sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Acredite, caso queira

Deu no Jornal de Barretos de 7 de agosto de 2014.

Vaso com planta semelhante à maconha é apreendida pela PM (sic)

Os policiais militares Vares e Enderson compareceu (sic) em uma residência na avenida Mato Grosso nº 491, no bairro Bom Jesus, para cumprir um mandado de prisão, mas o acusado não foi localizado. Contudo, encontraram no local, na residência do averiguado L.S.S., 20 anos, auxiliar de Serviços Gerais, um vaso de planta assemelhada com a maconha. Diante dos questionamentos, o averiguado afirmou que é usuário de maconha e que a planta nasceu de algumas bitucas que plantou no vaso. Diante da incerteza sobre a natureza da planta, a autoridade deliberou pela apreensão do objeto e encaminhamentos de praxe para o IC (Instituto de Criminalística).
 

Depois dessa só o Bezerra da Silva resolve.

A semente

Meu vizinho jogou/Uma semente no seu quintal
De repente brotou/Um tremendo matagal

Quando alguém lhe perguntava/Que mato é esse que eu nunca vi?
Ele só respondia/Não sei, não conheço isso nasceu ai

Mas foi pintando sujeira/O patamo estava sempre na jogada
Porque o cheiro era bom/E ali sempre estava uma rapaziada

Os homens desconfiaram/Ao ver todo dia uma aglomeração
E deram o bote perfeito/E levaram todos eles para averiguação e daí...

Na hora do sapeca-ia-ia o safado gritou:/Não precisa me bater, que eu dou de bandeja tudo pro senhor/Olha aí eu conheço aquele mato, chefia
E também sei quem plantou

Quando os federais grampearam/E levaram o vizinho inocente
Na delegacia ele disse/Doutor não sou agricultor, desconheço a semente

https://www.youtube.com/watch?v=HB7UTk0QaZ8

terça-feira, 29 de julho de 2014

Tortura

 
Encolerizados porque o sangue do guerrilheiro respingara em suas roupas, os carrascos espancaram-no com mais ódio. Ao fim do corredor polonês em que lhe entorpeceram com sopapos, atiraram-no a um canto da sala do pau de arara. Com os joelhos dobrados sobre a barra e o tronco despencado, Celso (Celso Horta) viu um corte na testa do companheiro. Virgílio (Virgílio Gomes da Silva) estava "exausto, ofegante como um carcará ferido", o camarada nunca mais esqueceria. Sem murmurarem uma sílaba, seus olhares se cruzaram para nunca mais. Antes de ser retirado, Celso ouviu o grito de quem manteria a altivez até o suspiro derradeiro: "Filhos da puta! Vocês estão matando um patriota!"...

O parágrafo acima é do livro Marighella, o guerrilheiro que incendiou o mundo de Mário Magalhães, Companhia das Letras, 2012, p. 522. Na biografia de Carlos Marighella são narradas passagens de horror nas antessalas do inferno durante a ditadura de 1964. Virgílio Gomes da Silva, da ALN (Ação Libertadora Nacional) foi um dos lideres do sequestro do embaixador estadunidense Charles Burke Elbrick em 04 de setembro de 1969. Foi brutalmente assassinado na sede da famigerada Operação Bandeirante, em 29 de setembro de 1969.

O que Sade tem a ver com as antessalas do inferno existentes, ainda hoje, nas polícias e nas penitenciárias brasileiras? A tortura é um ato sádico?

Anarquia do poder

"Não há nada tão glorificante como o mal" disse o Magistrado no filme Salò, ou Os 120 dias de Sodoma (Itália, 1975) de Pier Paolo Pasolini (1). O filme é baseado no livro Os 120 dias de Sodoma, ou a Escola da Libertinagem, do Marquês de Sade e mostra a brutalidade desconcertante capaz de abalar a fé que qualquer um possa ter no ser humano. Pasolini adaptou a trama, originalmente situada na França pré-revolução de 1792, para a Itália fascista, onde ele próprio viveu. Assim, ao invés de apenas narrar os horrores causados pelos quatro libertinos, devassos e cruéis conhecidos como "os amigos", deu um passo além, encaixando a narrativa num dos momentos mais críticos da história humana, a Segunda Guerra Mundial e o nazi-fascismo na Itália (2).

No filme há estupro, tortura, crueldade, abuso, depravação, assassinato, orgias, escatologia e sodomia. Há muito sexo, mas todo ele é vazio, e mesmo os libertinos parecem não tirar prazer algum de tudo isso. Os corpos não valem nada, e mesmo as vítimas assistem a tudo como se nada estivesse acontecendo, sem reagir.

"Suas criaturas fracas! Ralé, destinada ao nosso prazer. Não esperem aqui a liberdade garantida lá fora. Vocês aqui estão além de qualquer lei. Ninguém sabe que estão aqui. Pelo que importa ao mundo, já estão mortos." Foi a recepção do Duque aos garotos e garotas obrigadas a participarem dos 120 dias infernais em Salò.

De Pier Paolo, sobre o filme: Todo o sexo de Sade, o sadomasoquismo, tem uma função específica, clara: o efeito do que o poder faz ao corpo humano. A redução do corpo humano a uma mercadoria. O cancelamento da personalidade do outro. Não é apenas um filme sobre o poder, mas o que eu chamo de anarquia do poder. Porque nada é mais anárquico que o poder. O poder faz o que quer. E o que o poder pode querer é completamente arbitrário ou imposto por necessidades econômicas que escapam à lógica comum. Mas além de ser sobre a anarquia do poder o filme é também sobre a inexistência da história. Quer dizer, da história vista por uma cultura eurocêntrica. Racionalismo e empirismo ocidentais de um lado e marxismo na outra, que o filme quer mostrar como inexistente (3).

Pasolini, comunista e gay, foi brutalmente assassinado em 2 de novembro de 1975, logo após realizar o filme Salò.

No inferno

... Daí em diante, do martírio de Jonas (Virgílio) restaram vestígios no laudo do exame necroscópico que a ditadura ocultou. Hematomas, escoriações e equimoses escureceram rosto, braços, mãos, joelhos, tórax, abdome, o corpo inteiro. As depressões nos pulsos, típicas de dependurados no pau de arara, mediram um centímetro. O "hematoma intenso" na "polpa escrotal" era compatível com eletrochoques no órgão. Com bicos de calçados, tora de madeira ou pedaço de ferro, fraturaram-lhe três costelas. Na parte superior do crânio, produziram um "hematoma irregularmente distribuído". Fraturam e afundaram o osso frontal do crânio. A autópsia concluiu que Virgílio "veio a falecer em consequência de traumatismo cranioencefálico (fratura de crânio)", provocado por "instrumento contundente". Uma fotografia mostrou o lado esquerdo da cabeça mais afundado que o direito. O tormento e a agonia do brasileiro que mataram na Oban se arrastaram até a noite, por quase doze horas. No dia seguinte, Paulo de Tarso Venceslau deu entrada no recinto. Os torturadores se gabaram de que os resíduos grudados na parede constituíam massa encefálica de Jonas. Maria Aparecida dos Santos padecia ali, onde havia "sangue nas paredes, e eles faziam questão de falar que era de Virgílio". Um capitão ameaçava: "Você está vendo este sangue? É de um ‘patriota’. Você quer ser ‘patriota’?". Um delegado revelou assombrado que "os olhos de Virgílio tinham saltado como dois ovos de galinha" e seu pênis "estava no joelho, de tanto pisarem em cima dele". Os presos políticos acusaram doze algozes de Jonas, entre eles o major Waldyr Coelho, os capitães Benome de Arruda Albernaz e Maurício Lopes Lima e o delegado Octávio Gonçalves Moreira Junior.

Considerazioni finali

Não conheço os perfis dos algozes da ditadura. Aos torturadores de Virgílio acrescente-se a figura nefasta de Sérgio Fernando Paranhos Fleury que comandava as antessalas do inferno no DOPS de São Paulo. Recentemente conhecemos a personagem da época chamado Paulo Malhães, tenente-coronel, militante anticomunista e torturador confesso que admitiu publicamente ter perdido a conta do número de dissidentes políticos que assassinou a serviço da ditadura. E sem o menor arrependimento. Foi assassinado no dia 24 de abril de 2014 com a suspeita de queima de arquivos (Carta Capital, maio de 2014).

Mas a crueldade (como nos torturadores) e devassidão estão nas figuras sadianas do Duque, o Presidente Curval, o Bispo e Durcet (4). Aristocratas, muito ricos, do período pré-revolução francesa têm perfis esclarecedores. Sobre Duque escreveu Sade: "Duque nascera falso, implacável, imperioso, bárbaro, egoísta tão pródigo para seus prazeres quanto avarento quando havia de ser útil, mentiroso, guloso, beberrão, covarde, sodomita, incestuoso, assassino, incendiário, ladrão, sem que virtude alguma compensasse tantos vícios. E digo mais: não apenas não venerava nenhuma delas, como abominava todas; era comum ouvi-lo dizer que, para ser verdadeiramente feliz nesse mundo, um homem somente havia de se entregar a todos os vícios, sem nunca permitir virtude alguma, pois não se tratava apenas de fazer o mal, como também de nunca fazer o bem". Curval, o Bispo e Durcet têm perfis semelhantes ao do Duque. São da mesma laia.

A tortura é universal e atemporal. No Brasil, impune. Fodam-se torturadores!

Referências

(1) Salò ou 120 dias de Sodoma, 1975, DVD vídeo, CinemaX.

O cineasta e escritor Pasolini teve a criatividade de apresentar nos créditos iniciais do filme, a "bibliografia essencial" sobre o tema.
 

(2) http://bocadoinferno.com.br/criticas/2013/06/salo-ou-120-dias-de-sodoma-1975/ em 25/07/2014.

(3) Pier Paolo Pasolini, O evangelho segundo São Mateus, 1964, edição definitiva, DVD vídeo, Versátil. No disco 2 deste DVD consta o documentário Pier Paolo Pasolini dirigido por Ivo Barnabo Micheli, essencial para entender o pensamento de Pier Paolo.

(4) Marques de Sade, Os 120 dias de Sodoma ou a Escola da Libertinagem, Iluminuras, 2013.
 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

O cinema versus IA


Prólogo


Antes de qualquer coisa uma explicação. O que é IA (Inteligência Artificial)?

Algumas definições na literatura sobre:

"IA é a parte da ciência da computação que se preocupa em desenvolver sistemas computacionais inteligentes, isto é, sistemas que exibem características, as quais nós associamos com a inteligência no comportamento humano - por exemplo, compreensão da linguagem, aprendizado, raciocínio, resolução de problemas, etc." Barr & Feigenbaum (1981)

"Inteligência Artificial é o estudo das computações que tornam possível perceber, raciocinar e agir." Winston (1992)

"IA é a arte de criar máquinas que executam funções que requerem inteligência quando executadas por pessoas." Kurzweil (1990)

Estas definições estão em "Fundamentos da inteligência artificial", Paulo Santos, 2006 (fei.edu. br/~psantos/slidesIA/CAP1_intro.ppt) 10/07/2014


IA no cinema


Vamos restringir a conversa a dois filmes: 2001 uma odisseia no espaço de 1968 e Transcendence – a revolução de 2014.

Stanley Kubrick e Arthur C. Clark são os responsáveis pelo filme 2001 uma odisseia no espaço de 1968. Estão lá temas como exploração do espaço, inteligência artificial, naves e estações interplanetárias e a existência ou não de outros seres na via láctea. E, importante, a interferência das tecnologias na evolução dos seres humanos.
Kubrick tem uma obra cinematográfica com marcas no antibélico e no pessimismo em relação à humanidade e seu futuro. Os 20 minutos iniciais do filme mostram a evolução de uma comunidade de macacos desde seu início como herbívoros até os hábitos carnívoros e a descoberta das armas (ossos de animais abatidos) que utilizam em defesa de seus territórios. A cena clássica do filme consiste num macaco lançando no espaço um osso que se transforma numa nave interplanetária.

A nave é controlada por um computador de nome Hal (Heuristically programmed ALgorithmic computer). Os astronautas dialogam em viva voz com Hal o tempo todo. Num certo momento da estória tem início os conflitos da tripulação com a máquina. Hal é desligado após a morte de um astronauta devido a sua influência. A máquina nasce, vive e morre como os seres vivos.
HAL é o computador consciente, eficiente, brilhante, dedicado, solidário, paranoico e assassino. Para Kubrick, é a culminação e o emblema de toda a época da tecnologia humana e suas falhas são as de seus criadores (James Berger, Helen Keller: a história da minha vida, Jose Olympio, 2008).

O vilão do filme é Hal, se é que se pode falar em vilão nos filmes de Kubrick. Será profecia? Pelo sim pelo não o belo e clássico filme de Kubrick deixa a interrogação: o que será, no futuro, a relação homem - máquina?

Transcendence, a revolução de Wally Pfister, 2014 é um filme com um bom argumento, mas tem um desenvolvimento (roteiro) a desejar.

A estória: Will Caster (Johnny Depp) é um pesquisador de IA que trabalha na construção de uma máquina consciente onde informações sobre conteúdo e emoção humana se correlacionam. Will com a palavra numa conferência:
O intelecto combinado dos neurocientistas, engenheiros, matemáticos e hackers desse auditório estão muito longe da mais básica IA. Quando funcionar, a máquina em questão irá rapidamente superar os limites da biologia. E em pouco tempo, seu poder analítico será maior que a inteligência coletiva de cada pessoa nascida na história do mundo. Agora imaginem tal entidade com toda gama da emoção humana, até com a autoconsciência. A jornada para a construção de tal superinteligência requer que desvendemos os segredos mais fundamentais do universo. Qual é a natureza da consciência? A alma existe? Se sim, onde reside?
Alguém da plateia pergunta:

Professor? Então você quer criar um Deus? O seu próprio Deus?
A resposta de Will: É uma ótima pergunta. Não é isso o que o homem sempre tem feito?

No dia da conferência acontecem vários atentados e alguns centros de pesquisa em IA são destruídos. A autoria destes atentados é de responsabilidade de um grupo neo-ludita liderados por Bree Nevins (Kate Mara) ex-aluna de ciência da computação, em 2010, do instituto de pesquisa onde trabalha Will.

Em tempo: o ludismo foi um movimento (anarquista) contra a mecanização do trabalho proporcionada pelo advento da revolução industrial no inicio dos 1800. Não à substituição da mão de obra humana pelas máquinas. Os luditas são lembrados como "quebradores de máquinas". Para o historiador Eric J. Hobsbawn o ludismo "era uma mera técnica de sindicalismo de operários no período que precedeu a revolução industrial e a organização operária". O neo-ludita (neo-Luddite), hoje, seria um combatente contra a disseminação exacerbada das novas tecnologias, principalmente a telemática. Militância anti-tecnologia.

De volta ao filme. Will Caster sofre um atentado mortal. E quem é o autor dos tiros a queima-roupa? O perguntador na conferência (Professor? Então você quer criar um Deus?). Antes de morrer Will pede à dedicada esposa Evelyn Carter (Rebeca Hall), também pesquisadora em IA, que transfira o que ele tem no cérebro para um computador. Ela faz o transplante com sucesso. Ai o bicho pega. O Will Carter virtual torna-se o Deus e o Diabo na terra ianque. A partir daí o filme fica roliúde como o Diabo gosta. Para acabar com o Will virtual até a união dos neo-luditas com o FBI e exército estadunidenses acontece.


Resumo da ópera


O cinema e IA não se bicam. E o primeiro tem posições conservadoras em relação à segunda? Si, pero no mucho. A questão é: a quem serve as pesquisas em IA? A quem serve as novas tecnologias? Para fabricar os drones do Obama e lançar bombas que assassinam civis (inclusive crianças) no Afeganistão? Para fabricar mísseis inteligentes israelenses que assassinam civis (inclusive crianças) na faixa de Gaza? Se for só para isto, pontos para os neo-luditas.

Mas não é assim. A visão maniqueísta não serve neste caso. Roliúde procura sempre o vilão e o mocinho. Evelyn Carter antes de ser abduzida pelo marido virtual disse na conferência acima citada: A efetividade de desenvolver uma inteligência artificial levou a um avanço significativo no campo da neuroengenharia, assim como no estudo do cérebro humano. Embora alguns foquem no ainda distante sonho de um computador pensante, eu acredito que a jornada é mais importante que o destino final. Minha prioridade é usar as percepções acidentais de meus colegas para criar novos métodos de descoberta precoce do câncer, e desenvolvermos uma cura para Alzheimer. Resumindo, para salvar vidas. Um novo modo de pensamento é essencial, se humanidade quer sobreviver e avançar a níveis superiores. Albert Einstein disse isso há mais de 50 anos. E não poderia ser mais relevante do que é hoje. Máquinas inteligentes nos permitirão em breve conquistar os nossos desafios mais difíceis.

Tudo bem IA pode servir a que a mocinha Evelyn se propunha na época. Ela citou Einstein. Ele participou do projeto Manhattan da bomba atômica que dizimou mais de 200 mil japoneses.

Estou mais com o pessimismo de Kubrick.

quinta-feira, 3 de julho de 2014

O nazi horror

 
Uma dúvida provisória: o porquê do ódio exacerbado aos judeus durante nazismo na Alemanha nos 1930 e 1940?


Ontem

O filme Arquitetura da destruição (Undergångens arkitektur) de Peter Cohen, DVD Versátil, 1989, ajuda a pensar sobre.

Além da estética nazista nas artes e arquitetura o filme descreve e analisa as bases de uma ideologia absurda que ajudou a transformar a sociedade alemã em uma realidade infernal. Em 1941 cerca de 70 mil doentes mentais foram assassinados. A eutanásia tornou-se a menina dos olhos da medicina nazista. O embelezamento do mundo é um dos princípios do nazismo. Dizia Hitler: muito tempo atrás o mundo era lindo, mas a miscigenação e degeneração poluíram o mundo.

Outra pérola do pensamento nazista. Ele via os judeus como um câncer que se alastrava. Como os judeus preservaram sua pureza racial eram eles os maiores rivais dos arianos na dominação do mundo. Na imaginação de Hitler, estava em um combate feroz contra seu mais forte e perigoso inimigo. Continuar na guerra sem lutar contra esse inimigo era incogitável para Hitler. Mais importante se tornava o extermínio. Para Hitler, perder a guerra não significava o fim do nazismo. A queda da Alemanha iria inspirar as futuras gerações. O extermínio dos judeus enfraqueceria a Alemanha, mas ela se ergueria, mais uma vez, das ruínas.

Outro filme importante sobre o nazi horror é o documentário dirigido por Alain Resnais "Noite e neblina" (Nuit et brouillard), DVD vídeo, 1955.


Hoje



Deu no portal Terra (http://www.terra.com.br/) em 03/07/2014: Bebê 'ariano ideal' em capa de revista nazista era judeu.

O bebê "ariano ideal" que aparece na capa de uma revista da propaganda nazista, em 1935, era, na verdade, judeu. A revelação foi feita pela própria pessoa na foto, Hessy Taft, hoje com 80 anos.

 

 

A mulher doou uma cópia da revista ao Museu do Holocausto, em Jerusalém, como parte da campanha Recolhendo Fragmentos, lançada em 2011 para estimular pessoas a doarem materiais ligados ao holocausto para que sejam protegidos pela posteridade. Hessy Taft, cujo sobrenome de solteira é Levinson, nasceu em Berlim em 1934, filha de pais judeus originários da Letônia. Ambos músicos, eles haviam chegado à Alemanha em 1928 para trabalhar como cantores de ópera.

A fotografia havia sido escolhida em um concurso promovido pelo Departamento de Propaganda Nazista, chefiado por Joseph Goebbels. A melhor entre cem imagens clicadas pelos melhores fotógrafos alemães representaria o "bebê alemão ariano ideal" e seria capa da revista.
 
 

Hessy Taft, hoje com 80 anos

Quando perguntada o que diria para o fotógrafo hoje, Hessy respondeu: "Eu diria: 'Que bom você teve coragem'".
 

A dúvida provisória continua?

 

 




 


quarta-feira, 25 de junho de 2014

Eleonora


Não me ame tanto. Não posso suportar um amor que é mais do que eu sinto por dentro.

Este foi o torpedo recebido pelo smartphone do Adolfo, em março de 2013. Eleonora, sua namorada na época, ouvia muito as músicas de Karina Buhr.

Depois do acontecido Eleonora considera o amor um vício acrescido de ciúme, um absurdo total.

O acontecido

“Amor, porque você não faz aquilo outra vez. Vem cá meu cabritinho!”. Era Eleonora clamando por Adolfo beijar seus seios e massagear freneticamente seu clitóris. Ela por sua vez com pinto dele enrijecido na mão. A seguir ruidosos orgasmos.  Estavam num motel lá pelos idos de 2011.

Um vulcão no sexo. “Na cama sou uma puta” dizia ela para as amigas. Personalidade forte, determinada, independente, segura, dedicada no trabalho, líder de grupo e uma incontrolável libido. Assim é Eleonora.

Adolfo conheceu Eleonora na balada. Não deu outra, ele se apaixonou por aquela mulher vulcão. No começo um mar de rosas. Viam-se dia sim dia não. Ele entrou de cabeça na relação e ela, apesar de apaixonada, com a cabeça no lugar.

“Você é sagrada para mim. Todo meu desejo incendeia com a tua presença. Não sei jamais o que se passa comigo quando estou contigo; parece que a minha alma se revolve em todos os meus nervos”. Foi o torpedo recebido de Adolfo. Um delírio digno do jovem Werther de Goethe. “Lindo! Um beijo flamejante” respondeu Eleonora.

Numa manhã chuvosa no apartamento do Adolfo. Ainda com uma ressaca da noite anterior ele diz: “Eleonora, porque não nos casamos?” Eleonora: “calma cabritinho, porque mudar? Está tão bom assim.” Ele, de uma família tradicional de Vitória, pensava no casamento como o coroamento de um amor eterno. Ela não. Onde começa o casamento acaba a relação homem mulher (Rose Marie Muraro).

Foi na balada que Eleonora conheceu o lado sombrio do namorado. Estavam numa boate em Vila Velha. Ela já com umas doses de vodca na cabeça começou a dançar com um amigo. Dançavam pra lá do trivial. Adolfo não gostou e partiu para o ataque. Agrediu o amigo e rolou um sapeca-iaiá no salão. Sobrou para a Eleonora que levou uns tabefes em pleno salão.

De todos os tormentos que afligem a alma o ciúme é o mais intolerável. Eleonora conheceu, naquela noite, o que significa conviver com a estupidez chamada ciúme.

O estopim.  Adolfo soube que Eleonora estava num motel. Como descobriu? Sem ela saber os celulares de ambos tinham o Foursquare, rede social que permite ao utilizador indicar onde se encontra. Eleonora estava no Status, motel tradicional situado na região de Vitória. A explosão veio a seguir. Discutiram dentro do carro e ela confessou que estava no Status.  Com uma amiga. Não deu outra. Adolfo deu um tapa na cara de Eleonora. Na hora ela parou o carro. Estava na direção e no meio da 3ª Ponte que liga Vila Velha e Vitória. Atracaram-se, mas ela tinha vantagem. Recuperou os golpes de judô que aprendera quando adolescente. Com uma chave de braço esganou Adolfo. Pensou em mata-lo. Mas desistiu. Ele saiu do carro cambaleando, tonto e com aquela coragem irresponsável se jogou no mar. Depois de 70 metros em queda livre se espatifou na água. Morreu. Em março de 2013.

Na polícia Eleonora declarou terem discutido e depois do tapa na cara se defendeu da agressão. A iniciativa de sair do automóvel foi do namorado.

Epílogo

Atualmente Eleonora mora em Salvador. Está grávida de 5 meses e será mãe solteira. Já tem o nome para a filha: Beatrix.

Ela continua com os cabritinhos e continua tendo problemas com amor demais.

 

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Formação profissional em engenharia

                    Introdução

    A atribuição profissional em engenharia é vinculada a conteúdos programáticos desenvolvidos no decorrer do curso de graduação. Objetivamos discutir estas atribuições noutro nível. No nível das competências e habilidades que estão nas Diretrizes Curriculares nacionais dos cursos de graduação no Brasil, que deveriam estar nos Projetos Pedagógicos destes cursos e constam da caracterização do perfil de formação padrão dos egressos na Resolução 1010 do CONFEA.
    Para isto faremos uma reflexão sobre a formação em engenharia no contexto da teoria – prática e o conhecimento estrutura. A seguir trataremos das competências e habilidades no âmbito das Diretrizes Curriculares e nas formulações dadas pelos cursos.
    Será que estas competências estão visíveis nos Projetos Pedagógicos? Como estão impregnadas no dia a dia da vida escolar do estudante e da estudante de engenharia? Quais as responsabilidades do CONFEA na averiguação destas atribuições?
    No popular, a ideia é pegar no pé da escola e do CONFEA sobre esta questão, pois será uma oportunidade de discutirmos a melhoria da qualificação profissional de engenharia no Brasil.
     
     
    Um resumo do texto em forma de mapa (IHMC Cmap tools)
    
     
                Teoria - prática e o conhecimento estrutura

    "Experiência não é o que se fez, mas o que se faz com aquilo que se fez". Esta frase de Aldous Huxley nos dá o caminho para entender a relação teoria-prática. Agimos sobre os objetos e interagimos com eles e com as pessoas. A ação que leva ao êxito não é suficiente para produzir conhecimento. A ação que constrói conhecimento é aquela que se apropria dessa primeira ação que levou ao êxito (Becker, 2005). Esta segunda ação é a compreensão (teoria) da primeira ação (prática). Teoria não antecede a prática ou vice-versa. Teoria e prática têm uma relação dialética operando entre o todo e o específico, entre tese e a antítese, a interpenetração dos contrários e a negação da negação.
    Um exemplo: como aprendemos sobre o objeto transformador? Em aula desenhamos o transformador e explicamos os princípios físicos de funcionamento. O desenho é uma representação e portando conversamos baseados num símbolo. Em laboratório nos deparamos com o objeto concreto transformador. A experiência mostra o dispositivo operando e comprovando o analisado em aula. Houve aprendizagem? Não. Até aqui as ações não foram suficientes para a compreensão do objeto apesar do êxito nos passos anteriores. O estudante aprende quando passa para o segundo estágio da reflexão (ou abstração) sobre os acontecimentos. A relação de espiras versus relação de tensão entre primário e secundário, a corrente de magnetização e as perdas no núcleo serão compreendidas e apreendidas neste estágio. O todo e o específico serão parcialmente aprendidos. Porque parcialmente? Porque o conhecimento sobre o transformador será completado com o projeto, a construção e os testes de laboratório. Observe que há uma interdependência entre estes três estágios da aprendizagem: a aula, o experimento e o projeto. Como vimos a teoria e a prática estão inseparavelmente correlacionadas.
    Os currículos atuais de engenharia têm a predominância excessiva dos conteúdos. Não fazem referência ao processo de assimilação destes conteúdos. É a face conteudista do ensino tradicional presente na maioria dos projetos pedagógicos em engenharia. "O ideal da educação não é aprender ao máximo, maximizar os resultados, mas é antes de tudo aprender a aprender, é aprender a se desenvolver e aprender a continuar a se desenvolver depois da escola" . Deveríamos nos preocupar mais com o conhecimento-estrutura, isto é, o conhecimento construído que funciona como condição de assimilação de qualquer conteúdo. O objetivo não é estocar conteúdos que estão nos livros, mas a construção de estruturas cognitivas que visem o aumento da capacidade de aprendizagem. Neste contexto os conteúdos terão função instrumental e deixarão de ser um fim em si mesmo.
    Um colega professor visitou uma empresa de telecomunicações e procurou saber dos gerentes a atuação dos egressos de graduação de sua escola. Responderam que eram bons profissionais. Tinham boa formação nos conhecimentos específicos de telecomunicações e sabiam de computação, mas eram deficientes num quesito. Quando frente a um problema novo, inédito, mostravam-se inseguros e tinham dificuldades em enfrentá-lo. Os profissionais tinham bom conhecimento - conteúdo e deficientes quanto ao conhecimento - estrutura. Bons operadores, mas deficientes criadores de coisas.
     
    Diretrizes curriculares e estado atual do ensino em engenharia no Brasil
     
    A resolução CNE 11, de 11 de março de 2002 institui as Diretrizes Curriculares Nacionais dos cursos de graduação em engenharia no Brasil (CNE, 2002)). A formulação destas diretrizes teve a participação das escolas de engenharia e do CONFEA. Esta resolução diz nos Artigos 3º, 4º e 5º o seguinte:
    Art. 3º O Curso de Graduação em Engenharia tem como perfil do formando egresso/profissional o engenheiro, com formação generalista, humanista, crítica e reflexiva, capacitado a absorver e desenvolver novas tecnologias, estimulando a sua atuação crítica e criativa na identificação e resolução de problemas, considerando seus aspectos políticos, econômicos, sociais, ambientais e culturais, com visão ética e humanística, em atendimento às demandas da sociedade.
     
    Art. 4º A formação do engenheiro tem por objetivo dotar o profissional dos conhecimentos requeridos para o exercício das seguintes competências e habilidades gerais:
    I - aplicar conhecimentos matemáticos, científicos, tecnológicos e instrumentais à engenharia; II - projetar e conduzir experimentos e interpretar resultados; III - conceber, projetar e analisar sistemas, produtos e processos; IV - planejar, supervisionar, elaborar e coordenar projetos e serviços de engenharia; V - identificar, formular e resolver problemas de engenharia; VI - desenvolver e/ou utilizar novas ferramentas e técnicas; VI - supervisionar a operação e a manutenção de sistemas; VII - avaliar criticamente a operação e a manutenção de sistemas; VIII - comunicar-se eficientemente nas formas escrita, oral e gráfica; IX - atuar em equipes multidisciplinares; X - compreender e aplicar a ética e responsabilidade profissionais; XI - avaliar o impacto das atividades da engenharia no contexto social e ambiental; XII - avaliar a viabilidade econômica de projetos de engenharia; XIII - assumir a postura de permanente busca de atualização profissional.
     
    Art. 5º Cada curso de Engenharia deve possuir um projeto pedagógico que demonstre claramente como o conjunto das atividades previstas garantirá o perfil desejado de seu egresso e o desenvolvimento das competências e habilidades esperadas. Ênfase deve ser dada à necessidade de se reduzir o tempo em sala de aula, favorecendo o trabalho individual e em grupo dos estudantes.
     
    Competência é um conjunto de conhecimentos. Implica na mobilização dos conhecimentos e esquemas cognitivos necessários para desenvolver respostas inéditas, criativas, eficazes para problemas novos. Habilidades correspondem ao saber fazer relacionado à prática do trabalho mental. Exemplos de habilidades: identificar variáveis, compreender fenômenos, relacionar informações, sintetizar, correlacionar. As habilidades devem ser desenvolvidas na busca das competências que correspondem ao conjunto de habilidades harmonicamente desenvolvidas e que caracterizam uma função/profissão: ser arquiteto, ser professor de história, ser advogado, ser engenheiro.
     
    As competências e habilidades discriminadas no Artigo 4º das Diretrizes Curriculares sinalizam uma formação em engenharia para além dos conteúdos e dão margem à aquisição do que denominamos conhecimento estrutura.
     
    O nó górdio está na execução deste Artigo.
     
    Uma pergunta pertinente: como um curso de engenharia deve conceber um projeto pedagógico que demonstre claramente como o conjunto das atividades previstas garantirá o perfil desejado de seu egresso e o desenvolvimento das competências e habilidades esperadas?
     
    Uma resposta possível: na abordagem pedagógica adotada pelo curso. Vejo com dificuldades a implementação das competências e habilidades requeridas pelas Diretrizes Curriculares no interior de uma abordagem tradicional e/ou comportamentalista. Considero estas as duas abordagens predominantes no ensino de engenharia no Brasil.
     
    A abordagem tradicional privilegia a transmissão de conhecimento sendo o professor o polo transmissor e o estudante o polo receptor. Parte da premissa de que a inteligência ou qualquer outro nome dado à atividade mental seja uma faculdade de acumular e armazenar informações. A ênfase é dada às situações de sala de aula, onde os alunos são "instruídos" e "ensinados" pelo professor (Mizukami, 1986).
    Na abordagem comportamental ensinar consiste num arranjo e planejamento de contingências de reforço (realimentação) sob as quais o estudante aprende e é de responsabilidade do professor assegurar a aquisição do comportamento. Os comportamentos desejados para os alunos serão instalados e mantidos por condicionantes e reforçadores tais como: elogios, notas, prêmios, reconhecimentos do mestre e dos colegas, prestígios etc.
    Passei boa parte de minha vida profissional como educador no ambiente de ensino tradicional. E nele inserido. Nos últimos dez anos tenho feito uma crítica desta abordagem pedagógica e procurado alternativas metodológicas em que a postura do professor dê maior autonomia ao estudante no processo de aprendizagem. Alternativas em que o professor tenha mais o papel de orientador (e não irradiador de conhecimento) e o aluno o de pesquisador.
     
    De um modo geral nossos alunos pensam a aprendizagem como o estudar a teoria e fazer aplicações ou exercícios. Por outro lado tem-se uma intensa convivência cooperativa com os colegas. O ensino tradicional, em que o professor é o centro do processo, desconsidera formas de pensar baseadas na interação e na autonomia. Por que não utilizar de estratégias pedagógicas que aproveitem o modo natural de aprender centrado numa visão sistêmica e não fragmentada do conhecimento e façam dos estudantes os autores da produção deste conhecimento? Por que não utilizar estratégias em que a aprendizagem passaria a ser vista como um processo onde teoria e prática não se dissociam? (Cardoso, 2007)
    Algumas experiências pedagógicas inovadoras têm sido realizadas em alguns cursos de engenharia. Cito duas: a aprendizagem baseada em problemas e a metodologia de projetos. No departamento de Engenharia Elétrica da UFES, na área de telecomunicações, temos algumas experiências com a metodologia de projetos. Notadamente em eletromagnetismo.
    O projeto como metodologia, vista a partir de uma visão construtivista é centrada na cooperação, no interesse e na autonomia e se constitui num processo de integração e construção do conhecimento. Questões como projeto, planejamento, resolução de problemas reais de engenharia, comunicação, atuação em grupo, a síntese e a integração de conhecimentos formam um esboço de competências e habilidades fundamentais na discussão do novo perfil que desejamos para o profissional em engenharia. O projeto para aprender opera como uma iniciação ao projeto de engenharia visto nos períodos finais do curso.

    Na Tabela 1 abaixo apresentamos as visões diferenciadas de como as competências e habilidades são vistas na abordagem tradicional e na visão da metodologia de projetos.
     
     
     
    Tabela 1: As competências e habilidades das Diretrizes Curriculares
    nas abordagens por projetos e na abordagem tradicional
     
    As experiências pedagógicas citadas ainda são iniciativas isoladas de algumas disciplinas ou grupos de docentes. Não são ações do curso explicitadas no projeto pedagógico e implementadas no decorrer dos semestres letivos.
    Vale, finalmente, destacar o papel do estágio curricular e a formação humanista na formação em engenharia.
    O estágio é visto pela escola brasileira de engenharia como uma disciplina e não como uma complementação fundamental na formação. Deveria estar a serviço de aquisições importantes no âmbito do gerenciamento de projetos, das relações sociais no trabalho, da atuação em equipe, da viabilidade econômica dos projetos e os impactos das atividades de engenharia no contexto social e ambiental. Tenho consciência que isto será viável através de uma coordenação eficiente gerenciada pela escola e pela empresa.
    Quanto à formação humanística convém ressaltar que a inteligência, no sentido amplo, além das competências compreende o entendimento do meio em que estamos inseridos. E a partir daí ter uma visão crítica deste meio. De forma geral nossos alunos não leem jornal, não leem livros que não os livros técnicos e não participam de atividades sociais que não as baladas e festas. É muito pouco para a capacitação profissional em engenharia. Em conversas com estudantes e colegas da área de humanidades é comum se referirem aos engenheiros como pessoas que sabem fazer contas e que pensam nos limites das questões objetivas. Será que é esta a imagem que desejamos para a inteligência em engenharia?
     
    Colegas de trabalho na universidade se espantam com o fato de que nossos alunos e alunas não sabem escrever. A gramática está distante. Aprende-se a escrever lendo e escrevendo. A pergunta é: quando são solicitados a escrever durante 5 anos de curso? Nas provas escritas e nos relatórios de laboratório. Serão suficientes?
     
              A resolução 1010/2005 CONFEA
     
      A resolução 1010 do CONFEA diz que cada curso oferecido pela escola deve possuir um perfil profissional de conclusão próprio, com diferentes competências e habilidades determinadas em função das especificidades de cada região ou escola. E explicita nos anexos da resolução, sobre o cadastramento institucional:
      Informações dos cursos: Caracterização do perfil de formação padrão dos egressos de cada um dos cursos relacionados, com indicação das competências, habilidades e atitudes pretendidas.
      Projeto político pedagógico do curso: Caracterizando a estrutura curricular, mediante módulos, disciplinas e atividades, cargas horárias, bem como ementário, conteúdo programático e bibliografia básica, que devem levar ao perfil de formação desejado.
      Uma constatação relevante, no momento, é que nem a escola e nem o CONFEA explicitam o como identificar e implementar as competências e habilidades requeridas. E o mais delicado: como medir estes requisitos.
      Uma proposta de ação relevante atualmente: continuar a parceria escola / CONFEA criando espaços de discussão e formulando propostas que viabilizem estratégias de implantação das competências e habilidades nos cursos de engenharia. O CONFEA tem a experiência da prática profissional. A escola tem a experiência de formação profissional.

      Referências

      Becker, Fernando, "Um divisor de águas" Revista Viver: mente&cérebro, Coleção Mémória da Pedagogia, Segundo Duetto, 2005

      CNE, Resolução CNE/CES 11/2002. Diário Oficial da União, Brasília, 09/04/2002. Seção 1, p. 32.

      Mizukami, Maria da Graça, "Ensino: abordagens do processo", EPU, 1986

      Cardoso, P. Edson, "Projetos de aprendizagem mediados por ambientes virtuais no ensino de engenharia elétrica", Tese de doutoramento, PPGEE, UFES, 2007
       
       
     
 
 
 
 
 

 

 

 

 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 

domingo, 4 de maio de 2014

Sou escorpião, minha filha

"Mulher é a mãe, o resto é puta". Foi a última frase dita em vida por um sujeito chamado Tomé. Levou dois tiros na cabeça e morreu instantaneamente. Segundo a polícia as balas foram de uma pistola semiautomática, calibre 9 mm.

Antônio, conhecido como Tonho, terminou sua vida de matador assassinando o Édipo de nome Tomé. "Ora, quem diz tamanha besteira tem que morrer, né" disse mais tarde o matador.

Hoje, Tonho se encontra preso numa penitenciária no interior do estado de São Paulo. A uma jornalista que o entrevistou disse que seus crimes foram motivados pela raiva, pela ira.

Tonho foi criado no meio rural com as árvores, os passarinhos, répteis e feras, cada um conforme a sua espécie como diz a bíblia (Gênesis). Sempre entrou e saiu pela porta dos fundos, nunca pela porta principal. Sua mãe foi (e é até hoje) empregada doméstica. O pai trabalhador na roça. Roça dos outros. Empregado de patrão sovina.

Quando garoto Tonho teve contato com sua primeira arma: o estilingue. Mas o uso desta arma era para defesa contra outros garotos. Tonho nunca matou passarinho ou qualquer outro bicho. E nunca sofreu bullyng na escola. Sempre era visto com o estilingue na cintura e algumas pedras no bolso.

Quando jovem se deparou com a primeira arma de fogo. Uma 38 de um tio. Ficou vislumbrado e pensou: ah! xá comigo, um dia terei uma.

Não demorou. No Natal seguinte o tio presenteou Tonho com o vislumbre mortal.

Aos 18 anos Tonho saiu da roça e se mandou para uma cidade do interior paulista. Auxiliar de pedreiro foi seu primeiro emprego. Dava para as pingas. Nos dias de folga passava nos botecos e com as mulheres da zona. Lá conheceu Zirma, uma ruiva bonita e fogosa. Ficou encantado com a pistoleira, mas com um grilo na cabeça. "Zirma? De onde veio o teu nome, mulher?". Ela respondeu: "sei lá, meu pai era um maluco. Dizia que na época em que nasci estava lendo as aventuras de Marco Polo".

Zirma gostava de rodeio. E lá foram na festa do peão da cidade. Foi a primeira vez que Tonho assistiu uma montaria com boi bravo. Ficou chocado com a violência contra o animal. "Porra, além da corda na virilha o peão sangra o bicho na espora" pensou Tonho. Lembrou-se da avó, descendente de índio e benzedeira. Índio não maltrata bicho. Não deu outra. Antes dos 8 segundos de guerra entre os dois, peão e boi, o primeiro leva um tombo e caiu de cabeça na cerca de aço da arena. Venceu o boi. Tonho presenciou o peão todo encoberto de sangue. Morreu antes de chegar ao hospital.

Num sábado chuvoso de verão Tonho passeava pela cidade. Viu um sujeito com uma serra elétrica cortando um ipê-roxo. Ele conhecia árvore. "Ei, porque está cortando este ipê?" perguntou Tonho. "Sei não, pergunte ao meu chefe ali na frente". Resposta do chefe: "os vizinhos aqui da região reclamam que os passarinhos fazem bagunça nesta árvore logo cedo a partir das 6 horas da manhã". Tonho: "isto é um absurdo! Árvore é para isto mesmo, abrigar passarinho. Estes caras estão loucos!". Chefe: "olha aqui ô mané, quem é você para impedir meu serviço? Sai fora. E já". O sangue ferveu na cabeça de Tonho. Infelizmente portava na cintura uma 9 mm, 7+1. Aí foi um sapeca-iaiá. Em 10 segundos o corpo do chefe jazia morto no chão com uma bala na cabeça e outra no tórax.

Tonho se escafedeu. Abandonou a cidade, abandonou Zirma . Mandou-se para o interior de Minas Gerais.

Nesta cidade foi gari, servente de pedreiro e no final trabalhou numa padaria. Virou padeiro. Apesar de clandestino tinha vida tranquila. Ficou um tempão sem qualquer sapeca-iaiá.

Até um dia em que a ira de Tonho voltou.

Numa fila de banco a sua frente um sujeito barrigudo, camisa semiaberta, corrente Grumet dourada no pescoço e pulseira combinando no pulso, além de óculos Ray-ban. Conversava alto no celular. Ambiente fechado e fila interminável. Tonho conhecia o cara. Um chato de galocha. Depois de 20 minutos, a paciência foi pro espaço. Tonho se fez o porta-voz de todos e todas da fila. E disse ao sujeito: "ô meu, manera aí, tá todo mundo de saco cheio com esta merda de fila e você falando nessa altura! Conversa lá fora que eu guardo teu lugar na fila". A resposta, depois de o sujeito desligar o celular: "olha aqui, ô padeirinho de merda, quem é você pra me dizer o que tenho que fazer? Vá te catar, vai a merda!" E voltou a ligar o telefone. O sangue ferveu em Tonho. Ato contínuo tomou o aparelho da mão do cara, colocou no chão e pisou em cima destroçando todo. A turma da fila ficou estupefata. E o tempo fechou. Teve de tudo: rabo de arraia, gancho de direita, pé na moleira, joelhadas... No final o sujeito conseguiu, em cima de Tonho, esgana-lo. Aí não teve jeito. Tonho sacou da 9 mm. Tá lá o corpo do mastodonte estendido no chão ensanguentado com um tiro no olho e dois no peito.

Tonho se escafedeu de novo. Abandonou a cidade.

O assassinato do mastodonte foi o penúltimo cometido por Tonho. O último foi o do Édipo de nome Tomé. Neste não teve como escapar. Foi preso e se encontra num penitenciária do interior paulista.

A jornalista que o entrevistou quis saber mais. "Antônio, os crimes cometidos pelo senhor, que temos notícia, me parece que têm coisas em comum. Clareando: árvore e o passarinho, falta de educação no caso do celular e o machismo de "mulher é mãe o resto é puta". O que o senhor pensa disto?".

Tonho pensou 30 segundos e respondeu: "hoje estou beirando os 55 anos e já fiz muita besteira na vida. Porque matei? Sei não, mas você conhece a estória do escorpião e o sapo?" Após a negativa da jornalista, Tonho contou a estória.

Um escorpião aproximou-se de um sapo que estava na beira de um rio e lhe fez um pedido: "Amigo sapo, você poderia me carregar até a outra margem deste rio tão largo". O sapo respondeu: "Só se eu fosse louco! Você vai me picar e eu vou ficar paralisado e afundar". Disse o escorpião: "Isso é ridículo! Não tem lógica. Se eu o picasse, ambos afundaríamos e nos afogaríamos". Confiando na lógica do escorpião, o sapo concordou e levou o escorpião nas costas, nadando para atravessar o rio. Quando chegaram ao meio do rio, o escorpião cravou seu ferrão no sapo. Atingido pelo veneno, e já começando a afundar, o sapo voltou-se para o escorpião e perguntou: "Por que você fez isto? Agora nós dois vamos morrer. Que lógica é esta?" E o escorpião respondeu: "Eu sei, não tem lógica nenhuma. Sou um escorpião e esta é a minha natureza.".
 
 

E Tonho finalizou à jornalista: "Sou escorpião, minha filha".