto na Europa, quanto no Brasil, como durante o Festival de Gramado, é dos homens gostarem muito do filme e agradecerem. Um filme desses, com essa história, contada de uma maneira tão verdadeira, não é para machucar, a gente só quer equilibrar um pouco mais para tirar um pouco o peso de cima das mulheres.

Cinema em cena: É uma percepção correta entender que, como a personagem Nora, da peça de Ibsen, citada no filme, Rosa também tem um final aberto?

Maria Ribeiro: Eu acho que sim, e eu gosto de um cinema que faz perguntas, mais do que dá respostas. O espectador pode pensar o que quiser, e eu acho isso incrível. Eu acho que é generoso e conta com a inteligência do espectador, para não ficar aquela coisa mastigada.


CENA XV, 3º ato, Casa das bonecas, Henrik Ibsen.
Tradução: Karl Erik Schollhammer e Aderbal Freire-Filho

(Torvald dá umas voltas perto da porta.) Ah, como nossa casa é bonita, quente... Aqui você está abrigada. E eu vou cuidar de você como uma pomba que eu salvei das garras do falcão. Vou acalmar seu pobre coração palpitante. Pouco a pouco vai passar, Nora, acredite em mim. Amanhã você vai ver tudo isso com outros olhos. Logo tudo vai ser como antes. Não vou mais precisar repetir que eu lhe perdoei. Você mesma vai sentir. Como você pode pensar que me passe pela cabeça rejeitar você ou mesmo lhe censurar? Ah, você não conhece os verdadeiros sentimentos de um homem, Nora. Nada é tão doce e prazeiroso para o homem quanto saber que lá dentro dele perdoou sua esposa...e que perdoou de todo coração, sinceramente. Porque ai ela se torna sua propriedade duplamente. É como se ele a trouxesse ao mundo de novo, e alguma maneira ela passa a ser tanto sua mulher como sua filha. Assim será você de agora em diante para mim, minha criaturinha indefesa e perdida. Não tenha medo de nada, Nora. Seja apenas franca comigo e eu serei sua vontade e sua consciência... O que é isso? Não vai dormir? Você trocou de roupa?
NORA- (Vestida em sua roupa normal.) É, Torvald, troquei de roupa.
HELMER – Mas, Nora, querida...
NORA- (Olhando seu relógio.) Não é tão tarde. Sente aqui, Torvald. Nós dois precisamos muito conversar. (Ela se senta de um lado da mesa.)
HELMER – Nora, o que é isso? Essa expressão dura?
NORA – Sente-se, vai demorar. Tenho muitas coisas a lhe dizer.
HELMER – (Senta-se à mesa diante dela.) Você me assusta, Nora. Eu não lhe entendo.
NORA – É isso mesmo. Você não me entende. E eu também nunca lhe entendi, até hoje à noite. Não, não me interrompa, apenas escute o que vou dizer. Isso é um acerto de contas Torvald.
HELMER – O que você quer dizer com isso?
NORA- (Após um breve silêncio.) Estamos sentados frente a frente. Isso não chama sua atenção?
HELMER – Por que chamaria?
HELMER – Estamos casados há oito anos. Não se dá conta que é a primeira vez que nós dois, você e eu, marido e mulher, conversamos seriamente?
HELMER – Seriamente...O que quer dizer?
NORA- Em todos esses oito anos... sim, até mais...desde o nosso primeiro encontro, nunca trocamos uma palavra séria sobre coisas sérias.
HELMER – Você acha que eu deveria envolver você nas minhas
preocupações, e ainda mais sabendo que você não podia fazer nada?
NORA – Eu não falo das suas preocupações. O que eu digo é que nunca
falamos a sério, procurando chegar juntos ao fundo das coisas.
HELMER – Mas, Nora, meu amor, que importância isso teria pra você?
NORA- É essa a questão. Você nunca me entendeu. Fui tratada tiranicamente Torvald. Primeiro por papai, e depois por você.
HELMER – Por nós dois...? Os dois que lhe amaram mais do que ninguém no mundo?
NORA – (Ela nega com a cabeça.) Vocês nunca me amaram, apenas achavam divertido namorar comigo.
HELMER – Nora, o que você está dizendo?
NORA- A pura verdade, Torvald. Quando eu estava na casa de papai, ele me dizia todas as suas opiniões e então essas eram as minhas opiniões. E se tivesse outras eu escondia, porque ele não ia gostar. Ele me chamava de sua criança boneca e brincava comigo, como eu brincava com as minhas bonecas. Depois vim morar na sua casa...
HELMER – Que palavras você usa para falar do nosso casamento!
NORA – (Imperturbável.) Quero dizer que passei das mãos do papai para as suas. Você arrumou tudo segundo seu gosto e eu passei a ter o mesmo gosto que o seu, ou fingi que tinha, não sei bem... Acho que era um pouco as duas coisas, ora uma, ora outra. Quando eu olho agora, me parece que vivi aqui como vive um pobre...que, de seu, mal tem a roupa do corpo. Eu vivi das gracinhas que fazia para você, Torvald. Era o que você queria. Você e papai cometeram um grande pecado contra mim. É de vocês a culpa de que eu nunca tenha sido alguém.
HELMER – Nora, como você é injusta e ingrata! Não foi feliz aqui?
NORA - Não, nunca fui. Eu achava que era, mas nunca fui.
HELMER – Não foi? Não foi feliz? Nunca?
NORA – Não, eu era alegre, só isso. E você sempre foi muito gentil comigo. Mas nosso...lar nunca foi mais do que um quarto de brinquedos. Aqui fui sua esposa boneca, assim como era a criança boneca na casa do papai. E nossos filhos também foram minhas bonecas. Eu achava divertido quando você brincava comigo, assim como eles achavam divertido quando eu brincava com eles. Esse é o nosso casamento, Torvald.
HELMER – Não deixa de ter alguma verdade no que você diz, apesar dos exageros. Mas daqui por diante tudo vai mudar. Acabou-se o tempo da brincadeira, agora vem o tempo da educação.
NORA- Educação de quem? A minha ou das crianças?
HELMER – Tanto a sua quanto a das crianças, Nora, querida.
NORA – Ah, Torvald, você não é o homem indicado para me ensinar a ser uma esposa verdadeira.
HELMER – E é você quem diz isso?
NORA- E eu, como ia educar meus filhos sem estar preparada?
HELMER – Nora!
NORA- Você não me disse isso ainda há pouco? Que não se atrevia a me confiar essa tarefa?
HELMER – Disse isso num momento de exaltação, não leve à sério.
NORA- Mas você tinha toda a razão. Eu não sou capaz dessa tarefa. Há umaoutra tarefa que precisa ser cumprida antes. Tenho que educar a mim mesma. E você não é o homem indicado para me ajudar. Tenho que fazer isso sozinha. E por isso... eu vou lhe deixar.
HELMER – (Levanta-se num salto.) O que foi que você disse?
NORA – Preciso estar só para poder me conhecer e conhecer tudo que me rodeia. Por isso não posso mais continuar com você.
HELMER – Nora! Nora!
NORA – Quero sair daqui agora. Posso passar esta noite na casa de Cristina.
HELMER – Você está louca! Não vou deixar, eu lhe proíbo.
NORA – De agora em diante você não pode me proibir nada. Levo o que é meu. Não quero nada seu, nem agora, nem depois.
HELMER – Que loucura é essa?
NORA- Amanhã viajo para minha casa... Quero dizer, para o lugar de onde vim. Lá será mais fácil para mim achar algum trabalho.
HELMER – Cega! Cega e inexperiente.
NORA – Quero ganhar experiência, Torvald.
HELMER – Abandonando seu lar, seu marido e seus filhos. Não pensa no que as pessoas vão dizer?
NORA – Não quero me importar com isso. Só quero saber do que é
importante para mim.
HELMER – Ah, é revoltante. Como pode trair seus deveres mais sagrados?
NORA – Quais são os meus deveres mais sagrados?
HELMER – E sou eu quem precisa lhe dizer? Não serão os seus deveres para com o seu marido e seus filhos?
NORA- Eu tenho outros deveres tão sagrados como esse.
HELMER – Não, não tem. Que deveres?
NORA – Os deveres para comigo mesma.
HELMER – Você é, em primeiro lugar, esposa e mãe.
NORA – Já não acredito nisso. Em primeiro lugar eu sou um ser humano, assim como você... Ou pelo menos vou fazer um esforço para ser. Sei que a maioria lhe dará razão, Torvald. E sei que essas coisas estão escritas nos livros. Mas eu não posso mais me satisfazer com o que a maioria diz e com o que está escrito nos livros. Eu preciso pensar por mim mesma sobre as coisas e tentar compreendê-las.
HELMER – Você não pode descobrir quem é no seu próprio lar? Você já não tem um guia infalível nessas questões? Você não tem a religião?
NORA – Ah, Torvald, eu já nem sei bem o que é a religião.
HELMER – Como não sabe?
NORA – Só sei aquilo que o pastor Hansen me ensinou quando me preparei para a crisma. Ele dizia que a religião “é isso”, a religião “é aquilo”. Quando estiver longe de tudo e estiver só, quero pensar sobre esse assunto também. Quero saber se o que o Pastor Hansen disse é verdade ou, pelo menos se é verdade para mim.
HELMER – Ah, é inacreditável, uma mulher tão jovem como você... Mas se a religião não serve para lhe orientar, deixe-me pelo menos sacudir sua consciência... Pelo menos algum senso moral você tem? Ou não? Diga, também não tem?
NORA – Talvez seja melhor nem responder, Torvald. Nem saberia. Estou totalmente confusa com essas coisas. Só sei que tenho uma opinião sobre isso completamente diferente da sua. Também fiquei sabendo agora que as leis são diferentes do que eu pensava. E que essas leis sejam justas, não entra na minha cabeça de jeito nenhum. Uma mulher não tem o direito de poupar seu velho pai morrendo, nem de salvar a vida do seu marido? Não posso acreditar.
HELMER – Parece uma criança falando. Você não entende a sociedade em que vive.
NORA – Não, eu não entendo. Mas agora quero procurar entender. Preciso saber quem tem razão: a sociedade ou eu.
HELMER – Você está doente, Nora. Você está com febre. Eu acho que você está quase perdendo o juízo.
NORA – Nunca me senti tão lúcida e segura como esta noite.
HELMER – E lúcida e segura você abandona seu marido e seus filhos?
NORA – É o que vou fazer.
HELMER – Então só há uma explicação.
NORA – Qual?
HELMER – Você não me ama mais.
NORA – Sim, é exatamente isso.
HELMER – Nora! Como você pode dizer isso?
NORA – Ah, eu lamento muito, Torvald, porque você sempre foi muito bom para mim. Mas eu não posso fazer nada contra isso. Eu não o amo mais.
HELMER – (Esforçando-se para manter-se calmo.) Isso também é uma convicção lúcida e segura?
NORA- Sim, totalmente lúcida e segura. Por isso não quero mais continuar aqui.
HELMER – E você pode me explicar como eu perdi seu amor?
NORA- Posso. Foi esta noite, quando o prodígio não aconteceu. Aí eu vi que você não era o homem que eu imaginava.
HELMER – Explique melhor, não estou entendendo.
NORA- Oito anos eu esperei, com tanta paciência! Porque eu sabia que um prodígio não aparece assim no dia a dia. E de repente o prodígio ia acontecer. Enquanto a carta de Krogstad estava lá fora... Nunca pensei, nem um só momento, que
você pudesse ceder às condições desse homem. Tinha certeza absoluta que você ia dizer a ele: “vá, espalhe esse caso para todo mundo”. E quando isso acontecesse...
HELMER – O que? Queria que eu tivesse condenado minha própria esposa à vergonha e à desonra...
NORA- ...quando isso acontecesse eu tinha certeza absoluta que você
HELMER – Nora!
NORA- Você vai me dizer que eu nunca aceitaria que fizesse um sacrifício assim. Não, é claro. Mas de que valeriam as minhas palavras diante das suas? No meio do meu pavor, foi esse o prodígio que eu esperei tanto que acontecesse. E para evitar isso foi que eu quis acabar com a minha vida.
HELMER – Nora, por você eu seria capaz de trabalhar dia e noite com alegria. De agüentar dor e miséria por sua causa. Mas não há ninguém que sacrifique sua honra por aquele que ama.
NORA- Centenas de milhares de mulheres fizeram isso.
HELMER – Ah, você pensa e fala como uma criança insensata.
NORA- Talvez. Mas você não pensa nem fala como o homem a quem eu possa me unir. Uma vez passado o seu susto... não daquilo que ameaçava a mim, mas daquilo que ameaçava você mesmo, e quando todo o perigo tinha passado, era como se nada daquilo tivesse acontecido. Eu era sua cotovia, exatamente como antes, sua boneca, que você de agora em diante ia carregar com cuidado duplo nos seus braços, já que era tão frágil e delicada. (Ela se levanta.) Torvald... naquele momento me dei conta de que vivi durante oito anos com um homem estranho e que tive três filhos...ah, não aguento pensar nisso. Tenho vontade de me rasgar em muitos pedaços.
HELMER – (Com voz grave.) Estou vendo, estou vendo. Abriu-se um abismo entre nós dois. Nora, não seria possível cruzá-lo?
NORA- Como eu sou agora não posso ser sua mulher.
HELMER – Eu tenho força para ser outro.
NORA- Talvez... se lhe tirarem a boneca.
HELMER – Me separar de você... Não, não, Nora. Não posso aceitar essa ideia.
NORA- (Entra à direita.) Por isso mesmo tem que acontecer. (Ela volta com seu casaco e chapéu e uma pequena valise que põe na cadeira da mesa.)
HELMER – Nora, Nora, agora não. Espere até amanhã.
NORA- (Vestindo o casaco.) Não posso passar a noite na casa de um estranho.
HELMER – Mas não poderíamos viver aqui como irmãos?
NORA- (Segurando o chapéu.) Você sabe que não ia durar muito tempo. (Se envolve no xale.) Adeus, Torvald. Não quero envolver as crianças. Sei que estão em melhores mãos do que as minhas. Assim como sou agora, não posso ser uma boa mãe para elas.
HELMER – Mas algum dia, Nora, algum dia...
NORA- Como posso saber? Eu nem sei o que vai ser de mim.
HELMER – Mas você é minha mulher, assim como é agora e assim como será.
NORA- Escute, Torvald. Quando uma mulher abandona a casa do seu marido, como estou fazendo, o marido é liberado de todas as suas obrigações para com ela. É o que diz a lei, pelo que eu sei. Eu, pelo menos, libero você de qualquer obrigação. Não se sinta preso, que eu também não me sentirei. Deve haver liberdade total de parte a parte. Olhe, aqui está o meu anel. Me dê o seu.
HELMER – Isso também?
NORA- Também.
HELMER – Está aqui.
NORA- Então... agora acabou tudo. Deixo aqui as chaves. As criadas sabem tudo da casa melhor do que eu. Amanhã, depois da minha partida, Cristina virá juntar todas as coisas que eu trouxe de casa. Queria que me mandassem.
HELMER – Acabou tudo! Nora, você nunca mais vai pensar em mim?
NORA- Vou pensar em você muitas vezes, nas crianças, nesta casa.
HELMER – Posso lhe escrever, Nora?
NORA- Não, nunca. Eu lhe proíbo.
HELMER – Ah, mas posso lhe mandar alguma coisa...
NORA- Nada, nada.
HELMER – Ajudar você, se for preciso.
NORA- Não, já disse. Não aceito nada de estranhos.
HELMER – Nora, nunca vou ser mais do que um estranho para você?
NORA- (Pegando a mala.) Ah, Torvald, só se um prodígio...
HELMER – Que prodígio?
NORA- Que você e eu nos transformássemos tanto que... ah, Torvald, eu não acredito mais em prodígios.
HELMER – Mas eu quero acreditar. Diga, nos transformássemos tanto que...o que?
NORA- Tanto que a nossa vida, juntos, pudesse ser...um verdadeiro casamento. Adeus. (Sai pela antessala.)
HELMER – (Afunda numa cadeira ao lado da porta, pondo as mãos sobre o rosto.) Nora! Nora! (Olha para a frente e levanta-se.) Nada. Ela não está mais aqui. (Uma esperança aparece nele.) Um prodígio? (Escuta-se a porta fechar.)

FIM
 



sábado, 18 de novembro de 2017

The Handmaid's Tale

A série "O conta da aia", cuja a primeira temporada passou neste ano, para mim foi um impacto. Em 2019 tem a segunda temporada. A ver. Deixo as análises por conta da Clarrisa Wolff a seguir. Uma observação: o porquê do título deste post em inglês?  Porque handmaids (servas) tem significado diferente de aia (dama de companhia). Na série o termo em inglês tem mais sentido. Destaque no texto da Clarissa: as servas contemporâneas (Mais de 700 milhões de mulheres estão em casamentos forçados que aconteceram antes que completassem 18 anos...).

Quando me sinto uma personagem de "O Conto da Aia"
por Clarissa Wolff — publicado 11/11/2017

Memórias de um dia na UTI, das canções de Lou Reed e do livro de Margaret Atwood transformado em uma série de tevê

Elisabeth Moss

Foi em uma quarta-feira 13, no primeiro mês de 2016, que acordei zonza depois do procedimento. No meu sono de remédios e fraqueza, implorava a Deus pra essa dor agonizante no abdome passar.
O bipe da paciente ao lado não parava de apitar, e pelo que pareceram dias infinitos – mas foram mais ou menos 24 horas – na UTI do hospital, com cada um deles eu sentia que meu corpo inteiro ia desmanchar, cada um deles servindo de catalisador para a piora da enxaqueca, pro próximo vômito que fazia eu sentir os cortes na barriga se abrirem um por um de novo. É claro que nenhum estava se abrindo.
Se ela morrer, os bipes vão parar.
Oh, oh, what a feeling da canção “The Bed” de Lou Reed ecoava em um ritmo delirante na minha cabeça embaçada. Que sensação, realmente. O disco inteiro – “Berlin”, um dos meus favoritos – tinha sido a trilha sonora do avião que me levou até o hospital. Nessa música, a personagem dessa ópera rock acabava de cometer suicídio.
Se eu morrer, os bipes também vão parar.

Quando as cores frias marcadas pelo vermelho ocasional invadiram minha televisão, alguns anos depois, eu só conseguia pensar no dia em que perdi o útero, as trompas, os ovários, o peritônio. Eu não poderia ser uma aia em The Handmaid’s Tale.
Isso era bom?
Os Estados Unidos acabaram, e nesse novo mundo ser fértil é um presente. Gilead é seu nome, a nova nação criada em cima dos escombros do país da liberdade, após um golpe político religioso construído em cima de notícias falsas, da exploração do medo de terroristas islâmicos, de preconceitos fundamentados na Bíblia e de desastres naturais que causaram esterilidade em massa.
As semelhanças são meras coincidências.
Gilead é o fruto de um livro de 1985 que se tornou uma série do Hulu, serviço de streaming de vídeo concorrente da Netflix. Não havia um presidente nos Estados Unidos com uma página da Wikipedia inteira destinada apenas a alegações de violência sexual, com um vice que se tornou o mais poderoso fanático religioso do mundo. Nem mesmo Margaret Atwood, a autora dessa distopia que poderia ser ou é ou será realidade, poderia prever que Donald Trump e Mike Pence seriam eleitos presidentes.
A série localiza a história em 2017, ecoando Tinder, protestos feministas, ioga e smartphones no passado recente da protagonista, June, vivida pela espetacular Elisabeth Moss. Um dia, após correr pelo bairro com a melhor amiga, Moira (a também maravilhosa Samira Wiley), ela tem o cartão rejeitado ao tentar comprar um café. O vendedor é explicitamente agressivo no tratamento com elas.
Vamos sair daqui, vamos embora, ele não vale a pena, June fala para Moira, virando as costas, ficando em silêncio, desistindo da briga.
É naquele dia que ambas descobrem que perderam os empregos e a autonomia financeira. A partir daquele momento, mulheres não podem mais trabalhar ou ter posses, incluindo dinheiro, que automaticamente vira propriedade de seu parente homem mais próximo.
A partir daí se estabelece a nova sociedade divida em castas: as Esposas, mulheres dos comandantes políticos, as Marthas, mulheres inférteis destinadas a cuidar da casa, fazer a comida, limpar e lavar, e as Aias, as sortudas mulheres férteis protegidas e cuidadas por Tias, responsáveis por treinamentos do tipo Laranja Mecânica para que reaprendam sua única missão no mundo: procriação.
As aias são despidas de seus nomes. A protagonista vira Offred (Dofred, literalmente posse de seu Comandante chamado Fred, e que também se assemelha à palavra em inglês Offered, ou seja, oferecida) e de sua humanidade: viram úteros ambulantes, prontas para serem barriga de aluguel de uma família depois da outra, enquanto tiverem saúde para isso.
Nesse estupro institucionalizado, a Esposa é convidada a participar como uma forma distorcida de se manter a ilusão de fidelidade. Mas não se engane: a Esposa também não pode ler, dirigir, ter posses, escrever, construir amizades ou se relacionar com outros homens.

Infertilidade é palavra proibida nesse cenário. E é a minha realidade. Mas eu nunca exatamente tinha tido um desejo muito forte de ser mãe... Tinha?
Desde pequena as bonecas ficavam jogadas em um canto, enquanto eu me dedicava a planejar um futuro brilhante com Barbies que eram cantoras, atrizes, mulheres maravilhosas que representavam aquilo em que eu achava que ia me tornar. O bebê de borracha, os olhos eternamente abertos como se estivesse morto, eu tinha abandonado.
Mas quando eu recebi a análise patológica nas mãos com a sentença de que eu precisaria abortar todas as chances de ser mãe, tudo aquilo ainda parecia irreal. Eu não queria ser mãe, mas queria ter a experiência de gestar, queria parir, viver a dor e a maravilha de sentir uma vida crescendo e surgindo das minhas entranhas. Das minhas entranhas podres, sujas de genes defeituosos com síndromes de câncer e depressão. Pra qual infeliz eu ousaria entregar minha genética?
“They're taking her children away because they said she was not a good mother” é outro refrão da trilha sonora que acompanhou minha cirurgia. Lou Reed, ele sim, é um deus, e meu luto atrasado pela morte dele foi reavivado pela partida de David Bowie poucos dias antes da minha aventura na terra da vida-ou-morte.
Lou Reed morreu no fim de 2013, quando “Berlin” ainda não tinha caído nas minhas mãos e eu conhecia ele ainda como o muso do rock do Velvet Underground. Só depois de “Berlin” que vivo esse luto também, um pouco cada vez que escuto o disco, uma tristeza fria e raivosa de ter me apaixonado tanto por ele, que viveu contemporâneo a mim por tanto tempo, só depois de ele morrer e eu precisar abrir mão de qualquer esperança de algum dia vê-lo ao vivo. Sempre fui arrasada pelas experiências que fugiram de mim correndo e eu nunca mais poderia alcançar.

Em Gilead, todas as experiências morrem para que a humanidade não morra.
De onde vem essa obsessão em deixar algo para além da morte, em ser lembrado, em manter a raça humana viva? O instinto de sobrevivência, nosso traço mais animal, mesmo confundido com o cuidado da prole, faz parte do nosso comportamento como ser humano. Esse apego pela vida é parte da nossa existência, assim como a curiosidade pelo que acontece quando morremos. Existe um céu ou um inferno?
É nossa incapacidade em lidar com o fim da nossa existência que nos transforma em animais atrás de uma reprodução cega? Em algum momento deixaremos de existir e, filhos ou não, lembrados ou não, amados, odiados, esquecidos, nada disso fará parte da nossa consciência. De que importa o que acontece depois que morremos? De que importa se existirá mundo, civilizações, ou pessoas, se a tecnologia vai avançar tanto a ponto de criarmos carros que voam ou se todas as obras de arte do Louvre vão deteriorar e desaparecer, comidas pelo tempo?
Que joguem minhas cinzas no lixo, no mar, no chão. Se não existimos, não existimos. Por que é tão normal que se busque a continuidade eterna da nossa espécie?
Eu deveria entender isso. Ser mulher é sobre ser mãe, um refrão que desde pequena escutamos. Meu útero inexistente, nem mais estéril, é inútil nessa sociedade em que ser mãe é a maior dádiva e obrigação, em que até o filho não quisto, não planejado e não consentido é obrigado a nascer e se criar.

Em um país em que o aborto é crime, a esterilidade é cúmplice.
Me contaram que, quando nasci, minha bisavó de seis sobrenomes, supostamente de uma linhagem de condessas francesas, olhou para o meu pai e disse, com carinho, que ele ainda teria um filho para carregar o nome da família. Ela tinha razão: nenhum nome seria eternizado pelo meu ventre, e a flor com meu nome na árvore genealógica da família acabaria em mim.
No mundo fictício de "O Conto da Aia", existências inteiras são destruídas por essa obsessão por continuar a linhagem. A desumanização das aias é completa, invadindo até suas roupas: um uniforme vermelho com um chapéu de abas que as impedem de ver o que há em volta. A câmera da série também, em closes fechadíssimos, gerando no expectador a mesma ansiedade pelo entorno que a visão periférica da personagem não permite que ela enxergue e que a diretora, inteligentíssima, nos rouba.

A história evolui com ecos de revolução e resistência, e o reconhecimento de que é fútil tentar separar o pessoal do político. Carol Hanish tenta nos avisar isso há décadas. Aos poucos, com a voz roubada, June aprende a usar o silêncio como arma, e é ele a bomba que cai sobre a sua família nos minutos finais da série. No livro, ela é menos revolucionária, e mais testemunha.
Mas essa não é uma história sobre resistência, sobre mulheres, ou sobre ficção científica. É sobre horror. Ainda pior quando Margaret Atwood declara para o New York Times que uma de suas regras era apenas utilizar eventos que tivessem acontecido na história. “Nada de leis ou atrocidades inventadas. Deus está nos detalhes, eles dizem. O diabo também”.
Leio relato atrás de relato de amigas comovidas, ultrajadas, raivosas, nervosas com o que acabaram de assistir. E se isso acontecer?
Mas já acontece.

Mais de 700 milhões de mulheres estão em casamentos forçados que aconteceram antes que completassem 18 anos, e 250 milhões delas casaram antes dos 15. Duzentos milhões de meninas em 30 países diferentes tiveram, assim como a personagem de Alexis Bledel, o clitóris arrancado.
No Líbano, estupro marital é considerado um direito, e no Iêmen mulheres não podem sair de casa sem a permissão do marido. A pornografia no mundo inteiro é mais uma forma de estupro institucionalizado, disponível a um clique do mouse para a punheta do homem mais próximo.
A Chechênia cria campos de concentração para gays, traidores do gênero na nomenclatura de Atwood. Na Argélia e na Tunísia estupradores podem escapar do julgamento se casarem com as vítimas, e no Marrocos e na Arábia Saudita as vítimas de estupro podem ser processadas pelo crime. Ainda nesse último, mulheres precisam de permissão do seu guardião homem para casar, se divorciar, estudar, trabalhar, e até mesmo ter uma conta no banco. Elas são proibidas de votar e dirigir.
O Estado Islâmico faz rituais religiosos, com orações, antes estuprar as mulheres Yazidi da Síria e da Turquia, escravizadas para que possam engravidar e parir crianças que serão criadas como soldados da causa.
E, assim como na história, elas tentam fugir. Fogem para o que tem mais perto: a Europa. Na Alemanha, estima-se que existam 25 mil mulheres Yazidi. Só que, diferentemente de quando vemos na série, em vez de ficarmos emocionados e torcendo pela personagem, queremos expulsar os refugiados.
Desde o impeachment da presidenta Dilma Rousseff, os números de refugiados acolhidos no Brasil têm diminuído, embora o número de pedidos aumente. Em um país em que políticos como Jair Bolsonaro, uma encarnação perfeita do poder da série, têm espaço, não é difícil entender os motivos.
Basta uma crise política, econômica e religiosa para que os direitos das mulheres sejam questionados. E não sou eu que estou dizendo, é a Simone de Beauvoir.
Apesar disso, ainda podemos resistir.
Ainda.
Porque a história se repete.

https://www.cartacapital.com.br/blogs/a-redoma-de-livros/quando-me-sinto-uma-personagem-de-the-handmaid2019s-tale   18/11/2017

Em tempo: Gênesis 30: 1- 9 

Vendo que não dava filho a Jacó, Raquel ficou com inveja de sua irmã e disse a Jacó: Ou você me dá filhos ou eu morro. Jacó ficou irritado com Raquel, e disse: Por acaso eu sou Deus para lhe negar a maternidade? Raquel respondeu: Aqui está minha serva Bala. una-se a ela, para que ela dê à luz sobre meus joelhos. Assim terei filhos por meio dela. Então Raquel lhe deu sua serva Bala como mulher, e Jacó uniu-se a Bala. Bala concebeu e deu a luz um filho para Jacó. Raquel disse: Deus me fez justiça; ouviu minha voz e me deu um filho. Por isso, o chamou Dã. Bala, a serva de Raquel, concebeu outra vez e gerou um segundo filho para Jacó. Raquel disse: Deus me fez competir com minha irmã, e eu venci. E ela o chamou de Neftali.

Bíblia Sagrada, Edição Pastoral, Paulus, 1990.
 



sexta-feira, 17 de novembro de 2017

Socialismo ou barbárie

Socialismo ou barbarie. Será que estamos de novo diante desta escolha? Não. Estamos longe do socialismo, mas estamos próximos da barbárie.

O que segue ilustra: revendo Veríssimo no Blog do Noblat.

Pós-Fukuyama, por Luis Fernando Veríssimo

21/09/2014

Francis Fukuyama (lembra dele?) decretou o fim da História com a vitória definitiva das forças do mercado contra o dirigismo econômico. A sua foi uma das frases mais bem-sucedidas do século passado. O Muro de Berlim caíra em cima do que restava das ilusões socialistas, a frase não tinha resposta e o capitalismo desregulado não tinha mais inimigos. Dominaria o planeta e nossas vidas pelos próximos milênios.

Como o próprio Fukuyama reconheceu mais tarde numa revisão da sua sentença, a História reagiu. O capital financeiro predatório mantém seu poder de ditar a moral e os costumes da época, mas não não tem mais a certeza de um futuro só dele nem a bênção da filosofia sintética e incontestável do Confúcio da direita. Se pela História tornada irrelevante Fukuyama queria dizer contradição e conflito, tudo o que aconteceu no mundo depois da publicação do seu livro desmentiu sua premissa. Mostrou que a História está viva, forte e irritadíssima. Nenhuma senhora, ainda mais com sua biografia, gosta de ser declarada inválida antes do tempo.

A crise provocada pelo capital financeiro fora de controle levou protestantes para as ruas na Europa e nos Estados Unidos e transformou “austeridade”, a solução receitada para as vitimas da crise, em palavrão. Ninguém quer pagar, com o sacrifício de gastos sociais, por uma porcaria que não fez. E cresce a busca por alternativas para os dogmas neoliberais e pelo fim do monólogo dos donos do dinheiro.

E o papel da esquerda na História pós-Fukuyama? O socialismo está numa crise de identidade. Como é difícil, hoje, recuperar o sentido antigo, sem qualificativos, de uma opção pelo socialismo, as pessoas se entregam à autorrotulagem para se definirem exatamente, (sou dois quartos de esquerda-esquerda, um quarto de centro-esquerda e o outro quarto deve ser gases), o que só atrasa as discussões que interessam.

Quais são os limites da coerência ideológica e do pragmatismo? O que ainda pode ser resgatado das ilusões perdidas? Por que não se declarar logo um neo-neoliberal e ser feliz? Num livro recém-publicado, a ex-mulher de François Hollande revela que ele tem horror a pobre. Se pode sobreviver a Francis Fukuyama, a François Hollande e a partidos políticos brasileiros que se chamam de “socialistas” com uma certa imprecisão semântica, o socialismo ainda tem um futuro, mesmo que seja apenas um apelido conveniente para o que se quer.

A escolha continua sendo entre socialismo e barbárie. Pode-se não saber mais o que é socialismo, mas para saber o que é barbárie basta abrir os olhos.

http://noblat.oglobo.globo.com/cronicas/noticia/2014/09/pos-fukuyama-por-luis-fernando-verissimo.html  17/11/2017

sexta-feira, 3 de novembro de 2017

A igreja do diabo

Autran Dourado um dia disse: "Todo ano releio três livros de Machado de Assis: Dom Casmurro, Quincas Borba, e Memórias póstumas de Brás Cubas, para limpar a língua que fica suja das leituras estrangeiras".

Reli alguns contos do Machado. Já reproduzi aqui "A cartomante", um clássico, e volto agora com a "Igreja do diabo". Serve como profecias; o diabo está soltinho nos tempos atuais

Recentemente este conto foi base para o filme "A comédia divina" (2017) de Toni Venturi  http://www.imdb.com/title/tt5207840/

A IGREJA DO DIABO

Capítulo I / De uma ideia mirífica

Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez.
— Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero. Há muitos modos de afirmar; há só um de negar tudo.
Dizendo isto, o Diabo sacudiu a cabeça e estendeu os braços, com um gesto magnífico e varonil. Em seguida, lembrou-se de ir ter com Deus para comunicar-lhe a idéia, e desafiá-lo; levantou os olhos, acesos de ódio, ásperos de vingança, e disse consigo: — Vamos, é tempo. E rápido, batendo as asas, com tal estrondo que abalou todas as províncias do abismo, arrancou da sombra para o infinito azul.

Capítulo II / Entre Deus e o Diabo 

Deus recolhia um ancião, quando o Diabo chegou ao céu. Os serafins que
engrinaldavam o recém-chegado, detiveram-se logo, e o Diabo deixou-se estar à entrada com os olhos no Senhor.
— Que me queres tu? perguntou este.
— Não venho pelo vosso servo Fausto, respondeu o Diabo rindo, mas por todos os  Faustos do século e dos séculos.
— Explica-te.
— Senhor, a explicação é fácil; mas permiti que vos diga: recolhei primeiro esse bom velho;
dai-lhe o melhor lugar, mandai que as mais afinadas cítaras e alaúdes o recebam com os mais divinos coros...
— Sabes o que ele fez? perguntou o Senhor, com os olhos cheios de doçura.
— Não, mas provavelmente é dos últimos que virão ter convosco. Não tarda muito que o céu fique semelhante a uma casa vazia, por causa do preço, que é alto. Vou edificar uma hospedaria barata; em duas palavras, vou fundar uma igreja. Estou cansado da minha desorganização, do meu reinado casual e adventício. É tempo de obter a vitória final e completa. E então vim dizer-vos isto, com lealdade, para que me não acuseis de dissimulação... Boa idéia, não vos parece?
— Vieste dizê-la, não legitimá-la, advertiu o Senhor.
— Tendes razão, acudiu o Diabo; mas o amor-próprio gosta de ouvir o aplauso dos
mestres. Verdade é que neste caso seria o aplauso de um mestre vencido, e uma tal exigência... Senhor, desço à terra; vou lançar a minha pedra fundamental.
— Vai.
— Quereis que venha anunciar-vos o remate da obra?
— Não é preciso; basta que me digas desde já por que motivo, cansado há tanto da tua desorganização, só agora pensaste em fundar uma igreja.
O Diabo sorriu com certo ar de escárnio e triunfo. Tinha alguma idéia cruel no espírito, algum reparo picante no alforje de memória, qualquer coisa que, nesse breve instante de eternidade, o fazia crer superior ao próprio Deus. Mas recolheu o riso, e disse:
— Só agora concluí uma observação, começada desde alguns séculos, e é que as virtudes, filhas do céu, são em grande número comparáveis a rainhas, cujo manto de veludo rematasse em franjas de algodão. Ora, eu proponho-me a puxá-las por essa franja, e trazê-las todas para minha igreja; atrás delas virão as de seda pura...
— Velho retórico! murmurou o Senhor.
— Olhai bem. Muitos corpos que ajoelham aos vossos pés, nos templos do mundo, trazem as anquinhas da sala e da rua, os rostos tingem-se do mesmo pó, os lenços cheiram aos mesmos cheiros, as pupilas centelham de curiosidade e devoção entre o livro santo e o bigode do pecado. Vede o ardor, — a indiferença, ao menos, — com que esse cavalheiro põe em letras públicas os benefícios que liberalmente espalha, — ou sejam roupas ou botas,  ou moedas, ou quaisquer dessas matérias necessárias à vida... Mas não quero parecer que  me detenho em coisas miúdas; não falo, por exemplo, da placidez com que este juiz de irmandade, nas procissões, carrega piedosamente ao peito o vosso amor e uma comenda... Vou a negócios mais altos... 
Nisto os serafins agitaram as asas pesadas de fastio e sono. Miguel e Gabriel fitaram no Senhor um olhar de súplica. Deus interrompeu o Diabo.
— Tu és vulgar, que é o pior que pode acontecer a um espírito da tua espécie,
replicou-lhe o Senhor. Tudo o que dizes ou digas está dito e redito pelos moralistas do mundo. É assunto gasto; e se não tens força, nem originalidade para renovar um assunto gasto, melhor é que te cales e te retires. Olha; todas as minhas legiões mostram no rosto os sinais vivos do tédio que lhes dás. Esse mesmo ancião parece enjoado; e sabes tu o que ele fez?
— Já vos disse que não.
— Depois de uma vida honesta, teve uma morte sublime. Colhido em um naufrágio, ia salvar-se numa tábua; mas viu um casal de noivos, na flor da vida, que se debatiam já com a morte; deu-lhes a tábua de salvação e mergulhou na eternidade. Nenhum público: a água e o céu por cima. Onde achas aí a franja de algodão?
— Senhor, eu sou, como sabeis, o espírito que nega.
— Negas esta morte?
— Nego tudo. A misantropia pode tomar aspecto de caridade; deixar a vida aos outros, para um misantropo, é realmente aborrecê-los...
— Retórico e sutil! exclamou o Senhor. Vai, vai, funda a tua igreja; chama todas as virtudes, recolhe todas as franjas, convoca todos os homens... Mas, vai! vai!  Debalde o Diabo tentou proferir alguma coisa mais. Deus impusera-lhe silêncio; os serafins, a um sinal divino, encheram o céu com as harmonias de seus cânticos. O Diabo sentiu, de repente, que se achava no ar; dobrou as asas, e, como um raio, caiu na terra.

Capítulo III / A boa nova aos homens
 
Uma vez na terra, o Diabo não perdeu um minuto. Deu-se pressa em enfiar a cogula  beneditina, como hábito de boa fama, e entrou a espalhar uma doutrina nova e  extraordinária, com uma voz que reboava nas entranhas do século. Ele prometia aos seus  discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as glórias, os deleites mais íntimos. Confessava que era o Diabo; mas confessava-o para retificar a noção que os homens tinham  dele e desmentir as histórias que a seu respeito contavam as velhas beatas.
— Sim, sou o Diabo, repetia ele; não o Diabo das noites sulfúreas, dos contos soníferos, terror das crianças, mas o Diabo verdadeiro e único, o próprio gênio da natureza, a que se deu aquele nome para arredá-lo do coração dos homens. Vede-me gentil e airoso. Sou o vosso verdadeiro pai. Vamos lá: tomai daquele nome, inventado para meu desdouro, fazei dele um troféu e um lábaro, e eu vos darei tudo, tudo, tudo, tudo, tudo, tudo...
Era assim que falava, a princípio, para excitar o entusiasmo, espertar os indiferentes, congregar, em suma, as multidões ao pé de si. E elas vieram; e logo que vieram, o Diabo passou a definir a doutrina. A doutrina era a que podia ser na boca de um espírito de negação. Isso quanto à substância, porque, acerca da forma, era umas vezes sutil, outras cínica e deslavada.
Clamava ele que as virtudes aceitas deviam ser substituídas por outras, que eram as naturais e legítimas. A soberba, a luxúria, a preguiça foram reabilitadas, e assim também a avareza,que declarou não ser mais do que a mãe da economia, com a diferença que a mãe erarobusta, e a filha uma esgalgada. A ira tinha a melhor defesa na existência de Homero; sem o furor de Aquiles, não haveria a Ilíada: "Musa, canta a cólera de Aquiles, filho de Peleu..." O mesmo disse da gula, que produziu as melhores páginas de Rabelais, e muitos bons versos de Hissope; virtude tão superior, que ninguém se lembra das batalhas de Luculo, mas das suas ceias; foi a gula que realmente o fez imortal. Mas, ainda pondo de lado essas razões de ordem literária ou histórica, para só mostrar o valor intrínseco daquela virtude, quem negaria que era muito melhor sentir na boca e no ventre os bons manjares, em grande cópia, do que os maus bocados, ou a saliva do jejum? Pela sua parte o Diabo prometia substituir a vinha do Senhor, expressão metafórica, pela vinha do Diabo, locução direta e verdadeira, pois não faltaria nunca aos seus com o fruto das mais belas cepas do mundo. Quanto à inveja, pregou friamente que era a virtude principal, origem de propriedades infinitas; virtude preciosa, que chegava a suprir todas as outras, e ao próprio talento.
As turbas corriam atrás dele entusiasmadas. O Diabo incutia-lhes, a grandes golpes
de eloquência, toda a nova ordem de coisas, trocando a noção delas, fazendo amar as perversas e detestar as sãs.
Nada mais curioso, por exemplo, do que a definição que ele dava da fraude. Chamava-lhe obraço esquerdo do homem; o braço direito era a força; e concluía: muitos homens sãocanhotos, eis tudo. Ora, ele não exigia que todos fossem canhotos; não era exclusivista. Que uns fossem canhotos, outros destros; aceitava a todos, menos os que não fossem nada. A demonstração, porém, mais rigorosa e profunda, foi a da venalidade. Um casuísta do tempo chegou a confessar que era um monumento de lógica. A venalidade, disse o Diabo, era o exercício de um direito superior a todos os direitos. Se tu podes vender a tua casa, o teu boi, o teu sapato, o teu chapéu, coisas que são tuas por uma razão jurídica e legal, mas que, em todo caso, estão fora de ti, como é que não podes vender a tua opinião, o teu voto, a tua
 palavra, a tua fé, coisas que são mais do que tuas, porque são a tua própria consciência, isto é, tu mesmo? Negá-lo é cair no absurdo e no contraditório. Pois não há mulheres que vendem os cabelos? não pode um homem vender uma parte do seu sangue para transfundi-lo a outro homem anêmico? e o sangue e os cabelos, partes físicas, terão um privilégio que se nega ao caráter, à porção moral do homem? Demonstrado assim o princípio, o Diabo não se demorou em expor as vantagens de ordem temporal ou pecuniária; depois, mostrou ainda que, à vista do preconceito social, conviria dissimular o exercício de um direito tão legítimo, o que era exercer ao mesmo tempo a venalidade e a hipocrisia, isto é, merecer duplicadamente.
E descia, e subia, examinava tudo, retificava tudo. Está claro que combateu o perdão das injúrias e outras máximas de brandura e cordialidade. Não proibiu formalmente a calúnia gratuita, mas induziu a exercê-la mediante retribuição, ou pecuniária, ou de outra  espécie; nos casos, porém, em que ela fosse uma expansão imperiosa da força imaginativa, e nada mais, proibia receber nenhum salário, pois equivalia a fazer pagar a transpiração. Todas as formas de respeito foram condenadas por ele, como elementos possíveis de um certo decoro social e pessoal; salva, todavia, a única exceção do interesse. Mas essa mesma exceção foi logo eliminada, pela consideração de que o interesse, convertendo o respeito em  simples adulação, era este o sentimento aplicado e não aquele.
Para rematar a obra, entendeu o Diabo que lhe cumpria cortar por toda a solidariedade humana. Com efeito, o amor do próximo era um obstáculo grave à nova instituição. Ele mostrou que essa regra era uma simples invenção de parasitas e negociantes insolváveis; não se devia dar ao próximo senão indiferença; em alguns casos, ódio ou desprezo. Chegou mesmo à demonstração de que a noção de próximo era errada, e citava esta frase de um padre de Nápoles, aquele fino e letrado Galiani, que escrevia a uma das marquesas do antigo regime: "Leve a breca o próximo! Não há próximo!" A única hipótese em que ele permitia amar ao próximo era quando se tratasse de amar as damas alheias, porque essa espécie de amor tinha a particularidade de não ser outra coisa mais do que o amor do indivíduo a si mesmo. E como alguns discípulos achassem que uma tal explicação, por metafísica, escapava à compreensão das turbas, o Diabo recorreu a um apólogo: — Cem pessoas tomam ações de um banco, para as operações comuns; mas cada acionista não cuida realmente senão nos seus dividendos: é o que acontece aos adúltero. Este apólogo foi incluído no livro da sabedoria.

Capítulo IV / Franjas e franjas 

A previsão do Diabo verificou-se. Todas as virtudes cuja capa de veludo acabava  em franja de algodão, uma vez puxadas pela franja, deitavam a capa às urtigas e vinham alistar-se na igreja nova. Atrás foram chegando as outras, e o tempo abençoou a instituição. A igreja fundara-se; a doutrina propagava-se; não havia uma região do globo que não a conhecesse, uma língua que não a traduzisse, uma raça que não a amasse. O Diabo alçou brados de triunfo.
Um dia, porém, longos anos depois notou o Diabo que muitos dos seus fiéis, às escondidas, praticavam as antigas virtudes. Não as praticavam todas, nem integralmente, mas algumas, por partes, e, como digo, às ocultas. Certos glutões recolhiam-se a comer frugalmente três ou quatro vezes por ano, justamente em dias de preceito católico; muitos avaros davam esmolas, à noite, ou nas ruas mal povoadas; vários dilapidadores do erário restituíam-lhe pequenas quantias; os fraudulentos falavam, uma ou outra vez, com o coração nas mãos, mas com o mesmo rosto dissimulado, para fazer crer que estavam embaçando os outros.
A descoberta assombrou o Diabo. Meteu-se a conhecer mais diretamente o mal, e
viu que lavrava muito. Alguns casos eram até incompreensíveis, como o de um droguista do Levante, que envenenara longamente uma geração inteira, e, com o produto das drogas, socorria os filhos das vítimas. No Cairo achou um perfeito ladrão de camelos, que tapava a cara para ir às mesquitas. O Diabo deu com ele à entrada de uma, lançou-lhe em rosto o procedimento; ele negou, dizendo que ia ali roubar o camelo de um drogomano; roubou-o, com efeito, à vista do Diabo e foi dá-lo de presente a um muezim, que rezou por ele a Alá. O manuscrito beneditino cita muitas outras descobertas extraordinárias, entre elas esta, que desorientou completamente o Diabo. Um dos seus melhores apóstolos era um calabrês, varão de cinqüenta anos, insigne falsificador de documentos, que possuía uma bela casa na campanha romana, telas, estátuas, biblioteca, etc. Era a fraude em pessoa; chegava a meter - se na cama para não confessar que estava são. Pois esse homem, não só não furtava ao jogo, como ainda dava gratificações aos criados. Tendo angariado a amizade de um cônego, ia todas as semanas confessar-se com ele, numa capela solitária; e, conquanto não lhe desvendasse nenhuma das suas ações secretas, benzia-se duas vezes, ao ajoelhar-se, e ao levantar-se. O Diabo mal pôde crer tamanha aleivosia. Mas não havia que duvidar; o caso era verdadeiro.
Não se deteve um instante. O pasmo não lhe deu tempo de refletir, comparar e concluir do espetáculo presente alguma coisa análoga ao passado. Voou de novo ao céu, trêmulo de raiva, ansioso de conhecer a causa secreta de tão singular fenômeno. Deus ouviu-o com infinita complacência; não o interrompeu, não o repreendeu, não triunfou, sequer, daquela agonia satânica. Pôs os olhos nele, e disse-lhe:
— Que queres tu, meu pobre Diabo? As capas de algodão têm agora franjas de seda, como as de veludo tiveram franjas de algodão. Que queres tu? É a eterna contradição humana.

domingo, 22 de outubro de 2017

Puta que pariu, eu amo essa mulher

Welcome to the jungle

Pergunta: Cadê a Rosa?
Resposta: Tá na 25 do 19.


Praia de Camburi, Vitória, ES. Lá pelos idos de 1990. 


Tradução de na 25 do 19: a barraca 25 do Chico, o 19. O apelido vem dos 19 dedos no corpo, não tinha um dedo do pé.


E quem fez a pergunta? Ana Júlia.


A praia de Camburi a noite, nesta época, era bem diferente de hoje.


Hoje é um cemitério. 


Quem viveu, viu. Era festa, feira, folia e território livre. E as vezes um rabo de arraia entre bêbados ou bêbadas.

 
Nesse ambiente conviviam todas as classes sociais. Pedreiro, médico, advogado, bancário, vendedor, traficante, estudante, professor e as minas da pista. Tudo misturado, juntos, curtindo a noite com cerveja, conhaque Dreher, caipirinha, peixe frito, camarão, peroá, frango a passarinho, aipim frito etc.


O Dezenove era o cara que sabia de tudo o que se passava. Contava algumas, outras não. E ele sabia porque não. Sobre a Rosa sabia... e me contou.


Rosa


Rosa, uma mulher da pista que era linda de morrer. Meio esquentada, mas sedutora. Seletiva em relação a clientes. Não ficava com qualquer um. Tinha requisitos. Conversava bastante, gostava de conhaque e às vezes cheirava uma coca da boa. Mas tudo sob controle já que tinha dois filhos ainda crianças e trabalhava durante o dia como auxiliar de limpeza num supermercado. Requisito 1: no geral saia da pista no máximo às três da madrugada porque tinha trampo às 8 da matina. Requisito 2: no fim de semana ficava por conta da família e dos filhos. Quando na pista os meninos ficavam com a irmã. Rosa era separada do pai dos filhos.


Na pista, Rosa, ganhava um extra e curtia a vida. Tinha um custo: sono curto de segunda a sexta, mas repunha nos finais de semana.


Dias normais até Rosa encontrar Claudio. Conheceram-se e rolou um quê entre os dois. Requisito 3: não se envolver com alguém.


Mas, no caso a razão e o controle foram para o espaço. 

Antes uma vez por semana, depois duas e logo, exclusividade. Rosa ficava apenas com Claudio a noite toda e ele a deixava em casa. Aí a mistura fatal. Claudio conheceu os filhos de Rosa e saiam juntos alguns fim de semana. 


Após seis meses desta mistura o ponto final.

Porque está falando isto, amor? Temos a maior tesão entre nós. Tenho prazer contigo na cama e fora dela. Meus filhos adoram você, disse Rosa depois que Claudio disparou a declaração final.


A carne não é fraca, Rosa, a carne é triste, infelizmente, disse Claudio.


Claudio era casado, com filhos e a situação ficara insuportável para ele.


Rosa nunca mais viu Claudio.


Ana Julia


Ana Julia, uma mulher da pista linda de viver. Juntas Rosa e Ana tinham perfis parecidos. Separadas dos pais dos filhos e eram mães. Ana tinha duas filhas, uma criança e outra adolescente. Mães que trabalhavam durante o dia e a noite caiam na pista.


Eram amigas e confidentes. Ana ajudou muito Rosa durante sua rebordosa pós separação. Fizeram loucuras na praia de Camburi.  Beberam, cheiraram, participaram de brigas, fizeram programas juntas e muito mais. Eram carne e osso, tampa e balaio.


O inevitável 


Um acontecimento clareou o que estava embaçado. Ana Julia foi divinamente cantada por outra mulher. Saíram para um motel e na volta encontraram uma Rosa possessa de raiva. Deu BO. Sim, com delegacia e tudo a que se tem direito. Tudo por conta de um ciúme ancestral que Rosa tinha de Ana.


O clarear: estavam apaixonadas e aí quando acontece dá-se um chute bem dado na razão.  


Depois de um tempo


Percebi que Rosa e Ana não estavam na praia. Perguntei ao 19 onde estavam. Saíram da pista casadas e viviam com filhos e filhas em Carapina, Serra, ES. Tinham um armazém / bar movimentado o suficiente para bem sobrevirem. Às vezes apareciam na 25, mas só para curtirem a madrugada. 


Puta que pariu, como sou apaixonada por Ana Julia.

 
Foi a declaração final que o 19 ouviu de Rosa na última visita à ainda viva praia de Camburi.


NB: o título destas mal traçadas linhas é uma homenagem à Rogéria

https://blogdobarcinski.blogosfera.uol.com.br/2017/09/04/adeus-rogeria/

terça-feira, 17 de outubro de 2017

A Cartomante

Machado de Assis

HAMLET observa a Horácio que há mais cousas no céu e na terra do que sonha a nossa filosofia. Era a mesma explicação que dava a bela Rita ao moço Camilo, numa sexta-feira de novembro de 1869, quando este ria dela, por ter ido na véspera consultar uma cartomante; a diferença é que o fazia por outras palavras.
— Ria, ria. Os homens são assim; não acreditam em nada. Pois saiba que
fui, e que ela adivinhou o motivo da consulta, antes mesmo que eu lhe
dissesse o que era. Apenas começou a botar as cartas, disse-me: "A senhora gosta de uma pessoa..." Confessei que sim, e então ela continuou a botar as cartas, combinou-as, e no fim declarou-me que eu tinha medo de que você me esquecesse, mas que não era verdade...
— Errou! interrompeu Camilo, rindo.
— Não diga isso, Camilo. Se você soubesse como eu tenho andado, por sua causa. Você sabe; já lhe disse. Não ria de mim, não ria...
Camilo pegou-lhe nas mãos, e olhou para ela sério e fixo. Jurou que lhe
queria muito, que os seus sustos pareciam de criança; em todo o caso,
quando tivesse algum receio, a melhor cartomante era ele mesmo. Depois, repreendeu-a; disse-lhe que era imprudente andar por essas casas. Vilela podia sabê-lo, e depois...
— Qual saber! tive muita cautela, ao entrar na casa.
— Onde é a casa?
— Aqui perto, na Rua da Guarda Velha; não passava ninguém nessa
ocasião. Descansa; eu não sou maluca.
Camilo riu outra vez:
— Tu crês deveras nessas cousas? perguntou-lhe.
Foi então que ela, sem saber que traduzia Hamlet em vulgar, disse-lhe que havia muita cousa misteriosa e verdadeira neste mundo. Se ele não
acreditava, paciência; mas o certo é que a cartomante adivinhara tudo. Que mais? A prova é que ela agora estava tranqüila e satisfeita.
Cuido que ele ia falar, mas reprimiu-se. Não queria arrancar-lhe as
ilusões. Também ele, em criança, e ainda depois, foi supersticioso, teve um arsenal inteiro de crendices, que a mãe lhe incutiu e que aos vinte anos desapareceram. No dia em que deixou cair toda essa vegetação parasita, e ficou só o tronco da religião, ele, como tivesse recebido da mãe ambos os ensinos, envolveu-os na mesma dúvida, e logo depois em uma só negação total. Camilo não acreditava em nada. Por quê? Não poderia dizê-lo, não possuía um só argumento: limitava-se a negar tudo. E digo mal, porque negar é ainda afirmar, e ele não formulava a incredulidade; diante do mistério, contentou-se em levantar os ombros, e foi andando. Separaram-se contentes, ele ainda mais que ela. Rita estava certa de ser amada; Camilo, não só o estava, mas via-a estremecer e arriscar-se por ele, correr às cartomantes, e, por mais que a repreendesse, não podia deixar de sentir-se lisonjeado. A casa do encontro era na antiga Rua dos Barbonos, onde morava uma comprovinciana de Rita. Esta desceu pela Rua das Mangueiras, na direção de Botafogo, onde residia; Camilo desceu pela da Guarda Velha, olhando de passagcm para a casa da cartomante. Vilela, Camilo e Rita, três nomes, uma aventura e nenhuma explicação das origens. Vamos a ela. Os dois primeiros eram amigos de infância. Vilela seguiu a carreira de magistrado. Camilo entrou no funcionalismo, contra a vontade do pai, que queria vê-lo médico; mas o pai morreu, e Camilo preferiu não ser nada, até que a mãe lhe arranjou um emprego público. No princípio de 1869, voltou Vilela da província, onde casara com uma dama formosa e tonta; abandonou a magistratura e veio abrir banca de advogado.
Camilo arranjou-lhe casa para os lados de Botafogo, e foi a bordo recebê-lo.
— É o senhor? exclamou Rita, estendendo-lhe a mão. Não imagina como meu marido é seu amigo, falava sempre do senhor.
Camilo e Vilela olharam-se com ternura. Eram amigos deveras.
Depois, Camilo confessou de si para si que a mulher do Vilela não
desmentia as cartas do marido. Realmente, era graciosa e viva nos gestos, olhos cálidos, boca fina e interrogativa. Era um pouco mais velha que ambos: contava trinta anos, Vilela vinte e nove e Camilo vinte e seis. Entretanto, o porte grave de Vilela fazia-o parecer mais velho que a mulher, enquanto Camilo era um ingênuo na vida moral e prática. Faltava-lhe tanto a ação do tempo, como os óculos de cristal, que a natureza põe no berço de alguns para adiantar os anos. Nem experiência, nem intuição. Uniram-se os três. Convivência trouxe intimidade. Pouco depois morreu a mãe de Camilo, e nesse desastre, que o foi, os dois mostraram-se grandes amigos dele. Vilela cuidou do enterro, dos sufrágios e do inventário; Rita tratou especialmente do coração, e ninguém o faria melhor.
Como daí chegaram ao amor, não o soube ele nunca. A verdade é que
gostava de passar as horas ao lado dela, era a sua enfermeira moral, quase uma irmã, mas principalmente era mulher e bonita.
Odor di femmina: eis o que ele aspirava nela, e em volta dela, para incorporá-lo em si próprio. Liam os mesmos livros, iam juntos a teatros e passeios. Camilo ensinou-lhe as damas e o xadrez e jogavam às noites; — ela mal, —ele, para lhe ser agradável, pouco menos mal. Até aí as cousas. Agora a ação da pessoa, os olhos teimosos de Rita, que procuravam muita vez os dele, que os consultavam antes de o fazer ao marido, as mãos frias, as atitudes insólitas.
Um dia, fazendo ele anos, recebeu de Vilela uma rica bengala de presente e de Rita apenas um cartão com um vulgar cumprimento a lápis, e foi então que ele pôde ler no próprio coração, não conseguia arrancar os olhos do bilhetinho. Palavras vulgares; mas há vulgaridades sublimes, ou, pelo menos, deleitosas. A velha caleça de praça, em que pela primeira vez passeaste com a mulher amada, fechadinhos ambos, vale o carro de Apolo.
Assim é o homem, assim são as cousas que o cercam. Camilo quis sinceramente fugir, mas já não pôde. Rita, como uma serpente, foi-se acercando dele, envolveu-o todo, fez-lhe estalar os ossos num espasmo, e pingou-lhe o veneno na boca. Ele ficou atordoado e subjugado. Vexame, sustos, remorsos, desejos, tudo sentiu de mistura, mas a batalha foi curta e a vitória delirante. Adeus, escrúpulos! Não tardou que o sapato se acomodasse ao pé, e aí foram ambos, estrada fora, braços dados, pisando folgadamente por cima de ervas e pedregulhos, sem padecer nada mais que algumas saudades, quando estavam ausentes um do outro. A confiança e estima de Vilela continuavam a ser as mesmas.
Um dia, porém, recebeu Camilo uma carta anônima, que lhe chamava
imoral e pérfido, e dizia que a aventura era sabida de todos. Camilo teve medo, e, para desviar as suspeitas, começou a rarear as visitas à casa de Vilela. Este notou-lhe as ausências. Camilo respondeu que o motivo era uma paixão frívola de rapaz. Candura gerou astúcia. As ausências prolongaram-se, e as visitas cessaram inteiramente. Pode ser que entrasse também nisso um pouco de amor-próprio, uma intenção de diminuir os obséquios do marido, para tornar menos dura a aleivosia do ato.
Foi por esse tempo que Rita, desconfiada e medrosa, correu à cartomante para consultá-la sobre a verdadeira causa do procedimento de Camilo.
Vimos que a cartomante restituiu-lhe a confiança, e que o rapaz repreendeu-a por ter feito o que fez. Correram ainda algumas semanas. Camilo recebeu mais duas ou três cartas anônimas, tão apaixonadas, que não podiam ser advertência da virtude, mas despeito de algum pretendente; tal foi a opinião de Rita, que, por outras palavras mal compostas, formulou este pensamento: — a virtude é preguiçosa e avara, não gasta tempo nem papel; só o interesse é ativo e pródigo.
Nem por isso Camilo ficou mais sossegado; temia que o anônimo fosse
ter com Vilela, e a catástrofe viria então sem remédio. Rita concordou que era possível.
— Bem, disse ela; eu levo os sobrescritos para comparar a letra com as das cartas que lá aparecerem; se alguma for igual, guardo-a e rasgo-a...
Nenhuma apareceu; mas daí a algum tempo Vilela começou a mostrar-se
sombrio, falando pouco, como desconfiado. Rita deu-se pressa em dizê-lo ao outro, e sobre isso deliberaram. A opinião dela é que Camilo devia tornar à casa deles, tatear o marido, e pode ser até que lhe ouvisse a confidência de algum negócio particular. Camilo divergia; aparecer depois de tantos meses era confirmar a suspeita ou denúncia. Mais valia acautelarem-se, sacrificando-se por algumas semanas. Combinaram os meios de se corresponderem , em caso de necessidade, e separaram-se com lágrimas.
No dia seguinte, estando na repartição, recebeu Camilo este bilhete de
Vilela: "Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Era mais de meio-dia. Camilo saiu logo; na rua, advertiu que teria sido mais natural chamá-lo ao escritório; por que em casa? Tudo indicava matéria especial, e a letra, fosse realidade ou ilusão, afigurou-se-lhe trêmula. Ele combinou todas essas cousas com a notícia da véspera.
— Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora, — repetia ele com os olhos no papel.
Imaginariamente, viu a ponta da orelha de um drama, Rita subjugada e
lacrimosa, Vilela indignado, pegando da pena e escrevendo o bilhete, certo ele acudiria, e esperando-o para matá-lo. Camilo estremeceu, tinha medo: depois sorriu amarelo, e em todo caso repugnava-lhe a ideia de recuar, e foi andando. De caminho, lembrou-se de ir a casa; podia achar
algum recado de Rita, que lhe explicasse tudo. Não achou nada, nem ninguém. Voltou à rua, e a idéia de estarem descobertos parecia-lhe cada vez mais verossímil; era natural uma denúncia anônima, até da própria pessoa que o ameaçara antes; podia ser que Vilela conhecesse agora tudo. A mesma suspensão das suas visitas, sem motivo aparente, apenas com um pretexto fútil, viria confirmar o resto.
Camilo ia andando inquieto e nervoso. Não relia o bilhete, mas as
palavras estavam decoradas, diante dos olhos, fixas, ou então, — o que era ainda pior, — eram-lhe murmuradas ao ouvido, com a própria voz de Vilela.
"Vem já, já, à nossa casa; preciso falar-te sem demora." Ditas assim, pela
voz do outro, tinham um tom de mistério e ameaça. Vem, já, já, para quê?
Era perto de uma hora da tarde. A comoção crescia de minuto a minuto.
Tanto imaginou o que se iria passar, que chegou a crê-lo e vê-lo.
Positivamente, tinha medo. Entrou a cogitar em ir armado, considerando
que, se nada houvesse, nada perdia, e a precaução era útil. Logo depois
rejeitava a idéia, vexado de si mesmo, e seguia, picando o passo, na direção do Largo da Carioca, para entrar num tílburi. Chegou, entrou e mandou seguir a trote largo.
"Quanto antes, melhor, pensou ele; não posso estar assim..."
Mas o mesmo trote do cavalo veio agravar-lhe a comoção. O tempo
voava, e ele não tardaria a entestar com o perigo. Quase no fim da Rua da Guarda Velha, o tílburi teve de parar, a rua estava atravancada com uma carroça, que caíra. Camilo, em si mesmo, estimou o obstáculo, e esperou. No fim de cinco minutos, reparou que ao lado, à esquerda, ao pé do tílburi, ficava a casa da cartomante, a quem Rita consultara uma vez, e nunca ele desejou tanto crer na lição das cartas. Olhou, viu as janelas fechadas, quando todas as outras estavam abertas e pejadas de curiosos do incidente da rua.
Dir-se-ia a morada do indiferente Destino.
Camilo reclinou-se no tílburi, para não ver nada. A agitação dele era
grande, extraordinária, e do fundo das camadas morais emergiam alguns
fantasmas de outro tempo, as velhas crenças, as superstições antigas. O
cocheiro propôs-lhe voltar à primeira travessa, e ir por outro caminho: ele respondeu que não, que esperasse. E inclinava-se para fitar a casa... Depois fez um gesto incrédulo: era a idéia de ouvir a cartomante, que lhe passava ao longe, muito longe, com vastas asas cinzentas; desapareceu, reapareceu, e tornou a esvair-se no cérebro; mas daí a ponco moveu outra vez as asas, mais perto, fazendo uns giros concêntricos... Na rua, gritavam os homens, safando a carroça:
— Anda! agora! empurra! vá! vá!
Daí a pouco estaria removido o obstáculo. Camilo fechava os olhos,
pensava em outras cousas: mas a voz do marido sussurrava-lhe a orelhas as palavras da carta: "Vem, já, já..." E ele via as contorções do drama e tremia.
A casa olhava para ele. As pernas queriam descer e entrar . Camilo achou-se diante de um longo véu opaco... pensou rapidamente no inexplicável de tantas cousas. A voz da mãe repetia-lhe uma porção de casos extraordinários: e a mesma frase do príncipe de Dinamarca reboava-lhe dentro: "Há mais cousas no céu e na terra do que sonha a filosofia... " Que perdia ele, se... ?
Deu por si na calçada, ao pé da porta: disse ao cocheiro que esperasse, e
rápido enfiou pelo corredor, e subiu a escada. A luz era pouca, os degraus comidos dos pés, o corrimão pegajoso; mas ele não, viu nem sentiu nada. Trepou e bateu. Não aparecendo ninguém, teve idéia de descer; mas era tarde, a curiosidade fustigava-lhe o sangue, as fontes latejavam-lhe; ele tornou a bater uma, duas, três pancadas. Veio uma mulher; era a cartomante. Camilo disse que ia consultá-la, ela fê-lo entrar. Dali subiram ao sótão, por uma escada ainda pior que a primeira e mais escura. Em cima, havia uma salinha, mal alumiada por uma janela, que dava para o telhado dos fundos. Velhos trastes, paredes sombrias, um ar de pobreza, que antes aumentava do
que destruía o prestígio. A cartomante fê-lo sentar diante da mesa, e sentou-se do lado oposto, com as costas para a janela, de maneira que a pouca luz de fora batia em cheio no rosto de Camilo. Abriu uma gaveta e tirou um baralho de cartas compridas e enxovalhadas. Enquanto as baralhava, rapidamente, olhava para ele, não de rosto, mas por baixo dos olhos. Era uma mulher de quarenta anos, italiana, morena e magra, com grandes olhos sonsos e agudos. Voltou três cartas sobre a mesa, e disse-lhe:
— Vejamos primeiro o que é que o traz aqui. O senhor tem um grande
susto...
Camilo, maravilhado, fez um gesto afirmativo.
— E quer saber, continuou ela, se lhe acontecerá alguma cousa ou não...
— A mim e a ela, explicou vivamente ele.
A cartomante não sorriu: disse-lhe só que esperasse. Rápido pegou outra
vez das cartas e baralhou-as, com os longos dedos finos, de unhas
descuradas; baralhou-as bem, transpôs os maços, uma, duas. três vezes;
depois começou a estendê-las. Camilo tinha os olhos nela curioso e ansioso.
— As cartas dizem-me...
Camilo inclinou-se para beber uma a uma as palavras. Então ela declarou-lhe que não tivesse medo de nada. Nada aconteceria nem a um nem a outro; ele, o terceiro, ignorava tudo. Não obstante, era indispensável muita cautela: ferviam invejas e despeitos. Falou-lhe do amor que os ligava, da beleza de Rita. . . Camilo estava deslumbrado. A cartomante acabou, recolheu as cartas e fechou-as na gaveta.
— A senhora restituiu-me a paz ao espírito, disse ele estendedo a mão por cima da mesa e apertando a da cartomante.
Esta levantou-se, rindo.
— Vá, disse ela; vá, ragazzo innamorato...
E de pé, com o dedo indicador, tocou-lhe na testa. Camilo estremeceu,
como se fosse a mão da própria sibila, e levantou-se também. A cartomante foi à cômoda, sobre a qual estava um prato com passas, tirou um cacho destas, começou a despencá-las e comê-las, mostrando duas fileiras de
dentes que desmentiam as unhas. Nessa mesma ação comum, a mulher tinha um ar particular. Camilo, ansioso por sair, não sabia como pagasse; ignorava o preço.
— Passas custam dinheiro, disse ele afinal, tirando a carteira. Quantas quer mandar buscar?
— Pergunte ao seu coração, respondeu ela.
Camilo tirou uma nota de dez mil-réis, e deu-lha. Os olhos da cartomante fuzilaram. O preço usual era dois mil-réis.
— Vejo bem que o senhor gosta muito dela... E faz bem; ela gosta muito do senhor. Vá, vá, tranqüilo. Olhe a escada, é escura; ponha o chapéu...
A cartomante tinha já guardado a nota na algibeira, e descia com ele,
falando, com um leve sotaque. Camilo despediu-se dela embaixo, e desceu a escada que levava à rua, enquanto a cartomante, alegre com a paga, tornava , cantarolando uma barcarola. Camilo achou o tílburi esperando; a rua estava livre. Entrou e seguiu a trote largo.
Tudo lhe parecia agora melhor, as outras cousas traziam outro aspecto, o
céu estava límpido e as caras joviais. Chegou a rir dos seus receios, que chamou pueris; recordou os termos da carta de Vilela e reconheceu que eram íntimos e familiares. Onde é que ele lhe descobrira a ameaça? Advertiu também que eram urgentes, e que fizera mal em demorar-se tanto; podia ser algum negócio grave e gravíssimo.
— Vamos, vamos depressa, repetia ele ao cocheiro.
E consigo, para explicar a demora ao amigo, engenhou qualquer cousa;
parece que formou também o plano de aproveitar o incidente para tornar à antiga assiduidade... De volta com os planos, reboavam-lhe na alma as palavras da cartomante. Em verdade, ela adivinhara o objeto da consulta, o estado dele, a existência de um terceiro; por que não adivinharia o resto? O presente que se ignora vale o futuro. Era assim, lentas e contínuas, que as velhas crenças do rapaz iam tornando ao de cima, e o mistério empolgava-o com as unhas de ferro. Às vezes queria rir, e ria de si mesmo, algo vexado; mas a mulher, as cartas, as palavras secas e afirmativas, a exortação: — Vá, vá, ragazzo innamorato; e no fim, ao longe, a barcarola da despedida, lenta e graciosa, tais eram os elementos recentes, que formavam, com os antigos, uma fé nova e vivaz.
A verdade é que o coração ia alegre e impaciente, pensando nas horas
felizes de outrora e nas que haviam de vir. Ao passar pela Glória, Camilo
olhou para o mar, estendeu os olhos para fora, até onde a água e o céu dão um abraço infinito, e teve assim uma sensação do futuro, longo, longo, interminável.
Daí a ponco chegou à casa de Vilela. Apeou-se, empurrou a porta de ferro do jardim e entrou. A casa estava silenciosa. Subiu os seis degraus de pedra, e mal teve tempo de bater, a porta abriu-se, e apareceu-lhe Vilela.
— Desculpa, não pude vir mais cedo; que há?
Vilela não lhe respondeu; tinha as feições decompostas; fez-lhe sinal, e
foram para uma saleta interior. Entrando, Camilo não pôde sufocar um grito de terror: — ao fundo sobre o canapé, estava Rita morta e ensanguentada. Vilela pegou-o pela gola, e, com dois tiros de revólver, estirou-o morto no chão.


                                                                             FIM


sábado, 23 de setembro de 2017

Não me esqueça num canto qualquer


Não me grila ser esquecido. Às vezes é bom sair de mansinho da vida de alguém.

Rio de Janeiro, metrô, Siqueira Campos, sento ao lado de uma mulher. Ela puxa conversa. Te conheço de algum lugar.
Essa já conheço. É cantada barata. E era mesmo uma cantada.

Posso saber o teu nome? Sim, Oscar. E o teu? Érika, com k.

Saímos na Cinelândia e fomos para o Amarelinho tomar chope com frango a passarinho. Depois um cinema do lado: Odeon, cinemão de 550 lugares de 1932. O filme: Dunkirk, 2017, de Cristopher Nolan (filmão). Érika sobre o filme: li sobre este filme e concordo. Acerta como um coice de cavalo. É uma força e tanto. Um coice que é um dos melhores filmes do ano.
 
Érika, sem dissimular nada, me chama para terminar a noite em sua casa. Um apartamento de 150 metros quadrado no Flamengo. E tome vinho para fechar a noite e começar a madrugada. Lembro me de um gostei de você antes de adormecer. Acordei as 11 do outro dia e me fui.

No dia seguinte repetimos a dose. No Net Gávea. O filme: Lady Macbeth, 2016, Willian Oldroyd . Dunkirk é um coice. Lady Macbeth é um direto no estômago. Impactante.

Nada de boteco. Voltamos para o aconchegante apartamento de Érika. Conversa recorrente: cinema. Vinho: Pinot Noir. Jantar: espaguete com filet au poivre. Noite maravilhosa, madrugada idem. Já dia claro fomos dormir embriagados, saciados e com um cara, continuo gostando muito de você... Eu também.
 
E a semana continuou com a rotina cinema, botequim, vinho e muito mais. Hotell, 2013, de Lisa Langseth (Igmar Bergman presente, é filme sueco) com Alicia Vikander, no cine Joia em Copacabana e Adega Pérola na Siqueira Campos. O filme da minha vida, 2017, de Selton Melo (imperdível) no cine Santa Tereza no centro e Nova Capela na Lapa.

Durante a última noite que estive com Érica, após cinco dias de intensa convivência, nos conhecemos mais. Disse a ela que era geógrafo, que não morava no Rio, divorciado, e estava de férias. Ela me disse que era roteirista de cinema e TV, casada e tinha dado um tempo no trabalho.

Me diz uma coisa Érica, você é casada? Cadê o marido?

Ele está no exterior trabalhando. Semana que vem está de volta.


Outra coisa, dona Érica, frequentei o apartamento que teu marido frequenta?


Sim.


Tem problema não. Ele me conhece e sabe como sou. E mais, seu Oscar, você não foi o primeiro.
 
Só me restou uma resposta, lembrando Toquinho.

Só peço a você Érika um favor, se puder. Não me esqueça num canto qualquer