sábado, 23 de setembro de 2017

Não me esqueça num canto qualquer


Não me grila ser esquecido. Às vezes é bom sair de mansinho da vida de alguém.

Rio de Janeiro, metrô, Siqueira Campos, sento ao lado de uma mulher. Ela puxa conversa. Te conheço de algum lugar.
Essa já conheço. É cantada barata. E era mesmo uma cantada.

Posso saber o teu nome? Sim, Oscar. E o teu? Érika, com k.

Saímos na Cinelândia e fomos para o Amarelinho tomar chope com frango a passarinho. Depois um cinema do lado: Odeon, cinemão de 550 lugares de 1932. O filme: Dunkirk, 2017, de Cristopher Nolan (filmão). Érika sobre o filme: li sobre este filme e concordo. Acerta como um coice de cavalo. É uma força e tanto. Um coice que é um dos melhores filmes do ano.
 
Érika, sem dissimular nada, me chama para terminar a noite em sua casa. Um apartamento de 150 metros quadrado no Flamengo. E tome vinho para fechar a noite e começar a madrugada. Lembro me de um gostei de você antes de adormecer. Acordei as 11 do outro dia e me fui.

No dia seguinte repetimos a dose. No Net Gávea. O filme: Lady Macbeth, 2016, Willian Oldroyd . Dunkirk é um coice. Lady Macbeth é um direto no estômago. Impactante.

Nada de boteco. Voltamos para o aconchegante apartamento de Érika. Conversa recorrente: cinema. Vinho: Pinot Noir. Jantar: espaguete com filet au poivre. Noite maravilhosa, madrugada idem. Já dia claro fomos dormir embriagados, saciados e com um cara, continuo gostando muito de você... Eu também.
 
E a semana continuou com a rotina cinema, botequim, vinho e muito mais. Hotell, 2013, de Lisa Langseth (Igmar Bergman presente, é filme sueco) com Alicia Vikander, no cine Joia em Copacabana e Adega Pérola na Siqueira Campos. O filme da minha vida, 2017, de Selton Melo (imperdível) no cine Santa Tereza no centro e Nova Capela na Lapa.

Durante a última noite que estive com Érica, após cinco dias de intensa convivência, nos conhecemos mais. Disse a ela que era geógrafo, que não morava no Rio, divorciado, e estava de férias. Ela me disse que era roteirista de cinema e TV, casada e tinha dado um tempo no trabalho.

Me diz uma coisa Érica, você é casada? Cadê o marido?

Ele está no exterior trabalhando. Semana que vem está de volta.


Outra coisa, dona Érica, frequentei o apartamento que teu marido frequenta?


Sim.


Tem problema não. Ele me conhece e sabe como sou. E mais, seu Oscar, você não foi o primeiro.
 
Só me restou uma resposta, lembrando Toquinho.

Só peço a você Érika um favor, se puder. Não me esqueça num canto qualquer


quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Aparência e Essência


Essência para a filosofia é “aquilo que a coisa é em si mesma”, isto é, a verdade mais profunda da coisa, o ser da coisa. E aparência, como a própria palavra sugere, é aquilo que a coisa aparenta ser e não aquilo que ela é em si. Aqui temos uma diferença/oposição/contradição (dialética). Ser e aparecer são realidades opostas que não somente se distinguem em suas características, mas que se digladiam entre si não havendo espaço e possibilidade de convivência. (Danilo Corrêa)

Aparência

Lauro é professor universitário, 31 anos, bonito e corpo escultural. Um Apolo com barriga zero. Irritante quando o vi em minha frente. O cara era só massa magra e eu com barriga maior que zero, não obeso, claro, mas frente a frente me deu um complexo de inferioridade estética.
Conversei com Lauro durante uma hora em sua sala de trabalho na universidade.

Tô casado não. Solteirinho da silva. Não tenho tempo para namorar. Sou contaminado pelo trabalho. Minha vida se resume em trabalho e nos intervalos, academia de ginástica.

Tempo social e tempo profissional. O primeiro quase inexiste. O trabalho de Lauro é predominantemente pesquisa. É da geração do Curriculum Lattes.

Rapaz, sou escravo do dead line. Veja lá no meu Lattes, um artigo a cada três meses. Tem que ser assim, é a sobrevivência como docente da universidade.

É a opinião de Lauro. Sobrevivência na universidade operacional contemporânea.  Como ele conheço vários docentes e várias docentes que pensam como.

Sindicato? Me acho cientista, cara. E como tal, confesso pra ti, não me considero trabalhador. Trabalho sim, e muito, para a ciência.

A origem da universidade está na idade média circunscrita ao pensamento cristão medieval. A igreja era a protetora e zeladora. Na época os universitários tinham imunidades similares às dos clérigos. E clérigos não eram trabalhadores.

E a família Lauro?

Minha família mora longe. Estou com eles e elas no Natal. Meus irmãos e irmãs são diferentes. Não pensam como penso, mas me dou bem com eles e elas. Gosto da minha família.

Saí da conversa com Lauro lembrando de Caravaggio.

Narcissus - 1597-99
Galleria Nazionale d'Arte Antica - Rome
https://favourite-paintings.blogspot.com.br/2011/03/michelangelo-merisi-caravaggio.html 15/08/2017

Essência

Marcos é um rapaz de 30 anos que mora em Vila Velha, Espírito Santo. Tem um filho, de 10, que mora com a mãe em Belo Horizonte. Todo o mês Marcos envia a mesada (1 salário mínimo) para o filho.

Tenho uma vida agitada, mas gosto do que faço. Moro com minha mãe e tenho muito carinho por ela, diz Marcos. A mãe, dona Manuela, tem personalidade forte e sabe como defender o filho. Não mexe com meu filho, senão viro bicho, diz sempre.

O filho da Manuela é um cara animado e falante. Estudou até o ensino médio e tem uma cultura respeitável. Conversa bem sobre literatura, cinema e psicanálise. Filosofar? É com ele mesmo. Gosta de moda e por sinal se veste muito bem.

Relato a seguir uma semana na vida agitada de Marcos.

Segunda: durante o dia é divulgador em uma loja de um shopping na Praia da Costa. A partir das 18 horas é apoio/segurança em um jantar no Cerimonial Orla Camburi em Jardim Camburi em Vitória. Volta depois da meia noite para Vila Velha. Para isto toma dois ônibus (o popular bacurau). Chega em casa às duas horas da madrugada.

Terça: Acorda às 6 horas e vai para a loja Aquarius na Glória, em Vila Velha. Lá trabalha como apoio e divulgador. À noite, a partir das 19 horas é garçom na boite Octopus em Itaparica, Vila Velha. Sai a 1 hora e chega em casa às 2 da madrugada. 

Quarta: Às 8 horas está no shopping da Praia da Costa. As 13 se manda para a Glória para o serviço na loja Aquarius. A noite volta para a Octopus. Está em casa às 2 da madrugada.

Quinta: a partir das 8 é apoio e divulgador na loja Veneza Modas na Glória. À noite, a partir das 20, é apoio no show do Exaltasamba no Parque de Exposição de Carapina, no município da Serra. Fica por lá até 1 hora da madrugada. Para voltar mais dois ônibus (bacurau) e depois de duas horas está em casa.

Sexta: durante o dia, é Papai Noel de uma loja no shopping na Praia da Costa. A noite é garçom no Bar do Luiz em Itapuã, Vila Velha. 

Sábado: de novo é Papai Noel no shopping. À noite garçom no Bar do Luiz.

Domingo: é dia de descanso. E como ninguém é de ferro se encontra com o namorado Alcides.

Para Marcos não há tempo ruim, não reclama da vida.

Resumo da ópera

Marcos e Lauro têm vidas distintas. Marcos (a exploração do trabalho) e Lauro (a alienação) representam o ser e o aparecer.

A ciência é, por assim dizer, a plenificação da coisa em si. No início do processo, a ciência está para ela na forma de aparência. Este processo é considerado por Hegel como o modo da essência de mostrar se à aparência. É este mostrar se que constitui a alienação, pois a ciência assume a forma de aparência para realizar se plenamente. O aparecer é a forma que a essência assume para vir à tona. (Fabrício J.Brustolin)

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Feliz dia dos pais, João


A paternidade continua um privilégio de quem consegue receber e um favor de quem consegue exerce

Ana Paula Lisboa, O Globo – 16/08/2017

Minha mãe é filha de um homem mestiço português, e vem daí esse meu sobrenome da capital lusitana que muitos aqui em Luanda acreditam ser meu nome artístico.
Quando meu avô conheceu minha avó, ela era bem jovem, e ele, já um homem velho e casado com uma senhora branca, mas com muitas mulheres e, consequentemente, muitos filhos espalhados no mundo. Minha mãe era a única dos filhos fora do casamento que fora registrada por ele. Segundo meu avô, essa era a maior prova de amor que ele poderia dar à minha avó: acreditar que aquela filha era dele e dar a ela o seu sobrenome.
Minha avó faleceu, infelizmente, antes dos 50 anos, de um derrame cerebral. No dia do seu enterro, já há anos deixado por ela e cheio de recalque, meu avô soltou a seguinte pérola: “Filho de minhas filhas, meus netos são, de minhas noras serão, ou não?” Eu demorei anos pra entender o que esse ditado complexo significava, mas sabia que era algo muito ruim, porque minha mãe desde então cortou relações com meu avô e, mesmo depois de sua morte, nunca mais voltamos a Magalhães Bastos. A última notícia que tenho é de uma herança que minha mãe faz questão de não receber.
Eu sei que ela vai me matar quando ler essa coluna, mas eu precisava contar toda essa história íntima da minha família para dizer que ainda existem homens como o meu avô e filhas como a minha mãe. E que minha maior curiosidade está nos tios e primos que tenho pelo mundo e não conheço.
Sim, porque dados do Conselho Nacional de Justiça de 2011 dizem que mais de um quarto da população brasileira não tem na certidão de nascimento o nome do pai. O Estado do Rio lidera o ranking, com quase 700 mil crianças com “pai desconhecido”. A esses meus tios e tias foi privado o direito à personalidade e à identidade, a ter uma história de família para contar.
Nesse quase um mês fora do Rio, o que tem me guiado é pensar que “se você não sabe para onde está indo, saiba pelo menos de onde veio”.
Repararam no último domingo que, diferente do Dia das Mães, em que as redes sociais ficam repletas de amor, de agradecimento e de saudades, o Dia dos Pais traz uma enxurrada de ressentimento, de relações interrompidas ou que começaram tardiamente, de relatos de abandono e de tristeza? Parece até que pai se tornou aquilo que a gente nunca viu, nem comeu, só ouviu falar e admira nas fotos dos outros.
Porque é claro que há também as declarações de amor, de orgulho, de saudades, há os almoços, os churrascos, há a música do Fábio Júnior e a da Legião Urbana, há o perdão. Mas mesmo para essas pessoas, ter um bom pai parece ser um privilégio.
Por aqui o domingo foi normal, já que a data — Dia do Pai — é comemorada em 19 de março, dia de São José, o pai “adotivo” de Jesus. E mesmo o cristianismo não sendo uma referência atual pra mim, pareceu-me bem mais coerente que no Brasil, onde a data foi pensada por um publicitário.
A referência contemporânea mais antiga é que no início do seculo XX Sonora Luise resolveu homenagear seu pai, um veterano de guerra nos Estados Unidos, que foi pai solo de seis filhos depois que a esposa faleceu. No dia do aniversário dele, ela espalhou cartazes por toda a cidade com os seus feitos e emocionou todo o país.
Sem saber do feito de Sonora, eu fiz um post na semana passada pedindo para que pessoas usassem um tempinho do seu dia e ligassem para o meu pai, que fez aniversário do último dia 6 e que por não possuir nenhuma rede social, não havia recebido nenhuma declaração minha. Mais de 20 pessoas se disponibilizaram e ligaram para o meu pai, não sei se isso quer dizer alguma coisa, mas desses, só dois eram homens. E o presente no fim não foi pra mim ou para ele, foi para essas pessoas, que me devolveram emocionadas frases como “por um tempinho eu tive pai”.
Não é por acaso que Sonora tenha resolvido homenagear o pai depois de ouvir um sermão sobre as mães. Segundo a história, ela percebeu o quanto toda a abnegação feminina estava presente nos feitos do pai, e desde então pouca coisa mudou.
A paternidade continua um privilégio de quem consegue receber e um favor de quem consegue exercer. Enquanto a maternidade se entende como um dom natural.
Não é só sobre pagar pensão ou dar o seu nome, tem a ver com “romper com esse padrão histórico e compulsório do abandono, do desapego e do descompromisso com a paternidade frente a questões da reprodução da vida, do amor e da criação das pessoas”.
Tem a ver com expectativa social que se cria sobre o que é ser pai e, consequentemente, sobre o que é ser mãe, porque é realmente impossível descolar uma coisa da outra. Tem a ver com homens que formam outros homens.
Tem a ver especialmente com João, meu mais jovem afilhado, que nasceu bem no dia do aniversário do meu pai. Porque João tem um desses “pais desconhecidos” que todo mundo conhece. Porque João tem irmão, tem avô, tem primos e talvez João nunca os conheça. Eu fico pensando se João fará uma postagem de rancor no Dia dos Pais.
Não, João fará posts de quem nessas datas agradece à vida pela mãe, pela avó, pelas madrinhas e se orgulha por romper esse ciclo e ser um homem diferente.

sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Família profana

Morreu Jeanne Moreau, em 31/07/2017 aos 89 anos. Uma atriz e mulher incríveis, com uma cinematografia extensa e com algumas obras inesquecíveis.

Neste dia Inácio Araújo escreveu na Folha de São Paulo sobre Jeanne:
Foram apenas dois casamentos, mas, sabidamente, muitos amantes. Significam a inquietude sem fim, o gosto pela independência, a inteligência e o poder de sedução dessa atriz que, se vê sua força de estrela arrefecer na maturidade (como acontece frequentemente às atrizes), ainda filmaria, entre outros, com R.W. Fassbinder ("Querelle, de 1982), "Além das Nuvens" (1995, de novo com Antonioni, agora em parceria com Wim Wenders).

O filme emblemático de Jeanne Moreau, sem dúvida, foi Jules et Jim (http://www.imdb.com/title/tt0055032/) de François Truffaut, 1962. O título em português acrescenta Uma mulher para dois. Uma idiotice inominável.

Jules et Jim: a estória

Catherine (Jeanne Moreau), Jules (Oskar Werner) e Jim (Henri Serre) se conhecem e a partir daí tornam-se inseparáveis. Uma relação triangular cheia de idas e vindas. Três boêmios com pensamentos as vezes divergentes mas convergentes num quisito: a liberdade.

Era 1916 e logo vem a guerra. Jules, alemão e Jim, francês, participam, como soldados, em lados opostos. Às vezes, tenho medo de que vá matar Jules durante uma batalha, confessa Jim.

O trio volta a se encontrar no pós-guerra. Jules está casado com Catherine e com uma filha, Sabine. Jim aceitou que ela pertencia ao Jules.

Mas o casamento Catherine - Jules não estava nada bom.

Jules: Ela não é realmente minha esposa, Jim. Ela já teve três amantes. Um foi um encontro logo antes de nosso casamento, como uma despedida de solteira. Outro foi uma vingança por algo que eu fiz. E não sei o que. Não sou o homem que ela precisa...E ela não aceita isso. Estou acostumado a ela ser infiel comigo...Mas não suportaria vê-la partir.

Catherine numa palavra: inquietude.

O trio resolve morar juntos.

Um casamento profano, não sagrado.

As idas e vindas continuam. Ela ainda insatisfeita, infiel e aflita.

Final da estória: Catherine convida Jim para andar em seu automóvel e a seguir cai no mar do alto de um penhasco. Morrem juntos.

O caixão de Jim era maior que ele em vida. O de Catherine era uma caixa de joia.

Há dois temas: o da amizade dos dois, que tenta sobreviver, e o da impossibilidade de viver a três. A ideia do filme é que o casal não é um conceito satisfatório, mas não há outra solução (Truffaut)
 
 

segunda-feira, 31 de julho de 2017

Vontade de viver



A cena
Uma mulher (Anna), no Louvre, se aproxima de um quadro de Édouard Manet, Le Suicide. Senta ao lado de um estranho. Depois de um tempo, o diálogo:

O estranho: Você também gosta desse quadro?

Anna: Ele me dá vontade de viver

O quadro de Manet (1880) é mostrado abaixo.



O contexto

 A cena é a última do filme Frantz de François Ozon, 2016, http://www.imdb.com/title/tt5029608/  

São aquelas cenas finais de filmes em que resumem tudo sobre a estória narrada. Lembro de caso semelhante no filme Marcas da violência, David Cronenberg de 2005.

 O filme

A estória se passa em Quedlimburgo, 1919 (pós 1ª guerra) Alemanha. Anna (Paula Beer) encontra o jovem Adrien (Pierre Niney) frente ao túmulo de seu jovem noivo (Frantz) morto na guerra. Adrien se apresenta como amigo francês do noivo. A verdade aparece depois: o soldado Adrien matou o soldado Frantz numa batalha de guerra. O francês fora a Quedlimburgo devido a remorsos por ter causado a morte do alemão.
O ambiente era de feridas não cicatrizadas. Diálogo entre o pai de Frantz e Adrien:

Pai de Frantz: Todo francês é assassino do meu filho.  Então desapareça daqui.

Adrien: O senhor tem razão, doutor. Eu também era soldado e sou mesmo assassino.

O filme é antibélico e sem apelo sentimentalista trata das cicatrizes advindas dos horrores da guerra.

Adrien ao ser perguntado por Anna sobre as marcas no corpo, diz: “Minha única cicatriz é Frantz”. Nessa frase, há muito do termômetro do filme. Mesmo com uma trama recheada de reviravoltas, Ozon não cede em nome de um roteiro mais veloz. Frantz – e aqui está sua maior beleza – não é um filme sobre a ferida, mas sim sobre as cicatrizes (Diogo Guedes, uol.com.br).

Ponto de inflexão

Anna, a mãe e o pai de Frantz passam a ver Adrien com olhar diferente. A rejeição anterior dá lugar ao afeto.
Adrien volta a Paris. E depois de um tempo Anna resolve reencontrar Adrien. Vai até Paris e depois de procurar muito o encontra noivo com casamento marcado. Decepção. Anna apaixonada não se desaponta. Fica em Paris e um dia se veste de preto e vai até o Louvre ver o quadro de Manet.

Tudo se passa como Anna estivesse de luto novamente.

É o luto pela segunda perda.

Ele me dá vontade de viver diz ao estranho sobre o Le Suicide de Manet.






sábado, 20 de maio de 2017

A coroa de orquídeas


 Quando a mulher entrou em agonia, ele caiu em crise. Atirou-se em

cima da cama, aos soluços. Foi agarrado, arrastado. Debatia-se nos braços

dos parentes e vizinhos; esperneava. E houve um momento em que, no

seu desvario de quase viúvo, cravou os dentes numa das mãos próximas.

A vítima uivou:

— Ui!

Então, na sala, cercado e contido, chorou alto, chorou forte. Seu

gemido grosso atravessava o espaço e era ouvido no fim da rua.

Enquanto isso, o amigo mordido, na cozinha, exibia a mão: "Tirou um

naco de carne!". Alguém perguntou baixo, com admiração: "Mas os

dentes dele não são postiços?". Eram. E, em torno, houve um espanto

profundo. Ninguém compreendia que um indivíduo que usava na boca

uma chapa dupla pudesse morder com tanta ferocidade e resultado. E,

súbito, veio espavorido lá de dentro um irmão da moribunda. Pousou a

mão no ombro do Juventino. Pigarreia e soluça:

— Morreu.

Várias pessoas espichavam o pescoço para ver as reações. Primeiro,

Juventino levantou-se, esbugalhando os olhos. Depois que assimilou o

fato, desprendeu-se de vários braços, num repelão. Dava socos no próprio

peito e estrebuchava:

— Me dêem um revólver! Quero meter uma bala na cabeça!

DOR AUTÊNTICA


Essa dor agressiva e autêntica arrepiava. E havia, disseminado no

ar, o medo de que o infeliz ferrasse os dentes em alguma mão ainda

intacta. Durou o paroxismo de dez a quinze minutos. Por fim, a própria

exaustão física serviu de sedativo. Gemia baixo. Mas, quando o sogro o

convocou para ver a esposa, recuou como diante de uma blasfêmia. Num

tremor de maleita, rilhando os dentes, soluçou:

— Não vou! Não quero!

Era a sua antiga e irredutível pusilanimidade diante da morte.

Desde criança tinha medo de qualquer defunto, fosse conhecido ou

desconhecido, parente próximo ou remoto. A idéia de ver a mulher morta

o arrepiava. Defendia-se: "Não!". E corrigiu: "Agora, não!". Com o

coração disparado, não pôde evitar a seguinte e quase irreverente

reflexão: "Por que não pintam os cadáveres?". Perguntaram:

— O enterro vai sair daqui?

Virou-se:

— Claro!

Um dos vizinhos, o mesmo que fora mordido na mão, vacila e

sugere:

— Não será mais negócio capelinha?

— Por quê?

E o outro, alvar:

— É mais prático. Mais cômodo.

Então, o viúvo exaltou-se. Enfiou o dedo na cara do vizinho:

— Considero um desaforo essa mania de capelinha! É uma falta de

respeito! Ora veja!

SAUDADE


Um vizinho e um cunhado partiram, de táxi, para tratar do

atestado de óbito e do enterro. Então, andando de um lado para o outro,

numa excitação de possesso, Juventino surpreendeu e confundiu os

presentes com uma série de confidências, legítimas umas, extravagantes

outras. Na sua euforia retrospectiva, deblaterava:

— Nunca houve marido tão feliz como eu! Duvido!

Elogiou a mulher de alto a baixo, chamou-a de "anjo dos anjos",

"flor das flores". E, súbito, diante dos vizinhos atônitos e maravilhados,

baixa a voz:

— Era tão séria que namorou um ano comigo, noivou dois e só

topou beijo na boca depois do casamento! Quer dizer, mulher batata!

Havia um aspecto de sua vida conjugai que ainda o envaidecia: o

recato da mulher. Sempre conservaria, perante o marido, um mínimo de

cerimônia. Cutucou o vizinho e segredou: "Teve pudor de mim até o

último momento!". Pausa, arqueja e conclui:

— Nunca tomou injeção que não fosse no braço!

Parecia evidente que esse pudor frenético o deleitava, ainda agora.

Numa brusca cólera, desafiou os circunstantes:

— Isso é que era mulher no duro, cem por cento! O resto é conversa

fiada!

CÂMARA-ARDENTE


As providências de ordem prática estavam sendo tomadas. Uma

hora depois ou pouco mais, apareceram os funcionários da empresa

funerária. Armara-se a câmara-ardente na sala de visitas. Em dado

momento, o viúvo teve de levantar-se para atender o telefone. Era o

cunhado. Estava na casa de flores e desejava fazer uma consulta até certo

ponto delicada. Perguntou:

— Tua coroa pode ser de orquídeas?

Admirou-se no telefone:

— Pode. Por que não?

Pigarreia o cunhado:

— Mas é puxado!

— Quanto?

O outro disse uma quantia. Juventino esbravejou:

— Ladrões!

Vacila. Lembra-se de que a doença da mulher já lhe custara uma

fortuna; contraíra dívidas, tinha na farmácia uma conta estratosférica.

Acabou optando por outra solução:

— Vamos fazer o seguinte; orquídea é uma flor besta, sofisticada.

Arranja uma coroa mais em conta.

Do outro lado da linha, veio a pergunta: "Qual é a dedicatória?".

Hesita novamente. Decide-se:

— Põe assim: "À Ismênia, saudade eterna do teu Juventino".

ÀS COROAS

Do telefone, veio para a sala. Até então, fiel à própria covardia, não

fora espiar o rosto da mulher no caixão. E o pior é que seu medo estava

mesclado de curiosidade. Costumava dizer, numa frase rebuscadíssima,

que o verdadeiro rosto da mulher aparece só no amor ou na morte. Mas o

diabo era o seu preconceito contra a morte. Acendendo um cigarro,

pensava: "Os defuntos são muito feios!". Por outro lado, ocorria-lhe que,

com ou sem pusilanimidade, teria de beijar a esposa antes de sair o

enterro. Na sua meditação de viúvo, cogitou de uma solução que lhe

parecia praticável, qual seja: a de beijar sem ver, isto é, beijar fechando os

olhos.

Mais uns quarenta minutos e começam a chegar as coroas. Uma das

primeiras foi a sua. Correu, sôfrego; leu a legenda fúnebre, em letras

douradas. As orquídeas tinham sido substituídas pelas dálias. E

Juventino, recuando dois passos, considerava o efeito. Não pôde furtar-se

a um sentimento de satisfação. Disse de si para si: "Bacana!". À medida

que iam chegando mais flores, ele se convencia de que a sua coroa não

fazia feio no meio das outras. Pelo contrário. Se não fosse a melhor, podia

figurar entre as melhores.

SURPRESA

Às onze horas, a casa estava apinhada. Tinha vindo gente até de

Vigário Geral. O inconsolável viúvo era abraçado por uma série de

parentes, inclusive alguns que ele julgava mortos e enterrados. Às onze e

meia, Juventino passa por uma nova crise. E uma coisa o atribulava de

maneira particular e dolorosíssima: a doença da mulher. Aos soluços,

interpelava os presentes:

— Como é possível morrer de pneumonia? Se fosse câncer, vá lá.

Mas pneumonia! — Virou-se para um vizinho; estrebucha: — Sabe que eu

estou desconfiado que penicilina é um conto-do-vigário?

Neste momento, todos os olhos se voltaram para a direção da

porta. Acabava de entrar uma coroa. Era, porém, uma coisa realmente

insólita e gigantesca. Dir-se-ia uma coroa de chefe de Estado, de rainha

ou, no mínimo, de ministro. Toda feita de orquídeas, ofuscou

automaticamente as demais. Atônito, Juventino balbuciou: "Parei!".

Trôpego, a boca torcida e já distraído da própria dor, veio rompendo os

grupos, no seu espanto e na sua curiosidade. E, com a mão trêmula,

desenrolou a fita. Soletrou, a meia voz, para si mesmo: "À inesquecível

Ismênia, com todo o amor, de Otávio".

Antes de mais nada, aquele "inesquecível" foi nele uma espécie de

punhalada material. Ocorria-lhe uma reminiscência cinematográfica:

Rebecca, a mulher inesquecível. Virou-se para os presentes, que pareciam

também impressionadíssimos. Perguntava de um para outro:

— Otávio? Quem é Otávio? Vocês conhecem algum Otávio?

Não, ninguém conhecia. Mas ele corria, um por um, todos os

parentes: "Mas como é possível? Que negócio é esse?".

DRAMA

A obsessão passou a dominá-lo: voltou para perto da coroa e leu,

releu a legenda. Apertava a cabeça entre as mãos: "Todo amor por quê?".

Concentrou-se. Procurava descobrir, no fundo da memória, alguém que

tivesse este nome, E uma coisa o enfurecia: aquela coroa espetacular, tão

mais bonita e até mais cara que as outras. Fazia seus cálculos, em voz alta:

— O cara que mandou isto gastou os tubos. E por quê, meu Deus,

por quê?

Houve um momento em que o próprio Juventino se julgou também

um milionário, mas da loucura. Meteu-se num canto; já não falava mais

com ninguém, feroz e incomunicável. Quase ao amanhecer, alguém veio

oferecer um cafezinho. Saltou: "Vai-te para o diabo que te carregue!".

Passam-se os minutos, as horas. Todos os que chegam pasmam

para a fabulosa coroa. Finalmente, na hora de fechar o caixão, a própria

sogra, soluçando, vem chamar o genro: "Você não vai beijar fulana?".

Ergueu-se. Antes, foi ao escritório apanhar não sei o quê. Atravessou por

entre os parentes e vizinhos. Estava diante do caixão. E, súbito, mete a

mão no bolso e... Só viram quando ergueu um punhal e o afundou na

defunta, aos berros de:

— Cínica! Cínica!

A lâmina penetrou por entre as duas costelas. E a morta parecia rir


Nelson Rodrigues, O melhor do romance, contos e crônicas, Folha de São Paulo, 1993
Edição especial publicada com a autorização da família de Nelson Rodrigues e da Companhia das Letras

sexta-feira, 28 de abril de 2017

PSA: a radiografia de um câncer



Próstata no balde

Câncer na próstata. Eis o problema que alguns homens acima dos 60 enfrentam. É a minha briga atual. Uma batalha. Batalha contra quem? Contra o câncer no geral, mas contra o PSA (Antígeno Prostático Especifico) fora de controle em particular.
No quadro abaixo um histórico do PSA: 1,89 (2008); 0,82 (2017) e no meio um horror: PSA em 62,49 (2015). Tempos atrás com este quadro de 2015 a solução seria: corta fora esta merda de próstata e joga no balde.
E porque não houve o corte e o balde?



Caminhos percorridos
A cintilografia óssea realizada em junho de 2015: “Hipercaptação focal na face anterior do terceiro arco costal direito, a esclarecer (trauma?, implante?...). Sugiro complementação propedêutica radiológica (RX/TC) desta localização”. E na radiografia do tórax realizada também em junho deu “discreta alteração morfoestrutural na extremidade distal do 10º arco costal, que pode ser decorrente de fratura prévia, não sendo possível descartar a possibilidade de lesão infiltrativa com reação periostial”.
Antes, em maio de 2015, o resultado da biopsia 3: “próstata, glândula interna esquerda – Adenocarcioma acinar usual, Gleason 8 (4 +4), comprometendo três entre quatro fragmentos (variando entre 50% e 20% da superfície de cada fragmento). Não observada permeação perineural”.
Em decorrência destes resultados havia o risco de metástase. A partir daí o caso saiu da urologia para a oncologia. E a próstata não foi pro balde... Ainda.
A partir de julho de 2015, iniciei o tratamento com hormônio (Zoladex).
Em 15 meses o PSA caiu de 62,49 para 2,59. 
No período de 3,5 anos (junho/2013 a outubro de 2016) minha vida teve um nó górdio: o câncer. E a tentativa de desatar o nó que em alguns casos é impossível.
O que fazer para se livrar da doença?

Rádio

Em novembro de 2016 iniciei o tratamento de radioterapia. E foi neste momento que     me senti frente a frente com a doença, apesar de o tratamento ser curativo. A sensação de que antes não era doente e agora sim. A dura consciência de enfrentamento e tristeza. Câncer é isto: ou se elimina o contaminado ou a morte vem. Não pensei na morte ainda, mas me alivia acreditar que a morte é a continuidade da vida como diz o budismo.
Optei por realizar o tratamento no Rio de Janeiro. Morava em Cariacica e Rio neste momento seria um exilio. Exilio devido à rotina diária (de 2ª a 6ª) de, com bexiga cheia, ficar sob uma máquina, fonte de raios gama, por cerca de 10 minutos. E tome chegar na clínica às 8, tomar água até as 9 e descer para o tratamento quase mijando nas calças. Foram 39 sessões no período de 30 de novembro de 2016 a 24 de janeiro de 2017. Resultado: PSA caiu para 0,82.
As aplicações de Zoladex continuam por mais duas vezes de três em três meses. Está  previsto uma nova medição do PSA em julho de 2017. A tendência é diminuir, mas a estimativa de cura, no sentido estrito, não passa pela cabeça do médico (oncologista). O encaminhamento de alta, (caso não ocorra imprevistos) no fim do ano segue com o período de manutenção. Por enquanto uma vitória como poucas num mar de perdas e derrotas vividas por mim.

Resumo da ópera: farei PSA até que a morte esteja próxima. É como remédio para a pressão, levamos para o túmulo.
Em tempo: nos comentários do Blog
Edson Pereira Cardoso, 18 de julho de 2017. PSA em 12/07/2017: 0,41
25 de dezembro de 2017. PSA em 19/12/2017: 0,36. 
19 de fevereiro de 2018. PSA em 15/02/2018: 0,42. Peso da próstata: 52 g em 22/07/2013 (53 x 50 x 42 mm); 37 g em 16/04/2018 (38 x 39 x 27 mm)
3 de maio de 2018. PSA em 02/05/2018: 0,30 
17 de dezembro de 2018. PSA em 05/12/2018: 0,44
23 de fevereiro de 2019. PSA em 22/02/2019: 0,34
30 de maio de 2019. PSA em 30/05/2019: 0,28
7 de janeiro de 2020. PSA em 06/01/2020: 0,21
2 de dezembro de 2020. PSA em 01/12/2020: 0,175; Testosterona Total: 420,0 ng/dL
21 de setembro de 2021. PSA: em 18/09/2021: 0,25; Testosterona: 376
16 de dezembro de 2021. PSA: em 16/12/2021: 0,22;  Testosterona: 424
Atualizando
Em 20/09/2021, próstata - peso estimado: 36 gramas; medidas: 35 x 37 x 50 mm nos diâmetros longitudinal, anteroposterior e transverso.
 
PSA Lâmina